Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
40 Uma pessoa ruim?
Notas iniciais
Já eram pouco mais de duas horas da tarde quando o soar do telefone decidiu acordar Sarah, que estava completamente acabada após ter passado a madrugada inteira segurando o cabelo da amiga em frente ao vaso sanitário enquanto seu corpo tentava se livrar de todo o álcool que havia ingerido. Pensou seriamente em continuar deitada e não atender àquela maldita chamada, porém seu senso de responsabilidade a proibira de continuar mofando entre os lençóis, obrigando-a a deslizar o dedo pela tela do aparelho e colocá-lo no auto-falante ao mesmo tempo em que se espreguiçava.
— Pronto? — Iniciou conversa em tom baixo, ainda sem ânimo para manter um diálogo decente.
— O que você tá fazendo deitada ainda? Vem pra praia! — A voz soou estridente do outro lado da linha. Parecia realmente animada, ao contrário de todos os outros, ainda na tentativa de se livrarem das sequelas deixadas pela noite anterior.
— Alex? — Murmurou esfregando os olhos. — Como você consegue ser animada assim tão cedo?
— Como assim cedo? Já é de tarde, Sarah! Levanta a bunda da cama e vem surfar, já tá todo mundo aqui menos o Evan e vocês duas. Não consegui falar com ele e nem com a Pan.
— O Evan? Acho que ele não vai acordar tão cedo. — Sorriu ao recordar-se da noite anterior. Ainda não conseguia acreditar que Hector havia se irritado com o garoto à ponto de fazê-lo desmaiar. Nunca o tinha visto perder o controle daquela forma, mas achara a cena extremamente divertida de se assistir. — A Pan muito menos. Ela estava péssima ontem.
— Se vocês não aparecerem aqui nos próximos 40 minutos eu juro que vou aí arrastar vocês duas. É o nosso último final de semana livre antes das provas, a gente tem que aproveitar até o final.
— Eu não sei, Alex. — Hesitou, já imaginando o estado em que se encontraria sua considerada irmã depois de tudo o que havia passado na noite anterior.
— Vou mandar a localização. Até daqui a pouco. — Desligou a chamada sem nem ao menos aguardar por uma resposta, fazendo Sarah suspirar desanimada.
Não é como se elas pudessem sair livremente todo o tempo, ainda que Hans não estivesse no país, e ainda tinha o fato de não estar muito à vontade para encontrar-se com Chris novamente. Conseguiu evitá-lo durante a noite anterior, porém talvez não duraria muito tempo se continuassem a se encontrar tantas e tantas vezes. Bom, não tinha muita opção, não é? Decidiu apenas dar de ombros e escovar os dentes rapidamente antes de dirigir-se até o quarto da amiga, no intuito de avisá-la sobre o convite que mais parecia uma ameaça.
— Eu não quero, tá muito claro. — A voz de Pan fez-se audível pelos corredores, manhosa e nada contente com algo. Não era possível que já estivesse enlouquecendo a ponto de começar a falar sozinha, certo?
— Você precisa levantar. — Hector retrucou em um timbre baixíssimo e muito sereno, considerando a ressaca da garota e fazendo o possível para deixá-la confortável. Até mesmo havia sido cuidadoso o suficiente para ligar apenas a luz suave do abajur ao lado da cama, além de ter acordado um pouco mais cedo para preparar-lhe uma pasta à carbonara, ciente de que carboidratos ajudariam a fazer passar o mal-estar.
— Eu não quero! Se eu levantar daqui eu vou morrer, é sério. — Jogou-se entre os travesseiros outra vez, colocando um deles em frente ao rosto para não ser obrigada a continuar interagindo. Normalmente se divertia muito em fazer qualquer coisa que não fosse passar o dia todo na cama, porém naquele instante em especial, sentia-se completamente indisposta. Os olhos doíam ao mínimo sinal de claridade, parte da sua cabeça latejava e o corpo parecia muito mais pesado; ao menos uns oito quilos. Embebedar-se parecia tão divertido nos filmes, então ela simplesmente não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Nem tudo era um conto de fadas, afinal.
— O que vocês dois estão fazendo tão cedo? — Sarah avizinhou-se, esboçando um sorriso tímido. Divertia-se muito com as interações entre eles, principalmente nos momentos em que a amiga decidia ser ardilosa.
— O que você acha que eu estou fazendo, Santoro? — Ele arqueou as sobrancelhas e suspirou desanimado, cruzando os braços ao olhar diretamente para a garota que se recusava a ver a luz do sol.
— Eu acho que você deveria considerar mudar de emprego. Ficar de babá cai bem em você. — Provocou, ainda sorridente, achando graça da situação.
— Como assim? Eu tinha certeza de que essa já era minha função aqui. — Zombou da própria miséria, ciente de que, nos últimos tempos, o que mais fazia era consertar as besteiras feitas pelos jovens ao seu redor.
— Você fazendo piada? Parece que alguém acordou de bom humor hoje, que raridade. — Surpreendeu-se com aquela atitude, sentando-se na cama para segurar suavemente a mão da moça adormecida, acariciando-a com o polegar. — A Alex me ligou e disse pra encontrarmos ela na praia, mas se você não quiser eu posso cancelar.
— Praia? — Permitiu-se sair de seu esconderijo instantaneamente, colocando a pilha de travesseiros de lado enquanto sentava para se espreguiçar. — Eu nunca fui na praia, mas acho que mesmo que eu queira muito conhecer o mar, hoje não vai dar certo. — Murmurou cabisbaixa. Conhecer o oceano definitivamente estava em um dos primeiros lugares de sua lista de coisas a fazer quando conquistasse sua liberdade, no entanto sentia-se completamente indisposta por vários motivos, e isso a chateava.
— Não precisa usar roupa de banho, se isso te deixar mais confortável. — Tentou acalmá-la um pouco. — Além disso, se não estiver muito bem pra ir, a Alex vai precisar entender.
— Não, eu quero ir! — Afirmou com convicção. Ao menos teria a chance de molhar os pés ou caminhar na areia com os amigos, e isso já era mais do que suficiente por enquanto. — Eu só vou tomar banho antes, tudo bem?
— Come alguma coisa também. Você já tomou o remédio pra dor de cabeça?
— Eu obriguei ela a tomar mais cedo. — Hector afirmou, levantando-se após pegar o prato de macarrão que havia preparado. — Vou esquentar a comida pra você.
— Não precisa. — Pan segurou-o antes que se afastasse muito, pegando a refeição de suas mãos e enfiando uma garfada generosa na boca. — Você vai com a gente, né, Hec? — Perguntou com as bochechas lotadas, fazendo com que os outros dois sorrissem ao vê-la mudar tão rapidamente de humor.
— Sim, eu vou. — Assentiu. — O seu pai me ligou mais cedo e me pediu pra não deixar vocês duas sozinhas com o irresponsável do Diego.
— O papai? E como foi a viagem? Ele chegou bem?
— Ele não teve problemas durante a viagem. A uma hora dessas provavelmente já devem estar saindo da ópera que foram com os Bertolucci, e se tudo der certo na reunião, eles voltam amanhã.
— Sério? — Indagou alegremente, recebendo um aceno afirmativo em resposta. Estava animada em passar tempo com a família, já que ultimamente seu pai parecia mais receptivo e muito menos distante. Até mesmo sua mãe apresentava-se mais frequentemente em casa, o que era raro, já que Alice nunca fora do tipo afetuosa.
— Eu vou deixar vocês se arrumarem em paz. Preciso fazer algumas ligações, então vou descer até o escritório. — Disse e retirou-se rapidamente. As garotas apenas concordaram e levantaram-se para organizar o que precisavam antes que Alex realmente aparecesse ali para arrastá-las. Já havia lhes mandado inúmeras mensagens questionando-as sobre seu paradeiro, e não tinham vontade alguma de vê-la causando uma cena aqui.
Uma ducha quente de vinte minutos enquanto o remédio fazia efeito somada à um prato de carboidratos para curar a ressaca foram o suficiente para que Pan começasse a se sentir melhor. Não estava em perfeitas condições, tampouco estava exalando sua personalidade extrovertida como sempre, porém as náuseas e dores haviam passado, e isso já era o suficiente para que sua face começasse a ganhar vida outra vez.
— Vamos antes que a Alex realmente tenha um surto. — Sarah exprimiu ao observar a tela de seu celular, já em frente à porta principal da casa. — Ela me mandou tantas mensagens que eu não faço ideia de como o meu celular não travou, sinceramente.
— Essa menina tem algum problema. — Hector estalou a língua em desaprovação, trancando a porta do escritório de seu chefe e pegando rapidamente as chaves do carro acima da mesinha de centro da sala principal. Quando foi retirar seu terno do mancebo, fora logo interrompido por Pan, que pegou-o de suas mãos e pendurou novamente, demonstrando uma expressão cansada. — O que foi? — Questionou surpreso, sem compreender o motivo daquela ação.
— Você não vai de terno pra praia, né? — Levantou as sobrancelhas em reprovação, já imaginando que estava muito quente do lado de fora, e o cenário não era o ideal para roupas sociais.
— Diferente de vocês duas, eu não estou indo para me divertir, Pan. Sou o seu guarda-costas, e preciso me vestir de acordo com o meu trabalho. — Respondeu, tentando puxar novamente a vestimenta, porém agora sendo interrompido por Sarah. — O que foi agora, Santoro?
— Eu concordo com a Pan. — Cruzou os braços e fitou-o de cima à baixo, negando com a cabeça. — Não existe a mínima possibilidade de você trocar a camisa, calça e sapatos sociais por camiseta, bermuda e chinelo?
— Não, não existe. O que você pensa que eu sou? Um adolescente despreocupado aproveitando as férias? — Retrucou indignado. — Como eu já disse, o meu trabalho é proteger vocês duas, e sinceramente, não dá pra esconder uma arma no bolso de uma bermuda.
— E por que você precisa de uma arma? — Pan interveio, fazendo com que ele franzisse o cenho quase que instantaneamente. Não achara aquela pergunta tão pertinente.
— É melhor prevenir do que remediar, não acha? — Disse, ainda insistindo em pegar o maldito terno. Obviamente fora barrado outra vez, pois as duas garotas estavam motivadas a não deixá-lo andar como um engravatado até mesmo na praia. — Tudo bem, eu desisto. — Ergueu as mãos para demonstrar que se rendia e suspirou ao dar-se por vencido. Se continuassem com aquela palhaçada, decerto passariam o dia todo parados em frente à porta, e ele tinha suas obrigações para cumprir. Decidiu subir as escadas e trocar a camisa social por uma camiseta branca, e embora não fosse abrir mão dos sapatos e da calça social afivelada, agora ao menos parecia mais apresentável na concepção delas. Não era o ideal, porém conhecendo-o bem, sabiam que era o máximo que conseguiriam fazê-lo usar, e já estavam satisfeitas.
— Muito melhor, mas ainda acho que você deveria aprender a se vestir com o Diego. — Sarah sorriu maliciosa, escondendo os lábios com a mão esquerda para aguardar a reação frustrada daquele homem.
— Ele parece um delinquente, e eu me recuso a parecer um imbecil. — Revirou os olhos e abriu a casa apressado, deixando-as passarem antes de trancá-la. Toda aquela insatisfação fez com que ambas entrassem no veículo com sorrisinhos tímidos estampados no rosto, achando graça de sua relação de gato e rato com o sobrinho de Sandro. Eram opostos, mas até que se completavam muito bem, e quando estavam juntos, qualquer diálogo entre eles acabava por ser um entretenimento e tanto.
Depois de vinte e tantos minutos, chegaram na praia já cientes do sermão que ouviriam de Alex pelo atraso. Ela havia estimado que as colegas estariam lá em menos de quarenta minutos, porém ao invés disso, demoraram mais de uma hora. Sarah, no entanto, não conseguiu evitar o olhar em direção à Chris, que exibia o corpo definido ao usar apenas uma bermuda enquanto jogava vôlei de praia, irradiante ao sorrir daquela maneira tão descontraída que apenas ele sabia fazer. Seu coração dera um leve salto, embora a amiga ainda continuasse a reclamar sobre seu atraso ao mesmo tempo que iam se aproximando dos colegas, sentados acima das toalhas que Evan havia trazido para se estirar na areia. Então o haviam conseguido arrastar até lá, afinal.
— Vocês vieram! — Kate os recebeu com um sorriso, acenando para que se acomodassem ao seu lado. Estava de mãos dadas com Isis, que chamava muita atenção de todos ao redor. Não era costume que as pessoas ali incomodassem às outras, porém nem sempre se encontrava uma atriz famosa tão casualmente na praia, e seus fãs vez ou outra vinham importuná-la para algumas fotos ou autógrafos. Ela apreciava muito o apoio e o carinho, mas em seu tempo livre não gostava muito de ser interrompida de dois em dois minutos para trabalhar. Queria passar seus raros segundos de paz ao lado dos amigos, e principalmente, aproveitar o tempo com a garota que tanto gostava.
— É sério que aquele cara veio de roupa social pra praia? — Isis olhou em direção à Hector, observando-o de cima à baixo. Ele estava um tanto afastado, falando ao telefone com uma expressão séria; carrancuda, não parecia de bom humor.
— Ele disse que — Aqui Pan limpou a garganta e forçou a voz até que ficasse parecida com a daquele homem: — "eu estou indo trabalhar, não me divertir, o que vocês acham que eu sou? um adolescente aproveitando as férias?" — Logo caiu na gargalhada, junto às amigas. — Isso porque a gente ainda conseguiu fazer ele trocar o terno e a camisa social por uma camiseta, então já é uma vitória e tanto.
— Meu Deus, terno na praia? — Isis riu, rapidamente negando com a cabeça em desaprovação.
— Eu acho esse jeito dele muito fofo. — Pan sorriu involuntariamente, observando-o com carinho. — Ele leva o trabalho muito a sério.
— Fofo? Ele é tudo menos fofo. — Contestou, cruzando as pernas para ajeitar-se corretamente ao lado de Kate. — A verdade é que ele é muito lindo. A maioria das meninas lá do colégio são interessadas nele, mas ele não tem lá uma aura muito aproximável, então ninguém tem coragem de chamar ele pra sair.
— O quê? — Sarah arregalou os olhos, direcionando sua atenção à Hector por um instante e depois voltando a olhar para as amigas. — Desde quando o Hector faz tanto sucesso assim?
— Ah, ele é lindo, e ainda por cima é um clichê ambulante de homem malvado e misterioso. Ninguém resiste a um bonitão mais velho com cara de mau. — Kate reafirmou, também fitando-o de longe. — Se ele não me desse tanto medo, eu super daria em cima dele. — Brincou, já com intenção de provocar sua parceira.
O estômago de Pan começara a revirar à medida que uma onda fria tomava conta de seu corpo, da cabeça aos pés, um pouco preocupada com o interesse de outras garotas naquele homem. Ela não conseguia assimilar aquele sentimento, e tampouco sabia nomeá-lo, mas não estava nada confortável com aquela conversa, e torcia a todo momento para que ela acabasse o mais rápido possível.
— Ei! — Isis bufou, cutucando-a com o cotovelo como resposta à sua provocação. Kate riu e a abraçou para confortá-la, timidamente assegurando-lhe de que não tinha interesse em ninguém além dela.
Hector afastou-se um pouco mais, embora sem perdê-las de vista. Em poucos minutos, dois homens muito bem vestidos aproximaram-se dele, também aparentemente nada felizes. Pelas linhas de expressão muito bem marcadas em suas faces, percebia-se que estavam em meio à uma discussão. Talvez sobre trabalho, ou talvez sobre outras coisas. Não, por suas vestimentas, definitivamente era sobre trabalho. Mas que diabos? Era por isso que ele havia insistido tanto em utilizar roupas sociais, então? Porque ele teria uma reunião de negócios em meio à praia daquela maneira? Ele não podia ter nem sequer um dia de paz sem precisar ficar lidando com problemas até mesmo nos momentos em que deveria ter um mínimo de lazer?
— Eu não consegui achar nada, Kate. — A voz de Naoki fez-se audível no instante que sentou-se ao lado das garotas, ofegante e pingando a suor. Estava com uma camisa estampada de mangas curtas; os botões abertos e uma bermuda até os joelhos. Os chinelos jogados na areia, quase enterrados. Aparentava estar desanimado com alguma coisa.
— Eu disse que não ia achar. — Alex chegou com uma bola de vôlei nas mãos, empurrando Pan com os quadris e instalando-se ao seu lado. — Não é possível que nenhum de vocês saiba como funcionam as praias aqui. É quase impossível achar qualquer coisa pra vender nesse lugar.
— É óbvio que a gente sabe, mas não tinha como adivinhar que o mercado aqui da frente tinha fechado pra abrir a merda de um cassino. — Isis revirou os olhos. Havia esquecido de trazer qualquer coisa para beber e estava com muita sede, portanto pedira ao colega que lhe comprasse algo, mas infelizmente ele não conseguiu encontrar um local próximo. Pan encolheu os ombros, ciente de que o cassino ali era de sua família; sabia que não deveria sentir-se culpada por isso, mas o jeito que a amiga amaldiçoara a existência daquele prédio decerto a tivesse deixado desconfortável. — Ao invés de você ter ficado enchendo o saco da Pan e da Sarah pra virem rápido, você podia ter pedido pra elas passarem em algum lugar e comprar alguma coisa, mas como sempre a sua cabeça tá perdida nos esportes.
— Cala a boca, Isis. — Evan bufou em tom baixo e arrastado, gradativamente se levantando depois de um cochilo demorado abaixo do guarda-sol, graças à discussão acalorada dos colegas. — A porra da sua voz é muito chata, tá atacando minha ressaca. — Esboçou um sorrisinho malicioso, já com a intenção de irritá-la ao dizer algo como aquilo.
— Vai se foder. — Ela retrucou, chutando-lhe os pés. Ele apenas encenou sua morte para dizer que havia sentido muita dor, fazendo os amigos caírem na gargalhada outra vez.
— Do que vocês estão falando? — Chris avizinhou-se subitamente, fazendo com que as bochechas de Sarah ruborescessem. Caramba, ele precisava mesmo ser tão atraente em todos os sentidos? Até mesmo a maneira com que o suor pingava de seus cabelos escuros e escorria até seu abdômen definido a fazia imaginar todo o tipo de coisa que nunca nem ao menos havia passado em sua cabeça antes de conhecê-lo. Aquele sorriso perfeito somado à vermelhidão charmosa em seu rosto causada pelo sol aceleravam seu coração, e obviamente, ele havia feito questão de sentar-se ao seu lado. Bem próximo. Não sabia se era algo proposital, mas se a sua intenção era atormentá-la, havia conseguido. — Oi Sarah, oi Pan, foi mal não ter cumprimentado vocês duas antes, eu tava no meio do jogo e os caras não queriam me liberar. — Disse alegre, tendo o cumprimento prontamente retribuído.
— Por falar nisso, ruivinha... — Evan finalmente decidiu acercar-se de todos, observando-a com certa curiosidade — por que você não tá de biquíni também? Eu queria te ver de biquíni. — Acrescentou manhoso, enquanto se espreguiçava.
— Você é patético, Evan, volta a dormir. — Isis retrucou, sendo apoiada pelos outros colegas. Nem mesmo Chris e Naoki ousaram defendê-lo. — Não, quer saber? Na verdade, aproveita e morre aí mesmo. A gente já tá na areia, então é só enterrar. — Completou, e ele apenas levantou o dedo do meio em sua direção como resposta, no intuito de ofendê-la.
— Vamos deixar as provocações de lado um minuto. — Naoki interrompeu, chamando a atenção dos colegas. — O que a gente vai fazer com o negócio das bebidas? Tá realmente quente pra caramba, e o mercado mais próximo fica a uns dez minutos de carro.
— O jeito mais fácil é todo mundo dar o dinheiro pra umas duas pessoas e elas comprarem tudo. Não tem sentido ir todo mundo só pra isso. — Alex argumentou, fazendo com que todos concordassem. Era o mais óbvio a se fazer em situações como essa.
— Eu posso ir. — Pan se ofereceu prontamente. Era a que menos estava aproveitando, afinal. Apesar de estar encantada com a beleza do oceano e com a deliciosa brisa marítima somada à todas as outras coisas novas ao seu redor, também estava chateada por não conseguir ter a experiência completa de usar um biquíni, ou poder se banhar sem preocupações, então não via sentido em continuar ali apenas apreciando a paisagem despreocupadamente.
— Se a ruivinha vai, então eu também vou. — Evan comentou de forma galanteadora, sendo rapidamente interrompido por Chris, que havia percebido a expressão descontente de Sarah ao vê-lo tentando aproximar-se da amiga. — O que foi, cara? — Questionou confuso, não compreendendo o motivo de ter sido detido pelo próprio colega.
— Você ainda tá de ressaca, não vou te deixar sair dirigindo por aí desse jeito. — Reclamou, percebendo o semblante de Sarah amaciar. Ela instantaneamente respirou aliviada, direcionando-lhe um olhar como se o estivesse agradecendo.
— Nem de carro eu vim hoje. — Bufou chateado, dando de ombros.
— Veio de moto, que é muito pior, babaca. — Alex rosnou, estalando a língua após arremessar um pouco de areia em sua direção. Ele apenas reclamou e retribuiu o gesto, também sujando-a com terra. — Deixa ela ir com o Hector. Ele ia com ela de qualquer jeito, e pelo menos ele é responsável e tá de carro, então se precisar trazer muita coisa vai ser mais fácil. — Concluiu. Todos rapidamente aceitaram, achando essa a decisão mais plausível; quer dizer, quase todos. Por voto da maioria, Evan também fora obrigado a aceitar, mesmo que à contragosto. Estava extremamente irritado com aquele homem por tê-lo apagado na noite anterior, porém se recusava a abrir a boca sobre aquilo. Jamais contaria à qualquer alma sobre o ocorrido, pois era muito embaraçoso e feria seu orgulho.
— Quer que eu vá com você também? — Sarah indagou preocupada. Ela apenas acenou negativamente com a cabeça, dizendo-lhe que aproveitasse com os amigos pois ela voltaria em um piscar de olhos. Convencida, ela assentiu, ciente de que não teriam problemas desde que ela estivesse acompanhada por ele.
Pan olhou em direção à Hector para averiguar se já estava livre, não querendo incomodá-lo enquanto discutia sobre trabalho. Sabia que ele não ia gostar nada de tê-la próxima daqueles sujeitos, portanto não custava nada aguardar até que finalizasse sua reunião. Felizmente, aqueles homens carrancudos já o haviam deixado em paz, e ele agora apreciava seu cigarro enquanto observava o desmanchar de cada onda do vasto oceano à sua frente. É verdade que ali não era permitido fumar, como na maioria das praias, porém ele não parecia dar a mínima. Seu bom humor havia mudado agora para um péssimo, e as substâncias do tabaco eram a única coisa que o fariam se sentir menos miserável naquele momento.
— Hec? — Ela ousou aproximar-se e chamá-lo, obrigando-o a apagar o cigarro na areia e recolhê-lo para jogar no lixo ao lado. Ele a observou pelo canto dos olhos, um pouco distante. — Tá tudo bem? — Perguntou com doçura, surpreendendo-o. Agora havia se obrigado a encará-la corretamente, virando-se em sua direção e dando dois passos para frente, diminuindo a distância entre eles.
— Um pouco cansado, mas eu vou sobreviver. — Admitiu, fazendo-a arregalar os olhos e abrir um pouco os lábios, admirada com o fato de ele ter confessado não estar perfeitamente bem. Sempre escondia-se por trás daquele semblante frio e desinteressado, então eram muito raras as vezes em que se permitia aproximar-se a ponto de desabafar assim. — E você? — Perguntou, puxando-a de volta para a realidade; estava perdida em seus devaneios. — Pensei que estivesse ansiosa pra conhecer o mar, mas você não parece estar se divertindo muito.
— Eu estava, mas... — esfregou as mãos uma na outra em um gesto de nervosismo, quase como se estivesse com frio — não sei, eu só não estou me sentindo eu mesma hoje.
— Eu percebi, mas pensei que fosse a ressaca. — Cruzou os braços, observando-a com cuidado. — Aconteceu alguma coisa?
Ela assentiu.
— A gente pode ir andando enquanto eu falo? — Pediu, vendo-o logo aceitar após tê-la ouvido explicar que precisavam comprar algumas bebidas para os colegas. Quando se acomodaram no interior do veículo ela suspirou cansada. O olhar tão vívido que normalmente tinha já não existia ali, e no lugar disso estava um olhar cheio de inseguranças e dúvidas; um olhar de quem estava perdida no próprio mundo e já não sabia como voltar.
— E então? O que foi? — Ele insistiu, colocando a chave na ignição com o intuito de começar o trajeto enquanto a ouvia dizer o que precisava.
— O que você e o papai realmente fazem, de verdade, Hec? — Questionou insegura; os olhos já haviam se direcionado aos pés. Não tinha vontade de encará-lo diretamente, com medo de ouvir sua resposta.
— Outra vez com esse assunto, Pan? — Rumorejou cansado, sem vontade alguma de responder àquela pergunta. Na verdade, seu chefe nem ao menos lhe permitiria isso se estivesse presente. Era tabu tocar naquele assunto perto de sua filha. — Nós fazemos negócios, e você sabe muito bem.
— Eu só preciso ouvir diretamente de você, por favor. — Hesitou, mordendo os lábios. Ainda não queria olhar para ele, então direcionou sua atenção para o trânsito do lado de fora. — Você já me falou que tinha relação com a morte daquele senador, e eu já vi você chegar cheio de sangue em casa mais do que qualquer outra pessoa. Eu já vi a mamãe, o papai e o tio Sandro também, mas com você é mais frequente. — A sua voz começou a falhar; a garganta já estava fechando com o choro que lutava para segurar, mas recusava-se a desabar ali. Não era a hora, não era o momento. Queria pela primeira vez na vida confrontá-lo sem parecer uma criança, e se sucumbisse ao choro, tudo aquilo seria em vão. Ele teria um motivo para descontinuar o assunto, e isso era tudo que ela não precisava. — Vocês são tipo... assassinos? — Ousou perguntar. Talvez essa fosse a pergunta que estivesse entalada em sua garganta há muitos anos, e que nunca tivera coragem de colocar para fora; decerto por medo do que pudesse acabar pensando sobre sua própria família, ou pior, por medo de sua reação não ser a que considerava correta.
— Não, nós não somos uma organização de assassinos, Pan. — Negou com autoridade, sem levantar o tom ou tirar o foco da estrada. Ele, na realidade, era de fato um assassino. Hans o havia acolhido e treinado apenas para esse propósito; para que tivesse alguém disposto a sujar suas mãos por ele, mas não era especificamente sobre sua função que ela estava perguntando, e sim sobre o trabalho que todos exerciam em um geral, e bom, a família era muito mais do que apenas um bando de assassinos. Era um mundo violento, de fato, então vez ou outra era inevitável acabar com uma morte ou duas, porém boa parte dos que trabalhavam em nome de Hans nunca nem ao menos haviam matado ninguém, apenas envolviam-se no tráfico ou na lavagem de dinheiro. Eram poucos aqueles que conseguiam continuar com as ameaças graves e homicídios sem que fossem pegos e acabassem atrás das grades, independente do poder político e toda a influência que tinha Hans Stracci. — Eu fui sincero com você. Nós somos homens de negócios. — Reafirmou. Não queria ir além disso, mas sabia perfeitamente que ela o acabaria convencendo. Apenas esperava que se contentasse com isso e não o importunasse mais, porém sabia que era impossível. A curiosidade e a cabeça-dura de Pan não permitiriam que ele se livrasse facilmente. — E eu não posso ficar falando sobre as funções alheias. Não é o meu lugar de fala te contar segredos que não me pertencem.
— Então me conta só os seus. Você já matou alguém com as próprias mãos, né? — Insistiu. Ele apertou as mãos no volante um tanto nervoso, contudo logo relaxou novamente sem que ela percebesse.
— Sim, já. Muitas vezes. Nem sempre os negócios dão certo, e ocasionalmente alguém acaba se machucando no processo, quando é impossível entrar em um acordo pacífico entre os dois lados. — Explicou sereno, já ciente de que ela provavelmente sabia sobre seus feitos passados. Pan não era burra, muito pelo contrário, mas sempre se recusava a enxergar todos os indícios logo abaixo do seu nariz, e ultimamente, ela parecia estar querendo mudar isso. — Eu respondi o que você me queria, agora é sua vez. — Requisitou, estacionando o veículo ao chegar no destino, soltando o cinto de segurança enquanto a fitava aguardando por uma resposta. — Por que o interrogatório hoje?
— Eu só precisava confirmar uma coisa. — Murmurou insegura.
— O que é isso que você tanto precisava confirmar?
— Lembra quando eu te perguntei se era uma pessoa ruim por não me importar mais com as coisas que você fazia? — Seu timbre soou fraco; ela demonstrava um semblante entristecido. Um tanto curioso, ele assentiu e continuou observando-a cautelosamente, aguardando até que criasse coragem para se justificar. — Eu acho que sou mesmo uma pessoa ruim, porque agora mesmo você me disse que já matou alguém, isso saiu da sua boca, foi você quem acabou de admitir na minha frente, mas eu não me importei. — Aqui o tom de sua voz tremeu; ficou mais baixo e deplorável, sendo possível sentir o remorso em cada palavra que saía de seus lábios. — Faz um tempo que eu já parei de me importar com as coisas ruins que você faz, uma parte de mim já enxerga isso como normal. Eu só me preocupo em saber se você vai ou não chegar bem em casa no dia seguinte.
— Pan... — Ele chamou seu nome com doçura, imerso nos próprios devaneios, estendendo a mão esquerda para tocar-lhe os cabelos e colocar algumas mechas atrás de suas orelhas, deixando seu rosto mais à mostra. — Você é linda. Por dentro e por fora.
— Eu não sei o que tá acontecendo comigo, Hec, eu sempre fui contra tudo isso, mas eu não consigo mais me importar. — Ela agora desabou em lágrimas. Havia aguentado o suficiente; seus sentimentos estavam à flor da pele, e era fácil perceber o quão estava perdida, buscando por alguma resposta que a deixasse satisfeita. O único problema é que ele não sabia com toda a certeza o que ela necessitava — ou queria- ouvir, portanto precisaria ser muito cuidadoso para não quebrá-la ainda mais.
— Nem todo mundo é bom ou mau por completo. As pessoas precisam de um equilíbrio, e você só está encontrando o seu equilíbrio agora porque está amadurecendo e passando por experiências que mudam a sua visão do mundo. — Puxou-a para si, a envolvendo em um abraço caloroso para deixá-la chorar em seu conforto. Ele sabia muito bem o motivo dessa mudança em seus julgamentos. Todas as suas vivências mais recentes com pessoas como Ethan ou Vincenzo a fizeram perceber que o universo não era tão colorido quanto ela pensava, e que alguns sujeitos seriam mais úteis se enterrados à sete palmos abaixo da terra. A convivência no mundo real havia feito com que ela, inconscientemente, deixasse de dar tanta importância à morte de gente como eles e começasse a dar preferência à segurança das pessoas ao seu redor, sem incomodar-se com os meios que usariam para voltarem vivos em casa no dia seguinte. — Você pode não se importar com a morte de uma pessoa desconhecida e mesmo assim ser uma pessoa boa. Só o fato de você estar tão preocupada com isso já é o suficiente pra você saber que não é uma pessoa horrível como imagina que é. — Sussurrou com ternura, afastando-a um pouco e passar o polegar abaixo de seus olhos, com o intuito de afastar as lágrimas daquele rosto inchado e avermelhado.
— De verdade? — Respirou fundo na tentativa de se acalmar. Não queria ter que entrar no mercado com essa expressão tão derrotada, já que isso poderia fazer com que as pessoas ao redor tivessem uma interpretação errada; decerto acabariam imaginando que Hector a havia magoado, e ela não queria isso.
— Sim, de verdade. A única pessoa ruim aqui sou eu, tudo bem?
— Você não é ruim. — Negou veemente com a cabeça. — Você é sempre bom comigo.
— Sim, eu tento ser, mas isso é só com você.
— Eu sou muito egoísta em ficar feliz por você ser assim só comigo? — Desviou novamente o olhar até o chão, levemente dominada pelo nervosismo. Hector queria com todas as forças dizer que a amava e beijá-la ali mesmo, porém fora obrigado a se conter. Não era certo, e acabaria magoando-a profundamente se acabasse morto pelas mãos de seu Don assim que recuperasse a memória.
— Você tem todo o direito do mundo de ser egoísta quanto a isso. — Abraçou-a com carinho, beijando-lhe os cabelos antes de afastá-la ao sentir seu telefone vibrar no bolso de sua calça. Infelizmente era o aparelho que utilizava para trabalho, e não existia a possibilidade de ignorá-lo, portanto pediu por licença e retirou-se do veículo para ter um pouco de privacidade, deixando-a sozinha. — Pronto? — Atendeu à ligação, ciente de que estava falando com Alice, após ter visto seu nome na tela.
— Como estão as coisas por aí, Hector? Aconteceu alguma coisa? — Ela soou aflita, parecendo ansiosa por algum motivo.
— Bem. — Retrucou ríspido, limpando a garganta para disfarçar o fato de quase ter tomado posse dos lábios da filha daquela mulher antes de respondê-la. — Como foi a reunião?
— Nós estamos indo pra lá agora. Eu liguei pra te avisar sobre isso. — Sua voz parecia mais séria agora, quase como se estivesse prestes a contar más notícias. — Você já sabe qual vai ser o assunto dessa reunião, não sabe?
— Além da conversa sobre a morte do senador? Os outros Dons provavelmente vão vir com aquele papo de confiança, fazendo parecer que o fato do Don Stracci ter escondido sua única filha de todos significa que ele não confia em nenhuma outra famiglia, e esse tipo de besteira. — Começou a argumentar, quase levando um cigarro aos lábios. Odiava tratar de assuntos problemáticos sem a ajuda do álcool ou do tabaco, mas se deteve por saber que Pan ainda estava no carro, e que ela decerto não apreciaria isso. — Eles vão fazer todo o tipo de acusação que ajude a diminuir o poder dos Stracci, principalmente depois da queda do Vincenzo e desse maldito senador. Agora com a ascendência dos Bertolucci no narcotráfico, que é um dos nossos maiores aliados, a influência do Don aumentou consideravelmente. Eles se sentem ameaçados.
— Você é bom nisso. — Ela riu, deixando transparecer o seu deboche usual. — Por que meu marido não te fez consigliere ao invés de assassino?
— Eu sou muito jovem pra isso, e não tenho interesse no cargo do meu amigo. Tenho certeza de que o Sandro faz um trabalho muito melhor do que eu jamais poderia fazer.
— Ah, que gracinha, não sabia que você era tão amiguinho daquele velho. — Ouviu-a zombar de sua fala e revirou os olhos, pigarreando um tanto acanhado. — Bom, eu não tenho muito tempo, então vamos logo ao que interessa. Você precisa sumir do país, Hector.
— O quê? — Arregalou os olhos em surpresa, franzindo instantaneamente o cenho ao tentar assimilar o que havia acabado de escutar.
— As memórias do Hans já estão voltando. Essa reunião provavelmente vai revelar aquela foto ridícula que o Vincenzo tirou de você com a minha filha. Acho que vai ser o estopim antes de ele lembrar de tudo.
— Não importa, eu já queria contar antes mesmo da viagem, mas você me deteve. — Ele deu de ombros, sem incomodar-se com aquilo. Já tinha noção de que em breve a verdade viria à tona, e achava inadmissível fugir como um covarde. — Don Stracci foi o homem que salvou a minha vida, então ele tem todo o direito de tirá-la se quiser. Isso não é negociável.
— Vocês homens estúpidos e essa merda de honra. — Ela rosnou, demonstrando alguma fúria em seu tom de voz. — Eu não quero ver a minha filha naquele estado outra vez, Hector, e nós dois sabemos que a sua morte faria isso acontecer. — Acrescentou, minimamente preocupada. Ele sabia perfeitamente que ela estava se referindo ao dia em que Pan conseguira sua liberdade, fazendo com que seu coração falhasse uma batida ao recordar-se do estado miserável em que ela se encontrava naquela época. Quem conhecia aquela garota tão alegre e sorridente que ela demonstrava ser, jamais imaginaria que em algum momento do passado, ela por alguns dias tivera uma recaída a ponto de tornar-se o completo oposto daquilo.
— Eu sei, e me importo muito com o bem-estar dela, mas eu não posso fugir, Alice. — Ponderou a ideia por alguns segundos, tentando priorizar os sentimentos que tinha pela garota, porém aquilo era algo que definitivamente não podia fazer. Estava fora de cogitação sair correndo como um traidor, em especial se prezava tanto pela opinião do homem para quem trabalhava. Hans Stracci, para ele, era como um mentor; um guia que lhe dera a oportunidade de fugir da morte e recomeçar a vida. A opção de decepcioná-lo outra vez não existia ali. — Eu já disse que não sou um covarde, não vou trair o meu Don.
— Você é um imbecil. — Retrucou impassivelmente, após suspirar e dar-se por vencida. — O Hans vai vir me chamar em alguns minutos, então eu preciso desligar. — Encerrou rapidamente a chamada, sem nem ao menos aguardar por uma resposta.
Hector colocou o aparelho em seu bolso e respirou fundo para manter a compostura, antes de dar a volta no veículo e abrir a porta de Pan, auxiliando-a a sair do carro. Estava ciente de que já haviam levado muito tempo para uma simples compra, e que em breve os amigos da moça provavelmente começariam a se perguntar sobre o motivo de toda essa demora, então não achava prudente continuar a postergar aquilo. Ela já parecia melhor, as lágrimas haviam secado e até mesmo esboçava um sorrisinho satisfeito ao pegar alguns salgadinhos nas prateleiras, perguntando-lhe vez ou outra qual os colegas apreciariam mais. Já que estavam esperando por tanto tempo, então que ao menos levasse algo que pudesse agradá-los a ponto de conquistar seu perdão.
— Hec? — Ela iniciou conversa, ainda com o olhar perdido entre as mercadorias, tentando decidir o que compraria. Talvez acabasse por obter ao menos cinco de cada um, pois seria menos trabalhoso e evitaria dor de cabeça. Em resposta, ele arqueou as sobrancelhas e prontificou-se a fitá-la, aguardando por sua fala. — Tem uma coisa que eu queria te falar hoje cedo, mas como a Sarah chegou no quarto eu não sabia se você ia ficar bravo ou não. — Exprimiu tímida, mordendo o interior das bochechas para tentar esconder seu nervosismo.
— Eu estou gostando muito que ultimamente você anda mais cuidadosa ao falar as coisas na frente de outras pessoas. — Disse orgulhoso. — E então, o que é?
— Ontem você me disse que se eu lembrasse de tudo quando acordasse, podia te pedir qualquer coisa. Bom, eu... lembrei. — Confessou, agora voltando sua atenção à ele, que permanecia sem reação, dominado pela surpresa, com os antebraços apoiados no carrinho do mercado. Um arrepio gelado havia passado por todo o seu corpo; definitivamente não esperava por isso. — Você não vai voltar atrás com a sua palavra, né? Você vai manter a promessa, não vai? — Intimou, quase em tom de súplica.
— Isso depende. — Ponderou, ajustando a postura e aproximando-se dela em passos lentos e hesitantes. — O que você quer de mim?
— A mesma coisa, Hector. — Continuou a encará-lo sem vacilar, no intuito de pressioná-lo a aceitar.
— Pan, você sabe que isso é complicado, eu... — titubeou, pensando seriamente em dizer que não manteria aquela promessa e que aquilo era uma grande idiotice; uma grande besteira. Era o certo a se fazer, considerando sua situação atual. Estava ciente de que, por mais que tivessem sentimentos um pelo outro, não eram nada compatíveis. Um relacionamento entre eles apenas traria mágoas, e Hans Stracci jamais permitiria isso.
— Você não vai, né? — Murmurou chateada, decepcionadamente desviando o olhar até o chão.
Hector recordou-se da conversa que tivera com Alice há alguns segundos, colocando na balança todas as coisas que ainda tinha a perder. Ele sabia que, quando seu chefe voltasse da Itália, a possibilidade de acabar morto era alta. Guiado por esse pensamento e por seus próprios desejos egoístas que vinha contendo há anos, colocou uma das mãos no ombro dela e com a outra utilizou de seu indicador para posicioná-lo abaixo de seu queixo com a intenção de obrigá-la a olhar diretamente em seus olhos.
— E quando foi que eu quebrei alguma promessa com você, senhorita Stracci? — Sussurrou travesso, esboçando um sorrisinho malicioso ao emoldurar o rosto dela com as mãos, acariciando com o olhar sua boca entreaberta. Já sem vontade alguma de continuar renunciando àquelas vontades tão profanas que vinha reprimindo há tanto tempo, inclinou suavemente a cabeça e roçou os lábios nos dela com vontade. Bom, já que seu chefe o mandaria para o inferno de qualquer jeito, então que ao menos chegasse lá sem arrependimentos, depois de fazer tudo o que tinha vontade enquanto ainda podia caminhar por essas terras.
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