Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
13 Um momento de pavor
Notas iniciais
Além do som de água se esvaindo pelos ralos após gotejarem do chuveiro, o único som que podia-se ouvir naquele local deserto era o dos passos de Ethan que ecoavam como um aviso de perigo, um alerta que não deveria ser ignorado. Ele aproximava-se vagarosamente, com o olhar de um animal feroz intencionado a intimidar sua presa. Seu aroma usual de álcool exalava à distância, e aquilo era o suficiente para Pan perceber que não estava segura ali, e nem mesmo o seu habito de sempre esperar o melhor das pessoas poderia lhe convencer do contrário.
— Vem aqui, vamos brincar um pouquinho. — Aquela voz embriagada e rouca clamava por ela como se estivesse dando ordens ao seu bichinho de estimação.
— Eu estou atrasada para a aula, desculpe. — Respondeu àquela provocação em tom baixo, tentando uma fuga após recolher seus sapatos do chão e aproximar-se rapidamente da porta.
— Não, não. Eu andei pensando no porquê de você ter me afastado da Kate aquele dia. — Sussurrou com um sorriso malicioso estampado em seu rosto, colocando o braço para travar a saída da garota amedrontada. — Eu até cheguei a pesquisar na internet. Não dava pra entender, você nem conhecia ela, então por quê? — Continuou em tom sarcástico enquanto brincava com algumas mechas daquele cabelo escarlate, úmido pelo suor. — Você ficou com ciúme, não foi? Tá tudo bem, eu dou conta das duas ao mesmo tempo. — Acercou-se ainda mais, colocando os lábios no pescoço de Pan, que fechou os olhos e o empurrou desesperadamente, um pouco enojada com seu toque.
— Ethan, me desculpe, mas eu não estou interessada. Eu só quero ir para a aula, por favor. — Suplicou com os olhos já marejados. As pernas trêmulas e o coração acelerado demonstravam o perigo que a rodeava. Sua respiração ofegante como a de um coelho em seus últimos suspiros de vida implorando por piedade ao lobo faziam Ethan estremecer por dentro. Ele gostava daquilo; gostava de vê-la tão dominada enquanto era ele quem tinha o poder de tomar as decisões ali.
— Não está interessada? — Perguntou de um jeito sádico, mudando rapidamente sua expressão ao cerrar os punhos e atingir com força a parede em que ela se apoiava. — Sou eu quem digo se você está interessada ou não, sua vadiazinha. — Esbravejou, puxando agressivamente os cabelos da vítima e empurrando-a até os armários, fazendo-a cair com o gesto bruto.
— Por favor, eu sei que você não é uma má pessoa. — Ela suplicou, debatendo-se para tentar soltar-se das garras daquele homem. Sentiu as lágrimas escorrerem desesperadamente à medida que ele forçava a língua dentro de sua boca, em uma tentativa de beijá-la sem sua permissão.
— Eu sei que você gosta disso, não adianta negar. — Sorriu, deslizando os dedos entre os seios da moça enquanto apreciava seu olhar amedrontado.
— Eu odeio isso, apenas pare por favor! — Implorou, lutando com todas as suas forças restantes para retirar aquelas mãos repulsivas de seu corpo, que mal conseguia mover-se, já paralisado devido ao pavor que o dominava de dentro para fora.
Enfurecido com aquelas palavras, ele as retribuiu com um forte tapa em seu rosto, cortando parte de seus lábios com o impacto e marcando sua bochecha, que latejava com a dor.
—Tá vendo o que você fez? Você me obrigou a fazer isso com você. — Murmurou, passando suavemente o polegar naquele rosto avermelhado para afastar os cabelos de seus olhos. — Você é tão bonita, eu odiaria ter que estragar esse rostinho. Fica quietinha e eu não vou precisar te punir, ok?
Estática e com o olhar de uma pessoa que já havia perdido as esperanças, ela desistiu de lutar. Já sem a sua camiseta ao passo que o sentia tocando suas costas em busca do fecho de seu sutiã, ela desejava pela morte, para que tivesse paz e não precisasse mais vivenciar aquele momento. Com suas últimas energias, fechou os olhos na esperança de que tudo acabasse rápido e ao menos não precisasse ver o rosto daquele indivíduo.
— Senhor Ethan? — Uma voz suave e estremecida ecoou naquele cômodo escuro, como uma pontada de esperança. Por um instante, ele havia cessado seus movimentos, distanciando-se dela.
Pan abriu rapidamente os olhos para observar a figura misteriosa que poderia ser um possível salvador. Era um garoto. Um garoto alto, e que diferente dos que Pan havia conhecido até agora, não possuía a musculatura definida. Seus cabelos castanhos estavam alinhados para apenas um lado e os óculos quase caiam de seu rosto, visto sua postura desajeitada em meio à toda aquela confusão.
— O que você quer, seu nerd inútil? Não está vendo que estou ocupado aqui? — Bufou, levantando-se em direção ao garoto.
— O treinador do time de futebol estava procurando por você! E-eles querem conversar à respeito de sua suspensão. — Gaguejou com a voz trêmula, fechando os olhos para proteger-se de qualquer possível agressão.
— Eu sabia que eles reconheceriam um talento como eu. É claro que a estrela do time não pode ser expulsa. — Riu, de modo convencido. — Eu vou deixar passar dessa vez, seu merda, mas só porque estou de bom humor. Vou até o treinador e já volto, cuida dessa piranha por mim.
— S-sim, claro. — O rapaz fingiu concordar com aquela besteira. Assim que o viu sair cantarolando em direção ao campo de futebol, ajudou Pan a se vestir e levantar-se, tentando acalmá-la.
— Obrigada. — Ela soluçava, tentando manter a compostura enquanto agradecia.
— Nós deveríamos correr. Ele vai voltar assim que perceber que era uma mentira. — Alertou, estendendo sua mão para que ela se apoiasse nele em sua fuga.
Com dificuldade, Pan correu até o interior do colégio, esquecendo-se até mesmo de seus sapatos, concentrada em buscar ajuda o mais rápido possível. Todas as partes de seu corpo doíam, porém nada a fazia sentir tanta dor quanto as lembranças que agora ficariam marcadas em sua mente. A sensação daqueles toques tão repudiantes lhe atormentariam pelos próximos séculos, ou talvez até mesmo depois de sua morte. Cada vez que fechasse os olhos para dormir, recordaria-se daquele olhar, daquele momento, daquele pavor que sentira.
— Então você está realmente me dizendo que esses machucados foram feitos durante o seu treino? — A enfermeira a questionou, demonstrando a dificuldade que tinha ao acreditar naquela história tão esfarrapada. Era impossível não notar as marcas dos dedos marcados na bochecha da estudante, ainda recentes.
— Sim, me desculpe, sou um pouco desastrada. — Sorriu sem graça, esfregando os braços para esconder seu nervosismo. Ela nem ao menos era capaz de encarar a mulher à sua frente, pois sabia que, se o fizesse, desabaria ali mesmo.
Embora Ethan não fosse a melhor pessoa, Pan não sentia-se à vontade para falar sobre o ocorrido. Estava amedrontada o suficiente para desejar nunca mais aproximar-se daquele homem outra vez, porém não conseguia imaginar o que poderia acontecer caso alguém de sua família descobrisse. Colocou os pés gelados no chão e agradeceu pelo tratamento, ainda um pouco abatida.
— Tem certeza de que não quer denunciá-lo? Eu acho que você deveria. — Seu acompanhante a perguntou, no mesmo momento que saíram da enfermaria.
— Eu não quero que ele seja expulso por minha causa. — Retrucou. — Todo mundo tem um lado bom, a gente só precisa dar outra chance.
— Todos, menos aquele cara. — Vociferou, cessando os passos. — Escuta, o Ethan fez mais de cinco garotas abandonarem o colégio com suas perseguições, e eu sei melhor do que ninguém o que é sofrer nas mãos dele.
— Ele tem algo contra você?
— Ele tem algo contra qualquer um do grupo de debates. — Prosseguiu. — Sou obrigado a fazer dois trabalhos todas as vezes, só para não apanhar. A minha vida no colegial tem sido um inferno graças ao "grande" Ethan.
— Então... Grupo de debates?
— Você realmente não quer tocar no assunto, não é? — Cedeu desanimado.
— Me desculpa, eu tenho meus motivos. — Pan suspirou, abaixando a cabeça enquanto permitia demonstrar um sorriso cansado. — Por favor, não conte para ninguém por enquanto. — Implorou, com o mesmo olhar que faz um cachorrinho abandonado.
— É difícil para mim também, sabia? Eu te ajudei e agora ele provavelmente vai querer me matar, será que não consegue ver isso?
— Ei, Pan! Como foi o treino extra? — Alex aproximou-se com uma felicidade contagiante, que se esvaiu rapidamente ao perceber os hematomas marcados no rosto da amiga. — Espera... o que aconteceu?
Os presentes durante o ocorrido cruzaram um olhar cúmplice, decididos a manter segredo, embora o rapaz não considerasse essa a melhor opção.
— Eu me machuquei durante o treino, não foi nada.
— Tem a marca de uma mão na sua cara. — A amiga argumentou, preocupada com o que pudesse ter acontecido. — Você sabe que pode contar comigo, nós somos amigas.
— De verdade, não foi nada. — Insistiu. — Eu fui matar um mosquito que pousou na minha bochecha e acabou ficando marcado sem querer.
A colega permaneceu pensativa por alguns segundos, antes de cair na gargalhada e dar dois leves tapinhas em seu ombro, como se lhe consolasse.
— Isso é realmente algo que você faria, sendo meio tonta assim. — Provocou. O garoto que acompanhava Pan suspirou aliviado por Alex ser tão inocente quanto ela. Como era capaz de acreditar em uma besteira dessas? Para ele, isso era inimaginável.
— Você parecia feliz antes, aconteceu alguma coisa? — Mudou de assunto rapidamente, tentando deixar de ser o foco da conversa.
— Ah, sim, verdade. — A capitã do time de basquete arrumou a postura, como se estivesse prestes à anunciar algo grande. — Eu acabei de me declarar pro Chris.
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