Notas iniciais
Olá meus chuchuzinhos ♥ esse capítulo tem vários mistérios, e também, isso não podia faltar em uma história adolescente, né? Espero que vocês gostem ♥ Boa leiturinha~

O pavor que havia dominado o salão encerrara a conversa proveitosa entre Sarah e Chris. Aquelas palavras estampadas como uma ameaça para que todos pudessem ver mexeram com o semblante usualmente sereno dela, que instantaneamente preocupou-se com Pan, pensando que poderia perdê-la de um segundo para o outro. Aquela sensação de impotência e o sentimento de insegurança desencadearam lembranças tão dolorosas sobre o seu passado que fora difícil manter o fôlego. Sua respiração instantaneamente se tornou pesada; as mãos suavam frio e as pernas começavam a perder a força à medida que seu estômago lhe proporcionava algumas pontadas de dor incômodas.

— Sarah? O que foi? — A voz de Chris parecia distante. Sua audição havia falhado por um momento devido ao pânico que sentia. No instante em que sentiu a mão do garoto tocar suavemente o seu ombro, recuou rapidamente em um reflexo assustado, dando alguns passos para trás enquanto o fitava com os olhos arregalados. — Ei, você tá bem? Fica tranquila, respira, não vai acontecer nada, eu prometo. — Murmurou tentando manter a calma, para que não a assustasse mais ainda. Sabia perfeitamente que, se perdesse a compostura, não acabaria lhe passando segurança.

— A Pan, ela... eu preciso ver ela. Eu preciso ver a Pan, ela confia muito facilmente nas pessoas, não pode ficar sozinha. — Tagarelou desesperadamente, com certa dificuldade devido à sua respiração descompassada. Era torturante apenas imaginar que tinha algum assassino solto pelo salão e que aquela garota tão inocente pudesse estar caminhando por ai desacompanhada e desprotegida. Assim que começou a afastar-se em passos rápidos, sentiu outra vez Chris segurá-la, trazendo-a de volta para o seu lado, ainda sem soltar sua mão. — Chris, eu preciso ir, por favor! A Pan é tudo pra mim, ela é... ela é a pessoa mais importante da minha vida. Eu não consigo imaginar a minha vida sem ela. — Suplicou com os olhos marejados, tentando desvencilhar-se.

— Eu sei, fica tranquila. Mas eu vou com você. — Retrucou, deslizando sua mão pelo braço dela até que entrelaçassem os dedos. — Vamos juntos, por favor? Ela também não ia gostar de te perder, e eu não sou o tipo de cara que deixa uma amiga andar sozinha com algum tipo de psicopata solto por aí. — Pediu de um jeito convincente, fazendo-a assentir quase que instantaneamente e esboçar um sorriso aliviado. De certa forma, trazia-lhe confiança tê-lo ali ao seu lado.

A multidão estava completamente exaltada, porém a polícia não estava permitindo a saída de qualquer pessoa, no intuito de que o assassino também não acabasse escapando. No jardim, Hector e Pan continuavam vidrados naquele momento que pertencia somente à eles, com seus pés movendo em sintonia como se soubessem perfeitamente qual música tocava, embora já não houvesse mais melodia alguma. Estavam tão envolvidos na situação que nem ao menos perceberam a orquestra cessar suas atividades, sendo trazidos de volta à realidade apenas quando o toque de um celular os interrompeu.

— Você não precisa atender? — Pan indagou curiosa, achando estranho o fato de não vê-lo imediatamente correndo para atender àquela ligação.

— Infelizmente. — Retrucou, demonstrando um fraco sorriso de canto antes de levar o aparelho ao ouvido e afastar-se um pouco. — Pronto?

Como estão minhas filhas? — A voz de Hans soou afobada do outro lado da linha. Parecia estar extremamente preocupado com algo, o que era realmente estranho, já que sempre fora uma pessoa muito calma e racional.

— Bem. A Pan está comigo. — Disse limpando a garganta antes de encará-la por alguns segundos e desviar rapidamente o olhar, sentindo-se culpado por ter se permitido aproximar-se mais do que deveria anteriormente. — Aconteceu alguma coisa que eu deva saber? — Perguntou, percebendo o clima tenso.

Sim, não se afaste dela nem por um segundo. Você está armado, certo? Estou indo pessoalmente até aí.

— Você vai vir até aqui? — Surpreendeu-se com aquela notícia. Normalmente um Don nunca sujaria as próprias mãos, muito menos um tão poderoso quanto o da família Stracci. Ir até a linha de frente não era seguro e poderia trazer-lhe complicações com a justiça, por isso sempre utilizavam peões para que não precisassem agir. — Se o senhor vai vir pessoalmente, então deve ser alguma coisa séria, e eu fico de mãos atadas se não souber o que está acontecendo.

Um fantasma do meu passado decidiu que agora seria uma boa hora pra voltar dos mortos e acabar com a minha paz. — Comentou friamente, quase como se pudesse matar alguém apenas com aquela voz rouca e perfurante. — Se lembra quando te contei sobre o Vincenzo?

— Um dos antigos capos da famiglia que desapareceu sem deixar rastros? — Indagou arqueando as sobrancelhas. Agora as coisas já começavam a fazer mais sentido.

O desgraçado ia morrer aquela noite, depois de me trair e ser expulso da famiglia. — Hans suspirou, sendo possível ouvir o motor do carro através da ligação, e vez ou outra o som da buzina desesperada para que todos saíssem de seu caminho. — Ele tem alguns problemas comigo, e quer voltar pra acertar as contas. Não é engraçado que ele queira fazer isso logo agora que eu deixei a minha menina colocar os pés pra fora de casa? — Soltou um leve riso de zombaria, bem breve e irônico.

— Entendi o recado. — Disse dando de ombros, observando a garota em questão pelo canto dos olhos.

— Tente não chamar muita atenção. Você tem a ordem e a permissão pra estourar os miolos dele se precisar.

— Tudo bem. — Concordou, com certo remorso e até mesmo um pouco apreensivo com a situação. Para ele, não era nada novo cometer um assassinato, porém não sabia se estava preparado para retirar uma vida em frente à Pan, que nunca havia presenciado algo do tipo. Era um lado seu que ele gostaria de manter escondido daquela garota pela eternidade, se possível.

— Hector? — A voz doce de sua protegida retirou-o de seus devaneios, no instante que ela aproximou-se após percebê-lo desligar o celular. — Era o papai?

— Sim, era. — Assentiu, deixando escapar um suspiro abatido antes de acercar-se dela e acariciar-lhe os cabelos, fitando-a com doçura. — Como você está? Cansada?

— Um pouco. Nós dançamos bastante. — Sorriu, apreciando o carinho.

— Escuta, Pan, você pode me fazer um favor? — Pediu, quase em tom de súplica, levando a mão que estava nos cabelos da garota até o queixo, obrigando-a a encará-lo diretamente nos olhos. Ela apenas abriu um pouco os lábios e arqueou levemente as sobrancelhas, achando completamente atípico aquele acontecimento. Hector jamais lhe pedia favores, e tudo ainda tornava-se mais suspeito quando o fazia após receber uma ligação de seu pai.

No interior do salão, Sarah e Chris haviam chegado próximos à mesa de petiscos, cessando os passos no instante que encontraram-se com Alex e Naoki ainda abraçados, preocupados com o estado da amiga, que rapidamente pulou nos braços de Chris ao vê-lo, deixando-se desabar ali mesmo e fazendo-o soltar a mão da colega que o acompanhara anteriormente para que pudesse confortá-la.

— O que aconteceu? — Perguntou aflito, tentando compreender as palavras da amiga que já havia manchado completamente sua camisa branca com a maquiagem de seu rosto. Metade das coisas que ela balbuciava eram incompreensíveis, devido às lágrimas.

— Ela viu... — Naoki interrompeu, apontando com o queixo para o local do assassinato. Já haviam retirado o cadáver, porém o chão continuava manchado com sangue.

— Vocês viram a Pan? — Sarah questionou inquieta, buscando-a com o olhar. — Eu estou preocupada com ela também.

— Todos estamos. Eu to tentando manter a calma, mas confesso que estou apavorado. — Naoki admitiu, esfregando os braços após sentir uma onda fria passar pelo seu corpo.

— Cara, nem me fale. Se não fosse por... — Chris hesitou, olhando para a colega em seus braços, trêmula e completamente dominada pelo pavor. — Bom, se não fosse por aquilo ali, eu até pensaria que era marketing pro filme. — Concluiu, referindo-se ao homicídio.

— Vocês querem sair daqui? Eu ouvir dizer que tem um jardim, talvez seja melhor pra respirar lá fora. Aqui tá uma loucura. — O outro propôs, e todos concordaram. Sarah até mesmo pensou que, talvez, a pessoa por quem tanto buscava poderia estar do lado de fora. Na verdade, ela torcia por isso.

De volta ao exterior, Hector decidira, apesar de hesitante, contar à Pan com todas as palavras o motivo pelo qual seu pai havia ligado. Ela instantaneamente aterrorizou-se, sentindo o coração apertar e as mãos suarem frio, inquieta pela segurança de seus amigos que agora estavam em perigo por causa de sua família. Achava tudo muito injusto, já que não tinham envolvimento algum com os negócios e muito menos sabiam nada sobre, e agora estava frustrada por não ter a capacidade de protegê-los como gostaria; talvez culpada por tê-los colocado em uma situação como essa. Chegou até mesmo a compreender o motivo pelo qual seu pai mantinha tanta distância algumas vezes.

Bambina! — A voz de Hans ecoou, fazendo-a sobressaltar com o susto e encolher os ombros entristecida, correndo rapidamente para abraçá-lo. Foi inevitável para ele perceber o estado apavorado da filha, conseguindo até mesmo ouvir os batimentos de seu coração ao segurá-la em seus braços. — Eu não vou deixar nada acontecer com você, principessa mia. O Hector vai ficar do seu lado e eu vou cuidar das coisas, tudo bem? — Argumentou em tom sereno, tentando acalmá-la.

— Não papai. — Ela murmurou, negando com a cabeça, já sentindo formar um nó em sua garganta. — Os meus amigos estão lá dentro. Eu não quero... — Hesitou, respirando fundo antes que fosse dominada pelo choro. A voz já começava a falhar. — Eu não quero que eles se machuquem por minha causa. — Concluiu, já com os olhos avermelhados e mais úmidos do que o usual.

— Não é culpa sua, Pan. — Hector consolou-a, apoiando suavemente a mão em seu ombro para tentar apaziguar a situação. — É culpa nossa. Você também não deveria estar no meio de tudo isso. — Completou, quase cedendo às vontades de puxá-la para si e nunca mais deixá-la ir. Merda. Que diabos estava pensando em meio àquela bagunça toda, e ainda por cima, com seu chefe logo ali? Mas, bom, vê-la tão vulnerável e entristecida realmente mexia com seu interior de um jeito inexplicável.

— Eu sou um Don, bambina. — Hans retrucou despreocupado, vestindo lentamente suas luvas de couro como se estivesse se preparando para cometer um crime. — Pensou mesmo que eu não pensaria na possibilidade de alguém acabar usando os seus colegas de reféns? — Comentou, dando-lhe um leve beijo na testa e afastando-se, agora voltando sua atenção à Hector. — Garoto, você conhece o delegado Harris, não? Deixei todas as instruções com ele. Eu não quero vocês lá em casa, vão pra casa dos Santoro e fiquem lá até eu dar a ordem. — Ultimou, fazendo-o assentir.

— E você, papai? — Perguntou aflita, sem vontade alguma de abandonar aquele homem em meio ao fogo cruzado. Apesar de ser inocente, ela sabia perfeitamente o que aconteceria ali, e entendia que ele estava em perigo.

— Eu vou resolver isso bem rápido e já volto pra te ver, bambina. Não vai demorar.

— Não! A polícia não pode resolver isso pra você? É perigoso. — Contestou, sentindo uma onda fria tomar conta de seu interior outra vez. Que tipo de pessoa ficaria calma ao saber que o pai estaria trocando tiros com criminosos por aí?

— A polícia? — Ele riu, quase desdenhosamente. — É uma desonra deixar que eles interfiram nos negócios da famiglia. Depois nós conversamos, aqui é muito perigoso pra você. Leve ela, garoto. — Ordenou, e ela foi obrigada a aceitar, mesmo que à contragosto, sendo arrastada por Hector até o salão enquanto lutava para manter o olhar fixado em seu pai até que saísse de seu campo de visão.

O homem que Hector fora instruído a encontrar estava logo na porta de entrada do jardim, barrando qualquer outro convidado de sair do salão, para que não se deparassem com os membros da famiglia e suas ações ilícitas. Todos os amigos de Pan estavam próximos à ele, inclusive Isis e Kate, que haviam saído amedrontadas do quarto em que estavam após ouvirem a gritaria do lado de fora.

— Meu deus, Pan. Você tá bem? — Sarah indagou no instante em que a viu, desesperadamente correndo para tê-la em seus braços e apertando-a como se nunca mais fosse vê-la. Ela retribuiu o gesto e assegurou-lhe de que não estava machucada, desvencilhando-se sutilmente para conseguir respirar e segurando com força a mão da colega para mantê-la tranquila.

— O papai veio até aqui. — Murmurou, fazendo-a compreender tudo. Ela já tinha uma noção de que pudesse ser algo relacionado à isso, porém agora todas as suas dúvidas foram sanadas, embora isso houvesse lhe trazido ainda mais receio. Se aquele homem aparecera pessoalmente, então a situação era realmente séria e perigosa.

— Eu bem que gostaria de conhecer seu pai. — Evan acercou-se de Pan, colocando as mãos em seus ombros e abaixando a cabeça até que ficasse próximo ao seu ouvido direito. — Quem sabe ele não conseguiria me explicar o que tá acontecendo aqui, ruivinha? — Sussurrou, causando-lhe um arrepio e um aperto no coração. Estava angustiada pensando que, talvez, ele pudesse querer se intrometer muito e acabar machucado por tentar descobrir o que não deveria.

— Evan, por favor. — Suplicou com olhos pidões, deixando claro que não queria tocar no assunto.

— Eu confio em você, é sério. — Comentou, arrumando a postura. — Eu sei que você é incapaz de machucar alguém, mas não dá pra negar que você tem um segredo bem estranho aí, e eu não curto muito ficar no escuro.

— Eu não posso te contar quando eu estiver pronta? — Pediu, ainda fitando-o com aqueles olhos brilhantes. Apesar de frustrado ele deu de ombros e concordou, mesmo que à contragosto.

— Vamos? — Hector interveio, aproximando-se de sua protegida e encarando Evan como se estivesse prestes à esquartejá-lo. Já estava realmente começando a irritá-lo o fato de querer tanto enxerir em assuntos que não lhe diziam respeito.

— Eu quero ficar com você, Pan. — Alex entrelaçou os braços ao redor de seu pescoço, para sentir-se segura. — Não quero ir pra casa hoje. O Chris já ligou pra minha mãe.

— Sim, vamos ficar todos juntos hoje. — Concordou.

— Eu duvido que alguém vai conseguir dormir depois disso, e eu concordo que vai ser mais fácil se acalmar se ninguém ficar sozinho. — Isis interveio, desviando o olhar até Kate antes de prosseguir: — Você também quer ir, né? — Perguntou, vendo-a acenar afirmativamente com a cabeça.

— Pan... — Hector suspirou desanimado, sem vontade alguma de pegar para si a obrigação de cuidar de todos aqueles adolescentes. Já era complicado o suficiente precisar protegê-la sozinho sem nem ao menos saber o nível das pessoas com quem estava lidando, mas ter que proteger tantos jovens assim? Com certeza seria um desafio.

— Por favorzinho. — Implorou, sabendo perfeitamente que, caso o encarasse de modo pidão, acabaria cedendo. — Eu vou me sentir melhor se os meus amigos estiverem comigo. — Concluiu.

— Que seja, vamos logo. — Resmungou e deu de ombros, entrelaçando os dedos nos dela para que não acabasse se perdendo no trajeto até a porta.

Os policiais abriram caminho para que pudessem passar apenas os autorizados por Hector, que agia como o mensageiro de Hans Stracci. Alguns daqueles homens eram aliados da famiglia, e outros apenas seguiam ordens de seus superiores, mesmo que achassem repugnante a ideia de fazer escolta para mafiosos que os viam apenas como meros peões jogados no bolso do Don, utilizados apenas quando lhe era conveniente. Bom, ele tinha muita influência política e mantinha uma relação estritamente cara com todo e qualquer delegado das regiões em que precisava para manter os negócios funcionando, portanto infelizmente apenas restava-lhes a opção de obedecer de boca fechada se não quisessem acabar nas notícias como desaparecidos no dia seguinte.

Assim que todos saíram do salão, puderam finalmente respirar um pouco de ar fresco, longe de toda aquela multidão exaltada. Alex até mesmo parecia menos ansiosa, e tinha a respiração já voltando aos conformes à medida que as lágrimas secavam enquanto acomodava-se no banco traseiro do carro, na companhia de seu amigo de infância. Ele, no entanto, não conseguia evitar os olhares em direção à Sarah e Evan, que pareciam muito confortáveis ao manter uma conversa, mesmo que ela houvesse hesitado tanto em manter um diálogo com ele anteriormente. Pensou que eram uma combinação estranha, mas estava feliz por ver os dois amigos se dando bem, embora também quisesse vê-la tão cômoda daquele modo quando em sua companhia.

Sandro e Hector dividiram-se em dois carros para escoltarem os jovens que deveriam proteger, levando-os até a casa de Félix Santoro, um dos amigos de negócios da família e também o pai biológico de Sarah. No instante que estacionaram em frente àquela enorme mansão, Pan rapidamente saltou do carro e correu até a amiga, no intuito de averiguar seu estado mental ao visitar aquele local que provavelmente lhe trazia tantas lembranças dolorosas de sua infância. Segurou com força sua mão e apoiou a cabeça em seu ombro, tentando confortá-la.

— Eu não me importo mais. — Disse, esboçando um sorriso de canto tímido. — Talvez antes eu me importasse, mas agora eu tenho você, e a sua família me acolheu como se fosse filha deles. Seria muito egoísmo da minha parte reclamar enquanto eu tenho uma família tão amorosa. — Concluiu, acariciando a mão da colega com o polegar, para fazê-la compreender que realmente estava indiferente quanto àquelas memórias.

— Você tem todo o direito do mundo de reclamar. — Argumentou, levando a mão dela até seus lábios e beijando-a, de um modo que esbanjava um carinho fraternal. — Mas, enquanto isso, eu vou te encher de amor do jeito que você merece. — Acrescentou, fazendo-a rir outra vez.

— Caramba, que lugar enorme! — Alex interveio, apoiando os braços ao redor do pescoço de ambas. — Quem mora aqui? — Questionou intrigada.

— Ninguém importante. — Sarah respondeu, dando de ombros.

— Eu quero explorar. Vamos entrar logo, parece aquelas casas de filme de terror! — Exclamou, correndo rapidamente até a entrada.

— Ela até esqueceu o incidente agora. — Chris zombou, negando com a cabeça como se estivesse desapontado com a reação da amiga. — Aliás, eu já liguei pra minha mãe e ela disse que tudo bem dormir aqui por hoje, mas eu vou precisar lavar a louça amanhã. — Completou, soltando uma leve risada.

— Eu nem faço questão de ligar pros velhos. Eles devem estar no hospital, então nem vão atender. — Evan revirou os olhos, já acostumado com a frieza da família. — Mas esse lugar é grande pra caramba mesmo. Eu pensei que a minha casa fosse grande, mas essa dá pelo menos umas cinco da minha. — Comentou, com as sobrancelhas arqueadas em surpresa enquanto adentrava a mansão com seus colegas.

— Mas é um pouco solitário, né? — Kate perguntou retoricamente, esfregando os braços para tentar conter o frio interior. — Bem que a Alex disse que parece um cenário de filme de terror.

— Aliás, Naoki. — Chris chamou, obrigando-o a encará-lo. — Seus pais não se importaram com o fato de você dormir na casa de desconhecidos, não?

— Por um lado eles não gostaram muito, mas por outro, ficaram felizes em saber que eu tenho amigos.

— Cara? Isso não é um pouco... triste? — Evan ficou-o piedosamente, recebendo um leve tapa de Chris em seu ombro, na tentativa de impedi-lo tornar a situação ainda mais melancólica. — O que foi? O que eu fiz agora? — Indagou confuso, não compreendendo que suas ações eram incômodas e poderiam acabar por ofender o garoto.

Enquanto todos conversavam, as anfitriãs subiram na companhia de Hector e Sandro no intuito de buscar alguns colchões. Foram várias subidas e descidas para ambos os homens, que eram muito cavalheiros para deixá-las terem todo esse trabalho desnecessário, e jamais permitiriam que elas precisassem carregar aquelas coisas pesadas com trajes de gala e salto alto. Chris e Naoki também ajudaram depois de algum tempo, porém Evan nem ao menos se mexera, já que divertia-se ao assistir Hector fazendo-lhe um favor. Quando tudo já estava organizado na sala principal da casa todos acomodaram-se, e Sandro deixou-os à sós, dirigindo-se até o lado de fora para juntar-se aos outros membros da famiglia que Hans enviara para ficarem de guarda.

— Espera aí, os meninos vão dormir aqui também? — Isis questionou, demonstrando seu descontentamento ao precisar deitar-se próxima à pessoas do sexo oposto, em especial por terem garotas trajadas com vestidos ali.

— Não tem problema. Eu acho que ninguém vai conseguir dormir mesmo. — Kate respondeu serena, tentando apaziguar a situação.

— E a gente vai fazer o quê? Ficar olhando pra cara feia do Evan?

— Vai se foder, Isis. Eu não tenho culpa que você tem um péssimo gosto. — O indivíduo em questão bufou, ciente de que a maioria das garotas o achavam extremamente atraente. Bom, ele realmente era, mas ela jamais lhe daria o gostinho de ouvir aquilo sair de seus lábios, então só o restava aceitar suas provocações. — Quer dizer, sem ofensas, Adams. — Acrescentou, em tom de desculpas.

— Tudo bem. — Ela riu. Isis apenas revirou os olhos.

— Eu ainda não to muito tranquila, então que tal fazer o que todo adolescente faz de melhor e distrair a cabeça com um jogo de verdade ou desafio? — Alex propôs, roubando a garrafa d'água que Sarah havia colocado ao lado de seu colchão.

— Verdade ou desafio? O jogo que todo mundo acaba se beijando no final? Eu passo. — Naoki comentou, um pouco incomodado. — A gente tá entre amigos, vai ficar muito estranho depois. — Concluiu.

— Mas eu já beijei o Evan e não aconteceu nada. — Pan respondeu sem pensar duas vezes, e todos a encararam incrédulos, principalmente Hector, que havia finalmente esquecido sobre aquele acontecimento infeliz. O garoto em questão parecia apenas achar graça da reação dos colegas.

— Sério? Quando foi isso? — Alex questionou, porém não obteve resposta, sendo obrigada a dar de ombros e esquecer sobre o assunto. — Tá bom, então. Já que os certinhos não querem jogar direito, então pelo menos tem que valer beijo às cegas. Aquele negócio de desligar as luzes e colocar um pano nos olhos do desafiado, sabe?

— Mas aí a gente não vai saber quem estamos... — Sarah interrompeu, mordendo os lábios antes de terminar a sua frase, um pouco acanhada. Torcia muito para que não fosse ela a receber esse maldito desafio.

— Pode ser, vai ser assim mesmo. — Evan decretou, roubando a garrafa para si e girando-a até que parasse em alguém. — Chris e o cara sem amigos.

Naoki apenas revirou os olhos, ignorando as provocações do colega.

— Eu quero verdade. — Comentou.

— Deixa eu pensar, pera aí. — Chris respondeu, cruzando os braços enquanto olhava ao redor. — Ah já sei. É verdade que você já quis chamar alguém dessa sala pra sair? — Indagou.

— Meu deus, Chris, você tá no fundamental? — Alex vociferou, arremessando uma almofada em sua direção e acertando-lhe o rosto. Naoki simplesmente respondeu com um baixo "sim", seguido de um sorriso tímido antes que a garrafa fosse girada outra vez.

— É você mesma, capitã. — Evan afirmou, dirigindo-se à Alex. — Você e a ruivinha. E aí?

— Escolhe desafio, Pan. — Alex pediu, tentando convencê-la.

— É mais legal? — Ponderou, realmente parecendo querer acatar a sugestão, apesar dos olhares preocupados dos colegas mais responsáveis que estavam cientes de que não era uma boa ideia.

— Sim, muito mais.

— Então tá bom. Eu quero desafio! — Disse, e logo a amiga curvou os lábios para esboçar um sorriso malicioso.

— Eu te desafio a beijar o imbecil do Evan mais uma vez! — Exclamou.

— Espera aí, a gente não tinha combinado que seria no escuro? — Kate interveio, fazendo-a revirar os olhos desapontada.

— E, aliás, por que eu sou imbecil? — Perguntou, porém fora prontamente ignorado.

— Ninguém tem coragem pra jogar isso direito, inferno. — Reclamou, levantando-se para apagar as luzes. — Vou apagar as luzes, tá bom? — Indagou, e todos assentiram, já espalhados pelo cômodo.

Sarah rapidamente improvisou uma venda para a amiga com uma das fronhas, e Alex prontamente apagou as luzes, deixando-a livre para completar sua tarefa no instante em que constataram que não se podia enxergar nada.

— Cuidado pra não tropeçar. — Alguém alertou, e ela assentiu.

Continuou a caminhar cuidadosamente pelo cômodo, tateando todos os objetos pelos quais passava, até que finalmente tocasse algo semelhante à um braço, que rapidamente segurou-a pelo pulso e puxou-a para si, roçando apaixonadamente os lábios nos dela. O beijo tornou-se mais intenso quando deixou a boca entreaberta, permitindo que a pessoa dominasse completamente a situação, causando-lhe um arrepio sem igual ao deslizar suavemente a mão desde seu pescoço até sua lombar, agarrando-a com força e sensualidade. O aspecto áspero que tocava seu rosto deixava claro o fato de estar beijando um homem com sua barba por fazer, e aquele aroma único de uma mistura entre ferro, couro, tabaco e uma colônia amadeirada tornara-se inebriante devido às circunstâncias. Provavelmente seria a única coisa da qual conseguiria lembrar mais tarde quando fosse tentar identificar quem era a pessoa à sua frente.

— Pan? Já encontrou alguém? — Kate perguntou, trazendo-a de volta à realidade.

— Sim, já... — Respondeu ainda um pouco desnorteada, sentindo o coração acelerado e o estômago um pouco estranho. Diferente de seu primeiro beijo com Evan, que fora às pressas e nada romântico, aquilo agora lhe parecia algo mais excitante e misterioso. Talvez fosse apenas devido ao fato de não saber quem havia beijado, porém era uma sensação prazerosa.

— Você sabe quem foi? — Alex indagou curiosa, acendendo novamente as luzes depois que todos se dispersaram uma vez mais. Não teria graça se ela abrisse os olhos com a pessoa à sua frente, certo? — Conta pra gente. — Insistiu.

— Eu não sei, mas era um homem.

— Como você sabe? Ah, deve ser por causa da barba, né? Então não vai dar pra saber quem é. — Disse desanimada.

— Pelo menos dá pra descartar o Naoki. — Evan acrescentou, em tom irônico.

— Ei!

—Mas é verdade. — Alex concordou, e todos riram.

O jogo ainda prosseguiu durante um bom tempo, servindo como uma boa distração após todos os acontecimentos infelizes da noite. Sarah fora obrigada a cantar, enquanto Kate e Alex fizeram com que Chris e Evan dançassem uma música lenta juntos, nada felizes com isso. Pan, no entanto, estava perdida nos próprios pensamentos, mordendo os lábios de um jeito ansioso enquanto buscava com o olhar a pessoa que havia tocado seus lábios anteriormente. Sentia-se uma tola por dar tanta importância a algo assim, porém não conseguia evitar ser dominada por sua curiosidade. Assim que cruzou olhares com Hector, sentado em um sofá afastado no canto da sala aguardando pela ligação de seu chefe, ela o percebeu esboçar um sorrisinho nada usual, e logo arqueou as sobrancelhas confusa, não compreendendo o motivo daquela expressão tão rara. Depois de alguns segundos, ele voltou sua atenção ao celular outra vez, levantando-se para tomar distância e atender a chamada que tanto aguardava.

— Por que você tá viajando aí olhando pro nada? — Evan acercou-se, chamando-lhe a atenção ao afagar suavemente seus cabelos já emaranhados. Em um gesto curioso, ela aproximou o rosto de seu pescoço, na intenção de sentir o aroma de seu perfume. — Ruivinha?

— É o mesmo. — Sussurrou próxima ao seu ouvido, ainda sem afastar-se, causando-lhe um arrepio involuntário. Após pensar por alguns segundos, recuou para fitá-lo diretamente nos olhos: — Era você? — Perguntou, referindo-se ao beijo.

Notas finais
E aí? Algum palpite sobre quem poderia ser a pessoinha que a Pan beijou? ;3 HFIUDSHFS. Espero que tenham gostado da leitura, beijinhooss~ ♥