Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
66 Bem-vinda ao inferno (final)
Notas iniciais
Cinco da manhã. O sol não estava nem perto de nascer, os pássaros estavam em silêncio, tudo o que restava era a solidão interminável da madrugada. Honestamente, já havia se acostumado à ela nos últimos tempos, tanto que chegava a ser confortável apreciar a luz gradativamente enchendo os céus todos os dias com um copo quente de café nas mãos.
Um suspiro escapou de seus lábios e Pan logo se viu arrastando os pés para fora da cama à contragosto, parando em frente ao espelho do banheiro para escovar os dentes. Tomou coragem para encarar seu reflexo depois de um bom tempo e teve ânsia com o que ali enxergou. Horrível. Desagradável. A imagem que via era outra pessoa, e não ela mesma. Não tinha como ser ela. Aquela existência miserável, sem brilho algum no olhar... não podia ser. Pan Stracci que sempre fora tão narcisista e vaidosa, que tanto amava ver seu próprio reflexo, agora o odiava, repudiava cada centímetro daquele aspecto patético.
Simplesmente porque, no fundo, embora lhe custasse muito admitir, havia parado de se amar há muito tempo.
Uma semana se passara desde a morte de Hans e, após todos os preparativos e as intermináveis ligações para todos os seus conhecidos, era o dia de seu funeral. Um inferno. Desde então ficara trancada em seu quarto sem falar com absolutamente ninguém, nem mesmo com Hector que viajara por horas e horas apenas para confortá-la após descobrir sobre o ocorrido. Ficar escutando a notícia repetidamente servia somente para aumentar as feridas e torturá-la mais, portanto preferiu se isolar do mundo exterior.
Primeiro os amigos, depois a morte de seu pai, a pessoa mais importante da sua vida, e junto à isso, o desaparecimento de Sarah, obviamente arquitetado pelas mãos imundas de Félix. Nem sabia se estava viva ou morta, mas no fundo de seu coração, ainda existia uma mísera esperança em meio à todo esse vazio. Se Sarah estivesse viva, então moveria céu e terra para encontrá-la. Dane-se que era uma mísera mulher sem poder algum, dane-se que era uma fraca dependente, isso não tinha importância. Uma semana de lágrimas fora o suficiente para esgotar todo o seu estoque, e prometeu a si mesma que não choraria mais, que não permitiria ser vista tão fragilizada novamente, que jamais daria brechas para que descobrissem suas fraquezas e seguissem puxando o gatilho contra cada uma delas.
Ela simplesmente não podia.
A liberdade pela qual sempre lutou teve um preço caríssimo que teimou em pagar, e agora se encontrava endividada até o pescoço pelo resto da vida, ciente de que jamais conseguirá quitar essa maldita dívida. Os juros continuarão subindo, subindo, até que em algum momento, se afogará neles. É por isso que, para evitar o aumento de suas perdas, utilizou dessa última semana para descarregar todas as suas fraquezas e frustrações antes de matar a antiga Pan Stracci.
A partir desse dia, venderia sua alma ao diabo se assim fosse necessário para não perder mais ninguém.
Porque essa vida era assim; um inferno. Um inferno do qual ela basicamente implorou para fazer parte sem saber o que a esperava, e que já era tarde demais para se arrepender. Só lhe restava seguir em frente, torcendo cada dia que seu corpo se perdesse logo nas chamas desse lugar assim como sua alma já apodrecida.
Apoiou as mãos na bancada da pia ao terminar de escovar os dentes e, cabisbaixa, respirou fundo, tomando coragem para adentrar o chuveiro e tomar um banho rápido. A água morna que antigamente servia para lhe acalmar havia perdido essa função; ficar sozinha sobre ela, agora, era como um martírio que engatilhava pensamentos dolorosos. Chegava a queimar sua pele.
A toalha deu lugar à um vestido branco e curto que logo se manchou de rubro com o toque dos longos cabelos úmidos e recém pintados. Não deu muita importância à isso, no entanto, pois o estado em que ficara sua veste representava perfeitamente sua condição atual: uma verdadeira bagunça. Essa bagunça, porém, não podia de forma alguma ficar visível para os outros. Apressou-se em esconder os resquícios de seu choro e a falta de sono com maquiagem e umedeceu os lábios rachados antes de colocar ração e acariciar seu gatinho por alguns minutos, agradecendo-lhe pela companhia durante toda a sua saga de luto.
Soltou uma parcela de ar pela boca e tomou coragem antes de girar a maçaneta, partindo com os pés descalços até o primeiro degrau da escadaria principal. Suas pequenas férias haviam acabado, por fim era hora de encarar a maldita realidade e todo o resto do mundo. Já conseguia ouvir o burburinho de discussão em sua sala de estar, alto e imponente como em todos os dias anteriores. Pelo visto, seguiam em um impasse sobre quem seria o novo chefe da famiglia. Era o último assunto pendente, depois de tantos problemas deixados pela morte do antigo Don.
— Ele não era nada além de um peão, e ainda por cima é muito jovem. Está fora de cogitação ter um moleque desse no cargo. — Um dos homens esbravejou, fazendo-a instantaneamente cessar os passos para sentar-se no último degrau, apoiada no corrimão, intencionando ouvir a conversa.
— Mas ele está em um relacionamento com a filha do Hans, a única herdeira legítima. — Sandro se posicionou. — Não podemos excluir a possibilidade de um matrimônio. — Acrescentou, e ela, angustiada, sentiu o coração falhar uma batida.
Porra, não. Não era possível. Depois de tudo, claramente não necessitava de um incômodo a mais para lidar, especialmente no dia do funeral de seu pai. Cerrou os dentes e o corpo se moveu sozinho até o escritório, passando como um furacão em meio à reunião aonde era citada e, obviamente, sob os olhos de Hector, que sussurrou "merda" de forma inaudível ao vê-la batendo com força a porta do escritório após adentrá-lo. A opção que lhe restara foi a de pedir licença, desculpar-se com os outros ali presentes e segui-la.
— Não sabia que você tinha saído do quarto. — Hesitou ao caminhar em direção à sua amada, se contentando em encarar seu perfil enquanto sentada de lado na cadeira do pai, os olhos fixos em um dos quadros na parede. Era como se existisse uma barreira invisível que o proibia de se aproximar. — Fiquei preocupado com você.
— Não preciso que se preocupe comigo, Hector. — A frieza em seu timbre evidenciou o desaparecimento de sua vivacidade, colocando à tona a cretina infeliz que se tornara.
— Você disse meu nome inteiro. — Ignorou totalmente a maldita barreira criada por ela e se avizinhou o suficiente para tocá-la suavemente no rosto, ajoelhando-se à sua frente para obrigá-la a fazer contato visual. — Já fazia um tempo que você não criava essa distância entre nós dois. — Acariciou os lábios dela com o polegar, fazendo-a levantar o queixo à contragosto.
— Eu perdi tudo, o que você esperava? — Afastou a mão dele em um tapa fraco, ainda titubeante. A presença desse homem mexia com cada célula sua, odiava tratá-lo assim conquanto achasse necessário.
— Você não perdeu tudo. — Insistiu na aproximação, entrelaçando seus dedos nos dela carinhosamente. — Eu ainda estou aqui. — Sussurrou.
— Sei disso, e ter você aqui é um dos motivos que me faz levantar da cama todos os dias, mas nós dois não podemos mais ficar juntos. — Tentou ser forte, apesar das emoções transparecerem em sua face; a garganta fechada também demonstrava o quanto estava sofrendo com isso. Era uma das únicas pessoas amadas restantes em sua vida, afinal, e afastá-lo propositalmente doía muito. — Minha cabeça tá em outro lugar, eu não vou ser uma boa namorada pra você. E, além disso, eu nem vivi a minha vida ainda, não quero me casar só pra você poder assumir os negócios da família. Eu te amo, mas...
— Pan, eu não quero me casar com você. — Interrompeu antes que ela se enchesse de preocupações desnecessárias. Quando a viu levantar os olhos arregalados em surpresa, beijou o topo de suas mãos e acrescentou: — Não agora, pelo menos.
— Você não quer ser o novo Don?
— Não se isso significa te perder. — Levantou-se para acomodar-se acima da mesa, prontificando-se a encará-la com ternura. — Sei o quanto sua liberdade significa pra você, Pan. Nunca te pediria para assumir um compromisso desses tão cedo, e por outro lado, eu concordo com eles. Sou muito jovem e inexperiente, seria impensável assumir os negócios nesse estado.
— Isso não muda o fato de que eu vou ser uma péssima namorada pra você. Ultimamente eu só penso em me vingar do Félix, não tenho espaço pra mais nada no meu coração.
— Concordo que ele precisa pagar pelo que fez, mas se cegar por vingança não é o caminho certo, meu amor.
— Você não entende! — Vociferou ao desvencilhar-se rapidamente, porém foi detida ao percebê-lo segurando seu pulso.
— Eu entendo muito bem. A primeira coisa que eu fiz quando comecei a trabalhar para o Hans foi procurar os assassinos dos meus pais que continuaram vivos, eu transformei essa sede de vingança como o propósito da minha vida, e não me serviu de nada. — Amaciou a expressão tensa, soltando-a ao notar que o aperto forte marcara sua pele. Havia involuntariamente exagerado devido às memórias desagradáveis. — Quando eu os encontrei, descontei toda a minha raiva, e só me senti ainda mais vazio olhando para os cadáveres espatifados no chão. Não mudou nada, não trouxe ninguém de volta.
— Porque você só matou eles. — Murmurou, e Hector levantou as sobrancelhas sem entender aonde ela queria chegar. — Quando eu era mais nova, sempre ouvia o papai dizer que, pra se vingar de alguém você precisa ser inteligente e não pode agir só na base do ódio e da agressividade. — Sua expressão anuviou-se em uma tristeza imensurável, e seu motivo era óbvio. A perda ainda era muito recente, e isso a obrigou a engolir seco para continuar. — Ele gostava de falar que a morte era um descanso para os desgraçados, e que o desespero só podia ser sentido em vida. É isso que eu quero... que o Félix e todos os responsáveis se sintam como eu me senti, que eles se desesperem como eu me desesperei. Simplesmente matar cada um deles seria muito fácil e sem graça.
— Pan...
— Desculpa interromper. — Kate os interrompeu, quebrando toda a tensão no cômodo. Estava trajada de preto como todos os outros, exceto pela filha do homem que seria enterrado. Teve curiosidade de questioná-la sobre o motivo de usar branco em um dia de luto, porém se conteve, já sem graça por entrar em meio ao fogo cruzado. — Me pediram pra chamar vocês porque já tá na hora de ir. — Completou.
Pan se questionou sobre o motivo de não ter notado a chegada da colega, e ao perceber que a porta esteve aberta todo esse tempo, franziu a testa automaticamente. Inferno, pelo visto todas as almas presentes na casa haviam escutado seu diálogo com Hector e isso não a agradava em nada. Não confiava em nenhum deles a não ser por Sandro e sua mãe, portanto era perigoso que soubessem sobre seus planos futuros de vingança. Aos olhos da maioria ali, era apenas uma garotinha mimada e incapaz que não apresentava ameaça alguma. Gostaria de permanecer assim, se possível.
— Tudo bem, obrigada, Kate. — Agradeceu forçando um sorrisinho e saiu em direção ao carro sem fazer contato visual com nenhum dos homens em sua sala a não ser por Lorenzo, que chamou sua atenção ao se levantar da poltrona apenas para segui-la. — Você não vai comigo, né? — Indagou em tom de intimação, e ele não se deu ao trabalho de responder. Simplesmente se acomodou no banco traseiro e a puxou consigo, proibindo que qualquer outro os interrompesse ao ordenar que o veículo fosse trancado. — Eu juro que a última coisa que eu precisava era passar tempo com você antes de enterrar meu pai. — Tocou a testa decepcionada, o repelindo de forma nada sutil ao se afastar e criar o máximo de distância possível entre eles. Não imaginava que algo de bom pudesse vir do sujeito em questão.
— Não se superestime tanto, piccola. Também não estou muito entusiasmado em ter que conversar com você. — Retirou do bolso do paletó um maço de cigarros, estendendo-o em direção à ela. — Acho que vai precisar mais do que eu.
Pan aceitou contra a própria vontade e colocou um entre os lábios, abrindo o vidro assim que Lorenzo puxara o isqueiro para acendê-lo. Deu uma tragada e tossiu, contudo após algumas outras, sua garganta e os pulmões se acostumaram rapidamente. Não era a primeira vez, afinal. Desde o falecimento de Alex, Hans e Naoki, o álcool e o tabaco haviam se apresentado como ótimos aliados na supressão da dor.
— Te conheço e sei que não veio pra me consolar. O que você quer, Lorenzo? Veio rir da minha cara por ter falado tanto para o Hector sem ter poder nenhum pra fazer nada?
— Muito pelo contrário. — Encarou o retrovisor interno e percebeu que o motorista parecia intrigado com o banco de trás, prontificando-se a ativar o separador de cabines para criar um espaço privado aonde pudessem seguir dialogando tranquilamente. — É verdade que, depois daquele discursinho vazio sobre vingança, a maioria riu de você. Te consideram uma criança estúpida que vai acabar se matando sozinha depois de afundar o nome Stracci na lama, mas a outra parte, uma pequena parte, respeita muito o seu pai e está disposta a te escutar.
— Me escutar?
— O Hans deixou um testamento te dando direito a votar na sucessão, e é por isso que estamos há tanto tempo nesse impasse. Alguns querem honrar os desejos do falecido Don, e outros acham ridículo que uma menina imprudente interfira no destino da famiglia.
— Foi por isso que você me seguiu? Se está tão preocupado a ponto de vir me incomodar hoje, não precisa nem perder o seu tempo. Tenho o mínimo de noção a ponto de não me meter nisso, e pra ser sincera, também não me importo.
— Decidiu se colocar no seu lugar, finalmente? — Um sorrisinho ladino surgiu no canto de sua boca, e ela deu de ombros. — Se quer saber, eu sou parte desse grupo curioso para descobrir o que você tem a dizer.
Pan enrugou a testa em desaprovação. O cigarro foi parar no asfalto, e após limpar as mãos, fechou a janela para soltar um murmuro arrastado:
— Eu nunca votaria em você.
— Pensei que fosse mais ambiciosa. — Os olhos intrigados se direcionaram à ela, analisando cada movimento. — Se o que disse antes não foi da boca pra fora, não é de um pacifista como o Sandro que você precisa, menina.
— Ele é inteligente e diplomático, ao contrário de alguns que só sabem controlar na base da violência. O Sandro odeia o Félix tanto quanto qualquer outro, e pelo menos nele eu confio.
— Concordo que ele vai agir contra o Félix. O Sandro já foi um desgraçado sanguinário e isso não se perde de um dia para o outro, mas convenhamos, você é a queridinha dele. A protegida. Ele nunca te daria passe livre para se vingar com as próprias mãos porque tem medo do efeito que isso pode te causar, e nós dois sabemos que não é exatamente isso que você quer. — Retrucou com um sorrisinho ladino e a viu rapidamente ranger os dentes antes de se recompor. Era uma verdade incontestável que a obrigava a repensar. — Eu, por outro lado... — diminuiu a distância até que seus lábios ficassem próximos do ouvido dela e acrescentou em um sussurro: — não daria a mínima nem se te visse cortada em mil pedacinhos na minha sarjeta.
— Se for pra escolher alguém que não dá a mínima pro que eu faço, ainda assim você não vai ser a minha primeira opção, Lorenzo. Prefiro implorar para o Bertolucci do que fazer qualquer trato com você.
— Para pedir um favor, é necessário primeiro provar que tem algo a oferecer. Pela sua conversinha com o Fantasma, você não pretende fazer negócios através do matrimônio, então... — a fitou de cima à baixo, franzindo a testa — vai se vender dessa forma? não imaginei que estivesse disposta a tanto. Acho que te subestimei quando disse que não era ambiciosa. — O sorrisinho de escárnio retornou, e isso fez com que o sangue dela fervesse.
Pan mordeu a língua, fechou os olhos e respirou fundo antes que se irritasse. Não poderia se permitir perder a calma. Ao menos não nesse dia.
— Ele é casado, e mesmo que não fosse, nunca tocaria na filha do melhor amigo. Ele não é esse tipo de homem.
— Domenico Bertolucci realmente não. Aquele velho é um veterano de guerra que não se importa com nada além dos negócios, mas o atual Don, Francesco Bertolucci, é outra história. — Comentou sarcástico, deixando claro que estava se divertindo com a pequena tortura psicológica feita aos poucos contra ela. O estado surpreso em que ficara a garota após escutá-lo era a prova irrefutável de que seu joguinho estava funcionando. No fim, as cartas estavam a seu favor. — Pela sua cara, você ainda não sabia sobre a aposentadoria do Domenico. De qualquer forma, o filho que assumiu está interessado em você. Ele gosta de mulheres mais jovens, então se estiver disposta a se vender, vai ser fácil fechar o negócio. Caso contrário, é melhor repensar sobre a minha oferta, ragazza. Sou o único capaz de te entregar em mãos tudo o que você quer por um preço muito baixo.
— Nada que venha de você pode ter um preço baixo. — Bufou insatisfeita, se apressando em puxar a maçaneta ao notar que o carro havia estacionado. Pretendia finalizar aquela conversa inconveniente ali, contudo, se surpreendeu ao ver que a porta não se abria, apesar de destrancada. Franziu as sobrancelhas e voltou-se àquele infeliz novamente para sussurrar: — Se for mais uma de suas gracinhas, eu juro que... — cortou sua fala ao perceber que estava sozinha no carro, assustando-se com a repentina abertura do veículo.
— Trava de criança. — O tom sarcástico de Lorenzo combinava com a expressão em seu rosto, enquanto movia o pino que a impedia de se libertar pelo interior. Ela grunhiu de forma nada amigável devido à insinuação e se levantou rapidamente para tocar o chão com os pés descalços, lançando em sua direção um olhar mortal. — O Félix vai aparecer. — Disse friamente, segurando-a pelo pulso sem poupar forças. A pele clara já começava a se marcar contra o toque firme de seus dedos.
Pan congelou por um singelo instante. Tinha perfeita ciência disso; de que Félix Santoro obviamente apareceria no enterro com a maldita cara lavada de sempre, apenas com o intuito de se livrar de mais suspeitas. Não comparecer ao funeral do suposto melhor amigo que fora "assassinado à sua frente pelo piloto foragido" seria um erro fatal, e um desgraçado capaz de passar mais de dez anos planejando a morte de alguém não cometeria um erro estúpido desses. Havia passado muito tempo se empenhando em ignorar esse fato, tentando ignorar que em breve o veria pessoalmente pelo bem de sua sanidade mental, porém escutar de outra pessoa tornava tudo muito real.
Não lhe restou opção senão respirar fundo, amolecer os músculos enrijecidos pela tensão e simplesmente balbuciar cabisbaixa, sem emoção alguma:
— Ele vai ser cumprimentado e bem tratado, igual a todos os outros que vierem prestar respeito ao meu pai.
Com isso, desvencilhou-se bruscamente e partiu com os pés descalços sem olhar para trás, apática por qualquer coisa que Lorenzo ainda pudesse acrescentar ao maldito e indesejado diálogo que apenas tornara seu dia mais longo e miserável. Sim, miserável era a palavra ideal para refletir seu estado.
O vestido manchado e os cabelos úmidos balançaram com o vento enquanto tocava o rosto gélido e inanimado de Hans no caixão, tão perfeitamente acomodado e pálido que parecia um boneco. Os retoques feitos na derme danificada e antes cheia de cortes brutais auxiliavam a dar um aspecto surreal. Se recusava a crer que uma existência frágil e derrotada como essa pudesse ser seu amado pai, porque em seus sonhos mais profundos, ele costumava ser invencível. Não era para estar morto, caramba. Não tinha o direito de quebrar outra promessa. Deveriam viajar juntos à Palermo, certo? Então por quê?
Inevitavelmente os olhos se marejaram, porém se recusava a ceder. Um. Dois. Três. Quatro... iniciou uma contagem regressiva mental e depois de alguns segundos foi capaz de acalmar os ânimos, segurando as lágrimas. Havia jurado não se mostrar vulnerável em frente aos cretinos ali presentes, e apesar de ser difícil conter as emoções, ao menos ela não costumava quebrar promessas.
Todos os discursos entravam por um ouvido e saíam pelo outro, como um breve sopro insignificante. Tinha noção de que era o centro das atenções; podia escutar vez ou outra seu nome em meio aos burburinhos, e honestamente, já até esperava por isso. Ora, os hipócritas necessitavam demonstrar piedade pela pobre garotinha que perdeu o pai, não? Precisavam ganhar pontos de empatia, porque apesar de verem-na como inútil e inofensiva, várias pessoas poderosas davam algum valor à sua opinião, e isso aparentemente incluía o próximo chefe da famiglia Stracci, seja esse Sandro ou o detestável Lorenzo. Ficar em seu lado bom era promissor para os negócios.
— Nós temos um assunto pendente, senhorita Stracci. — Hector aproximou o rosto de seu pescoço, sussurrando de forma melancólica e leniente, retirando parte da tensão em seus ombros rígidos ao senti-lo deslizando suavemente as mãos por eles. — Mas por enquanto, só quero te segurar. Posso? — Pediu um tanto hesitante, contudo ao receber um aceno afirmativo de cabeça, beijou-a carinhosamente na nuca antes de envolvê-la em um abraço forte e caloroso por trás. Confortá-la era sua prioridade naquele instante.
Pan deixou que as pálpebras pesadas tomassem o controle e se fechassem por completo. Não havia se dado conta do quanto necessitava daquele segundo de paz nos braços confortáveis de Hector, como uma fortaleza inabalável. Ele sempre fora seu escudo, e agora, mais do que nunca, ansiava por sua proteção. Queria afastá-lo antes por se considerar indigna de amá-lo enquanto mal conseguia amar a si mesma, mas seria um erro. Talvez o mais estúpido de todos.
— É muito errado te pedir pra me deixar ser egoísta uma última vez? — Indagou em uma entonação baixa e abatida, permitindo transparecer cada centímetro de sua vulnerabilidade na voz. Para ele, e somente para ele.
Hector entendeu perfeitamente, apertando-a ainda mais contra seu corpo, esboçando um sorrisinho imperceptível de canto.
— Pode ser egoísta um milhão de vezes se quiser. Eu já me decidi. — A soltou de seus braços e sutilmente fez com que se virasse para encará-lo de frente, titubeando ao tocá-la novamente devido à enorme distância, embora estivessem praticamente colados. Aquela expressão derrotada e a aura inalcançável explicavam muitas coisas sem que palavras fossem necessárias. — Sei que não é de um namorado que você precisa agora, então... — mandou tudo à merda internamente e emoldurou o rosto dela com as mãos, quebrando a maldita parede invisível entre eles, colando suas testas uma na outra para acrescentar: — me use. Eu sou seu para usar como quiser.
A resposta veio com um rápido selinho, e nada mais foi dito. Ela simplesmente permaneceu quieta e voltou a analisar a entrada, cada um dos desgraçados que assinavam a lista de presença. Hector tinha razão. Não estava em clima para romance, porque cada parte de sua existência encontrava-se focada em um assunto completamente oposto à isso.
E o assunto em questão havia acabado de chegar.
Trajado em seu terno perfeitamente costurado de maneira que se adequasse aos seus gostos caríssimos e à sua enorme necessidade de ser o centro das atenções. O mesmo olhar dissimulado e gélido de sempre, sem nenhum remorso ou vergonha de prestar suas condolências mesmo sendo o responsável por matá-lo. Desgraçado.
Seus olhos se encontraram e Pan cerrou os dentes sem perceber. O sangue ferveu, os vinte e poucos passos ritmados dados em sua direção aparentavam ter demorado uma eternidade torturante. Se deu conta da própria postura tensa e a desfez apressadamente, mascarando o ódio com um sorriso cortês ao finalmente tê-lo diante de si, tão próximo que não teria dificuldade alguma em esfaqueá-lo como havia feito com Hans.
— Gostaria de expressar meus pêsames por sua perda, criança. — Félix quebrou o silêncio e a tensão palpável, puxando-a de volta ao mundo real. — Hans era um bom homem. Não merecia ter morrido tão cedo.
Cretino cínico. Não permitiria que ele ditasse o rumo dos acontecimentos com seu teatrinho usual.
— Muito obrigada por vir, tio Félix. Significa muito ter você aqui. — Aproveitou a oportunidade para agir como a frágil garotinha que carecia de consolo, colocando-se na ponta dos pés e pendurando-se no pescoço dele, abraçando-o com força. Pelo visto havia funcionado, considerando o fato de que ele ficara sem reação por um átimo até se recompor e entrar na brincadeira. — Até porque, me ensinaram que é proveitoso manter os inimigos por perto. — Essa última parte sussurrou em seu ouvido, escondendo os lábios para não correr o risco de que alguém pudesse lê-los.
O escutou dar uma risadinha discreta e afastou-se um tanto para encará-lo diretamente, ainda sem soltá-lo. As mãos de Félix também seguiam em sua cintura; a distância entre suas faces não passava de cinco centímetros, e isso era perfeito porque criava um espaço invisível e particular aonde podiam conversar sem interrupções. Estava clara a declaração corporal de ambos, requisitando silenciosamente que lhes dessem alguma privacidade. Encontravam-se em um privado mundinho odioso.
— Outra ratinha tentando se passar por predadora. — Sua boca curvou-se ladinamente enquanto a observava com escárnio. — Da última vez que isso aconteceu, o preço foi a vida do seu pai. Melhor continuar presa no seu castelo e não se intrometer em assuntos que não lhe dizem respeito, princesinha.
A fala foi claramente uma ameaça escancarada, contudo a única coisa na qual Pan conseguiu focar foi na parte aonde ele especificamente cita que apenas a vida de seu pai fora perdida. Seus olhos se iluminaram um pouco com a confirmação do que antes era apenas uma esperança sua.
Sarah estava viva.
— Não tenho medo de você.
— Finalmente concordamos em alguma coisa. Suas declarações infantis de guerra não amedrontam ninguém. — Tocou-a gentilmente no rosto, acariciando-o com o polegar. Esse simples gesto fizera o estômago dela revirar enojado. — Pode tentar agir como adulta, mas no fundo, todos nós sabemos que você não passa de uma garotinha pura e incapaz de fazer qualquer coisa por si mesma.
Agora foi ela quem demonstrou um sorrisinho vitorioso, transmitindo uma frieza imensurável. Era real. Pan não possuía poder o suficiente para agir individualmente, mas era divertido porque ela simplesmente não precisava disso. Graças às suas origens existiam pessoas dispostas a ajudá-la, e essa carta na manga ela não descartaria jamais se quisesse realmente derrubar o canalha em sua frente.
— Tem razão, Félix. Sozinha eu não consigo fazer nada, afinal de contas, sou só uma mocinha inocente e pura... — aproximou o rosto do pescoço dele, apoiando as mãos em seu torso de forma ligeiramente sedutora — tão pura que o meu sangue borbulha quando chego perto de você, implorando que eu esmague mais um verme sujo e o apague desse mundo. — Concluiu em um rosnado baixo, depositando na bochecha dele um beijo demorado e estranhamente convidativo, como uma viúva-negra intencionada a atrair uma vítima até sua teia. O percebeu engolindo seco, tomando vantagem do mínimo pavor transparecendo em seu semblante para ajeitar sua gravata antes de despedir-se educadamente.
Sua expressão anuviou-se no instante que se virara de costas para o infeliz, já iniciando sua caminhada graciosa e inquietante até o próximo destino. Lhe custava muito aceitar, porém estava na hora de admitir que, nesse meio, nenhum evento é meramente um evento. Um aniversário não é um aniversário; um casamento não é um casamento; um funeral não é um funeral.
Toda e qualquer ocasião tinha um propósito ulterior por trás, e no caso dessa, era descobrir qual dos lados da guerra seria mais benéfico.
Foi assim que, sob os olhares atentos de todos ali presentes, Pan Stracci, em silêncio, pôs-se ao lado de Lorenzo e entrelaçou seus braços no dele. A reação surpresa coletiva era esperada, especialmente daqueles que tinham noção sobre seu desapreço pelo sujeito.
— Tive fé que você tomaria a decisão certa no fim do dia. — Lorenzo permaneceu indiferente, demonstrando que já esperava por isso.
— A Sarah está viva. Minhas prioridades mudaram.
— Para resgatar a refém viva, as circunstâncias também mudam. — Retrucou enquanto acendia um cigarro entre os dentes, analisando de canto as reações dela. — Preciso que se afaste do país até que eu resolva as coisas com a polícia. Fique em uma das minhas chácaras em Palermo e tire férias por um ou dois anos.
Pan franziu o cenho, e ainda assim assentiu, ciente de que não lhe restava opção senão concordar. De qualquer maneira, independentemente de quantos anos seguisse adiando a vingança, seu ódio não diminuiria. Nem mesmo um pouquinho.
Lorenzo sinalizou discretamente que outros os seguissem depois de alguns minutos e a acompanhou até o escritório de Hans, aonde Pan rapidamente se apossou da cadeira principal atrás da escrivaninha.
— Mais uma coisa... — ela retornou a falar e logo a atenção de Lorenzo se voltou em sua direção — não quero que você continue usando o nome Stracci. Pode ser o próximo chefe, não dou a mínima, mas você nunca vai ser o substituto do meu pai.
— Eu concordo. — A voz de Alice ecoou no cômodo silencioso, à medida que se abancava em uma das poltronas. — Não quero alguém como você sujando o sobrenome do meu marido.
— Não imaginei que fizesse o tipo sentimental, Alice. — Provocou ladino, recebendo uma mirada astuciosa da mulher à quem se dirigira. — Eu já pretendia mudar de qualquer jeito. Trabalhei muito tempo para os Stracci. Está na hora de inverter os papéis.
Ambas se ajustaram na intenção de colocá-lo em seu devido lugar, entretanto se contiveram ao notar que vários dos nomes importantes da famiglia adentravam o recinto, um atrás do outro. Quando todos se fizeram presentes, a reunião se iniciou.
As portas se fecharam. Já era muito tarde para se arrepender. Assim que escutou o nome de Lorenzo, Pan se prontificou a levantar sua mão, entregando-lhe o voto de bom grado. Graças à isso, a votação não demorou muito a terminar, porque seu apoio transformou o impasse em uma decisão unânime e absoluta. O novo Don estava, por fim, decidido.
Em meio ao burburinho de conversa, Pan e Lorenzo trocaram um olhar cúmplice, e ele abaixou-se cortesmente para beijá-la nas mãos, como uma forma de evidenciar sua gratidão e respeito. Estranhamente, outros seguiram seu exemplo e fizeram o mesmo, enquanto ela seguia de pernas cruzadas no antigo assento de Hans.
Um gosto amargo no fundo de sua garganta a fazia perceber que, por um lado, ainda se arrependia dessa decisão, contudo logo engoliu seco e focou os pensamentos nos próprios objetivos. Seus olhos foram parar em Lorenzo Caccini, e ali ficaram, gélidos e sem vida. Danem-se orgulho e princípios. Mostraria à Félix o verdadeiro inferno na terra, mesmo que para isso...
Tivesse acabado de vender a alma ao próprio diabo.
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