Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
56 Um teste
Notas iniciais
A brisa noturna jogou para trás os cabelos escarlate, o silêncio dominou e o ambiente parecia ter sido carregado de uma energia completamente pesada assim que o nome em questão escapara dos lábios secos de Pan. Ela nem ao menos sabia se estavam rachados pelo frio ou se perderam a umidade devido ao fato de estar completamente atordoada. Que diabos? O havia visto morrer, certo? Quer dizer, não necessariamente. Estava de olhos fechados no momento do disparo, contudo o sangue respingado em suas vestes aquele dia não deixava dúvida alguma.
— Boa noite, madame. — O suposto Vincenzo fez questão de cortar a quietude, beijando cortesmente sua mão enquanto despreocupadamente esboçava um sorrisinho ladino.
Sobressaltou com o susto e recuou um passo antes de voltar a analisá-lo. Evan continuou a dar-lhe forças ao segurar seus ombros, ciente de que não se encontrava mentalmente estável. Preocupava-se muito e gostaria de falar alguma coisa? Sim, mas tinha noção de que não possuía o direito de abrir o bico ali. A expressão dela transmitia isso muito bem. Era um problema de família e não existia espaço para intervenções forasteiras.
— Não... — titubeou, sussurrando à si mesma ao finalmente encaixar as peças no lugar. Algo estava diferente; não parecia o mesmo homem que conhecera. O sotaque italiano existia, contudo não era tão marcado como de costume, e o modo de cumprimentá-la também se distinguia da imagem em suas memórias. Uma luz se acendeu em sua mente, e então arqueou as sobrancelhas em surpresa ao levantar a cabeça novamente e fazer contato visual, afirmando convicta: — Você não é o Vincenzo.
— Esse é o Lorenzo, bambina. — Hans interveio, colocando-se entre o visitante e sua filha de maneira protetora após encará-lo insatisfeito. — Nós temos algumas pendências, então ele vai ficar aqui por um tempo. Ele e o Vincenzo são...
— Irmãos. — O sujeito interrompeu, completando a frase de seu chefe. — Pensei ter feito uma imitação convincente, mas aparentemente eu não consigo agir como aquele incompetente. — Sorriu, um tanto decepcionado por não ter a chance de seguir provocando-a ao fingir ser um cadáver ressurgido das cinzas.
A garota suspirou cansada e a tensão dos músculos se foi parcialmente. O maior problema de não se envolver com os negócios eram as surpresas como essa; odiava o fato de vez ou outra acabar esbarrando em algum indivíduo de aura perigosa que a fazia tremer por dentro. O irmão dele a havia sequestrado e ainda assim não a amedrontava tanto quanto a simples presença desse homem. Porque, ao contrário de Vincenzo, ele aparentava ser completamente irracional, incontrolável, e acima de tudo... não se importava em esconder o ódio inexplicável que nutria por ela.
— Ei, você vai ficar bem sozinha? Precisa que eu fique aqui do seu lado? — Evan questionou à sua acompanhante, recebendo como resposta um leve aperto em sua mão e um aceno afirmativo para demonstrar que não existiam problemas. — Certeza? Você parecia bem alterada quando viu esse cara. — Tentou se assegurar, vendo-a reafirmar novamente.
— Mesmo que minha filha aceitasse, acredito que seu tempo aqui já acabou. Não é educado importunar os outros tão tarde. — O anfitrião disse ríspido, lançando ao garoto um olhar fulminante e nada agradável.
— Mais cedo, alguém muito sábio me disse que se eu estou namorando alguém, essa é a única pessoa que eu devo agradar. E com todo o respeito, senhor... que eu saiba, minha namorada é sua filha, e não você, então se ela precisasse de mim eu continuaria aqui mesmo contra a sua vontade. — Retrucou sem pensar, impassível, sem tirar a atenção dela. Em qualquer outro dia normal ficaria acuado e não ousaria desacatá-lo, porém imaginá-la sozinha depois de esboçar um semblante daqueles não lhe dava opção senão a de se manter forte e apoiá-la. Decerto seus sentimentos fossem mais fortes do que jamais se dera conta, e sinceramente isso também era um tópico preocupante. — Boa noite, ruivinha. Eu volto amanhã pra te buscar. — Beijou-a levemente na bochecha como despedida e afastou-se um pouco antes de acrescentar: — Boa noite para vocês dois também, padrinho. — Terminou, saindo em direção à sua moto e dando-lhes privacidade para resolverem suas diferenças.
— Criança abusada. — Hans rosnou desgostoso, nada feliz com a atitude arrogante, embora o que mais o houvesse incomodado fora o sorrisinho nada sutil de seu visitante ao presenciá-lo penar com adolescentes. No entanto, não causaria uma cena. Não em frente à sua queridinha depois de tudo. Gostaria de amenizar as coisas, e não piorá-las, portanto o repreendeu discretamente com o olhar e abriu a porta da casa, sinalizando com a cabeça para que ela o seguisse. Definitivamente precisavam conversar. — Eu não mordo, bambina. — Alegou, percebendo-a hesitar. — Ainda sou o seu pai. O mesmo de sempre.
— É? Por que ultimamente eu sinto que nem te conheço mais. — O fitou receosa e logo voltou seu foco ao outro sujeito, ainda desconfortável com sua aparência tão semelhante à de alguém que morrera em sua frente. — Na verdade eu acho que nunca te conheci de verdade, papai. — Completou em um murmúrio frustrado. Queria ter a chance de um diálogo privado, contudo isso provavelmente não seria possível, e uma parte sua gritava para que tivesse cuidado com seu modo de agir enquanto possuíssem companhia. Diminuir sua autoridade poderia causar complicações.
— Prometo ser sincero. Você já é quase uma adulta, então vou te tratar como tal. — Determinou um tanto balançado. Aquelas palavras o davam um choque de realidade que nem sequer imaginava necessitar. Sim, sua protegida não era mais a mesma criança extrovertida com um sorriso eterno no rosto que tinha em suas memórias; ela era agora uma mulher quebrada em formação, e o poder de seguir ditando cada passo seu já não lhe pertencia mais. — Vamos?
Pan mudou de opinião e fez como ele desejava, adentrando seu escritório aonde sentou-se pacientemente para aguardar as explicações ao lado de Lorenzo. Seguia reclusa e nada satisfeita com as descobertas mais recentes; imaginar que seu amado pai havia assassinado brutalmente a mulher e o filho de um amigo tão próximo não lhe dava outra opção senão a de duvidar de seu caráter, que embora soubesse não ser dos melhores, costumava ser justo com os que lhe serviam. Acreditar cegamente nele àquela altura seria impossível, porém ainda o amava muito e não conseguia simplesmente ignorá-lo quando pedia por mais uma chance.
Quem a visse tão dramática poderia pensar que era só uma mimada sendo completamente irracional e fazendo tempestade em um copo d'água. Honestamente, não se poderia culpar os que a julgassem desse modo. Hans tinha um lado fraco por ela; tornava-se outra pessoa em sua presença, então isso realmente dava brecha para outras interpretações. Mas uma garota que teve sua liberdade roubada e continua sendo envolvida em situações perigosas sem poder aproveitar a adolescência com normalidade tem todo o direito de reclamar. Reclamar do berço em que nascera seria tolice, contudo a vida seria muito mais fácil se houvessem-na criado com sinceridade desde o início.
Como bons pais preocupados com sua filha, era aceitável que não quisessem envolvê-la profundamente em um negócio tão sujo. Liberdade excessiva nesse mundo poderia ser perigoso, contudo esqueceram de ponderar que a falta dela era ainda pior.
— Uísque, mocinha? — O visitante ofereceu, puxando três copos da bandeja acima da escrivaninha e colocando um deles em frente à menina. — Esse é dos caros. No seu lugar, eu aceitaria. — Acrescentou galante, apontando ao rótulo da garrafa.
Ela percebeu o sangue gelar repentinamente. Caramba, o homem estava louco em oferecer álcool à filha adolescente de seu chefe na frente dele? Encarou seu progenitor receosa, estranhando sua calmaria ao ver a cena. Embora fosse alguém de sua confiança, claramente deveria ficar irritado em situações assim. Ao menos era o esperado, não?
— Não me olhe com essa cara, bambina. — Estendeu um copo ao colega, sinalizando que lhe servisse uma dose. — É claro que nenhum pai dorme tranquilo ao descobrir que sua garotinha anda se embebedando por aí, mas você já chegou tantas vezes em casa fedendo a álcool que estranho seria se eu não percebesse. Sabia desde o início que o Diego seria uma péssima influência nesse quesito, porque... — deu um gole, descendo o conteúdo inteiro pela garganta de uma vez só e complementou: — assim como eu, ele também começou a beber aos treze anos.
— Proibiu a menina até de respirar a vida toda e não tem restrições quanto ao consumo de álcool antes da maioridade... — Lorenzo soou travesso, explicitando seu intuito de provocar o anfitrião. — Você tem uma visão de paternidade muito diferenciada, Hans. — Sorriu de canto, também degustando seu drinque.
— Não tente me ensinar a como cuidar da minha família. — Retrucou com rispidez, franzindo a testa.
— Tem certeza? Posso te dar algumas dicas. — Continuou a incitá-lo, empenhando-se em averiguar até aonde iria sua paciência. Achava divertido testar seus limites. — Você parece estar precisando.
— Eu sempre soube que você era descontrolado, mas não sabia que era um imbecil. — Rosnou friamente entre dentes, já ciente de suas intenções. Pretendia vê-lo perder o controle na presença de sua queridinha, quase como um teste, mas nunca cairia em algo tão mal planejado e superficial. — Respeite seu Don, Lorenzo. Isso é um aviso. — Sentenciou.
O sorrisinho maroto escapou de seus lábios, dando espaço à uma fisionomia gélida e sombria.
— Eu respeito meu Don, Hans. O homem por quem eu derrubei meu sangue enquanto via aquele santo queimando e jurava lealdade como se estivesse vendendo minha alma para o diabo. — Semicerrou os olhos e os fixou nele, levantando minimamente o queixo com arrogância. — Mas não sei se ele e esse "papai amoroso" são a mesma pessoa. Você amoleceu tanto que eu mal te reconheço. Qualquer um que te tratasse no passado da mesma forma que essa mocinha está fazendo agora... — agora voltou a atenção à ela — teria perdido no mínimo uma mão inteira.
Pan engoliu seco, fincando as unhas contra suas palmas. Não era a toa que se incomodava tanto com ele. Sua aura, seu comportamento, seu modo de agir e falar... parecia realmente um babaca descontrolado. Mas era o completo oposto disso. Metódico, impassível e sem compaixão alguma. Um narcisista de primeira que não importava-se com os meios desde que os fins lhe agradassem; e ela temia que voltasse a despertar esse lado em seu progenitor também.
— Eu nunca machucaria minha bambina. Não sou um animal. — Disse sereno, quase como se diretamente à ela, reafirmando o fato de ser sua prioridade sempre. Além disso, conhecia bem os joguinhos de seu capo e sua personalidade que gostava de brincar com a sorte, portanto não o permitiria vencer. — E ninguém usa esses métodos antigos hoje em dia. Chega de viver preso ao passado, Lorenzo. Nós somos homens de negócios, não bárbaros.
— Por que não diz isso para sua esposa, meu Don? — Esboçou um sorrisinho ladino, utilizando de uma entonação sarcástica na última parte de sua frase. Bateu os dedos impacientemente contra a mesa, uma, duas, três vezes, e então seu semblante modificou-se completamente; como alguém que havia acabado de ter uma ideia repentina. Retirou o revólver do cinto e apontou-o à jovem, colocando um dos braços ao redor de seu pescoço. — Inclusive... mande à ela meus cumprimentos. — Agora prontificou-se a fazer contato visual com sua refém, que apesar de minimamente trêmula, parecia menos amedrontada do que se deveria estar nesse tipo de ocasião, embora calada e nada contente. — O que foi? Um gato comeu sua língua? — Quis irritá-la; uma demonstração de poder que ela obviamente odiara com todas as forças.
A mudança súbita no comportamento de Lorenzo que antes agia tão cordialmente era surpreendente, embora nada incomum. Já estava acostumada com essa intensidade quanto aos homens de sua família, então o mais estranho em tudo isso era o silêncio atípico de Hans. Claro, uma pontada de descontentamento fora expressada bem sutilmente, porém nada fora dito naquele cômodo, e tudo o que se podia ouvir era a respiração pesada da garota amedrontada com a falta de interesse de seu protetor ao vê-la como refém. Esperava por uma bronca que apenas Don Stracci conseguia proferir com tanta frieza, mas no instante que não recebeu nem sequer uma única palavra, seu sangue gelou com a sensação de abandono; sentia como se houvesse sido largada nas mãos de um desconhecido louco à mercê da própria sorte. E ultimamente a Deusa da sorte não parecia estar ao seu lado.
Ficou quieta e recusou-se a respondê-lo. Não lhe daria o gostinho de ouvir sua voz trêmula, e muito menos de se deliciar com seu medo. Porque, sim, ele era apavorante, e honestamente tê-lo apontando uma arma para sua cabeça não servia para tranquilizá-la nem um pouco, mas não era a primeira vez que isso acontecia. Não tinha medo de armas, e sim dele. Apenas dele.
Não, na verdade não era bem isso. O medo vinha da indiferença do homem que sempre a protegera com unhas e dentes, inclusive de maneira excessiva. A sensação de abandono demonstrava ser mais temorosa do que Lorenzo em si enquanto ele a arrastava para fora da casa sem obter reação alguma do anfitrião.
Entrar no carro à força e vê-lo ameaçando o motorista para levá-los ao endereço indicado a fez se dar conta da situação como um todo; sua mãe sempre lhe dizia que traição era comum naquele meio, então a possibilidade dele ter virado as costas para a família ainda existia, embora quisesse muito acreditar que tudo não passava de uma brincadeira para assustá-la e que seu progenitor jamais a permitiria se machucar. Talvez um pensamento ingênuo depois de ter sido tão bruscamente decepcionada inúmeras vezes por ele com suas mentiras, mas não conseguia evitar. Apegar-se à esperança em momentos desesperadores era o que lhe mantinha sã na medida do possível.
— Quanta calmaria pra quem acabou de ser sequestrada. — A voz debochada ecoou pelo carro silencioso como um alarme, fazendo-a sobressaltar com o susto. Uma curva ladina formou-se nos lábios dele ao tê-la assustado. — Bom, você é filha do Hans e daquela mulher. Isso é o mínimo esperado, eu acho. — Encarou-a pelo canto dos olhos, empenhando-se em não desviar a atenção do motorista. Não existia empatia alguma em seu semblante, e não se importava com a garota ou seu bem-estar, já que se ela acabasse por amadurecer, talvez chegasse a ser uma rival em sua jornada para conseguir o título de Don no futuro.
— Calma? — Riu; uma risada nervosa, abertamente preocupada que esbanjava seus temores mais profundos. — Na verdade eu tenho muito medo, só não de você. Sinto muito, mas você não foi o primeiro a me sequestrar, e também não vai ser o último. — Aqui o desafiou sutilmente, apertando a mão entre as pernas, escondendo o quanto estavam trêmulas. No fundo, sabia que era perigoso, portanto jogar lenha no fogo não parecia prudente. — Ou então eu preciso ter medo aqui com você? — Quis confirmar suas intenções, ousando perguntá-las abertamente. Não custava tentar a sorte.
— Não vou te machucar, se é isso que quer saber. — Soou sério, ajeitando a postura ao finalmente decidir guardar o revólver no coldre. A quietude se interrompeu com um suspiro aliviado vindo do banco da frente, atestando a felicidade do motorista ao realizar que não teria sua vida tomada. — Não sou seu inimigo. — Pigarreou cruzando os braços. — Ainda. — Completou em um sussurro.
"Ainda."
A forma que tão insipidamente dissera tal palavra causara arrepios à garota. Por que ainda não eram inimigos? Tinha intenções de machucá-la, então? Ou pior, de machucar as pessoas ao seu redor? Seus amigos do colégio estavam agora envolvidos na sua vida, portanto algo a dizia para manter ambos os olhos bem abertos perto dele. Estava longe de ser confiável, e acima de tudo, não escondia o quanto a odiava. Seu olhar cheio de segundas intenções falava por si; não existia empatia alguma ali, mas sim uma pontada de desprezo que se fazia presente todas as vezes que a fitava. Seria possível que guardasse algum remorso contra seu pai também, assim como o irmão? Não. Não era isso. O rancor era puramente contra sua pessoa, e ela não fazia ideia do motivo. Até algumas horas atrás nunca o havia visto em sua frente, que diabos ele poderia tanto repudiar em sua existência a ponto de ter dificuldades em esconder o desgosto em sua presença?
— Se queria só conversar comigo não precisava desse teatro todo com a arma lá no escritório. Era só me pedir. — Seguiu o pressionando. Por um lado tinha medo das consequências por passar dos limites, porém ainda queria descobrir suas verdadeiras intenções.
— Sabe por que o Hans me mandou para Nova Iorque? — Questionou, percebendo-a negar com a cabeça ao observá-la sutilmente através do retrovisor interno do veículo. Bom, não se envolvia nos negócios e muito menos sabia de sua existência, portanto era o esperado. — Porque apesar de confiar muito em mim, ele me acha incontrolável. — Respirou fundo, quase como se estivesse dando de ombros para si mesmo internamente. O assunto aparentava ser um tópico sensível. — Não espero que alguém como você entenda, princesinha, mas pessoas que estão acostumadas a conseguir tudo na base da força acabam se esquecendo de como pedir. Eu desaprendi aos oito anos. — Completou hesitante; a entonação havia diminuído o volume. Estava perdido nos próprios devaneios à medida que falava.
Queria muito aprofundar-se naquilo, e decerto acabar esclarecendo o motivo de odiá-la, mas se conteve. Considerava-se sem direito algum de se meter no passado dele.
— Então... — limpou a garganta, pressionando os punhos fechados contra as coxas antes de mudar o assunto: — o papai matou mesmo o filho do Vincenzo? — Arriscou inquirir. Se obtivesse as respostas que tanto buscava, já seria um lucro e tanto. Caso contrário, ao menos dormiria com a consciência tranquila de ter sido corajosa para perguntar-lhe.
Mal tinha ideia do que estava fazendo. Não deveria ser normal conversar tão casualmente com um homem que a sequestrara, porém, honestamente? Àquela altura, depois de tantas coisas sem explicação alguma ocorrendo uma após a outra, não dava a mínima. Fazer besteiras como se não significassem nada era uma de suas especialidades, afinal.
— Eu até poderia te contar, mocinha, mas não teria graça nenhuma, teria? — Sorriu de canto, abrindo a porta e descendo ao averiguar a chegada no destino. À medida que dava a volta no carro, dedilhava contra a lataria, causando um som desagradável e de certa forma assustador. — Vai ficar parada aí como um gatinho amedrontado ou vai sair logo? — Disse ao colocar-se de frente para a jovem, puxando a maçaneta como um cavalheiro. Ainda assim ela incomodou-se com a atitude; sua entonação autoritária demonstrava nas entrelinhas uma ordem para segui-lo sem pestanejar.
O local era um casebre abandonado, daquele tipo tão forçadamente amedrontador que parecia ter saído diretamente de um cenário forjado de filme de terror barato. Chegava a ser clichê. A atmosfera também não era lá essas coisas, e descer estava longe de uma opção segura ou sequer plausível, embora Pan fosse curiosa a ponto de fazê-lo. Encontrava-se em uma rua sem saída, oras; caso não obedecesse as ordens de Lorenzo, ele a mataria ali mesmo se tivesse vontade, certo? Apesar do teatro feito em sua casa, não dava a impressão de ser o tipo de pessoa que organizaria tudo isso apenas para tirar-lhe a vida. Existia algum motivo oculto para tê-la levado ali, e que opção tinha se não descobri-lo?
No entanto, titubeou. Não conseguia deixar de pensar no "ainda" que ouvira mais cedo. Até quando ele seria válido? Decerto sua validade já havia expirado no instante que estacionaram o carro, e agora eram inimigos? Quanto tempo seria "ainda"? Alguns minutos, horas, meses, ou então anos? Aquela sensação de insegurança causava-lhe arrepios.
Mesmo assim, engoliu as hesitações e o acompanhou calada, passo a passo. Além do ambiente, o som de seus sapatos sociais esfarelando as folhas secas sob os pés demonstrava-se incômodo; tudo parecia estar se direcionando para um final previsível de filme trágico, embora fosse impossível recuar. Vê-lo colocar a mão na maçaneta a fez prender o fôlego até que finalmente o som do ranger da porta deixasse de ecoar quando aberta por completo. A calmaria do interior aumentava a tensão, contudo suas pernas vacilaram quando o seguiu ao lado de dentro e deparou-se com dois homens amordaçados, amarrados em cadeiras pesadas como animais selvagens. Fora inevitável reparar nos hematomas profundos em suas peles, nem um pouco agradáveis de se observar, no entanto seu interior congelara apenas no segundo que se obrigou a averiguar suas faces. Não eram desconhecidos, e sim rostos que implorava todos os dias para não ser obrigada a ver novamente.
— Esses dois... — A voz dela falhou no caminho enquanto um calor cheio de raiva subia de seus pés até a cabeça. Se ela pensava não existir maneira de piorar toda aquela situação, Lorenzo estava de parabéns por ter conseguido. Seu estômago revirou no segundo que o contato visual com as vítimas fora quebrado e o cheiro podre de sangue velho invadira suas narinas. Eles pareciam estar ali há dias, com cortes profundos abertos infeccionando gradativamente, sem pressa alguma.
— Ah, sim, eles costumavam trabalhar para o meu irmão, mas... — observou-a cautelosamente, voltando sua atenção aos rapazes e fazendo questão de pegar bruscamente o queixo de um deles para obrigá-lo a olhar em sua direção — pela sua cara vocês já se conhecem. Ótimo, vamos pular as formalidades e apresentações.
— Por que me trouxe aqui? — Murmurou, empenhando-se em conter a azia com o odor desagradável pairando no ar.
— Você queria respostas, não é, princesinha? — Avizinhou-se dela em uma caminhada lenta, obrigando-a a recuar desconfiada. Curvou os lábios diabolicamente e retirou do bolso um alicate afiado para entregar-lhe em mãos. — Então pare de depender do seu pai até para respirar e consiga cada uma delas sozinha. — Completou ríspido, retirando os panos enfiados nas bocas das vítimas.
Um deles aproveitou a deixa pra cuspir em seus sapatos, mas obviamente Lorenzo não apreciara o gesto. Agarrou-o no pescoço e o apertou até que ficasse sem ar por um tempo. Insuficiente para matá-lo, embora a agonia fosse tamanha. Rumorejou algo próximo ao ouvido do refém e deu-lhe um forte tapa no rosto, fazendo-o grunhir de dor e cuspir sangue vazado do corte formado em seus lábios com o golpe.
— Não. — Pan arqueou as sobrancelhas em desgosto, devolvendo-lhe o objeto para demonstrar que não faria parte daquilo.
— Você odeia esses dois, consigo ver nos seus olhos. — Incentivou-a novamente, esboçando um semblante desafiador.
Ela enxergava perfeitamente através de seus joguinhos, e não tinha intenção alguma de entrar neles. Os odiava? Sim, custava-lhe admitir, porém sim, os odiava muito. Tanto que chegara a considerar torturá-los realmente. Como não guardaria rancores do sujeito responsável pelo acidente em sua infância que fizera seu pai trancafiá-la por toda a vida e do outro que a maltratara sem piedade todas as vezes que a alimentava enquanto presa no esconderijo de Vincenzo? Mal conseguia esconder a repudia expressada ao encará-los, mas não permitiria que Lorenzo a controlasse.
— É verdade que eu não gosto deles, mas isso não significa que eu goste de você. — Argumentou incerta, ainda incomodada com a possibilidade de ser atacada por ele caso não relevasse suas atitudes desrespeitosas. Só que naquele ponto nada mais importava. — Eu vou conseguir as respostas sozinha sim, mas não do seu jeito.
Rosnou insatisfeito e encurtou rapidamente a distância entre ele e a garota. Não estava acostumado a ser desobedecido, então em um impulso rápido agarrou-a pela bochecha e fitou-a impassivelmente, aguardando por algum tipo de reação. Recordou-se então de que aquela era a filha de seu Don e tocá-la estava fora dos limites, portanto se contentou em soltá-la e respirar fundo antes de fazer alguma besteira.
— O Hans estava certo. — Disse seco, recolhendo o item de metal e afastando-se dela para seguir seu trabalho com os indivíduos amarrados. — Não preciso me preocupar. Você é fraca. — Suspirou decepcionado, ainda sem acreditar que alguém tão considerada "sem sal" pudesse ser filha das duas pessoas mais perigosas que já havia conhecido. Bom, ao menos era um obstáculo a menos em seu caminho para o posto de chefe da família quando o amigo se aposentasse.
— Eu posso ser fraca, mas pelo menos não me escondo atrás de desculpas e passado triste pra usar a violência como resposta pra tudo.
Na verdade, a menina possuía sim alguns traços dos genitores. A falta de noção do perigo ao falar tão despreocupadamente com alguém que a havia sequestrado era definitivamente uma qualidade de Alice. Lorenzo reconhecia isso, e imaginava ser possível que se tornasse uma cretina desalmada com um simples empurrãozinho; só precisava de um gatilho que a fizesse enlouquecer de vez.
— A violência é a resposta para tudo. — Afirmou convicto, abrindo um sorrisinho intimidador.
Vidrada nos próprios devaneios, surpreendeu-se ao ouvir um grito intenso ecoar no recinto. Buscou a fonte do som com os olhos e acabou deparando-se com as mãos ensanguentadas de Lorenzo. Prontamente arremessou algo em sua direção e ela involuntariamente esticou o corpo para pegar.
Era um dedo humano decepado.
Seu estômago revirou-se ao segurá-lo. O soltou instantaneamente no segundo que começara a amaldiçoar os cachorros-quentes ingeridos mais cedo, porque eles agora haviam saído de seu interior para tocar o soalho em forma líquida.
Talvez fosse sua falta de costume com esse tipo de coisa, ou talvez fosse simplesmente o fato de não ser uma situação nada agradável de se presenciar, contudo as náuseas não pareciam querer cessar tão cedo. Sua cabeça começara a latejar; a visão tornara-se turva com o choro e a tontura que lhe enfraquecia. Seria outro ataque de pânico? Só sabia que precisava urgentemente de ar fresco, logo esforçou-se para chegar até a porta e sair logo dali. Ficar sozinha em uma rodovia escura no meio da madrugada não parecia uma decisão prudente, mas em comparação com continuar ao lado de Lorenzo, o problema parecia minúsculo em comparação. Definitivamente não gostava daquele desgraçado.
Um arrepio percorrera por todos os pelos de seu corpo enquanto tentava retomar a respiração e os batimentos compassados, abaixando-se no gramado alto e colocando a mão no peito como se quisesse amenizar o susto. Ao ouvir o som de passos se aproximando, instantaneamente posicionou de maneira defensiva a cabeça entre os joelhos e envolveu-a com as mãos.
— Bambina? — A voz de seu pai soou preocupada e dócil, como a melhor melodia do mundo, expulsando parte de seus medos e obrigando-a a levantar-se para abraçá-lo com força, permitindo-se desabar em lágrimas ali. Fitou-a com estranheza e percebeu o sangue em suas mãos, franzindo o cenho com raiva. — Aquele desgraçado te machucou? — Cerrou os punhos, envolvendo-a em seus braços na intenção de dar-lhe algum conforto.
Não obteve resposta alguma senão alguns soluços desesperados e poucas palavras balbuciadas em meio ao choro que tornaram-se incompreensíveis. Hans confiava no sujeito que a trouxera até ali, mas também o conhecia muito bem para saber que não tinha empatia alguma e era incontrolável. Havia concordado que testasse sua filha para assegurar-lhe de que não precisaria se preocupar com o envolvimento dela nos negócios, mas ao vê-la tão vulnerável outra vez o fizera arrepender-se de sua decisão. Simplesmente beijou-a nos cabelos e a acompanhou até o carro para levá-la para casa, em um trajeto silencioso aonde as coisas pareciam ainda piores entre eles.
Ao chegar em seu quarto, Pan afundou o rosto no travesseiro, aonde sua imaginação se perdeu na imagem de Hector. Aquilo a deu um aperto imensurável no peito, fazendo-a saltar um mínimo entre os lençóis, quase como se quisesse conter a dor. Se ainda estivesse ao seu lado, a ajudaria com tudo isso e a apoiaria mesmo que significasse ir contra Hans. O fato de ele não fazer mais parte de sua vida era um balde de água fria, trazendo-lhe um vazio inexplicável. Claro, tinha gratidão pelos amigos e família, mas nenhum deles possuía a capacidade de preencher o buraco deixado em seu coração pela falta da presença dele. Sentia-se completamente sozinha e desamparada.
Quer dizer, sempre fora ridiculamente protegida de qualquer coisa e agora estava sendo repentinamente introduzida ao mundo do crime do jeito mais brusco possível? Não dava para entender como funcionava a mente de seu protetor, sinceramente.
— Nós dois precisamos conversar. — Hans comentou autoritário do outro lado da porta, adentrando o cômodo após bater duas vezes. Claramente sua filha virou-se para a janela e recusou-se a encará-lo corretamente, arrancando-lhe um suspiro. Bom, nada além do esperado. Tinha ciência de seus erros.
— Eu não entendo o que você quer de mim, papai. Uma hora você me proíbe até de respirar, e na outra deixa seu amigo me levar pra assistir uma sessão de tortura. Não consigo te entender, de verdade. — Alegou manhosa, abraçando uma das almofadas ainda sem mirá-lo.
— O Lorenzo me pediu para te testar. Como eu não tenho um filho homem e você não me parece interessada nos negócios, ele é uma das pessoas na fila para tomar meu título quando eu me aposentar. — Sentou-se na beirada da cama, colocando carinhosamente uma das mãos nos pés da garota. — Existe uma preocupação sobre você mudar de ideia sobre isso agora que está amadurecendo, então ele queria ter certeza de que você não fosse uma ameaça. — Pigarreou, respirando fundo ao acrescentar: — Nós conversamos sobre um possível reencontro seu com o garoto e, bom... eu vi esse pedido do Lorenzo como uma oportunidade para te mostrar as coisas que você precisaria lidar caso o quisesse como seu parceiro. Pode não ter sido a melhor experiência, e eu sinto muito por isso minha bambina, mas a realidade é ainda pior.
— Isso tudo foi pra eu desistir do Hec, que você fez questão de expulsar mesmo sabendo que era importante pra mim? — Arrumou a postura com rapidez, prontificando-se a fazer contato visual direto, exprimindo sua angústia ao acrescentar: — Foi um golpe bem sujo, papai. Até pra alguém como você.
Por um milésimo de segundo, Hans demonstrou um sorrisinho nostálgico, porém foi logo tomado por uma tristeza profunda que transpareceu sem dificuldade em sua voz:
— Você realmente se parece muito com sua mãe. Há muito tempo atrás nós discutimos e ela me disse algo parecido. — Grunhiu cansado, perdendo-se nas próprias memórias da época fácil e solitária de sua vida. — Mas é exatamente o contrário. Não quero que desista dele, se é isso que te faz feliz, mas sim te preparar para as coisas que vai viver se realmente optar por seguir esse caminho. "Alguém como eu" também é humano e comete erros. Ultimamente ando cometendo vários e falhando muito com você, por isso gostaria que me perdoasse. Mesmo para mim é difícil lidar com isso.
— Lidar com o quê? — Indagou curiosa, sentando-se ao lado dele.
— Com a minha garotinha crescendo e se afastando aos poucos. — Murmurou melancólico, aceitando a realidade de que ela não era mais uma criança.
Pan engoliu seco; sua expressão carrancuda e pronta para brigar amaciou-se instantaneamente ao encostar a cabeça no ombro do pai e segurar ternamente seu braço.
— É estranho você falar de eu me afastar quando você fez questão de ficar longe de mim a vida toda.
O Don assentiu, soltando uma risadinha abafada ao achar graça da ironia criada por si mesmo.
— Eu sei. Perdi tantas coisas da sua vida que sinto não merecer fazer parte dela agora, mas gostaria muito de tentar se me permitir. — Apoiou a própria cabeça acima da dela, se autorizando a relaxar por um instante. Ultimamente era como se nunca tivesse tempo para descansar; as olheiras bem marcadas comprovavam isso, então fazia-lhe bem poder ficar vulnerável ao menos por alguns segundos. — E quando estiver pronta, posso te ensinar a fazer parte da minha. — Apontou para o revólver em seu bolso, sinalizando que lhe ensinaria a usá-lo se necessário.
— Eu não queria, mas acho que não vai ter jeito, né? — Rumorejou frustrada, apesar de minimamente animada bem lá no fundo. Matar alguém ainda estava fora dos limites, claro, porém ser capaz de se defender sozinha diminuiria boa parte dos problemas causados por sua ingenuidade. Parecia promissor. — É verdade aquilo da carta do Vincenzo? Você matou a namorada e o filho dele? — Arriscou perguntar. Encontravam-se em um momento bonito entre pai e filha, e nesse caso valia a tentativa.
— Sim, é verdade. — Admitiu ríspido. Esconder a realidade dela só traria um ciclo interminável de mentiras furadas, portanto que tudo fosse esclarecido logo. Ela merecia sinceridade ao menos uma vez na vida; havia lhe prometido isso, afinal. — A Martina apenas pagou pelas próprias escolhas, mas a criança não merecia o destino que teve.
— Então por quê?
— Bambina, você precisa entender que antigamente eu não era o mesmo homem de hoje. — Seu timbre transbordava arrependimento por um passado cheio de pecados irreparáveis. O ódio pelo antigo Don influenciara muito na sua personalidade, e isso era um peso em seus ombros do qual jamais se livraria. — Cometi erros graves até chegar aqui, e isso me custou muito alto. A vida do menino foi incluída nesse preço. Não tem uma noite sequer que eu não sonhe com o olhar apavorado dele ajoelhado na minha frente esperando para morrer e com os gritos do Vincenzo me implorando por misericórdia, mas foi uma escolha que eu, como um Don, precisei fazer. Algum dia, se você realmente optar por entrar nesse meio, também vai acabar se deparando com uma escolha que requer um sacrifício, e isso vai te atormentar pelo resto da sua vida. — Entrelaçou os dedos nos dela e beijou-lhe o topo da mão. — Só espero que, até lá, você esteja preparada e não sofra muito.
— Não tinha outro jeito? Ele era só uma criança... — comentou trêmula, embriagada de tristeza, retribuindo o afago do pai.
— Você também era.
— Espera... — recuou com os olhos arregalados, fitando-o aturdida — era ele ou eu?
Hans assentiu.
— Ele, você ou uma guerra. E talvez eu me arrependa por não ter lutado pelo meu irmão de outra mãe, mas como um Don priorizei várias vidas ao invés de uma única. — Engoliu seco, friamente acrescentando sem hesitar: — A história seria outra se a única opção fosse entregar a sua vida, no entanto. Tento ser justo como o chefe da famiglia, mas é inevitável ser egoísta quando o assunto é minha filha.
Pan ficou em silêncio. Não sabia como respondê-lo, e nem se existia uma resposta realmente correta para opções tão cruéis. Independente da escolha, vidas seriam perdidas.
Por sorte não fora obrigada a abrir a boca. Antes mesmo de ter a chance, o soar de um telefone ecoou pelo cômodo, cortando o clima tenso e dando-lhe brecha para respirar tranquila. Hans levantou-se para retirar o aparelho de seu bolso e ela instantaneamente o reconheceu.
— É meu celular? — Disse surpresa ao vê-lo com ele.
— O Diego encontrou no chão do escritório do Sandro. — Entregou-lhe o objeto, arqueando uma das sobrancelhas ao perceber que a ligação vinha de um número restrito. — Me interessaria muito descobrir o remetente das mensagens que sabiam exatamente aonde estavam os documentos relacionados ao caso do Vincenzo. — Exprimiu pretensioso. Tinha prometido não invadir sua privacidade, e sendo assim, estava fora de questão atender a chamada sem permissão.
O toque cessou. As mãos dela suaram frio à medida que ponderava lhe contar sobre seu encontro com Luca. Era o filho de Vincenzo, e aparentemente todos de sua família estavam convictos de que a existência dele poderia ser uma ameaça. Seria a honestidade uma opção nesse caso?
— Não sei ao certo, mas pode ser... — começou a retirar a capa de proteção do telefone, ponderando mostrar o papel entregue pelo rapaz, entretanto titubeou ao repensar as possibilidades, com medo do que pudesse acontecer com ele caso fosse encontrado por seu genitor. Apesar de tudo, ainda era considerado um inimigo, e tinha noção do destino dado aos inimigos de sua família.
— Pode ser? — Franziu o cenho, aguardando uma continuidade. Estranhava a pausa tão repentina e longa.
— Alguém que queira te fazer mal. — Completou, forçando uma expressão limpa que não levantasse suspeitas e afastando o bilhete escondido. — Era um número privado, não tem como saber.
— O mesmo que te ligou agora, imagino.
— Agora deve ter sido o Evan. — Disfarçou com frieza, tão perfeitamente que poderia enganar até a si mesma. — Ele é famoso, então usa um número assim às vezes.
— Você pode ligar para ele, então? Só por garantia.
— Não vou falar com meu namorado na sua frente, papai. — Inventou uma desculpa rapidamente. Caramba, estava orgulhosa por ter aperfeiçoado sua arte de mentir.
Hans ficara desconfiado, porém era uma desculpa plausível para uma adolescente. Decidiu não insistir, ao menos por enquanto. Deu de ombros e despediu-se com um seco "boa noite" antes de sair em direção ao seu quarto e deixá-la em paz. Ao vê-lo se retirar, ela respirou profundamente e acomodou-se em meio aos travesseiros, relaxada na medida do possível. Infelizmente, tranquilidade estava longe de ser uma opção. No segundo que fechara os olhos, a cena daquele dedo ensanguentado viera à sua mente, causando-lhe calafrios, obrigando-a a buscar por seu celular na tentativa de distrair a imaginação até adormecer.
Navegando despretensiosamente pelas redes sociais, fora repentinamente interrompida pelo toque de seu telefone novamente. Sua primeira reação foi a de olhar para o relógio e perceber o quanto estava tarde; em breve o sol nasceria, diabos, então quem poderia estar ligando? Ainda por cima era outro número privado, o que tornava tudo ainda mais suspeito. Engoliu seco e pressionou a tecla verde para atender a chamada, aguardando identificação da pessoa do outro lado da linha.
— Boa noite. — A voz masculina e o sotaque italiano não lhe pareciam estranhos, embora tampouco se lembrasse do dono.
— Quem é? — Indagou defensiva.
— Não vou ganhar nem um boa noite? Quanta frieza. — Riu, causando um breve chiado na ligação.
— Boa noite. Quem é? — Insistiu.
— Seu amigo da festa. Não se lembra? Meu nome é Luca. — Uma breve pausa fora feita, antes de ouvi-lo pigarrear e acrescentar: — Luca Caccini.
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