Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
61 Ultimato de amor
Notas iniciais
As malas foram diretamente de encontro ao solo. Pan nem ao menos sabia como reagir; seus músculos haviam perdido a força com a surpresa daquele encontro tão repentino e inesperado. Quer dizer, em sua mente estava indo para uma desinteressante viagem de negócios com Diego e sua mãe, então jamais poderia imaginar que acabaria se reencontrando com o homem que há pouco descobrira amar.
Os olhos marejados e os joelhos fracos foram meras consequências da ocasião, porém tudo se tornara insignificante no segundo que seu corpo involuntariamente caminhara em passos rápidos até ele para envolvê-lo em um abraço caloroso. Era exatamente o que ela ansiara pelos últimos tempos; por aquele formigamento estranho na barriga que acordava dentro de si emoções que desconhecia, uma sensação tão estranha e, no entanto, tão familiar. Vê-lo à sua frente sanava parte de seu vazio interior e a fazia realizar o quanto sentira sua falta em todos os malditos dias em que estiveram separados.
— Você ficou com saudades de mim também, né, Fantasminha? Claro que ficou, eu sou seu melhor amigo. — Diego cortou todo o clima romântico, enfiando-se no meio de ambos para separá-los. Dada sua personalidade, jamais os permitiria agirem de maneira melosa à sua frente. Considerava um sacrilégio e, para ele, era divertido testar os limites do assassino. — Pode ficar tranquilo que eu já sei de tudo. A gatinha me contou os detalhes. — O puxou para perto de si e colocou o braço ao redor de seu ombro, entregando-lhe uma sacola. — Isso daí — apontou para o objeto entregue, dando-lhe duas batidinhas amistosas nas costas — é um presente meu, pra mostrar que estou do seu lado.
— Não, eu não fiquei. — Afastou-se bruscamente, botando um fim ao excesso de intimidade. Queria matá-lo por interferir em seu reencontro, contudo estava sendo gentil ao lhe dar um presente, então relevaria. — Bom, obrigado. É estranhamente educado da sua parte me dar um pre...— franziu o cenho e amaldiçoou a si mesmo por tê-lo levado a sério ao ver o conteúdo entregue. Uma expressão indignada tomou conta de seu rosto quando percebeu que ali continham inúmeros preservativos, atiçando sua fúria. O que esperar daquele cretino? Deveria ter desconfiado de uma pegadinha dessas. Ainda assim, achava curioso o fato de tê-lo ouvido dizer que sua amada lhe contara os "detalhes", pois isso insinuava ter acontecido algo entre eles sendo que, na realidade, nunca nem sequer cogitara tocá-la dessa forma. — Fora da minha casa. Agora. — Sentenciou impassível, devolvendo-lhe o pacote sem delicadeza nenhuma. Por sorte estava de bom humor.
— Mais de vinte anos e ainda agem como dois adolescentes. Quanta infantilidade. — Alice revirou os olhos, adentrando o recinto como se fosse sua própria casa. Parou em frente ao anfitrião e sussurrou: — Mas é melhor você realmente se responsabilizar pelo que fez com a minha filha se não quiser virar ração para os porcos da fazenda vizinha. Por sorte fui eu quem descobri primeiro, e não o Hans. — O tom saiu ameaçador, diferente da usual frieza daquela mulher. De qualquer forma, ele seguia sem entender o motivo de ambos estarem agindo como se houvesse profanado sexualmente a primogênita de seu antigo Don. Se o conheciam bem, deveriam saber que jamais seria capaz disso, certo? — Vamos embora, menino. Não sou tão paciente quanto o seu tio e não vou ficar te esperando fazer suas gracinhas. — Ordenou à Diego, antes de arrastá-lo em direção ao carro e finalmente dar à sua queridinha um pouco de privacidade necessária.
Hector suspirou cansado com todo o alvoroço da visita, aproximando-se da única pessoa que ansiava ver há tempos. Parte de si ainda não aceitava que era real; que ela de fato estava ali, tão linda, como o milagre que todas as noites pedia em suas preces para acontecer.
— Então não é um sonho. — Caminhou em direção à ela, sorrindo completamente sem rumo. Entre ter retirado a vida de uma velha amiga e reencontrar-se com seu primeiro e único amor, as emoções estavam bem agitadas. — Pan, eu... — esticou a mão para tocá-la, porém se conteve e recuou. Não sabia se tinha o direito de tocá-la após tanto tempo. — Só um minuto. — Murmurou, saindo rapidamente até o lado de fora para buscar as malas jogadas na terra e acomodá-las ao lado do pequeno sofá na sala principal. — Quer que eu reserve um hotel pra você? Nessa região dificilmente algum vai alcançar seus padrões, mas conheço um muito bom na cidade ao lado.
— É a primeira vez que a gente se encontra depois de meses e é só isso que você tem pra me dizer, Hec? — Fungou com força, esfregando o rosto e limpando as lágrimas intencionando melhorar a aparência. — Falando que vai reservar um hotel pra mim... você não me quer aqui? — Questionou em um timbre falho, recusando-se a sucumbir ao choro. Odiava o modo como ele parecia tão calmo com tudo enquanto ela se encontrava completamente em choque pela surpresa.
— Pan, eu sempre quero ter você comigo. — Ousou envolvê-la em seus braços com alguma força, deslizando uma das mãos por toda a extensão de suas costas até os cabelos vermelhos que tanto apreciava, afundando os dedos ali no intuito de apertar a cabeça dela contra seu peito. Ela surpreendeu-se ao ver o quanto seus batimentos estavam acelerados, e a velocidade parecia ter aumentado ainda mais com a proximidade entre eles. Não era a única alterada pelo reencontro, afinal. — Só Deus sabe o quanto eu sonhei em poder te segurar assim outra vez. — Decidiu ignorar todas as questões e se permitiu beijá-la levemente na testa, fechando os olhos, apreciando o perfume tão querido e nostálgico. — Te escutei falar para a Alice que preferia ir para um hotel. Sinto muito se te dei a impressão errada. — Comentou em um sussurro arrependido, apertando mais o abraço como se averiguasse a veracidade de sua existência, ainda sem acreditar que ela estava bem ali, na sua frente.
— Isso foi antes de saber que eu te encontraria aqui. — Retribuiu o gesto, completamente vulnerável, derrubando as defesas criadas pela podridão aflorada em si ultimamente. Ao menos perto desse homem dispensava cautela. Confiava nele cegamente, assassino ou não. — O papai mentiu pra mim de novo, mas dessa vez eu não vou reclamar. — Foi incapaz de esconder a felicidade transbordada em uma curva sincera nos lábios; um sorriso terno e confortável. Saber que possuía a bênção de seu querido pai para seguir em frente era a coisa mais importante do mundo para ela.
— Tem certeza? Não posso te oferecer uma vida digna e livre de preocupações ou compor músicas românticas e cantar ao vivo para o país todo escutar. — Fitou-a diretamente, sua voz angustiada enquanto diminuía a distância entre seus rostos. — Também não consigo me tornar um homem bom por você. A hora de voltar atrás é agora.
— Não quero voltar atrás. — Retrucou convicta, honesta e direta como de costume, satisfazendo-o com a resposta. — Você sabe que eu sempre gostei mais de coisas simples. Essas declarações chamativas nunca fizeram falta na minha vida. — Colocou-se na ponta dos pés, se empenhando para igualar suas alturas. Umedeceu os lábios e acrescentou em um cochicho: — Mas você sim me fez muita falta. E eu sou egoísta a ponto de não me importar se você é ruim com os outros, desde que continue sendo bom pra mim.
— Ah é? — Sorriu ladinamente de canto, sem conseguir desviar o olhar de sua boca, tão chamativa como se estivesse implorando para ser devorada; e ele queria muito ser o predador a fazê-lo. — E por que tanto egoísmo, senhorita Stracci? — Provocou, obrigando-a a dizer com todas as palavras.
"Porque no fim dessa provavelmente trágica história de amor, a princesa que desceu da torre percebeu que estava apaixonada por um assassino, e dessa vez, ela quem estava disposta a arriscar tudo por ele."
Essa afirmação passou em sua cabeça de forma que parecesse um filme de conto de fadas clichê e bobo, o sangue pulsava nas pontas de suas orelhas pelo excesso de nervosismo. Nunca fora do tipo tímida, mas algo na situação a transformava em um gatinho amedrontado. Titubeou, apertou os dedos contra os ombros dele e sussurrou:
— Porque eu também te amo.
Era a resposta que ele tanto ansiava ouvir, e aquelas palavras foram como um gatilho necessário para que cedesse aos próprios sentimentos com o coração leve, beijando-a com vontade. Tomou o controle, deslizou as mãos pelas coxas dela e a puxou para cima até que seus pés não tocassem mais o chão, sobrando como única opção entrelaçar as pernas ao redor de seu torço enquanto Hector contornava sensualmente o interior de sua boca com a língua, arrancando-lhe gemidos abafados que tanto sentia prazer em saborear.
Pan roçou as unhas contra sua nuca, imergindo na inebriante sensação de seu toque, daquele beijo desesperado que traduzia toda a saudade de ambos, que afervorava de maneira singular e trazia emoções que somente esse homem era capaz de lhe proporcionar. Um primeiro amor, para ambos os lados, cheio de promessas e juras eternas que dispensavam conversa. Se separaram brevemente e ela aproveitou para fitá-lo com luxúria, transmitindo seus desejos mais sujos através daquele olhar indiscreto e profundo. O queria. Muito. Talvez não possuísse noção alguma do que estava insinuando, ou talvez soubesse perfeitamente e só não queria aparentar ser uma depravada por comentar em voz alta.
Havia recém perdido a virgindade com um rapaz que simplesmente usara apenas como um fantoche, então pensava que possivelmente estivesse indo rápido demais. Ainda assim, quem estava contando? Não existia uma regra que a proibisse de sentir tesão, caramba. Ser inexperiente não era motivo para evitar seguir as próprias vontades, especialmente se encontrava-se tão ridiculamente atraída por cada mísero toque daquele homem em seu corpo.
— Hec... — chamou ávida, mordiscando-o sutilmente no lábio inferior, deixando escapar um longo arfar sôfrego cheio de desejos implícitos.
— Se você continuar me encarando assim, eu vou ficar louco. — A voz dele soou ofegante e banhada em lascívia quando apoiou suas testas uma contra a outra, lutando para se conter e não passar dos limites. Inferno, ela realmente o fazia perder a noção de certo e errado quando o mirava com esses olhos verdes. Nunca tivera pensamentos eróticos que a envolvessem. Seu amor de infância era puro, apesar de ser um criminoso, mas ela definitivamente dificultava as coisas quando agia dessa forma.
Ela diria um "essa é a intenção" e continuaria a incitá-lo, contudo algumas batidas incansáveis na porta que tentaram veemente ignorar de início interromperam o clima e quebraram-no por inteiro. Seria um fato que o destino nunca lhes daria paz para ficarem juntos? Caramba, desde o começo, quando ainda estavam descobrindo seus sentimentos um pelo outro, tudo parecia querer atrapalhá-los. Não restou muita opção à Hector senão amaldiçoar quem ousara interrompê-los, suspirando irritado antes de devolvê-la ao chão, ainda que à contragosto, e se prontificar a atender o infeliz que fosse.
— Não quero nem saber o que você estava fazendo com a minha filha pra ficar com a respiração pesada assim, mas eu vou fingir que não vi nada. Nós precisamos conversar. — Alice adentrou o chalé sem hesitação, cumprimentando brevemente sua queridinha antes de acomodar-se às pressas com Diego no sofá da sala.
— Como se importasse alguma merda o que eu estava ou não fazendo. Vocês dois entrariam de qualquer jeito. — Bufou incomodado, sem acreditar no retorno nada agradável das visitas indesejadas. — E então? Por qual motivo vocês voltaram a me incomodar? — Trancou a fechadura e juntou-se à eles, apesar da expressão carrancuda que não fizera questão de esconder.
— Bom, nós pretendíamos voltar só amanhã, mas algum lixo com dois neurônios na cabeça — fulminou-o com o olhar de cima à baixo, ciente de que era o responsável — matou a namorada do Romano e isso alarmou ele a ponto de adiantar o voo para amanhã à noite.
— Mesmo assim você deixou sua filha sozinha com esse "lixo", em um lugar que é usado como cemitério comunitário por quase todos os criminosos da região? — Esboçou um sorrisinho vitorioso, inclinando o corpo para frente como se a desafiasse. — Parece que você é uma péssima mãe, Alice. — Acrescentou ladinamente.
— Se vocês forem se matar agora, me avisem que vou pra um bar. — Diego interveio em tom de sarcasmo, tentando apaziguar a situação. Estava ciente de que, caso as coisas seguissem por esse rumo, alguém definitivamente acabaria machucado, porque aqueles dois não se suportavam como pessoas no dia-a-dia, apesar de reconhecerem a competência um do outro e já terem trabalhado juntos no passado. Possuíam personalidades muito fortes e contrastantes que não se batiam. — Mas eu concordo com a madrinha. Não tinha hora pior pra você bancar o cachorrinho leal do padrinho, fantasminha? — Suspirou cansado, já imaginando o trabalho que teriam pela frente. — Todo mundo já sabia da traição da Pietra, mas ela viva facilitaria as coisas. Eu deveria estar lá fora curtindo a vida, e não no meio de uma floresta cheia de cadáveres planejando assassinar um velho esquisito. — Reclamou.
— Devo minha vida ao Hans, mas eu não atuo mais sob o nome Stracci. — O observou como se declarasse não aceitar mais receber ordens de ninguém. — Se odeia meu jeito de fazer as coisas e quer tanto sair daqui, posso fazer as honras de te levar para o mesmo lugar que a Pietra. — Sentenciou seco, a paciência já no limite graças à pegadinha de mal gosto feita mais cedo.
— Podem parar de brigar, por favor? — Pan cortou sem rodeios toda a discussão problemática de forma sutil, embora inusitadamente imponente. Os três se surpreenderam com a entonação usada; a semelhança com o pai em certas ocasiões tornava-se inegável, e recentemente a essência dele estava presente em suas ações todo o tempo, embora ela não reparasse. — Não sei por que vocês trabalham juntos se não se suportam. — Acomodou-se ao lado do anfitrião, sinalizando que participaria da conversa também. Supostamente deveria estar em uma "viagem de negócios", certo?
— Não é por gosto, e sim por necessidade, querida. — Alice retrucou, forçando um sorrisinho cortês para esconder o usual cinismo estampado em sua face. Ao menos com sua filha empenhava-se em ser minimamente carinhosa. — São raras as pessoas em quem se possa confiar nesse ramo, então vez ou outra nós temos que nos juntar com alguns imbecis. — Terminou com os olhos fixos no assassino, agora permitindo transparecer seu escárnio.
Hector franziu a testa em desgosto, mas cedeu e ficou em silêncio. Era maduro e treinado o suficiente para não se deixar levar por implicações baratas, e acima de tudo estava de bom humor. Nada estragaria seu dia, porque agora possuía sua amada de volta ao seu lado.
— Agora vai ser complicado pegar o cara desprevenido. — Diego suspirou exausto, já imaginando o trabalho que teria pela frente. Coçou a cabeça, ponderando as possibilidades e logo cessou os movimentos, levantando as sobrancelhas em direção à filha de seu padrinho, encarando-a interessado. — A não ser que...
— Não. — Hector a colocou abaixo de seu ombro em um instinto protetor, esboçando seu descontentamento com a ideia de envolvê-la nos negócios. — Pode esquecer. Ela não tem experiência nenhuma, e se não se lembra, o rosto dela é conhecido por todos os figurões do submundo. Todo mundo sabe que ela é filha do Don Stracci.
— Eles sabem de quem ela é filha, mas não conhecem a personalidade dela. O máximo de informação que eles têm são as coisas que vazaram no caso do Vincenzo, ou seja, que ela ficou dez anos presa em casa e que teve um suposto caso romântico com o braço direito do pai. — Voltou a analisá-la com calma, percebendo que ela não parecia se importar muito em ser envolvida nos planos. Bom, se era capaz de namorar um assassino, provavelmente estaria disposta a se sujar também, certo? — A decisão de se envolver ou não é sua, gatinha. — Deu um ultimato, aumentando a tensão no ar. Voluntariamente ou não, encontravam-se curiosos com a resposta.
— Ele não vai estranhar se eu chegar perto sendo filha do maior inimigo dele? — Questionou cautelosa.
— O Ezio é um velho egocêntrico. Ele gosta de mulheres bonitas que possam servir como troféu. — Alice retrucou, achando graça em poder debater sobre o trabalho com sua primogênita. Como sempre fora muito perceptiva, enxergava as mudanças gritantes no olhar e na aura ao redor dela; sua menininha havia se tornado uma mulher excepcional. De certa forma ficava intrigada em ver como ela agiria diante dessa situação. — E que troféu melhor para sair exibindo do que a filha do homem com quem ele está em guerra?
— E você não precisa fazer nada além de conseguir informação. — Diego apoiou o celular na mesinha de centro, em frente à ela, demonstrando uma foto do suposto alvo que deveria ser abordado. — Esse é o cara. Ele odeia o padrinho, e especialmente o seu namorado com todas as forças. — Aproveitou para lançar uma provocação sutil ao casal. Tinha plena consciência de que ambos não tiveram tempo o suficiente para discutir a relação, portanto irritá-los com isso o deixava feliz. Era como uma missão cumprida, especialmente se o anfitrião esboçava uma expressão tão divertida todas as vezes que o incomodava. — Como a madrinha disse, ele tem um fraco por mulheres bonitas e dependentes, então se você implorar por ajuda dizendo que o relacionamento não deu certo e que agora você quer matar o fantasminha... — aqui uma risadinha inevitável escapou de seus lábios, e ele necessitou pigarrear para se recompor — por ter te traído, então ele vai te acolher. — Alegou esperançoso, desejando que a sugestão fosse aceita e finalmente pudessem seguir em frente com os planos, adiantando a data de sua volta para casa.
— Não faz isso. É muito perigoso. — Hector interveio, segurando-a carinhosamente na mão, acariciando-a com o polegar, torcendo que optasse por não se meter no meio dessa sujeira toda. — O Ezio não tem limites. Ele é o tipo de sujeito que conquista tudo através da força, e eu não vou estar do seu lado pra te proteger. Se ele se aproveitar de você, eu... — respirou fundo, cerrando os punhos para conter a raiva da própria imaginação e interromper sua fala antes que começasse a praguejar descontroladamente em voz alta. Sequer ponderar as mãos sujas de alguém tocando sua amada sem consentimento lhe fervia o sangue. Essa experiência traumática ela infelizmente já teve no passado, e tudo o que ele definitivamente não queria era vê-la sofrendo novamente.
Pan devolveu o afago, dando-lhe um leve beijo nos dedos como se dissesse que tudo ficaria bem. Respirou fundo e pensou nas palavras bonitas que dissera mais cedo; nas promessas de que, dessa vez, seria aquela a se arriscar por ele. Recuar e agir como uma medrosa incapaz de cumprir uma simples função de recolher informações só tornaria suas juras vazias e demonstraria que não estava pronta para carregar o fardo de namorar um criminoso. Não voltaria a ser a mesma fraca dependente de sempre, e sendo assim, só lhe restava a opção de concordar.
— Eu faço, não tem problema. — Assentiu, sua entonação neutra na medida do possível. — É só um conversa com algum velho perigoso, e se for levar em conta todo mundo que vive comigo, então a experiência eu já tenho. — Curvou os lábios em uma risadinha descontraída, se esforçando para esconder o quanto estava aflita. Sua tarefa parecia simples, contudo sabia que qualquer falha poderia custar sua vida, porque estaria sozinha e desarmada em um quarto com um indivíduo que presumivelmente não aceitaria "não" como resposta para o que fosse, e não estava disposta a entregar-lhe nada além de um mero diálogo.
Primeiro porque estava comprometida.
Segundo porque era o maior inimigo de seu pai.
E terceiro porque Ezio Romano era desprezível, do tipo que resolvia tudo à base da força ou do dinheiro. Sequer imaginar ser tocada por ele lhe trazia um gosto amargo de vômito na garganta e memórias nada agradáveis da época em que conhecera Ethan. Cada pelo de seu corpo arrepiava simplesmente em pensar nessa possibilidade.
Ela sobressaltou ao ser tão bruscamente retirada de seu mundinho imaginário pelo toque de um celular, segurando o peito ao ter a sensação de que o coração sairia pela boca a qualquer segundo. Olhou para o lado e percebeu que era o telefone de Alice, logo vendo-a pedir licença e se dirigir até o carro para atender em privado após ver o nome do marido na tela.
— Pan, tem outros jeitos de lidar com isso. — Hector voltou a entrelaçar seus dedos nos dela, lutando para acalmá-la ainda que minimamente. — Não precisa se envolver.
— Mas eu quero me envolver. — Apertou a mão dele com alguma firmeza, assegurando-lhe de que havia tomado uma decisão final. — Vai ficar tudo bem. — Reafirmou.
Ele grunhiu insatisfeito, mas assentiu. As pupilas dilatadas como as de um cachorrinho abandonado e perdido o instigavam a confortá-la com um abraço, porém não o faria. Não o faria por que estava convicta em demonstrar coragem, em esconder o quanto estava transtornada, amedrontada, e se a segurasse em seus braços agora, ela provavelmente desabaria.
Bom, seus temores eram justificáveis. Depois de tudo, dava para compreender perfeitamente o motivo de seus traumas em ficar sozinha com um desconhecido em um quarto fechado, especialmente se, em teoria, existia a necessidade de seduzi-lo para arrancar-lhe informações.
— Vai ter um revólver no quarto por precaução. — Levantou-se em direção à uma das estantes na sala, pegando uma das armas ali guardadas e assegurando-se de que estava travada antes de entregar à ela. — Vou te ensinar a destravar e puxar o gatilho só por segurança. Não precisa matar ele, mas o Ezio não te conhece. Duvido que ele ache que a filha de um Don não sabe nem ao menos atirar, então se for minimamente esperto ele vai recuar só de te ver destravando a arma. — Comentou ternamente, acariciando-a na bochecha com o polegar. Sua mente ainda se recordava daquela garota frágil de anos atrás, que chorava com medo dos relâmpagos à meia-noite e escondia-se entre as cobertas da sala para assistir desenho escondida pela madrugada, porém o semblante convicto e amadurecido que ela agora esboçava o obrigava a perceber que não eram mais a mesma pessoa.
Pan balançou a cabeça afirmativamente, deixando-o menos preocupado. Obviamente não tiraria a vida de alguém se não fosse estritamente necessário, contudo aprender a se defender também não lhe custava nada. Já tinha ciência de que o mundo não era lá um lugar tão cor-de-rosa, e portanto, às vezes sacrifícios eram necessários. Algumas almas ficariam melhores descansando no inferno ao invés de simplesmente vagando por aí distribuindo o caos.
— Os guardas do Ezio vão revistar o quarto antes dele subir, mas assim que eles saírem, nós vamos dar um jeito de colocar a arma lá. — Diego explicou enquanto se espreguiçava. Por mais incrível que fosse, ele realmente possuía imensa responsabilidade se tratando de trabalho. Sempre concluía suas funções com êxito, embora fosse jovem e despretensioso. — Ela vai estar embaixo do travesseiro no lado direito da sua cama. — Fitou-a diretamente, olhos nos olhos, entreluzindo seriedade. — Lado direito. Não esquece. — Repetiu, e ela concordou prontamente.
— Hector. — A voz de Alice soou mais fria do que nunca ao chamá-lo encostada na porta, sinalizando a necessidade de uma conversa particular.
— Eu já volto, mia principessa. — Pediu licença à sua amada, sutilmente beijando-a na testa com ternura e lançando um olhar ameaçador ao outro ali presente antes de sair do chalé.
Pan aproveitou a brecha para ir até a cozinha buscar um pouco de água. Com tantas coisas ocorrendo ao mesmo tempo, mal tiver a a oportunidade de se hidratar, e com o maldito frio que fazia do lado de fora, a pele começava a sentir o efeito da falta de cuidados. Voltou para a sala com um copo em mãos e se deparou com vestes femininas que lhe pareciam muito familiares espalhadas pelo sofá, percebendo suas malas completamente escancaradas no chão e as coisas bagunçadas.
— Vem cá, gatinha... — Diego avizinhou-se sorrateiramente, segurando algumas roupas suas. — Você não trouxe nada menos confortável? Tipo, nada que não se pareça com um pijama de velha ou uniforme de esqui? — Livrou-se dos agasalhos chamativos que segurava ao arremessá-los desdenhosamente nas almofadas, encarando-a incrédulo. — Você vai tentar seduzir um cara usando isso aqui? — Segurou entre os dedos uma das roupas íntimas com estampa de abacaxi, incapaz de conter a risada maliciosa.
— Como assim? Não acha que o grandioso Ezio Romano vai gostar da minha calcinha? — Pegou o objeto em mãos, atuando como se estivessem em uma exposição de arte, alimentando a brincadeira. — Se essa finíssima peça não te agrada, tem a de ursinhos também. — Ofereceu, apanhando uma em cada mão para demonstrá-las.
Ambos mal conseguiam respirar pelo excesso de gargalhadas. Adoravam a relação descontraída que possuíam, porque não existia timidez para nenhuma das partes e isso era agradável; poderiam ser eles mesmos sem restrições, julgamentos ou mentiras.
— Vocês estão se divertindo aqui, pelo visto. — Alice retornou analisando os itens espalhados pelo cômodo, fazendo os responsáveis congelarem de modo que parecessem dois criminosos pegos no flagra.
— Seu telefone. — Hector rapidamente a seguiu no intuito de devolver o aparelho, surpreendendo-se com a mudança tão repentina na decoração interior de sua casa. Não teve muito tempo para assimilar o ocorrido, no entanto. Em questão de segundos, ao colocar os pés para dentro, duas almofadas voaram em sua direção, deixando-o atordoado enquanto rumorejava insultos desconhecidos.
Pan e Diego entreolharam-se cúmplices, percebendo que tiveram a mesma reação. Quer dizer, ainda estavam desfilando por aí com as lingeries de estampas duvidosas, caramba. Uma coisa era a zombaria entre eles, porém estava fora de cogitação permitir que aquele homem as visse. Ela nem mesmo fazia o tipo envergonhada, mas as bochechas queimaram somente com a possibilidade de tê-lo vendo suas calcinhas toscas, nada adequadas para as circunstâncias atuais.
Inferno. Qual o problema de prezar pelas peças confortáveis ao invés das sensuais de renda? Tecnicamente a informação passada era que iria para uma viagem chata de trabalho com sua mãe e o sobrinho do conselheiro, então não existia motivo para se arrumar toda.
Nota mental para o futuro: sempre se preparar para todo tipo de ocasião.
— Guerra de travesseiros. — Pan disfarçou cínica, fechando apressadamente o zíper das malas, fingindo que nada acontecera. O colega de crime começou a rir incansavelmente, achando graça da expressão do assassino que os fitava sem entender o motivo de ter sido subitamente atacado por uma chuva de almofadas. — Enfim... — pigarreou constrangida, desviando o tópico da conversa — eu só trouxe roupas de frio, porque não sei se você esqueceu, mas depois de amanhã já é natal. Se eu usar vestidos colados vou congelar.
— Tem como ficar quentinha e sexy ao mesmo tempo. — Puxou-a para perto de si, propositalmente irritando o anfitrião ao ousar deslizar as mãos por sua cintura, delineando as curvas. — O Ezio é um velho de gostos refinados que gosta de curvas, gatinha, então vamos mostrar as suas pra ele, porque eu não quero mesmo ter que viajar pra Vegas no natal e arrumar problemas com as famiglias de lá só pra perseguir esse cara.
— Arrumar problemas? Por quê? — Questionou intrigada.
— Em uma das últimas reuniões, os Dons das grandes famiglias concordaram em manter a violência longe de Vegas. — Hector prontificou-se a responder, interferindo no excesso de contato entre eles. Se olhar pudesse matar, o outro rapaz se encontraria enterrado por ter sido imbecil o suficiente a ponto de tocá-la somente para incomodá-lo. — O entretenimento lá é uma das maiores fontes de lucro dos negócios, mas as guerras afastam os clientes e diminuem o dinheiro ganho. Ninguém quer ser prejudicado por brigas pessoais.
— Por causa disso vocês precisam...
— Sim, nós precisamos que ele morra aqui, antes de pegar o voo. — Alice completou; seu semblante exausto e nada amigável. — Preciso fazer uma viagem rápida para me encontrar com alguém em nome do seu pai, querida, mas eu volto em dois dias. — Abraçou-a com uma certa dose de carinho, na medida do possível e se afastou com pressa. Se não conhecessem aquela mulher, até achariam a cena bonitinha. — Você tem o meu sangue e do seu pai. Tenho certeza que dá conta do recado. — Desviou o olhar à ambos os rapazes, esbanjando escárnio ao curvar a boca em um sorriso fechado. — Apesar da companhia não ser das melhores. — Alegou.
Eles ignoraram o insulto, um friamente e o outro dando de ombros com uma risadinha amarela. De qualquer forma, a filha evitou a briga ao se despedir antes de permitir qualquer resposta das partes ofendidas, vendo-a partir rumo ao aeroporto em um táxi. Felizmente, os três aproveitariam do conforto de ter um carro naquela pequena cidade gélida, e tendo isso em mente, Diego insistiu que fossem até as lojas de grife no centro da cidade, batendo na mesma tecla da importância de comprar roupas adequadas para o encontro com Ezio.
Honestamente? Não estava enganando ninguém. Todos sabiam perfeitamente que era apenas um pretexto para não ter sido arrastado com sua madrinha; queria demonstrar utilidade em ficar para trás. Ao menos Pan encontrava-se extasiada pela beleza das decorações natalinas à medida que caminhavam, alegre em poder ficar de mãos dadas com Hector sem proibições. Talvez parecesse estúpido após tantas coisas, mas esses pequenos gestos de casal faziam seu coração palpitar.
— Quer entrar? — Diego sussurrou à ela, apontando para uma butique de lingerie pela qual estavam passando, obrigando-a a se recordar da ocorrência vergonhosa de mais cedo e concordar instantaneamente com uma das mãos na testa, adentrando o recinto sem vontade alguma de reviver o sentimento vergonhoso. Pelo amor de Deus, né? Seduzir o velho era uma coisa à parte, que se dane isso, mas se tinha pretensões de retirar as roupas na frente do homem ao seu lado, definitivamente não o faria utilizando uma estampa de abacaxi. — Ei. — Segurou o ombro do assassino, sinalizando que ela fosse na frente. Quando finalmente sozinhos, acrescentou: — Cuida dela. Eu volto amanhã pela manhã.
— Aonde você vai? — Indagou desconfiado. — Os Stracci não têm poder nenhum aqui, então é melhor não arrumar problemas para me fazer resolver depois.
— Fica tranquilo, eu sei me cuidar. — Declarou orgulhoso, e o outro simplesmente arqueou as sobrancelhas como se dissesse "quem foi mesmo que me obrigou a sair do meio de uma reunião para esconder um cadáver em uma festa de adolescentes?" — Tá, talvez eu não saiba tanto assim, mas não vou ficar aqui segurando vela. Boa sorte, Fantasminha. — Piscou marotamente, sumindo entre a multidão antes de ser detido.
Hector apenas suspirou cansado e relevou. De certa forma estava aliviado por ter se livrado do rapaz, porque agora teria finalmente um momento para aproveitar com sua amada. Caminhou para o interior da loja em busca dela, afrouxando o sobretudo para se adaptar à temperatura mais amena do recinto.
— Boa tarde, senhor, posso ajudar? — Uma das vendedoras o recebeu cortesmente, sendo até um tanto invasiva pela falta de espaço pessoal ao se avizinhar.
Ele limpou a garganta e deu um passo para trás, impondo limites.
— Estou procurando uma mulher de cabelos vermelhos que entrou aqui. — Disse seco, e ela recuou.
— Ah, sim, ela está no provador ali à direita. — Apontou a direção e continuou: — Se quiser, pode aguardar nas poltronas que ficam bem em frente.
— Obrigado. — Agradeceu prontamente e seguiu as recomendações, acomodando-se nos assentos para esperar sua acompanhante.
— Diego, eu vou precisar da sua opinião como especialista nessas coisas, porque sinceramente... — a voz de Pan fez-se audível junto à abertura da cortina, e em um instante, ela estava com os pés descalços para fora do vestiário, trajada em nada além de um simples conjunto preto e sensual de renda que, francamente, se poderia afirmar estar nua pois nada cobria além de muito pouco suas partes íntimas. — Ué, cadê ele? — Rumorejou sozinha, buscando-o pelo salão.
A expressão de Hector se fechou em um semblante enigmático banhado em frieza; seus olhos nebulosos traziam consigo o aviso de uma tempestade enquanto se aproximavam dela em passos pesados, embora lentos.
— Para dentro. Agora. — Soou autoritário, empurrando-a de volta com o próprio corpo e aproveitando para acompanhá-la, fechando-os ali.
— Hec? — Balbuciou estremecida, sentindo alguns calafrios percorrerem o caminho de sua espinha ao ser prensada contra a parede e encurralada pelo braço dele acima de sua cabeça. O aroma de tabaco tão familiar trazia uma sensação calorosa de segurança, mas seu olhar impassível e fulminante gerava um alerta de perigo em seu interior; um perigo que faria qualquer outra pessoa se amedrontar, então por que aquilo a excitava tanto à ponto de descompassar suas batidas?
A forma como o assassino segurou suavemente seu queixo com a outra mão e obrigou seus olhos a se encontrarem apenas aumentou a tensão. Existia uma eletricidade quase palpável naquele silêncio turbulento que a intrigava.
— Você me enlouquece. — Rosnou, decorando com o tato do polegar cada centímetro da bochecha dela, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. — Aparece na minha frente depois de meses, completamente diferente da mulher que eu me lembrava, e em poucas horas quer desfilar assim na frente de outro homem... — cerrou os dentes, contendo um suspiro longo — o que você quer de mim, Pan? Isso é só mais um dos seus joguinhos para me tirar do sério?
Ah, aquela expressão. Ela odiava aquela expressão. Uma mistura de decepção, mágoas e uma luta tremenda para esconder o que realmente estava sentindo; era essa a expressão que Hector sempre fazia quando ela o machucava, ainda que sem intenção. Nunca sabia como reagir diante disso, e menos ainda agora que estavam juntos.
— O Romano vai me ver assim, não vai? — Comentou despretensiosa, apertando os dedos uns contra os outros. Somente dizer isso em voz alta lhe causava tremores internos.
— As chances são altas. Ele trata as mulheres como lixo. É por isso que eu não queria te ver envolvida nessa sujeira. — Cerrou os punhos, respirando fundo para manter a calma. Perdia a razão por meramente ponderar a possibilidade de um cretino relando nela sem permissão.
— Fui eu quem decidi me envolver. — Voltou a tocar no ponto de que era uma decisão sua, e apenas sua. — Vocês mesmos disseram que se isso não fosse resolvido amanhã ficaria mais complicado. — Apoiou a mão acima da dele, fazendo-o amaciar as feições severas. — É um preço baixo pra pagar, se isso vai evitar mais problemas pra você e pro papai. — Aqui sua entonação escapou minimamente trêmula, evidenciando o quanto estava apavorada.
— É um preço alto. Muito alto. — Retrucou frustrado, a voz rouca e grave já cheia de dúvidas. Repudiava vê-la se sacrificar por um erro seu, inferno. — Só de pensar naquele desgraçado olhando pra você assim...
— Ele não vai. — Assegurou, tentando acalmá-lo. Quem diria que chegaria o dia aonde os papéis se inverteriam e seria ela a limpar a sujeira dele? — Eu vou embora se ele exagerar. Prometo. — Insistiu, apesar de ambos terem noção de que não passavam de juras vazias. — E sobre antes, o Diego não tem esse tipo de interesse em mim. Ele nunca tentaria... — engoliu seco, jogando de volta as palavras para o fundo de sua garganta. Não terminaria a frase. Não tinha coragem o suficiente para terminá-la, porque as memórias desagradáveis transformariam seu dia feliz em um péssimo.
— Você se engana muito sobre o Diego. Ele está longe de ser um santo, e mesmo que fosse... — a inspecionou por completo, umedecendo involuntariamente os lábios ao apreciar a silhueta seminua. Deslizou um dos dedos por seu pescoço, parando na alça do sutiã, abaixando o rosto para sutilmente beijá-la ali. — Eu garanto que não existe um homem sequer nesse mundo que ficaria indiferente ao te ver assim.
— E você? — Perguntou manhosa, brincando com o colarinho da camisa dele, achando injusto ser a única com o coração acelerado.
— Estou incluso, em primeiro lugar nessa lista. — Confirmou. — Meu amor começou na infância, então a parte sexual jamais tinha passado pela minha cabeça até essa manhã, quando te vi me olhar daquele jeito. — Voltou a beijá-la no pescoço, apreciando o aroma do perfume bem conhecido. — E agora, aqui, te vendo assim na minha frente. Se você conseguisse, só por um segundo, entrar dentro da minha cabeça e ver as coisas que estou com vontade de fazer com você agora... — engoliu seco; os punhos fechados como se estivesse passando por um sofrimento insuportável. — De qualquer forma, não sou um animal descontrolado. Nunca te tocaria sem o seu consentimento.
— Ou você só não tem coragem de continuar o que a gente começou mais cedo. — Colocou os braços em sua nuca, diminuindo mais a distância entre seus corpos. Adorava os arrepios causados quando o sentia respirar perto de si.
A boca de Hector se abriu em uma curva ladina.
— Muito engraçadinha, mas me provocar não é recomendado, senhorita Stracci. — Desceu ainda mais, tocando-lhe a clavícula com os lábios, aproveitando para acrescentar alguns tons de vermelho à pele pálida. Em um sussurro rouco e grave acrescentou: — A não ser que esteja preparada para as consequências.
Preparada? Definitivamente não, contudo a curiosidade falava mais alto. Ele sempre fora tão contido e respeitoso que aquele seu lado voraz era uma novidade e tanto, porém no fundo, sabia perfeitamente o quanto ansiava para conhecer mais e mais dessa sua parte insaciável.
— Hec... — o beijou com vontade, sentindo-o deslizar os dedos por suas coxas, causando-lhe arrepios que logo se transformaram em involuntários gemidos abafados ao ser tão repentinamente massageada sobre o tecido da calcinha que nada cobria. A sensação era a mesma de não usar nada, honestamente.
— Ficando tão molhada assim antes mesmo de eu te tocar... — soltou uma risadinha maliciosa — te excita tanto imaginar as coisas que eu poderia fazer com você aqui, nesse provador?
Pan estremeceu, perdendo boa parte da firmeza nos músculos inferiores de seu corpo ardente e cobiçoso enquanto demonstrava uma expressão depravada e minimamente confiante, obrigando-o a respirar fundo para seguir mantendo a calma. Droga, por que toda e qualquer mínima reação dela o alterava de uma forma tão intensa? Não que fosse uma via de mão única, obviamente. Ela mesma nunca havia dado muita atenção para seu idioma de nascença, porém o sotaque siciliano bem marcado naquela voz grossa ao ouvi-lo sussurrar palavras sujas em seu ouvido parecia tão atraente e sensual que poderia facilmente imaginar-se perdendo a sanidade e se entregando por completo àquele homem ali mesmo, em um local público.
Sentia-se suja por estar tão rendida aos encantos dessa sua nova personalidade dominadora a ponto de permitir-se ser masturbada em um cubículo aonde tudo que os separava dos olhares da multidão era uma fina cortina, mas como poderia sequer pedir-lhe para parar se tudo o que se passava na sua cabeça era implorar por mais?
— As peças estão dando certo? Gostaria de ver mais alguma? — A atendente os surpreendeu pelo outro lado da cortina. — Senhorita? — Insistiu, preocupada com a falta de resposta.
Ambos já haviam se esquecido de que, tecnicamente, estavam ali como clientes da loja. Pan mordeu o interior das bochechas, contendo os arfares mais pesados, afundando as unhas contra os ombros dele.
— É melhor falar alguma coisa. — Hector murmurou achando graça, intensificando os movimentos circulares dos dedos para aumentar o sofrimento dela, que mal conseguia conter os gemidos. — Se ela entrar aqui nós vamos ter problemas. — Brincou, esboçando um sorrisinho completamente atípico, sedutor e maldoso que ela jamais havia visto.
A temperatura aumentou e Pan se obrigou a engolir seco. Precisava manter a compostura; precisava reorganizar as ideias e se impor rapidamente antes que fossem detidos por desacato ao pudor, mas caramba, ele não parecia querer facilitar.
Respirou fundo, esvaziou a mente e se empenhou em ignorar o quão era delicioso o toque dele. Cada movimento intensificava seu tesão e a pressão contida naquele espaço mísero aonde estavam colados um no outro era palpável. A adrenalina da situação perigosa fazia seu sangue ferver em excitação.
— Sim, tudo bem. — Com muita dificuldade manteve o timbre tranquilo e minimamente afoito, disfarçando o próprio estado. Prendeu o fôlego com a onda quente passando em seu corpo até a ponta dos pés, arqueando os dedões, percebendo os músculos inferiores atrofiarem temporariamente de forma que a obrigassem a se apoiar contra Hector, afundando os dedos contra a camisa dele como se o punisse por lhe fazer ter um orgasmo ali. — Na verdade, te incomoda se eu pedir um chá quente? Tá um pouco frio hoje. — Mentiu. Seu interior estava borbulhando a ponto de avermelhar suas bochechas, mas ao menos ficara orgulhosa de si por não ter sucumbido às provocações dele.
— Vou buscar e volto em um segundo. — Retrucou educada, retirando-se prontamente. Quando o som dos saltos altos sumiu por completo no recinto, comprovaram que estavam sozinhos.
Era a brecha que precisavam. O casal trocou um olhar cúmplice e o assassino decidiu deixá-la para se vestir, embora contra sua vontade. Cogitou seriamente a ideia de devorá-la ali mesmo, mas a conhecia bem e tinha noção de que isso ultrapassaria os limites, ao menos por enquanto. Finalmente havia conquistado o coração de sua amada e não colocaria tudo a perder por simples desejos luxuriosos, conquanto ela também ansiasse pelo contato físico. Se conteria mais algumas horas, dias ou meses se necessário. Para alguém que esperou tanto tempo, não custava nada.
Pan sentou-se em uma das poltronas e degustou seu chá enquanto esperava até que todas as peças provadas fossem pagas; em parte por ter se sentido culpada pelo ato no provador, e especialmente pelo fato de ter sujado uma delas e não ter vontade alguma de retorná-la daquela forma. Saíram de mãos dadas pelo centro, admirando o clima natalino pelas ruas e a felicidade estampada no rosto de todos os moradores da cidade. Uma época muito querida por todos ali, porque boa parte da população era de idosos e pessoas humildes que trabalhavam nas fazendas e não possuíam nada divertido para fazer no dia-a-dia. Bom, na realidade, o que Hector estava realmente apreciando era o fato de não ter que esconder suas emoções perto da mulher ao seu lado. Poder caminhar livremente de mãos dadas com ela lhe dava uma sensação de liberdade imensurável.
— O que é aquilo ali? — A voz dela soou interessada enquanto encarava fixamente um evento barulhento, aparentemente muito colorido e iluminado. Existia uma música de fundo; um toque familiar. As crianças perambulavam alegres pelo perímetro e até os adultos pareciam despreocupados. — Um parque?
— Ah, é o festival de natal que os moradores locais organizaram. — Os olhos seguiram os dela, parando no mesmo ambiente vívido. — Me convidaram para ajudar em uma das barracas, mas eu recusei. — Sorriu de canto, demonstrando certo alívio; uma expressão pacífica e terna. — Eles são bem unidos e cuidadosos. Semana passada descobriram que fiquei gripado e colocaram um prato de sopa na minha janela pela manhã, sem nem me conhecerem. — Soltou uma risadinha abafada, que diferente do usual, não fez questão de esconder; ali podia agir como um sujeito normal de vinte e poucos anos, e não como o assassino perfeito, subordinado de Don Stracci.
— Que gracinha. — Comentou meiga, e fora inevitável que a boca também se curvasse em um sorriso. O próprio ar da cidade transbordava alegria. — Por que você não quis ajudar no festival? Você sempre foi bom em negociar vendas. Sempre pensei que você, o papai e o tio Sandro pudessem vender até pneus furados a preço de novos.
— Isso e aquilo são coisas diferentes, mia principessa. — A trouxe mais para perto e selou brevemente seus lábios em um beijinho rápido e caloroso, antes de emoldurar seu rosto e acrescentar em um murmúrio: — Nós somos bons negociando através de manipulações. As pessoas aqui são boas demais comigo, não quero corromper esse lugar com mentiras.
Os olhos dela estreitaram-se carinhosamente em orgulho. Amava muito aquele seu lado humano que normalmente se empenhava em esconder. Era como se fosse um segredo entre eles; sentia-se honrada por ser a única com quem ele ficava confortável para mostrar sua verdadeira natureza, seja essa a voraz, sedutora e faminta do provador ou então a dócil, altruísta e preocupada com a qual estava acostumada desde sua infância.
Amava todas as suas partes e não abriria mão de nenhuma sequer, nem mesmo das ruins.
— Se o papai te conhecesse como eu conheço, ele não poderia mais falar que você não é bom o suficiente pra mim. — Entrelaçou os dedos nos dele uma vez mais, lentamente ditando o ritmo da caminhada e arrastando-o em direção ao festival.
— Ele conhece partes minhas que você nunca chegou a ver. É compreensível que não queira alguém como eu perto da própria filha. — Falou chateado e hesitante; as memórias de seus feitos nos últimos anos passaram por sua mente em um flash rápido, atordoando-o por um átimo. — Talvez você também desista de mim depois de vê-las.
— Você me superestima muito, Hec. Tenho tantos defeitos quanto você. — Beijou-o levemente nos dedos, apertando-os levemente como se quisesse assegurá-lo de que desistência não era uma opção. — Eu já disse que sou egoísta... desde que você seja bom para mim, eu vou ignorar o resto. — Titubeou, voltando a traçar uma linha de beijos do indicador até o menor dedo, arrancando-lhe um sorrisinho. — Mas eu não vou cometer o mesmo erro que cometi na época do Vincenzo, então se você realmente não quiser que eu veja esse seu lado, vou fechar os olhos sempre que me pedir. — Afastou-se minimamente, estendendo o mindinho livre para sussurrar: — é uma promessa.
— É uma promessa. — Retribuiu o gesto e findou o juramento, apaixonando-se pela milésima vez e pela mesma pessoa, se é que era possível. Encantava-se com o fato de que, embora houvesse amadurecido e mudado grande parte da sua visão de mundo, ainda seguia sendo a mesma em essência quando ao seu lado. Apesar de serem atualmente dois cretinos, inspiravam partes boas um no outro.
— Olha, tem uma barraca de tiro ao alvo. — Alegou entusiasmada, prontificando-se a correr e logo pagar uma rodada ao dono. Seu interesse pairava sobre um coelhinho de pelúcia, e claramente tinha confiança de que seu acompanhante lhe ajudaria a ganhá-lo. — Eu quero aquele ali. — Apontou animada à sua prenda.
Ele assentiu e pegou uma das armas do balcão, buscando pelo alvo que o levasse a ganhar o item requisitado. Bastou um tiro e sua queridinha já possuía o prêmio em mãos, sorridente e manhosa enquanto o agradecia com um beijo na bochecha.
— Por que você não tenta sozinha agora? — A abraçou por trás, entregando-lhe o falso revólver e colocando de lado o celular dela. — Eu falei mais cedo que te ensinaria a atirar, não foi? — Percorreu suavemente com as mãos por toda a extensão de seus braços, alinhando a postura dos cotovelos, flexionando-os um tanto. — Com pistolas não tem problema deixar os braços completamente esticados, mas as maiores de recuo forte podem te machucar se ficar assim.
— E agora?
— Segure de uma forma que seja confortável, deixe os pés paralelos e abra um pouco mais do que a linha dos ombros. — Passou a segurar sutilmente suas coxas, fazendo questão de provoca-la minimamente com um toque sereno que lhe causara alguns arrepios. — Joelhos um pouco dobrados, mocinha. Caso contrário você pode perder o equilíbrio na hora de atirar. — Terminou ao tocar seu pescoço com os lábios, arrancando dela um suspiro alto.
O toque do celular dela soou pelos ventos, mas estava tão concentrada que não sairia da posição apenas para atendê-lo.
— Atende pra mim? — Pediu tranquila, puxando o gatilho da arma. Confiava plenamente em Hector a ponto de permitir que respondesse às suas chamadas.
Ele assentiu e deslizou o botão verde.
— Pronto? — Iniciou conversa ao colocar o aparelho na orelha. Do outro lado nada se podia ouvir a não ser um chiado estranho que, depois de alguns segundos, se estabilizou.
— Boa noite, Fantasma. — A voz do outro lado soou um tanto quanto maliciosa, e o assassino já levantou a guarda simplesmente por perceber o sotaque italiano. Se o sujeito conhecia seu apelido no submundo, boa coisa não poderia ser. — O Don Stracci finalmente decidiu apoiar o relacionamento de vocês?
Ele arqueou as sobrancelhas, incomodado com o excesso de informações que o tal indivíduo possuía sobre sua vida pessoal.
— Quem é? — Indagou, com tanta frieza que a dona do aparelho até mesmo cessou sua diversão para fitá-lo curiosa.
— Não precisa ficar na defensiva. Só liguei para avisar sua namoradinha que a data do nosso encontro mudou para depois de amanhã. Pode passar esse recado para ela? — Aqui o maldito parecia estar se entretendo com o incômodo do assassino. — Ah, e diga que foi o filho do Vincenzo Caccini quem ligou. — Uma risadinha escapou antes que desligasse a chamada, e então tudo o que se podia ouvir era um silêncio absoluto.
— Hec, tudo bem? — Pan avizinhou-se dele e tocou seu ombro, fazendo com que logo seus olhos se encontrassem. Ele definitivamente estava incomodado com algo. — Quem era?
O cenho dele se franziu, a expressão fechou-se em uma escuridão completa ao perceber que ela possuía pretensões de se encontrar com o filho do homem que, no passado, a sequestrara. Perdê-la após finalmente tê-la conseguido para si estava fora de cogitação, portanto deu dois passos para frente, prensando-a contra o balcão, importando-se porra nenhuma com a multidão ao redor. Abaixou-se até que sua face estivesse próxima o suficiente dela e inquiriu em um rumorejo cansado:
— Preciso que seja sincera comigo, senhorita Stracci. Você realmente vai se encontrar sozinha com o filho do Vincenzo?
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