Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
11 Uma noite longa e confusa
Notas iniciais
Ela sentiu os lábios secarem e as pernas fraquejarem. Suas mãos suavam à medida que seus músculos contraíam em um mecanismo de defesa involuntário do corpo. Repentinamente, a figura encapuzada à sua frente colocou o indicador em seu queixo, tentando fazê-la encará-lo, embora ainda estivesse acuada e com os olhos fechados.
— Ei. — Aquela voz lhe parecia familiar; aquele tom grave porém sereno lhe trazia algumas memórias. — Caramba, você tá pálida, te assustei tanto assim?
Vagarosamente, ela permitiu-se olhar para ele. Aliviada, respirou fundo antes de mais nada, tentando se recompor.
— Você... — A garota gaguejou por um momento, ainda sem saber como reagir. — Meu deus, eu pensei que fosse...
— Algum marginal? — Sorriu. — Foi mal, sei que não foi a melhor abordagem do mundo, mas eu preciso da sua ajuda.
— Ajuda? Em quê? — Indagou curiosa. Pouco a pouco seus batimentos voltavam ao normal, e sua respiração já havia se estabilizado.
Uma multidão começava a rodeá-los enquanto ainda permaneciam próximos; era a mesma que Pan havia encontrado anteriormente. Elas pareciam cochichar sobre alguma coisa, olhando na direção dos dois em busca de algo.
— Será que é ele? — Uma das mulheres ponderou. As outras também pareciam estar em dúvida, portanto decidiram se aproximar.
Antes que a proximidade pudesse revelar seu rosto, o homem selou os lábios nos de Pan, que não sabia como reagir diante do ato. Confusa, ela apenas cedeu o controle, fechando os olhos e apoiando uma das mãos no braço do indivíduo. Desapontadas com a cena, as garotas começaram a se dissipar.
— É só um casal se pegando, que tédio. — Uma delas reclamou. — Ele deve ter ido pra lá. — Completou, apontando na direção contrária. Todas as outras a seguiram, deixando o local livre.
Assim que ficaram a sós, ele afastou-se de Pan, encarando-a como se lhe devesse algumas desculpas, embora não conseguisse encontrar as palavras certas.
— Então é assim que é beijar alguém? — Perguntou indiferente, com uma expressão pensativa e única que retirou toda a tensão do ar.
— Espera, esse foi o seu primeiro beijo? — Riu, achando graça daquela reação tão inesperada. — É assim que você reage, sério? — Zombou.
— Como assim? Tem algum protocolo específico pra seguir depois do primeiro beijo? — Indagou intrigada, olhando fixamente para o homem à sua frente, sem desviar o olhar por um segundo sequer, embora ele, aparentemente, estivesse um desconfortável.
— Para de me olhar assim.
— Assim como?
— Assim, fixamente. É estranho e me deixa irritado.
— Ah, desculpa. — Murmurou.
— E respondendo a sua pergunta, não são as meninas que normalmente querem que o primeiro beijo seja algo especial? Com algum cara legal ou sei lá. — Questionou, cruzando os braços e tentando decifrar o semblante de Pan.
— Especial? — Ela pensou por um instante, até conseguir chegar em uma conclusão sobre o assunto. — Bom, eu ajudei um amigo, então teve um motivo especial.
— Que eu saiba nós não somos amigos. — Provocou. — Eu esperava por um tapa ou até mesmo ser obrigado a te passar meu telefone, mas nunca isso. — Sorriu, deleitando-se com as situações engraçadas que a falta de experiência daquela garota proporcionava.
— Não tem motivo pra eu fazer isso, e eu também não quero o seu telefone.
— Essa doeu. — Ironizou, colocando a mão em seu peito para encenar uma dor cômica.
— Você era o Evan, não é? — Perguntou, sendo rapidamente interrompida ao sentir o dedo indicador do garoto tapar seus lábios. Preocupado, olhou para os dois lados antes de deixá-la falar novamente.
— Como você descobriu que era eu? Bom, tanto faz, o que você quer pra guardar segredo? Um autógrafo, dinheiro, ou talvez um encontro?
— Que segredo?
— Você é meio lerda, não é? — Franziu o cenho, um pouco desconsertado. — Não viu as pessoas me seguindo?
— Espera, você cometeu algum tipo de crime e tá me usando pra te ajudar a fugir? — Tagarelou, sem entender a situação.
— Você é muito tonta. — Evan soltou um longo suspiro, empurrando levemente a testa da moça com os dedos. — Bom, é melhor assim, pelo menos eu não preciso me preocupar. Você tá aqui pelo show, não é? Acho que eu vi a sua amiguinha perto da segurança, na entrada. Considere um pagamento pela ajuda. — Completou, lançando uma piscadela em sua direção antes de afastar-se.
Agradecida, ela logo correu até a porta principal do evento, que estava completamente lotada de pessoas. Com certa dificuldade, enfiou-se em meio à multidão e correu até a segurança, conseguindo finalmente encontrar-se com Sarah que, abalada, a abraçou com força.
— Você está bem? Eu não consegui te ligar, quase morri de preocupação.
— Sim, tudo bem, eu só me perdi. Já estão todos aqui?
— Sua irresponsável. Sabe o que poderia ter acontecido com você? — Uma voz familiar lhe chamou a atenção, causando-lhe um arrepio como se tivesse cometido um crime e fosse pega no flagra.
— Hec? Como você sabia que eu estaria aqui? — Indagou surpresa.
— Você pode conseguir enganar os incompetentes que são novos no meio e ficam só de guarda na frente da casa, mas não pense que eu sou um imbecil do mesmo nível. — Retrucou.
— Vocês duas estão tão lindas. — Kate se aproximou, interrompendo a tensão que se formava no ambiente.
— Ei, você tá atrasada! — Alex reclamou, bagunçando os cabelos de Pan para puni-la. — Vamos logo antes que acabem os lugares da frente. — Argumentou, puxando as amigas consigo.
Todos acataram sua sugestão, seguindo-a pelo aglomerado de pessoas até conseguirem um local que realmente desse para aproveitar o espetáculo. Assim que encontraram o lugar ideal, confirmaram que todos estavam juntos e que, dessa vez, ninguém havia se perdido, deixando a margem para que cada um finalmente pudesse fazer o que tivesse vontade, desde que não se afastassem muito.
— Por falar nisso, Pan, porque demorou tanto pra chegar? — Chris perguntou, fazendo com que todos voltassem os olhares para ela, também curiosos.
Hector a observava apenas pelo canto dos olhos enquanto tascava um gole da cerveja que havia pegado anteriormente. Estava preparado para punir a si mesmo caso algo acontecesse com sua protegida devido ao seu descuido, porém conseguiu respirar aliviado ao vê-la segura.
— Com certeza ela tava se pegando com alguém por aí. — A capitã do time de basquete ironizou.
— "Me pegando com alguém"?
— Você não sabe o que é pegar alguém? — Admirou-se. — É tipo, trocar uns amassos, se beijar, sabe?
— Ah, entendi. Então acho que eu estava sim.
Todos a encararam incrédulos, enquanto seu segurança pessoal cuspiu parte de sua bebida ao ouvir aquelas palavras. Sarah aproximou-se da amiga para averiguar seu estado mental, passando as mãos por suas bochechas e arrastando seus cabelos até deixá-los atrás das orelhas, em um gesto suave.
— Nada mal, garota! — Alex apoiou-se no ombro da colega, provocando-a. — Ele era bonito? Como aconteceu? Joga na roda!
— Como aconteceu... bom, eu me perdi e fui até um lugar mais tranquilo pra procurar meu celular, aí eu senti alguém me puxando pra um beco escuro. Ele me perguntou se eu podia ajudar e eu disse que sim, então a gente se beijou. — Explicou, como se fosse o acontecimento mais normal e cotidiano já visto.
— O quê? Espera, o cara te arrastou pra um beco escuro e te beijou do nada? Isso não é assédio? — Chris ponderou, preocupado.
— Assédio? — Hector amassou a lata em sua mão, claramente irritado, com a mesma expressão fria de sempre. — Por quanto tempo você pretendia esconder algo assim, Pan Stracci?
Ela e Sarah o encararam com receio, cientes de que ele não estava com o melhor humor. Ele nunca falaria seu nome completo se não estivesse muito irritado, e ultimamente, ela sentia que o irritava com frequência, mesmo que sem intenção. Os integrantes da banda logo começaram a surgir no palco, e ao avistar aquele rosto conhecido logo em seu centro, foi inevitável apontar em sua direção.
— Foi ele! — Exclamou. — Ele me pediu ajuda pra se esconder das fãs, e aí aconteceu isso.
Aquele era o vocalista da banda e também Evan, que por estar com uma peruca e uma máscara em seu rosto, não foi reconhecido por seus colegas.
— Se ele te beijou sem a sua permissão isso conta como assédio, sabe? — Chris retrucou.
— Ele me perguntou se eu podia ajudar e eu concordei, então...
— É isso aí, Pan. Mandou ver! — Alex comemorou, parabenizando a amiga. — Para de ser um estraga prazeres, Chris. Hoje em dia é normal sair se pegando por aí.
Incomodado, Hector desviou o olhar, sem vontade alguma de encará-la naquele momento, pois embora estivesse frustrado com aquela atitude, não era seu direito dizê-la quem ela deveria ou não beijar. A sua função era a de protegê-la, e não podia se dar ao luxo de permitir que seus sentimentos e vontades pessoais interferissem em seu trabalho.
Por um momento entre as canções, enquanto Alex, Chris e Kate dançavam animados, Sarah aproximou-se de Pan para confortá-la. Ela a conhecia bem, e sabia que, após tantos acontecimentos estranhos, um após o outro, estaria imersa em seus pensamentos, julgando a si mesma como se fosse a pior pessoa do universo. Apertou levemente sua mão para mostrá-la que estava ali por ela, recebendo um sorriso caloroso em retorno.
Pan fixou o olhar em Hector, que estava próximo ao bar colocando para dentro mais um copo de uísque como se fosse água. Ela estava acostumada a vê-lo beber com seu pai, porém hoje estava diferente, como se bebesse para torturar a si mesmo. Seus movimentos enquanto batia o copo na mesa toda vez que pedia por mais uma dose eram agressivos, e embora ela não ousasse questioná-lo, sabia que algo não estava certo, e sentia que era sua culpa.
— Vamos dançar, Pan. — Kate interrompeu seus pensamentos, balançando o corpo de um lado para o outro enquanto se aproximava.
— Só se você me ensinar. — Ela forçou um sorriso, tentando livrar-se dos pensamentos que a atormentavam.
Suas amigas a puxaram para perto, também levando Sarah, que apesar de ter tentado muito, não conseguiu se safar. Pouco a pouco ela se permitia soltar-se, e Chris não conseguia tirar os olhos dela, achando charmoso o modo que ela era tão séria no dia-a-dia, e ali, dançando de modo tão desastrado, tão insegura e meiga, tornava-se uma pessoa completamente diferente. Todos estavam se divertindo, e nem mesmo o tão odiado cheiro de tabaco e álcool que impregnava o ar poderia estragar aquele momento tão especial para Pan, que finalmente sentia-se como uma adolescente comum, aproveitando sua juventude como sempre deveria ter feito.
A noite parecia ter chegado ao seu fim quando a última música foi finalizada. Os aplausos foram intensos, e mesmo após o fim do show, muitos permaneceram apenas para aproveitarem o bar e a discoteca. Cansada de tanto se movimentar, Pan dirigiu-se até o bar, sentando em um dos bancos para descansar um pouco, sempre deixando seus amigos cientes de seu paradeiro.
— Será que o senhor poderia me vender um copo de água, por favor? — Indagou ao barman, que riu de sua educação excessiva ao falar e afastou-se um pouco, voltando em alguns minutos com um copo em suas mãos e colocando-o à frente da moça. — Obrigada. — Agradeceu, puxando a bebida para si.
— Você não deveria beber isso. — Alguém a interrompeu, retirando o objeto de suas mãos.
— Evan? — Surpreendeu-se com aquela aparição tão repentina.
— Já te disse pra parar de falar o meu nome aqui. — Reclamou.
— E como eu deveria te chamar? Eu só conheço o nome do cara que me expulsou da mesa no primeiro dia de aula.
Ele sorriu, recordando-se de seu primeiro encontro com Pan.
— "Ei, você está no meu lugar". — Encenou, forçando a própria voz de um modo cômico, fazendo-a rir.
— "Ele é como aqueles valentões dos filmes, Sarah!" — Zombou, entrando na brincadeira.
— Você errou, não foi isso que disse aquele dia.
— Sério? Bom, cheguei perto. — Ela retrucou, e ambos caíram na gargalhada por um momento. — Você já pode devolver o meu copo, viu? Eu estou com sede.
— Ah, esse copo aqui? — Evan o bateu com força na mesa do bar, arrastando-o em direção ao barman enquanto o encarava com desdém. — Esse copo aqui é interessante, não acha?
— É só um copo, o que tem de tão especial nele? — Perguntou, confusa com aquelas ações tão repentinas do garoto.
— Porque não pergunta ao nosso amigo aqui?
— O moço do bar?
— Ei, cara, você deve estar com sede. Passou a noite toda trabalhando, então que tal dar um gole nessa água que acabou de servir para ela?
Era perceptível a mudança no comportamento daquele homem, que parecia ter ficado pálido em um piscar de olhos. As pessoas ao redor não conseguiam compreender o motivo de tanta exaltação, porém Evan continuava a encará-lo com frieza, desafiando-o.
— Você é muito corajoso em tentar drogar essa garota. — Hector interveio, pegando uma das garrafas do balcão e despejando o líquido nos cabelos do barman. — Escória. Eu deveria cortar a sua garganta ou estourar os seus miolos por uma merda dessas. — Ameaçou, quebrando a garrafa bem ao lado da cabeça do sujeito.
— Drogar? É por isso que você não me deixou beber? — Pan indagou à Evan, que sorriu de canto como resposta. Percebendo que Hector estava prestes à agir, colocou a mão em seu braço e o segurou, fazendo que não com a cabeça como se lhe dissesse que não valia a pena, suplicando para que não cometesse um homicídio por sua causa.
— Vamos pra casa. — Ordenou,segurando seu pulso e arrastando-a em meio à multidão, sem permitir que ela se despedisse, já impaciente com tantos acontecimentos que o irritassem no mesmo dia.
— Eu consigo andar sozinha. — Protestou, tentando soltar-se daquela mão firme. — Pode parar de me arrastar, isso machuca. Qual o seu problema hoje?
Ele permaneceu em silêncio até que saíssem do local, para respirar um pouco de ar fresco, deixando-a ir após soltar um longo suspiro, embora não conseguisse se livrar daquela frustração.
— Perdão, eu não tinha intenção de te machucar. — Esclareceu, sem conseguir encará-la corretamente enquanto falava. — Pensei que fosse se perder outra vez.
— O que aconteceu lá dentro? — Sarah os interrompeu. — Vocês saíram tão rápido depois de um tumulto no bar.
Pan desviou o olhar, apertando as mãos enquanto forçava um sorriso sem graça. — Não aconteceu nada, eu só fiquei cansada e precisei tomar um ar.
— Confesso que eu também já estou no meu limite por hoje. Vamos pra casa? — Retrucou, segurando a mão da amiga com carinho.
Exausta, apenas assentiu com a cabeça, permitindo-se aproveitar a brisa da noite enquanto caminhava, pensando em qual seria a punição que receberia ao encontrar-se com seu pai.
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