Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
20 Um dilema perigoso
Notas iniciais
Hector desaprovou o clima criado pelas palavras de Evan, ignorando-o enquanto caminhava em direção à porta com a moça em seus braços. Por um breve segundo, Evan e Pan cruzaram olhares, permitindo-lhe sussurrar "me desculpe" antes de ser arrastada até o carro.
— Vocês estão bravos? — Ela murmurou, quebrando o silêncio constrangedor que tomava conta do ambiente. Hector e Sandro a olharam através do retrovisor interno, procurando pelas palavras certas para retrucá-la.
— É claro que sim, bambina. Você quase nos mata de preocupação, sabia? — Sandro iniciou, desviando o olhar. — A vida pode ser só brincadeira de adolescente pra você, mas nós aqui lidamos com gente perigosa todos os dias. Vai saber quando você pode se tornar um alvo. — Completou. A serenidade em sua voz mesmo quando furioso era intimidadora.
— Por falar nisso, você sabe o que vai acontecer com os homens encarregados da sua segurança hoje? — Hector interrompeu.
— Como assim? — Indagou preocupada. As mãos já começavam a suar frio.
— Falhas não são aceitáveis. Homens que falharam no que deveriam fazer, precisam pagar com a vida. — Sandro argumentou sério.
— Com a vida? — Sua voz falhou por um instante. A garganta fechara com o choro que lutava para sair; os olhos já marejados. — Isso não é verdade, né? Eu só queria poder me divertir uma vez na vida sem ter ninguém me seguindo por aí. Isso é tão errado assim? — Tagarelava tentando manter o fôlego, vez ou outra falhando em conseguir completar uma palavra devido às lágrimas. Seu coração parecia estar em pedaços. Como poderia conviver com a sensação de, indiretamente, ter causado a morte de alguém apenas por querer ter o direito de ir e vir sem precisar ser vigiada o dia todo? Aquele era um fardo que ela, provavelmente, não conseguiria carregar.
Os dois homens encararam-se em silêncio, deixando-a sem resposta até que o carro fosse estacionado e a vissem correndo desesperadamente ao interior de sua casa. Esperançosa, abriu de modo espalhafatoso a porta do escritório de seu pai, por sorte encontrando-o sentado em uma das poltronas à frente de sua mesa enquanto folheava alguns papéis.
— Bambina?— Surpreendeu-se com a aproximação brusca de sua filha, ofegante e com o rosto inchado graças ao choro.
— Por favor, papai, por favor, não faz isso! — Suplicava entre lágrimas, segurando as mangas de seu terno e fazendo-o derrubar alguns dos papéis que segurava. — Foi culpa minha, eles não têm culpa! Você precisa me prometer que não vai matar ninguém, papai! — Ele franziu o cenho, confuso com toda aquela cena exagerada. Não era possível que sua filha estivesse lhe pregando uma peça, certo?
— O quê? — Indagou ainda sem compreender nada.
— Me promete, papai! Por favor! — Pediu fitando-o diretamente nos olhos, com um semblante que implorava por sua piedade.
— Você sabe que isso é algo que não sou capaz de prometer, bambina. Nem mesmo pra você. — Argumentou, recolhendo as folhas que havia derrubado. Era uma promessa que não poderia manter, já que, afinal, vez ou outra em seu trabalho precisava tirar algumas vidas para livrar-se de certos problemas, ou no caso, de certas pessoas que lhe causavam problemas.
— Mas eles não fizeram nada, papai! Fui eu, é minha culpa. — Abraçou-o com força, confundindo-o ainda mais.
Hector e Sandro estavam encostados no batente da porta, esboçando sorrisinhos irônicos enquanto observavam a cena, tentando adivinhar quanto tempo tudo aquilo duraria.
— Isso foi obra de vocês dois? — Indagou e eles assentiram, arrancando-lhe um suspiro cansado. — Não sei se gosto de ver meus homens aterrorizando minha filha desse jeito.
— Perdão, chefe, mas tinha alguém precisando de um choque de realidade. — Sandro explicou, demonstrando um sorrisinho vitorioso ao observá-la tão perdida. Jamais teria a intenção de machucá-la, porém deveria fazê-la compreender que suas ações imprudentes teriam consequências, não apenas para ela, mas também para aqueles ao seu redor.
— Pan? — A voz de Sarah ecoou por toda a casa enquanto descia rapidamente cada degrau daquela escadaria para encontrá-la. Infiltrou-se no cômodo após empurrar Sandro e Hector para o lado, ignorando-os completamente ao passar entre eles e jogar-se nos braços da amiga, afagando-lhe os cabelos. — Aonde você se enfiou? Eu estava tão preocupada.
— Sarah, o papai vai... ele vai... — Tentou expressar-se entre lágrimas enquanto se confortava naquele abraço caloroso, ainda sem conseguir acreditar na possibilidade de ter causado a morte de alguém.
Hector aproximou-se e puxou-a para si, levantando-a em seus braços com certa dificuldade, na intenção de retirá-la do local e dar-lhe um pouco de paz. Hans observou-o desconfiado, atônito com aquela ação tão ousada e cheia de intimidade, e embora ele não parecesse se importar muito com os pensamentos de seu chefe naquele momento, ainda assim sabia que deveria explicar-se mais tarde.
Em frente às escadas, soltou-a cuidadosamente, percebendo seu desconforto em ser arrastada até ali. Estendeu sua mão para que ela a pegasse, e assim o fez, acompanhando-a até seu quarto e auxiliando-a a sentar-se confortavelmente em sua cama, acomodando-se ao seu lado.
— Me desculpa por te assustar assim. — Murmurou, perdido nos próprios pensamentos. Não sabia como deveria consolá-la, portanto apenas manteve distância, sem querer tocá-la para não ultrapassar nenhum limite. — Nós não estávamos falando sério. Ninguém vai morrer, só pensamos que você deveria aprender a ser mais cuidadosa.
— Sério, Hector? Dois adultos decidiram aterrorizar uma adolescente só pra tentar "ensinar uma lição" pra ela? Essa é a última coisa que esperaria de vocês dois. — Sarah acercou-se, segurando a mão de Pan para tentar acalmá-la. Ainda estava suspirando, e sua respiração continuava acelerada. — Apesar da péssima brincadeira, eles têm razão, Pan. Você não pode sumir por aí do jeito que bem entender, principalmente sem avisar ninguém. E se alguma coisa acontecesse com você? — Repreendeu-a com doçura, buscando fazê-la compreender seu erro. Talvez, se fosse uma garota normal, poderia dar-se ao luxo de sair por aí sem preocupações, porém ela não era uma garota normal, e sim a única filha de Don Stracci. Eram inúmeros os perigos que acompanhavam esse título.
— Desculpa. — Sussurrou arrependida, limpando o rosto com os pulsos.
— Mesmo assim, ainda não consigo acreditar que dois homens tão sérios foram capazes de brincar assim com uma criança. — Ela negou com a cabeça, direcionando um olhar desgostoso à Hector.
Ele fitou-a como se lhe pedisse para não tocar mais naquele tópico. Sabia muito bem que, para Pan, o simples fato de machucar alguém já era inimaginável, portanto seria melhor mantê-la fora dos assuntos de seu trabalho. Talvez, aquela "brincadeira" pudesse ter um fundo de verdade, e continuar insistindo em trazer à tona esse tópico poderia magoá-la ainda mais.
Quando levantou-se para sair na intenção de deixá-las à sós, fora interrompido por Pan, que segurara a manga de seu paletó para chamar-lhe a atenção. Aqueles olhos esmeralda avermelhados e inchados de modo tão gracioso exibiam um excesso de umidade causado pelas lágrimas, fazendo seu coração falhar uma batida. Vê-la tão vulnerável e inocente trazia à tona sentimentos que ele lutava desesperadamente para conter.
— Ninguém vai morrer, né, Hec? — Perguntou com a voz trêmula. — Você e o papai precisam mesmo continuar com esse trabalho? Vocês não podem parar? — Pediu, encarando-o com aqueles olhos enormes e cintilantes. Droga, era realmente difícil não ceder à ela naquelas condições, porém deveria manter-se firme.
— Me desculpe, Pan. — Recuou o braço e afastou-se rapidamente, sem olhar para trás. Lhe doía profundamente vê-la daquele modo, porém atender ao seu pedido era absoluta e completamente impossível.
Deixou-as à vontade para que Sarah pudesse confortá-la e voltou até o escritório de seu chefe, conformado de que deveria dar-lhe algumas explicações sobre o seu comportamento ultimamente. Aquele homem não deixaria passar nada, em especial sobre assuntos relacionados à sua preciosa filha.
— Eu pensei já ter deixado bem claro que não queria ninguém falando sobre os assuntos da famiglia perto dela. — Sua voz grave e fria dominara o cômodo, com certa autoridade. Ele olhava para o além, pensativo, sem cruzar olhares com os dois homens ali presentes. Ambos permaneciam cabisbaixos, arrependidos. — Vocês acham que alguns inúteis que não conseguem nem mesmo vigiar uma criança são dignos de levar o título de homem de honra? — Indagou, levantando-se de sua poltrona.
— Então nós não estávamos errados na nossa "brincadeira", não é? — Sandro cruzou os braços, apoiando as costas na parede ao seu lado. Era fato que, se qualquer incompetente pudesse fazer parte da famiglia, não teriam o prestígio que conquistaram com tanto esforço de seus antecessores.
— Todas as brincadeiras têm um fundo de verdade, Sandro. O preço a se pagar por um erro no nosso estilo de vida é muito alto. — Disse, encarando-o pelo canto dos olhos. — Eu já quase perdi a minha filha uma vez, não vou arriscar uma segunda vez. Quem foi o responsável por apresentar os incapazes de hoje?
— O Santiago. — Hector retrucou sério. Já haviam trabalhado juntos, e nunca tivera problemas com ele. Considerava-o admirável, e seria uma pena perdê-lo como companheiro de trabalho.
— Eu quero ele no depósito amanhã cedo. Diga que não vou tolerar atrasos. — Sentou-se outra vez, após alcançar um livro no topo de sua estante posicionada ao lado da mesa. — Sabe outra coisa que eu também não tolero? Mentiras. Me machuca muito saber que dois homens à quem eu confio minha vida andam escondendo coisas de mim.
— Você é um homem ocupado. Não queríamos te incomodar com coisas que somos perfeitamente capazes de resolver sozinhos. — O mais velho argumentou, e o outro apenas concordou com a cabeça.
— Quando o assunto é a minha principessa eu nunca estou ocupado. — Retrucou ríspido, modificando completamente a atmosfera do ambiente. Sua expressão emanava supremacia, como se dissesse "eu confio em vocês, mas não ousem passar dos limites". — Vocês podem começar por aqueles hematomas no rosto dela. Eu tenho certeza de que vou adorar ouvir as histórias que os dois fizeram o favor de esconder. — Colocou uma das mãos acima da mesa, batendo os dedos impaciente ao mesmo tempo que os fitava com curiosidade. Hans Stracci normalmente era um sujeito calmo, do tipo que nunca costuma demonstrar o que realmente sente, porém nos raros momentos em que o fazia, qualquer erro em sua presença poderia ser fatal.
No andar de cima, as garotas jogavam conversa fora despreocupadamente, deitadas juntas enquanto Sarah afagava aqueles cabelos vermelhos suavemente enquanto contava-lhe sobre sua tarde após seu sumiço.
— A Kate realmente ficou preocupada. Por um momento até pensei que ela fosse desmaiar. — Sorriu, recordando-se da reação exagerada da amiga.
— Mas vocês conseguiram comprar um vestido pra Alex? Era essa a nossa missão, né?
— Não deu tempo. Uma certa abelhinha sumiu e nós saímos correndo da loja atrás dela antes que arrumasse confusão. — Riu, cutucando-a em provocação.
— Ei! — Bufou em resposta, retribuindo-a com cócegas.
— O seu celular já está tocando faz um tempo. Vai atender. — Respondeu ofegante, segurando as mãos da amiga para que não a torturasse mais.
— Meu celular? — Buscou pelo aparelho e deslizou o dedo em sua tela para atendê-lo. Era um número desconhecido, porém isso não a impediria de sanar sua curiosidade. — Eu atendi, e agora?
— Pan? É você? — A voz do outro lado parecia familiar.
— Sou eu. Quem é você?
— É a Alex. Você é idiota? — Ela riu. — Sabe o quanto ficamos preocupadas? Você desapareceu sem dar notícias, e só atendeu o telefone agora. Cadê você?
— Ela já está em casa. Ainda não sei os detalhes, mas ela deu conta de voltar em segurança. — Sarah tomou o telefone para si, colocando-o na função de viva-voz para que ambas pudessem ouvir.
— Que bom. Vê se para de aprontar, caramba.
— Eu vou ficar de olho nela de agora em diante. — Retrucou, olhando para a amiga ao seu lado com um sorriso de canto maroto. — Mas e sobre o vestido? O que você vai fazer?
— Então... eu liguei pra falar sobre isso mesmo. — Ela suspirou. — Acho que eu não vou amanhã. É feriado, e as lojas vão estar todas fechadas. Vocês sabem que se eu aparecer lá com uma roupa barata aquele pessoal rico vai... enfim...
— Você pode dormir aqui hoje e se arrumar aqui amanhã. Eu tenho vários vestidos, posso te emprestar um! — Pan exclamou, animada com a ideia de ter a colega dormindo ali.
— Eu não sei se minha mãe vai deixar. Seus pais estão em casa?
— O papai sim.
— Ele pode vir aqui? Minha mãe provavelmente só vai me deixar dormir fora se ela conhecer sua família antes. Ela é um pouco desconfiada.
Sarah e Pan se encararam como se soubessem o problema que aquilo poderia causar. Sarah cogitou não convidar Alex enquanto Hans estivesse por perto, porém Pan estava decidida a fazê-la comparecer àquele evento.
— E se a gente levasse o Hector como o seu "irmão mais velho"? Mentir não é muito legal, mas...
— Sua mãe deixaria se fosse o meu irmão mais velho, Alex?
— Se ele for maior de idade tá tranquilo, mas... é aquele cara lá? Pensei que ele não fosse nada seu.
— Ele mora comigo e cuida de mim, acho que tá bom desse jeito.
— Tá mais pra marido do que irmão. — Alex riu. — Irmãos brigam de tapa, não tem esse carinho todo envolvido. Apesar de que, vindo de você, eu não duvido nada. Bom, eu vou te mandar uma mensagem com meu endereço. — Desligou rapidamente, enviando prontamente o texto como havia dito.
Ambas desceram as escadas rapidamente, em busca de Hector. De modo espalhafatoso, Pan abriu a porta do escritório de seu pai, não importando-se com o fato de estarem discutindo sobre o trabalho.
— Bambina? — Surpreendeu-se ao vê-la outra vez. Mal se encontravam muitas vezes na semana, quem diria mais de uma no mesmo dia. — Você deveria bater na porta antes de entrar.
— Desculpa, papai, mas eu preciso roubar o Hector de você rapidinho. — Disse juntando as mãos, como se lhe pedisse por um favor. Ele e o homem em questão fitaram-na incrédulos ao ouvi-la.
— Roubar o Hector? — Franziu o cenho desconfiado. Que diabos sua filha estaria aprontando dessa vez, e ainda por cima, arrastando seus homens por aí?
— É rapidinho!
— Aconteceu alguma coisa, Pan? — Perguntou intrigado, imaginando o motivo que a faria vir requisitar sua ajuda.
— A Alex vai dormir aqui, mas a mãe dela não vai deixar ela vir se eu não levar um responsável pra conversar com ela. — Respondeu, e instantaneamente todos direcionaram os olhares à Hans.
Aguardavam por alguma reação; um gesto furioso ou demonstração de incômodo devido às palavras da filha, porém nada chegou a ocorrer. Continuava com sua mesma expressão fria de sempre, encarando-a como se nada lhe importasse. Ela havia convidado uma estranha para dormir em sua casa e nem ao menos pedira permissão, então por que estava tão calmo; tão desinteressado?
— Eu vou pessoalmente. — Alegou, levantando-se e recolhendo seu sobretudo do mancebo. — Você pode dirigir, garoto. — Entregou-lhe as chaves do carro, passando rapidamente pela porta.
Naquele momento, perceberam que, na realidade, não estava desinteressado. Muito pelo contrário. Parecia curioso sobre as pessoas que rodeavam sua primogênita, e tê-las próximas era a melhor maneira de observá-las com cautela, em sua concepção.
Os outros não sabiam dizer se tê-lo conversando diretamente com a mãe da colega de Pan seria o ideal, contudo era impossível contestá-lo e fazê-lo mudar de ideia. Restava apenas a opção de esperar para ver como as coisas se desenrolariam. Sandro ficou para trás, no intuito de terminar alguns trabalhos que deveria fazer, enquanto todos os outros adentraram o veículo acompanhando-o. Hans fizera questão de sentar-se no banco de trás, permitindo que sua garotinha apoiasse a cabeça em seu ombro.
— Faz tempo desde a última vez que passamos tanto tempo juntos. — Ela sussurrou esboçando um sorriso aliviado. Estava contente com a experiência de ter o próprio pai encontrando-se com a família de suas amigas normalmente.
— É uma boa oportunidade de conhecer pessoalmente as pessoas que se aproximam de você. — Admitiu.
— Papai...
— O que foi?
— Eu já perguntei isso pro Hec antes, mas... vocês precisam mesmo fazer essas coisas erradas?
— O que é errado pra você, bambina?
— Coisas que machucam outras pessoas. Coisas que são perigosas e fora da lei. — Respondeu desanimada.
— Pessoas machucam pessoas, bambina. A lei nada mais é do que um amontoado de palavras escritas por homens que não conseguiram manter as rédeas de uma sociedade através da boa vontade dos cidadãos. — Hans apoiou a cabeça em sua mão, acomodando-se. — Elas foram criadas por causa da má índole existente desde os primórdios da humanidade. É uma forma de dominar através do medo.
— Como assim?
— O medo da punição faz com que as pessoas hesitem ao fazer coisas que desejam e possam ferir o próximo. A única diferença entre os membros da famiglia eum cidadão considerado "de bem" é a coragem de agir de acordo com as próprias vontades sem dar tanta importância para as leis criadas pelo governo. Nós temos as nossas próprias leis, nossas próprias regras e nosso próprio estilo de vida.
— Mas vocês precisam machucar outras pessoas pra isso?
— Eu nunca fiz nada pra alguém que não merecesse. Muitos policiais fazem exatamente a mesma coisa e são considerados homens da lei. — Sorriu satisfeito. — Não precisa entender esse tipo de coisa agora, mas um dia, talvez, você compreenda que, apesar de não agirmos de acordo com as leis gerais da sociedade, nós somos homens de honra.
— Já chegamos. — Hector interveio, na tentativa de finalizar aquela conversa. Achava desnecessário que a garota absorvesse tantas informações que pudessem comprometer a sua visão do mundo.
— Eu não vou entrar em um debate sobre boa índole com a minha filha, garoto. Tire esse olhar de preocupação da cara. — Murmurou, abrindo a porta antes de retirar-se do veículo.
Antes de adentrarem o local, Hector tomou a liberdade de segurar a mão de Pan por um breve momento, como se lhe dissesse para não se preocupar com assuntos desnecessários. Ele sabia que, talvez, as palavras de seu pai poderiam ser muito duras e confusas para ela, que desconhecia as partes apodrecidas da sociedade.
— Meninas, vocês vieram! — Alex as abraçou, contente por ver que Pan estava bem após seu sumiço durante a tarde. — Então... esse daí eu conheço. — Ela olhou para Hector, e logo depois encarou Hans com desconfiança. — Mas quem é aquele cara ali?
— É o pai da Pan. — Sarah respondeu.
— O homem ali extremamente suspeito com aquele casaco preto é seu pai? Tem certeza? Vocês não se parecem muito não.
— Ela acabou pegando os genes da mãe. — Aproximou-se de modo que elas não percebessem, surpreendendo-as.
— Desculpa, senhor, eu não queria ser grossa nem nada. Obrigada por vir até aqui só pra tentar convencer minha mãe. — Alex estendeu sua mão, para cumprimentá-lo.
Hans permaneceu sem expressão, porém retribuiu o gesto.
— Essas são suas amigas, filha? Elas são lindas. — A mãe de Alex acercou-se com um sorriso desconfiado para recebê-las. — O senhor deve ser o pai delas. Me desculpe por fazer você vir até aqui, mas espero que entenda. Alex é a minha única filha, e eu não posso deixar ela sair por aí sem supervisão de algum responsável, sabe?
— Sim, madame, eu entendo perfeitamente. — Cumprimentou-a de um jeito cortês, passando-lhe confiança.
As garotas sentaram-se com Hector em um dos bancos da lanchonete enquanto Hans discutia com aquela mulher sobre a estadia em sua casa. Ele era o tipo de sujeito que poderia convencer qualquer pessoa a pagar milhares de dólares em sapatos usados, graças à sua habilidade em persuasão. Fora essa aptidão que o fizera se tornar o Don da família Stracci após a morte de seu pai, mesmo possuindo dois irmãos mais velhos, afinal. Não demorou muito para que a mãe da menina cedesse e começasse a sorrir como se o conhecesse há anos, já livre de qualquer sinal de receio por ter a filha em seus cuidados.
Alex já havia organizado uma pequena mochila com tudo o que precisaria para passar a noite na casa das amigas, portanto apenas despediu-se de sua mãe antes de adentrar o veículo.
— A gente devia ligar pra Kate também. — Pan alegou sorridente. — Vamos fazer uma festa do pijama.
— Por mim tudo bem, mas como a gente vai fazer pra levar ela? Não tem mais lugar no carro. — Alex retrucou.
— Ela pode ir no meu colo, ué.
— Isso dá multa, sabia?
— Eles não se importam em quebrar as regras um pouquinho, né? — Perguntou esperançosa.
— Então quer dizer que, agora, você acha isso conveniente? — Hector arqueou as sobrancelhas, repreendendo-a. Ela apenas sorriu sem graça, sentindo-se culpada por aproveitar-se daquilo que acabara de fazê-la discutir com seu pai.
— Eu vou precisar falar com a família de mais alguém? — Hans indagou incomodado, já sem paciência caso precisasse lidar com outra situação do tipo.
— Foi mal, tio. — Alex murmurou tímida.
— "Tio"? — Ele a encarou através do retrovisor interno, com uma expressão indecifrável. Hector não pôde evitar um riso abafado.
Assim que chegaram à casa de Kate, Hector percebera uma silhueta familiar ao fim da rua, e logo olhou para seu chefe como se lhe pedisse permissão, recebendo um aceno afirmativo de cabeça em resposta. Já trabalhavam juntos há tanto tempo que nem ao menos precisavam trocar palavras para compreender o pensamento um do outro em ocasiões como aquela.
— Já ligou para ela? — Sarah perguntou.
— Vamos só tocar a campainha e ver no que dá. — Pan deu de ombros, correndo até a porta da casa da amiga sem esperar por uma resposta.
Kate não tivera tempo nem ao menos de organizar suas coisas antes de ser empurrada até o carro pela amiga. Assim que acomodadas, perceberam que agora era Hans quem estava no banco do motorista, e Hector havia desaparecido.
— Boa noite. — Aquela voz rouca e imponente arrepiara cada centímetro do corpo de Kate, como se fosse um pequeno animal intimidado por seu predador. Ele emanava uma aura perigosa que a fazia amedrontar-se, embora não soubesse muito bem o motivo, já que nunca nem ao menos haviam se encontrado.
— Boa noite, senhor. — Murmurou insegura, esfregando os braços para deixar passar seu nervosismo.
— Cadê o Hector, papai?
— Ele precisou resolver algumas coisas.
— Que coisas?
— Não é nada de interessante. Vamos pra casa. — Retrucou, deixando claro que não queria falar sobre o assunto.
Sarah havia se acomodado no banco da frente após a saída de Hector, deixando as amigas confortáveis. Já estava acostumada com a presença de Hans, e sabia muito bem que suas outras colegas não se sentiriam tão tranquilas quanto ela caso se sentassem ao seu lado. Não apenas por ser muito intimidador, mas o fato de precisar permanecer ao lado do pai de uma amiga durante todo um trajeto sem conhecê-lo bem não parecia muito interessante. Qualquer pessoa ficaria acanhada.
— Pan? — Kate chamou-lhe a atenção, encostando duas vezes o cotovelo em seu braço e estendendo o celular em sua direção, no intuito de mostrar-lhe a mensagem que recebera. — O Evan acabou de me mandar isso. O que ele quis dizer? — Sussurrou surpresa.
A mensagem enviada exibia a seguinte frase: "Você sabia que a ruivinha tá escondendo um segredo bem perigoso da gente?"
Ela engoliu seco, buscando pelas palavras corretas para explicar-se. Com seu pai no carro, não poderia simplesmente contar-lhe sobre o ocorrido na casa de Evan sem preocupações, já que não sabia como ele reagiria caso pensasse que Kate sabia de algo que não deveria. Ela jamais colocaria a segurança da colega em risco, e agora estava em um dilema, pois sentia que possuía a vida da garota em suas mãos.
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