Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
12 Reencontro indesejado
Notas iniciais
O trajeto de volta para casa estava silencioso, sendo possível apenas ouvir o zunido que havia dominado suas audições devido à música alta do show. A brisa da noite trazia consigo um certo tom de amargor, que era nada mais do que o gosto da insegurança presente nos pensamentos de Hector. Indignado com suas próprias ações, não ousava nem ao menos olhar para trás, ciente de que Pan estaria culpando a si mesma sem motivo algum. Culpava-se por não conseguir exercer corretamente a sua função de protegê-la, e principalmente por ter permitido que suas emoções transparecessem em meio ao trabalho. Era inconcebível que isso acontecesse, mas ouvi-la dizer que outro homem a havia tocado talvez tivesse acordado algo dentro de si; algo que ele nem ao menos sabia que existia até o momento.
— Escuta, Hec. — Ela chamou por seu nome, obrigando-o a cessar seus movimentos. — Me desculpa por te dar tanto trabalho. — Aquela voz fraca e cheia de arrependimentos o fazia amaldiçoar cada momento daquela noite interminável. Como poderia a garota estar se desculpando apenas por querer viver a sua vida? Talvez as sequelas de ter vivido de modo tão submisso por anos estivessem aparecendo, ou talvez ela apenas quisesse se desculpar por ter sido tão despreocupada, porém ouvi-la pedir perdão daquela forma lhe trazia sensações novas, talvez até mesmo um pouco perigosas, e ele deveria evitar aquilo a qualquer custo.
Após respirar fundo e reorganizar os pensamentos, o homem decidiu aproximar-se dela, afagando seus cabelos emaranhados e úmidos, devido ao suor. Apesar disso, ele não se importava e muito menos sentia nojo de tocá-la. Percebendo-a um pouco aflita enquanto esperava por uma resposta, ele, com ternura, levantou seu queixo com o indicador para que seus olhares se cruzassem.
— Você realmente dá muito trabalho. — Concordou. — Será que eu deveria encarcerá-la por mais dez anos? Assim eu não precisaria me preocupar mais. — Estava certo de que, ao dizer aquilo, a distância entre eles aumentaria outra vez, e mesmo que em seu interior ele ansiasse por proximidade, era inadmissível que se permitisse deixar levar pelos sentimentos que floresciam à medida que passavam tempo juntos. Quando presa em casa, não precisavam se aproximar muito, já que não era sua função protegê-la como seu guarda-costas, porém agora, ficar tanto tempo ao seu lado provavelmente seria sua ruína.
— Você enlouqueceu de vez? — A resposta que tanto aguardava não tardou a chegar. Vociferou tão alto que até mesmo outras pessoas ao redor haviam parado por um momento para observá-la. — Eu pensei que tinha feito alguma coisa pra te irritar, mas você é igual ao papai. Não sei por que eu ainda tento ser legal. — Reclamou, apressando o passo e deixando-o para trás, embora sem sair de seu campo de visão.
— Tem certeza de que está tudo bem assim? — Sarah indagou, referindo-se àquela resposta fria. — Você sabe mais do que ninguém o quanto ela sofreu durante esses dez anos.
— Não sou eu quem faço as regras. Eu tenho limites que preciso respeitar. — Murmurou, sinalizando para que caminhassem mais rápido visando não perdê-la de vista.
Hesitante e sem saber como encarar seu pai, a jovem abriu a porta com cautela. O rangido ao abri-la parecia um estrondo chamativo graças à madrugada silenciosa que a recebia em casa, e embora estivesse preparada para as prováveis consequências que viriam, era impossível conter toda aquela ansiedade dentro de si. De mãos dadas com a amiga, tentaram entrar sorrateiramente, porém sem sucesso. Hans estava sentado em sua poltrona usual, com o mesmo semblante de poucos amigos que sempre exibia.
— Papai... — Rumorejou cabisbaixa, apertando as mãos em um gesto de nervosismo enquanto aguardava por sua reação.
— Eu estava esperando. Por que demorou tanto? — Sua voz grave ecoou pelo cômodo, imponente como sempre, sem nem ao menos precisar levantar o tom. — Você tem trabalho a fazer, Hector. — Completou, levantando-se e passando diretamente por Pan, ignorando-a e demonstrando sua decepção através do olhar frio que lançou em sua direção antes de afastar-se.
Aquela atitude a devastou mais do que qualquer punição que pudesse ter recebido. Ela esperava por um sermão interminável ou algum castigo severo, contudo não estava preparada para algo como aquilo. A indiferença daquele homem tornou as coisas muito mais difíceis para ela, que já estava desanimada com os acontecimentos anteriores.
— Pelo menos ele não decidiu te encarcerar novamente. — Sarah apoiou a mão em seu ombro, tentando confortá-la.
— O papai nunca quebra uma promessa, então ele nunca faria isso outra vez. — Respondeu forçando um sorriso, embora fosse perceptível a mudança em seu timbre, como se sua garganta estivesse prestes a fechar para dar espaço ao choro. — Tá tudo bem, pelo menos foi uma experiência nova. A noite foi divertida, o papai e o Hector não vão estragar isso.
— Vamos ter uma boa noite de sono. Amanhã será um dia melhor. — Prosseguiu, ainda tentando animá-la. Deslizou sua mão até a da amiga e apertou-a, demonstrando que estava ali para apoiá-la.
— Você tem certeza de que é real? Tipo, certeza mesmo? Você é muito incrível pra ser humana, acho que você deve ser algum tipo de robô. — Pan a provocou, soltando suas mãos e colocando-as na bochecha da colega, que não conseguiu evitar um riso abafado ao sentir seu coração saltar por um breve momento, aliviada por vê-la ainda com energias o suficiente para conseguir fazer brincadeiras.
— Eu estava realmente preocupada com você, sua boba. — Murmurou, abraçando-a antes de subirem juntas.
Exaustas e aliviadas por finalmente retirarem aquelas roupas e toda a maquiagem, escovaram os dentes e foram diretamente para a cama, acordando quase atrasadas para a aula na manhã seguinte. Após um banho rápido para tirar o excesso de suor da noite anterior, vestiram-se rapidamente e desceram para o café, novamente sozinhas naquela enorme mesa.
— Esse cannoli que a mamãe faz é o melhor de todos. — Pan comentou com as bochechas cheias, deleitando-se com sua refeição.
— Tem certeza de que não tem problema comê-los? Eles tinham uma etiqueta com o nome do seu pai.
— Não quero saber do papai. Quem ele pensa que é? Me encarando daquele jeito malvado. — Reclamou, comendo ainda mais rápido para amenizar sua frustração.
— Ele é o seu pai. — Hector interveio, batendo levemente na cabeça da garota com um jornal.
— Estava aí o tempo todo? — Sarah o questionou.
— Acabei de chegar, mas já estou de saída. Tenho algumas coisas pra resolver, então hoje é o Sandro quem vai ficar responsável por vocês.
— Aonde você vai? — Pan indagou com dificuldade, antes de conseguir engolir tudo o que havia colocado em sua boca.
— Trabalhar.
— Mas aonde? Fazer o quê? — Insistiu.
— Até mais. — Ele se despediu, fechando a porta atrás de si após pegar alguns papéis e sair.
— Não tem um homem nessa família que seja normal? — Bufou, incomodada com os acontecimentos recentes.
— Se já acabou de comer, nós também deveríamos sair. — A mais responsável alertou, organizando a mesa antes de saírem.
Encontraram-se com Sandro do lado de fora, que gentilmente abriu as portas do carro para permiti-las entrar. Era como uma brisa de ar fresco tê-lo próximo em um dia como aqueles, principalmente após ter brigado com seu pai. Pan sempre o havia visto como uma segunda figura paterna, e mesmo que atualmente não se vissem muito por ser um dos homens mais ocupados da famiglia, ela ainda o considerava como uma pessoa importante e necessária em sua vida. Ele não ousou questioná-la sobre aquele olhar tão pensativo, porém o silêncio e algumas músicas de seu agrado eram mais do que suficiente para deixá-la ciente de que estava ali por ela, animando-a um pouco pela manhã. Quando chegaram no colégio, Pan deixou Sarah em frente à sua sala e partiu até o ginásio, aonde teria seu treino matinal do clube. Não estava muito animada para praticar exercícios, porém sabia que, caso tentasse faltar ou inventar alguma desculpa ouviria boas horas de sermão vindos de sua capitã, e com certeza isso era algo que ela gostaria de evitar com todas as forças.
— Bom dia. — Alex a recebeu animada. — Tudo bem? Vocês foram para casa sem avisar ontem.
— Bom dia. Aconteceram algumas coisas, e eu acabei precisando sair pra tomar um ar... — Respondeu sem graça, tentando esconder a vergonha que sentira ao relembrar de todo o alvoroço que causara no bar.
— Algumas coisas, né? Sei, sei. — Provocou-a com uma piscadela, referindo-se ao momento em que Pan havia contado sobre o beijo. — De qualquer forma, chega de corpo mole, vamos alongar. — Completou, batendo levemente em seu ombro.
Frustrada por ainda não poder jogar, Alex não pegava leve ao ajudar o treinador a planejar os exercícios do time, principalmente os de Pan, que estava em uma rotina especial para aumentar a sua energia e adaptar-se aos jogos oficiais, pois embora possuísse boas técnicas, ainda não era capaz de manter-se ativa por dois tempos seguidos em quadra.
— Vocês estão liberadas. — Alex informou, soando o apito que indicava o final dos treinos. Exaustas, todas se dirigiram até os vestiários, exceto Pan, que estava terminando a última de sua série de exercícios. — Falta muito aí? Se não correr vai ficar sem chuveiro. — A alertou, sentando-se em um banco próximo para observá-la.
— Não, eu já terminei. — Retrucou ofegante, se acomodando ao lado da colega, que entregou-lhe uma toalha seca. — Obrigada. Eu acho que ainda vou ficar um pouco pra treinar arremessos. — Completou. A atividade física a havia feito esquecer-se completamente de tudo o que havia acontecido na noite anterior por alguns momentos, e ela queria estender essa sensação por mais tempo, também tirando um tempo para ficar sozinha. Estava sempre rodeada por outras pessoas, e isso realmente a fazia feliz, porém vez ou outra, quando desejava poder ter um tempo para si, nunca conseguia, e naquele instante, isso era possível.
— Sério? Você é bem esforçada, né? — A capitã sorriu orgulhosa. — Eu vou indo na frente, então. Preciso falar com o Chris. — Despediu-se, saindo do ginásio após conversar com o treinador.
Tentando organizar os pensamentos, continuou treinando cestas até perceber que a quadra estava deserta, sendo essa provavelmente a sua deixa para sair, já que o zelador viria trancá-la em breve. Saiu em direção ao vestiário e jogou uma toalha ao redor do pescoço, lavando as mãos antes de jogar água no rosto para se refrescar. Secou o excesso de suor nas partes expostas de seu corpo e sentiu que deveria tomar um banho antes de ir às aulas. Retirou os sapatos e as meias, porém cessou os movimentos ao perceber o som de alguns passos cada vez mais próximos.
— Acho que hoje é o meu dia de sorte. — Aquela voz ecoou pelo cômodo vazio, arrepiando cada centímetro de seu corpo.
— Você é... — Gaguejou, levantando-se e recuando em um movimento quase involuntário. Seu corpo parecia se mexer sozinho ao vê-lo acercar-se.
— Sentiu minha falta? Eu disse que aquilo não tinha acabado ainda.
— Ethan...
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