Notas iniciais
Eu acho que vocês já devem estar cansados de ler minhas desculpas aqui 3 mas eu realmente não estava em um momento bom, e estava dificil pra mim arrumar vontade de fazer qualquer coisa. Eu não queria entregar um capítulo mal feito pra vocês. Finalmente consegui força de vontade e escrevi um capítulo novo, então espero agradar meus leitores amados ♥

Hector abriu os olhos vagarosamente, com dificuldade, enquanto permitia que a luz invadisse seus olhos à medida que suas pupilas se acostumavam com a claridade. O cheiro que inicialmente tomara conta de suas narinas lhe era familiar; aquele cheiro de borracha e outras coisas mais que lhe remetiam ao hospital. Sua cabeça latejava de um jeito insuportável; os dedos estavam quase petrificados e os braços dormentes devido ao tempo que ficara deitado.

Sentiu o sangue ferver no momento em que as memórias do dia do sequestro de Pan lhe vieram à mente, recordando-se daqueles cabelos escarlate se afastando enquanto a voz doce da mulher que amava chamara por seu nome incansavelmente, cada vez mais fraca e baixa, até que perdesse a consciência e sumisse na escuridão de seus pensamentos turvos. Irritado, levantou-se em um movimento brusco, derrubando alguns dos aparelhos que estavam atrelados ao seu corpo.

— Não vai acabar se matando aí, garoto. — Uma voz muito conhecida ecoou fraca pelo cômodo silencioso. O desânimo estava estampado no rosto daquele homem, e as olheiras marcadas deixavam claro o fato de não ter dormido nada durante um bom tempo. — Ele te deixou na merda, não é? Mas não te culpo, ele é muito mais experiente. — Acrescentou, forçando um sorriso tímido.

— Perdão. — Rumorejou cabisbaixo, sentindo-se um desgraçado miserável. Se não tivesse sido um fraco a ponto de hesitar por algo tão patético quanto sentimentos não estaria deitado naquela merda de hospital enquanto sua protegida encontrava-se em algum lugar desconhecido à mercê de criminosos. A única coisa que sentia ao encarar seu chefe era vergonha. Vergonha de ter sido um fraco incompetente, e de não ter coragem para dizer-lhe o motivo real de sua falha.

— Você fez o que pôde. Como eu já disse, ele é mais experiente do que você. — Hans retrucou seco, acendendo um cigarro sem importar-se com o local em que estavam. Se alguém quisesse reclamar sobre aquilo, então que viesse e o fizesse em sua frente. — Eu devia ter acompanhado ela pessoalmente. O Vincenzo é muito esperto. — Completou, desviando o olhar até os pés ao mesmo tempo que liberava de seus pulmões uma baforada de fumaça. Hector sentiu-se ainda pior, ciente de que estava sendo absolvido injustamente. Se abrisse o bico e contasse a verdadeira razão de sua hesitação, provavelmente seria morto ali mesmo, e sinceramente, ele pensava ser o que realmente merecia.

— Mais uma vez eu não consegui proteger alguém. Sou a porra de um incompetente! — Vociferou com a testa franzida, golpeando a parede ao seu lado antes de respirar fundo e passar a mão pelos cabelos, na tentativa de se acalmar. Hans sabia perfeitamente que aquela frase fazia referência aos seus pais, que vira serem assassinados bem à sua frente. Era óbvio que pensar em perder mais uma pessoa importante em sua vida lhe trazia péssimas lembranças.

— Você era um moleque da primeira vez, e ainda é um moleque na segunda vez. — Argumentou ríspido, aproximando-se dele para dar-lhe um belo tapa no rosto, na intenção de fazê-lo acordar e agir como o homem que fora criado para ser. — Essa expressão ridícula de bebê chorão não combina com você, ragazzo. — Terminou em tom de advertência.

— Quanto tempo eu perdi nesse quarto de merda? — Indagou após um suspiro, levantando-se para retirar todos os apetrechos atrelados ao seu corpo e vestir sua camisa.

— Três dias.

— Três dias? — Hector cerrou o punho instantaneamente, quase permitindo-se ser dominado pela raiva outra vez, mas respirou fundo novamente e manteve a compostura. Agir como um imbecil descontrolado não lhe traria a garota de volta, e sabia muito bem disso. — Algum progresso enquanto isso, meu Don? — Perguntou já vestido, preparado para sair dali no momento que recebesse a ordem.

— Marquei uma reunião com todos os chefes das maiores famiglias da região. Eu tenho uma ideia de quem são os traidores, mas quero ser sutil. — Disse, dando duas batidas com o cigarro na mesa em que estava apoiado.

— Quantos?

— Dois. — Respondeu. — E antes que você pergunte, as crianças que você fez o favor de enfiar no meio de uma zona de guerra estão bem. — Comentou, e Hector respirou aliviado. Era um problema a menos para precisar lidar.

— Eles não viram nada? — Questionou franzindo o cenho. Era impossível que, com todo aquele barulho do lado de fora, ninguém tivesse ouvido absolutamente nada.

— Tirando aquele garoto com quem a minha filha passou a tarde, não. O Sandro conversou com cada um deles e não percebeu nenhuma mudança no comportamento de cada um. — Hans soou indiferente. Mesmo que os jovens descobrissem sobre seu trabalho, provavelmente não teria tanto problema assim. Se conseguia calar a boca de pessoas muito mais poderosas, não seria complicado se livrar de alguns adolescentes enxeridos.

— Aquele moleque sabe? — Hector arqueou as sobrancelhas um pouco irritado, internamente se questionando se deveria matá-lo logo, para que não lhe causasse mais problemas do que já havia causado.

— Não vamos ter problemas com ele, eu espero. — Esclareceu, dando uma longa tragada em seu tabaco antes de continuar: — Até porque, se tivermos problemas com ele, eu vou precisar começar uma briga com os pais dele. E os pais dele são bons e velhos amigos da famiglia que eu gosto de ter por perto. — Finalizou, esboçando um sorriso de canto ao ver a expressão tão surpresa de seu braço direito.

— Ele tem envolvimento com a famiglia? — Indagou incrédulo. Como diabos Evan teria algum tipo de envolvimento com tudo aquilo? Não fazia sentido algum.

— Eu explico melhor no caminho. Temos muito trabalho pela frente. — Hans ordenou, abrindo a porta daquele quarto para que saíssem dali. Hector apenas assentiu e acompanhou-o sem contestar, percebendo que outros homens da família também haviam deixado suas posições no corredor para segui-los. Aparentemente, teriam muito trabalho mesmo.

Longe dali, em um armazém abandonado próximo à saída da cidade, Vincenzo estava acomodado em uma cadeira observando o rosto inconsciente de sua refém; deitada em um colchão limpo na medida do possível. O local fedia a mofo, e as paredes já estavam completamente corroídas pela umidade, tornando difícil de respirar. Os cabelos avermelhados da menina cobriam parte de seus lábios, e embora estivessem emaranhados, os fios possuíam um caimento delicado. Em alguns momentos inesperados, ela balbuciava palavras indecifráveis, esboçando caretas involuntárias como se estivesse tendo pesadelos. Provavelmente estava, na verdade.

— Maldito seja o Giovanni. Esse desgraçado exagerou na dose de Éter. — Praguejou em italiano, pensando no que faria caso a garota não abrisse os olhos em breve. Aquela substância era tóxica, afinal, e em dose excessiva poderia sem problemas causar sua morte.

— Aqui está o que você me pediu, chefe. — Um de seus homens aproximou-se, estendendo-lhe um pano com água morna. Ele levantou-se da cadeira com certo sofrimento, soltando alguns gemidos de dor à medida que sentia o ferimento em seu abdômen arder. Desabotoou sua camisa ensanguentada e limpou o local do machucado outra vez, trocando as ataduras antes de vestir-se novamente. — Quem foi o responsável por esse disparo, se me permite perguntar? — Questionou curioso. Já haviam retirado a bala do local, e felizmente não havia acertado órgãos vitais a ponto de ser algo preocupante, mas ainda assim, era um tiro que o acertara diretamente na barriga, e se não tratado corretamente, podia levá-lo à morte, seja por infecção ou por hemorragia.

— Um velho amigo. — Murmurou com orgulho, desviando o olhar até o curativo como se o contemplasse. Talvez estivesse até mesmo contente com aquilo, e não fazia questão de esconder. — De qualquer forma, alguma novidade que eu deva saber? — Mudou rapidamente o tema do assunto, ansioso por informações sobre os movimentos de seu inimigo.

— Aparentemente, Don Stracci marcou uma reunião entre os maiores Dons da região. Vai ser essa noite. — Retrucou.

— Ele está desesperado. — Disse esboçando um sorriso malicioso, quase triunfante. — De qualquer forma, ele não é burro. Já deve ter descoberto que alguém quebrou o tratado. — Acrescentou.

— Tratado?

— O tratado de paz entre as famiglias. — Explicou, arrumando a postura para tentar amenizar o desconforto que era precisar utilizar aquelas ataduras. — É a porra de um contrato que obriga todas as famílias a fazerem negócios pacificamente. Se alguma delas agiu em meu benefício, me ajudando a destruir os Stracci, então isso quebra o tratado, e talvez uma guerra esteja bem próxima de acontecer. — Completou, acendendo um cigarro entre os lábios.

— E o que vai acontecer com os homens que forem descobertos?

— Você sabe o que acontece com traidores. — Deixou sair a fumaça de seus pulmões, antes de prosseguir: — Mas eles não vão ser pegos tão cedo. O Hans ainda tem um problema pendente se quiser pedir ajuda para as outras famílias. — Sinalizou com o queixo em direção à Pan, ainda adormecida.

— Ela? — Indagou surpreso.

— Essa garota ficou escondida por muito tempo, mesmo sendo a única herdeira legítima de Don Stracci. Não sei se os outros Dons vão aceitar esse segredo tão facilmente. — Argumentou, jogando o tabaco entre seus pés e pisoteando-o para apagá-lo. — Pode ser considerado até mesmo traição. — Sorriu de canto, fitando-a como se fosse sua maior conquista. Talvez realmente fosse já que, afinal, era a chave para destruir o império de seu antigo chefe, por quem tinha certo rancor guardado há anos.

Pan repentinamente remexeu-se entre os lençóis após soltar um baixo grunhido, reclamando inconscientemente sobre o barulho de conversa à sua volta. Vincenzo franziu o cenho e começou a questionar-se se ela ainda estaria sob efeito do éter ou se apenas dormia normalmente, na intenção de esquivar-se da necessidade de encarar seus sequestradores em algum momento. Quando a viu se mexer outra vez, gesticulou com as mãos para que seu homem saísse e os deixasse à sós, fechando a porta e retirando um cantil cheio de uísque do bolso de sua calça antes de começar a falar:

— O que foi? Está irritada comigo por te sequestrar? — Puxou assunto em tom provocativo, já ciente de que ela o ouvia perfeitamente.

O corpo dela involuntariamente sobressaltou com o susto; surpresa por ter sido descoberta, embora soubesse que discrição não era uma de suas maiores qualidades. Dada por vencida, apenas revirou-se no colchão até que ficasse de frente com aquele sujeito que considerava uma pessoa horrível, abrindo sutilmente os olhos para encará-lo com desdém.

— Você machucou o Hector, e isso eu não gostei. — Retrucou seca, deixando transparecer um pouco da irritação em seu timbre.

Vincenzo admirou-se com aquela fala, sendo inevitável segurar o riso que se formava em seus lábios.

— Você deveria se preocupar consigo mesma, principessa. — Rumorejou, bebericando um gole de seu uísque. — Ou então com o seu pai. — Complementou, vendo-a ruir em questão de segundos. O olhar antes desafiador que ela tinha agora dera espaço à um semblante desesperado.

— Não faz nada com o papai, por favor! — Suplicou, segurando com força a manga da camisa de Vincenzo, quase como se quisesse prendê-lo ali para que ele nada pudesse fazer contra as pessoas que ama. — Ele é um pouco esquisito, e eu sei que ele às vezes faz coisas ruins, mas ele ainda é o papai, então por favor! — Insistiu, vendo-o friamente recuar o braço e afastar-se dela, dando de ombros. Aparentemente seu olhar pidão não surtia efeito algum, o que já era de se esperar.

— "Eu sei que ele às vezes faz coisas ruins"? — Repetiu enojado, deixando sair um suspiro cansado; de decepção. — Então você sabe, e mesmo assim defende um homem como ele. Parece que a pureza que aquele garoto tanto tentou defender mesmo à custo da própria vida já começou a se corromper aos poucos. — Sussurrou, vestindo seu sobretudo que estava pendurado na cadeira em que estava sentado anteriormente e dando dois leves toques na porta para que o homem de guarda do lado de fora a abrisse. — Vamos, Giovanni. Coloque o Santiago de guarda, você vai me acompanhar hoje.

— Aonde vamos, chefe? — Inquiriu intrigado.

— Temos uma reunião importante para comparecer. — Retrucou, arrumando seu colarinho e retirando-se do quarto, deixando-a solitária novamente após trancafiar a porta.

Pan não conseguia decifrar os sentimentos estranhos que lhe consumiam de dentro para fora, como um péssimo presságio. Seu interior queimava, como se algo estivesse entalado; selado às sete chaves, preso por muito tempo e agora quisesse sair para dominar-lhe e tomar conta de seu ser. Suas angústias se expressaram através das lágrimas que escorreram involuntariamente de seus olhos até as bochechas, durante o tempo em que poderia apenas permanecer sentada naquele maldito cômodo sujo, torcendo para que nada de ruim acontecesse com sua família. Abraçou os joelhos e pôs-se cabisbaixa, tentando amenizar aquele turbilhão de novas emoções, esperançosa de que, talvez, quando Vincenzo voltasse, pudesse ouvir boas notícias.

Eram pouco mais de oito horas da noite quando os chefes das maiores famílias da América começaram a se acomodar na sala destinada à reunião, intrigados com o fato de ser um encontro requisitado por Don Stracci, já que esse homem jamais dava as caras nesse tipo de evento. Ele odiava todas as formalidades. Preferia discutir negócios em seu escritório enquanto segurava um generoso copo de uísque nas mãos.

O local era a cobertura de um hotel em território neutro, para que não houvessem problemas ou intimidações na hora de exprimirem as próprias opiniões em negociação. No instante que Hans colocou os pés no cômodo, acompanhado por Sandro e Hector, sentou-se no lugar mais estratégico que seus olhos puderam alcançar; afastado dos que considerava traidores e no ponto cego da enorme janela à sua esquerda. O ditado de "mantenha seus inimigos mais perto ainda" só servia quando seus inimigos não poderiam lhe apontar um revolver à cabeça quando quisessem ou posicionar um francoatirador do lado de fora para finalizá-lo. Também fizera questão de ficar longe do lustre central que iluminava de cima a enorme mesa de cedro em que se abancavam. Aquele tipo de luminária poderia cair "acidentalmente" a qualquer momento em reuniões assim.

— Don Stracci marcando uma reunião, e ainda por cima na América. — Uma voz grave quebrou o silêncio pacífico do ambiente, esbanjando uma ironia que trazia certo desconforto à Hans. Era o chefe da família Genovenne. — Essa é uma das únicas coisas que eu jurava que não veria antes de morrer, e olha que eu já vivi muito. — Acrescentou, esboçando um sorrisinho cheio de escárnio.

— Tudo tem uma primeira vez, não é? — Outro homem interveio, tocando suavemente o ombro do que falara anteriormente. Aquela era uma figura desconhecida para os Stracci, mas como já fazia um bom tempo desde a última vez que compareceram à esse tipo de assembleia, apenas deram de ombros.

Toda aquela cerimônia de cumprimentos e apertos de mão durou por algum tempo, e Hector permaneceu em pé atrás do chefe e do conselheiro de sua família, observando o movimento dos figurões que colocavam os pés para dentro daquele salão. Alguns não lhe passavam confiança alguma; podia enxergar perfeitamente por trás das intenções escondidas em olhares e sorrisos falsos, porém outros realmente pareciam querer apoiar seu Don. Nada além do esperado, no entanto. A influência que tinha a família Stracci em muitas áreas do submundo era tamanha, e poderia atrair muitos aliados, porém principalmente, inúmeros inimigos.

— Se as coisas passassem dos limites agora mesmo, eu tenho certeza de que os primeiros a atirarem em sua direção seriam os Romano e os Genovenne. — Sussurrou próximo à orelha de seu Don, arrancando-lhe um sorriso de canto e um aceno afirmativo de cabeça discreto. Eram exatamente os nomes que ele tinha em mente quando citou os tais traidores.

— Todos já estão presentes? — Uma voz ecoou pelo cômodo, fazendo com que todos cessassem as conversas paralelas e lhe dessem atenção. Era o homem desconhecido que havia se aproximado dos Stracci e de Genovenne anteriormente.

— Me desculpe a falta de tato, eu já estou um pouco velho, mas... — Hans interrompeu, fitando-o diretamente. — quem seria o senhor, se me permite perguntar? Digo, qual família você representa?

— Eu não sou chefe de nenhuma família, meu senhor. — Disse gesticulando com as mãos, esboçando um sorriso tímido. — Estou apenas representando alguém.

— Essa é uma reunião fechada, colega. — Don Romano rapidamente levantou-se de seu assento e apontou-lhe um revolver à cabeça. Todos ali estavam cientes sobre o seu temperamento explosivo, mas não esperavam que fosse mostrar as garras tão cedo. — Quem você representa? — Questionou, quase em tom de ameaça.

Antes que pudessem sanar a dúvida, a porta do quarto abriu-se uma vez mais, revelando duas figuras misteriosas que escondiam os rostos atrás de um sobretudo e chapéu; com as mãos enfiadas nos bolsos e um ar de mistério.

— Me desculpem a demora. Sei que atrasos não são bem vistos, mas eu tive alguns contratempos. — Um deles iniciou conversa, deixando ecoar sua voz naquele local agora silencioso, graças à sua interrupção inesperada. Hans sentiu o sangue ferver no instante que ouviu-o abrir a boca, pois estava perfeitamente ciente de quem seria o dono daquela voz, mesmo em meio à milhões.

— Você é corajoso em dar as caras por aqui. — O chefe da família Stracci disse em tom rouco e imponente, levantando-se apressado para buscar seu revólver no bolso interior de seu terno e mirá-lo diretamente em direção ao intruso da assembleia. Como Hector havia previsto, Don Romano e Don Genovenne fizeram o mesmo, agora apontando suas armas em direção à cabeça de seu chefe, obrigando ele e Sandro a intervirem.

— Abaixem as armas, senhores. Nós não somos um bando de animais, pelo amor de Deus. — Vincenzo exprimiu sereno, acomodando-se em frente aos Stracci, não importando-se em nada com o fato de ter a cabeça como um alvo. Já estava acostumado com isso, então apenas retirou seu sobretudo e chapéu antes de prosseguir: — eu vim adiantar o assunto da reunião por você, Don Stracci. — Murmurou, puxando do bolso de sua camisa algo que parecia ser uma fotografia e deslizou-a até o centro da mesa, despertando a curiosidade de todos ali presentes.

— E o que seria isso? — Alguém ousou perguntar, referindo-se à imagem.

— Vocês, na realidade, deveriam perguntar quem seria a pessoa nessa foto. — Aconselhou, arrumando sua postura na cadeira. Sentia-se como um rei ao presenciar a mudança na expressão de Don Stracci, que passara de uma confiança bruta à uma preocupação alarmante. Estava impotente; de mãos atadas, pois afinal, como poderia dizer que sua filha havia sido sequestrada e fazer um apelo às outras famílias se até o momento ela nem ao menos existia? — Cavalheiros, acho que todos nós conhecemos os herdeiros uns dos outros, pelo menos de vista, não é? Mas alguém já chegou a se perguntar o motivo de nunca termos ouvido nem ao menos falar sobre algum herdeiro de Don Stracci? — Interpelou com a intenção de causar a discórdia. Hector engoliu seco, ciente do que poderia vir a acontecer, e principalmente, por saber que agora sua protegida seria conhecida pelo submundo, e a culpa era inteiramente sua.

— Você é idiota? Os Stracci não têm herdeiros. — Alguém exprimiu em tom de zombaria. Os outros apenas concordaram, pois até o momento era nisso que acreditavam. Na verdade, era nisso que foram forçados a acreditar.

— Olhem bem para a fotografia. — Vincenzo solicitou, fazendo com que todos direcionassem olhares à figura que havia deslizado até o centro da mesa. Era uma imagem de Hans tentando confortar a filha, Pan, que demonstrava um semblante assustado enquanto lhe segurava as mangas do terno em um gesto desesperado, abraçando-o. Provavelmente havia sido tirada no dia da première de Isis, antes de despedirem-se para que a garota fosse até o refúgio na casa dos Santoro. — Lhes apresento Pan Stracci, a única herdeira de sangue da família Stracci, e também a menina que foi presa por dez longos anos pelo próprio pai, que não confiava no mundo para receber sua queridinha. Ou seja, não confiava em nenhum de vocês aqui, senhores, para conhecer a sua filha. — Argumentou, em entonação que fazia parecer estar apresentando uma peça de circo aos espectadores.

Os outros Dons estavam incrédulos, em especial após constatarem os fatos e descobrirem que aquela alegação era real. Guardar um segredo daquele por anos era como se dissesse que não dava voto de confiança algum para todos ali presentes, nem mesmo seus aliados, e poderia ser considerado uma forma de desrespeito do mais alto nível. Quando um burburinho caótico dominou o ambiente, Vincenzo fitou o chefe dos Stracci com um sorrisinho vitorioso nos lábios, recebendo em resposta um olhar desdenhoso.

— Você é o pior tipo de escória que eu já conheci, Vincenzo. Não vou me arrepender em nada depois que explodir todos os seus miolos. — Hans rosnou levantando uma vez mais o seu revólver até aquele homem, mas foi logo interrompido por Hector, que tocou-lhe o ombro como se o dissesse para manter as aparências, ao menos por enquanto. Estavam em uma situação delicada, já que aparentemente eram eles os traidores por terem escondido um segredo tão grande por anos. — Pelo menos quando me livrei de você arrumei um braço direito decente. — Suspirou, seguindo o conselho de Hector e abaixando sua arma enquanto tentava manter a calma.

— Você diz isso agora, mas eu conheço o homem que você é, Hans. — Rumorejou, apoiando os cotovelos na mesa e inclinando-se para frente na intenção de aproximar-se de seu antigo chefe. — Tenho certeza que você o trataria como lixo do mesmo jeito que faz comigo, se ele fizesse algo pra te irritar.

— Diferente de você, o garoto nunca desobedeceria minhas ordens ou faria algo para me constranger. — Retrucou ríspido.

Vincenzo levantou-se ainda mais, quase debruçando acima da mesa em que se apoiava, acertando-se do ouvido de Hans antes de sussurrar:

— Engraçado você dizer isso depois de eu ter conseguido sequestrar a sua filha por culpa dele. Sabe, o amor às vezes pode ser fatal. — Disse e afastou-se rapidamente, encostando as costelas na cadeira para deleitar-se com aquele semblante tão confuso do homem à sua frente.

— Amor? Que porra é essa que você está falando, seu louco psicótico de merda? — Inquiriu em italiano, sem entender por que diabos aquele homem estava citando algo como "amor".

— Você não sabe? Que divertido. Então, ragazzo, eu conto ou você conta? — Perguntou diretamente à Hector, que logo sentiu o coração falhar uma batida e as mãos suarem frio enquanto praguejava aquele desgraçado com todos os tipos de insultos que lhe vinham à cabeça. Ele apenas permaneceu em silêncio e deu de ombros, mantendo seu semblante frio no exterior para que não deixasse transparecer sua preocupação. — Eu conto, então? Tudo bem, você é quem sabe. Eu particularmente adoro dar boas notícias desse tipo. — Tagarelou ao mesmo tempo que buscava por algo em seus bolsos, retirando outra fotografia dali e jogando-a em frente aos integrantes da família Stracci. Aparentemente havia se preparado para causar todo tipo de tumulto possível essa noite.

A imagem retratava um beijo entre Hector e a queridinha intocável de seu Don. Ele a segurava apaixonadamente pela cintura enquanto roçava os lábios nos dela de maneira fervorosa e sensual, sentado à frente da garota enquanto ela permanecia em pé. Estava escuro, e a qualidade da foto não era das melhores, porém era fácil reconhecer as pessoas nela retratadas, principalmente se eram tão próximas à ele. Afinal, eram sua filha e um de seus homens mais confiáveis. Até aquele momento.

— Essa é a casa dos Santoro? — Hans questionou franzindo o cenho, pegando a figura em suas mãos e observando-a com os olhos arregalados. Sentiu o sangue ferver outra vez, sendo possível até mesmo ouvir seus batimentos cardíacos nas pontas das orelhas. A veia principal de sua testa e algumas de seu pescoço pulsavam de modo que deixasse clara toda a sua raiva. Estava completamente indignado com a cena estampada ali. — A minha filha foi sequestrada não porque o Vincenzo foi mais competente do que você, mas sim porque você estava muito ocupado pensando em besteiras como amor ao invés de puxar a porra do gatilho e cumprir com o seu trabalho de uma vez?! — Ele agora levantou a voz e vociferou entre dentes, aproximando-se de Hector e segurando-o pelo colarinho da camisa. — Você enlouqueceu, seu desgraçado? — Indagou após acertá-lo com um belo tapa no rosto, vendo-o permanecer cabisbaixo, sem coragem alguma para contestá-lo. Estava perfeitamente ciente de que havia sido um fraco, mas já era muito tarde para voltar atrás. Permitiu-se ser dominado pelos sentimentos, e acabou pagando com algo muito mais caro do que a sua própria vida.

Sandro segurou seu chefe antes que pudesse vê-lo manchar o chão daquela sala com o sangue do colega de trabalho, tentando colocar algum senso em sua cabeça. Não demorou muito para que alguém se aproveitasse do caos instaurado na reunião e utilizasse a brecha para os próprios objetivos. O som de um disparo tomou conta do recinto e logo perceberam parte da camisa branca de Hans abaixo do terno tornar-se vermelha escarlate, precedendo uma disputa de tiros que tivera inicio logo após. Ele gradativamente perdia as forças, até o momento em que finalmente soltou os punhos da camisa de Hector e atestou sua perda de consciência em seus braços.

— Hans! — Hector chamou por seu nome, tentando arrastá-lo para fora de toda aquela bagunça e conseguir-lhe auxílio médico o mais rápido possível. Vincenzo não levantara nem ao menos um dedo, e apenas saiu da sala sem pestanejar, também na intenção de desviar do fogo cruzado. — Filho da puta! — Hector rosnou entre dentes enquanto o fitava com uma sede de sangue insaciável, jurando para si mesmo que se vingaria de todos que ousaram se opor aos Stracci, não incomodando-se com os custos que teria. Haviam ferido as duas únicas pessoas com quem realmente se importava, e se para protegê-las ele precisaria desistir de sua humanidade e tornar-se um animal outra vez, então que assim fosse.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo ♥ Beijinhoos~