Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
26 O culpado
Notas iniciais
A calmaria melancólica daquela noite era inquietante para Sarah. Estar praticamente sozinha naquela casa tão enorme ciente de que as únicas pessoas próximas eram os seguranças do lado de fora chegava a ser assustador. Uma sensação solitária tomava conta de seu interior enquanto lutava para se distrair com um banho quente, apesar de saber perfeitamente que banhos a faziam se recordar da melhor amiga. Seu coração apertava a todo momento; toda hora que algum pensamento doloroso lhe invadia a mente, pensando que talvez Pan pudesse estar sofrendo de forma miserável na mão de seus sequestradores e ela nem ao menos poderia fazer nada quanto a isso.
— Por favor, que ela esteja bem. Se tem alguma divindade nesse mundo me ouvindo, se tem alguém escutando as minhas preces, por favor, faça a Pan ficar bem. — Suplicou de olhos fechados, com a voz já trêmula devido ao choro que havia se obrigado a engolir. Um pouco atordoada, enrolou o corpo em uma toalha e sentou-se no mármore da banheira, lutando para não sucumbir à sua ansiedade que parecia lhe querer dominar junto com os péssimos pressentimentos causadores de alguns calafrios. O toque de seu celular acima da pia foi o que lhe tirou de seus devaneios, fazendo-a levantar-se para atender apressadamente, esperançosa de que pudesse receber algumas boas notícias: — Pronto?
— Pronto? Quem atende o telefone assim? — A voz do outro lado da linha soou debochada, e ela apenas suspirou com certa decepção por descobrir que não era a ligação pela qual tanto aguardava.
— Alex? Me desculpa, já é costume atender assim. — Disse tentando não demonstrar seu descontentamento.
— Às vezes eu esqueço que vocês não são daqui. — Ela riu próxima ao telefone, deixando ecoar um ruído de chiado que obrigou a amiga a afastar um pouco o aparelho do ouvido, aproximando-o novamente apenas quando a ouviu continuar: — E por falar nela, como ela tá? Faz um bom tempo que não consigo falar com ela. — Acrescentou. A expressão de Sarah logo se fechou ao relembrar-se mais uma vez do ocorrido. Pôde sentir o coração ir até a garganta e voltar, como um gatilho para sua ansiedade outra vez. Era muito complicado ter que lidar com a situação e ainda por cima precisar inventar várias desculpas aos amigos todas as vezes que lhe questionavam sobre o sumiço de Pan.
— Ela está bem. — Mentiu após engolir seco. Talvez se dissesse aquilo em voz alta se tornaria realidade. — Nossos pais tiraram o celular dela por causa do castigo, então é por isso que você não consegue entrar em contato. — Completou. A desculpa que havia achado mais plausível de espalhar por aí era que Pan estava de castigo por ter desobedecido seu pai, e agora não poderia nem ao menos sair de casa por um tempo. Ridículo e difícil de acreditar? sim, talvez, mas era a única coisa que havia conseguido inventar em um momento de desespero, então continuaria a bater os pés e insistir que realmente era verdade. Os colegas não conheciam muito bem a sua família, portanto se dissesse que eram rígidos a ponto de fazer algo assim, teriam que acreditar.
— Tiraram até o celular dela? Que droga. — Alex resmungou e deixou os ombros caírem de um jeito desanimado. — Mas o seu pai é muito estranho. Todo adolescente acha uma tortura ir pra escola, então não entendo por que eles pensaram que proibir ela de ir pra aula seria um castigo.
— A Pan gosta de ir pro colégio, mas você tem razão quando diz que essa família é estranha. — Murmurou, sentando-se outra vez na parte de pedra da banheira e cruzando as pernas, um pouco cansada de tudo. — Aliás, obrigada por ter ligado. Eu fico feliz em ter alguém pra conversar, porque eu estava um pouco sozinha. — Admitiu, se permitindo esboçar um sorriso fraco. Era acolhedor poder ouvir uma voz conhecida naquela noite fria.
— Como sozinha? — Indagou surpresa. — A Pan não tá ai com você?
— S-sim, está. — Gaguejou, sentindo o nervosismo dominar seu corpo como uma onda gelada. Logo revirou os olhos para si mesma, não acreditando que era capaz de cometer esse tipo de gafe. — Ela está um pouco desanimada, então eu tentei manter distância pra ela poder ter um pouco de espaço. — Concluiu, com esperanças de que aquela explicação patética fosse ser aceita.
— Ah, entendi. — Alex respondeu conformada, como se realmente tivesse acreditado, e Sarah pôde suspirar tranquila. — Bom, os meus pais chegaram então eu vou precisar desligar, mas qualquer coisa me liga. O Chris também tá preocupado e vive me perguntando sobre vocês duas.
— Ele é um bom amigo. — Disse em tom baixo, sem nem ao menos perceber que seus lábios se curvaram em um sorriso de canto involuntariamente ao ouvir aquele nome. Talvez ele a intrigasse mais do que ela imaginava. — Boa noite, Alex. Obrigada por ligar. — Despediu-se rapidamente, desligando a chamada.
Assim que Sarah afastou o aparelho de seu ouvido, encarou-se no espelho por um momento e percebeu suas olheiras marcadas, provavelmente pelo excesso de lágrimas que havia derrubado durante os últimos dias. A segunda coisa que percebeu foi o frio que sentira. Ainda estava com os cabelos e úmidos, e o corpo respingava água por todo o piso do cômodo. Até mesmo seu celular possuía algumas gotículas na tela, que ela fez questão de secar com a toalha antes que lhe causasse problemas. Depois que terminou de enxugar a si mesma e as coisas que havia feito o favor de molhar, vestiu-se com seu pijama e jogou-se na cama de Pan, abraçando seu travesseiro na intenção de senti-la mais próxima. Os lençóis e todas as outras coisas tinham seu aroma, mas apesar disso era clara a sua dificuldade para dormir. Saber que ela não estava realmente ali tornava as coisas complicadas, e o semblante preocupado que exibia dia após dia desde o acontecimento somado aos olhos inchados talvez fossem o motivo de Alex tê-la telefonado tão tarde.
Eram pouco mais de nove horas da noite quando Pan ouviu alguém adentrar o cômodo em que se encontrava. Estava deitada no colchão acabado que lhe forneceram, se remexendo de um lado para o outro sem conseguir fechar os olhos após a fala de Vincenzo antes de sair. Era impossível que não se preocupasse, principalmente por saber qual a rotina de trabalho de sua família. Havia visto com os próprios olhos o que aquela gente era capaz de fazer, e embora compreendesse que as pessoas que amava haviam escolhido o próprio estilo de vida, não conseguia evitar que seu coração apertasse todas as vezes que sentia que algo estava para acontecer.
— Sua comida. — O homem soou impaciente. Não parecia estar muito feliz em precisar agir como a babá da garota que seu chefe havia sequestrado, mas mesmo assim eram as ordens que devia seguir, portanto sentou-se à frente dela e entregou-lhe uma bandeja cheia de alimentos, cruzando os braços enquanto a fitava friamente.
Ela instantaneamente sentiu alguns calafrios percorrerem sua espinha. Alguma coisa naquele homem lhe deixava desconfortável. Até mesmo mais desconfortável do que o próprio Vincenzo, e ela nem ao menos sabia o motivo. Inquieta, ela desviou o olhar como se dissesse que não comeria. Estava muito preocupada com sua família para incomodar-se com coisas tão triviais quanto comida ou sono.
— Você sabe algo sobre o papai? — Arriscou perguntar apesar de amedrontada. O homem apenas arqueou as sobrancelhas e deu de ombros. — Por favor? — Ela insistiu.
— Eu não sou seu informante, e nem seu amigo, então cala a boca. — Ralhou. — E termina de comer logo. Sou obrigado a te aturar até você terminar de comer. Ordens do chefe.
— Eu não estou com fome. — Murmurou desanimada, deixando cair os ombros.
— Tá legal, sua cadela, eu tentei ser gentil. — Ele levantou-se de sua cadeira e segurou-a pelo queixo, com força, apertando suas bochechas para que abrisse a boca. Em um movimento rápido, pegou um pedaço de pão e forçou-o entre os dentes de Pan, que já começava a lacrimejar com aquele gesto bruto. — Você vai comer essa porra agora ou eu vou ter que continuar? — Rosnou entre dentes. Quando a viu assentir apavorada, esboçou um sorriso de canto antes de dar-lhe um leve tapa no rosto e sentar-se outra vez. — Boa menina.
Ela simplesmente engoliu seco e se recusou a chorar, pegando os talheres para comer o mais rápido possível e livrar-se da companhia indesejada. Já que ele não lhe daria nenhuma informação ou nem ao menos lhe entreteria, não era cômodo que permanecesse ali, encarando-a de modo que a deixasse constrangida. Apesar de tudo, aquela sensação estranha de que já o conhecia de algum lugar parecia não querer ir embora. Algo naquele homem lhe era extremamente familiar, ainda que não conseguisse se recordar de absolutamente nada relacionado à ele.
Um pouco acanhada, permitiu-se vez ou outra fitá-lo pelo canto dos olhos, na tentativa de sanar a própria curiosidade. Alguma coisa dentro dela ansiava por saber mais, porém se arrependimento fosse capaz de matar, ela já estaria enterrada a sete palmos do chão. Certas memórias são melhores se esquecidas, e essa era uma delas. No instante que as lembranças começaram a invadir-lhe a mente, suas mãos inconscientemente se afrouxaram e os talheres foram de encontro ao solo, causando um ruído metálico chamativo que a trouxera de volta à realidade. Assim que fora retirada de seus devaneios, percebeu o quão estava assustada, graças às lágrimas que se formaram nos cantos dos olhos e a garganta que havia fechado.
— Que porra você tá fazendo? — Seu carcereiro bufou impaciente, recolhendo os talheres do chão.
— Desculpa, eu já... — Ela falou antes mesmo que ele pudesse gritar outra vez ou até mesmo batê-la. — eu já terminei de comer. — Completou em tom trêmulo e apavorado. Suas mãos suavam frio; as bochechas haviam perdido a cor dando espaço à uma coloração pálida e sem vida. Estava completamente estremecida; seu interior estava abalado.
O homem apenas deu de ombros depois de murmurar alguns insultos e recolher tudo o que havia trazido para ela. Não era como se ele se importasse caso ela se alimentasse decentemente ou não, mas alguma coisa ele deveria reportar ao seu chefe e sabia que ele ficaria irritado se a refém acabasse morta por desnutrição. Depois que a porta trancou-se outra vez, anunciando a saída dele, a atenção de Pan foi logo tomada por um estrondo do lado de fora, seguido pela voz de Vincenzo que ecoava pelos corredores. Aparentemente estava discutindo com alguém.
— Aquele imbecil estragou tudo! — Vociferava em sua língua nativa, caminhando em círculos ao mesmo tempo que afagava os cabelos em um gesto nervoso. — Sabia que não podíamos confiar em Don Romano. Ele é muito emotivo, e sempre teve muita raiva dos Stracci. — Acrescentou, tentando respirar fundo para não perder a compostura.
— Você acha que o Don Stracci está morto, chefe? — Giovanni indagou receoso. Sabia perfeitamente que isso não estava nos planos, e as coisas se complicariam muito caso a resposta fosse afirmativa.
— Eu não sei, Giovanni. — Retrucou ríspido, deixando sair um suspiro que exalava preocupação. — Mas se estiver, pode ter certeza de que os Romano não vão sair ilesos. Meu plano era fazer os Stracci perderem tudo, todo o apoio das famílias aliadas. Eu queria ver a cara de desespero do Hans quando passasse pelo mesmo que fez comigo. Não era pra ele morrer ainda. — Argumentou frustrado, apoiando parte de seu torso na parede e acendendo um cigarro enquanto fitava o chão, imerso nos próprios pensamentos.
Ouvir aquela conversa através da porta fora a gota d'água para que Pan se desesperasse ainda mais. Como assim existia a possibilidade de seu pai estar morto? Por que estavam ponderando isso de maneira tão fria e insensível? Ela nem ao menos sabia mais como reagir. Sentiu os pulmões terem dificuldade para puxar o ar, sentando-se cautelosamente no chão após deslizar as costas pela porta. Até mesmo chorar era complicado, intercalando entre soluços desesperados e longas respiradas, na tentativa de manter o fôlego e não se sobrecarregar. A dor de estar trancafiada ali enquanto seu pai corria perigo de vida era insuportável, e o que mais lhe incomodava naquilo tudo era saber que, se tivesse sido menos fraca e obedecido Hector sem contestar, nada disso aconteceria. Sentia que tinha o sangue dele nas mãos, e talvez o de Hector ou de sua mãe também, quem sabe? Àquela altura, ela não podia ter certeza de mais nada, principalmente depois de tantos acontecimentos em um curto período de tempo. Em um momento se divertia com os amigos, e no outro era sequestrada e colocava toda a sua família em perigo por ser uma inútil. Ela provavelmente jamais conseguiria se perdoar caso seu pai não sobrevivesse.
— Bambina? Está acordada? — Alguém chamou-lhe do outro lado, fazendo-a sobressaltar com o susto. Estava perdida nos próprios devaneios, e talvez aquele modo tão familiar utilizado para se dirigir à ela a tivesse feito se irritar ainda mais.
— Você não tem o direito de me chamar assim! — Rugiu frustrada, levantando-se quase que instantaneamente para fitar a porta, como se o estivesse encarando através daquela enorme e trancafiada passagem de ferro. Sua garganta já estava fechada devido ao choro que lutava para sair, porém ainda assim, ela não se deixaria abalar. — Só quem é da minha família pode me chamar assim! Você não tem esse direito! — Concluiu, cuspindo as palavras apressuradamente para demonstrar toda a sua raiva. Aquele era um sentimento que ela definitivamente não se orgulhava em deixar sair, mas as circunstâncias não lhe davam outra opção. Ela odiava aquelas pessoas com todas as forças, e ainda mais após ouvi-los citarem tão descaradamente a possível morte de seu pai.
O soar da fechadura se destrancando a obrigou a recuar, dando alguns passos para trás até que sentisse o corpo tocar algo, atestando o fim da linha. Não tinha mais para onde fugir caso aquele homem enfurecido tentasse algo, e ela sabia que o havia provocado. Sentiu as mãos suarem frio outra vez no momento em que o viu adentrar o cômodo, ficando à sua frente para encará-la diretamente nos olhos. Tinha uma certa melancolia em seu semblante; decerto estivesse até mesmo arrependido por alguma coisa, mas Pan estava decidida a não se deixar enganar outra vez. Ele não era uma boa pessoa, e uma expressão daquelas não seria o suficiente para fazê-la mudar de ideia.
— Mesmo que você não se lembre, eu também cuidei de você quando era mais nova. Eu te vi nascer, e já fiz parte da família Stracci. — Rumorejou, quase como se estivesse esperando por alguma empatia da garota. O tom que havia usado para proferir aquelas palavras escondiam alguma coisa; uma tristeza profunda e esquisita que não condizia com suas ações mais recentes. — Pela sua cara eu presumo que você tenha ouvido a nossa conversa ali fora. — Suspirou conformado.
— Você machucou o papai! — Exclamou cerrando os punhos, na tentativa de conter as próprias emoções e não se permitir ser guiada por elas. Precisava manter a calma, portanto apenas respirou fundo antes de prosseguir: — você machucou o Hector, me sequestrou, e além disso... foi você que tentou sequestrar a Sarah quando éramos crianças, não foi? — Indagou, tendo em mente o rosto do homem que havia lhe trazido o jantar. Era ele; era aquele homem que havia causado tudo, e provavelmente o responsável por tê-lo dado a ordem para fazer aquilo era a pessoa bem à sua frente. A sensação tão familiar e dolorosa que havia sentido quando cruzaram olhares enquanto comia há alguns minutos não poderia ser ignorada. Era impossível esquecê-lo depois de tudo o que havia acontecido após seu primeiro encontro. — Foi você o culpado por fazer o papai me prender em casa por dez anos! Foi tudo você! — Trovejou, gesticulando com as mãos de uma maneira irritada, quase perdendo a sanidade. Ela havia finalmente descoberto o culpado por todos aqueles anos infernais encarcerada, e o estava amaldiçoando mentalmente de todas as maneiras possíveis.
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