Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
8 Um dia de detenção?
Notas iniciais
A noite não foi tão tranquila para Pan, que somando a preocupação por seu pai e toda a ansiedade dentro de si, não conseguiu dormir como deveria, e pela manhã, acabou ficando sonolenta durante as aulas, debruçando sobre a mesa para cochilar.
— Pan, acorda. — Sarah a cutucou, tentando despertá-la para livrar-lhe de futuros problemas com o professor.
— Mais cinco minutinhos. — Resmungou, virando a cabeça para que não fosse incomodada novamente.
— Você terá muito mais do que cinco minutinhos para refletir sobre isso na detenção, senhorita Stracci. — O professor interveio, utilizando um papel enrolado para dar uma leve batida na cabeça de sua aluna adormecida.
Dada por vencida, ela acatou a "sugestão" do professor de ir até o toalete para lavar o rosto, caminhando em passos lentos pelo corredor. Bocejar era inevitável, e ela estava certa de que não conseguiria permanecer atenta às aulas, portanto decidiu adentrar a biblioteca e esconder-se em meio às estantes para dormir, utilizando de sua bolsa como travesseiro. A brisa e o sol que entravam pelas janelas do local eram muito agradáveis, então não demorou muito para que ela se desligasse completamente.
— Ela está bem? — Chris cochichou, tentando não acordá-la.
Hector acenou afirmativamente com a cabeça. Assim que percebeu que ela não voltaria para a sala, saiu para procurá-la e passou as últimas duas horas ao seu lado para que pudesse descansar tranquila. Sarah, como uma boa aluna, esperou até o fim das aulas para juntar-se à eles.
— Já que está aqui, me faça um favor. — Hector requisitou à Chris. — Coloque o meu nome na lista de detenção dessa tarde.
— Detenção? Sério? Isso é um saco, cara, você tem certeza? — Indagou surpreso, ainda em tom baixo para que não atrapalhasse os alunos ao redor. — Eu até posso te colocar, mas...
— Ótimo, então faça isso. — Completou, ignorando completamente a pergunta de Chris, que compreendeu o recado e afastou-se.
— Você não pediu para ele colocar o meu nome também? — Sarah o questionou, sentando-se ao seu lado.
— Que eu saiba o meu trabalho é acompanhá-la, e não transformar a sala de detenção em uma confraternização entre amigas.
— Confesse que está apenas buscando uma oportunidade para ficar sozinho com ela. — Provocou.
— Devo perder o meu tempo para argumentar? — Suspirou desapontado.
— Só se conseguir me convencer do contrário.
— O que estão fazendo aqui? — Pan indagou enquanto se espreguiçava, esticando os braços e as pernas ainda deitada no chão, surpresa por tê-los encontrado ali. — Mesmo depois de tantos anos morando juntos vocês brigam o tempo todo, né? — Riu, sentando-se entre os dois.
— Sua detenção começa em dez minutos. — Hector afastou-se, levantando-se para acompanhá-la até a sala.
Ciente de que o pedido de Hector à Chris era apenas uma desculpa para livrar-se do garoto que o incomodava com sua felicidade excessiva pela manhã, Sarah os acompanhou sem importar-se sobre o seu nome na lista. O professor responsável pela detenção provavelmente não se incomodaria em checá-los um por um, e ela não tinha vontade alguma de aguardar sozinha nos corredores.
— "Confraternização entre amigas", é? — Pan sussurrou, provocando-o com um leve toque em seu ombro.
— Você ouviu?
— Esse tipo de coisa fica muito engraçada quando é você que fala. — Debochou, sentando-se ao lado de Sarah.
Hector contentou-se em apenas suspirar e segui-la, abancando-se na mesa ao lado. O olhar mortífero direcionado ao professor que veio recolher seu celular fez as garotas rirem, principalmente após vê-lo tão sério e deslocado no ambiente. Os outros alunos também pareciam achar graça da situação, e por fim, ele acabou não precisando entregar o aparelho, após afugentar o homem com o rabo entre as pernas. Poderia parecer um exagero para aqueles ao seu redor, porém com o trabalho que tem, ele jamais deveria correr o risco de permitir que alguém obtivesse as informações contidas em seu telefone.
Entediada e chateada por não poder conversar com as pessoas ao seu redor, Pan decidiu observar o que estavam fazendo. De um lado, Sarah parecia tão imersa e entretida com sua leitura que ela decidiu não incomodá-la. Ao olhar para o outro lado após debruçar sobre a mesa, deparou-se com Evan, o garoto que a havia expulsado de seu lugar no primeiro dia de aula, com a mesma expressão de poucos amigos de sempre. Quando seus olhares se cruzaram, Pan acenou em sua direção, porém ele apenas desviou o olhar para ignorá-la. Chateada, ela suspirou e decidiu cochilar, acordando apenas ao sentir uma urgente vontade de ir ao banheiro.
— Preciso ir ao banheiro! — Exclamou, levantando-se rapidamente em direção à porta, sem nem ao menos aguardar uma resposta de seu professor, embora ele também não parecesse se importar muito.
Aliviada, espreguiçou o corpo antes de lavar as mãos, já cansada de ficar por tanto tempo naquela mesa desconfortável. Quando estava voltando para a sala, ouviu um alto estrondo seguido de uma conversa nada amigável. Em passos lentos, aproximou-se do local de onde vinha o ruído, observando uma garota encolhida entre os armários enquanto era intimidada por um garoto muito mais alto e de físico avantajado.
— Eu já disse que acabou, Ethan. É melhor parar de me seguir por aí antes que eu chame a polícia. — A garota tremia, tentando manter a coragem para afastá-lo.
— Sou eu quem digo quando acabou, Kate. Até lá, você ainda é minha. — Ele retrucou, batendo nos armários com força. Tentou aproximar-se da garota, segurando o seu queixo para forçar um beijo, porém ela se esgueirava enquanto tentava fugir. Os outros estudantes não pareciam ter vontade de ajudá-la.
— É melhor você sair daqui, moço. — Pan aproximou-se, enfiando-se entre os dois para afastá-lo da garota.
Kate escondeu-se atrás de suas costas, apoiando as mãos em seus ombros. "Ele é agressivo, nós deveríamos fugir", sussurrou, porém Pan já não sabia o que fazer ou como sair dali. O hálito do garoto fedia à álcool, não tornando nada agradável permanecer ao seu redor. Ele parecia completamente alterado.
— Você também quer um pouco, é? Está com ciúme? — Zombou, acariciando as bochechas de Pan, que recuou após afastar bruscamente suas mãos.
— Você está bêbado, é melhor voltar para casa.
Ethan parecia furioso com aquela recepção que, para ele, não era nada calorosa. Cerrou o punho e direcionou-o para Pan, que fechou os olhos para protegê-los ao ser atingida, encolhendo os ombros em um instinto defensivo.
— Se você tem o mínimo de amor à vida, não deveria ser aproximar dela. — Hector interveio, segurando o pulso de Ethan e jogando-o para trás, observando-o cair pateticamente. Após encará-lo com desdém, ele recuou amedrontado, mesmo que à contragosto.
— Nos vemos depois, meu amor. Isso não vai ficar assim. — Provocou Kate, assoprando um beijo em sua direção antes de sumir.
Ainda amedrontada e encolhida atrás de Pan, desabafou com ela, dizendo-lhe que já estava sendo perseguida há alguns dias por não tê-lo aceitado como seu namorado após terem um caso. Ele parecia não ter aceitado bem a ideia de ter levado um fora, e desde então, a persegue todos os dias, até mesmo fora do colégio.
— Nunca tentou contatar as autoridades? — Hector indagou desinteressado.
— Não há nada que possam fazer. As agressões são apenas verbais, e eu não tenho provas das perseguições diárias. — Kate choramingava, soluçando em meio às palavras. — Eu já não aguento mais.
— E os seus pais? — Pan a questionou, recebendo um aceno negativo em resposta.
— Eu moro sozinha. — Respondeu cabisbaixa.
Pan até mesmo pensou em pedir um favor à Hector, porém logo desistiu de sua ideia, imaginando o que poderia acontecer com Ethan. Embora fosse um delinquente, ela não tinha vontade alguma de retirar a vida de alguém.
— O que vocês estão aprontando, seus arruaceiros? — O responsável pela detenção intrometeu-se, já impaciente com a demora de todos, pensando que poderiam estar fugindo de suas obrigações.
— Nós já estávamos voltando. – Pan retrucou, segurando a mão de Kate para não deixá-la sozinha. — Se importa em nos acompanhar nessa por mais alguns minutos? — Sussurrou. Insegura e sem vontade de ficar sozinha por medo de que Ethan pudesse voltar, ela não se importou em acompanhá-los até a detenção.
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