Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
19 Quem realmente é você?
Notas iniciais
Não foi fácil para que Kate conseguisse pregar os olhos durante a noite. Continuava inquieta mesmo após uma longa conversa com suas amigas, que acabaram adormecendo ali mesmo no sofá, um pouco desconfortáveis. Ela decidiu zanzar pelos corredores como um fantasma, tentando acalmar o coração acelerado enquanto pensava em como deveria agir ao reencontrar seu primeiro e único amor.
Foram necessárias algumas horas de uma série qualquer e uma xícara de leite morno para que ela finalmente caísse no sono, com muita dificuldade.
Pela manhã, Hector havia deixado alguns croissants e macchiato prontos para as garotas, antes de sair para o trabalho. Quando sentaram-se à mesa, Pan e Sarah conversaram alegremente, porém Kate parecia distante, intercalando suas respostas entre acenos afirmativos com a cabeça e sorrisos forçados, na tentativa de não parecer grosseira. Sentia-se como se tivesse algo apertando seu peito, deixando-a sem ar.
O trajeto até o colégio não demorou muito, já que o trânsito parecia ter dado uma trégua naquela manhã tão nublada. Assim que chegaram, Kate despediu-se das garotas para respirar sozinha, sentando-se em um banco próximo às quadras abandonadas no fundo da instituição.
— Que cara horrível. — Uma voz lhe retirou de seus devaneios, fazendo-a saltar involuntariamente com o susto e colocar a mão no coração, para sentir os batimentos acelerados. — Calma aí, Adams, não vou te matar. — Ele riu, sentando-se ao lado dela.
— Evan... — Suspirou, esfregando os braços para expressar seu nervosismo. — Tá frio, né?
— O clima tá frio sim, mas esse não é o motivo de você estar tremendo assim, tenho certeza. Não é um bicho de sete cabeças, duvido muito que ela vai falar alguma coisa pra te machucar. — Ele a encarou receoso, percebendo sua expressão incrédula. — O que foi?
— Nada. Nada mesmo, é só... Eu nunca imaginei que fosse tentar me consolar. Você normalmente é o "Evan, o cantor famoso e pegador", e não o "Evan, o cara legal".
— Ei, não sai falando isso por aí! Você acha que meu disfarce vai servir pra alguma coisa se sair explanando quem eu sou?
— Ah, qual é, aquele disfarce não engana ninguém. — Ela riu. — Tenho certeza de que metade das estudantes daqui só dão em cima de você por causa disso.
— Engana os meus pais. É só disso que preciso. — Argumentou, demonstrando um semblante mais fechado enquanto desviava o olhar até o céu, apoiando as mãos atrás do corpo, no concreto do banco.
— Eles ainda querem que você vire médico pra herdar o hospital?
— O único motivo de eles terem um filho foi esse. É como se fosse meu destino, basicamente.
— E o que você vai fazer? Desistir da música?
Evan sorriu, encarando-a diretamente nos olhos com certa malícia. — É óbvio que não. Eu nunca fui do tipo que obedeceu ordens de cabeça baixa. — Mudou de posição, limpando suas vestes antes de se levantar completamente ao perceber a presença de uma silhueta próxima, bem conhecida. — Vou mudar o meu destino. E, aliás, você deveria tentar mudar o seu também. — Ergueu as sobrancelhas obrigando-a a seguir a direção de seu rosto, causando um encontro de olhares com Isis, que os observava pacientemente. Não querendo incomodá-las, saiu rapidamente para deixá-las à sós.
— Não sabia que tinham virado melhores amigos. — Ela zombou. Aquela voz doce arrepiou cada centímetro do corpo de Kate. Suas mãos suavam frio à medida que ela se aproximava, acomodando-se ao seu lado com toda a delicadeza possível. — Precisamos conversar.
— Isis... — Murmurou mordiscando os lábios e levando os olhos até os pés, passando a palma das mãos nas roupas para secá-las.
Dentro do colégio, Pan infernizava os outros colegas na tentativa de convencê-los a ajudá-la em sua missão de espionagem. Talvez ela tivesse assistido muitos filmes de espiões no enorme tempo livre que tivera enquanto presa em casa, ou talvez fosse apenas muito intrometida mesmo jurando de pés juntos que não. De qualquer forma, estava intrigada para saber mais sobre os acontecimentos entre a amiga e seu antigo amor, e não pararia até descobrir que fim teve a conversa entre as duas.
— Você sabe aonde elas estão? — Alex indagou curiosa, enquanto caminhavam pelos corredores para procurá-las.
— Se não me engano, a Kate tinha falado sobre um banco atrás das quadras. Você conhece tudo por lá, então deve saber aonde é, né? — Pan respondeu esperançosa, demonstrando um brilho nos olhos à medida que tagarelava.
— Espera aí, vocês não estão falando sério sobre espionar, né? — Chris indagou receoso. Não queria invadir o espaço pessoal da colega, afinal. — É uma conversa entre as duas, a gente não devia fazer isso. — Alertou, tentando fazê-las mudar de ideia.
— Pode desistir. — Sarah apoiou a mão no ombro do colega enquanto negava com a cabeça, como um gesto irônico de consolo. — Quando ela coloca alguma coisa na cabeça, não tem nada que a faça desistir.
— Isso é muito errado, sabe? É a privacidade de uma amiga que vocês estão violando. Ela pode acabar se irritando com vocês. — Insistiu.
— Cala a boca, Chris. — Alex acertou-lhe um forte tapa nas costas, com um sorriso estampado em seu rosto ao vê-lo agonizar com a dor. — Se acha tão errado assim, tá vindo junto pra quê?
— Alguém responsável precisa ficar de olho em vocês. — Respondeu, esfregando as costas na tentativa de fazer a ardência passar mais rápido. — Que merda, Alex, isso doeu.
— Sei, confessa logo que você também tá curioso. — Ela riu.
— A gente já tá chegando? — Pan perguntou ansiosa.
— Já chegamos, abaixa aí. — Alex apontou para as amigas, sentadas no mesmo banco enquanto encaravam-se seriamente. A conversa parecia estar tomando um rumo que deixava Kate desconfortável, visto sua expressão. — Vocês conseguem ouvir alguma coisa?
— Não, nada. — Sarah sussurrou.
— Vamos mais pra frente, então. — A responsável por toda essa intromissão se posicionou, levantando-se bruscamente.
— Espera aí, Pan! — Chris, que estava atrás dela, perdeu o equilíbrio após o gesto repentino, causando um efeito dominó, esbarrando-se em Sarah, que empurrou Alex, derrubando-a também. — Ferrou. — Colocou a mão no rosto em desaprovação, já esperando a bronca que levariam.
Com todos amontoados e atordoados graças à personalidade desastrada de Pan, Isis aproximou-se na companhia de Kate para averiguar o motivo de tanto alvoroço, deparando-se com uma cena cômica e até mesmo suspeita.
— Pessoal? O que fazem aqui? — Kate indagou surpresa, auxiliando-os a se levantarem.
— Nós com certeza não estávamos te espionando, nem nada do tipo. — Pan logo negou o acontecimento, deixando-o ainda mais óbvio.
— Eu sempre te disse que você era uma péssima mentirosa. — Sarah suspirou desapontada. — Perdoem a curiosidade excessiva dessa criança. Ela... quer dizer, todos nós estávamos preocupados com você. — Desviou o olhar até os pés, um pouco acanhada.
Kate soltou um riso abafado, cobrindo os lábios com as mãos antes de jogar-se nos braços de seus amigos, formando um abraço coletivo e caloroso. Achava bonitinho o modo desastrado de demonstrarem carinho e preocupação.
— Seus amigos são um pouquinho intrometidos, né? — Isis sorriu de canto, esbanjando seu jeito debochado de sempre. — Se fosse comigo, eu ficaria bem irritada. — Argumentou. De fato, levava muito à sério sua privacidade, porém sua situação era diferente. Por ser famosa, isso acabava por ser um luxo, fazendo-a prezar um pouquinho mais pelo sigilo.
— Não consigo ficar irritada com pessoas que se importam tanto comigo, mesmo que bisbilhotar seja uma coisa muito feia, viu? — Kate retrucou, lançando uma piscadela em direção à Pan, que coçou os cabelos para disfarçar a culpa.
— Eu falei que era errado. — Chris murmurou em um tom superior, recebendo de Alex uma leve cotovelada em seu estômago para silenciá-lo.
— De qualquer forma, vocês chegaram em boa hora. — Kate aproximou Isis de seus amigos, deixando-os frente à frente. — Essa é a Isis. Estávamos justamente falando sobre vocês.
— Sobre a gente? Como assim? — Pan questionou.
— Isis me convidou para ir até a première do filme dela.
— Sério? Que ótimo. — Ela a abraçou, contente pela amiga poder passar um tempo com a pessoa que ama.
— Seria incrível, se ela não tivesse me falado que só iria se todos vocês fossem também. — Isis resmungou. Era clara a sua intenção de passar um tempo a sós com Kate, e quando seus planos foram frustrados, seu humor mudou rapidamente. — Bom, eu preciso ir. Me mande uma mensagem com o nome de todos os seus amigos pra eu colocar na lista depois. — Completou, despedindo-se com um beijo provocativo no pé de sua orelha, fazendo-a arrepiar.
Pan parecia eufórica. Era como uma nova aventura, e ela poderia vivenciar aquele momento com seus amigos. Logo pulou nos braços de Kate para agradecê-la mil vezes enquanto a provocava com cócegas.
— Para, para! Trégua. — Ela ria, tentando se esquivar dos ataques da amiga.
— Sem trégua, você precisa sentir a minha fúria! — Retrucou sorridente, pensando que estavam em algum tipo de anime ou coisa assim. Após alguns segundos, Sarah percebeu o sofrimento de Kate e a afastou, com o auxílio de Chris.
— Por falar nisso, Kate, você tem certeza de que nos quer lá? Digo, não era tipo um encontro? — Chris indagou.
— É claro que eu quero vocês lá! Momentos especiais devem ser compartilhados com pessoas especiais. Vocês estão me apoiando desde o dia em que nos conhecemos, e eu ficaria feliz em poder retribuir, se me deixarem. — Ela respondeu com convicção.
— Mas que gracinha. — Alex afagou os cabelos da colega. — Quando vai ser isso?
— Amanhã à noite.
— Amanhã? Espera, mas isso não é um negócio, tipo... ultra-hiper mega exclusivo e chique? Que precisa de um vestido bonito e coisa assim? — Alex continuou, um pouco sem graça. — Não sei se combina comigo, e eu nem tenho roupa pra isso.
Pan entrelaçou o braço ao redor do pescoço da amiga para animá-la, trazendo-a para perto de si. — Vamos comprar, então. Eu também preciso. — Afirmou.
Sarah a observou com certo receio. Por qual motivo no universo Pan Stracci, que possuía milhares de vestidos festivos caríssimos em seu closet, precisaria comprar outro? Com certeza estava tramando mais uma de suas peripécias.
— Eu não sei. Não tenho tanto dinheiro assim, só estou no colégio pela bolsa de esporte, sabe?
— Não custa nada provar algumas peças, vai que tem alguma promoção por aí. — Argumentou, recebendo um suspiro convencido em resposta.
Enquanto todos caminhavam juntos em direção às salas de aula, Alex observava Chris, se perguntando como ele reagiria ao vê-la usando um vestido de gala. Talvez fora essa uma das razões de ter aceitado o convite das amigas às compras, porém ela não conseguia evitar. Seus sentimentos por ele já a assombravam por anos, e provavelmente continuariam a fazê-lo se não o convencesse de que suas declarações deveriam ser levadas a sério.
Ao término das aulas, as garotas decidiram que se reuniriam na casa de Pan, para que ela e Alex pudessem tomar um banho após os treinos do clube. Prontas, partiram em direção às lojas do centro da cidade para se encontrarem com Chris, sem que nenhum dos seguranças soubessem. Seu pai não estava em casa, e muito menos Hector, então não havia ninguém para detê-la ao fazer uma besteira como essas. Adentraram os estabelecimentos de preços mais altos e marcas mais conhecidas, certas de que encontrariam a vestimenta ideal para a ocasião. Alex logo corria para provar várias peças, vez ou outra colocando um vestido à frente do corpo e rodopiando alegremente, sentindo-se uma princesa.
— Alex, você viu a Pan? — Sarah indagou preocupada, procurando-a por todos os cantos do local.
— Pan? Ela tava sentada ali com a Kate, não?
— Estava.
— Meninas. — Kate se aproximou, ofegante. — Perguntei pra vendedora, e ela me disse que a Pan saiu da loja.
— Saiu? — Ambas retrucaram em uníssono. Sarah logo afagou os cabelos em um gesto de nervosismo, pensando se deveria ou não ligar para Hector e contar sobre o ocorrido.
Do lado de fora, ela caminhava pelas ruas em uma tranquilidade incrível, hipnotizada pelo doce aroma de comida que havia sentido anteriormente enquanto buscava encontrar a fonte, como um pequeno animal silvestre atraído para uma armadilha. Quando percebeu, já estava longe o suficiente para não conseguir memorizar o caminho de volta, se perdendo em meio àquela multidão que caminhava apressada sem nem ao menos notar a sua existência para que pudesse perguntar sua localização. Olhou para os dois lados antes de sentar-se em um banco de madeira em meio à uma praça, aguardando por uma solução, decepcionada por não ter encontrado o que buscava e, além disso, agora estar separada de suas amigas.
— Você está sozinha, gracinha? — Um homem aproximou-se. Era alto, e deveria ter provavelmente uns dez anos a mais do que ela.
— Eu estava com minhas amigas, mas eu me perdi. — Respondeu cabisbaixa.
— Você quer ajuda? Eu posso te ajudar a encontrar suas amigas. — Tentou convencê-la, segurando em seu pulso para levá-la consigo antes que fosse visto por alguém. — Vamos lá, eu te ajudo. — Insistiu.
— De verdade? Você vai me ajudar? Obrigada! — Ela sorriu, levantando-se para acompanhá-lo. Naquele momento, os lábios do homem exibiram malícia, quase involuntariamente.
Quando Pan preparava-se para segui-lo, conseguiu sentir o toque de alguém segurando seu outro pulso, fazendo-a recuar.
— Foi mal, cara, mas ela tá comigo.
— Evan?! — Questionou surpresa. — O que faz aqui?
— Como assim, meu amor? Sei que estamos brigados, mas eu vim atrás de você, isso deve valer alguma coisa, não?
— Você tem namorado? — O desconhecido indagou, recusando-se a soltá-la.
— Não, eu... — Evan a puxou para si, abraçando-a e interrompendo sua fala antes que pudesse desmenti-lo e causar uma briga desnecessária. Embora ele repudiasse esse tipo de gente, não estava com muita vontade de ter problemas com a polícia.
— Se manda, cara. — Retrucou, com um olhar desgostoso, deixando claro que não o via como mais do que um inseto. O homem logo partiu, resmungando alguns insultos à medida que se afastava.
— O que você está fazendo? — Pan soltou-se de seus braços, encarando-o confusa. — Ele ia me ajudar a encontrar as meninas, você espantou ele! Além disso, eu não me lembro de termos começado a namorar, você nunca me pediu isso. Nós nem brigamos. Espera... Nós brigamos?
Evan não conseguiu evitar de soltar um riso abafado a cada palavra que saia dos lábios da garota à sua frente. Colocou uma das mãos em seus cabelos para afagá-los, pensando por onde deveria começar a sua explicação.
— Você não devia confiar em qualquer um por aí. Tava quase carimbado no rosto daquele cara que ele tinha segundas intenções com você, ruivinha. — Ele limpou a garganta. — E, segundo, você não tem essa sorte de me ter como seu namorado, meus pêsames. — Completou, como se realmente a estivesse consolando.
— Mas você disse pra ele...
— Isso se chama reciprocidade. Você me ajudou aquele dia, e agora eu te ajudo. De nada.
— Sério? Obrigada, eu acho.
— É engraçado como todas as vezes que te vejo você tá perdida. Infelizmente, dessa vez, eu não sei onde estão suas amiguinhas. — Repentinamente, algumas gotas vindas do céu molharam os cabelos de Evan, começando uma leve garoa que logo se tornaria uma chuva forte. — Vem comigo. — Ofereceu, entrelaçando seus dedos nos dela para levá-la à um local seguro.
— Aonde vamos?
— Minha casa é perto, vamos correr até lá. — Respondeu, acelerando seus passos sem que ultrapassasse os limites de Pan. Ele sabia com toda a certeza de que, por ser mais alto e forte, ela não o acompanharia caso corresse como de costume, portanto decidiu estabelecer um limite para si mesmo, visando deixá-la confortável, mesmo que isso o fizesse se molhar ainda mais.
Enquanto buscavam por abrigo, a chuva se intensificava, deixando-os completamente encharcados. Já em frente à porta, Evan abriu-a rapidamente, deixando-a fechar com uma forte batida causada pelo vento assim que adentraram o local. Cansados, sentaram-se no chão por alguns segundos no intuito de recuperar o fôlego.
— Você mora sozinho?
— Não, meus pais estão no hospital. Provavelmente vão passar a noite toda lá.
— O quê? Eles estão bem?
— Eles são médicos, idiota. — Retrucou, empurrando a testa da garota com seu indicador. — Vou buscar algumas roupas pra gente.
— Roupas?
— É óbvio. Estamos encharcados, o certo é tomar um banho quente. Vou te emprestar algo meu, depois você me devolve.
Pan assentiu, e Evan subiu rapidamente até o seu quarto, voltando com algumas roupas e arremessando-as para ela. "Pode usar o meu chuveiro, vou no quarto dos meus pais", ele murmurou, antes de subir novamente. Conformada, seguiu as instruções do amigo e adentrou seus aposentos, parando por alguns segundos para admirar o local e tentar decifrá-lo como pessoa através de seus gostos. Aquela decoração, para ela, não fazia sentido algum. Esperava por um quarto cheio de instrumentos e pôsteres de banda, ou até mesmo coisas sobre esporte, e não um local vazio e acinzentado, com apenas uma cama posicionada no canto e uma pequena escrivaninha ao lado de um grande armário branco. Talvez fosse até mesmo um pouco solitário.
— O que está fazendo parada aí? — Ele a surpreendeu, fazendo-a saltar com o susto.
— Me desculpe, só estava admirando. Pensei que seu quarto fosse diferente.
— Esqueci de te entregar uma toalha. Vou deixar em cima da cama.
Antes mesmo de ter a oportunidade para respondê-lo, Evan já havia saído. Aquela expressão solitária que esboçara após ouvir suas palavras entregava todas as suas emoções, mesmo que à contragosto. Seu desejo também era o de estar em um outro ambiente, porém, por algum motivo, ele não podia, e isso o incomodava profundamente.
Sem mais delongas, Pan retirou as roupas e adentrou o chuveiro para um banho rápido e necessário. Seu corpo já começava a sentir as sequelas de permanecer molhada no frio que fazia do lado de fora, apesar de ter sido por pouco tempo.
Seca e aliviada, vestiu suas roupas íntimas e apenas a camiseta que Evan havia lhe entregado, já que a bermuda era muito larga e não se estabilizava em seu corpo. Como era grande o suficiente para servir-lhe de vestido, não importou-se muito e desceu as escadas sem remorso.
— Que cheiro bom. — Alegou, aproximando-se da cozinha. — Você não me parecia o tipo de pessoa que sabe cozinhar. — Provocou.
— Não existe nada no universo que eu não seja capaz de fazer. — Riu de modo convencido, permitindo-se desviar o olhar até sua convidada. Nem ao menos percebeu o queixo cair um pouco quando encarou-a da cabeça aos pés, respirando fundo após perceber que seu coração havia falhado uma batida. A imprudência daquela garota, coberta por apenas um fino tecido branco que não escondia lá muita coisa, na casa de um desconhecido, chegava a ser de outro mundo. — Você... — Colocou a colher que segurava de lado e aproximou-se dela em passos lentos, pressionando-a na parede até que não sobrasse mais espaço entre os dois.
— O quê? — Perguntou sem compreender o motivo de tanta proximidade, já com a respiração um pouco pesada devido às lembranças de Ethan que logo surgiam em sua mente. Sabia que não deveria comparar o amigo à ele, porém as circunstâncias não lhe davam outra escolha.
— Você sabe que eu sou um homem, né?
— Sim, você é um homem, eu sou uma menina, o que tem isso?
— Sabe que estamos sozinhos? Só nós dois.
— Sei, sim.
Ele sorriu maroto, aproximando os lábios do ouvido da garota de modo que a fizesse fechar os olhos como mecanismo involuntário de defesa.
— Sorte sua que sou um cavalheiro. — Sussurrou, depositando um beijinho singelo naqueles cabelos vermelhos. Achando graça da expressão incrédula que ela demonstrava, voltou para a cozinha despreocupado. — Eu tô avisando, você deveria parar de confiar tanto nas pessoas. Você mal me conhece e tá vestida assim na minha casa, sozinha comigo. E se eu fosse um daqueles babacas que tentam se aproveitar de gente como você?
— Como assim, "gente como eu"? — Perguntou fazendo biquinho. Aquilo com certeza lhe parecia um insulto.
— Gente bobinha que nem você. — Sorriu. — Aliás, eu acabei queimando a comida, então vamos precisar pedir pizza mesmo. Você quer de qual sabor?
— Sabia que você não cozinhava! — Zombou, não conseguindo segurar o riso que se formou em seus lábios ao vê-lo tão frustrado.
— Foi você quem me desconcentrou, idiota. Vem aqui olhar o cardápio logo.
— Você vai pagar pizza pra mim também?
— É óbvio que sim, você é minha convidada, não é?
— Sou? — Brincou, entrelaçando o braço no dele enquanto observavam juntos o cardápio. — Pensei que fosse uma intrusa. — Sorriu.
— Ok, é uma intrusa com permissão. — Afagou os cabelos dela como se fosse seu bichinho de estimação. — Fica aí no sofá, vou ligar lá pra pedir.
— Obrigada.
Evan levantou-se e buscou pelo telefone para realizar o pedido. Assim que finalizou a ligação, ouviu algumas batidas em sua porta, e saiu para averiguar.
— Você? — Surpreendeu-se com a visita inesperada.
— Cadê ela? — Indagou impaciente, invadindo a casa sem pestanejar.
— Ela tá no... — Hesitou, olhando em direção à sala. Pan estava em um sono profundo, esparramada no sofá com sua calcinha à mostra, já que não utilizava a bermuda que havia lhe entregado. — Dormiu sem nem esperar a pizza. — Sussurrou, abrindo um sorriso de canto involuntário.
— Encontrou ela, Hector? — Sandro interveio, encarando o anfitrião de cima à baixo, tentando descobrir o motivo de seu parceiro parecer querer matá-lo apenas com o olhar. Bom, obviamente ele não estava muito satisfeito com a cena que vira naquele sofá.
— Hec? — Pan levantou-se lentamente, esfregando os olhos após bocejar. — Por que você tá aqui?
— O que você acha? — Respondeu irritado, empacotando-a em seu terno para esconder suas intimidades e pegando-a cuidadosamente no colo, como uma criança. — Conversamos no carro.
— Espera aí. — Evan os interrompeu após averiguar com paciência a situação, olhando para o lado de fora e também para Sandro, um pouco desconfiado e até mesmo assustado. — Esses caras armados aí estão aqui por você? E por que tem tantos deles? — Observou-a confuso, porém ela logo desviou o olhar, envergonhada por todas as mentiras que vêm contando à seus amigos. Não era fácil simplesmente explicar sua situação, e ela apenas não era capaz de encontrar uma resposta adequada. — Ruivinha, quem são esses caras? Quem é você, de verdade?
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