Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
18 Quando nos conhecemos
Notas iniciais
Aquela noite fria trazia consigo um tipo único de solidão, de melancolia. Talvez fossem as emoções bagunçadas, ou até mesmo o fato de desapegar-se de algo que não lhe pertencia, porém Hector estranhava aquela sensação tão familiar que normalmente lhe trazia conforto.
— Você deveria entrar. — Murmurou, levantando-se após retirar a poeira de suas vestes. — Nós não somos tão próximos para passar tanto tempo juntos.
— Você sempre fala isso, mas nunca nega a minha companhia. — Sarah o acompanhou, demonstrando um sorriso cansado. — Talvez o fato de dividirmos um sentimento especial por ela nos torne mais próximos do que imagina.
— Apesar do sobrenome, você é parte da família. Não conseguiria ser indiferente depois de nos conhecermos por tantos anos. — Retrucou, enquanto caminhavam para dentro. — Pode ir na frente. — Ofereceu.
— E você?
— Preciso trabalhar. — Hector buscou por suas luvas na mesa da entrada principal, antes de colocar os pés para fora novamente.
— Eu vou perguntar mais uma vez, apesar de já saber a resposta. — Ela chamou-lhe a atenção, fazendo-o olhar para trás outra vez. — Tem certeza disso? — Indagou, referindo-se ao fato de estar desistindo de seus sentimentos que cultivara por tantos anos.
Hector se permitiu demonstrar um sorriso fraco, como um sinal de bandeira branca. Já estava conformado com o fato de que não eram compatíveis, e em sua concepção, jamais seria merecedor do afeto de Pan. Ele sabia que não conseguiria se desapegar tão facilmente, porém afastar-se da pessoa em questão o ajudaria a superar com maior velocidade.
— Ela ficaria melhor com alguém como você. — Admitiu.
— Meus pais nunca aprovariam algo assim. Sabe como minha família é. — Ela hesitou por um momento, recordando-se de sua família biológica. Todas as vezes que sua memória fazia questão de pregar-lhe peças ao colocar imagens deles em sua cabeça, sentia-se sufocada. — Eu não sou a melhor opção também.
— Se é pra falar de família... — Ironizou, fazendo apologia ao trabalho que exercia ao lado dos familiares de Pan.
— Realmente... — Ela sorriu.
— O que estão fazendo na porta? Tá muito frio, vem pra dentro! — Pan os interrompeu, entrelaçando seus braços entre eles para arrastá-los consigo.
— Eu preciso trabalhar. — Hector respondeu seco, afastando-se com rapidez.
— Você tava tão legal até agora pouco, não sei como consegue mudar tão rápido. — Pan reclamou, fazendo biquinho. — Seu trabalho é melhor do que passar um tempo comigo? — Perguntou esperançosa, embora soubesse que, provavelmente, receberia outra resposta insensível.
Era tão difícil se conter ao ouvi-la dizer coisas assim. Ele sabia que não era proposital, que ela não tinha noção alguma de seu afeto incondicional cultivado por anos e trancado às sete chaves, porém quando ela decidia agir daquele modo tão manhoso, as coisas se tornavam um tanto impossíveis. Tinha vontade de abraçá-la e permanecer ali, a noite toda se pudesse. Sem condições, no entanto. Pan Stracci era a única herdeira e filha de Hans Stracci, seu Don. Ou seja, era inalcançável; proibida.
— Meu trabalho mais difícil é passar um tempo com você. — Sussurrou, passando a mão entre os cabelos e deixando transparecer toda a confusão dentro de si, causada por aquela garota. — Nos vemos depois, mocinha. — Despediu-se apressadamente, permitindo-se passar a mão por aqueles fios vermelhos antes de retirar-se.
Realmente, ela fazia parecer impossível querer se distanciar.
— Ele é um pouquinho frio, né? — Kate ponderou, deitando-se no sofá enquanto segurava o sorvete que havia sido vedada de comer anteriormente.
— Malvado como sempre. — Pan bufou, sentando-se ao seu lado e roubando uma colherada. Sarah logo fez o mesmo. — Deixa ele pra lá.
— Vocês querem jogar alguma coisa? — A convidada indagou, apoiando a cabeça nas coxas da amiga. — Nós parecemos tão próximas, mas às vezes sinto que não sei nada sobre vocês duas. Que tal um jogo de perguntas?
— Quem é Isis?
— Você é bem direta, né, Pan? — Ela riu, surpresa.
— Não dá pra ir contra a curiosidade dela. — A outra colega argumentou, embora também estivesse curiosa.
— É que você ficou tão chateada quando o Evan falou sobre ela. Fiquei curiosa, pensando se era alguém que te fez mal.
— Mal? Muito pelo contrário, a Isis só me fez bem. — Respondeu esboçando um sorriso amarelo. Antes de prosseguir, ajeitou a postura e respirou fundo, na intenção de não chorar outra vez. — Ela foi o meu primeiro amor, mas tive que terminar com ela.
— O quê? Mas por quê?
— É complicado. —Murmurou esfregando os braços, um pouco acanhada. Era um pouco desconfortável falar tão abertamente sobre seu relacionamento, porém, ao mesmo tempo, desabafar lhe fazia bem. — Vocês vão acabar descobrindo de qualquer jeito. — Completou, deixando-se perder nas próprias lembranças do dia em que a havia conhecido.
Naquela fria manhã de inverno, Kate encontrava-se sozinha, imersa em seus pensamentos enquanto encantava-se com a paisagem que observava através da janela de sua sala de aula. Vez ou outra rabiscava algumas coisas em seu caderno, porém nunca estava realmente atenta.
— Está ocupado? — Uma voz chamou-lhe a atenção, trazendo-a de volta à realidade. — Esse assento está ocupado? — A garota questionou novamente.
— Ah, me desculpe. — Kate se organizou, retirando seus materiais espalhados para liberar o espaço. — Você é nova aqui?
— Acho que você não estava prestando atenção na minha incrível apresentação de nova aluna. — Ela sorriu. — Sou Isis, muito prazer.
— Kate. O prazer é todo meu. — Retrucou com um sorriso irradiante.
Isis era, com toda a certeza, a pessoa mais bonita que já havia visto. Quando seus olhares se cruzaram, fora muito difícil desviar. Era como se tivesse sido enfeitiçada, de modo que parecesse um inseto voando em direção à luminária, atraído por sua luz sem importar-se com o fato de, talvez, acabar se queimando no final.
Sua pele tinha um tom rico de caramelo, difícil de definir; enigmático, que contrastava perfeitamente com os cabelos violeta. O rosto tinha traços afilados e harmoniosos, que destacavam seus enormes olhos amendoados e lábios cheios, sem esconder o nariz pequeno e arrebitado, perfeitamente encaixado em sua face. Sua beleza era única; de tirar o fôlego, e Kate logo encontrou-se cativada por ela.
Sem importar-se muito com o silêncio súbito causado pela chegada do professor, Kate continuou focada no que fazia, deixando soar o atrito causado pelo seu lápis sendo esfregado no papel.
— O que está fazendo? — A nova aluna perguntou intrigada, apoiando o queixo em seu ombro. O salto que dera com o susto foi inevitável. — Desculpa, não queria te assustar. — Sorriu.
Um pouco acanhada, deslizou em sua direção aquele papel que rabiscava, revelando um desenho da garota em questão. Estava de perfil, e alguns detalhes próprios de seu traço a faziam parecer uma fada em meio à floresta.
— Desculpa. — Mordeu os lábios aflita. Estava com medo de ter invadido o espaço pessoal da colega. — Você tem um perfil tão bonito que acabei me inspirando. Espero que não se importe.
— Não precisa se desculpar. Eu achei lindo. — Sorriu outra vez. — Você deve ter praticado bastante até chegar nesse nível.
— Você gostou? Fica com ele, então. É um presente.
— Bom, eu é que não vou recusar um presente de uma moça bonita. — Retrucou com certa malícia, dando uma piscadela antes de guardar o desenho em sua bolsa. — Obrigada.
Ao fim do período, Isis parecia apressada, não dando-lhe nem ao menos a chance de despedir-se. Desanimada, contentou-se organizar suas coisas e correr até a saída o mais rápido possível, ansiosa para chegar em casa.
Assim que colocou os pés para fora, percebeu o cheiro de terra molhada pairando no ar, causado pela forte chuva que caía dos céus acinzentados.
— Você trouxe um guarda-chuva? — Uma voz familiar a surpreendeu, fazendo-a saltar outra vez com o susto. — Caramba, você se assusta muito fácil. — Zombou.
— Não tem jeito, você sempre chega quando estou distraída. — Argumentou em sua defesa, retirando uma pequena umbrela verde da bolsa. — Nós podemos dividir, se quiser. — Ofereceu.
— Minha casa é longe daqui. Posso te acompanhar até a sua e depois vou sozinha até lá. — Ela se aproximou, colocando o corpo abaixo do guarda-chuva. — Te devolvo amanhã.
— Não quer que eu te acompanhe? Posso voltar para casa sozinha depois.
— Que tipo de pessoa eu seria se deixasse uma moça bonita andar sozinha em uma chuva dessas? — Respondeu, com seu jeito galanteador de sempre.
— Eu também não poderia te deixar, então. — Kate reclamou, fazendo-a esboçar um riso maroto.
Outra vez estava perdida nos próprios pensamentos, encarando com um olhar bobo a figura de Isis segurando aquele guarda-chuva, com algumas gotas d'água escorrendo nas pontas dos cabelos. Seu ombro direito estava completamente encharcado, já que encontrava-se muito preocupada com o conforto de sua acompanhante, não importando-se consigo mesma.
— Toma isso, distraída. — Provocou, pisando em uma poça no chão para molhá-la propositalmente, obrigando-a a voltar à realidade outra vez.
— Ei! — Ela bufou, encarando-a com uma expressão vingativa.
Aquele trajeto antes tão calmo e sereno, dominado pelo som das gotas de chuva que iam de encontro à umbrela, agora havia se tornado um campo de guerra, aonde ambas se encharcavam sem um pingo de remorso.
Molhadas, ofegantes e sorridentes, adentraram a residência de Kate, no intuito de se secarem para que não ficassem resfriadas. Após pegarem algumas toalhas, sentaram-se na pequena cama posicionada no canto de um pequeno quarto, iluminado apenas com a fraca luz de um abajur.
— Esse lugar é bem aconchegante.
— É pequeno, mas não consigo me ver morando fora daqui. — A anfitriã levantou-se, fuçando em suas gavetas para encontrar alguma vestimenta que servisse em sua convidada. — Melhor tomar um banho antes que fique resfriada. A não ser que você tenha nojo de usar as minhas roupas ou algo assim...
— Não, não. Está ótimo, obrigada. Posso devolver amanhã?
— É claro. — Retrucou, com um sorriso.
— Kate.
— Sim?
— Seria muito estranho se eu dissesse que estou com muita vontade de te beijar agora? — Ela sussurrou encarando os lábios da garota à sua frente, cheia de desejo e com a luxúria estampada em seu rosto.
— Mas nós acabamos de nos conhecer. — Respondeu em tom baixo, sentindo as bochechas ruborescerem. Seu coração parecia querer saltar do peito com a ansiedade criada por aquelas palavras tão desinibidas.
— Desculpa, não quis parecer invasiva. Eu normalmente não sou assim, mas... — Murmurou tímida, sentindo-se uma idiota por ter falado seus pensamentos em voz alta. — Não sei o que deu em mim. Vou tomar um banho rápido e já libero o chuveiro pra você.
— Eu não disse que não queria. — Esclareceu acanhada, sem conseguir encará-la diretamente nos olhos. — Se você ainda quiser...
Isis surpreendeu-se ao ouvi-la dizer aquilo. Sem vontade alguma de guardar arrependimentos, puxou-a para si e colocou as mãos ao redor de sua cintura, beijando-a fervorosamente. O gesto fora rapidamente retribuído, deixando exalar uma química inexplicável, como se já se conhecessem há tempos e estivessem destinadas a viver aquele momento.
As roupas úmidas ficaram do lado de fora, espalhadas pelo soalho enquanto elas se perdiam nos próprios desejos. O som do chuveiro abafava os gemidos de Kate, à medida que Isis distribuía beijos pelo seu corpo enquanto acariciava suavemente sua intimidade com a ponta dos dedos. Ela tentava fincar as unhas no azulejo em que estava encostada, no intuito de amenizar a euforia trazida pelo prazer quando Isis ajoelhou-se para deslizar a língua em seu sexo.
— Isis... — Clamou por seu nome, com dificuldade, em meio ao seu arfar. Sua respiração já estava acelerada, e o abdômen endurecido, preparado para o que viesse à seguir.
A sensação de tê-la roçando a pele na sua era insuportavelmente prazerosa. Tão boa que chegava a arder.
Kate que sempre fora tão puritana, agora via-se xingando em voz alta, completamente dominada pelas emoções e efeitos causados pelo toque da língua de Isis, que a provocava com rápidos movimentos circulares.
O fato de não se conhecerem há muito tempo e o cheiro de banho pairando no ar deixou tudo mais erótico. Ela nunca se imaginaria fazendo sexo no chuveiro, porém lá estava, prestes à atingir um orgasmo sem remorso algum.
Suas costas se arquearam e o calor entre as pernas aumentou, deixando-a ciente de que havia atingido seu ápice.
Com um sorriso safado, Isis levantou-se e selou os lábios nos dela, antes que pudesse falar qualquer coisa. Ela não queria ser retribuída. Ao menos não naquela tarde. Sua única e exclusiva vontade era a de ver aquela expressão de deleite estampada no rosto de Kate, sejam duas, três ou até mesmo dez vezes.
Elas não acreditavam em amor à primeira vista, até aquele momento, quando se encararam ofegantes; insaciáveis; cheias de luxúria, prestes à se entregarem completamente, a mercê das próprias vontades rudimentares.
Agora, em meio àquela noite tão fria, sentada no sofá da casa de sua amiga, ela encontrou-se com os olhos marejados, dominada pela ansiedade de encontrar seu primeiro amor outra vez.
— Mas, se vocês se gostavam tanto, o que aconteceu para se separarem? — Pan indagou, segurando sua mão para consolá-la.
— Pan, acho que já chega de tantas perguntas por hoje. — Sarah interveio, percebendo o estado emocional da amiga.
— Não tem problema. — Assentiu, esfregando os olhos para afastar as lágrimas. — O sonho dela sempre foi ser atriz. Alguns meses depois de me pedir em namoro, ela recebeu uma oferta pra ser a protagonista de um filme romântico.
— E isso não é bom?
— É ótimo. Quando reconheceram o talento dela eu fiquei tão feliz, mas...
— Mas?
— Ela disse que recusaria a oferta por minha causa. Por ser um romance, ela não queria precisar beijar outra pessoa enquanto estivesse comigo. — Sua voz já estava abafada, devido ao choro que lutava para segurar em sua garganta. Após engolir seco e respirar fundo, tomou coragem para prosseguir. — Então eu terminei o nosso namoro e fiz questão de magoá-la de todas as maneiras possíveis. Nós nos encontramos em uma festa, e quando ela me pediu pra voltar, eu puxei a primeira pessoa que vi e beijei bem na frente dela, dizendo que a odiava e que não era pra se aproximar de mim. — Completou com dificuldade, desabando em lágrimas. Seu corpo tremia conforme se recordava do que havia feito.
— E foi ai que você conheceu o Ethan? — Sarah perguntou, e ela assentiu.
— Eu não queria que ela desistisse do próprio sonho por minha causa. Sei que fui uma idiota, e que ele provavelmente deve ser a minha punição pelo que eu fiz, mas mesmo assim...
— Não é bobo. — Ambas a abraçaram com força, para fazê-la se sentir melhor. — Você foi muito forte.
— Já faz tanto tempo desde a última vez que nos vimos pela última vez. Quando o Evan falou em voz alta que ela voltaria, minha cabeça simplesmente parou de funcionar.
— Vai ficar tudo bem. Nós estamos aqui com você. — Pan a apertou ainda mais.
— O que é essa música? — Sarah indagou, buscando com o olhar a fonte daquela melodia que havia tomado conta do ambiente.
— É o meu celular. Deve ser alguma ligação tentando me vender alguma coisa. — Kate levantou-se para averiguar o aparelho, pegando-o em suas mãos. Seus olhos se arregalaram quando perceberam o nome estampado na tela, aumentando sua ansiedade que já estava à flor da pele.
— O que aconteceu? — Pan questionou preocupada.
— É a Isis. — Disse inquieta. — Ela quer me encontrar amanhã.
Fale com o autor