Notas iniciais
Oi meus nenês ♥ eu fiquei com coronga e por isso deu uma atrasada dessa vez, mas trouxe mais um capítulo quentinho pra vocês. O fim tá tão pertinhoooo, aaaa, to chorando. Espero que gostem, boa leiturinhaaa ♥ ~

"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você."

— Friedrich Nietzsche

— Você faltou ao nosso encontro, então precisei vir pessoalmente. — Luca tomou uma postura mais séria e também a liberdade de sentar-se ao lado dela, vendo-a se afastar alguns centímetros. Bom, era o esperado nesse caso, e a achava prudente por não confiar facilmente nele. — Arrisquei muito vindo aqui para conversar com você. Não vou te fazer nada desde que fique quieta e me escute. — Existia sinceridade na sua voz. Mesmo cética ela conseguia perceber.

— Não devia ter se arriscado, porque nós dois não temos nada pra conversar. — Aumentou ainda mais a distância, evidenciando seu descontentamento com a presença do rapaz. — Nem sei como você conseguiu entrar, mas vai embora antes que eu chame os seguranças, por favor.

— Não teste a minha paciência, Pan Stracci. Seus seguranças estão bem ocupados com os policiais do lado de fora, então não foi difícil passar despercebido.

— A polícia voltou? — Desânimo e uma pontada de pavor se revelaram em seu semblante, fazendo-a involuntariamente cerrar os punhos. Cogitar ser encarcerada a assustava, contudo não tanto quanto o motivo de quererem lhe aplicar essa punição. — Espera aí... — teve uma breve realização mental e os olhos foram diretamente para Luca, fazendo-o arquear as sobrancelhas sem compreender — o Sandro comentou que o Dario Romano prefere fazer "justiça com as próprias mãos" — engoliu seco, recebendo uma pontada no peito vinda da culpa pela morte dos amigos causada por esse homem como vingança — e fora ele, os únicos que sabiam que eu era a assassina eram o Diego, o Hector, a minha família... — franziu a testa irritada, encaixando as peças antes embaralhadas — e você! — Concluiu ao acusá-lo com o dedo em sua cara de forma nada sutil.

— Fui eu quem fiz a denúncia, sim. — Declarou-se culpado, levantando as mãos como se houvesse sido pego em flagrante. — Tive meus motivos.

— Ah, claro que teve. Deixa eu adivinhar, você quis me usar pra se vingar do papai também. — Soltou uma parcela de ar pela boca, evidenciando sua indignação, e inclusive a decepção consigo mesma. — Não acredito que falei pro Hector que você talvez não quisesse me fazer mal. Como eu sou estúpida, meu Deus.

— Também fui eu quem roubei um revólver da coleção de caça do Ezio Romano e coloquei no lugar que você estava para te ajudar. — Segurou-a bruscamente no pulso para forçá-la a encará-lo diretamente, percebendo-a arregalar os olhos com a surpresa de ouvir sua alegação. — Alguns tem mais o que fazer além de ficar arrumando problemas com o seu pai. — Percebeu que a estava assustando e a soltou, estalando a língua impaciente.

— Por quê? — Questionou receosa, e acima de tudo, curiosa. Se não por Hans, qual seria sua motivação para se aproximar dela?

— Disse que tinha meus motivos. — Arrumou a postura e voltou a sentar longe, cada um em uma ponta do sofá. — Foi um erro de cálculo meu, confesso. Te imaginava como uma mulher egoísta e mimada que cancelaria a viagem só por não poder ir junto, então fiz a denúncia. Quando você não cancelou, eu precisei agir.

— Cancelar a viagem? E ainda quer que eu acredite que você não quer prejudicar o meu pai?

— E realmente não quero, menina. Muito pelo contrário. Se quisesse fazer mal ao seu pai, eu teria te machucado em alguma das quinhentas vezes que tive a oportunidade. — Suspirou incomodado, pensando em uma forma de fazê-la compreender. — Você quis respostas sobre a sua família e eu te dei, você precisava de ajuda com o Ezio e o Giuseppe, e eu ajudei.

— Mas também me entregou pra polícia e quis me manipular pra cancelar a viagem do papai.

— Por que o Félix é um traidor, Pan! — Vociferou já estressado, e ela recuou amedrontada. — Se tivesse lido minhas mensagens ou atendido às ligações você saberia. — Coçou a nuca nervoso, direcionando sua atenção para o relógio. Parecia apressado. — Tudo o que vem acontecendo com você e a sua família tem um culpado, e não era meu pai, era o Félix. A viagem de hoje foi o plano desesperado dele para finalmente conseguir matar o Hans depois de anos e anos tentando. — Explicou já mais calmo depois de respirar fundo, levantando-se do assento para dar voltas pela sala.

— Quem me sequestrou foi o Vincenzo e não o Félix. Acha mesmo que vou acreditar nisso tudo? — Seu timbre tão trêmulo quanto as mãos e os joelhos já carentes de forças saiu falho, apavorado. Somente a possibilidade de perder aquele homem já era o suficiente para causar-lhe uma enorme ânsia. — O Félix é a pessoa em quem o papai mais confia, isso nunca ia acontecer. Nunca. — Se empenhou ao máximo em se convencer de que não existia a mínima chance disso ser real, contudo, bem no fundo, existiam dúvidas que a corroíam por dentro. Estava sobrecarregada. Exausta. Lidar com isso em um período de tanta fragilidade somente servia para aumentar sua carga.

Pan seguiu sem reação por alguns segundos, tentando engolir o que havia acabado de escutar. Não era impossível. Na realidade, era bem provável de acontecer. Mesmo em cativeiro, Vincenzo nunca fora violento, e até mesmo jurou se vingar de Dario Romano por ter disparado contra Hans. No fundo, ele demonstrava realmente se importar à contragosto. Félix, no entanto, nunca jurara lealdade ao nome Stracci ou à famiglia; sempre fora um magnata avarento que colocava o dinheiro acima de tudo, inclusive da própria filha. Se a morte de Hans lhe trouxesse benefícios financeiros, então...

— Não tem tempo para ser fraca e ficar chorando nos cantos. — Luca emoldurou o rosto dela com as mãos, cruzando seus olhares. — Eu não tenho poder para parar esse avião, mas você sim. É hora de agir como a filha do Don Stracci, e não como uma mulher mimada. — Balançou com força sua cabeça, obrigando-a a voltar à realidade.

— Longe da garota, seu desgraçado. — A voz de Sandro ecoou logo após o estrondo indiscreto da porta escancarada, demonstrando perfeitamente seu ódio pela presença indesejada do rapaz. Assim que apontou uma arma à ele, o viu se afastar rapidamente, rendido, implicando não querer fazer mal à ela. — Que bom que está aqui. Aqueles policiais me deixaram de péssimo humor hoje. — Rosnou estreitando o olhar, ainda com a atenção fixa no invasor. — Preciso descontar em algum lugar.

— Espera! — Exclamou afoita, o coração acelerado e os pensamentos completamente embaralhados. Foi necessário que respirasse fundo e reorganizasse as ideias antes de seguir falando. — Não é o que você tá pensando, eu juro. Sei que ele é filho do Vincenzo, fui eu quem chamei ele aqui. — Sentiu-se instantaneamente nauseada por dar-lhe uma chance, rezando que não estivesse errada sobre seu caráter. As consequências seriam severas caso estivesse.

— Sabe que ele é filho daquele sujeito e ainda assim o colocou nessa casa? Você enlouqueceu, bambina? — Ralhou ainda mais irritado, as veias da testa saltando com a expressão rígida.

— Eu não sou o inimigo aqui, consigliere. O seu verdadeiro inimigo é o Félix Santoro. — Luca ousou se intrometer.

— Cale a sua boca. Não teste minha paciência ofendendo um grande amigo da família, garoto. — Sandro ameaçou se aproximando em passos apressados, intencionando agredi-lo.

— Calma, tio Sandro. — Pan colocou-se entre ambos e respirou fundo novamente, acalmando o estômago revirado pelo medo de ter tomado uma decisão estúpida. — O Luca, ele... — hesitou um instante, e se ateve à respiração uma vez mais — talvez esteja falando a verdade.

— Não caia nas manipulações desse imbecil. Félix Santoro tem uma dívida impagável com o seu pai e não morderia a mão que o alimenta.

— Você vive me dizendo pra não confiar totalmente em ninguém, e eu tenho um pressentimento ruim que não quer me abandonar desde a hora que vi ele sentado aqui na sala de casa quando cheguei. — Esfregou os braços para conter os arrepios, dominada pelo mal-estar. — A gente pode pelo menos tirar a dúvida, né? Ligar pro papai, não sei. — Requisitou trêmula, acomodando-se de volta no sofá.

— Ligar não vai adiantar de nada, Pan. — Luca retrucou sem se importar com o olhar nada agradável recebido do conselheiro como aviso. Tinha ciência de que qualquer gracinha o faria servir de comida aos peixes em poucos minutos. — Se quiser mesmo fazer uma aposta contra o tempo nós podemos tomar um espresso e eu conto a história toda, mas se a vida do seu pai tem algum valor, é melhor se apressar em usar sua autoridade para intervir no voo. — Completou emocionalmente alterado, se perguntando o porquê dessa reação. Hans deveria ser insignificante para si, então cogitar sua morte não deveria incomodá-lo tanto, certo? Porém logo seus olhos se dirigiram até a garota e se deu conta de que, decerto, havia se afeiçoado à ela mais do que deveria. Vê-la sofrer também lhe causava sofrimento. Jamais teria sido tão petulante tendo sua vida em risco se não fosse o caso.

— Por favor. — Sua entonação fraca e os olhos marejados serviram para revelar seu cansaço excessivo e o atual estado frágil, porém Sandro baixou a guarda. Aquele olhar sem vida o destruía por dentro. — Não quero perder mais ninguém. Nem hoje e nem nunca mais. — Essa última parte saiu de seus lábios quase como um sussurro inaudível, embora a tensão criada no ambiente não escondesse seu conteúdo.

Porra, ela estava séria sobre isso. Sandro se deu por vencido à contragosto, ciente de que em qualquer outra ocasião isso lhe custaria muito caro. Pontos fracos eram perigosos e aquela menina sempre fora o seu. De qualquer maneira, parar um voo privado não era grande coisa, e se fosse uma mentira do invasor somente o faria pagar pelo transtorno; caso contrário, preveniriam a morte do Don. Não existiam perdas irreparáveis ou altos riscos em nenhuma das opções, portanto valia a pena arriscar e tirar a dúvida.

— Matteo. Nicola. — Chamou friamente em direção à entrada, e instantaneamente os convocados deram as caras. — Cuidem desse aí por alguns minutos enquanto resolvo um problema rápido. — Sinalizou Luca com o queixo antes de puxar o telefone do bolso, demonstrando uma mísera parcela de ansiedade que não era de seu feitio. — Vou acionar meus contatos e pedir um pouso forçado em Nova Iorque para que o Lorenzo cheque pessoalmente a situação. Considerando que o voo partiu há duas horas e meia, esse vai ser o ponto de pouso mais próximo. — Explicou, discando o primeiro número no aparelho. — É o máximo que posso fazer por você, bambina. Não me peça mais do que isso. — Deu o veredito final, esclarecendo o limite de suas ações imprudentes e desesperadas, o que ela aceitou de bom grado.

— Obrigada, tio Sandro. Obrigada. — Murmurou, esboçando um sorriso fechado e extremamente forçado. Não havia felicidade ali, apenas exaustão.

— Assim que eu voltar, vamos ter uma conversa bem longa. — Enrugou o cenho e direcionou sua fala ao Caccini. — Com licença. — Concluiu, partindo para trancafiar-se no escritório de Hans.

— Vim aqui exatamente para isso. Não tenho nada a esconder. — Colocou as mãos para cima ao acomodar-se no chão, mantendo distância da filha do anfitrião para não causar um alvoroço com os indivíduos que os supervisionavam. Não possuía intenções de causar ainda mais drama. — Você tem um bichinho, né? Um gato pelo que me lembro. — Puxou assunto ao se deparar com os potes de ração e água no canto do cômodo, se empenhando em diminuir o clima pesado. Queria acalmá-la, distraí-la do mundo por um segundo.

— Por que tá perguntando se já sabe a resposta? Você vive me espionando mesmo. — Revirou os olhos, encolhendo-se entre as almofadas. Não estava muito afim de conversa fiada.

— Posso conhecê-lo? — Ignorou a falta de vontade dela, insistindo na interação. — Eu gosto de animais, sabia?

— Até poderia, mas ele deve ter se escondido no meu quarto ou no quintal. O Fantasminha não gosta de visitas.

— "Fantasminha"? — Uma risadinha maliciosa escapou como um sopro repentino, imaginando o quanto adoraria ver a expressão de Hector ao descobrir sobre tal façanha. — Se ele é antissocial e não gosta de visitas, o nome combina bem.

— Combina, né? — Involuntariamente surgiu um sorrisinho discreto em sua face ao recordar-se do sujeito em questão.

— Você fica muito mais bonita assim. — Expôs seus pensamentos em um rumorejo, porém logo pigarreou para disfarçar.

— Tudo resolvido. O voo vai ter um pouso forçado em Nova Iorque e o Lorenzo já está se deslocando até o aeroporto. — Sandro retornou, interrompendo a conversa ao se acomodar do lado de sua protegida, entrelaçando seus dedos no intuito de tranquilizá-la. — Se algo acontecer com o Hans no meio do caminho nós saberemos o responsável, e se não, o Lorenzo segue viagem com ele só por garantia.

— Torço muito pela segunda opção. — Mordeu os lábios aflita, nada confortável com a sensação ruim que não a abandonava.

— Uma festa na minha casa e pelo visto não fui convidada. — Alice sorrateiramente comentou ao terminar de descer o último degrau da escadaria, demonstrando o usual sorrisinho cínico. — O que a cria do defunto faz aqui? — Seu olhar perfurante e nada convidativo pairou sobre Luca, dando-lhe calafrios.

— É um prazer te conhecer também, Regina di cuori. — Luca a cumprimentou à distância, mantendo a cortesia.

— Não posso dizer o mesmo, querido. — O analisou por inteiro, não se dando ao trabalho de esconder a repulsa em seu rosto. — Você é igualzinho àqueles dois quando tinham sua idade. — Referiu-se friamente à Lorenzo e Vincenzo, arrancando do rapaz uma risadinha sincera. Ela era exatamente como nas histórias contadas por seu genitor. — E então? Você não respondeu minha pergunta. — Abancou-se no sofá, ao lado livre da filha e de frente para o visitante indesejado, adotando uma postura mais agressiva.

— É uma história longa. Espero que não tenha compromissos para hoje. — Tomou a liberdade de se sentar em uma das poltronas ao invés do chão, ciente de que seria uma conversa demorada. Sandro dispensou os outros homens e deixou no cômodo somente pessoas de sua extrema confiança, assumindo a tarefa de manter o invasor sob ameaça, ainda com o revólver à mostra para não dar brechas. — Já falei que não sou o inimigo aqui, consigliere. Quando eu terminar de explicar você vai entender.

— Isso sou eu quem vou decidir. — Juntou as sobrancelhas já sem paciência, sinalizando que começasse logo a falar.

— Vocês já sabem que meu pai criou rancor pelo Don Stracci depois da morte do meu irmão, mas sempre estiveram enganados por pensarem que ele queria se vingar. Ao contrário do meu tio, ele sempre foi passional, só queria se afastar dos negócios e viver uma vida tranquila aonde ele não precisaria perder mais ninguém. Nós tínhamos planos para mudar de país, só nos dois... — fez uma breve pausa e a expressão tornou-se nebulosa — até o Félix se aproximar pedindo a ajuda do meu pai para assassinar o Hans Stracci.

— Espera que eu acredite nessa conversa fiada, moleque? Se não fosse pelo Hans, ele ainda estaria limpando mesas naquele barzinho sujo de esquina em Palermo para sobreviver. Por qual motivo ele mataria o homem que o salvou?

— Nesse mundo é muito fácil para alguém que um dia não teve nada começar a cobiçar tudo depois de conseguir um pouco. — Alice cruzou as pernas arrogantemente, ajeitando as costas no sofá. — Ele sempre foi um covarde influenciável. Não duvido que tenha caído em tentação.

— Por favor, Alice. Graças ao Hans, o nome Santoro está estampado em todos os aviões no céu. O Félix não tem motivos para invejá-lo, e sim agradecê-lo.

— A idade prejudicou seus neurônios, Sandro? — Arqueou as sobrancelhas desafiadoramente, fitando-o com sarcasmo. — Já se esqueceu de que nenhum de vocês se contentou só com dinheiro? Que nenhum de vocês colocou o rabo entre as pernas e aceitou a situação em que estavam só porque eram ricos? — Iniciou uma série de questionamentos e ele foi obrigado a compreender, utilizando a própria trajetória como parâmetro.

— Exatamente. — Luca assentiu em concordância. — O ego de um homem da periferia que foi tratado como lixo inferior a vida toda não ficaria satisfeito com alguns meros milhões de dólares na conta. Ele queria outra coisa, e a pessoa mais próxima que possuía exatamente o que ele tanto passou a almejar era...

— O Hans. — Sandro complementou, abaixando a guarda ao tocar a própria testa em desgosto. — Ele queria ser admirado e respeitado como o Hans, e com a convivência, passou a invejá-lo. — Estalou a língua, encaixando todas as peças ao se recordar do passado, com raiva de si mesmo por não ter percebido antes. — Passei tantos anos buscando dentro da famiglia o traidor que vendia nossas informações para as outras famiglias e nunca cheguei a pensar na probabilidade de ele na verdade nem fazer parte dela. — Cerrou o punho desocupado, golpeando com raiva a mesinha de centro, causando um estrondo e fazendo sua protegida sobressaltar de susto. Se recompôs, levantou o olhar em direção à Luca e ainda com o revólver apontado em sua direção, acrescentou: — Só que isso não muda o fato de você e o cretino do Vincenzo serem cúmplices desse desgraçado.

— É verdade, ele aceitou fazer parte disso. Se não fôssemos nós, o Félix procuraria outro e então meu pai aproveitou a chance para impor as próprias condições. — Voltou sua atenção à Pan e balançou as pernas ansioso, apertando as mãos antes de complementar: — A vida do Hans em troca da segurança da menina que ele amava como uma filha.

— E ele achou que eu ia ficar feliz em trocar a vida do papai pela minha? Pra quem me "amava" tanto, ele não me conhecia tão bem, né? — Retrucou imensuravelmente frustrada, fincando as unhas em uma almofada.

— Com todo respeito, sua opinião não valia de nada. Ele fez isso ciente de que seria a atitude natural do antigo amigo e chefe, e também porque foi o que ele queria ter feito quando meu irmão morreu. — Uma pontada de chateação acabou se fazendo presente em seu timbre, conquanto tenha se empenhado ao máximo para mascará-la. — Tanto o meu pai quanto o seu acreditavam que os filhos não deveriam pagar pelos erros de quem os colocaram nesse mundo.

— Agora todo aquele teatro ridículo do Vincenzo faz sentido. — Sandro guardou a arma, demonstrando não estar mais na defensiva quanto à Luca. Não confiava nele, porém sabia perfeitamente reconhecer um mentiroso e no momento não o considerava um. De qualquer forma, tudo viria à tona quando o avião pousasse, portanto confiaria nos instintos de sua queridinha e aguardaria. — Eu o conhecia bem. Não era um louco como o Lorenzo, mas o garoto jamais teria saído vivo naquela noite em circunstâncias normais. Então o Vincenzo tinha noção dos sentimentos da menina e não queria machucá-la. — Iniciou uma massagem nas têmporas, tentando digerir as novas informações. — Passei um bom tempo sem conseguir entender os motivos, tanto disso quanto do suicídio. O cretino teria nos poupado um bom trabalho se simplesmente tivesse vindo até nós. — Concluiu em um rosnado exaurido, imaginando-se como um incompetente por não ter sido capaz de decifrar tudo antes.

— Que chances ele teria? Acabaria morto antes mesmo de abrir a boca. — Alice retrucou seca, aproveitando a brecha para se levantar e servir-se uma taça de vinho tinto. — Vocês não teriam dado chance para ele se explicar. Não naquela época. — Esticou o recipiente de vidro à frente de sua filha como se lhe oferecesse a bebida e a confirmação chegou com um aceno tímido de cabeça, fazendo-a encher outra taça e entregá-la.

— Me sirva um pouco também. — Sandro requisitou, recebendo uma fitada nada agradável. — Prefiro algo forte, mas isso vai ter que dar.

— Você tem mãos e pés. Sirva-se sozinho. — Deu uma bebericada, encarando-o pelo canto dos olhos antes de retornar ao assento, escutando os insultos sussurrados do conselheiro que optou por não brigar e simplesmente buscar a bebida.

— Encantadora. — Luca balbuciou discretamente, esboçando um sorrisinho sem graça.

O silêncio constrangedor se foi com o estrondo da porta de entrada se abrindo às pressas, revelando uma Kate eufórica.

— Desculpa interromper assim, mas a mamma Antonella disse que era urgente. — Se justificou tímida, balançando o telefone que tinha em mãos, despertando o interesse de todos ali presentes. — É o Lorenzo na linha. — Entregou rapidamente o celular ao pai adotivo, recebendo um agradecimento e um beijo na bochecha antes que ele colocasse o aparelho no autofalante e o posicionasse na mesinha de centro para atendê-lo.

— Pronto, Lorenzo?

Quarenta minutos mais cedo, no avião:

— Conseguiu expandir os negócios de petróleo para o Oriente médio? — Hans indagou ao bater no cinzeiro com seu charuto, olhando para as nuvens através da janela. Considerava que não existia sensação maior de liberdade do que ver o mundo de cima. Era um de seus passatempos favoritos. — Me recordo de você me comentar que estava em contato com alguns possíveis parceiros nessa área.

— Estou quase lá. Os termos deles são difíceis de cumprir, mas creio que em breve não terei mais problemas. — Respondeu ao balançar o copo de uísque que tinha em mãos, encarando o próprio reflexo na bebida. Levantou os olhos e os direcionou sorrateiramente ao Don, acrescentando: — Não tem nada que um homem obstinado não consiga com um pouco de esforço, certo?

Hans devolveu a mirada, estranhando a entonação utilizada na conversa. Félix parecia mais arrogante do que nunca.

— Devo admitir que sempre admirei sua perseverança. Quando me lembro do homem que você era quando nos conhecemos e comparo com o homem que vejo agora... é impressionante.

— Isso vindo do grandioso Don Stracci é um elogio e tanto. — Um sorrisinho involuntário escapou no canto de seus lábios, e Hans franziu o cenho instantaneamente.

— Não chega a ser um elogio, mas sim uma constatação dos fatos. Não é todo dia que alguém sai da miséria para se tornar um magnata. Foi uma conquista e tanto.

— Senhores, peço perdão pelo incômodo. — Uma das aeromoças se aproximou silenciosamente; a voz baixa e serena para manter o ambiente tranquilo e aconchegante. — Me pediram para informá-los que faremos um pouso forçado em breve.

— Hm? Por quê? — Félix arqueou uma das sobrancelhas em desconfiança, encarando-a desdenhoso. — O avião está com algum problema?

— Sinto muito, mas o único com acesso a essa informação é o piloto, senhor Santoro. — Retrucou trêmula, claramente apavorada com a possível reação do sujeito. Não costumava ser muito educado com seus funcionários, principalmente os que fossem apenas temporários. Para sua surpresa, ele meramente assentiu e sinalizou que poderia se retirar; que não a importunaria mais. — Se precisarem de mais alguma coisa, estou à disposição. — Ofereceu com cortesia e se apressou em sair dali, sumindo entre as cortinas da área de serviço.

— Bom, só me restar ir checar diretamente com o piloto. — Félix deu de ombros e posicionou o copo na mesinha à sua frente, ajustando o terno e fechando o botão ao cuidadosamente se levantar. — Com licença, Hans. — Um sorrisinho cínico formou-se no canto de sua boca, e com isso, o Don apenas concordou com a cabeça sem dizer nada.

Sarah abaixou seu livro e discretamente o fitou andando pelo corredor, vendo sua expressão anuviar-se ao virar de costas para Hans. Mordeu os lábios inferiores sem perceber, completamente incomodada com aquela atitude. Desgraçado. Apesar de tudo ainda tinha o sangue do cretino correndo em suas veias; conseguia enxergar perfeitamente através daquela máscara tosca a ponto de saber que estava tramando algo. Estalou a língua e viu-se na obrigação de segui-lo, colocando de lado o que tinha em mãos antes de partir atrás dele em passos lentos, fingindo estar indo ao banheiro para que Hans não a achasse suspeita.

Estava certa, obviamente. O encontrou parado na copa do avião, encarando uma faca com os olhos escurecidos, cheios de más intenções. Sarah estremeceu, o odiava tanto que perdia as forças com sua simples presença, porém necessitava ficar ali e descobrir o que ele pretendia fazer. Não por si mesma, mas sim pelo sujeito que considerava seu verdadeiro pai.

— Pode sair daí, ratinha. — Félix cantarolou ladino, passando o dedo pela extensão cega da lâmina, e nesse segundo, Sarah sentiu o sangue gelar com o medo. — Você não é nenhuma profissional em espionagem. — Aqui o sorrisinho de imbecil em seu rosto aumentou, e ela se viu sem escolha a não ser sair de seu esconderijo e encará-lo de frente. — O que foi? Veio se despedir antes de abandonar o sobrenome dos Santoro?

— Não dou a mínima para esse sobrenome sujo. Me livrar dele vai me ajudar a dormir melhor à noite, sabendo que não vou ter mais ligação nenhuma com você.

— E durante todos esses anos eu pensei que o gato tinha comido sua língua... — a checou de cima à baixo, com um semblante indecifrável que a fizera recuar um passo — mas você consegue falar, pelo visto.

Bom, era verdade que durante toda sua vida nunca havia sido capaz de retrucá-lo. Tinha medo dele. Muito medo. As lembranças de sua infância não eram das mais agradáveis, e em sua mente possuía um trauma instaurado que a proibia de se opor à Félix, porém agora possuía coisas mais importantes do que seus temores, coisas que a ajudavam a seguir em frente e abandonar a história amaldiçoada dos Santoro. Cerrou os punhos e os soltou rapidamente quando a imagem de Pan lhe veio à imaginação. Queria vê-la, queria abraçá-la e agora como sua irmã legítima. Precisava retornar para casa e confortá-la devido aos acontecimentos mais recentes, portanto não permitiria que Félix estragasse tudo.

— E você não consegue deixar de ser um mentiroso, pelo visto. — Cruzou os braços, empenhando-se em conter os membros trêmulos. Não podia demonstrar fraqueza se o quisesse intimidar. Ele levantou as sobrancelhas em questionamento, esperando uma explicação pela acusação indiscreta, e ela concluiu seca: — A cabine do piloto fica do outro lado.

— Eu sempre odiei o fato de você ser tão inteligente, sabia? — Diminuiu a distância que os separava, ainda com a faca nas mãos. Amedrontada, ela tentou ao máximo se afastar, porém em algum momento se viu encurralada contra a parede, e não lhe sobrou opção senão fingir estar calma para não entregar o controle da situação. — Se quiser se casar algum dia, vai precisar aprender a se comportar para não assustar os homens com essa sua atitude. Mulheres precisam ter classe... — segurou o queixo dela com certa brutalidade, apertando suas bochechas com os dedos, obrigando-a a fazer contato visual — e precisam saber a hora de não se intrometerem em assuntos que não lhe dizem respeito.

Sarah sentiu as mãos suando frio, já sem forças pelo pavor que a percorria internamente. Cada parte sua parecia hesitar quando próxima daquele babaca, contudo não podia sucumbir ali. Não ainda. Reuniu o último resquício de bravura em si e afastou o toque dele com um tapa, apoiando as costas na parede na intenção de não cair de joelhos no piso.

— Suas opiniões não me interessam nem um pouco. — Retrucou com dificuldade, tocando suavemente seu pescoço. A intensidade de seu ódio era tanta que dava a impressão de estar sendo sufocada.

— Muito cuidado com a boca, Sarah. Te aconselho a demonstrar um pouco mais de respeito ao seu pai.

— Você não é meu pai. — Não sabia de onde surgira a energia para berrar aquilo enquanto o encarava com rancor, tão alterada que mal se reconheceria caso olhasse no espelho. Costumava ser calma e racional, mas se transformava quando o cretino estava envolvido. Juntou todo seu fôlego e acrescentou em um grito final desesperado: — Meu único pai é o Hans!

— Você escutou a criança, Félix. — A voz de Hans soou como a calmaria antecedente à uma enorme tempestade, quase como se não fosse capaz de esconder sua aura de fúria ao encontrar sua queridinha de joelhos e com hematomas no rosto. Os olhos de Sarah se arregalaram e logo tornaram-se marejados de alívio ao vê-lo se aproximar, acalmando seu coração angustiado. — Quando foi que um homem tão educado se tornou um animal? — Franziu o cenho e direcionou seu foco de irritação à Félix, fazendo-o titubear. — Não me importo em ser envolvido nas suas brincadeiras de péssimo gosto, mas quando minha família é afetada o assunto é outro. Não vou perdoar ninguém que machuque minhas filhas. Nem mesmo você. — O aviso saiu mais como uma ameaça, e o olhar semicerrado não escondia suas intenções de matá-lo. Encontrava-se inevitavelmente furioso.

— Como sempre, o herói Hans Stracci chega para defender os mais fracos. Que honrado. — Félix comenta ironicamente, se esforçando para esconder o quanto estava com o rabo entre as pernas.

— Pelo visto você criou colhões de um dia para o outro. — Balançou a cabeça em decepção, soltando um curto suspiro impaciente. — Parece que vou ter que te lembrar o quanto eu estou longe de ser um herói. — Colocou uma das mãos no bolso interno do paletó, preparando-se para sacar o revólver.

— E eu tenho muita classe para ser um vilão, mas... — apressou-se em tomar alguma atitude, aproveitando-se da aproximação com Sarah para puxá-la pelos cabelos e apontar a faca à sua garganta, tornando-a sua refém — esse pouso forçado me obriga a apressar os planos, mesmo que de maneira suja. Espero que entenda, Hans. São apenas negócios.

— Seu cretino sem escrúpulos. — Rosnou enquanto o tinha na mira, sendo pressionado a hesitar. Machucar uma de suas garotinhas jamais seria uma opção.

— Se abaixar a arma, eu deixo a menina ir. — Uma curva maliciosa se formou em sua boca ao perceber que estava no controle da situação. — Não tenho benefício algum em tirar a vida dela.

— Não! — Sarah bradou desesperada, se debatendo até ser imobilizada pelos cabelos novamente. — Ele vai me matar de qualquer jeito. Pelo menos você tem que sair vivo daqui, pai. — As lágrimas começaram a rolar por suas bochechas, causadas pela dor emocional e física. Jamais se perdoaria pelo descuido de ter sido tomada como prisioneira, e pior ainda se sua incompetência fosse o motivo da morte de uma pessoa amada. Não. De jeito nenhum. Não aceitaria isso. — Por favor. — Essa última parte saiu sussurrada em sua voz trêmula e fraca, a garganta já embolada pelas lágrimas. Porra, se odiava tanto naquele instante. Inferno. Como pôde ser tão desatenciosa a ponto de não cogitar uma atitude dessa vinda de Félix? Era um imbecil. O conhecia perfeitamente, então deveria ter previsto isso, caramba.

— Quieta. Mais uma palavra e eu corto a sua língua fora para não conseguir mais falar besteiras. — Félix murmurou no ouvido dela, e logo levantou o olhar para o Don, dando o veredito final: — Sua vida ou a da menina. Faça sua escolha, Hans.

De volta ao presente, na casa dos Stracci:

— O avião acabou de pousar.Lorenzo comentou do outro lado da linha, e a tensão na sala aumentou. — Estou ao lado dele com alguns dos meus homens, esperando a abertura da porta.

Pan encontrava-se especialmente aflita, rezando à todos os deuses possíveis que recebesse uma boa notícia. Não aguentaria mais um baque em um dia tão longo e cansativo. Luca percebeu seus ombros rígidos e ousou se avizinhar para tocá-los, tentando acalmá-la ainda que minimamente. Uma parte de si agia sozinha quando aquela garota estava envolvida; sem se dar conta, havia criado um carinho imensurável por ela ao longo dos anos em que passara observando-a de longe. Estranhamente a expressão dela amaciou, embora as emoções seguissem à flor da pele.

Dez minutos. Vinte. E por fim trinta, até que Alice se frustrasse com a espera e começasse a reclamar desconfiada. Não era normal que a abertura de uma porta demorasse tanto.

Faça com que eles abram agora. Dê um jeito, Lorenzo. Sandro ordenou, também com seus instintos apitando uma tempestade que estava por vir.

— Não vai ser necessário. Acabaram de abrir.

E o papai? Ele tá bem?! — Pan se intrometeu na conversa, sem conseguir parar de tremer.

— Não sei, criança. Um chiado tomou conta da chamada, porém logo se estabilizou.— Tem alguém saindo agora.

É o Hans? — Alice indagou com indiferença, servindo-se um pouco mais de vinho.

— Sim, é ele. Fez uma breve pausa, e pelo ruído feito, parecia ter respirado fundo. Ao menos serviu para que todos se acalmassem, e aquela tensão toda se esvaiu em um instante.— Sandro, pode se enfiar no escritório e começar sua longa lista de ligações, porque...

O mundo parecia ter parado de girar. O ar estava tão rarefeito, tão seco que tornava difícil de respirar; seu coração falhou uma longa e agonizante batida. Em poucos segundos, toda a força que Pan continha nos músculos desapareceu e a taça que tinha em mãos foi ao chão. Com o som distante do vidro se espatifando em meio ao zunido em seus ouvidos, o tapete se manchou de um rubro vívido e a última parte da fala de Lorenzo ecoou dolorosamente no fundo de sua cabeça para iniciar sua tortura sem fim:

"O Don está morto."

Notas finais
Espero que tenham gostado meus amores, amo muitão vocês ♥ ~ Obs: vamos chorar juntas :(