Notas iniciais
Mais um capítulo quentinho pra vocês, meus amores ♥ Espero que apreciem a leitura :3 :3

— O quê? Ele não se lembra de nada? — Hector franziu o sobrolho como se não conseguisse realmente acreditar no que acabara de ouvir. Seria o destino brincando mais uma vez com suas emoções? Estava desorientado. Não sabia se deveria comemorar por ter mais algum tempo de vida ou então se deveria se incomodar com o fato de continuar trabalhando como o braço direito de um homem que já não confiava mais nele. Seria patético fingir que nada acontecera e ignorar todos os ocorridos do passado enquanto permanecia ao seu lado, porém o que deveria fazer? Correr e se esconder como um covarde antes que as memórias de seu chefe voltassem? Não, seu orgulho jamais lhe permitiria fazer isso, porém tampouco estava satisfeito com a situação atual. Deveria confessar seus pecados, então? Mesmo que não fosse lá a pessoa mais honrada do mundo, era provavelmente o mais sensato a se fazer.

— O que foi? Tem alguma coisa importante que eu precise saber sobre essa reunião? — A voz rouca daquele homem ecoou pelo cômodo, obrigando-o a suspirar. Era aquela a brecha que ele precisava, então respirou fundo e decidiu que colocaria as cartas na mesa de uma vez por todas, aceitando seu destino seja qual ele fosse.

— Não. — Alice interrompeu com rispidez e autoridade, desviando o olhar até Hector antes de continuar a falar: — Nós vamos fazer uma viagem rápida até Palermo, e eu preciso de alguém confiável aqui do lado da minha filha. — Argumentou, como se lhe dissesse "ainda não é hora, você pode contar quando voltarmos". Ele compreendeu perfeitamente o recado, e assim, decidiu não falar mais nada.

— É verdade, eu não posso levar a bambina comigo de volta para a Itália agora. — Hans comentou com certa irritação. — Fiquei sabendo que o miserável do Vincenzo conseguiu colocar o rosto da minha menina na mão de cada peixe grande daquele país. — Aqui ele diminuiu a voz e pôs-se a rosnar: — Esse filho da puta realmente sabe como me irritar.

— Felizmente ele já está morto, meu Don. — O subordinado retrucou com alguma indiferença. Ter que agir como se nada tivesse acontecido e mentir bem abaixo do nariz do homem à quem ele havia jurado lealdade eterna fazia seu interior formigar, mas se era essa a única maneira de manter sua amada protegida enquanto ele estivesse fora, então que adicionassem mais um pecado em sua lista. Provavelmente já teria sua cabeça na mira dele de qualquer forma, portanto o que era uma mentira extra perto de todas as outras coisas que já havia feito até ali?

— Sim, eu ouvi dizer que você já cuidou disso por mim, garoto. Muito bom. — Exprimiu satisfeito. — Mas aquele desgraçado não seria capaz de fazer isso sozinho. Eu o conheço bem, ele é inteligente, mas não tem influência. Ele teve ajuda, e eu quero saber os nomes, um por um. — Acrescentou. O modo que pronunciou tais palavras deixara uma sensação ruim no âmago de sua protegida; fechando-lhe a garganta com um amargo indescritível. A aura que emanava era como a de um leão faminto que havia dormido por muito tempo e acordado pronto para a caçada; seus olhos pareciam exalar uma sede de sangue insaciável, e ele não ficaria satisfeito até que sua última presa estivesse ajoelhada à sua frente implorando por piedade.

O coração dela chegou até mesmo a falhar uma batida com aquela conversa tão tranquila e desinteressada. Era uma vida. Tudo bem que era a vida de um homem nada bondoso, porém ainda era uma vida, e que além disso havia sido retirada em sua presença. Ela jamais esqueceria aquele sentimento tão acerbo, mas eles tratavam aquela situação com indiferença, como se fosse um acontecimento cotidiano e comum.

— Papai? — Chamou-o com doçura, como se tentasse averiguar se aquele era realmente o homem que conhecia. Estava tão diferente, tão... cruel. Ao ouvi-la, sua expressão se modificou completamente; de um sanguinário frio para um pai afetuoso e gentil, permitindo-a respirar normalmente outra vez. Era ele, e não importavam quantos indícios de sua má índole existissem logo abaixo de seu nariz, ela se recusaria a acreditar em cada um deles. — Quando você viaja? — Disfarçou.

— Em dois dias.

— Tão cedo? — Ela deixou os ombros caírem em decepção. — Você acabou de acordar. — Aqui seu timbre ficara manhoso e um tanto desanimado.

— Eu sou um homem ocupado. — Hans deu de ombros, não esboçando emoção alguma até que percebesse o olhar entristecido de sua queridinha, obrigando-o a suspirar e dar-se por vencido, tocando-lhe os cabelos. — Tem alguma coisa que você gostaria de fazer antes que eu vá? — Ofereceu, fazendo-a instantaneamente arregalar os olhos e curvar os lábios em alegria. Foi a primeira vez que o ouviu dizer algo do tipo. Normalmente ele nunca apareceria em público ao seu lado, e agora estava até mesmo concedendo-lhe a oportunidade de passarem um tempo juntos? Pensou que, decerto, ter a sua face conhecida pelo submundo não fosse tão ruim assim.

— Eu entrei no time de basquete feminino do colégio, e... — ela mordeu os lábios e desviou o olhar até os pés, já aguardando pela resposta negativa — na sexta vai ter o primeiro jogo do time no campeonato, e eu acho que vou jogar. Você quer assistir, papà? — Arriscou tímida.

— Já faz tempo desde que te ouvi chattare in italiano. — Demonstrou um sorriso fraco e orgulhoso, embora quase imperceptível. Desde que saíram do país, Pan sempre evitava falar qualquer coisa em sua língua nativa, já que isso a fazia recordar-se da época em que ficara trancafiada em sua casa, em Palermo. Evitar utilizar daquela língua era como empenhar-se em fugir das correntes de seu passado, portanto era surpreendente vê-la propositalmente citar algo naquele idioma. — Sexta? É no mesmo dia da viagem.

— Então não vai dar, né? — Disse em tom baixo e entristecido. Já estava acostumada a ter seus convites rejeitados por ele, porém era inevitável demonstrar seu descontentamento.

— E eu disse isso? — Franziu o cenho e tomou um gole do café que a enfermeira havia providenciado anteriormente. Já estava frio, mas ele não parecia se incomodar. A garota rapidamente entreabriu um tanto os lábios e fitou-o com esperança. Será que finalmente conseguiria ter um momento comum entre pai e filha como sempre desejou? — Eles que vão à merda e me esperem nessa maldita reunião, se for preciso. Sei que atrasos para esse tipo de encontro são muito mal vistos e vão contra as etiquetas que eu tanto prezo, mas eu não vou perder o primeiro jogo da minha principessa nem que eu precise matar todos os imbecis que abrirem o bico para reclamar.

— Hans! — Alice chamou-lhe a atenção ao perceber o semblante assustado da menina. Também não era como se ele pudesse sair dizendo que mataria outros Dons tão despreocupadamente. Se fosse mal interpretado por alguém de fora, provavelmente acabaria criando ainda mais problemas para resolver depois.

— O quê? Eu não disse que iria, mas se eu precisasse... — Curvou friamente os lábios em um riso levemente sádico, quase como se realmente estivesse ponderando aquela ideia. Alice revirou os olhos.

— Você muda de opinião muito rápido. — Rumorejou decepcionada, referindo-se ao fato de vê-lo se comportando com tanta estranheza próximo à sua filha. Nunca havia nem ao menos citado qualquer coisa sobre seu trabalho e agora subitamente estava falando tão abertamente sobre assassinato? Suas ações naquele instante eram indecifráveis. Não, na realidade, todas as suas ações desde que acordara eram fora da curva. Ela começava a se questionar sobre o que realmente se passava na cabeça de seu marido. Aquele homem nunca movia qualquer peça sem raciocinar minuciosamente sobre sua estratégia, então será que ele tinha algum plano, afinal?

— E você mamãe? Vai poder ir? — Pan indagou contente, empenhando-se em mudar o assunto.

— Não, querida. Alguém precisa ficar responsável pelos preparativos da viagem. — Respondeu desinteressada, afagando os cabelos de sua criança com hesitação. Percebeu que seu olhar havia perdido um tanto de brilho, mas não tinha nada que pudesse fazer se estava ocupada com o trabalho.

— Tudo bem. — Concordou, mesmo que à contragosto. A unica opção que lhe restou foi a de aceitar sem reclamar muito. Ao menos teria a companhia de seu pai, o que já era muito raro.

Do lado de fora, nas escadarias, Sarah estava segurando com raiva uma xícara cheia de expresso puropara aguentar o estresse que era convencer Evan a não incomodar sua família. Pelos últimos quarenta e tantos minutos, o colega havia reclamado sobre o fato de não o deixarem adentrar o quarto de Hans, disposto a conhecê-lo e confrontá-lo sobre tudo o que acontecera recentemente. Imaginava que, como era o pai de Pan, provavelmente seria sensato e dócil assim como sua filha, então estava ansioso para ter uma conversa com ele.

— Eu só quero conhecer o pai da ruivinha, porra. O que tem de tão errado nisso? — Resmungou uma vez mais, cruzando os braços. Todos os homens da famiglia posicionados no corredor para a segurança de seu chefe olharam para ele com repulsa, ponderando expulsá-lo à base da violência se continuasse a tentar perturbar a paz do Don.

— Fala baixo, Evan. — Sarah colocou as mãos na boca dele, esforçando-se para não vê-lo acabar com uma bala no meio da testa em breve. Sinceramente, ela não o apreciava muito, porém sabia que Pan não gostaria de ter que presenciar a morte de um de seus amigos. — Você é idiota ou o quê? — Direcionou um olhar arrependido aos membros de sua família, pedindo-lhes desculpas.

— Cara, você precisa ter um mínimo de noção. A Pan tá com a família dela, visitando o pai no hospital, não é certo incomodar. — Chris também empenhou-se em colocar um pouco de bom-senso na cabeça do melhor amigo, apesar de ter percebido que ele não parecia se importar muito com esse fato.

— Porra nenhuma. — Evan afastou as mãos de Sarah de seu rosto, lutando para defender seu ponto de vista. — A minha família toda tá envolvida com esse cara, então por que eu não posso prestar meu respeito também?

— "Prestar respeito"? Ele não morreu, Evan, caralho. — Chris respirou fundo, tentando manter a calma para não acabar em uma briga com uma pessoa que considerava muito. — Qual o seu problema ultimamente, cara? Desde que a Pan chegou você fica agindo igual um babaca, que merda aconteceu com você? — Deu-lhe um breve empurrão no peito, querendo que ele voltasse a si e deixasse de ser tão inconveniente. Sentia-se até mesmo envergonhado em frente à Sarah, preocupado de que ela pudesse acabar magoada com as ações de seu melhor amigo.

— Eu não sei. — Devolveu o gesto ao golpeá-lo com pouca força no ombro, sentando-se nas escadarias logo após. — Aquele desgraçado do Hector me tira do sério. — Rosnou, vendo que Sarah havia se distanciado dele, deixando claro que sua presença a incomodava muito. O achava um idiota.

— Que interessante saber disso. — A voz de Hector ecoou pelos corredores, esbanjando escárnio. Os garotos deram um leve salto com o susto assim que olharam para trás e viram que ele estava a apenas alguns centímetros de distância, esboçando um sorrisinho malicioso.

— Quem é o imbecil causando um alvoroço na frente do meu quarto enquanto eu tento passar um tempo em paz com a minha família? — Hans logo juntou-se ao seu braço direito, trazendo consigo sua esposa e filha. Seu timbre rouco e imponente dominou todo o corredor, cessando todo o ruído de conversa ali presente.

Evan engoliu seco ao vê-lo tão próximo. Toda a coragem que havia dentro de si há alguns segundos tinha se esvaído, sobrando apenas um frio estranho que percorrera desde o seu dedão do pé até os últimos fios de cabelo em seu corpo. Aquela definitivamente não era a figura que ele esperava encontrar. Aguardava por alguém que se assemelhasse à Pan, porém com toda a certeza do mundo, ela e aquele homem não tinham nada em comum. Ela era uma garota doce, sorridente e acessível, mas Hans Stracci? Não. Ele indiscutivelmente não era nada daquilo. Hans Stracci era aquele tipo de sujeito com um semblante intimidador e uma aura perigosa que você torcia todos os dias da sua vida para que não o encontrasse; mas se o encontrasse por algum infortúnio do destino, independentemente de suas crenças, você rezaria para não enfurecê-lo, e naquele momento, Evan tivera a proeza de conseguir as duas coisas.

Notas finais
Eita, o Evan não dá sossego né? Deus é mais, que cara chato hfiudshf. Vamos ver o que o Hans vai fazer com ele agora~ Espero que tenham gostado, beijiinhos~ ♥