Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
42 De volta à América
Notas iniciais
De volta à América, Pan e Hector permaneceram em silêncio e de mãos dadas durante todo o trajeto, trocando alguns olhares cheios de desejo à cada semáforo que os obrigava a parar. Infelizmente precisaram manter alguma distância assim que chegaram à praia, e ela fizera questão de comprar milhares de coisas para disfarçar o fato de terem demorado quase uma eternidade. Isis foi a primeira a saltar nas sacolas e mexer em tudo, puxando para si uma garrafa d'água e bebendo-a pela metade bem rapidamente.
— Meu Deus, Pan. — Isis respirou ofegante, reclamando pela demora após secar o suor da testa com o pulso. — Se você tivesse ido com qualquer outro cara aqui eu pensaria que essa demora toda seria por vocês estarem se pegando. — Comentou em tom de zombaria, fazendo com que os colegas rissem. Pan não riu, no entanto. Ela apenas forçou um sorriso tímido e logo sentiu as bochechas ruborescerem ao lançar um olhar discreto em direção ao homem em questão, recordando-se do momento em que dividiram um beijo.
— E por que ela não pode pegar o Hector? — Alex franziu o cenho com curiosidade, abrindo um pacote de salgadinhos e enfiando alguns na boca de uma vez só. Estava com muita fome após ter passado toda a tarde intercalando entre surfar e jogar vôlei de praia. — Pensei que a gente já tinha concordado que ele é bem bonito. — Acrescentou marota, fazendo com que Evan, Chris e Naoki a olhassem com estranheza; principalmente Evan, que não estava gostando nada do rumo daquela conversa.
— Que ele é bonito a gente já sabe, mas diferente dos moleques da nossa idade ele tem controle. Não é igual o Evan, por exemplo, que tem necessidade de ficar pegando outras meninas em público e não consegue manter o saco dentro das calças. — Retrucou em tom debochado, na intenção de irritar o colega. Hector, que estava ouvindo tudo à distância, cedeu a ponto de soltar uma leve risadinha que rapidamente escondera com o pulso ao perceber o menino em questão extremamente incomodado após gritar alguns insultos para a amiga. — Bom, deixa pra lá, agora ela já tá aqui então não tem motivo pra tanto drama. — Deu de ombros, colocando o braço ao redor de Kate e puxando-a para perto de seu corpo. Ela apenas sorriu acanhada e encostou a cabeça na sua, após beijá-la carinhosamente no pescoço.
— Vem aqui também, ruivinha. — Evan abriu os braços para chamá-la, com intenção de que fizessem o mesmo que as amigas, porém ela hesitou. Era diferente agora, e ela não sentia-se mais tão confortável em aproximar-se dele daquela maneira, embora não soubesse o motivo dessa mudança tão repentina em seu interior. Seu corpo simplesmente não aceitava mais seu toque, sua aproximação; ao menos não do jeito que ele queria. Em um pedido de socorro, ela olhou para Sarah, que apesar de ter estranhado sua reação, compreendeu rapidamente suas intenções e puxou-a para um abraço amistoso, sinalizando que não a cederia para o rapaz. Ele estalou a língua desanimado. — Você já mora com ela, não custava nada dividir. — Bufou.
Hector sentiu-se orgulhoso com a reação de sua protegida, sendo inevitável demonstrar um sorrisinho sarcástico.
— Não vou dividir. — Negou com a cabeça, apertando-a ainda mais. — Ela é minha. — Sorriu.
— Cuidado, viu? O Chris pode ficar com ciúme. — Ele provocou, direcionando um olhar malicioso ao colega em questão.
— Pode ficar? Ele já tá. — Isis continuou a incomodá-lo propositalmente e logo riu ao vê-lo coçar os cabelos um tanto nervoso. Ele sentiu as orelhas esquentarem com a vergonha de precisar ser o centro das atenções naquela situação tão embaraçosa.
Alex involuntariamente mudou de uma expressão alegre à uma mais fechada; desanimada, que demonstrava sua chateação com o assunto.
— Hector! — Kate prontificou-se a chamá-lo, fazendo com que todos a encarassem surpresos, intrigados com o que ela teria para falar com aquele homem. Não era como se eles fossem próximos, afinal. Até mesmo ele arqueou as sobrancelhas, voltando sua atenção à ela enquanto aguardava pela continuação de sua fala. — Vem sentar com a gente, você tá em pé já faz um tempão, e tá excluído aí, longe de todo mundo. — Ofereceu, e não houveram objeções a não ser por parte de Evan, que não ousava dizer em voz alta que se incomodaria com sua presença, porém fizera questão de deixar isso bem claro através de seu olhar cheio de raiva direcionado à ele.
Hector pensou seriamente em recusar. Na realidade, era exatamente o que ele deveria fazer, pois afinal, estava ali para trabalhar e não para fazer amizade com os coleguinhas adolescentes da filha de seu chefe, mas a atitude de Evan fez com que ele aceitasse a oferta, o que em dias normais ele jamais faria. Tinha noção de que estava passando dos limites, mas queria ficar próximo à sua amada depois dos acontecimentos anteriores, e se isso incomodaria o outro pretendente da moça, então ele apenas tinha ganhos ao aceitar. Deu de ombros e sentou-se entre os dois, fazendo questão de afastá-lo dela ainda mais, colocando-se como uma parede, o vendo estalar a língua e rumorejar alguns insultos. Pan apoiou a cabeça em seu braço e sorriu, fechando os olhos para apreciar a brisa marítima por um instante, contente por tê-lo ali.
A noite começava a cair à medida que os jovens conversavam e enchiam os estômagos com as porcarias compradas. Refrigerantes, salgadinhos embalados, biscoitos de chocolate e outros transgênicos que à longo prazo poderiam trazer sérios problemas para a saúde. Seria aquele o jantar do dia, e ninguém dava a mínima. Estavam muito entretidos com a companhia uns dos outros para que se incomodassem com o fato de estarem ou não ingerindo comida de verdade, e além disso, eram jovens, portanto fazer isso vez ou outra não seria tão grave assim.
Depois de algumas horas de conversa jogada fora e alimentação nada saudável, arrumaram a bagunça que haviam feito e recolheram seus pertences, na intenção de aproveitarem o fim da noite com uma caminhada ao longo do mar, antes que precisassem voltar para casa. Pan estava um pouco mais calada do que o usual; pensativa enquanto observava o quebrar de cada onda próximo aos seus pés. Ela não ousava entrar ali, ao menos não no escuro. A imensidão do oceano era uma das poucas coisas que a afugentava, e que apesar de instigar muito sua curiosidade, não a deixava com vontade de se arriscar. Havia assistido muitos filmes de tragédias marítimas, e talvez acabara criando uma aversão àquelas águas salgadas. De fato, ela apreciava a beleza daquele horizonte, porém sua beleza não impede os calafrios que percorrem o seu corpo toda vez que se imagina dentro daquele local desconhecido.
— O que foi? Não quer molhar os pés? — A voz de Sarah fez-se audível no segundo que apoiou a mão em seu ombro, permitindo que seu olhar também se perdesse no oceano e os pés se afundassem na areia. — Você tá bem menos animada em conhecer a praia do que eu pensei que estaria. — Comentou em tom de preocupação. Havia percebido uma certa mudança em seu comportamento ultimamente, e em especial, durante todo o dia, porém não quis comentar. Ao invés disso, decidiu permanecer ao seu lado e apoiar-lhe no que fosse necessário, deixando-a livre para que desabafasse apenas quando estivesse confortável para isso.
— É verdade. — Admitiu, mordendo os lábios para amenizar sua ansiedade. — Sarah, eu beijei o Hec mais cedo. Foi por isso que a gente demorou pra voltar. Eu não queria esconder isso de você, então...
— Obrigada por me contar. — Sorriu aliviada. Parte dela já tinha noção de que algo estava acontecendo entre os dois, porém ouvir isso diretamente dos lábios de sua considerada irmã a deixava contente, em especial por sentir que ela estava confortável para se abrir à ponto de se abrir dessa forma. — É por isso que você parece meio aérea hoje? Você tá tentando descobrir o que sente por ele, não é? — Aqui ela diminuiu o tom para um sussurro, querendo manter aquele assunto um segredo.
— Mais ou menos, quer dizer, eu acho que sim, não sei. Só sei que ultimamente eu ando pensando muito nas coisas que a nossa família faz. — Permitiu que os ombros caíssem em desanimação, soltando um breve suspiro. — O que você acha do trabalho deles? — Indagou em sua língua nativa, deixando claro que não tinha vontade alguma de que os colegas ao redor soubessem sobre aquele assunto. Não conseguia se livrar da sensação de que havia se tornado uma pessoa ruim com o passar do tempo, principalmente agora que havia começado a ignorar as coisas que aconteciam ao seu redor.
Sarah surpreendeu-se ao vê-la falando italiano, em especial por saber o motivo que a havia feito optar pelo inglês, mas logo compreendeu suas intenções e deu de ombros, também decidindo falar em seu idioma de nascença.
— Eu odiava isso no início, você não lembra? Quando nós duas nos conhecemos eu tinha muito ódio da sua família, e mais ainda da minha, só que com o passar dos anos, com a convivência eu aprendi a não me importar. — Cruzou os braços e involuntariamente apertou um pouco as mãos ao ter aquelas memórias invadindo sua cabeça gradativamente. Pan observou-a cautelosamente, com admiração, aguardando até que ela quisesse continuar a falar. — Eu não vou mentir e dizer que não tenho medo. Eu tenho sim, e tenho muito, por eles e por nós também. Não é fácil acordar todos os dias sem a certeza de que alguém pode não conseguir chegar naquela casa em segurança, mas aí eu pensei por muito tempo e percebi que isso não é uma coisa exclusiva desse mundo, porque o meu irmão foi assassinado sem nunca ter feito nada de errado. — Mordeu os lábios e titubeou, sentindo o coração apertar. Independente de quantos anos se passassem, era como se a dor daquela perda nunca fosse embora. — Nós estávamos juntos, indo na padaria, e ele optou por passar em um beco pra cortar caminho, e ali ele foi assassinado por míseros vinte reais. Malditos vinte reais que ele tinha no bolso e demorou pra entregar porque sabia que levaria bronca do meu pai mais tarde se acabasse voltando pra casa sem comprar o que ele tinha pedido. — Aqui seu timbre falhou; estava mais fraco e a entonação deixava claro que ela estava lutando para conter as lágrimas. Era um assunto delicado, mesmo depois de muito tempo.
— Sarah... — Pan entrelaçou os dedos nos dela com carinho, confortando-a de longe. Estava ciente de que não deveria abraçá-la ali, pois se o fizesse, a veria desabar em lágrimas e isso a deixaria ainda mais miserável porque os outros colegas se aproximariam para tentar consolá-la também. Tudo o que ela mais odiava era tornar-se o centro das atenções e ser tratada como uma coitada.
— Mas eu te conheço muito bem e sei que você já deve estar pensando em milhares de besteiras e se culpando por tudo. Já tem muito tempo que eu percebi que você tinha mudado e que não dava mais tanta importância pras escapadas do Hector às duas da manhã ou para as vezes que via alguém queimando uma roupa ensanguentada no quintal. — Respondeu com o intuito de mudar de assunto e esquecer tudo que envolvia seu irmão. Era muito doloroso e não queria voltar a sofrer outra vez com aquelas memórias nada agradáveis. Apoiou a cabeça no ombro da amiga como se fossem um casal observando o horizonte e pôs-se a sussurrar: — Você sabe como a mãe de um passarinho ajuda ele a crescer? Ela joga o filhote pra fora do ninho quando decide que é a hora dele aprender a voar, e ele pode se machucar ou até acabar morto por isso. Parece horrível, né? Mas a mãe dele não é má e nem odeia o filhote por fazer isso, ela só está seguindo os próprios instintos. É a mesma coisa pra mim e pra você também, Pan. — Argumentou, obrigando-a a franzir o cenho em confusão. Que diabos passarinhos tinham em comum com a situação ali?
— Como assim?
— É que nós duas crescemos nesse meio, nós fomos criadas e ensinadas pelas nossas famílias e acabamos normalizando o estilo de vida ao nosso redor, e por mais que a gente soubesse que muitas das coisas que eles fazem são ilegais, passamos a não nos importar porque esse é o estilo de vida que nos foi fornecido. Do mesmo jeito que uma criança pode acabar seguindo uma certa religião por influência da família, nós duas também acabamos criando uma concepção diferente de certo e errado. É como a mãe do passarinho. Ela não é ruim por acabar machucando os filhotes ao seguir os próprios instintos, e nós duas também não somos pessoas ruins por nos adaptarmos às coisas que nos foram apresentadas desde tão novas. É instintivo agir de acordo com a sua criação, de acordo com o que foi te ensinado como certo e errado desde o seu nascimento.
— Mesmo sendo alguns meses mais velha, eu não entendo metade das coisas que você fala às vezes, mas eu gosto de te ouvir falar. Me acalma ter você comigo. — Pan rumorejou, esboçando um sorriso satisfeito ao apertar sua mão na dela ainda mais, demonstrando gratidão por tê-la consigo. — Obrigada.
Ouvir aquelas palavras havia retirado um peso enorme de suas costas. Era a mais completa e absoluta verdade; não se pode escolher a família que tem, mas ela sempre se sentira abençoada por ter sido muito amada por todos ao seu redor. Obviamente nem tudo era perfeito, sua época encarcerada a fizera miseravelmente repensar a própria existência muitas e muitas vezes, mas afinal, que pais nunca cometem erros? Que família nunca briga e não se desentende vez ou outra? Esse tipo de coisa não existe. A família ideal e perfeita que se vê nos comerciais de televisão não existe. E então, desde que ela continuasse a ser rodeada pelo carinho de todos como sempre, qual seria o problema de ter nascido em uma família de criminosos? Ela passara a ver as coisas com outros olhos; os olhos de uma garota que havia amadurecido e que não mais ficaria chorando pelos cantos amaldiçoando a profissão de sua família. Se era isso que gostavam de fazer, se era isso que queriam fazer, então que o fizessem e ela não os incomodaria mais. Ao invés disso, apenas rezaria todas as noites para que voltassem seguros para casa.
— O que vocês duas estão fazendo aqui isoladas? — Evan acercou-se delas sorrateiramente, bagunçando os cabelos de Pan e colocando uma das mãos ao redor de sua cintura. Sarah apenas afastou-se um pouco e revirou os olhos, cansada do jeito que ele parecia sempre querer forçar uma intimidade desnecessária com sua amiga. — Não vai entrar no mar, ruivinha? Eu ouvi dizer que é a sua primeira vez na praia.
— Tá muito escuro, e eu tenho medo de entrar ali assim, sem luz nenhuma. — Respondeu após sinalizar que não com a cabeça. Até mesmo Sarah admirou-se com sua fala, pois não estava ciente sobre aquilo. — É bobo eu ter medo de um lugar tão bonito, né? — Encolheu os ombros desanimada, esfregando os braços com as mãos para amenizar o frio causado pela brisa marítima.
— Vem cá, não vai te acontecer nada. Eu te acompanho. — Puxou-a pelo pulso, tentando obrigá-la a colocar os pés na água mesmo que à contragosto. Ela sentiu o corpo paralisar e rapidamente ficou os pés na areia, desvencilhando-se do colega. — Deixa de frescura, vem logo molhar os pés, ruivinha. — Insistiu, tentando arrastá-la outra vez consigo.
— Eu não quero. — Recusou novamente, forçando o corpo para trás.
— Já te disse que não vai acontecer nada. — Pegou sua mão novamente, ainda com o intuito de forçá-la a tocar a água.
— Eu já disse que não quero, Evan! — Exclamou incomodada, em um timbre alto e estridente como alguém que já estava com a paciência esgotada; suas mãos estavam trêmulas e se não fosse pela aproximação de Chris e Hector que o obrigara a soltá-la para não causar uma cena, ela decerto teria começado a chorar.
— O que aconteceu, Pan? Tá tudo bem? — Chris questionou preocupado, tentando averiguar o estado mental da colega. Não era normal que estivesse tão chateada, e muito menos que se estressasse àquele ponto. — O que você fez, Evan, porra? Eu já te disse pra parar com essas brincadeiras idiotas, cara. — Direcionou um olhar desgostoso à ele, franzindo o sobrolho em decepção.
— Eu só tava tentando ajudar, eu juro. — Afagou os cabelos para tentar esconder seu desconforto, desviando o olhar e diminuindo o tom antes de justificar-se: — Ela tem medo do mar no escuro, então eu tentei fazer ela entrar comigo. Acho que eu acabei passando dos limites, desculpa ruivinha.
— Tá tudo bem, me desculpa por ter levantado a voz, eu não devia ter te tratado assim. Você só queria tentar ajudar.
— Pan. — A voz de Hector soou baixa e serena, enquanto ele colocava-se entre sua protegida e os outros dois garotos, fazendo com que Chris tomasse a iniciativa e se afastasse um pouco deles para deixá-los à sós, levando o melhor amigo consigo. — Você tem medo do mar à noite? — Inquiriu curioso, recebendo um aceno afirmativo em resposta. Sempre pensara que ela seria a primeira a pular naquelas águas sem importar-se com mais nada, então era uma surpresa descobrir sobre esse seu pavor oculto.
— De dia ele parece mais amigável, mais quentinho. — Murmurou entristecida, voltando a observar o oceano. — Eu queria muito entrar, mas eu tenho medo do que se esconde nele quando tá tão escuro assim.
— Tem certeza? É a sua primeira vez na praia, não acha que seria uma pena voltar pra casa sem nem tentar molhar os pés? — Perguntou carinhosamente, vendo-a titubear antes de assentir. Queria muito entrar ali, mas o que podia fazer se o próprio corpo lhe traía quando imaginava que naquela escuridão alguma coisa poderia agarrar-lhe as canelas assim que sua pele tocasse a água? — Eu vou entender se não quiser. Você sabe que eu nunca te forçaria a nada. — Acrescentou, tocando seu rosto com carinho.
— Eu quero, mas...
Hector ponderou por um instante e fitou-a com receio. Percebendo a expressão aflita daquela garota ele fez algo que jamais imaginou que faria; ao menos não enquanto deveria estar agindo com responsabilidade e trabalhando como seu guarda-costas. Retirou os sapatos junto às meias e jogou-os na areia, levantando sua calça social até pouco abaixo dos joelhos, antes de desabotoar a camisa e revelar as inúmeras cicatrizes marcadas em seu torso, fazendo com que os garotos arregalassem os olhos em espanto. Eram como marcas de tortura; de alguém que havia passado por um inferno sem igual. Arrepiavam-se apenas por imaginar a dor que aquele homem tivera que sentir para consegui-las. Decerto fosse por esse motivo que estava sempre tão empacotado em roupas sociais, fazendo questão de tampar até o mínimo pedaço de pele exposto.
— Você confia em mim? — Estendeu a mão em direção à ela, percebendo-a instantaneamente entrelaçar os dedos nos seus, com um brilho único no olhar. Um brilho que exalava admiração; confiança. Ele apertou-lhe a mão e esboçou um sorrisinho fechado, acompanhando-a lentamente até o mar, aonde ela hesitou antes de entrar. Percebendo sua insegurança, ele apressou-se em molhar os pés primeiro, querendo fazê-la entender que ali nada existia que fosse capaz de machucá-la. — Não tem nada aqui, viu?
— Se alguma coisa acontecer você vai me proteger? — Pediu amedrontada, em um timbre cansado.
— Eu sempre vou te proteger, Pan. Eu prometo. — Assegurou em tom firme, com convicção, encarando-a diretamente nos olhos. — Não importa o que aconteça, se você precisar de mim, eu vou estar do seu lado. Eu já quebrei alguma promessa com você? — Estendeu novamente a mão em direção à ela, que apenas mordeu os lábios e sinalizou que não com a cabeça, ciente de que ele nunca a havia decepcionado. Recordou-se da promessa que ele havia mantido mais cedo e sorriu, pois afinal, se nem ao menos aquela promessa ele havia quebrado, então essa muito menos, certo?
Mais confiante e segura do que antes, ela pulou rapidamente na água e abraçou-o com os olhos fechados assim que sentiu os pés úmidos. Nada acontecera, e no segundo que percebeu aquele homem afagando-lhe os cabelos tão ternamente, ela abriu os olhos, deparando-se com um Hector sorridente e orgulhoso. Fora inevitável ser contagiada por sua alegria, já que ele sempre era tão sério e nunca se permitia agir daquela forma tão despreocupada, como alguém de sua idade deveria ser.
— Eu consegui, Hec! — Comentou extasiada, ainda sem afastar-se. Apreciava muito abraçá-lo, e como ele não parecia querer reclamar, não tinha motivos para deixá-lo ir.
— Eu disse que você conseguiria. E então? Como se sente?
— É gostoso aqui, bem geladinho.
Naquele instante, enquanto os observava de longe ao lado dos colegas que haviam ficado para trás, Evan sentiu-se miserável; fora dominado por uma onda gélida de ciúme ao observá-los tão próximos após aprender da pior maneira que a garota por quem ele começava a desenvolver sentimentos não confiava nele, mas sim em um assassino. Mesmo sendo um mafioso, o pior tipo de pessoa, aquele sujeito talvez pudesse apontar uma arma à cabeça dela e ainda assim ela não se incomodaria; o deixaria fazer e seu coração tampouco aceleraria amedrontado, e ele, no entanto, não conseguia transmitir-lhe confiança nem ao menos para ajudá-la a superar seu medo do mar. Essa era a pior forma de descobrir que seus sentimentos não eram nem um pouco recíprocos.
— Eu acho que a gente tá se enfiando em um buraco muito fundo e pode acabar ficando impossível de sair depois. Você já percebeu, né? — Chris acercou-se dele, retirando-o de seus devaneios. Sinalizou com a cabeça para que ele olhasse para Hector, referindo-se àquelas cicatrizes. Tinha uma acima do ombro direito, de tamanho mediano, que parecia uma queimadura profunda; notava-se que a pele ali havia sido perdida até pouco antes de chegar aos ossos, devido à coloração diferente do resto do corpo. Pouco abaixo, no peito, duas marcas bem visíveis de cortes profundos que haviam se fechado com muita dificuldade, provavelmente feitos brutalmente por alguma lâmina afiada, sem piedade alguma. — A gente pode acabar assim também.
— Eu sei, mas eu sou teimoso e não quero voltar atrás. — Evan retrucou sem hesitar; perdido na beleza daqueles cabelos escarlate que ultimamente tanto passara a apreciar, vidrado no sorriso da moça que tanto se divertia na água ao lado de outro. — E você? Vai colocar o câmbio na ré e abandonar tudo? — Perguntou interessado, tentando descobrir suas verdadeiras intenções.
Os olhos do colega depressa correram até Sarah, para fitá-la ternamente. Ela estava um pouco afastada, empenhando-se em não ficar tão próxima dele para que não complicasse mais a relação que tinham, porém vê-la iluminada à meia-luz daquela lua cheia enquanto o vento balançava tão formosamente seus cabelos emaranhados e cheios de areia fazia seu coração palpitar. A achava magnífica.
— Eu acho que não conseguiria nem se eu quisesse. — Sussurrou, sem perceber que havia involuntariamente demonstrado um sorrisinho satisfeito. Deu de ombros e decidiu avizinhar-se dela, com o intuito de arrumar as coisas e conseguir ao menos continuar como seu amigo. Odiava que as coisas estivessem tão estranhas entre eles.
Evan suspirou desanimado e cruzou os braços, perdendo-se nos próprios pensamentos outra vez.
— O que foi? — Alex o interrompeu, acertando-lhe uma cotovelada no abdômen para irritá-lo. Ele simplesmente revirou os olhos, já acostumado com as abordagens mais agressivas dela.
— Você já se sentiu meio vazia por dentro quando começou a gostar de alguém? — Sua voz estava fraca; um tanto entristecida. Seus olhos novamente se perderam no horizonte, e foram parar em Pan como destino final. — Não só por gostar, mas sim por saber que não importa o que você faça, vai continuar invisível pra ela porque já tem alguém ocupando o lugar que você queria ocupar no coração dela?
— Sim, eu sei bem como é. — Retrucou decepcionada, voltando sua atenção à Sarah e Chris, que haviam se afastado há pouco e agora estavam juntos, dentro do mar, no meio de uma guerra de água como se existissem apenas eles dois no universo e nada mais ao redor. Antes que pudesse continuar a falar qualquer coisa, sentiu uma bola de areia acertar-lhe as nádegas e trazê-la de volta à realidade assim que sobressaltou com o susto. Quando olhou enfurecida para trás, deparou-se com Naoki, que tinha um sorrisinho vitorioso nos lábios.
— Não adianta me olhar com essa cara, Alex, é isso que dá ficar bobeando em uma zona de guerra. — Naoki provocou, abaixando-se para pegar mais um punhado de areia.
— Você quer morrer, seu nerd imbecil? — Ela rosnou, dispondo-se a correr em sua direção, fazendo-o partir em disparada para que não fosse pego e acabasse apanhando. — Volta aqui, babaca! — Vociferou, ouvindo-o gargalhar à medida que lutava para correr o mais rápido que conseguia.
Evan permaneceu sozinho apreciando a paisagem antes de dar de ombros e recolher seus pertences, optando por dirigir-se até a sua moto e voltar para casa. Não sentia que tinha motivos para continuar ali se todos os colegas estavam separados em casais e apenas ele não tinha ninguém com quem compartilhar momentos assim. Obviamente apreciava muito a companhia de todos, porém de tempos em tempos sentia-se solitário.
Já estava realmente tarde, afinal, e muitos haviam ficado surpresos com o tanto de ligações perdidas de seus pais estampadas na tela inicial do celular. Aquilo fora o estopim para que a noite acabasse e todos se despedissem alegres, no intuito de voltarem para casa também, sem vontade alguma de terminar aquele dia tão gostoso com um belo sermão de seus responsáveis.
Durante todo o trajeto até sua residência, Pan ficara tagarelando sobre o quanto amava o mar e de como havia sido uma boba por não tê-lo aproveitado antes, enquanto Sarah permaneceu pensativa, com o coração aliviado por ter finalmente resolvido as coisas com Chris após terem passado um bom tempo conversando. Ele deixou claro que respeitaria a sua decisão e o seu espaço pessoal, e que não insistiria mais naquela conversa que tanto a deixava desconfortável. Isso apenas fizera com que ela o apreciasse ainda mais, adorando em especial os momentos que dividiam juntos.
Após um longo banho para retirar todos os resquícios de areia e sal de seu corpo, Pan espreguiçou-se e decidiu descer até a cozinha para buscar um copo d'água antes de dormir, deparando-se com Hector fazendo exatamente o mesmo. Instantaneamente sentiu o coração falhar uma batida ao vê-lo; ansiosa por aproximar-se outra vez dele.
— Perdão, eu te acordei? — Aquela voz grave e cheia de presença dominou o ambiente. Ele sentou-se na mesa e apontou com o queixo para que a garota fizesse o mesmo.
— Não, eu acabei de sair do banho e fiquei com sede. — Comentou em tom baixo e acanhado. Não sabia o motivo de tanto nervosismo na presença daquele homem ultimamente, porém essa sensação nova causada por ele não a desagradava em nada. — Obrigada por hoje, eu me diverti muito. — Pegou um copo de leite gelado e abancou-se ao lado dele, bebericando um pouco do líquido para disfarçar a vergonha.
— Fico feliz que você tenha se divertido.
— E você? — Ela ousou perguntar, mesmo que já estivesse ciente da resposta. — Se divertiu?
— Eu sempre me divirto com você, senhorita Stracci. — Ele levou o indicador aos lábios, sinalizando para que ela mantivesse silêncio. — Mas ninguém pode saber disso, porque tecnicamente eu estava lá à trabalho.
— É sério? Você se divertiu mesmo? — Interrogou admirada.
— Por que a surpresa?
— É que você é sempre tão sério. A gente tem quase a mesma idade e você é tão diferente, parece muito mais adulto. — Admitiu, apertando o copo entre as mãos com certo receio de que ele pudesse acabar se ofendendo.
— É porque nós dois fomos criados de modos diferentes. Mesmo tão jovem eu já vi e vivi coisas que você não conseguiria nem imaginar, mas isso não me impede de passar um bom momento na praia com você. — Sorriu. Aquele sorriso tão sincero e calmo fez com que todas as preocupações dela se esvaíssem. Ele não estava ofendido, afinal. — Bom, aparentemente o seu pai que me ver amanhã cedo, assim que ele chegar de viagem, então eu acho que vou tentar dormir um pouco. Boa noite, Pan. — Levantou-se para lavar a louça que havia utilizado, guardando-a e direcionando-se até a escadaria.
— Hec? — Ela soou manhosa, chamando-o em meio ao silêncio antes que pudesse vê-lo se afastar muito. Ainda próximo, ele cedeu e obrigou-se a encará-la, aguardando pelas palavras que pronunciaria a seguir. — Eu acho que não consigo mais te ver como um irmão. Já faz tempo, na verdade, mas hoje eu confirmei, quando a gente se beijou. Isso muda alguma coisa entre nós dois? — Perguntou ansiosa, já dominada pelo nervosismo. Estava com muito medo de que ele pudesse ficar incomodado com a pergunta e que acabassem brigando como sempre faziam todas as vezes que ela dizia algo do tipo.
— Isso depende. — Caminhou em passos lentos até ela, colocando-se à sua frente e acariciando sua bochecha com o polegar. — Só vai mudar se você quiser que mude.
— Se eu quiser? Como assim? — Arqueou as sobrancelhas em surpresa.
— Quando descobrir, você mesma é quem vai me falar. — Sussurrou, beijando-a suavemente na testa antes de afastar-se outra vez. — Boa noite. — Despediu-se, desaparecendo entre as paredes de seu quarto após subir as escadas.
Que diabos ele estava falando? Droga, tudo o que ela mais queria naquele momento era segui-lo e pressioná-lo até que explicasse melhor aquela incógnita que havia deixado pairar no ar, porém sabia perfeitamente que nunca conseguiria convencê-lo a falar algo que ele realmente não queria. Isso fora o fator decisivo para que ela, mesmo que à contragosto, desistisse de tentar importuná-lo e fosse para a cama.
Fazia muito tempo desde a última vez que havia tido vontade de desenhar, algo que ela antigamente amava com todas as forças e que depois de alguns anos tornou-se um passatempo esquecido, porém naquela noite em especial, suas mãos se mexeram sozinhas para esboçar em seu caderno o rosto da pessoa com quem acabara de conversar, até que acabasse adormecendo com o lápis nas mãos.
Pela manhã, ela havia sido obrigada a despertar muito cedo graças à alguns vizinhos barulhentos que decidiram começar uma reforma, e obviamente haviam optado por fazê-lo enquanto o sol ainda estava tímido. Apenas conseguiu respirar aliviada por saber que seu pai não estava ali para se incomodar com aquilo, já que aquele sujeito repudiava sons incômodos, principalmente se feitos quando tentava dormir. Sempre dizia que acordar irritado era acordar para um dia improdutivo, e tudo o que Hans Stracci mais odiava eram dias improdutivos.
Sarah ainda estava adormecida, aparentemente muito exausta depois de ter sido acordada por Alex no dia anterior, então ela decidiu não despertá-la. Escovou os dentes e passou alguns segundos vidrada no rascunho inacabado que fizera na noite anterior da expressão carrancuda de alguém que conhecia muito bem, antes de descer para o café da manhã ainda cansada, bocejando enquanto procurava nos armários algo que aguçasse seu apetite após ter jogado o caderno sobre a mesa.
— Bom dia. — Hector a surpreendeu, cumprimentando-a de longe em sua língua nativa. Ela estava com tanta preguiça que nem ao menos reagiu ao susto, e ao invés disso, fitou-o e retribuiu aquelas palavras, esticando as mãos para cima e se espreguiçando. Os olhos dele se direcionaram até aquela folha desgastada e cheia de traços, conseguindo identificar sua própria figura ali. Ele franziu o cenho e instantaneamente aliviou a expressão, permitindo que os lábios se curvassem em um sorrisinho ladino. — Você voltou a desenhar depois de tantos anos?
— Ah, não era pra você ver ainda! — Fez biquinho, correndo até a mesa para colocar as duas mãos acima do desenho com o intuito de escondê-lo. Logo virou-o para baixo e desviou o olhar, um tanto tímida. — Eu sei que não tá tão parecido, você é bem mais bonito, eu juro, mas é que... eu não sei, você me inspirou e eu só quis te desenhar. Me desculpa.
— Eu já te disse o quanto eu gosto dos seus desenhos? — Avizinhou-se dela, retirando suavemente suas mãos de cima do caderno e puxando-o para si. — E do quanto eu gosto mais ainda que você pense tão bem de mim assim, senhorita Stracci? — Murmurou, diminuindo a distância entre eles para beijá-la na bochecha, deixando-a atordoada.
— E o que você vai fazer com esse caderno? Eu não terminei o desenho. — Pigarreou, empenhando-se em disfarçar o efeito inebriante que ele causava em seu ser.
— Bom, se tem o meu rosto nele, então é meu. — Sorriu maliciosamente. — Mas deixando isso de lado, o que te fez acordar tão cedo? Você costuma dormir bastante nos finais de semana.
— Eu não consegui dormir por causa do barulho lá fora, então eu vim comer alguma coisa, mas não achei nada que me desse fome. — Respondeu em um timbre arrastado e cheio de desânimo, ouvindo o estômago grunhir.
— E o que você quer comer? — Perguntou apenas por educação, embora já estivesse ciente da resposta.
— Croissants quentinhos. — Soou manhosa, quase como se fizesse um pedido.
— Com geleia?
— Com geleia! — Assentiu animada.
— Tudo bem, eu vou comprar. — Ele apenas riu, achando graça de como a conhecia tão bem. — Só preciso buscar o meu casaco e deixar isso bem seguro no meu quarto. — Balançou o caderno de rascunhos dela, demonstrando que agora o pertencia.
— Eu vou com você, quero comprar alguma coisa gostosa pro papai poder comer quando chegar. — Sentenciou alegre, não deixando transparecer que toda aquela agitação em seu interior era pelo fato daquele homem ter apreciado tanto a sua arte.
— Vamos, então? — Disse ao descer as escadas, apressando-se para abrir a porta e deixá-la passar antes de fechá-la.
Uma viagem de carro que não levara mais do que alguns poucos minutos fora o suficiente para que chegassem à padaria favorita de Hans. Todas as vezes que ela adentrava aquele local ficava maravilhada com as vitrines lotadas de pães quentinhos e de bolos confeitados que enchiam-lhe os olhos.
Depois de um bom tempo tentando convencê-la a não comprar metade da loja, Hector saiu carregando apenas um saco de croissants e alguns donuts recheados, rindo da expressão decepcionada que ela fizera ao ouvi-lo dizer que não precisavam de quatro bolos e duas tortas.
Próximos ao veículo, ela escutou alguns baixos ruídos que se assemelhavam à miados, e intrigada, encostou os joelhos no chão para agachar e olhar melhor, encontrando ali um pequeno gatinho preto escondido atrás do pneu frontal. Estava amedrontado, muito sujo e debilitado. Estendeu as mãos para puxá-lo, porém ele recuou ainda mais, impossibilitando que ela o alcançasse.
— O que foi? Você derrubou alguma coisa? — Hector questionou curioso, sem compreender o motivo de vê-la de bruços no meio da calçada.
— Tem um gatinho aqui.
— Um gato? — Ele franziu o cenho, colocando as mercadorias no banco de trás.
— Você acha que o papai vai se incomodar se eu levar ele pra casa? — Indagou esperançosa, fitando-o com olhos pidões.
— Eu não tenho como te garantir a reação dele, mas eu ouvi dizer que ele teve um gato quando mais novo, então não deve ter aversão à animais.
— Me ajuda a pegar ele? Tá bem pertinho do seu pé, ali atrás do pneu. — Pan requisitou, quase como se lhe suplicasse. Sabia perfeitamente que um homem tão sério e desinteressado como ele jamais se submeteria à uma situação dessas, mas não custava nada tentar, certo?
— Sim, eu pego ele pra você. — Concordou quase que instantaneamente, desabotoando seu sobretudo e colocando-o acima do carro. Ela surpreendeu-se ao vê-lo tão despreocupado e debruçando-se no meio da rua para atender aos seus pedidos. Definitivamente não era algo que ele normalmente faria, porém estava muito mais compreensivo de alguns tempos para cá, e isso aquecia-lhe o coração.
— Conseguiu? — Questionou aflita, tentando acompanhar com os olhos o que acontecia abaixo do veículo.
Foram poucos segundos após sua fala até que o visse levantar-se segurando o felino especificamente na pele de sua nuca, proibindo-o de arranhá-lo. Sinalizou para que ela adentrasse o carro e assim que a viu acomodada, entregou-lhe o gato nas mãos. Era um filhote muito carrancudo; muito arisco, que rapidamente tentou escapar ao mostrar as garras e esconder-se entre os pés dela, abaixo do banco do passageiro.
— Só um instante, o seu pai ligou. — Hector alertou, retirando-se do carro para retornar àquela chamada sem que ela ouvisse. Não sabia qual seria o assunto, portanto era melhor prevenir que sua protegida acabasse por escutar algo que não deveria. Depois de alguns minutos voltou até o banco do motorista com um semblante sério e colocou a chave na ignição. — Vamos? — Averiguou se ela estava bem acomodada, recebendo uma resposta afirmativa.
— Ele parece um pouco com você, Hec.
— Quem? — Arqueou as sobrancelhas e observou-a com estranheza, aguardando até que o semáforo abrisse. — O gato?
— Sim. — Ela riu. — Você também vive vestido de preto, é arisco e não deixa ninguém se aproximar.
— Nesse caso você não precisa se preocupar. Se ele é tão parecido comigo, uma hora você vai conseguir se aproximar, porque ele não vai conseguir resistir à sua chatice por muito tempo. — Provocou, vendo-a reclamar.
— Aliás, o que o papai queria? Tá tudo bem?
— Era o Sandro com o telefone do Don. Ele queria me avisar que o seu pai já chegou e está me esperando no escritório.
— O quê? Ele mal chegou e a primeira coisa que ele faz é te chamar pra discutir alguma besteira sobre trabalho? — Bufou, sentindo uma leve pontada de ciúme. Queria muito que seu pai tivesse tanta vontade assim de vê-la, da mesma forma que tinha de passar serviços ao seu braço direito. Hector apenas forçou um sorriso e suspirou, já com uma ideia do motivo pelo qual havia sido chamado.
Com o carro estacionado em frente à casa, ela demorou alguns minutos para conseguir descer, após sofrer um pouco para dominar o gatinho. Hector permitiu que ela ficasse na companhia de Alice e Sandro, que foram recebê-la sob ordens de Hans para a mantê-la fora de casa pelas próximas duas horas, antes de sair para encontrar-se com seu chefe. Respirou fundo e adentrou o escritório, vendo-o de costas atrás de sua escrivaninha enquanto fumava um charuto de sua marca favorita.
— Feche a porta, garoto. — Sua voz imponente dominou todo o recinto, modificando a atmosfera ali. Pela entonação nada agradável de sua fala, ele compreendera muito bem que, provavelmente, não sairia ileso daquela conversa.
— Sim, senhor.
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