Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
43 Despedidas
Notas iniciais
Hector obedeceu sem pestanejar, alcançando a maçaneta e girando-a até que fizesse desaparecer a última fresta de luz na lateral daquela enorme porta de madeira que separava o escritório da sala principal, sentando-se aonde seu chefe indicara com o queixo e cruzando as pernas em formato de quatro, colocando o pé direito acima do joelho esquerdo. O Don apenas abancou-se ao seu lado e ofereceu-lhe um charuto, que ele humildemente aceitou e acendeu entre os dentes.
— Obrigado. — Murmurou, guardando o isqueiro no bolso depois de usá-lo.
— Eu presumo que você já saiba o motivo de estar aqui, certo garoto? — Indagou ao franzir o cenho, buscando na mesa um copo para servir a si mesmo uma dose de uísque. Aparentemente estava muito mais calmo do que na noite anterior, e o fato de ter passado algumas boas horas dentro de um avião discutindo com a esposa sobre sua decisão decerto o tivesse feito repensar o que deveria realmente fazer. Seu braço direito tinha sim uma breve noção sobre o tópico daquela conversa, porém decidiu não arriscar iniciar o assunto e apenas acenou negativamente com a cabeça, aguardando por uma explicação. — Entendi. — Levou o copo aos lábios, observando cautelosamente todo e qualquer movimento daquele homem. — Mesmo assim, eu sei muito bem que você conhece as regras dos homens de honra. Especificamente, eu digo, a que cita a nossa falta de tolerância com aqueles que cobiçam as mulheres relacionadas à outros membros da famiglia?
— Sim, eu as conheço bem. — Retrucou hesitante, deixando escapar a fumaça de seus pulmões. Agora já compreendia perfeitamente o rumo que o diálogo estava tomando.
— Eu realmente pensei que seria você, sabe? — Hans arrumou a postura e encostou por completo o torso na poltrona, com seu charuto enter os dedos. Hector arqueou as sobrancelhas em confusão, tentando adivinhar o significado por trás daquelas palavras. — Que assumiria a família quando eu morresse. — Acrescentou, sanando todas as suas dúvidas. Ele jamais imaginaria ouvir algo assim de seu Don, portanto a expressão surpresa que instantaneamente surgiu em seu rosto fora inevitável. — O que foi? Você não concorda comigo que Hector Stracci soa bem? — Esboçou um sorrisinho fechado, bebericando outro gole do líquido alcoólico servido.
— Eu só não esperava escutar isso. — Admitiu receoso. Não queria ofendê-lo, porém naquelas circunstâncias era inadmissível que mentisse. — Eu sempre considerei o Sandro um homem muito mais competente, e além disso, tem vários outros com muito mais experiência. — Alegou.
— O Sandro nunca quis ser mais do que o meu consigliere. Ele é um homem confiável, muito esperto, mas não serve para ser o Don porque tem um coração muito mole. Você, por outro lado, é um dos melhores no que faz. Melhor até mesmo do que eu era na sua idade. — Tragou uma baforada do tabaco que tinha entre os dedos e seguiu: — A Alice nunca me deu um herdeiro homem, e eu nunca obrigaria ela a isso, de qualquer forma, então me contentei em viver sem um sucessor porque eu sempre soube que não ia querer esse tipo de vida para a minha menina. Até você aparecer, pelo menos. Eu sempre pensei que seria você, garoto, e eu nunca tive obrigação nenhuma de te ajudar. Seus pais não eram nem conhecidos meus, então eu não tinha motivos para isso, mas mesmo assim eu te acolhi e transformei aquela criança do campo que não era ninguém em um homem respeitável, e em um assassino habilidoso. Um dos melhores, eu diria, e não como o incompetente que matou sua família. — Concluiu, e Hector prontamente cerrou o punho ao lado da perna de maneria imperceptível, um pouco abalado com as memórias que lhe invadiram a mente. Sabia muito bem que Hans não era o tipo de sujeito que demonstrava empatia, porém o modo que falara tão casual e desdenhosamente sobre o homicídio de seus pais o havia lhe causado certo incômodo.
— É verdade. — Pigarreou, mantendo-se firme. Perder a calma por uma besteira daquelas não seria aceitável nessas circunstâncias. — Eu sou muito grato por tudo o que o senhor fez por mim, meu Don.
— É muito grato? — Rumorejou sorrindo; um sorriso irônico, talvez até mesmo sádico. — E é assim que você me demonstra sua gratidão? Desobedecendo minhas ordens e colocando essas mãos ensanguentadas na minha filha que eu tanto lutei para manter fora do nosso mundo? — Questionou frustrado, em tom firme e seco, mas deu de ombros e tomou um gole de seu drinque antes de continuar: — Eu te perguntei milhares de vezes sobre a sua relação com a minha menina, e você negou com todas as forças ter sentimentos por ela. Se você tivesse sido um homem minimamente decente a ponto de entrar aqui, me pedir licença, sentar nessa cadeira e admitir tudo, então provavelmente você estaria na Sicília agora, ou então em Nova Iorque trabalhando com algum dos meus capos, isso se eu não te fizesse um em outro território, mesmo sendo tão jovem. Eu nunca aceitaria que você ficasse com a minha filha, e você precisa me dar razão nisso, garoto, porque eu já te vi picotar e enterrar cadáveres de mulheres da mesma idade ou até mesmo mais jovens do que ela sem remorso algum nessa sua cara lavada. Que tipo de pai seria louco a ponto de deixar a própria filha namorar um sujeito assim? — Ele agora havia mudado por completo o seu semblante. Exibia uma aura arrependida; melancólica, até mesmo pesarosa. Talvez estivesse com dúvidas quanto ao seu julgamento? Talvez Hans Stracci estivesse hesitando devido ao carinho que nutrira pelo rapaz durante todos os anos em que o criara como se fosse de seu próprio sangue? Sabia perfeitamente que eram altas as probabilidades de estar preso ou morto nesse instante se não fosse por ele, mas como poderia tratá-lo de outra forma senão a que havia tratado todo e qualquer outro membro que ousara desafiá-lo e quebrar algumas regras? Seria injusto; inaceitável. Ele era o Don, e um Don não pode ter preferências dentro da própria família.
— Eu não consigo discordar. Nunca me achei digno da Pan e sempre entendi muito bem que não era um homem decente, mas eu gostaria de dizer, se me permite meu Don, que eu nunca pensei em ceder. Pensei que tivesse mais autocontrole, ou que ao menos seria capaz de continuar com minha rotina de trabalho sem acabar passando dos limites, mas eu fui fraco. Eu desonrei os meus próprios princípios e a imagem da famiglia assim que cai em tentação. — Respondeu cabisbaixo, como se em sua mente estivesse passando um filme sobre toda a sua vida patética. Sentia-se um tolo; um verdadeiro incompetente em todos os sentidos da palavra. Que diabos fizera em tantos anos de treinamento psicológico para não ceder sob tortura e acabar sendo incapaz de de resistir aos sentimentos que tinha por uma garota? Pior ainda, por alguém que não tinha nada em comum com sua pessoa; por uma menina completamente oposta à sua natureza sanguinária, e que para piorar as coisas, era a primogênita de seu chefe. Era a maldita protegida e queridinha daquele indivíduo, ou seja, a única pessoa do universo que estava fora de seu alcance. Seria esse o carma falando mais alto e rindo bem na sua cara ao fazer dessa a sua punição por ter retirado tantas vidas?
— O seu problema foi ser covarde. Se você estivesse apenas atraído pela minha menina eu não me importaria. Não sou um homem cego, e entendo perfeitamente que você não é um psicopata incapaz de sentir qualquer coisa, mas sim um moleque que não teve outra opção senão a de se entregar ao mundo do crime para não morrer de fome ou então nas mãos daqueles assassinos. Fui eu quem te trouxe para esse mundo, então eu sei muito bem. — Seu chefe murmurou manso. Realmente parecia estar confuso nos próprios pensamentos, possivelmente debatia consigo mesmo à todo instante por não saber qual decisão deveria tomar. Seria essa uma das raras ocasiões em que Don Stracci não bateria o martelo com uma sentença da qual tivesse completa e absoluta certeza? — Além disso, eu sou um homem muito ocupado, então você acha mesmo que eu teria pego um avião às pressas para estar aqui tão cedo apenas por causa de um beijo entre duas crianças? — Aqui ele negou com a cabeça, respondendo à própria pergunta. — Por favor, eu beijava meus irmãos nos lábios, às vezes a minha mãe, meus primos e tios, e isso nunca foi um problema pra nós. Era como um cumprimento na minha época. Por isso, eu talvez te daria uma bronca, um tapa no rosto e depois um abraço para demonstrar que eu te perdoaria sem problema algum, mas eu não estaria aqui perdendo o meu tempo com isso. Eu nunca perderia mais do que alguns minutos com um assunto tão trivial. — Completou.
Hector arregalara um tanto os olhos, ainda mais perdido do que antes. Imaginava que, talvez, a sua ousadia em desobedecer as ordens de seu chefe e aproximar-se de sua primogênita seria sua ruína, porém não parecia ser esse o caso. Observou-o calmamente, e o viu virar todo aquele copo para servir-se outra vez com mais uma dose de álcool depois de ter brutalmente deixado deslizar uma boa quantidade por sua garganta, fazendo uma careta desgostosa com o amargor e a ardência do líquido. Era estranho, no entanto. Aquele homem jamais se permitiria embebedar-se, mas mesmo ele se continuasse naquele ritmo tão acelerado poderia acabar perdendo a noção.
— Então... — o jovem pigarreou e desviou sua atenção, não querendo parecer indelicado ao fitá-lo com espanto. — O meu relacionamento com a Pan não é o problema aqui? — Ousou questionar. Não era vergonha admitir ter dúvidas sobre o rumo da conversa, certo?
Errado. A mudança súbita no semblante de Hans deixara claro que não havia gostado nada daquela indagação. Por sorte, estava prestando atenção em todo e qualquer movimento de seu chefe, até mesmo os mínimos detalhes, sendo possível perceber seu desconforto ao vê-lo apertar os dedos contra o copo de modo muito sutil. Depois de alguns segundos ele soltou delicadamente o objeto na mesa, sem deixar transparecer mais de sua irritação.
— Você mudou, garoto. — Esclareceu, apagando o charuto no cinzeiro antes de voltar a falar. Odiava ter que continuar a segurar o tabaco quando já o tivesse queimado até mais de sua metade. — E por mais que eu, como um Don, ache que é uma mudança negativa, na realidade não é. Se eu não fosse seu Don eu ficaria orgulhoso. Você amoleceu de um jeito que passou a se recusar a seguir ordens, que te fez tão cego a ponto de deixar minha filha ser sequestrada por não ter coragem de matar na frente dela. Eu entendo isso, também não ia querer que minha menina me visse matando alguém, mas a segurança dela sempre vem em primeiro lugar, e quando você hesitou em puxar o gatilho bem no meio dos miolos daquele desgraçado do Vincenzo, a minha filha foi levada, e em consequência eu fui baleado por ter sido obrigado a convocar uma reunião entre os chefes de todas as famílias para limpar essa sujeira. Você falhou como assassino, falhou como meu braço direito e falhou como guarda-costas dela. Essa sua moleza te fez fraco, garoto, e eu não posso confiar a minha vida ou a vida da minha família nas mãos de um homem fraco. Mesmo assim, eu espero que entenda que não é nada pessoal, são apenas negócios.
— Sim, eu entendo. — Assentiu desanimado. Quando vira seu chefe levantando-se em direção à sua escrivaninha, já sabia com exatidão o que faria. Ele pegaria aquele revólver que sempre deixava trancado na primeira gaveta, miraria em sua cabeça e puxaria o gatilho no instante que a trava fosse liberada. Sim, estava amedrontado em seu interior, pois afinal, que pessoa não ficaria afetada ao saber que sua morte estava por vir? Quem não temia o desconhecido? Porém já havia aceitado seu destino e não contestaria, nem tentaria fugir. Era o mínimo que poderia fazer para demonstrar que, apesar de tudo, ainda seguia leal ao seu chefe. Se fosse para morrer, então que fosse pelas mãos do homem que havia salvado sua vida e tinha todo o direito de retirá-la se assim quisesse.
— Afinal, eu não posso deixar pontas soltas, não posso correr riscos, e você sabe muito, já viu muito. — Murmurou, fazendo precisamente o que ele já sabia. Estava com a arma nas mãos, olhando-a em hesitação, quase como se o estivesse pedindo para tentar fazê-lo mudar de ideia sobre isso. Obviamente não conseguiria permitir que seguisse na família trabalhando para ele, já que após tudo isso os serviços do rapaz não eram mais vistos da mesma maneira pelos outros nomes que comandavam sob o nome Stracci, porém ainda assim, parte dele queria vê-lo tentar fugir. Deixá-lo sair vivo dali seria perigoso, no entanto. O que não faltava para ele eram provas e testemunhas sobre os feitos da famiglia, pois afinal, quem era o único que sabia como se livrar com maestria de um cadáver em questão de minutos? E, bom, se era tão fácil assim para ele escondê-los, seria muito mais fácil trazê-los à tona outra vez para que se vingasse. — Me dói muito ter que fazer isso com o menino que eu um dia considerei meu sucessor, mas eu tenho uma obrigação como o chefe dessa família e não posso ser injusto com os outros que morreram antes por muito menos do que você.
Do lado de fora, por um infortúnio Pan havia deixado o novo integrante da família escapar outra vez dentro do veículo, o que acabou por impedir que Sandro e Alice a retirassem da casa nos últimos minutos, embora estivessem impacientes. Ela o havia tentado capturar inúmeras vezes, porém era muito arisco e esgueirava-se por baixo dos bancos, acima dos painéis e a obrigava a movimentar-se de um lado para o outro. Já estava extremamente cansada; ofegante por tê-lo perseguido durante todo o tempo, e também devido ao clima quente.
Quando finalmente conseguiu alcançá-lo, tomou a precaução de segurá-lo da forma que Hector lhe havia ensinado para não acabar sendo arranhada pelo filhote e se dirigiu até o interior da casa, com o intuito de acomodá-lo em algum lugar antes de sair tranquila, como os adultos pareciam desejar. Estava tudo tão quieto e ela sentia falta de seu pai, então não custava nada usar o gatinho como desculpa para vê-lo, certo? Se acabasse ficando bravo pela intromissão em sua provável reunião de negócios, então ela poderia simplesmente dizer que tinha um motivo para adentrar ali. O felino já estava mais calmo e não demonstrava sinais de que a machucaria, portanto o segurou carinhosamente nos braços e partiu em direção ao escritório sem aviso prévio, abrindo a porta com uma animação contagiante que se esvaíra instantaneamente no segundo que se deparara com uma cena nada agradável. Seus olhos arregalaram-se em um susto, e a força de seus membros parecia não querer voltar ao corpo; o animal até mesmo saltara até o chão por não conseguir mais sentir firmeza na superfície de pele que tinha abaixo das patas, escondendo-se sob uma das poltronas da sala principal assim que ela vira seu progenitor apontando um revolver à cabeça de Hector, esboçando uma expressão que apesar de remorosa e cheia de dúvidas, não deixava a desejar na frieza; era a expressão de alguém que não dava importância alguma à vida humana, e provavelmente a única que ele jamais queria ter mostrado à sua querida filha.
— Papai? — Seu timbre soou espantado e fraco; os olhos já marejados e a garganta fechada pelo choro que não demoraria muito para tomar conta de seu rosto ao escorrer.
— Bambina? — Instintivamente recuou a arma e a escondeu atrás do corpo para mascarar suas verdadeiras intenções, embora soubesse que, por sua feição tão devastada, ela já havia percebido. Não tinha momento pior para ser surpreendido por sua protegida. O que pensaria dele agora? A amava com todas as forças, e não queria de modo algum que ela o odiasse, ou pior, que tivesse na mente a sua imagem gravada como a de um assassino que retirara a vida de alguém que ela considerava importante. — Não é o que parece, eu te prometo.
— "Não é o que parece", Hans? — A voz irritadiça de Alice fez-se audível assim que encostou-se no batente da porta para fitá-lo com decepção. Seus olhares se cruzaram e ele compreendeu que talvez houvesse perdido a confiança das duas pessoas que mais amava, já que afinal, sua esposa havia deixado muito claro que não era a favor da morte do rapaz. Embora estivesse ciente sobre sua posição como um Don, considerava que como um pai deveria ao menos ponderar os sentimentos de sua filha antes de sua honra ao menos uma vez na vida. — Eu não consigo acreditar nisso. Quer dizer, não é como se eu esperasse alguma coisa vinda de você, eu sabia que tinha me casado com um criminoso desgraçado e sem coração, mas eu pensei que ao menos a nossa filha te faria ter um pouco de empatia. É ridículo como eu me deixei ser enganada por essa sua cara lavada e esse seu teatrinho de bom pai e marido. — Concluiu em tom desdenhoso, deixando sair toda a sua frustração guardada. Não era costumeiro que acabasse por mostrar suas emoções, então a surpresa de todos fora inevitável, em especial no instante que saíra caminhando em passos pesados em direção ao seu quarto, sem aguardar por uma resposta. Era como se não conseguisse mais encará-lo.
— Alice! — Hans vociferou, na esperança de que não fosse ser ignorado. Ao ver que não seria bem assim, ele suspirou e passou a mão entre os cabelos, sentindo sua paciência fugir. Pan estava assustada e havia corrido para os braços de Hector, sendo ternamente confortada para amenizar sua tristeza ao presenciar toda aquela discussão. Ele tentou justificar-se para sua filha, porém no minuto que sequer pensou em abrir os lábios para começar a falar, ela afundou a face nas vestes do homem que a tinha abraçada e desviou o olhar, deixando claro que não queria vê-lo. Não era um bom momento para forçá-la, portanto apenas deu de ombros e saiu atrás de sua cônjuge enfurecida, encontrando-a nas escadarias. — Alice, eu juro que se você não parar agora, eu vou...
— Vai o que, Hans? — Indagou como se o estivesse desafiando a completar aquela frase, cessando os passos em meio aos degraus para encará-lo decentemente. — Ou então eu deveria te chamar de Don Stracci e beijar as suas mãos para mostrar que sou submissa também? — Ironizou, desafiando-o novamente. Sabia que estava colocando as mãos no fogo, porém não era o tipo de mulher que recuava depois de começar uma briga. Quando batia os pés por uma questão, continuaria até que vencesse ou acabasse morta.
— Você sabe muito bem que eu não posso ter preferências dentro da famiglia. — Explicou após titubear, avizinhando-se lentamente para averiguar o quão estava arisca. Ela não se mexeu, e simplesmente esperou até que ele continuasse a falar: — Eu não posso ser fraco, porque você sabe o que acontece com quem tem uma fraqueza quando ocupa o meu posto. — Disse firme.
— Não precisa ser fraco. Você nunca foi, e sabe muito bem disso, mas também não precisa ser um cretino negligente igual ao seu pai. — Argumentou, constatando uma leve mudança em seu semblante ao vê-lo franzir o sobrolho em frustração. Se tinha uma existência naquele universo miserável que Hans Stracci amaldiçoava com todas as forças era a de seu pai, e ele havia jurado a si mesmo que, quando ocupasse o posto de Don, não seguiria os passos do sujeito mais desumano e impiedoso que já conhecera. Ser comparado à ele não lhe agradava em nada. — Você vai precisar decidir agora o que é mais importante. Ser o Don Stracci ou então ser o Hans Stracci. — Sentenciou, encarando-o com desgosto, quase como se já soubesse da resposta antes mesmo de ouvi-la.
— Me pedir isso é uma covardia, Alice. — Rosnou, prontamente arrancando um suspiro decepcionado dos lábios de sua esposa. Era óbvio que escolheria sua amada máfia, certo?
— Ah sim, mil perdões exigir tanto de você, Don Stracci. — Ralhou, ironizando seu título ao encenar uma falsa reverência que se fazia apenas na presença de uma figura da realeza.
Quando virou-se para sair e encerrar aquele diálogo nada agradável, sentiu-o segurar fortemente o seu pulso, proibindo que se afastasse e obrigando-a a olhar diretamente em seus olhos que esbanjavam sinceridade antes de acrescentar:
— Você não pode me pedir isso, porque eu me sinto um Don patético ao saber que eu não pensaria nem por um segundo ao escolher as mulheres da minha vida antes de qualquer coisa. — Soou arrependido, vendo-a esboçar surpresa e amaciar toda sua raiva. Estava certa de que jamais faria aquela escolha, porém novamente encontrou-se sendo atordoada pelo marido. — Mas você precisa entender o meu lado. — Seguiu, trazendo-a de volta à realidade. — Se eu deixar o garoto continuar a trabalhar normalmente pra mim sem punição alguma, então isso vai se tornar um problema. O que você acha que aconteceria?
— Eu entendo o seu lado como o chefe dessa família, e sei que como tal você vai ter que tomar uma decisão ou outra que talvez acabe te causando arrependimento pelo resto da vida. — Respondeu em timbre baixo e complacente, soltando a mão dele de seu pulso e entrelaçando seus dedos como há tempos não fazia. — E é por isso que eu estou aqui, pra te ajudar a tomar a decisão certa que te faça conseguir fechar os olhos tranquilamente quando colocar a cabeça no travesseiro à noite.
— Eu posso acabar morto ou preso por deixar ele ir assim. Você sabe disso, não sabe?
— Se você acabar morto eu vou te enterrar e fazer um funeral grandioso, com todas as honras que você merece, e se for preso eu faço questão de planejar pessoalmente a sua fuga do país. — Zombou, obrigando-o a demonstrar um sorrisinho satisfeito mesmo após toda aquela briga.
— E eu é quem sou o criminoso sem coração? Você é uma cretina, Alice. — Disse risonho, afastando-se dela para alcançar as chaves do carro na mesa da sala principal antes de fechar o semblante e determinar: — Ele tem duas horas para sumir da minha frente. Vou me encontrar com um dos nossos fornecedores de armamento que chegou hoje ao país, e quando eu voltar não quero ver a cara dele por aqui.
— Hans...
— É o meu veredito final. — Retrucou ríspido, fazendo-a recuar os ombros. Sabia muito bem que apenas ter conseguido mudar a ideia inicial daquele indivíduo era um milagre e tanto, então não seria prudente tentar abusar da sorte. — E eu espero não me arrepender amargamente mais tarde. — Concluiu, apressando-se em sair da casa.
Alice o observou passar pela porta principal e logo decidiu que contaria as notícias à Hector. Ele tinha um tempo limite de apenas duas horas, afinal, e continuar postergando aquilo decerto realmente o faria acabar morto. Estava em silêncio, um tanto sem graça enquanto segurava sua amada que já havia encharcado sua camisa de lágrimas, assustada com a atitude do pai e com toda a gritaria das discussões mais recentes. No instante que cruzou olhares com a mãe da garota que adentrara o cômodo, afastou-a com rapidez e pigarreou, disfarçando o quão estava gostando daquilo para não acabar complicando ainda mais as coisas.
— Nós dois precisamos conversar, ragazzo. — Alertou, recebendo um aceno afirmativo em resposta.
O assassino sutilmente sussurrou para sua protegida que tudo ficaria bem e beijou-lhe na bochecha antes de sair em direção àquela mulher, seguindo-a até seu quarto aonde se trancaram para que não fossem interrompidos durante a reunião.
Sarah havia acordado com tanto alvoroço, prontificando-se a correr até sua considerada irmã e confortá-la ao perceber que não estava bem. Vez ou outra ela tentava explicar o que ocorrera ao balbuciar com dificuldade em meio ao choro, porém a maioria das palavras que dizia eram incompreensíveis.
— Vem, eu vou te servir um pouco de água e ver se consigo te fazer comer alguma coisa. — Exprimiu, segurando em sua mão para levá-la até a cozinha e obrigá-la a ingerir o croissant com geleia que comprara mais cedo, acompanhando-a durante a refeição. Não lhe faria bem passar tanto estresse de estômago vazio, e muito menos continuar sofrendo sozinha até que alguém viesse sanar sua dúvida sobre as verdadeiras intenções de seu pai.
Já mais calma e com as lágrimas secas, Pan decidiu apresentar o gatinho à amiga, encontrando-o abaixo de uma das poltronas na sala principal, ainda encolhido e amedrontado. Para deixá-lo mais à vontade, pegou-o no colo e o levou até seu quarto, fechando todas as janelas e portas do local. Ficaram juntas ali em silêncio por pelo menos quarenta minutos, tendo como passatempo observá-lo caminhar e cheirar curiosamente todas as coisas que encontrava pelo caminho, até que fossem surpreendidas pela aparição de Alice e Hector na entrada.
— Sarah, querida, vem aqui fora comigo por alguns segundos me ajudar em uma coisa, sim? — Alice requisitou, deixando claro que deveriam deixá-los sozinhos. Precisavam conversar e resolver todos os assuntos pendentes que tinham, então não seria ela a atrapalhá-los. Apenas concordou e acompanhou-a após passar suavemente uma das mãos no ombro de Pan, que parecia não ter nem ao menos percebido por estar vidrada naquele homem, fitando-o cheia de dúvidas e remorso.
— Como você está? — A voz dele soou preocupada. Quando a viu desviar o olhar até os pés, aproximou-se um pouco e colocou ternamente a mão em sua bochecha, acariciando-a suavemente com o polegar. — Olha pra mim. Provavelmente vai ser uma das últimas vezes que você vai poder fazer isso. — Disse melancólico, sem fazer questão alguma de esconder o semblante entristecido.
— Por que você disse isso como se a gente nunca mais fosse se ver? — Questionou aflita, agora fitando-o diretamente nos olhos e assegurando-se de memorizar cada detalhe daquele rosto que lhe era tão familiar, porém ao mesmo tempo tão distante e misterioso. No minuto que o viu suspirar como se estivesse prestes a anunciar péssimas notícias, seu interior fora contagiado pela tristeza. — Hec? — Insistiu assustada, esperando desesperadamente por uma resposta que a acalmasse e a convencesse de que tudo ficaria realmente bem.
— Eu fiz algumas coisas que eu não deveria, Pan, então eu não posso mais continuar aqui com você.
— Não! — Negou com a cabeça, um tanto exaltada. — Eu sei que você e o papai brigaram, mas tá tudo bem. Vocês já brigaram várias vezes e sempre se entenderam no fim, então vai dar tudo certo outra vez. — Tagarelou, recusando-se a acreditar que aquele era o veredito final. Provavelmente nem ao menos conseguira perceber que estava involuntariamente apertando com força as laterais do terno dele, tentando obrigá-lo a ficar mesmo que não pudesse.
— Eu e o seu pai... — hesitou, limpando a garganta antes de acrescentar: — nós dois temos algumas diferenças que não vão se resolver, então preferimos não seguir trabalhando juntos.
— É por isso que ele queria te matar? — Perguntou insegura, mordendo os lábios para disfarçar. Dizer aquilo em voz alta tornava tudo tão real que a fazia estremecer.
— Nós discutimos, é verdade, mas ele não ia me matar. Você só entrou em um momento que deu margem para outra interpretação, tudo bem? — Mentiu, quase como se estivesse tentando enganar uma criança. Não queria vê-la sofrer tanto, e muito menos que acabasse guardando rancores pelo próprio pai apenas por sua culpa. Ao ouvi-lo falar que estava errada, afrouxou as mãos em suas vestes e voltou a fitá-lo com aqueles enormes olhos brilhantes, um pouco avermelhados e inchados devido às lágrimas que derramara anteriormente.
— Verdade? — Rumorejou esperançosa.
— Sim, é verdade. Eu já menti pra você? — Indagou carinhosamente, ficando satisfeito ao testemunhá-la assentindo em negação, agora forçando um sorriso aliviado no rosto. Talvez havia funcionado e ela agora pensasse que seu pai era inocente, certo? — Tudo bem, então. Eu não tenho muito tempo, só vim me despedir.
— Quanto tempo você vai ficar fora dessa vez?
— Eu não vou voltar. — Suspirou, decepcionado com o fato de não conseguir fazê-la entender que era realmente uma despedida definitiva, e não algo temporário.
— Mas eu preciso de você aqui.
— Engraçado. Não era você quem vivia reclamando da minha presença? — Sorriu, bagunçando seus cabelos para provocá-la. — Que eu saiba, até pouco tempo a senhorita não queria um guarda-costas.
— Eu me acostumei a ter você por perto. Seria estranho não ter você aqui, Hec. — Explicou manhosa, fazendo-o fechar o sorriso e suspirar uma vez mais.
— Você vai se acostumar com a próxima pessoa que ocupar o meu lugar também. Provavelmente o incompetente do Diego.
— Não! Tem que ser você! — Retrucou, cruzando os braços para fazer birra.
— Por quê? Ele tem quase a sua idade, vai ser mais fácil de se aproximar.
— Eu não sei, mas tem que ser você. — Aqui ela diminuiu o tom de voz, sentindo seu interior esquentar. — Eu não quero mais ninguém além de você. — Murmurou acanhada.
— Mas que merda, Pan? — Rosnou entre dentes, passando a mão entre os cabelos para esconder seu nervosismo. — Você não pode falar essas coisas quando eu estou tentando me despedir. — Respirou fundo, recompondo-se para não permitir que ela tomasse conta de seu ser.
— Por que não? Eu só fui sincera...
— Porque eu te amo, porra! — Vociferou, perdendo o controle de seu tom de voz. No instante que aquelas palavras saíram de sua boca, Pan sobressaltou com o susto ao vê-lo tão alterado. Ele respirou fundo novamente e pôs-se a andar em círculos, ainda forçando os dedos entre os cabelos, agora com mais força. — Merda, não era pra ter sido assim, você... — hesitou, engolindo seco antes de fitá-la com angústia. — Você merecia algo melhor, uma declaração romântica, algo decente, e não... bom, não isso. — Comentou decepcionado.
— Não, é perfeito. — Exprimiu delicadamente, avizinhando-se dele com timidez. — Combina com você.
— Perdão por jogar os meus sentimentos assim. Eu sei perfeitamente que por enquanto você não consegue e nem sente o mesmo que eu, mas... — emoldurou suavemente seu rosto com as mãos, abaixando o tom de voz ainda mais — se algum dia você estiver disposta a retribuí-los, então eu vou fazer de tudo para conseguir ficar do seu lado se for possível. Mas você precisa ter certeza do que quer, Pan, e entender que um relacionamento comigo também é uma relação eterna com o meu trabalho.
— Hec... — Ela o chamou em um sussurro, fechando os olhos e puxando-o pela camisa com o intuito de aproximá-lo, indicando que tinha passe livre para beijá-la.
Ciente de que provavelmente não se veriam mais e guiado pelo luxo de saber que pela primeira vez estavam realmente sozinhos, Hector decidiu ceder às próprias vontades e colar os lábios nos dela em um beijo intenso, transmitindo todas as suas inseguranças e sentimentos adormecidos que há instantes teve coragem de deixar vir à tona assim que deslizara uma das mãos pelas costas da moça para puxá-la com firmeza pela cintura. Ela soltou um leve grunhido de prazer ao ter a língua acariciada pela dele, pegando um punhado do tecido de sua roupa entre os dedos involuntariamente.
Quando se separaram, fitaram-se por alguns instantes que mais pareceram uma eternidade; uma quebra no espaço-tempo que fazia parecer como se o relógio tivesse parado, até que fossem trazidos de volta à realidade pelo soar do telefone, indicando o nome de Alice e também o fim de seus momentos ali.
— Eu preciso que você queira estar comigo por sentir o mesmo, e não por estar acostumada com a minha presença ao seu lado. — Afastou os cabelos dela de seu rosto, beijando-a mais uma vez, agora na testa, como um gesto final de despedida. — Addio, principessa mia. — Sussurrou com dificuldade, quase engolindo aquelas palavras antes de sair por aquela maldita porta e deixá-la para trás, atordoada.
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