Notas iniciais
Eu juntei dois capítulos em um pra compensar vocês pela demora, então esse acabou ficando um pouco maior ♥ Cheio de drama, emoções, sentimentos, e obviamente, treta, pq destinos cruzados não é destinos cruzados se não tiver treta, né? :3 Espero que vocês gostem da leitura ♥ Só uma observação: Talvez vocês estranhem a palavra "padrinho" sendo usada pra se referir ao Hans, mas é comum na máfia os membros/associados chamarem o chefe de pai/padrinho. Agora siim, boa leitura ♥

Hector pigarreou e tentou disfarçar a gafe que acabara de cometer, lutando para reorganizar os pensamentos antes que pudesse dizer alguma besteira. Não conseguia acreditar que estava prestes a se permitir declarar-se após tantos anos apaixonado em silêncio, e o pior de tudo era que a garota nem ao menos tinha se dado conta sobre o que havia acontecido ali. Ela esboçava uma expressão curiosa; confusa, que o obrigara a soltar um suspiro decepcionado. Tanto risco e esforço para nada.

— Por que você tá tão bravo, tio Sandro? — Ela soou manhosa, fitando-o com os olhos brilhantes e lábios semiabertos, tão inocentemente aguardando por uma resposta.

— "Tio Sandro"? — Repetiu admirado, sem conseguir esconder o sorriso satisfeito que lutava para aparecer em seu rosto. Instantaneamente abaixou sua guarda e aproximou-se dela para acariciar-lhe os cabelos com ternura, esquecendo-se até mesmo do que Hector havia feito. — Faz tanto tempo desde a última vez que me chamou assim.

Como estava tão próximo, ela aproveitou para abraçá-lo o mais forte que conseguia, perdendo-se no carinho e no cheiro de nicotina, sangue e suor que ele exalava, assim como seu pai. Trazia-lhe uma sensação calorosa. A surpresa por parte dele fora inevitável, já que não esperava algo como aquilo, porém retrucou o gesto e envolveu-a em seus braços com afeição; a afeição de um pai com sua filha. Um pouco ladina, ela virou levemente a cabeça para o lado e direcionou uma piscadela à Hector, acompanhada de um sorrisinho triunfante. Era como se ela estivesse tentando distrair aquele homem para ajudá-lo.

Será que ela havia se dado conta de alguma coisa, afinal?

— O tio Vincenzo me disse que eu costumava chamar vocês dois assim quando era mais nova. — Comentou, voltando novamente sua atenção ao sujeito que a tinha em seus braços.

— "Tio Vincenzo"? — Hector arqueou as sobrancelhas em reprovação. — Você sabe que aquele psicopata desgraçado te sequestrou, não é? — Acrescentou em timbre frustrado.

— Eu sei, mas ele já pagou por isso. — Ela respondeu com a voz baixa e chateada. Lembrar-se de que havia causado a morte de alguém realmente a magoava por dentro, mesmo que esse alguém fosse tão desprezível quanto aquele indivíduo. — Eu não vou guardar rancor dele por isso. Eu já perdoei ele.

— Você o quê? — Franziu o cenho e dessa vez arregalou um pouco os olhos em espanto.

Ela deu de ombros, fazendo-o revirar os olhos e cruzar os braços para suspirar decepcionado. Não conseguia compreender o que se passava na cabeça daquela garota, e muito menos como ela podia tão naturalmente perdoar o homem que havia feito um caos em sua família.

— É verdade que você também chamava ele assim, mas depois do incidente ele se afastou da famiglia — Sandro iniciou conversa outra vez, mudando o assunto — e então você cortou esse apelido do seu vocabulário. Eu lembro que você ficou chorando por dias depois da partida dele, bambina.

— Eu chorei por ele? — Indagou comovida, e o conselheiro assentiu afirmativamente com a cabeça. — E o que foi esse incidente? — Perguntou esperançosa. Havia bisbilhotado sua conversa com Hector anteriormente e sabia muito bem que o assunto era um tabu, mas não pretendia desistir. — Por favor, eu só quero saber o motivo dele ter tanto ódio pelo papai. — Pediu uma vez mais, fitando-o com aqueles olhos brilhantes e pidões que sempre fazia quando tentava convencer alguém de suas loucuras.

— Você deveria parar de se meter em tantos problemas, pequena. — Respondeu com um sorriso maroto, tocando-lhe a testa como se dissesse que não cairia em seus truques, mesmo que o encarasse daquela maneira. Ela desvencilhou-se do abraço e fez biquinho, um pouco chateada por não ter conseguido as respostas que queria. — Bom, eu vou ficar no quarto de hóspedes porque não confio em vocês dois sozinhos na casa à noite. Deixei o tal cachorro-quente que o seu amigo trouxe na cozinha, mas eu não recomendaria que você comesse aquilo. Eu particularmente odeio essas porcarias. — Alertou antes de sair, fazendo questão de deixar a porta aberta para mostrar que ficaria de olho em ambos.

— Como assim ele não confia na gente? O que ele acha que vamos fazer? Destruir a casa? — Tagarelou fazendo biquinho, sem compreender o verdadeiro significado daquela frase.

Hector não pôde evitar o sorriso abafado que saíra de seus lábios, achando graça de tanta inocência.

— Você deve estar com fome. Quer que eu prepare algo pra você? — Ofereceu em tom carinhoso, aproximando-se dela com cautela. Não queria se meter em problemas outra vez.

— Não precisa, você está cansado. — Negou com a cabeça um tanto acanhada. — Eu vou comer o que o Chris trouxe.

— Eu te conheço bem, e sei que algo tão pequeno não vai matar sua fome. — Sorriu, estendendo uma das mãos em direção à ela. — Vem, eu vou preparar o que você quiser.

— Sério? Qualquer coisa? — Animou-se instantaneamente, entrelaçando os dedos nos dele com afeto. — Então eu quero risoto.

— Eu já esperava por isso.

— E eu posso comer os cannolis que o papai deixou na geladeira como sobremesa?

— Você até pode, mas se alguém perguntar eu não sei de nada. — Alegou maroto, acompanhando-a até o andar de baixo.

— Combinado. — Ela riu.

Pan acomodou-se no sofá e decidiu entreter-se com a televisão, comendo seu cachorro-quente enquanto aguardava até que Hector terminasse de cozinhar. Depois de alguns instantes, sua atenção foi tomada pela vibração de seu celular que chacoalhava o assento, e assim, ela limpou as mãos na almofada para atendê-lo, torcendo para que ninguém descobrisse o que havia feito. Seu pai não ficaria nada feliz em saber que tinha ketchup em uma das almofada do sofá da sala principal.

— Pronto? — Respondeu apressada, tentando desesperadamente engolir o pedaço que havia mordido.

Conseguiu descansar um pouco, ruivinha? — A voz do outro lado da linha era familiar, e soava preocupada.

— Evan?

Mas olha só, já tá ficando esperta, né? — Disse em tom de provocação, causando um chiado na chamada ao rir próximo ao aparelho.

— Eu consigo te reconhecer pelo jeito de me chamar. — Gabou-se.

Meu Deus, você não consegue entender ironia mesmo. — Ele riu outra vez. — Enfim, como foi a sua primeira experiência comendo um hot dog? Achou gostoso?

— Sim, eu gostei muito! Tô comendo ele agora, inclusive. — Deu mais uma mordida em seu petisco, voltando a falar: — Vocês precisam me dizer aonde fica esse lugar pra eu arrastar a Sarah comigo.

Tá legal. — Concordou. — Eu te conto com uma condição.

— Como assim?

Um favor por outro, ruivinha.

— Que favor?

Você precisa me encontrar amanhã, no portão do colégio, às 2 da tarde. Quando você chegar lá eu te conto.

— Como assim? Pra quê? — Questionou franzindo o cenho.

Você só vai descobrir se aparecer por lá. — Retrucou quase como se fosse uma ameaça. Ela não conseguia entender as intenções por trás daquele pedido tão repentino. — Até amanhã, ruivinha.

— Evan? — Chamou na tentativa de seguir com a conversa, porém não obteve sucesso. Ele já havia desligado, e aquilo a incomodara profundamente. — Qual o problema dele, caramba? — Bufou, jogando-se no sofá e abraçando uma das almofadas limpas.

— O que aquele imbecil queria? — A voz de Hector fez-se audível em uma entonação cheia de desdém, assustando-a com o excesso de proximidade. Ela nem ao menos havia percebido que ele a estava encarando com os cotovelos apoiados no encosto do móvel.

— Eu não sei. — Deu de ombros. — Ele só me pediu pra me encontrar com ele amanhã às 2 horas da tarde.

— Sabe que eu não posso te deixar ir, mesmo que você queira. — Acercou-se vagarosamente, acomodando-se ao lado dela. — É o horário que a Alice me pediu para te levar ao hospital para visitar o seu pai.

— Eu sei, mas ele desligou antes que eu pudesse avisar.

— E essa sua cara emburrada é por isso? Ele no máximo vai ficar esperando por você alguns minutos e vai voltar pra casa quando perceber que você não vai aparecer, então não precisa se preocupar.

— É, eu acho que sim.

— De qualquer forma, a comida está pronta, então espero que esteja com fome. — Anunciou com a intenção de mudar de assunto.

— Muita fome! — Exclamou afobada, levantando-se com rapidez e correndo até a panela. Ele não pôde evitar o sorriso que sempre aparecia em seu rosto ao vê-la agindo daquela maneira tão infantil. A apreciava daquele modo, embora soubesse que ela estava amadurecendo lentamente enquanto convivia com outras pessoas. Talvez aquele seu jeito tão vívido e único desaparecesse, porém ele jamais deixaria de amá-la por isso. — Você não vai comer? — Indagou animada.

— Ah, eu pretendia, mas eu sei que não vai sobrar nada. — Retrucou esboçando um sorrisinho irônico, observando o enorme prato que ela havia servido para si. Um pouco sem graça após ouvi-lo dizer aquilo, a moça pretendia devolver metade para a panela, porém ele a deteve ao segurar seu pulso e pegar o objeto do fogão antes que ela pudesse fazer qualquer coisa. — Era uma brincadeira, Pan. Eu não como tanto quanto você, então isso é mais do que suficiente.

— Crianças — A voz de Sandro ecoou pelo cômodo, interrompendo-lhes antes que ela pudesse dar uma resposta à Hector — eu preciso ir até o depósito. Aconteceram algumas coisas e eu estou responsável por cuidar disso agora que o chefe não está. — Acrescentou, buscando pegando apressadamente seu sobretudo do mancebo e as chaves do carro. — Aliás, a casa está cercada de homens, caso alguma coisa aconteça, mas eu espero muito que nada aconteça, tanto lá fora quanto aqui dentro. — Falou enquanto encarava Hector diretamente, com um semblante sério e ameaçador. Ele levantou as mãos para demonstrar que se rendia, e então o conselheiro pôde retirar-se tranquilamente, deixando-os à sós.

— E foi ele quem disse que não confiava na gente, e que nunca nos deixaria aqui sozinhos. — Pan comentou em tom de deboche, fazendo seu acompanhante sorrir.

Ela sentiu-se um pouco intrigada com aquela saída tão repentina, e logo começou a fitar com curiosidade o homem à sua frente, que lutava muito para ignorá-la, ciente de que em breve alguma pergunta constrangedora surgiria.

— O que você queria me falar antes do tio Sandro entrar no quarto? — A garota não perdeu tempo, anunciando prontamente a tal pergunta constrangedora que ele tanto queria evitar e deixando-o completamente desconfortável. — Você disse que sabia aonde eu ia e que tinha ficado ali de propósito. Por quê? — Insistiu sem desviar o olhar.

— Não tem nenhum motivo específico, na realidade. — Mentiu, lutando para manter a calma. Aquela garota mexia com todo o seu ser, de uma maneira inexplicável. Cada vez que era obrigado a esconder seus sentimentos e desviar do assunto sentia como se tivesse perdido alguns anos de vida. Ele a amava tanto que chegava a ficar sem fôlego, mas era impensável que, naquelas circunstâncias, ele se permitisse cair em tentação novamente. Hans Stracci era o homem à quem ele devia a própria vida, e com certeza cortejar a sua filha não estava nos planos; ou ao menos não deveria estar. — Eu só queria evitar que você fizesse alguma besteira e acabasse beijando um desconhecido outra vez. — Cerrou o punho abaixo da mesa, empenhando-se para conter suas emoções. Aquele olhar dela como se estivesse esperando por algo a mais o matava por dentro. Ele definitivamente havia perdido alguns anos de vida com aquela conversa.

— Se você queria tanto assim me beijar, era só pedir. — Exprimiu dando de ombros. — O Evan me pediu e eu não me importei. — Seguiu comendo tranquilamente, sem saber o verdadeiro peso daquelas palavras. Para ela, aquilo nada mais era do que um gesto amistoso; uma demonstração de afeto entre pessoas próximas, e bom, Hector e ela eram muito próximos.

Irritado ele a encarou pelo canto dos olhos, sem demonstrar sinal algum do que sentia realmente naquele instante. Estava à beira da loucura ao precisar recordar-se daquele maldito fato outra vez, mas não demonstraria nem que acabasse morto por isso. Era muito orgulhoso.

— Como se eu tivesse esse tipo de interesse em uma criança como você. — Forçou um sorrisinho triunfante. — E além disso, você precisa parar de sair beijando as pessoas só porque elas pedem, sua idiota.

— Eu não sou mais uma criança! — Ralhou fazendo biquinho.

— Tem certeza? — Ele arqueou as sobrancelhas, esboçando uma aura desafiadora.

— Você sabe muito bem que eu faço dezoito anos em alguns meses. — Contestou, enfiando outra garfada de comida na boca. — Nós não temos nem sete anos de diferença.

— Então que tal começar a agir como alguém da sua idade? Eu não vou estar aqui pra sempre, sabia? Em algum momento você vai ter que se virar sozinha.

— Mas você tá aqui agora, então tudo bem. — Retirou os pratos da mesa e levou-os até a pia. — Eu sei que tem muitas coisas novas, mas eu estou me esforçando e aprendendo tudo no meu próprio ritmo. Eu tenho você e a Sarah comigo, então tudo vai ficar bem.

— E não é que você acabou amadurecendo um mínimo? — Provocou, fazendo-a mostrar a língua em desaprovação. — Mas talvez eu precise me afastar mais cedo do que você imagina. — Sussurrou cabisbaixo, referindo-se ao fato de talvez acabar sendo expulso da famiglia por sua falha. No pior dos casos, até mesmo morto. Tocar com desejo na única e preciosa filha do Don e deixá-la ser sequestrada após hesitar por algo tão idiota quanto sentimentos era provavelmente o único erro que ele jamais perdoaria; em especial depois de ouvir seu braço direito assegurar-lhe inúmeras vezes de que não sentia nada pela menina.

— O que você disse? — Ela inquiriu em tom alto, buscando o controle da televisão para desligá-la. — A TV estava muito alta. Não consegui ouvir.

— Não foi nada. — Retrucou ríspido, limpando a garganta antes de continuar: — Eu vou subir para dormir, e você deveria fazer o mesmo.

— Hector, espera. — Segurou-o pela manga da camisa antes que pudesse afastar-se muito, obrigando-o a olhar em sua direção. — Posso dormir com você? — Pediu manhosa, ainda insegura com o fato de precisar ficar sozinha. — Por favor. — Insistiu.

Ele suspirou e deu-se por vencido, assentindo com a cabeça.

— Você pode dormir na minha cama, não tem problema, mas eu vou dormir na poltrona. — Exprimiu cansado.

— Aquela do seu quarto, né?

— Sim, eu vou estar no mesmo cômodo, não precisa se preocupar. — Falou, pegando suavemente sua mão e depositando ali um simples beijinho cortês. — Eu prometi que não ia te deixar sozinha.

Satisfeita, ela esboçou um sorriso de canto e agradeceu, arrastando-o consigo para que pudessem escovar os dentes na companhia um do outro. Após vestir seu pijama de coelhinhos que tanto gostava e achava confortável, jogou-se na cama e cobriu-se até o pescoço, virando seu corpo em direção à poltrona em que se encontrava Hector, lendo um livro à meia-luz de sua luminária, somada com a claridade da lua que marcava sua presença pela grande janela logo ao seu lado. Sentir-se tão confortável e acolhida ali era inevitável; cercada pelo cheiro dele já impregnado nos lençóis e travesseiros. A sensação de segurança que o aroma lhe trazia era inexplicável, porém, aos poucos, sem que ela percebesse, afeiçoava-se cada vez mais àquele homem de um jeito que ela ainda não conhecia.

Aconchegada, ela permitiu-se passar os olhos pelo local, explorando-o brevemente. Era um local simples, pouco iluminado, com as paredes escuras e nada além de uma mesa; uma cama; uma poltrona de couro e algumas prateleiras lotadas de livros. Abaixo da mesa com seu computador e alguns papéis jogados, escondia-se um cofre que chamara-lhe a atenção.

— O que tem nesse cofre? — Questionou interessada, com a voz já alterada pelo cansaço. Estar tão cômoda naqueles cobertores não a auxiliava em nada a ficar acordada.

— Dinheiro, alguns documentos e informações sobre os membros da famiglia. — Respondeu desinteressado, folheando outra página de seu livro.

— Tem alguma coisa sobre o Vincenzo? — Interrogou esperançosa.

— Não. — Negou com a cabeça, sem nem ao menos olhar para ela. Ainda não conseguia aceitar que ela havia perdoado aquele sujeito. — Esse tipo de coisa normalmente fica com o consigliere. Eu não cuido desse tipo de assunto.

— E de que assuntos você cuida?

— Se eu te contasse, você acabaria me odiando. — Rumorejou com algum remorso, percebendo uma certa pontada de tristeza em seu peito. Imaginar a reação daquela garota quando descobrisse sobre as coisas que fazia cortava-lhe o coração.

— Isso é impossível — negou em um timbre baixo e sonolento — eu nunca... poderia te odiar. — Sussurrou com dificuldade, antes de cair no sono.

Esboçando um sorrisinho bobo no rosto, ele fechou seu livro e observou-a adormecida; com os lábios semiabertos e a bochecha amassada pelo travesseiro. Parecia extremamente graciosa aos seus olhos. Aquela cena aquecia-lhe o coração; fazendo-o desejar poder tocá-la, embora pensasse não ter o direito de tomar uma pessoa tão pura para si. Suas mãos manchadas de sangue inocente não eram dignas o suficiente para encostá-la; ao menos não da forma que gostaria. Permitiu-se entrelaçar seus dedos na mão jogada que ela tão despreocupadamente havia deixado para fora da cama e acariciou seu topo com o polegar, suavemente para que não a acordasse. Antes de afastar-se para tentar descansar, depositou um leve beijo naqueles cabelos escarlate que tanto amava.

Como sempre, ele havia problemas para dormir. De pé antes mesmo das 6 horas da manhã, desceu e preparou um espresso puro antes de voltar ao seu quarto na intenção de organizar alguns documentos do novo cassino da famiglia que agora eram sua obrigação. Pan despertou pouco antes do horário agendado para visitar seu pai, tomando um rápido banho antes de saírem apressados em direção ao hospital. Quando chegaram, ela comprou alguns sanduíches da máquina em frente ao quarto dele, antes de entrar sozinha; um pouco apreensiva com o estado que talvez pudesse encontrá-lo. Dentro do quarto estavam apenas Alice e Hans, deitado e impotente, de uma maneira que ela jamais o havia visto; tão vulnerável. Seus lábios pareciam ainda mais pálidos do que de costume, e o rosto estava magro. Aquela aura tão suntuosa que existia ao seu redor já não estava ali.

— Oi papai. — Cumprimentou-o com a voz baixa, deitando sua cabeça em seu peito ao mesmo tempo que segurava cautelosamente sua mão; tentando não retirar os apetrechos à ela atrelados. — Me desculpa por ter te feito sofrer tanto. — Murmurou com os olhos marejados; seu timbre estava ainda mais miserável do que antes.

— Ele vai ficar bem. — Alice apoiou uma das mãos em seu ombro, apertando-o levemente na intenção de assegurar-lhe. Parecia atordoada, mas como sempre, não demonstrava suas verdadeiras emoções. Em questão de frieza, ganhava até mesmo do marido. — Além disso, é bom não precisar ouvir ele gritando por aí. Dá um descanso para os meus ouvidos. — Brincou, tentando amenizar a situação. A filha demonstrou um fraco sorriso de canto, recordando-se das várias broncas e sermões que fora obrigada a aguentar.

— É verdade, o papai não vai poder ficar brigando comigo toda vez que eu fizer alguma besteira, se ele não acordar. — Comentou chateada, beijando-o na bochecha com carinho. — Tenho certeza de que ele odiaria isso.

— Ele vai acordar. — A mãe reafirmou. —Só está levando um pouco mais de tempo porque ele está velho, e o corpo demora para funcionar.

— Eu sei, o papai sempre foi forte. Só não gosto que essa já seja a segunda vez que eu preciso visitar ele aqui por causa do trabalho dele.

— Com licença. — Uma voz feminina desconhecida fez-se audível, após duas batidas na porta que as presentes provavelmente não teriam ouvido. Aparentemente era uma das enfermeiras. — Eu vim para o banho do padrinho, e também para avisar que em breve o horário de visitas vai acabar. Só os acompanhantes poderão permanecer no quarto.

— Nós não temos horário de visitas aqui. Quem eu permitir que entre, vai entrar, não importa o horário. — Alice respondeu em tom firme e desconfiado. — Você é nova aqui?

— Sim, senhora. — Gaguejou encolhendo os ombros, assentindo com a cabeça e desviando o olhar. Sentia-se completamente intimidada por aquela mulher, e não era à toa. Alice Stracci era perita em venenos, facas, coletar informações e aterrorizar psicologicamente seus inimigos, e naquele momento, sua intuição arisca fizera com que a jovem enfermeira se tornasse sua presa. — Me desculpe, eu não sabia.

— Não tem problema. É bom que você tenha entendido. — Sorriu sem mostrar os dentes, analisando-a de cima à baixo. Não confiava em uma pessoa tão inexperiente para cuidar de seu marido.

— Não precisa ficar tão tensa e na defensiva, Alice. — A mãe de Evan adentrou o quarto, segurando uma planilha que continha as informações do paciente. — Essa é a minha sobrinha. Estou tentando deixar ela familiarizada com vocês, se me permitirem. Alguém precisa cuidar do padrinho quando eu e meu esposo estivermos ocupados.

— Valerie. — A senhora Stracci arqueou as sobrancelhas em curiosidade. — Eu sabia que você tinha uma sobrinha na área de saúde, mas não sabia que ela trabalhava aqui.

— Ela acabou de se formar e veio morar conosco para aprender alguma coisa. É o primeiro dia dela aqui. — Respondeu, desviando o olhar até a mocinha de cabelos vermelhos sentada ao lado da cama. — Então ela é a famosa Pan Stracci? É bem diferente do que eu imaginava. Parece... normal.

— Ela não é envolvida com os assuntos da família.

— Eu fiquei sabendo, mas pensei que ela pelo menos teria um jeito mais ameaçador. É a filha de vocês dois, afinal. — Tagarelava, ao mesmo tempo que media a temperatura de Hans antes de liberá-lo para seu banho diário. — Uma mocinha tão boa assim talvez pudesse dar um jeito no incompetente do meu filho.

— Era você quem deveria ter colocado rédeas no seu filho, e não a minha criança, mas acho que nós podemos tentar apresentá-los qualquer dia desses. — Alice sorriu com certa zombaria, apesar de estar animada com a ideia de arrumar um namorado para a filha.

— Como sempre, muito sincera, Alice. — A mãe de Evan comentou sorridente. — Eu vou precisar que ela saia do quarto por um momento. Nós precisamos seguir com a higiene pessoal dele antes dos exames.

A garota assentiu e despediu-se de seus pais forçando um sorriso fraco, embora estivesse aliviada por ter alguém tão competente cuidando de seu amado pai. Assim que encontrou-se com Hector do lado de fora, abraçou-o com força e permaneceu assim por alguns instantes, como se o mundo tivesse parado brevemente. Era reconfortante estar em seus braços.

Ele pigarreou e afastou-a um pouco, ciente de que os outros membros da famiglia presentes no corredor os estavam encarando com receio. Não podia arriscar que criassem ainda mais boatos desnecessários sobre a sua relação com a filha do chefe.

— Hector? — Ela chamou, obrigando-o a fitá-la. — Eu perdi um pouco a fome, então você vai ter que comer um desses. — Mentiu, sabendo perfeitamente que havia comprado dois sanduíches já com a intenção de oferecer-lhe um deles, de qualquer forma. Ele a conhecia muito bem, e estava crente disso, portanto apenas afagou seus cabelos e aceitou fazer-lhe companhia naquela refeição, sem pestanejar. Assim que terminaram, desceram em direção ao carro, deparando-se com uma forte chuva fora de época.

— É um alívio que eu tenha trazido um guarda-chuvas, então. — Hector exprimiu, abrindo o objeto que tinha em mãos e abrigando-a até a porta do carro, educadamente acomodando-a no banco de trás antes de adentrar o veículo. — Tudo bem? — Perguntou enquanto a encarava pelo retrovisor interno, após colocar o cinto de segurança.

Ele não obteve resposta, no entanto. A garota estava muito concentrada encarando a tela de seu celular, que sinalizava 22 chamadas perdidas de Evan e uma mensagem enviada há duas horas atrás, que dizia:

"Acabei chegando um pouco mais cedo, ruivinha, mas não se preocupa que eu te espero. Minha prima chegou hoje na cidade e tá hospedada em casa, e agora que ela começou a trabalhar com os meus pais eles começaram a ficar me comparando ainda mais com ela, então eu só precisava tomar um ar e fugir daquela encheção de saco, droga."

Seu coração instantaneamente falhou uma batida assim que terminara de passar os olhos por aquele texto. Olhou para a tempestade que caia do lado de fora e pensou consigo mesma que era impossível. Ele não poderia estar esperando sua chegada até aquele momento, principalmente em um temporal desses, certo?

A adrenalina tomou conta de seu corpo, e sem pensar nas consequências, ela imprudentemente deixou o aparelho no banco e saiu do carro, correndo em direção ao colégio, que não ficava longe dali. Em seus pensamentos ela seguia repetindo "não pode ser, né?" "ele não vai estar lá me esperando".

Ofegante e encharcada após correr alguns quarteirões, ela chegou em frente ao colégio, no intuito de saciar sua curiosidade. Em um primeiro momento suspirou aliviada por não conseguir encontrá-lo, porém após alguns segundos, percebeu uma silhueta encolhida abaixo de uma árvore próxima ao portão da instituição, obrigando-a a aproximar-se para averiguar.

— Você demorou, porra. — A voz de Evan ecoou em uma reclamação. Seus lábios estavam trêmulos devido ao frio; suas roupas estavam encharcadas; tão sujas e molhadas quanto as dela.

— Por que você ficou me esperando? Já fazem horas! — Replicou preocupada; talvez até mesmo um pouco desesperada por vê-lo naquele estado. Pensava que era sua culpa por não tê-lo avisado sobre a sua impossibilidade de comparecer.

— Vem comigo. — Segurou-a pelo pulso e arrastou-a consigo para dentro do colégio, cessando os passos apenas em frente ao ginásio de natação, aonde retirou algumas chaves de seu bolso para destrancar o local. Ao menos ali ficariam abrigados, então, após entrarem, ele fechou as portas, sem trancá-las. — Roubei essas chaves do armário do Chris, então espero que ele não perceba até amanhã.

— Evan...

— Não adianta me olhar com essa carinha de cachorro perdido. Eu vou te punir por ter me feito esperar tanto tempo nessa chuva. — Exprimiu entre dentes, puxando-a para perto de si e pegando-a nos braços, antes de arremessá-la na piscina esboçando um sorrisinho ladino, pulando na água logo após para acompanhá-la.

Admirada, ela emergiu e encarou-o com um semblante carrancudo.

— Agora as minhas roupas estão todas molhadas, seu doido! — Ralhou fazendo biquinho.

— E já não estavam antes, sua idiota? — Acercou-se um pouco mais, depositando um leve peteleco em sua testa para irritá-la. — Aliás, me dá um bom motivo pra você ter me deixado plantado nessa chuva desgraçada. Sabia que muitas meninas dariam qualquer coisa pra estar no seu lugar? — Murmurou frustrado, segurando os pulsos dela para cima, encarando-a diretamente nos olhos; aqueles olhos claros que ele, naquele momento, apreciava com gosto.

— Você é muito convencido. — Mostrou a língua em reprovação.

— O que eu posso dizer? Preciso manter a pose. — Sorriu marotamente, soltando-a sem afastar-se muito. Seus rostos continuavam a apenas alguns centímetros de distância. — Isso vai sair caro pra você, sabia?

— Caro? Como assim? — Ela franziu o cenho sem entender.

— Eu vou te mostrar. — Sussurrou, apoiando a mão na nuca de Pan, carinhosamente puxando-a para si e inclinando sua cabeça até roçar seus lábios nos dela. Com os olhos fechados, contornou o interior de sua boca com a língua, e de certa forma, mesmo que um pouco tímida, ela retribuiu o gesto. Com a outra mão, ele acariciou seu rosto com leveza, sentindo-a colocar os braços ao redor de seu pescoço; uma das mãos entrando em meio aos seus cabelos presos, já úmidos e emaranhados. Diferente da primeira vez que a havia tocado, agora os batimentos de seu coração estavam acelerados, como se ansiasse por aquele momento há tempos. Sem perceber, pouco a pouco estava caindo no charme daquela garota tão estranha e inconsequente, que possuía os lábios doces e macios, além da incrível habilidade de sempre fazê-lo enlouquecer.

— Pan? — O timbre de Hector ecoou pelo ginásio, observando-a trocar carícias com aquele garoto dentro da piscina. Seu peito parecia estar prestes à explodir a qualquer momento, porém sua expressão estava mais fria do que nunca; sem demonstrar um mínimo de emoção, seja raiva, surpresa ou empatia. De certa forma, a dor era tamanha que lhe dava a sensação de estar em seus últimos suspiros após receber um tiro em seu estômago; sangrando até que ficasse sem ar ou vida, porém, por outro lado, uma pequena parte de si que tentava convencer-lhe a esquecê-la estava aliviada por saber que, naquele instante, todas as suas esperanças haviam se esvaído, e que talvez, pudesse finalmente desistir daquela loucura e seguir em frente.

— Hector? — Afastou-se rapidamente de Evan, observando aquele homem com certo remorso enquanto tentava desvendar o que se escondia por trás daquele olhar gélido que tanto a amedrontava. Ela o conhecia muito bem, e tinha a certeza absoluta de que, ali e agora, ele estava realmente furioso, e de alguma maneira, sentia que a culpa era completamente sua.

Notas finais
Eu espero que tenham gostado aaa ♥ Quem shippa Pan e Evan deve ter ficado feliiz hdsuhd, mas quem shippa a Pan com outra pessoa, esse capítulo deve ter sido uma tortura 3 O que vocês estão achando da história até aqui? Muita enrolação? Espero que não, to tentando ao máximo progredir com ela aa ♥