Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
30 Fraquezas
Notas iniciais
Aquele ruído insuportável ecoando em sua mente após o disparo acompanhava uma dor de cabeça que a deixava atordoada; sem ter certeza do que acabara de acontecer. Ela seguia com os olhos fechados, ainda encolhida no mesmo lugar enquanto se poupava de precisar ver o cadáver que fosse. O coração acelerado; as mãos suavam frio; o cheiro de sangue embrulhava seu estômago, mas nada disso importava no momento. Só conseguia rezar com todas as forças para que a pessoa atingida não tivesse sido Hector, pois se acabasse machucado por sua culpa outra vez, jamais conseguiria fechar os olhos à noite sem ser atormentada pelo remorso que a consumiria pouco a pouco, dia após dia.
— Pan? — Escutou seu nome ser chamado em tom baixo, abafado pelo som da lesão temporária de suas células auditivas que fora causada pelo estrondoso disparo feito naquele pequeno cômodo. — Pan, consegue me ouvir? — Insistiu.
Ainda com os pensamentos embaralhados e incomodada pelo barulho aborrecível, ela fazia o possível para decifrar quem seria o dono daquela voz, porém os olhos cerrados e a audição danificada dificultavam sua descoberta. No instante que foi envolvida em um abraço caloroso que trouxe consigo um cheiro muito familiar e aconchegante, logo compreendeu que estava segura nos braços de Hector. Era o mesmo aroma da pessoa que a havia beijado no dia em que fora sequestrada, e também a mesma sensação de conforto que sentia todas as vezes que ele permitia sua aproximação.
— Eu sabia que era você. De alguma forma... — Murmurou com dificuldade, quase como se estivesse anestesiada, referindo-se ao beijo.
Hector não conseguiu compreender o que ela havia balbuciado ali, enquanto a pegava em seu colo na tentativa de levá-la para fora daquele lugar imundo que tanto lhe trouxera dor.
— Tire ela daqui, nós vamos limpar a sujeira. — Sandro interrompeu ao adentrar o quarto, observando com estranheza o excesso de sangue espalhado pelas paredes; em especial naquela em que estava apoiado o cadáver de Vincenzo. Ele sabia muito bem que aquele único disparo que ecoara pelos corredores da casa não poderia de maneira alguma ter sido efetuado por um fuzil, e era exatamente essa arma que seu aliado tinha em mãos. — Não pode ter sido isso... certo? — Sussurrou intrigado, passando suavemente os dedos no queixo enquanto tentava decifrar o ocorrido.
— Disse alguma coisa, Sandro? — Um de seus companheiros inquiriu, e o conselheiro apenas acenou negativamente com a cabeça em resposta.
Pan estava gradativamente recuperando sua audição. Seu pulmão já parecia mais limpo; tornara-se mais fácil respirar assim que fora carregada até o lado de fora. Hector a segurava com força, parecia um pouco irritado; talvez até mesmo aflito. O cenho franzido, a pegada firme e linhas de expressão bem marcadas em seu semblante esboçando um certo amargor. Não aparentava estar normal.
— Pode me colocar no chão se quiser. — Ela rumorejou tocando-lhe a bochecha com uma das mãos. Com a sensação de seu toque, Hector amenizou o olhar e fitou-a com ternura. — Eu sei que sou pesada.
— Eu não sei se quero te soltar. — Disse frio, virando o rosto até que seus lábios tocassem o pulso da garota que ainda encostava em sua face, beijando-o carinhosamente. — Sinto que se eu te deixar ir, você vai sumir outra vez. — Acrescentou, hesitantemente levando-a até o carro e posicionando-a com cuidado no banco de trás.
— Eu não vou mais sumir, eu prometo.
— Você sempre some. — Retrucou em um timbre chateado, fazendo questão de encará-la diretamente nos olhos antes de seguir: — E eu estou sempre tentando te alcançar, mas não importa o quanto eu tente, você fica cada vez mais distante.
— Hector...
— Perdão. Eu não devia ter dito isso.
— Eu estava com medo. — A voz dela falhou; sua garganta já estava se fechando com o choro que lutava para sair. — Eu fiquei com tanto medo de ficar presa e sozinha outra vez. Ele... ele disse que o papai estava no hospital depois de tomar um tiro, e eu não sabia o que fazer. — Gaguejou em meio às lágrimas, autorizando-se a desabar ali mesmo.
— Perdão. Eu nunca mais vou te deixar sozinha, eu prometo. — Suspirou desapontado consigo mesmo, abraçando-a com força ao mesmo tempo que a permitia afogar as mágoas e limpar o rosto em sua camisa. Enfiou os dedos suavemente entre os cabelos dela, puxando-a para ainda mais perto e depositando um leve beijo no topo de sua cabeça. Culpava-se por não ter sido capaz de evitar seu sofrimento, ciente de que, caso houvesse ignorado seus sentimentos, nada disso teria acontecido, e ela não teria sido obrigada a passar por essa situação.
— Não é sua culpa, eu... — ela respirou fundo, contornando o pescoço dele com seus braços, no intuito de se sentir melhor. Tê-lo por perto a confortava de uma maneira inexplicável. — eu deveria ter te obedecido aquele dia.
— Você não tem culpa da minha fraqueza. Não precisa se obrigar a fazer coisas que não quer. Nunca mais. — Respondeu sereno, afastando-se um pouco para inclinar o queixo dela com seu indicador, cruzando seus olhares outra vez. — Você já teve muito tempo da sua liberdade roubado.
— Hector, eu...
— Garoto! — Sandro interveio, fazendo com que ele sobressaltasse com o susto e rapidamente se separasse dela. — Nós precisamos conversar. — Comentou sério.
Hector pigarreou e ajeitou o terno, empenhando-se em não demonstrar que quase havia perdido a compostura há alguns segundos. Ela simplesmente sorriu de canto e acenou com a cabeça, como se concordasse com seu distanciamento para que pudessem conversar em paz. Quando constatou que não estavam atentos às suas ações, saiu rapidamente do carro e escondeu-se atrás de uma lata de lixo, perto o suficiente para que pudesse ouvir a conversa.
— Que merda aconteceu lá dentro? — O conselheiro questionou com as sobrancelhas arqueadas. — Aquele tiro não saiu de um fuzil, então como o Vincenzo está morto?
— O filho da puta cometeu suicídio. — Rosnou frustrado, puxando um cigarro e um isqueiro do bolso do colega e acendendo-o entre os dentes. — Merda, ele não me deu nem a chance de estourar os miolos dele pessoalmente. Parece que ele já pretendia se matar, mas queria infernizar a nossa vida antes disso.
— O desgraçado era louco. — Deu de ombros, também acendendo um tabaco para si. — Aliás, pensei que tinha parado de fumar. Não conseguiu largar o vício?
— É, tem a porra de um vício que eu realmente não consigo largar, mas não é o cigarro. — Exprimiu seco, referindo-se à Pan. Ela era a única coisa da qual ele jamais podia abrir mão, e isso o enlouquecia vez ou outra. — De qualquer forma, eu só fumo quando preciso de um descanso mental.
— Entendi. O que realmente aconteceu lá dentro? Em detalhes.
— Antes de estourar a própria cabeça com uma pistola de 9mm ele mexeu os lábios querendo dizer alguma coisa. Pelo que eu entendi, era "cuide da bambina".
— Não faz sentido esse filho da puta falar um negócio desses depois de colocar a sua cabeça na guilhotina com aquela foto de vocês dois se beijando.
— Mesmo assim...
— Não vai me dizer que você se arrependeu da morte dele.
— Que patético. Eu nunca me arrependeria de matar qualquer um que colocasse as mãos nela. Você sabe perfeitamente que eu já matei por muito menos, mas não sei, ele era estranho.
— Ele sempre foi excêntrico. — Sandro deu duas batidas em seu fumo e baforou a fumaça que havia tragado, seguindo conversa logo após: — Mas não dá pra negar que ele sempre tratou ela como uma filha. Eu lembro muito bem do dia que a bambina nasceu, e ele foi o primeiro a comprar um milhão de coisas pra ela.
— Você sabe o motivo dele ter sido expulso?
— Acredite, meu amigo... — Ele colocou a mão em seu ombro como se lhe pedisse para não falar mais nada, negando com a cabeça. — esse é um buraco antigo que você não quer voltar a cavar. — Completou ríspido, jogando o resto de seu tabaco no chão e pisoteando-o para apagá-lo. O mais novo fez o mesmo enquanto o observava se retirar.
— Me surpreende que você tenha aguentado tanto tempo perto da fumaça. — Hector riu, debochando de sua protegida que pensava estar escondida como uma ninja, atrás daquela lata de lixo ao mesmo tempo que tentava desesperadamente segurar o fôlego. — Eu já apaguei o cigarro, pode sair daí.
— Então você já sabia. — Bufou desanimada, acercando-se dele com os braços cruzados e um semblante derrotado.
— Discrição nunca foi o seu forte, mocinha. — Afagou seus cabelos para provocá-la.
— E mesmo assim você me deixou ouvir tudo isso? Quem é você, e o que você fez com o chato do Hector?
— Você vai ter que prometer guardar segredo do Don, ou então eu vou precisar te matar, senhorita Stracci. — Ironizou, com uma curva ladina nos lábios. — Ele não pode saber que eu estou corrompendo a filhinha querida dele.
— Você é muito bobo. — Revirou os olhos e deu-lhe um leve tapa no ombro, antes de surpreendê-lo ao entrelaçar os braços em sua cintura e levantar a cabeça para encará-lo corretamente. Ele era mais alto, afinal. — Ei, será que a gente pode conversar?
— Eu pensei que você estivesse cansada e morrendo de vontade de ir pra casa, mas continua a mesma sem noção de sempre. Nem mesmo um sequestro consegue te derrubar?
— Eu quero ir pra casa, você sabe muito bem disso! Quero abraçar a Sarah, ver a mamãe, visitar o papai, tomar um banho, usar as minhas próprias roupas limpas, comer a sua comida gostosa e dormir na minha cama quentinha, mas eu tenho medo de que se eu fizer isso você não vai querer conversar comigo depois.
Hector arregalou levemente os olhos, liberando um fraco suspiro ao tentar conter a confusão de sentimentos que lutavam para tomar o controle de suas ações. Vê-la naquele estado tão frágil, mais quebrada do que nunca, o matava por dentro.
— Não vou fugir, eu prometo. — Buscou falar de modo suave, como se estivesse se comunicando com um pequeno animal selvagem e amedrontado. Era exatamente essa a imagem que tinha daquela garota nesta ocasião. — Seu pai está vivo, se recuperando rápido, e a Santoro apesar de preocupada está bem. Alice continua o mesmo enigma de sempre, mas parecia estar sensibilizada por você. Agora eu vou te levar pra casa, você vai tomar um banho decente enquanto eu cozinho alguma coisa e depois eu fico à sua disposição para quando quiser conversar, tudo bem? — Complementou gentilmente. Agia de maneira tão doce que nem ao menos conseguia reconhecer a si mesmo. Uma coisa era tratá-la como sempre, mas agora esforçava-se para ser a pessoa mais dócil e querida possível, sem nem compreender o porquê. Talvez fosse por piedade; por culpa; ou até mesmo pelo fato de que, talvez, aquele pudesse ser um dos últimos momentos que passariam juntos antes do despertar de Hans.
— Você promete mesmo? — Ela perguntou com os olhos brilhantes e esperançosos, levantando seu dedo mindinho em sua direção.
— Sim, eu prometo. — Retribuiu ao gesto, aproveitando para entrelaçar os dedos nos dela. — Vamos sair desse lugar e deixar os outros homens cuidarem de tudo por aqui. — Terminou, acompanhando-a até o carro.
O trajeto foi extremamente silencioso. Ela estava exausta de todos os jeitos possíveis, principalmente por não ter conseguido dormir durante o tempo em que ficara encarcerada no esconderijo com seus sequestradores. Suas olheiras chegavam a ser chamativas, e além dos insetos que a atormentavam, também havia o pavor instaurado que não a permitia cerrar os olhos na presença daqueles sujeitos. Hector sabia muito bem disso, portanto fez questão de dirigir vagarosamente para que ela pudesse descansar por mais tempo antes de precisar lidar com a realidade de novo. Vê-la tão serena e inocente em um sono profundo através do espelho interno do carro ocasionalmente trazia um sorriso ao seu rosto, além de um sentimento terno. Tê-la novamente perto de si era mais do que o suficiente para restaurar sua humanidade, e mesmo que não fosse capaz de estar fisicamente presente ao seu lado daqui em diante, jurou à si mesmo que jamais deixaria algo assim acontecer outra vez.
— Cadê ela? — A voz de Alice fez-se audível no instante que o veículo fora estacionado. Pan não pôde evitar acordar com tanto alvoroço, esfregando os olhos ainda sonolenta. — Minha menina. — Puxou-a para um abraço forte, sendo prontamente retribuída. Tanto ela quanto Hector se admiraram, pois Alice não era o tipo de mulher capaz de demonstrar sentimentos. Aparentemente sua filha era uma enorme exceção.
— Mamãe...
— Aquele velho maníaco relou em você? Ele tentou alguma coisa? — Ela tagarelava enquanto apalpava sua primogênita procurando por hematomas. — Eu juro que se ele te machucou ou tentou te tocar de algum jeito indecente eu vou cortar todos os dedos dele e fazer ele engolir um por um antes de morrer.
— Alice. — Hector interveio, limpando a garganta para disfarçar e mudar de assunto antes que ela pudesse acabar assustando a própria filha. Ela pareceu entender rapidamente, empenhando-se para colocar um sorriso no rosto.
— Desculpe, querida. Eu nunca faria algo assim, é óbvio, mas só de imaginar aquele desgraçado colocando as mãos em você... — Mentiu descaradamente. Ele pôde apenas arquear as sobrancelhas, imaginando como ela conseguia fingir com tanta naturalidade, mesmo com a única pessoa que a fazia demonstrar um mínimo de empatia. Há algumas horas estava tão alegremente torturando um moleque com praticamente a mesma idade de sua pequena, e agora agia como se fosse minimamente humana. Chegava a ser cômico.
— Eu fui a quem menos sofreu com isso tudo. O papai está no hospital, o Hector se machucou, e agora uma pessoa morreu por minha culpa. — Respondeu cabisbaixa.
— Aquele homem ia morrer mais cedo ou mais tarde com as loucuras dele. Ele vivia provocando muita gente perigosa, e além disso, os dois homens da sua vida estão bem. — Alegou no intuito de confortá-la, emoldurando seu rosto com as mãos. — Você é muito mais forte do que pensa que é.
— Pan! — O timbre de Sarah ecoou por todo o bairro calmo, e em poucos segundos ela já havia corrido desesperadamente em direção à amiga para envolvê-la calorosamente em seus braços. — Pan, é você mesma, não é? Eu não estou sonhando, por favor, me fala que isso não é um sonho e que você realmente está bem. — Continuou em tom de súplica, sendo dominada pelas emoções que pareciam borbulhar em seu âmago.
— Sarah, eu senti tanto a sua falta. — Disse comovida, notando os olhos já marejados pela felicidade de estar reunida outra vez com sua família. — Me desculpa por te preocupar.
Ela chorava como um bebê que havia acabado de nascer. E, sinceramente, ela sentia como se realmente houvesse renascido; aliviada por poder segurar daquela maneira a pessoa que mais amava. A volta de Pan trazia-lhe vitalidade; vida àquele olhar que havia esfriado com seu sumiço. Era como uma brisa refrescante em meio ao deserto.
— Eu é quem deveria pedir desculpas. Você deve ter se sentido tão sozinha.
— Ruivinha! — Evan acercou-se em instantes, obrigando Hector a fechar sua expressão ao ouvir sua voz que tanto considerava insuportável. As garotas voltaram o foco em sua direção, embora Sarah não parecesse querer soltar a mão da considerada irmã. — Você está bem? A Sarah disse que ia te esperar aqui, então eu vim na esperança de conseguir conversar com você também.
— Evan, eu... — Ela hesitou, afagando os cabelos um pouco nervosa, sem saber como deveria explicar o motivo de seu desaparecimento. O colega percebeu sua inquietação e envolveu-a em um carinho reconfortante. Hector franziu o cenho irritado, arrancando algumas risadas discretas de Alice.
— Oi, Pan. — Chris interrompeu acanhado, um tanto sem graça por tê-los separado. Podia jurar que havia visto o colega revirar os olhos. — No caminho pra cá eu acabei perguntando pra Sarah sobre coisas que você gostava, e quando nós passamos na frente de uma barraquinha ela me disse que você nunca tinha comido um hot dog americano, então eu comprei um pra você. Sei que não é muito, mas eu não sabia o que trazer, e você é minha amiga, e... bom, eu não sei, eu só... — Gaguejou sem conseguir completar sua fala. Todos aqueles olhares voltados para ele o intimidavam, em especial os de Hector e Alice. Era como se pudessem ver através de sua alma. A amiga, no entanto, ficara emocionada com seu gesto e correu para abraçá-lo, agradecida por saber que podia contar com amizades tão incríveis.
— Então é esse o seu namoradinho? — A mãe dela encarou-o da cabeça aos pés. Na mesma hora ele prontificou-se a desviar o olhar até Sarah, sem saber o que fazer. Hector e Evan instantaneamente disseram "não" em uníssono; o primeiro em um tom mais calmo, desinteressado, e o segundo quase em um grito afobado. Pan simplesmente sorriu de canto e acenou negativamente com a cabeça.
— Eu sou só um amigo, senhora, muito prazer. — Apresentou-se e estendeu a mão educadamente. Seu cumprimento foi ligeiramente retribuído, e ela esboçou um sorriso cordial.
— Sei. Eu agradeço a visita, crianças, mas minha filha está cansada, então vamos deixar a conversa pra outro dia, certo? — Alice direcionou um olhar mortífero à Evan, ciente de que ele pretendia conversar com a garota sobre o que havia descoberto sobre sua família. Tudo o que ela não precisava era de mais problemas, em especial enquanto estava mentalmente esgotada, após ter voltado de uma situação tão horrível quanto um sequestro. — Hector, me faça uma favor e leve ela lá pra cima.
Sem paciência e com muita vontade de arrastá-la para longe de toda aquela bagunça, ele assentiu, permitindo que ela se despedisse brevemente das visitas. Ela não conseguia evitar fitá-lo com curiosidade enquanto subiam as escadas, em especial depois de ter bisbilhotado sua conversa com Sandro. Tinha tantas coisas para perguntar, porém havia decidido esperar até que ele estivesse disposto a respondê-las, se contendo para não incomodá-lo. Ao menos por agora.
— Hec? — Chamou-o manhosa, segurando a manga de seu terno antes que pudesse sair e deixá-la sozinha em seu quarto. Ele cessou os passos e a esperou continuar: — Você pode pedir pra Sarah subir e tomar banho comigo?
— Eu tenho quase certeza de que ela vai ter que sair com a Alice agora.
— O quê? Mas ela acabou de chegar, e eu não vejo ela faz tempo.
— Ela e o Diego vão ficar como acompanhantes do seu pai hoje, no hospital. A Alice tem negócios pendentes para resolver, o Sandro está cuidando do caso do Vincenzo, e eu vou ficar com você. Ninguém confia no Diego sozinho, então ela se ofereceu para ajudar.
— Eu também queria ver o papai e ficar com todo mundo. — Suspirou entristecida.
— Se você quiser eu posso te levar no hospital amanhã, mas hoje é melhor você ficar em casa e descansar.
— Eu não quero ficar sozinha.
— Eu estou aqui. Não vou te deixar sozinha, eu prometo.
— Mas você não vai tomar banho comigo! — Reclamou, fazendo com que ele arqueasse as sobrancelhas surpreso, empurrando suavemente a sua testa com o indicador para provocá-la. — Ei!
— Eu pensei que você tinha amadurecido um pouco, mas continua a mesma sem noção de sempre. — Sorriu.
— Você pode pelo menos ficar no meu quarto? Eu vou deixar a porta do banheiro aberta. — Pediu insegura.
— Escuta, Pan, olha pra mim. — Requereu em uma entonação suave, passando delicadamente os dedos entre algumas mechas daqueles fios escarlate que tanto amava. — Se ficar sozinha te dá tanto medo, eu vou ficar com você, tudo bem? É o meu trabalho garantir a sua segurança.
— Sim, eu quero. Por favor. — Assentiu satisfeita, verificando-o sentar em sua cama para aguardá-la. Convencida, pegou algumas roupas na gaveta e colocou-as acima da pia, antes de despir-se com a porta semiaberta. — Eu já tomei banho hoje, mas eu continuo me sentindo suja. — Comentou ao mesmo tempo que ligava seu chuveiro.
— Você tomou banho hoje? Como isso é possível? Não me diga que algum daqueles desgraçados te viu sem roupa.
— Não, o Vincenzo ficou do lado de fora. — Respondeu indiferente. Ele pôde respirar tranquilo outra vez.
Assim que esticou-se para aumentar a temperatura da água, bateu os olhos no vidro ao seu lado e assustou-se com a visão, soltando um breve grito e correndo para fora do cubículo em que se banharia.
Hector instantaneamente sacou seu revólver e adentrou o local, preocupado que alguém pudesse ter invadido a casa na intenção de machucá-la. Os capangas de Vincenzo ainda estavam soltos por aí, afinal.
— O que aconteceu? Você está bem? — Inquiriu aflito. No instante que seus olhos percorreram até ela, constatou que não estava coberta por uma toalha e nem ao menos fazia questão de buscar esconder o corpo desnudo, mesmo em sua presença. Sem querer desrespeitá-la, tomou a iniciativa e desviou o olhar para o lado contrário, aguardando por uma resposta.
— Tem uma aranha dentro do chuveiro, Hector!
— Você... — Ele pensou em dizer algo, mas se conteve e cerrou completamente a vista, respirando fundo antes que pudesse falar alguma besteira e magoá-la. Estava frustrado por ter invadido sua privacidade por algo tão fútil, e o pior era que, em suas recordações, ela nunca havia temido insetos, muito menos aracnídeos. Dado por vencido apenas suspirou e livrou-se do ser que a incomodava, jogando-o pela janela. — Pronto, eu já tirei ela. Pode tomar o seu banho. — Advertiu, dirigindo-se até a porta sem mirá-la.
— Desculpa, parece que eu tenho o dom de te irritar, né? — Perguntou chateada, mordiscando os lábios. Conseguira identificar certa revolta na fala daquele homem.
— Eu não estou irritado, Pan, só... da próxima vez que precisar da minha ajuda pra esse tipo de coisa, por favor se cubra com uma toalha antes. — Retrucou, lutando para manter a compostura e acomodando-se outra vez na cama. Podia jurar que qualquer dia desses acabaria morto por causa daquela menina.
— Tudo bem, me desculpa outra vez. E obrigada por ter me ajudado.
— Não precisa pedir desculpas por isso. — Esclareceu em tom calmo, com a intenção de fazê-la perceber que não estava irritado. Sabia que não era sua culpa, e que provavelmente estava traumatizada com alguma coisa; algo que a fazia recordar-se de um momento ruim. — Tinham muitas aranhas lá? No quarto aonde eles te deixaram? — Indagou ressentido. Recusava-se a aceitar que a haviam feito sofrer daquela maneira.
— Sim. Em todas as paredes, e às vezes nos colchões também. — Desabafou reprimida. Quando aquelas palavras saíram de seus lábios, ela inconscientemente limpou-se com mais força, até que sua pele ficasse avermelhada e começasse a arder. Era como se quisesse livrar-se de algo que não existia ali, porém a sensação de nojo não sumia de maneira alguma, incomodando-a profundamente. Depois de um bom tempo, decidiu sair do banho e vestiu-se apressada, caminhando até o quarto e abancando-se ao lado de Hector, ainda com uma toalha úmida enrolada nos cabelos. — Que frio! — Exclamou esfregando os braços para esquentá-los.
— Foi você quem decidiu lavar o cabelo tão tarde. — Ele a repreendeu, apoiando um cobertor em seus ombros.
— Eu quero te perguntar tantas coisas...
— Tem certeza? Você nem jantou ainda.
— Foi você quem eu beijei aquele dia, na casa dos pais da Sarah, não foi? Eu ouvi você e o tio Sandro falando sobre uma foto de beijo que o papai não gostou. Ele vai ficar bravo com você por isso?
— Tantas coisas melhores pra perguntar e você tinha que ir logo aí. — Rosnou desapontado, negando com a cabeça.
— Era o seu cheiro. Eu sabia que era familiar, mas eu não consegui identificar na hora. Me desculpa por ter feito você e o papai brigarem.
— Você está se desculpando muito hoje. Aquele desgraçado realmente bagunçou as coisas antes de se matar. — Rumorejou irritado, acercando-se dela e empurrando-a até que deitasse na cama. Prensou seus pulsos contra o colchão e posicionou-se acima dela, fitando-a de cima para baixo com certo fervor. — Foda-se essa porra.
— Hec? — Chamou admirada, estranhando aquele tipo de atitude vinda dele, que era normalmente tão calmo e racional. Parecia estar diferente.
— Fui eu quem quis te beijar aquele dia. Eu te conheço muito bem, e sabia perfeitamente que você andaria reto até achar alguma coisa pra se apoiar, então eu sentei ali propositalmente. Não foi sua culpa. Fui eu quem passei dos limites, Pan Stracci.
— Você fez isso de propósito? Mas por quê?
— Eu poderia ter deixado você pensar que a culpa era sua e conviver com isso, mas eu não quero mais te ver se desculpando pelas merdas que eu faço por ser um fraco. — Replicou com ternura, aproximando ainda mais o seu rosto do dela. — Eu fiz isso porque eu...
— Garoto? — A voz de Sandro fez-se audível, interrompendo o momento e obrigando-o a afastar-se dela instantaneamente. — Você perdeu a cabeça? É melhor você ter uma explicação muito boa pra isso, se não quiser que eu estoure seus miolos agora mesmo. — Ralhou enfurecido, puxando o seu revólver do bolso interno de seu paletó.
Fale com o autor