Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
24 Feche os olhos
Notas iniciais
Naquela noite fria, Hans observou a filha afastando-se ao lado de Hector, seu homem de confiança e guarda-costas da garota, tentando manter contato visual com ele antes de desaparecer entre as portas do salão. Estava se preparando mentalmente para lidar com toda a bagunça que havia criado ao deixar que Vincenzo saísse vivo da primeira vez, pensando consigo mesmo que já devia tê-lo enterrado há tempos e agido como o Don impiedoso que um dia fora. Estava amolecendo muito com o passar dos anos. Merda. Temia que talvez já fosse muito tarde para arrumar as coisas.
Sentiu-se extremamente irritado com a gritaria vinda do interior daquele maldito estabelecimento, quase sendo surpreendido pelos passos sorrateiros que se acercavam por suas costas naquele jardim. Se o ruído do atrito daqueles sapatos sociais roçando no gramado não lhe tivesse alcançado os ouvidos, provavelmente teria sérios problemas. Virou o corpo em direção à pessoa que o havia confrontado, deparando-se com um homem alto, que fedia à morte e não tinha brilho algum no olhar. Ele conhecia perfeitamente aquele tipo de pessoa. Aquele tipo que não dava valor algum à vida alheia e só se importava com os milhares de dólares que ganharia depois de completar o serviço, levando o corpo de sua vítima até o terreiro mais próximo e enterrando-o sem nem piscar os olhos. Tinha um homem assim trabalhando para ele também, afinal.
— Don Stracci. — A voz dele fez-se audível, junto ao som de suas palmas batendo uma na outra, como se o aplaudisse, zombando de seu título com um sorriso malicioso nos lábios. Hans apenas fitou-o de cima à baixo desdenhosamente, não fazendo questão alguma de dar-lhe muito de seu tempo. — É um prazer finalmente conhecê-lo. Não pensei que o veria aqui na América. — Provocou. Aquele tom sarcástico estava começando a dar-lhe nos nervos.
— Cadê o Vincenzo? — Retrucou imponente, quase como se lhe estivesse dando uma ordem. A curva no lábio do homem se desfez, dando espaço à um semblante sério e irritado quando percebeu que a frieza naquele timbre sinalizava a tempestade que estava por vir. — Eu não estou de bom humor, espero que consiga entender. — Acrescentou, sem observá-lo com seriedade. Queria mostrar o quanto era superior; o quanto o desprezava, e principalmente, o quanto sua vida não tinha valor alguma se posta na balança contra a de um Don.
— Eu não tenho medo de você. — Cuspiu as palavras rapidamente, sem desmanchar a expressão rígida. Logo deu dois passos para frente e sacou a arma, na tentativa de causar algum medo à sua presa, que nem ao menos parecia se importar. Um inimigo a mais ou a menos atrás de seu pescoço não era nada impressionante. Já havia se tornado uma rotina.
— Essa foi a primeira vez. — Murmurou aos ventos, colocando as mãos nos bolsos e agora franzindo o cenho, deixando transparecer que começava a perder a paciência com toda aquela demora para receber uma resposta objetiva. — Você ainda tem uma chance, e eu não costumo dar essa outra chance. É sua escolha o que vai fazer com ela. — Completou.
— Você acha que está no comando, Don Stracci? — Ele riu, subindo a mão até que a cabeça de Hans estivesse na mira de seu revólver, como uma ameaça.
— Essa foi a segunda vez. Riposa in pace. — Sussurrou sereno, esboçando emoção alguma ao observá-lo ter o crânio perfurado por uma bala bem em meio aos olhos e o corpo espatifar-se pateticamente no gramado, manchando-o de vermelho. Era um desperdício. Infelizmente aquele jardim tão belo havia sido profanado com sangue sujo. — Bom trabalho, Santiago. Eu acho que o Vincenzo já sumiu daqui e nós só estamos perdendo tempo. — Argumentou, alcançando o seu celular antes de sinalizar com a cabeça para que seus homens continuassem a caminhar pelo local em busca de seu alvo.
— O chefe não, mas nós estamos. — Outro sujeito apareceu, arrastando consigo o corpo de Santiago — o francoatirador dos Stracci que havia matado o indivíduo anterior — e jogando-o aos pés de seu chefe, demonstrando um sorrisinho vitorioso. — Ele foi atrás daquela gracinha, qual era mesmo o nome dela? Ah, sim, Pan Stracci, não é? — Acrescentou em tom desdenhoso.
— Seu bastardo imbecil... — Hans amaldiçoou-o entre dentes, sentindo o sangue ferver. Citar tão descaradamente o nome de sua querida filha após entregar-lhe o cadáver de um de seus homens talvez fora o maior erro cometido em toda a existência daquele ser.
Longe dali, na casa dos Santoro, Hector estava acomodado em um dos sofás da sala principal, aguardando pela ligação de seu chefe que serviria para passar-lhe as próximas ordens. Permitiu-se divagar por um instante e olhou para o lado, percebendo sua protegida aflita enquanto o encarava curiosamente. Fora inevitável o sorrisinho que surgira em sua face ao vê-la tão graciosa com aqueles olhos brilhantes e perdidos buscando por respostas insignificantes, além dos lábios semiabertos que demonstravam o quanto estava imersa nos próprios pensamentos, já longe da realidade. Quando sentiu o celular vibrar em suas mãos, desviou o olhar e levantou-se rapidamente, quebrando instantaneamente a conexão terna que havia criado com a garota naquele momento, dirigindo-se até o jardim para que não fosse interrompido ao conversar sobre negócios com seu Don.
— Como está a situação? — Perguntou ansioso. Quando ouviu-o suspirar, logo tensionou os ombros, levantando sua guarda.
— Nada boa. O Vincenzo provavelmente está indo até aí. — Comentou preocupado, ao mesmo tempo que tentava limpar com um lenço o sangue que manchara sua camisa branca abaixo do terno. Não queria ter que aparecer desse modo em frente à sua garotinha. — Como ela está? — Indagou, chutando com desprezo o corpo que lhe atrapalhava a caminhar. Matar nunca era um problema, mas limpar a sujeira que sobrava depois o irritava profundamente, mesmo que não precisasse fazê-lo com as próprias mãos.
— Bem. — Informou, trocando o aparelho de ouvido e virando-se para a entrada da residência, na intenção de conseguir reagir caso alguém decidisse aparecer por ali. — Está se distraindo enquanto passa um tempo com os colegas. — Completou, já aguardando pela bronca que levaria por ter cedido aos caprichos da menina.
— Você levou todos eles até aí, seu imbecil? Não pensou nas consequências? — Vociferou revirando os olhos. Que diabos estava pensando aquele garoto ao levar tantos adolescentes para um campo de guerra? Queria que todos acabassem mortos por saberem mais do que deveriam? Ou pior, queria acabar preso ou tendo que matá-los pessoalmente para não arriscar que isso acontecesse? Não era possível que até o mais competente de seus homens agia como se tivesse apenas dois neurônios quando confrontado por sua filha.
— Eu estava com pressa, e esse foi o único jeito de fazê-la sair daí em segurança, sem causar uma cena ou fazer birra. — Argumentou, limpando a garganta antes de continuar a falar: — sabe como é teimosa quando quer, e eu faria qualquer coisa para mantê-la segura, independente das circunstâncias.
— Eu acho que acabei mimando muito essa menina. — Suspirou decepcionado. — Bom, falamos sobre isso depois. Fique com os outros homens do lado de fora da casa, vou te passar as instruções. Estou entrando no carro agora.
No interior da casa, Pan ainda estava sentada ao lado de Evan, com a cabeça apoiada em seu ombro enquanto aguardava por uma resposta. Aquele cheiro tão familiar que ansiava encontrar estava impregnado em suas vestimentas, intrigando-a. Achava estranho o fato de ter uma diferença tão grande entre a primeira vez que o havia beijado e agora.
— Foi você quem eu beijei agora? No desafio? — Insistiu, recuando para fitá-lo diretamente nos olhos. Talvez isso o intimidasse a dizer-lhe a verdade.
— Só tem um jeito de descobrir, ruivinha. — Sussurrou esboçando um sorriso de canto, passando o polegar suavemente pelo queixo dela.
— Qual? — Perguntou confusa, em tom baixo. Evan aproximou ainda mais o rosto do dela, deixando seus lábios a apenas alguns centímetros de distância, aguardando por sua permissão para seguir em frente. Ela apenas cedeu, fechando os olhos como se o autorizasse a continuar, sentindo-o colocar a mão acima da sua em um gesto carinhoso.
— Pan? — A voz de Sarah chamando por seu nome a fizera sobressaltar com o susto, recuando instantaneamente e afastando-se do garoto. — Tudo bem? — Perguntou arqueando as sobrancelhas.
— Um pouco preocupada com o papai, mas bem. — Respondeu encolhendo os ombros, puxando a amiga até o seu lado e obrigando-a a sentar-se ali. — E você, como se sente?
— Incomodada, eu acho. Odeio não saber o que está realmente acontecendo. — Desabafou, aparentemente entristecida.
— Bom, eu prometi que não ia perguntar mais nada por enquanto, então... — Evan interrompeu, afagando os cabelos de Pan para fazê-la compreender que podia ser racional quando queria.
— Obrigada. — Sorriu de canto, desviando o olhar até os colchões. Não tinha a coragem necessária para discutir sobre aquilo enquanto o fitava diretamente.
— Eu confio em você. — Admitiu. — Eu posso confiar em você, né? — Ponderou franzindo o cenho. Aquela pergunta poderia ser facilmente confundida com uma armadilha, porém ela apenas assentiu, encerrando o assunto ali mesmo e levantando-se apressadamente.
— Você vai subir? — Sarah questionou, vendo-a dirigir-se até as escadas.
— Eu queria ver se encontro alguma roupa mais confortável nos armários. Esse vestido é bonito, mas incomoda ficar com ele por tanto tempo.
— É uma boa ideia, eu acho que vou fazer a mesma coisa. — Concordou, arrumando as alças de sua vestimenta para sinalizar seu desconforto. Bom, mesmo após jogarem para o canto os saltos altos, não era nada agradável ficar tanto tempo com um vestido de gala. — Pode ir na frente, eu vou falar com o Evan antes e te alcanço depois. — Acrescentou, vendo a amiga assentir sorridente e correr até os quartos do andar de cima. O rapaz em questão simplesmente deixou transparecer toda a sua confusão, já que não eram tão próximos assim e haviam conversado apenas uma ou duas vezes. Não é como se Sarah fosse a pessoa mais acessível do mundo, também.
— E então? O que você quer falar comigo, senhorita certinha? — Perguntou em tom irônico, fazendo-a revirar os olhos.
— Eu não sei por onde começar. Pra ser sincera, eu sou péssima com esse tipo de coisa, então eu vou ser direta, tudo bem? — Questionou, recebendo dele um aceno afirmativo de cabeça. — Você sente alguma coisa pela Pan? — Concluiu, percebendo-o arregalar um pouco os olhos.
— Ela é bonita e interessante, mas eu não tenho sentimentos românticos por ela, se é o que você quer saber. — Retrucou, endireitando a postura para dar credibilidade à sua fala. Queria mostrar que estava sendo sincero. — É divertido o jeito que ela parece ser um imã pra problemas, mas ela também é muito misteriosa. Eu não sei absolutamente nada sobre ela, então seria quase impossível que eu sentisse alguma coisa.
— Então, por favor, pare de confundir ela desse jeito. — Pediu.
— Como assim?
— A Pan não é o tipo de pessoa que se encaixaria na sua lista de mulheres pra se divertir. Ela já tem uma vida muito complicada, e acabar se apaixonando por um Casanova não vai melhorar em nada as coisas. — Explicou. Estava preocupada com a amiga, principalmente por saber que era facilmente influenciada por suas emoções. Pensava que, talvez, como ele havia roubado-lhe o primeiro beijo, poderia acabar se deixando apaixonar e magoar-se no fim.
— "Casanova"? — Ele riu, achando graça do novo apelido. — Quem fala isso hoje em dia? E além disso, eu não tenho intenção nenhuma de confundir ela nem nada do tipo.
— Ah, é mesmo? E o fato de vocês terem quase se beijado outra vez há cinco minutos atrás também não quer dizer nada? — Perguntou séria. Ele apenas sorriu outra vez, como se não se importasse com aquilo. Um beijo não era nada de tão especial para ele.
— Era só um beijo. Ela me fez uma pergunta e eu quis responder, só isso. — Deu de ombros.
— Responder uma pergunta? Sério, Evan? — Revirou os olhos outra vez. Realmente, não conseguia achar um único motivo para gostar dele. Todos os esteriótipos de garoto problema se encaixavam precisamente na sua personalidade. — Eu estou te pedindo como um favor de amiga. Se tem um mínimo de empatia por ela, não faz mais isso. De verdade. — Insistiu.
— Tudo bem, tranquilo. Não precisa se preocupar. — Concordou, não querendo arrumar problemas.
No andar de cima, Pan caminhava entre os corredores em busca de roupas que lhe caíssem bem, na intenção de livrar-se daquele maldito vestido. Entrou em um dos quartos e permitiu-se correr com os dedos acima de uma cômoda empoeirada, vendo a cor de sua pele mudar à medida que absorvia toda a sujeira. Um porta-retratos chamou sua atenção; estava sujo, mas após esfregá-lo um pouco, conseguiu revelar a imagem que se escondia ali. Era a foto de um rapaz jovem, de cabelos negros e olhos de uma cor que a fazia recordar-se de favos de mel, sentado em uma calçada ladrilhada, provavelmente na Itália. Logo moveu o polegar acima da foto como se acariciasse o rosto da pessoa nela estampada e murmurou "ele é bonito", antes de devolver o objeto ao seu local de origem.
— O nome dele era Pietro. — A voz de Sarah ecoou no cômodo silencioso, surpreendendo-a. O tom que utilizara para falar talvez estivesse carregado de melancolia, mas ainda assim, ela prosseguiu após aproximar-se um pouco mais: — era o meu irmão mais velho. — Completou, pegando agora o retrato em suas mãos e se permitindo apreciá-lo com ternura, sentindo seu coração ser invadido pela saudade.
— Você não fala muito dele. — Sussurrou, apoiando a cabeça no ombro da amiga e entrelaçando os dedos nos dela, como se a quisesse confortar. Sabia que provavelmente estaria imersa nas próprias lembranças agora. Seus olhos marejados falavam por si.
— Talvez um dia. Por enquanto ainda me dói lembrar de tê-lo em meus braços antes de... — Ela engoliu seco, percebendo a garganta fechar com o choro que lutava para sair. Apenas acenou negativamente com a cabeça e forçou um sorriso fraco: — Bom, não importa. Nunca pensei que nessa casa ainda teria alguma lembrança dele. — Comentou carinhosa, levando a fotografia até o seu peito de modo que parecesse abraçá-la.
— Leva a foto pra nossa casa. — Pan encorajou, vendo-a tão nostálgica. Compreendia que os Santoro haviam banido toda e qualquer recordação do falecido filho, portanto essa não teria um fim diferente caso acabassem descobrindo sobre sua existência.
— Eu acho que vou aceitar essa sugestão. Me faz bem ter a imagem dele por perto. — Admitiu, curvando os lábios alegre e saudosamente. — Você pode colocar na minha bolsa? Vou procurar pelas roupas enquanto isso.
— Sim.
— Obrigada, Pan. Por tudo. — Disse delicadamente, deixando claro que referia-se ao fato de ser um pilar emocional para ela, entre outras coisas. Ela compreendera perfeitamente.
Antes de afastar-se para guardar o retrato como havia requisitado a amiga, trocaram um olhar carinhoso. Elas não precisavam de muitas palavras para demonstrar o quanto se importavam uma com a outra, e até mesmo um breve momento como aquele poderia ter um significado enorme. Os laços que haviam criado com o passar do tempo eram inquebráveis, e estavam cientes de que podiam contar uma com a outra em qualquer situação.
Desceu rapidamente as escadas e sentiu um sorriso bobo tomar conta de seu rosto ao observar seus amigos conversando entre si, tão confortáveis e amontoados naquela bagunça de colchões em meio à sala de estar. A cena aquecia seu coração, fazendo-a recordar-se de que não estava mais sozinha; não era mais a garotinha solitária trancafiada em sua casa que observava a janela com os olhos marejados desejando com todo o coração poder ter a oportunidade de conhecer o mundo afora. Agora o mundo estava ali, e todas aquelas pessoas faziam parte dele.
De longe, através das janelas, seus olhos captaram a silhueta de Hector, no quintal da casa. Esboçava um semblante sério, como sempre, enquanto discutia com alguém através do telefone, caminhando em círculos com uma das mãos no bolso. Parecia aflito.
Pan tinha muitas questões em sua mente que apenas ele poderia responder, principalmente sobre toda aquela situação na festa. Pensava que decerto pudesse convencê-lo a contar-lhe alguma coisa agora que estava sozinho, portanto não perdeu tempo e correu até ele sem que ninguém a visse, abrindo a porta de vidro que os separava e pisando no gramado com os pés descalços. Ela não se incomodava em sujar-se um pouco.
— Os outros homens não estavam mais lá quando fui me juntar à eles. — Hector informou com rispidez, dominado pelo pressentimento de que alguma coisa estava errada. Não era normal que seus aliados houvessem sumido daquela maneira.
— Você está falando com o papai? — Pan aproximou-se dele em passos curtos, fazendo-o suspirar apreensivo.
— Ela está com você? Mande ela voltar para dentro, agora! — Hans vociferou através do telefone. Provavelmente pensavam o mesmo, pois parecia tão inquieto quanto seu braço direito.
— Não vai ser possível. — Respondeu, sentindo as narinas sendo invadidas por aquele cheiro de ferrugem que lhe era tão familiar; aquele cheiro de carniça, de sangue batido, já exposto há horas, misturado com uma colônia barata utilizada por cima na tentativa de disfarçar o aroma mórbido. Desviou o olhar até o chão e deparou-se com os sapatos sociais claros de couro manchados com um vermelho já oxidado que começava a tornar-se marrom, assim como a barra da calça branca do indivíduo que a utilizava. Supostamente o responsável por sujar-lhe as vestes era o homem que fora assassinado na festa como um aviso inicial.
— Como não vai ser possível? Você enlouqueceu, garoto? — Hans rosnou do outro lado da linha.
— Quem é esse moço? — Pan indagou curiosa, observando-o de cima à baixo. Não parecia compreender a aura mortífera que o envolvia, inocentemente retirando um lenço dos bolsos de seu guarda-costas. — A sua roupa manchou ali. — Anunciou, apontando para as áreas ensanguentadas e dando alguns passos para frente na intenção de ajudá-lo a se limpar, sendo bruscamente interrompida por Hector que segurou-a com força antes de puxá-la para si.
— Não chegue perto dele. — Ordenou próximo ao ouvido dela, soltando instantaneamente o celular na intenção de deixar sua mão livre, utilizando-a para puxar seu revólver e mirá-lo no indivíduo à sua frente.
— Que rude, pensei que fôssemos todos da mesma famiglia. — Zombou em italiano, curvando os lábios em um sorriso dissimulado enquanto abria os botões de seu terno. — Meu problema é diretamente com o seu Don, então eu apreciaria se não dificultasse as coisas, ragazzo.
— Pan, se lembra daquele favor que eu te pedi antes? — Cochichou, sem perder o foco da posição de seu inimigo. Não podia desviar o olhar. — Lembra que eu te pedi pra fechar os olhos se alguma coisa assim acontecesse? — Concluiu. Sentia o coração acelerar simplesmente por tê-la ali observando-o mirar um revólver à cabeça de alguém. Estava ciente de que era um fraco; um incapaz; um imbecil, talvez, mas não conseguia evitar. Esse era um lado seu que ele realmente não queria mostrá-la. Não queria que ela o odiasse pela eternidade após descobrir que era um assassino miserável que ceifava vidas como se não fossem nada. Seu amor por ela era o único resquício de humanidade que lhe restava, e se perdesse isso, decerto se tornaria um monstro por completo. Não podia perdê-la. Na verdade, não queria perdê-la. Sua mente lhe implorava para puxar aquele gatilho e terminar com tudo de uma vez por todas, mas as mãos falhavam graças aos sentimentos que estavam tomando conta de sua razão e tornando-lhe um incompetente de mãos atadas. Ser um mafioso com sentimentos era o mesmo que assinar o atestado de sua morte.
— O que vai acontecer se eu fechar os olhos? — Perguntou amedrontada. Suas pernas já começavam a perder a força, e as palmas das mãos suavam como nunca. Estava acostumada com armas de fogo, mas era a primeira vez que presenciava o homem ao seu lado tão naturalmente apontando-as em meio à cabeça de alguém. Sentir medo era inevitável.
— Só faça o que eu estou te pedindo, por favor. — Insistiu.
Ela tremia com o pavor. A noite estava realmente fria, mas era o interior de seu corpo que lhe dava a sensação de estar congelando. Embora sua vida estivesse em perigo, ela havia compreendido o que aconteceria caso fechasse os olhos, e não estava preparada para carregar aquele fardo; o fardo de ter a vida de alguém em suas mãos e optar por retirá-la sem hesitar.
— Eu não consigo. — Murmurou com dificuldade, deixando transparecer toda a culpa e confusão que a consumiam de dentro para fora. Sentia muito por não conseguir ajudá-lo, e mais ainda por ser tão fraca.
Vincenzo era astuto. Havia percebido toda a desorientação de seu adversário e não deixaria aquilo passar. Sinalizou de modo imperceptível com o olhar para que seu capanga se movimentasse; o capanga que estava logo atrás da garota, aguardando apenas pela ordem de seu chefe. Ele aproximou-se dela e puxou-a para si, apontando uma faca para seu pescoço como uma ameaça. Hector amaldiçoou a si mesmo em pensamento por ter sido tão inútil, e estava perfeitamente ciente de que, em situações como aquela, qualquer movimento errado significaria a sua derrota, e a sua derrota não seria sua morte, mas sim a perda da pessoa que mais ama; Pan Stracci.
— Que tipo de mafioso patético o Hans anda criando hoje em dia? — Vincenzo debochou, não escondendo a risadinha vitoriosa no instante que puxou o seu revólver e apontou-o à cabeça de Pan. — Eu não acredito que a filha de um Don nunca presenciou um assassinato, e é mais ridículo ainda que um homem que já tirou tantas vidas à sangue frio seja tão sentimental a ponto de querer conservar a pureza da menina. — Caçoou, recuando sua arma e usando-a para acertar o rosto de Hector com toda a força que tinha, fazendo-o cuspir um pouco de sangue. Sabia que ele não revidaria; ao menos não enquanto ela estivesse ali. Era um fraco.
— Não ouse fazer nada com ela, seu desgraçado. — Vociferou, percebendo que Vincenzo havia se aproximado dela.
— Ou então o quê? Você vai me matar? Faça as honras, eu te desafio. — Ironizou, caminhando em direção à Hector até que o cano da arma dele lhe tocasse a testa. — Essa sua expressão de quem já perdeu todas as esperanças... quantas famílias já não fizeram essa mesma expressão por sua causa? Ou então, por causa da família Stracci, por causa de seu Don? Eu não tenho mais nada a perder, mas você sim. — Acrescentou, sinalizando com o queixo para que seu companheiro se movimentasse e levasse sua refém até ali, colocando-a em seu lugar e obrigando Hector a apontar a arma em sua cabeça.
Em um instinto involuntário ele soltou seu revólver, temendo machucá-la. Ela estava apavorada, com aquela feição chorosa que esbanjava piedade ao vê-lo desarmado enquanto imaginava o que poderia acontecer com ele, uma vez que agora estava indefeso e à mercê daqueles homens perigosos.
— Me desculpa, Hector. Me desculpa. — Rumorejou entre lágrimas, com a voz trêmula; quase tanto quanto todo o resto de seu corpo. Notava-se que estava miserável por ter feito a escolha errada, porém ele não considerava nada daquilo como sua culpa. Estava perfeitamente ciente de que era ele quem havia sido fraco e incapaz de protegê-la, portanto não importava-se em morrer ali mesmo. Ele merecia, e sabia disso.
— Mande lembranças à Hans, pirralho. — Vincenzo murmurou, antes de nocauteá-lo com o cano de sua arma após acertar-lhe com força na cabeça. Não tinha a intenção de matá-lo. Ao menos não ainda. — Vamos ver o quanto seu papai é capaz de arriscar pra te salvar, signorina? — Provocou-a, fazendo questão de esbanjar sua superioridade. Sem dar importância àquela fala, começou a debater-se desesperadamente, tentando soltar-se das mãos daquele homem, movida pelo desejo insaciável de correr até Hector e abraçá-lo para pedir-lhe perdão. Ela sabia que era patética, mas não conseguia lutar contra a sua própria natureza e optar pela morte de alguém quando a decisão estava em suas mãos, mesmo que esse alguém fosse um sujeito desprezível como ele.
— Hector! — Vociferou agoniada, chamando incansavelmente por aquele nome na esperança de vê-lo acordar, porém não obteve sucesso. Seus sequestradores já haviam perdido a paciência com toda a sua gritaria, e logo enfiaram em seu nariz um lenço impregnado com éter, fazendo com que sua consciência se esvaísse lentamente. — Hector... — Sussurrou já sem forças, antes de desmaiar por completo.
Aquela era a primeira vez que Pan sentira ódio verdadeiro. Uma sensação fulminante que lhe consumia de dentro para fora, obrigando-a até mesmo considerar a ideia de tê-los visto morrerem à sua frente. Não, ela não seria capaz disso, mas a visão de Hector tão indefeso e machucado, estirado naquele chão talvez lhe houvesse despertado sentimentos novos que, definitivamente, não eram nada agradáveis.
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