Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
15 A amizade é o melhor remédio
Notas iniciais
Pan lutou para desviar o olhar, aguardando por uma brecha que lhe desse a oportunidade de fugir daquela situação. Era possível sentir a respiração daquele homem bem próxima à seu rosto, e de certa forma seu olhar tão cheio de ódio lhe trazia uma sensação estranha; algum tipo de arrependimento. Ela queria muito desabar ali mesmo, lhe contar tudo e dizer que Ethan a havia tocado contra sua vontade, mas como poderia? Sabia melhor do que ninguém o que provavelmente aconteceria ao garoto, e não estava preparada para carregar o fardo de ter tirado uma vida, mesmo que indiretamente.
— Foi um acidente durante o treino. — Mentiu outra vez. Sua voz até mesmo fraquejara naquele momento, devido ao nervosismo.
— Eu vou descobrir o nome do filho da puta de qualquer jeito, então por que não facilita o meu trabalho? — Sussurrou. A única resposta que recebera foi o silêncio, de uma garota cheia de dúvidas e angústias. Ele afastou-se dela para dar-lhe espaço, percebendo o desconforto que lhe causava ao tentar interrogá-la daquele modo tão brusco. Com ternura, tocou sua bochecha inchada com o polegar e a acariciou, como se lhe dissesse que agora tudo ficaria bem; que ninguém mais a machucaria. — Isso vai sair muito caro pro responsável. — Completou, ainda em tom baixo. Depois de observá-la por alguns segundos, retirou-se do cômodo para deixá-la em paz.
Era a pior sensação que poderia existir. Aquele sentimento de ter algo entalado na garganta e não poder desabafar simplesmente por saber que as medidas tomadas seriam absurdamente drásticas a corroía por dentro. Seria muito egoísmo de sua parte desejar poder se abrir com sua família sem que tudo terminasse com alguém morto ou desaparecido?
— O que está fazendo parada na frente da geladeira e olhando pro nada, querida? — A pergunta de sua mãe interrompeu seu raciocínio, fazendo-a voltar à realidade.
— Mãe? — Tomou um susto com aquela aparição repentina. Poderia jurar que o coração havia subido até a garganta e voltado rapidamente. — Papai também está aqui? — Suas mãos suaram frio, já imaginando o próximo questionário que precisaria aturar.
— Não precisa se preocupar, ele não vai voltar tão cedo do trabalho. — Tentou acalmá-la ao perceber sua palidez momentânea. — Fiquei sabendo que você precisou aguentar um sermão depois de ter saído pra uma festa, não foi? — Sentou-se na mesa de jantar, sinalizando para que a menina se acomodasse ao seu lado.
— Era um show que os meus amigos queriam ir. Ele não ficou muito feliz de eu ter saído sozinha sem a permissão dele. — Retrucou desanimada, apoiando a cabeça no ombro da mãe.
— É o jeito dele. Aquele homem não gosta de ser desafiado, mas é tudo charminho pra te fazer se arrepender de querer viver a sua vida sem que ele mande em cada passo seu.
— Ele sempre foi assim tão mandão?
— Nem sempre. Antigamente o Hans parecia que estava morto por dentro, não se importava com nada. — Tocou a mão de sua filha para apertá-la com carinho, inclinando sua cabeça para que roçasse na dela. — Até você nascer.
— O papai mudou depois que eu nasci? — Perguntou surpresa.
— É claro que sim, meu amor. Se hoje ele é minimamente humano, é por sua causa.
— Será que ele vai me perdoar?
— Não tem nada pra perdoar, filha. Hans é um imbecil, mas em algum momento ele vai perceber isso e voltar atrás. — Explicou, depositando um beijo na testa da garota. — Você nunca pode se desculpar por algo que te faz feliz.
— Obrigada, mamãe.
— Bom, eu ia perguntar sobre esses machucados mas eu conheço muito bem a minha filha pra saber que ela nunca me contaria a verdade. Por enquanto mantenha isso fora do campo de visão dele, tudo bem? — Levantou-se após abraçá-la, indo em direção à porta. — Eu só voltei pra pegar algumas coisas, então estou saindo pra me encontrar com o seu pai. Vocês vão ficar bem aqui com o Hector?
— Sim, tudo bem. — Respondeu chateada, tentando não demonstrar sua decepção ao saber que, mais uma vez, sua mãe não passaria a noite em casa.
— Tome banho antes do jantar. — Ordenou antes de sair.
Não demorou muito para que ela subisse as escadas após se despedir, jogando-se na cama com uma expressão cansada e o corpo mole, adormecendo por algumas horas. Acordou apenas com o barulho dos trovões que faziam um caos do lado de fora. O vento estava forte o suficiente para balançar as janelas, causando um estrondo incômodo todas as vezes que a madeira batia com força nas paredes. Com certa preguiça, ela levantou-se para fechá-las. Seu estômago não demorou para grunhir, fazendo-a recordar-se de que não havia comido nada ainda. Não estava segura para descer, com medo de encontrar-se com Hector após a pequena discussão que tiveram antes, portanto decidiu sair em direção à seu toalete e deixar correr a água quente por sua banheira até que se enchesse, retirando suas vestimentas e enrolando o corpo em uma toalha grande. Era o que fazia todas as vezes que precisava relaxar.
— Pan, está no banho? — A voz suave de Sarah ecoou pelo seu quarto, um pouco abafada pelas paredes.
— Sarah? — Caminhou em passos rápidos até a porta para abri-la. Ao deparar-se com a amiga, não conseguiu se conter e logo entrelaçou os braços ao redor de seu pescoço, abraçando-a com força. Ela precisava daquilo para se consolar depois de todos os acontecimentos anteriores. Estava exausta, mentalmente e fisicamente também. — Pensei que também estivesse brava comigo.
— Eu não consigo ficar brava com você. — Retribuiu carinhosamente o gesto, deixando entrar os dedos entre aqueles cabelos escarlate que ela tanto apreciava. Ela nem ao menos se incomodava com o fato de estar abraçando uma pessoa completamente nua, já que sua toalha havia caído no chão assim que saltou para recebê-la. — Mas eu realmente fico chateada quando você não me conta nada. Eu estou aqui pra você, de verdade.
Pan respirou fundo e fitou-a como se lhe dissesse "tenha paciência, em algum momento eu vou te contar tudo". A colega pareceu compreender, sorrindo de canto em resposta ao seu comportamento.
— Você já tomou banho? Eu to morrendo de frio aqui.
— Ainda não. — Hesitou. — Estive colocando os pensamentos no lugar.
— Então vamos juntas, igual fazíamos antigamente. — Puxou-a pela mão e arrastou-a até o banheiro, adentrando o tubo cheio de água morna e permitindo-se apreciar o calor.
Sarah não conseguiu recusar, sobretudo por realmente querer passar um tempo em sua companhia, já que ultimamente pareciam mais distantes do que nunca. Assim que retirou sua camisola, sentou-se ao lado da colega, e embora não trocassem uma única palavra durante aquele momento, já não sentiam-se mais tão solitárias. Vez ou outra ela deixava os olhos correrem pelos hematomas de Pan, questionando-se como alguém poderia ser capaz de machucá-la. Sabia muito bem sobre a existência de pessoas podres naquele mundo, porém ainda assim não conseguia acreditar.
— Eu acho que você merece um chocolate quente. — Ofereceu, levantando-se para secar o corpo e vestir-se outra vez. — Foi um dia longo, e eu sei que você não jantou ainda.
— É sério? — Comemorou sorridente, retirando a trava da banheira para que a água escorresse. — Vou me trocar e já desço.
— Tudo bem, te espero na cozinha. — Respondeu.
Enquanto vestia um pijama aconchegante, Pan cantarolava em tom baixo, tentando não acordar Hector. Ela não sabia, porém ele estava acordado, sozinho em seu quarto descendo copos de uísque goela abaixo enquanto apreciava a chuva batendo em sua janela. O abajur estava ligado apenas à meia-luz, evitando que a fresta de sua porta ficasse iluminada. Sorrateiramente, ela desceu as escadas e sentou-se ao lado da colega, que passou-lhe uma xícara cheia de marshmallows em seu topo.
— Seu chocolate quente é o melhor do mundo!
— Eu enchi de marshmallows do jeito que você gosta. — Sorriu, apreciando a visão da colega tão contente. Ambas se divertiram enquanto conversavam à medida que a noite passava, subindo para dormir apenas quando já não se aguentavam mais de pé, caindo exaustas na cama de Pan.
Pela manhã, o som do despertador parecia insuportável. Com muito esforço, reuniram toda a coragem que ainda lhes restava e levantaram-se para o café da manhã, saindo em direção ao carro assim que prontas.
— Bom dia, ragazze. — Sandro as recebeu cordialmente, abrindo a porta para que pudessem entrar.
O desânimo estava estampado no rosto de Pan, que embora adorasse aquele homem como um segundo pai, tinha esperanças de encontrar-se com Hector. Estava ciente de que o irritara muitas vezes em poucos dias, e gostaria de pedir-lhe desculpas para que não ficasse cansado de lidar com suas histórias.
— Pan, você vem? — A colega chamou, fazendo-a perceber que já haviam chegado.
— Sim, já vou. — Respondeu, deslizando pelo banco do carro até a saída.
Sem que percebessem já estavam rodeadas por seus amigos. Alex havia chegado como um vulto, saltando no pescoço de Pan e derrubando-a na grama de modo amigável. Chris veio logo atrás com seu sermão usual ao observar aquela cena tão espalhafatosa da amiga de infância. Kate aproximou-se na companhia de Naoki, que fora arrastado por ela até ali. Naquele momento, todas as preocupações que tinham se esvaíram, dando espaço à um clima amistoso e uma sensação de conforto.
— Ei, Adams. — Evan clamou pelo sobrenome de Kate, como costumava fazer.
— Evan? Que estranho você vir falar comigo.
— Nos não somos lá muito próximos. — Sorriu de canto. — Eu só vim pra passar um recado.
— Que recado?
— Ela me pediu pra te avisar que volta amanhã.
A garota sentiu um frio percorrer por sua espinha, arregalando os olhos e colocando as mãos nos lábios para esconder a sua expressão admirada. Seus olhos logo se encheram de lágrimas, e ela parecia sentir os pulmões perderem o ar. Sabia muito bem o que significaria a volta daquela garota, e talvez, não estivesse preparada para lidar outra vez com aqueles sentimentos adormecidos.
— A Isis vai... voltar? — Gaguejou com dificuldade, sentindo as mãos trêmulas e as pernas fraquejarem.
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