Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
41 Reunião entre as famiglias
Notas iniciais
Seu toque era muito mais do que Pan havia imaginado. Muito mais intenso; muito mais vívido; muito mais apaixonante. Sentiu uma onda de choque percorrer cada centímetro de si no instante que aquele homem apoiara a mão em suas costas para aproximá-la ainda mais, apertando com delicadeza o corpo contra o seu enquanto a segurava firmemente. Ela se permitiu imergir naquela sensação tão boa que era tê-lo perto de si, relaxando os ombros e abrindo os lábios para deixá-lo acariciar a sua língua com a dele, entrelaçando os braços ao redor de seu pescoço e colocando-se na ponta dos pés, involuntariamente tentando igualar-se à sua altura. Conseguia sentir perfeitamente o tabaco impregnado em suas vestes, misturado à fragrância de sua colônia usual e da brisa marítima. Apesar de não apreciar muito o cheiro do cigarro, inebriava-se por ele quando vindo de Hector, pois a fazia sentir-se confortável; segura. Ela acabara de perceber que, por mais que odiado, talvez aquele fosse seu aroma favorito no mundo todo.
Separaram-se ofegantes, ainda sem afastarem-se muito um do outro. Pan abaixou a cabeça um tanto acanhada e logo depois decidiu voltar a fitá-lo diretamente nos olhos, percebendo que estava tão atordoado quanto ela, apesar de ser mais experiente e muito mais acostumado àquele tipo de situação. Afinal, quantas mulheres já não haviam passado por seus lençóis? Imaginava-se que provavelmente muitas. O que ela não esperava era que, independente de qualquer outra coisa ou pessoa no universo, aquele beijo que acabaram de compartilhar havia mudado completamente as coisas, e que dali em diante, ele não seria capaz de olhar para mais ninguém com outros olhos. Pan sempre fora a única pra ele, e à partir desse momento seria a última também, mesmo que seus sentimentos não fossem recíprocos; mesmo que ela acabasse por decidir que não o via dessa maneira, mesmo assim, ela seria a última, e isso não era algo negociável.
Na Sicília, eram pouco mais de nove horas da noite quando Sandro chegara às pressas no país, quase no horário em que começaria a reunião. Era inadmissível que seu chefe adentrasse aquela sala sem ter seu conselheiro interino ao lado, portanto ele apenas concluiu suas pendências na América e encontrou-se com ele na Itália, como havia sido instruído a fazer desde o princípio.
— Eu já estava começando a pensar que não teria meu consigliere ao meu lado essa noite para me ajudar a tomar as decisões. — Hans o recebeu com um sorriso fechado, cumprimentando-o com um abraço e duas batidinhas em suas costas. — Como estão as coisas lá na América? — Perguntou enquanto caminhavam até a sala designada para a ocasião. Alice ficara do lado de fora, já que os outros Dons não eram tão compreensivos quanto seu marido. Pensavam que as mulheres não deveriam se intrometer nos negócios a não ser quando colocadas como testas de ferro ou que tivessem um papel pequeno na parte do narcotráfico. Todos estranhavam as atitudes tão liberais de Don Stracci, já que uma coisa era permitir que sua esposa lhe aconselhasse uma vez ou outra, em silêncio, mas deixá-la participar das negociações e até mesmo sujar as mão de sangue sob seu nome era algo completamente diferente, e isso eles não podiam aceitar. Bom, não que ele se importasse com as opiniões alheias, no entanto. Toda vez que o assunto vinha à tona, Hans fazia questão de repetir as palavras "pior do que a minha esposa de intrometendo nos assuntos da minha família é alguém que nem ao menos faz parte dela querer me dizer como devo comandá-la." Isso fazia com que todo e qualquer intrometido se calasse e decidisse não contestá-lo outra vez.
— As coisas estão bem por lá. — Sandro respondeu em um tom que deixava transparecer o fato de estar ocultando alguma coisa, fazendo com que o homem ao seu lado franzisse o cenho ao aguardar por uma continuação de sua fala. — Meu sobrinho infelizmente causou alguns problemas como sempre — admitiu, gesticulando com as mãos. Não tinha intenção alguma de ocultar informações daquele sujeito. — mas o fantasma resolveu em pouco tempo. Queria tanto que o Diego fosse um garoto comportado e leal como ele. — Suspirou decepcionado.
Don Stracci riu e apertou-lhe o ombro como consolo.
— Aquele menino realmente é um em um milhão. — Concordou satisfeito. Sempre o havia enxergado como um filho, apesar de tê-lo criado e treinado para ser sua máquina pessoal de matar, porém ainda assim, o via como um filho. — Ele é muito competente, me dá orgulho. Se não fosse por ele, acho que eu nem estaria aqui. Talvez já estivesse atrás das grades. Você sabe que eu tive uma época um tanto descuidada, e a famiglia não tinha tanto poder político naquele tempo. Eu não tinha tanto poder político naquele tempo. — Argumentou pensativo, retirando as luvas para sentar-se em uma das cadeiras daquela grande mesa redonda de cedro envernizado. As janelas enormes da sala o deixavam desconfortável. Não gostava muito de sentir-se vigiado, ou na realidade, não gostava muito de sentir-se ameaçado. Sempre existia a possibilidade de algum traidor posicionar um atirador de elite em algum dos prédios à frente, e isso o deixava com a guarda alta frequentemente.
— Eu sei, me lembro muito bem. — Acomodou-se ao lado de seu mandante, jogando as mãos acima da mesa e deixando que os dedos dançassem impacientes. — Eu estava lá naquele dia. O garoto mal tinha dezessete anos e conseguiu se livrar do cadáver da filha daquele político em menos de oito minutos, com uma frieza que eu nunca tinha visto. Foi o tempo que a polícia demorou pra chegar naquela casa. — Ajeitou as costas no assento, diminuindo o tom da conversa ao ouvir o som de alguns passos se aproximando.
— Don Aggio. Don Domiciano. — Hans interrompeu o diálogo e levantou-se prontamente, no intuito de receber os homens que haviam chegado. Sinalizou com o olhar para que seu conselheiro não continuasse a falar mais; ao menos não sobre os assuntos da família. Cumprimentou-os em sua língua nativa, da mesma forma que conversaria até o final da reunião, já que afinal, estava em seu país de origem e não existia sentido para que continuasse a debater em outro idioma que não o seu.
Os dois sujeitos sentaram-se após aquela cerimônia de sempre, aguardando até que todos os convidados estivessem presentes. Logo depois chegaram Don Bertolucci e Don Liberato, também acompanhados de seus conselheiros. Hans admirou-se com a presença de seu amigo Bertolucci, e ao vê-lo acomodando-se ao seu lado, pôs-se a falar:
— Pensei que não queria fazer parte dessa reunião. — Aguardou por uma explicação. Haviam passado toda a tarde juntos e o colega havia deixado bem claro que não tinha interesse em participar dessas formalidades. Queria passar logo as obrigações para seu herdeiro. Sentia-se muito velho para isso.
— Ele não é bom o suficiente ainda. — Explicou. Hans arqueou as sobrancelhas confuso e viu o colega apoiar corretamente as costas na cadeira antes de aproximar-se de seu rosto, abaixando a voz. — Meu filho não é bom o suficiente ainda, você vai precisar de um apoio sólido, e ele é muito jovem. Não vai saber como te apoiar decentemente. — Acrescentou. O Stracci sorriu em agradecimento, dando-lhe dois leves tapinhas no rosto e um beijo na testa. O considerava um irmão. Não como os seus de sangue que já estavam mortos, enterrados na própria burrice, mas sim um irmão de verdade com quem podia sempre contar. Era uma das poucas pessoas à quem confiava a própria vida, e naquele tipo de negócio, essa era a demonstração de confiança mais pura que poderia existir.
— Você parece preocupado. Minha situação é tão ruim assim? — Inquiriu levando um charuto aos lábios e acendendo-o. Ofereceu um ao companheiro e ele recusou ao gesticular com as mãos, dando preferência à um copo de uísque com gelo.
— Pra ser justo com você, eles não estão realmente satisfeitos. Você matou um senador sem a autorização das outras famílias, e além de mim, os únicos que sabiam sobre a existência da menina eram os Santoro. — Bebericou um pouco do líquido amarelado antes de prosseguir. — E, bom, sejamos sinceros, os Santoro não são como a gente. Eles são uma família de negócios? Sim, claro, mas não são os nossos negócios. Eles são empresários, não têm poder aqui dentro, não podem se intrometer em cosa nostra. — Alegou, agora virando o copo inteiro como se quisesse livrar-se do peso daquelas palavras. Era difícil precisar dizer à uma pessoa que considerava tanto que, decerto, estivesse em péssimos lençóis.
— Eu entendo o que você quer dizer. — Concordou. — Eles são meus amigos e pais biológicos da minha outra filha, a minha menina de consideração, mas eles são empresários e não homens de negócios como nós. Eles são influentes no mundo lá fora, têm influência política e monetária, mas não têm opinião nenhuma aqui dentro por não serem uma famiglia, então basicamente, me sobra apenas o seu apoio, velho amigo. — Baforou a fumaça de seu charuto, trocando olhares com os outros Dons ali presentes. Bertolucci assentiu satisfeito, contente com o fato de o amigo ter compreendido sua fala.
Às 9:30 da noite, em ponto, as portas daquela sala se fecharam. Nenhum segundo a mais, nenhum segundo a menos. Ser pontual quando prometesse aparecer no horário era uma obrigação, e não uma formalidade. Deveria ser como respirar. Prometer e não aparecer na hora cumprida era um desrespeito e tanto. O deixaria mal visto, perderia créditos com as outras famílias. Não importava seu nome, seu status, se não cumprisse com a palavra, não era bem-vindo ali, e quando as portas se fechavam era impossível fazê-las abrir outra vez até que o assunto fosse resolvido. Ninguém saia, ninguém entrava.
Don Stracci decidiu que não seria o primeiro a falar. Ele não seria agressivo, não daria motivo para que os outros o contestassem. Defenderia friamente a sua causa, sem permitir que seus verdadeiros pensamentos fossem revelados aos outros presentes. Era assim que seu pai o havia ensinado, e era assim que ele pretendia continuar a agir. Manter a calma, não levantar o tom de voz, não aceitar que as emoções tomem conta. Deixou tremeluzir no ambiente a fumaça de seu charuto ao soltá-la de seus pulmões, direcionando sua atenção à Don Nastrini, que havia sido o último a entrar, e parecia ser o primeiro a querer falar.
— Eu normalmente aprecio muito essas nossas reuniões, mas estou muito chateado com o motivo dessa de hoje em especial. — Nastrini soou dramático. Ninguém mais respondeu; eram todos ótimos ouvintes e o deixariam expressar a própria opinião antes de iniciarem um debate. Hans deu de ombros, já ciente de que precisaria ouvir um discurso patético sobre confiança entre as famílias. Eram grandes hipócritas querendo falar desse tipo de laço enquanto nem ao menos lhe haviam feito uma visita em nenhuma das vezes que fora internado à beira da morte. Bom, ao menos Nastrini era. Os outros Dons, em sua maioria, ainda tinham o mínimo de respeito – ou falta de vergonha na cara – para visitá-lo nesse tipo de ocasião. — Nós somos amigos, somos homens de honra. — Ele seguiu. — Sempre nos foi dito que em casos extremos deveríamos sentar aqui, nessa mesa redonda, para discutirmos as coisas com calma para que pudéssemos tomar uma decisão juntos. Os tempos são outros, as pessoas nos veem como criminosos, e eu entendo. Já passou da época em que podíamos ameaçar e esbanjar autoridade por aí. Nós não temos mais o poder que tínhamos há anos atrás, e agora precisamos agir escondidos como gangsteres. Nós não somos gangsteres, e me dói muito que um companheiro, um de nós, talvez nos veja dessa maneira. — Completou, direcionando um olhar desafiador à Don Stracci. Ele deu de ombros, ignorando-o totalmente e apagando o charuto no cinzeiro, apoiando os antebraços na mesa antes de começar a falar.
— Eu assumo, meus amigos, que a maioria de vocês já está ciente sobre o meu desentendimento com o antigo e falecido Don Vincenzo, que ele descanse em paz. — Seu timbre era humilde, e o semblante inexpressivo como sempre. Rapidamente começou a ouvir murmúrios afirmativos ecoando por todos os lados, depois de prestarem respeitos ao nome citado. Todos estavam à par da situação, e embora ele não se recordasse muito bem daquele dia, alguns até mesmo haviam participado da primeira assembléia em que fora baleado por Don Romano. — Eu presumo que todos vocês aqui, assim como eu, tenham filhos, certo? — Perguntou, e todos concordaram outra vez. Ter um herdeiro era necessário para quem quisesse continuar com o legado da família, e no caso, a maioria absoluta dos presentes possuía esse desejo. — Então, meus companheiros, meus iguais, existe alguma coisa nesse mundo que vocês não fariam pelos próprios filhos? Se vocês, assim como eu, são homens direitos, honrados, a resposta é não. Eu particularmente mataria alguém por minhas filhas, e eu não estou dizendo isso como uma brincadeira de um homem que já tirou muitas vidas em toda a sua existência, não, eu estou dizendo isso como um pai, como o protetor das minhas meninas. Eu nunca quis que elas se envolvessem nos negócios da família, principalmente a minha bambina, eu queria para elas uma vida melhor, uma vida digna. Uma vida em que elas não precisassem abrir os olhos todas as manhãs agradecendo por não terem sido sequestradas ou baleadas por algum inimigo meu. Me perdoem desde já pela petulância em dizer isso, mas eu sei muito bem que sou um homem poderoso, e qual homem poderoso não tem inimigos? — Deu uma pausa e arrumou a postura, servindo a si mesmo e à Don Bertolucci uma taça de vinho, aguardando para averiguar a reação dos outros Dons durante esse tempo.
— Não precisava esconder a sua única herdeira como um animal enjaulado. — Don Aggio interveio, levantando-se como se estivesse preparando um palanque para iniciar um discurso em frente àquela plateia. Hans se segurou para não revirar os olhos, pois sabia perfeitamente que isso causaria um desentendimento, e não era o que ele pretendia. Assentiu com a cabeça cortesmente e direcionou sua atenção à ele, aguardando que ele seguisse com sua fala. — Não importa quem seja seu inimigo, ele não sequestraria sua filha se ela não está envolvida nos negócios. Nós não fazemos mais isso desde que concordamos em não envolver civis nos nossos desentendimentos, sequestros assustam o povo e pioram nossa imagem. O fato de você ter escondido a menina como uma fugitiva não nos deixa outra escolha senão pensar que nos considera seus inimigos também. — Soou como se estivesse dando-lhe um ultimato.
Hans bebericou friamente um tanto de sua bebida e pôs-se a respondê-lo:
— Interessante você me dizer isso, caro amigo. — Sorriu vitorioso, deixando descer mais um pouco do líquido por sua garganta. — Porque o sequestro da minha menina foi a primeira coisa que planejaram assim que ela colocou os pés para fora da minha casa, e ouso dizer que naquela época eles tinham a intenção de matar a minha garotinha. Da primeira vez, foi em uma visita dos Santoro à minha casa, e eles falharam ao errar a menina e quase levarem a minha atual filha de consideração. Ela também é minha filha, é claro, mas assim que percebessem que era a criança errada, a deixariam ir. Eu decidi trancar a minha bambina por sua proteção, e foram dez longos anos, meu amigo. Dez longos anos que ela aguentou naquela casa e que nunca mais vão voltar, foram anos desperdiçados de sua juventude para que ela não acabasse nas notícias do dia seguinte, e para quê? Para no momento em que colocasse os pés para fora outra vez ela fosse sequestrada e usada como um objeto de chantagem contra a minha pessoa? — Aqui seu tom ficou melancólico; mais firme e seco também. — Eu até mesmo mudei de país, tentei me afastar das minhas raízes que tanto amo, da minha Sicília, tudo para conseguir dar uma vida digna para as minhas meninas, e de que adiantou? Eu nunca considerei vocês meus inimigos, muito pelo contrário. Somos todos homens de honra, somos todos iguais, e se vocês, assim como Don Bertolucci, tivessem agido com decência e aparecido na minha casa uma vez ou outra para uma xícara de café, um copo de uísque, um jantar, uma taça de vinho ou qualquer outra coisa, vocês talvez tivessem conhecido as minhas crianças e nós não estaríamos aqui, discutindo sobre o jeito que eu criei as minhas próprias filhas.
Era uma grande e esfarrapada mentira, obviamente. Don Stracci jamais permitiria que pessoas fora de seu círculo de confiança chegassem perto de suas protegidas, mas usar a falta de consideração dos outros Dons para com ele era a sua carta na manga, e ele poderia se esconder atrás dessa desculpa, virando a situação ao seu favor quando os fizesse pensar que eram eles que não haviam criado a oportunidade de conhecê-las, e não sua culpa por escondê-las do mundo exterior, principalmente Pan. Na verdade, era de fato sua culpa, mas ele jamais admitiria isso. A sua maior força era a capacidade de persuasão que herdara de seu avô, e naquele instante, ele havia começado a convencer todos aqueles homens de que a culpa era exclusivamente deles por não terem sido afetuosos e próximos o suficiente. Por não terem sido seus amigos, por não terem feito questão de sua intimidade; de sua presença.
— Eu lhes garanto que Don Stracci não tinha intenção alguma de esconder a garota de nós. — A voz de Bertolucci fez-se audível pelo salão. Seu timbre, como sempre, era fraco; baixo, então todos os outros tiveram que permanecer em silêncio para ouvi-lo bem. — Cada vez que eu me intrometia em sua casa para roubar uma taça do seu vinho mais caro, ele fazia questão de se gabar sobre o quão belas eram suas jovens principessas. — Mentiu em prol do amigo. Na verdade, a única vez que havia realmente se encontrado com ambas as garotas fora muito recentemente, quando esbarrara nelas ao visitá-lo em sua casa na América, mas isso os outros Dons não tinham como saber. Eles não precisavam saber.
— E se me permitem acrescentar uma coisa, meus caros amigos... — Hans o interrompeu, acendendo outro charuto entre os dentes enquanto esboçava uma expressão fria; desinteressada. Já havia percebido a atitude dos outros Dons diminuir com as palavras de seu único aliado. — Minha bambina me visitou normalmente no hospital em meio à vários homens de outras famílias não faz muito tempo. Eu sei que são homens muito ocupados, é claro, eu entendo perfeitamente, até porque eu mesmo sou um homem muito ocupado, mas não acham injusto me dizerem que eu forçadamente escondi ela de todos vocês enquanto ela se apresentou em público para tantos amigos meus que foram prestar os devidos respeitos? — Completou, logo averiguando que o clima do ambiente havia mudado; as expressões dos demais estava murcha, derrotada.
Haviam desistido de tentar culpá-lo e agora culpavam a si mesmos. Ele havia planejado tudo muito bem, tudo desde os mínimos detalhes. O modo com que mudara tão drasticamente o comportamento com sua filha no hospital fora o início de sua jogada até chegar ao cheque-mate. Estava ciente do que precisava fazer para não se complicar com aquele assunto e ainda conseguir sair vitorioso, e sabia que naquele dia em específico, enquanto ainda enfermo, haveriam apenas pessoas relacionadas ao seu trabalho que não necessariamente eram envolvidas com a parte pesada. Para criar uma fachada e conseguir um álibi convincente, fora então que ele minuciosamente programou a visita de sua protegida para aquele momento, quando estariam presentes só aqueles que tinham o intuito de bajulá-lo e não possuíam consciência alguma sobre o que estava realmente acontecendo; não eram próximos o suficiente dele para que pudessem reclamar do fato de jamais terem conhecido sua primogênita. Eram meros peões que lhe serviriam muito bem como testemunha para o que havia acabado de apontar, pois afinal, se qualquer pessoa dessa reunião ousasse perguntar sobre a veracidade dos fatos, ele teria um álibi. Era impossível que o acusassem de tê-la escondido se a havia apresentado tão facilmente aos "amigos" do meio, certo?
— É verdade que eu não tive muito tempo para visitá-lo mesmo em um momento tão importante, e por isso eu lhe peço minhas mais sinceras desculpas, Don Stracci. — Don Nastrini levantou-se para abraçá-lo, na intenção de manter as aparências. Beijou-o nas mãos como um gesto de respeito, quase como se implorasse por seu perdão, arrependido por ter duvidado de sua lealdade e honestidade. Os chefes das famílias Aggio, Domiciano e todas as outras também se desculparam com o rabo entre as pernas, prestando-lhe os devidos cumprimentos e fazendo longas promessas de encontros pra que pudessem finalmente conhecer suas garotinhas. Apenas Bertolucci permaneceu sentado, friamente observando toda aquela comoção e colocando-se admirado com a capacidade do amigo em convencer tantos homens poderosos de que o erro era deles, jamais seu. Agradecia muito por não ser um inimigo daquele sujeito. — Você nunca nos deu motivos para duvidar de sua índole, e mesmo assim todos nós o acusamos injustamente. Espero que consiga ser razoável e que isso não acabe por causar um problema desnecessário entre nós. Como eu disse, os tempos são outros, e nós homens de honra precisamos permanecer unidos. — Nastrini acrescentou, e rapidamente todo o salão fora dominado por murmúrios de aprovação às suas palavras. Todos concordavam que haviam se equivocado quanto à Hans e suas intenções. Na realidade, não estavam errados, porém aquele homem os havia feito acreditar que sim, e isso foi o indicador de sua vitória.
Vincenzo havia perdido, e ele, mais uma vez, havia ganhado.
— Por favor, não é tão grave assim, esses equívocos acontecem e é por isso que nós dialogamos. Não precisam se desculpar tantas vezes. — Gesticulou com as mãos como se lhes dissesse que não se incomodassem com isso. Estava mantendo as aparências, lutando para parecer benevolente e cordial. Ajustou outra vez a postura em seu assento e direcionou um olhar discretamente vitorioso ao seu conselheiro, sugando com os lábios um pouco de seu vinho. Ele apenas esboçou um sorrisinho orgulhoso e negou com a cabeça, demonstrando que nunca havia duvidado de sua capacidade para resolver aquele problema. — É como nosso colega Don Nastrini disse. Nós temos que permanecer unidos. Os tempos são outros, o mundo nos vê como meros criminosos, então quem vai nos apoiar senão por nós mesmos? — Discursou, levantando sua taça para propor um brinde. Os demais rapidamente o seguiram, não querendo abusar de sua boa vontade. — Que todos nós possamos continuar a negociar juntos no futuro, sem desavenças. — Brindou, levando o objeto de cristal até os lábios para virá-lo até que terminasse com o líquido nele contido.
— Eu imagino que agora o assunto seja a morte do senador no território da nossa família, então. — Sandro exprimiu, folheando alguns papéis da pasta que havia trazido consigo.
— Não. — Don Aggio retrucou prontamente, colocando uma das mãos acima de seus documentos para fechá-los ali, gesticulando que não teria necessidade de utilizá-los. — Eu me encarrego de cobrir esse caso com a mídia e com a polícia. É o mínimo que eu posso fazer pela famiglia Stracci depois de ter negligenciado minha amizade dom seu Don. Ele estava certo, eu não fui um bom amigo ultimamente, então quero compensar de alguma maneira. — Fitou o indivíduo em questão pelo canto dos olhos, aguardando por algum tipo de aprovação vinda de sua parte. Hans agradeceu com um aceno de cabeça e um forte aperto de mão, finalizando ali aquele assunto. Estava aliviado por não precisar lidar com mais um problema após todo aquele falatório tão cansativo.
— Don Stracci, será que podemos discutir uma coisa rápida antes de finalizarmos essa reunião? — Domiciano requereu, recebendo uma resposta afirmativa por parte do sujeito em questão. — Todos nós sabemos que você não tem um herdeiro homem, alguém que vá assumir quando decidir se aposentar. Nenhum de nós é eterno, e me perdoe a palavra, mas já estamos todos velhos.
— É verdade, sim. — Demonstrou um sorriso fechado; exausto, empenhando-se em não demonstrar seu incômodo com o rumo daquela conversa. Sabia muito bem aonde tudo aquilo chegaria, em especial porque Don Domiciano tinha um filho que era apenas dois anos mais velho do que Pan, e como o homem tão ambicioso que era, ele jamais perderia a oportunidade em tentar juntar ambas as famílias por um casamento arranjado. — Mas se o que você pretende me perguntar é sobre a minha filha, sobre o fato de juntar minha garotinha com alguém que possa assumir os meus negócios... — aqui ele pigarreou, tentando não mudar sua entonação, apesar de estar frustrado — se é para me perguntar se vou usar a minha bambina como moeda de troca para unificar a minha família com outra, a resposta é não. Eu não pretendo envolver a minha menina com o nosso mundo.
— Me perdoe a intromissão, Don Domiciano, Don Stracci... — O chefe da família Aggio interrompeu, chamando a atenção de ambos — mas pelo que eu saiba, a garota, sua herdeira já tem um pretendente, não? — Aqui Hans franziu o cenho em estranheza. Não estava inteirado sobre o fato de sua filha ter arrumado algum pretendente, de modo algum. — O garoto que é o seu braço direito, o Fantasma? Ele é muito bom, tem nome, é competente e pode cuidar dela. Ele é o prometido da menina, então é por isso que você não tem a intenção de apresentá-la à outros, certo? — Perguntou com seriedade.
— O Hector? — Ele riu, balançando a cabeça em desaprovação. — De jeito nenhum. O garoto é muito competente, é quase um filho pra mim, mas ele não tem nenhum envolvimento romântico com a minha menina.
— Que estranho, quando recebi aquela foto no dia da primeira reunião que não pude comparecer eu jurava que era esse um dos motivos de nunca termos ouvido falar sobre ela. Afinal, não teria motivo para que uma mulher já prometida à alguém fosse apresentada, então eu imaginei que... — Argumentou, apalpando as laterais de sua calça como se buscasse por algo.
— Foto? Mas que foto? — Hans inquiriu em timbre seco e austero, fazendo com que Sandro já começasse a sentir as mãos suarem frio pelo colega de trabalho. Quase pensou em interromper, porém seria burrice de sua parte decidir esconder algo assim de seu chefe. As consequências acabariam por piorar muito mais.
— Essa. — Don Aggio deslizou o pedaço de papel que tanto buscara em seus bolsos. Estava um pouco amassado, porém era perfeitamente visível.
O Stracci sentiu a veia principal de sua testa saltar, no entanto forçou um sorriso fechado e suspirou como se aquilo não tivesse muita importância. Estava em meio à uma reunião entre as mais poderosas famílias da Sicília, não seria esperto perder a calma ali. Se irritar apenas faria com que pensassem ser um incompetente, incapaz de controlar os próprios homens em rédeas curtas, e isso ele não poderia permitir de jeito nenhum.
— Ah, sim, isso. — Deu de ombros, devolvendo a imagem ao seu dono. — Por favor, nós somos italianos, quem é que nunca beijou o irmão ou até mesmo os pais nos lábios? Em datas festivas, em momentos fraternos... — Comentou desinteressado e os outros assentiram da mesma forma. Não era grande coisa, afinal. Era um costume, um jeito de demonstrar afeto, e aquele gesto, para eles, não tinha segundas intenções, portanto ignoraram completamente e deixaram passar. — Agora, meus colegas, se me permitem... — Levantou-se com calma, encarando friamente o seu conselheiro. — Eu peço a licença de todos vocês aqui presentes. Admito que não sou mais tão jovem, e está ficando tarde. Espero que não se incomodem caso eu decida me ausentar para uma boa noite de sono com minha bela esposa. — Enunciou cortês, arrancando algumas risadinhas dos presentes. Todo aquele teatro que precisava fazer em frente aos outros lhe esgotava a paciência.
Assim que despediu-se e adentrou o carro na companhia de sua cônjuge e de seu conselheiro, deixou esvair sua raiva após desferir um forte golpe no painel interior do veículo, frente ao banco do passageiro. Alice, que estava sentada logo atrás, sobressaltou com o susto do ruído. Hans sentiu a cabeça latejar à medida que as memórias perdidas lhe invadiam a mente, fazendo com que seu coração acelerasse e o corpo começasse a reagir. Estava suando frio; ofegante. Sandro instantaneamente percebeu que não estava bem e correu para o hotel depois de chamar um médico de confiança da família para encontrá-lo lá.
— Desde quando? — O chefe dos Stracci rosnou; os olhos fixos no médico que media a pressão de seu braço apoiado na lateral do sofá. Ninguém respondeu, então ele levantou a voz e bateu com força na mesinha de centro à sua frente, felizmente de madeira e não de vidro como costumavam ser. — Desde quando, Sandro, porra?! — Vociferou; as veias de sua face pareciam que explodiriam à qualquer instante.
— Eu não sei bem te informar quando foi que isso começou, meu Don. — Sentou-se ao lado de seu mandante furioso, mantendo a serenidade em sua voz para não acabar por irritá-lo ainda mais. — Nós sempre soubemos que o garoto nutria sentimentos pela bambina, mas nunca pensei que ele pudesse passar dos limites à ponto de tocá-la dessa forma. — Completou, puxando em sua direção um copo de vidro e servindo a si mesmo uma dose de uísque.
— Passar dos limites, Sandro? — Repetiu entre dentes, cerrando o punho para conter a raiva. — Passar dos limites, Sandro? — Aqui ele levantou a voz, berrando de um jeito que até mesmo as pessoas do prédio vizinho conseguiriam ouvir. Seu sotaque bem marcado de um residente de Palermo agora emanava fúria. Pegou o copo que seu conselheiro havia enchido até a metade e arremessou-o em direção à parede, vendo-o quebrar e manchar todo o carpete com o líquido nele contido. Alice e o médico deram um leve salto com o susto, porém não ousaram dizer nada. Era impossível tentar conversar racionalmente quando estava naquele modo. — Você acha que eu estaria irritado assim se eu considerasse que um beijo nos lábios da minha filha é passar dos limites, seu imbecil? — Urrou, batendo outra vez na mesinha de centro. — Que merda você acha que eu sou? Um adolescente?
Sandro engoliu seco e direcionou o olhar até os pés, arrependido por ter mantido segredo sobre aquilo. Sabia perfeitamente que o problema ali não era o beijo, e sim o fato daquele homem ter abdicado sua função e permitido que a filha de seu chefe fosse sequestrada por um mero capricho de seus desejos egoístas quanto à moça.
— Você deveria tentar se acalmar um pouco, Hans. — Alice murmurou insegura, com medo do que pudesse vir a acontecer. Ela normalmente não temia absolutamente nada, porém seu marido naquele estado era uma das poucas coisas que lhe faziam sentir um frio incômodo percorrer sua espinha.
— E você não ouse me dizer o que eu tenho que fazer, Alice, porque eu juro por Deus que eu vou acabar perdendo a capacidade de raciocinar e você não quer isso. — Resmoneou, vendo-a recuar e encolher os ombros. Definitivamente não era prudente tentar dialogar com ele naquele momento. — Que merda o meu conselheiro estava fazendo que não foi capaz de me informar sobre isso para que eu não fosse obrigado a passar vergonha na frente dos chefes de outras famílias? — Bateu pela terceira vez naquela mesa. Todos permaneceram cabisbaixos, em especial a visita que estava aterrorizada. — O pior é que esse disgraziato está sozinho com a minha menina agora, nesse momento. Eu confiei nele pra cuidar dela e é assim que ele me retribui? Eu bem que estranhei que ele tinha começado a negligenciar as próprias funções e inventar muitas desculpas pra não matar aquele moleque que tentou molestar a minha filha. Se recusou a seguir ordens, me traiu bem abaixo do meu nariz, me fez de idiota! — Exclamou, agora jogando outro copo na mesma direção do primeiro. Esse ao menos estava vazio.
— E o que você pretende fazer agora, meu Don? — Sandro teve a coragem de perguntar, mantendo o tom baixo para não desrespeitá-lo.
— Eu vou dormir porque eu mereço um descanso, porque eu estou velho e porque eu não quero acabar enfartando para deixar minha mulher viúva e minhas filhas sem um pai. — Levantou-se assim que fora liberado dos exames, percebendo que o visitante anotara rapidamente os remédios necessários em uma receita, apressando-se em sair dali o mais rápido possível. — Mas eu vou voltar amanhã no primeiro avião que tiver para a América, e quando eu chegar na minha casa eu quero aquele garoto no meu escritório, e eu quero a minha filha fora de casa porque eu acredito que ela não precisa ser obrigada a ver isso. — Ordenou, acomodando-se em sua cama e retirando o revólver do bolso de seu paletó para guardá-lo na gaveta da mesinha ao lado.
Alice e Sandro tiveram um péssimo pressentimento; era como se Hans estivesse de volta aos seus tempos sombrios, quando ainda agia sob a influência de seu pai, o antigo Don Stracci. Caso isso acontecesse, e se, no caso, ele voltasse a ser como era antes do nascimento de Pan, com certeza haveria muito derramamento de sangue, e isso eles não podiam aceitar. Hans Stracci jamais poderia se permitir ser sugado outra vez pelas sombras de seu passado, porque se acontecesse, não existiria prece ou súplica sequer que pudesse salvar aqueles que ousassem cruzar o seu caminho.
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