Notas iniciais
Oi meus amores ♥ capítulo fresquinho aqui pra vocês, focado na Alice. Normalmente, na máfia, as mulheres não participam da atividade em si, e quando participam, é só tentando dar conselhos. Eu quis deixar isso diferente, e quis mostrar que a Alice tem um papel importantíssimo na família Stracci também. Ela não é só uma esposa troféu não ♥ Ficou um pouco grande o capítulo, então desculpa HIUFDSHF, espero que isso não seja uma coisa ruim. Boa leiturinha ♥

Com intenção de quebrar o clima pesado e evitar tumulto, Sarah prontificou-se a tomar a iniciativa e correu para cumprimentar a família, abraçando afetivamente seu considerado pai adotivo, que retribuiu ao beijá-la em ambas as bochechas, como era natural em seu país de origem. Ela estava mais do que satisfeita ao vê-lo acordado outra vez, portanto o sorriso que tomou conta de seus lábios fora inevitável.

— Eles são nossos amigos do colégio. — Comentou, sinalizando à eles que se aproximassem. Os dois colegas levantaram-se de maneira que parecesse uma apresentação à um treinamento militar, rapidamente empenhando-se em demonstrar uma postura impecável.

— Do colégio? — Hans rosnou em tom baixo e usualmente rouco, fitando-os de cima à baixo como se os estivesse analisando. — Essa porcaria de instituição permite que os alunos saiam quando bem querem sem supervisão nenhuma? — Perguntou de modo que deixasse transparecer alguma arrogância. Seu olhar impassível estava fixo em Evan.

— Não, senhor. — Chris atreveu-se a responder, com a voz falha e um tanto inibido; sem confiança alguma. — Eu sou o presidente do grêmio, então tenho autorização para liberar os alunos quando precisam sair e o diretor não está disponível.

— Então é só um irresponsável que abusa do mínimo poder que lhe foi atribuído para ficar perseguindo minhas filhas por aí e agindo de forma inconveniente em um hospital? — O repreendeu, fazendo-o morder a língua e ficar sem resposta, colocando-se cabisbaixo. O que deveria dizer? Não tinha como contestar, principalmente porque ele estava coberto de razão, e além disso, entrar em um debate com aquele homem não parecia a ideia mais sensata atualmente, em especial após seu melhor amigo tê-lo irritado. Alguma coisa nele fazia até mesmo o seu último fio de cabelo ficar em alerta.

— Papai! — Pan chamou sua atenção, dando-lhe um leve empurrão com o cotovelo na intenção de fazê-lo parar de incomodar os amigos. Hector não pôde evitar o sorrisinho cheio de escárnio que escondera com o pulso ao ver seu chefe aterrorizando os jovens daquela forma.

— Senhor, muito prazer. Eu sou o Evan. — Estendeu a mão para cumprimentá-lo, recebendo como resposta um olhar desdenhoso e frio. Hans realmente não parecia apreciar sua presença, já que repudiava atitudes desrespeitosas, e após o show que fizera em frente ao seu quarto, ele não podia esperar ser tratado com cortesia e gracejos. — Eu sou... amigo da Pan. — Recuou o braço, coçando os cabelos e desviando o olhar até os pés para disfarçar seu desconforto em não ter sido retribuído.

— E o imbecil que estava agindo como um animal em frente ao meu quarto, incomodando meus homens e todos os outros pacientes internados aqui. — Exprimiu em um timbre seco e indiferente. — Ainda por cima ousou falar mal do meu braço direito pelas costas. O que você espera de mim depois disso, criança? Flores? — Franziu o cenho e pôs-se a encará-lo pelo canto dos olhos, cruzando os braços.

— Perdoe o meu filho, padrinho, por favor. — Valerie acercou-se em questão de instantes, beijando-lhe as mãos para demonstrar respeito. Rapidamente fitou seu primogênito e sinalizou com o queixo para que fizesse o mesmo, sendo prontamente obedecida apesar do semblante confuso estampado em sua face e do sorrisinho malicioso por parte de Hector, especialmente direcionado à ele. Bom, de alguma forma ele já esperava por aquilo, principalmente depois de tê-lo insultado há alguns minutos. — Eu fiz o meu melhor para criar esse menino, mas no fim acabou se tornando um rebelde sem causa. Eu peço mil perdões pelo comportamento dele, prometo que não vai se repetir. — Tagarelou, quase como se pedisse misericórdia àquele homem.

— O que você pensa que eu sou, Valerie? — Inquiriu ainda com o sobrolho corrugado, levando um cigarro aos lábios sem poder acendê-lo devido ao olhar mortífero de sua esposa. — Eu sou um homem sensato, e sempre tive um certo apreço especial pelos rebeldes — gesticulou com as mãos, pegando seu tabaco entre os dedos para continuar a falar normalmente: — mas esse garoto é só uma criança mimada que precisa aprender boas maneiras. Esse tipo de adolescente mal agradecido e revoltado com a vida me incomoda. Sorte dele ser filho de uma amiga tão querida. — Completou, caminhando em direção à saída, deixando que suas garotinhas tivessem um pouco de privacidade para que pudessem dialogar tranquilamente com os colegas; embora seu objetivo real fosse o de conseguir permissão para fumar em paz.

— Eu vou acompanhar o homem, queridas. — Alice revirou os olhos, sem conseguir acreditar na imprudência do marido. Não era possível que a primeira coisa que ele faria após receber alta era fumar, e isso contra as recomendações médicas. — Conversem à vontade e depois desçam, sim? Hector, fique com elas. — Acrescentou em tom de ordem, descendo apressadamente para alcançar o cônjuge. Valerie também prontificou-se a segui-los após encarar o filho de maneira desgostosa e decepcionada.

— Desculpa o papai ter falado assim, eu não sei o que deu nele, de verdade. Ele não é uma má pessoa, ele só é um pouco... extremo. — Pan murmurou acanhada, desviando o olhar até os pés para que não acabasse dizendo alguma besteira. Diferente de sua versão anterior de alguns dias atrás, ela agora sabia que o conhecimento daquele segredo era muito perigoso, e não queria acabar arriscando a vida dos próprios amigos.

— Por mais que eu esteja impressionada com o fato de você estar guardando um segredo... — Sarah apoiou uma das mãos no ombro dela, como se a estivesse tentando confortar — eles já sabem de tudo. E quando eu digo tudo, é realmente tudo.

— E a gente não se importa. — Chris afirmou sorridente, também acercando-se dela para assegurar-lhe de que estava tudo bem. — A gente não é ninguém pra julgar o que a sua família faz, mas eu confesso que foi difícil respirar perto do seu pai. — Riu. — Ele dá um pouquinho de medo.

O primeiro reflexo que ela teve foi o de direcionar seu olhar à Hector. Ele não parecia se incomodar muito com a descoberta recente de seus amigos; estava muito calmo e desinteressado. Não era como se esperasse um juramento de Omertà por parte delas, em especial Pan, que sempre vivia falando pelos cotovelos, e por algum acaso do destino um dos jovens estava diretamente relacionado à famiglia, portanto não demoraria muito até que alguma coisa viesse à tona mesmo que tentassem esconder. Nada disso importava, já que sempre existia a opção de silenciá-los pela eternidade caso decidissem bancar os espertinhos e enfiar o nariz em negócios que não lhes diziam respeito.

— Muito obrigada. — Ela envolveu Chris em um abraço caloroso e intenso, fazendo com que ele recebesse olhares nada amigáveis dos outros homens ali presentes. — Agora eu não preciso mais ter medo de que vocês possam me odiar por esconder isso.

— O quê? Te odiar? É impossível te odiar, Pan. — Ele deu uma breve gargalhada, negando com a cabeça. — É impossível odiar vocês duas, na verdade. — Falou com o olhar fixo em Sarah, que mordeu os lábios e prontificou-se a encarar as paredes, extremamente desconfortável com aquela situação após a conversa que tivera com Alex anteriormente. — Aliás, será que vocês poderiam manter segredo da Alex? Ela é a única que não se tocou de nada ainda, e eu não sei como ela poderia reagir. — Pediu esperançoso.

— Por quê? Ela também é minha amiga, não sei se gosto de esconder coisas dela. — Pan protestou.

— Ela não gosta muito desse tipo de gente, ruivinha. É melhor não falar. — Evan interveio, colocando um dos braços ao redor dela.

— Como assim "esse tipo de gente"? — Ela perguntou com as sobrancelhas arqueadas, desvencilhando-se dele. Havia sentido certo incômodo ao ouvir aquelas palavras. Embora soubesse que sua família não era lá das mais honradas, achava grosseiro que se referisse à eles dessa maneira.

— Não importa o que o adolescente revoltado pensa da nossa família, mas "esse tipo de gente" precisa ir para casa agora. O Don já esperou muito tempo. — Hector retrucou, acercando-se de sua protegida e entrelaçando os dedos nos dela com carinho, percebendo a expressão incrédula do garoto com aquele gesto. Aparentemente ele não havia gostado nada. — Ah, e aliás, eu te aconselharia a não falar assim. Seus pais podem ficar ofendidos se você acabar chamando eles dessa forma. — Acrescentou em tom de deboche, esboçando um sorrisinho vitorioso antes de retirar-se com as moças e deixá-los para trás. Ele pôde até mesmo ter o prazer de ouvir Evan xingá-lo em sussurros à medida que se afastava.

— Esse imbecil... — Evan cerrou o punho, frustrado em saber que aquele homem conseguia tão facilmente tirá-lo do sério.

— Sarah, espera aí. — Antes que ela pudesse desaparecer nas escadarias, Chris chamou-a e tocou-lhe o ombro suavemente. — Será que a gente pode conversar rapidinho? — Inquiriu auspicioso.

Ela pigarreou e mordeu os lábios outra vez, tentando disfarçar seu nervosismo antes de responder:

— Desculpa, pode ser depois? Eu não quero fazer minha família esperar por muito tempo. — Saiu com rapidez em direção ao carro, torcendo para que não fosse perseguida. Tinha muita vontade de sentar-se ao lado dele, conversar por horas e resolver todas as questões pendentes que tinham um com o outro, porém como deveria fazer isso? Por onde deveria começar? Contando-lhe que sua amiga de infância a pediu um favor absurdo? Não, definitivamente não. Isso poderia acabar estragando a amizade dos dois, portanto estava fora de cogitação. Ela não queria se intrometer entre eles, então decidiu se abster de qualquer diálogo; ao menos por enquanto. Precisava colocar as ideias no lugar e tomar uma decisão antes de criar coragem para dizer o que sentia ou acabar atendendo aos desejos de Alex e pedir-lhe que saísse com ela.

— O cigarro, Hans. — Alice puxou o tabaco dos lábios do marido ao perceber que suas filhas se aproximavam, pisoteando-o para que o cheiro da fumaça deixasse de sair. Vestiu seu casaco e adentrou o carro na companhia de sua família, percebendo que Sarah havia propositalmente sentado ao lado de Hector para que Pan pudesse ficar à vontade com os pais. — Então... — iniciou assunto, chamando a atenção de todos para si — você e o filho da Valerie são próximos, minha querida? — Perguntou diretamente à Pan, com segundas intenções, recordando-se de quando havia conversado com a amiga sobre torná-los um casal.

— Ele não é bom o suficiente. — O Don interveio; seu timbre mais gélido do que nunca. Evan realmente havia deixado uma péssima impressão. — Um moleque desrespeitoso daqueles não é merecedor da minha filha. Se é para ela ficar com algum traste qualquer, então até o Hector serviria. — Acrescentou com certa zombaria. O indivíduo em questão apertou as mãos no volante no segundo que ouviu aquelas palavras saírem dos lábios de seu chefe, percebendo um formigamento estranho em sua garganta causado pela sensação ruim que aquela alegação lhe trouxera. Não sabia se aquele homem recordava-se de tudo e estava fazendo algum tipo de teste de lealdade ou se realmente havia falado aquilo sem saber sobre seus verdadeiros sentimentos pela moça. Em ambos os casos, sentia-se desconfortável em ouvir algo assim.

— Ah, por favor, você era o pior cafajeste possível quando nos conhecemos e mesmo assim eu me casei com você, não foi? — O desafiou com um sorrisinho ladino. Apreciava provocá-lo, e acima de tudo, gostava muito de vê-lo tentando contestá-la.

— Isso vindo dos lábios da mulher que tentou me matar no nosso primeiro encontro é muito engraçado, Alice. — Sussurrou ao pé de seu ouvido, beijando suavemente a face de sua esposa e prontificando-se a pegar sua mão como uma demonstração de apreço. Romantismo não era muito a especialidade daquele casal, mas eles tinham seus momentos vez ou outra. — Quando nos conhecemos você já tinha matado mais homens do que eu poderia imaginar. Sua loba cretina em pele de cordeiro. — Completou, ainda em tom baixo e discreto para que sua primogênita sentada ao lado não pudesse ouvir. Felizmente o som do motor do veículo também ajudava a abafar sua voz. Alice sorriu outra vez, admirada como eles se completavam tão perfeitamente, sem aquela necessidade tão descartável de um romantismo falho e meloso.

Pan permanecera em silêncio durante todo o trajeto, perdida nos próprios devaneios enquanto observava a paisagem do lado de fora passando pela janela; esboçando uma expressão aflita. Assim que estacionaram em frente à sua casa, ela desceu do carro quase que instantaneamente, fazendo com que todos ficassem se questionando sobre o motivo de toda aquela pressa. Não era de seu feitio fazer esse tipo de coisa.

Em frente à porta de entrada, ela esbarrou em um homem alto e desconhecido, que aparentemente estava esperando por algo — ou alguém. Ele tinha uma aparência tão bondosa; singela. O típico estereótipo de sujeito amigável que jamais faria mal à ninguém, com seu cabelo perfeitamente alinhado, os óculos um tanto caídos de maneira desastrada e o corpo franzino escondido por baixo do sobretudo, além dos sapatos sociais que davam-lhe um certo ar de elegância.

— Boa tarde, mocinha. — Ele a cumprimentou cortesmente, curvando minimamente os lábios em um sorriso gentil. Sua voz também era serena, combinava com sua aparência, e o sotaque italiano excessivamente marcado não fazia questão de esconder suas origens. — Você está com pressa para alguma coisa? Estou atrapalhando seu caminho?

— Don Bertolucci? O que faz aqui? — Hector rapidamente aproximou-se e adotou uma postura mais defensiva, embora imperceptível, criando distância entre aquele indivíduo e sua protegida. Quando ela o ouviu dizer aquilo, quase não acreditou nos próprios ouvidos. Um Don? Aquela pessoa tão amigável? Como poderia, com aquela aparência tão comum e nada intimidadora? Ele era o completo oposto de seu pai ou Vincenzo, não fazia sentido algum. — Pensei que estivesse na Itália. — Ele mudou o assunto, dando-lhe a brecha para fugir daquela conversa se ela assim quisesse.

— Fantasma! — Bertolucci o recebeu com um sorriso ao utilizar o apelido pelo qual Hector era conhecido pelo submundo, abraçando-o como se fossem velhos amigos. — Precisei fazer uma viagem rápida, resolver alguns problemas de finanças que tive com meu hotel em Vegas e aproveitei para vir discutir algumas coisas com o seu chefe.

— Vamos, Pan. — Sarah rumorejou enquanto a arrastava para dentro consigo. Tudo o que ela não precisava naquele momento era ser rodeada por mais um figurão da máfia.

— Eu fico um tempo fora e quando volto encontro isso na minha porta? — Hans provocou-o assim que cruzaram olhares, sem esconder a satisfação que tinha ao vê-lo. Eram amigos de longa data, afinal, então rapidamente se abraçaram e beijaram um ao outro em ambas as bochechas. — A que devo a honra dessa visita tão inesperada?

— Vamos para o seu escritório. — Disse observando o movimento dos transeuntes, alguns extremamente suspeitos. — As ruas têm ouvidos. — Murmurou, recebendo um aceno de cabeça afirmativo em resposta por parte do Stracci, que guiou-o até sua sala. A presença de Alice e Hector também fora permitida naquela reunião, já que seu conselheiro não estava disponível no momento. Eram pessoas de sua confiança, e tê-los ali era símbolo de seu apreço como Don.

— O que é tão urgente assim pra você aparecer aqui na minha casa? — O anfitrião questionou em um timbre baixo e rouco, sentando-se em sua usual poltrona de couro e acendendo um charuto entre os dentes.

— Antes de mais nada, como você está? — Acomodou-se em um dos assentos e cruzou as pernas em um quatro, puxando para si a garrafa de uísque posicionada na mesinha de centro e enchendo um dos copos até a metade. — Ouvi dizer que o Vincenzo fez uma bagunça por aqui. — Antes de levar sua bebida até os lábios, encarou-a com desconfiança e logo depois desviou os olhos até a esposa de seu amigo. — Eu espero não estar bebendo um dos seus infames presentes, Alice.

Ela sorriu e balançou negativamente a cabeça, confirmando que o líquido não estava envenenado. O visitante suspirou aliviado e pôde apreciar seu drinque sem mais preocupações.

— Ele não fez isso sozinho, eu garanto. — Hans comentou.

— Eu sei. — A visita assentiu, largando seu copo na mesa e fitando-o com seriedade. — É por isso que eu estou aqui. Você poderia ter sido preso hoje com aquele descuido.

— Eu, preso? — Sorriu de canto; demonstrando algum escárnio. — Duvido muito. A maior parte dos políticos, juízes e delegados da região trabalham sob o meu nome, como eu poderia ser preso?

— Nós não podemos mais agir como antigamente, Hans. Os tempos mudaram, nós somos os caras maus aqui. — Limpou a garganta antes de seguir: — Tem um novo senador que diz ter a intenção de acabar com o crime organizado. Ele é jovem e promissor, provavelmente vai dar trabalho lidar com ele.

— Quem é? — Arqueou as sobrancelhas em curiosidade.

— Richard Barnes.

— Nunca ouvi falar. — Deu de ombros.

— Ele tem nome, mas não é limpo. — Alice interrompeu. — Alguns mercenários que frequentam o cassino já trabalharam pra ele. Ouvi dizer que ele planejou a morte do antecessor pra poder ocupar o cargo.

— É só mais um hipócrita bancando o bom moço, então. — Hans bateu duas vezes a ponta de seu charuto no cinzeiro, arrumando a postura. — De qualquer forma, o que ele teria para usar contra mim?

— Ele está de olho em você. Um dos homens dele te filmou estourando os miolos de alguém hoje, no hospital. — Bertolucci respondeu grave. A postura do anfitrião mudou outra vez; os ombros tensos e o cenho franzido demonstravam sua preocupação. — Felizmente eu estava pela região, então alguns dos meus cuidaram disso pra você. Uma hora dessas o desgraçado já deve ter virado carne moída em alguma madeireira por aí. — Riu discretamente, permitindo-se beber outro gole de álcool.

— Eu agradeço, meu amigo. Você sabe muito bem que eu sei retribuir um favor. — Gesticulou com as mãos, vendo-o acenar afirmativamente com a cabeça.

— Mas isso não é tudo. — Acrescentou. — Foi ele quem deu permissão governamental para o Vincenzo conseguir chegar até você. Os seus dados, todos os seus endereços, números, informações de viagens. Tudo isso foi fornecido por ele.

— Desgraçado, eu sabia que aquele filho da puta não teria conseguido me encontrar sozinho. — Rosnou entre dentes, apagando o tabaco na mesa e jogando-o ali mesmo. Levantou-se com tranquilidade e abriu a gaveta de sua escrivaninha, puxando um revólver e entregando-o para seu braço direito. — Você e a Alice deveriam passar uma mensagem para ele em meu nome. Um presente de boas-vindas, talvez.

— Matar um senador assim, tão abertamente? Você sabe muito bem que os outros Dons nunca concordariam com isso. Você pode acabar desencadeando uma guerra, é arriscado. — Bertolucci contestou. Seu amigo já estava em péssimos lençóis por ter escondido a única filha legítima, e agora queria assassinar uma figura política? Isso definitivamente não acabaria bem.

— É pior se eu continuar deixando esses imbecis saírem ilesos depois de me desafiarem. — Sentou-se outra vez, colocando os cotovelos nos braços da poltrona. — Um homem morto não pode prender ninguém, e eu tenho motivos para querer que ele acabe morto. Se eu permitir que ele continue livre por aí depois de ter me vendido para aquele psicopata vão pensar que eu amoleci, e aí sim eu vou ter um problema para resolver. Como você disse, os tempos mudaram, e diferente de antigamente que nós éramos homens honrados e respeitados, agora o único jeito de transmitir uma mensagem é através do medo. Eu preciso mostrar que nem mesmo um político sai ileso depois de ir contra mim.

— Como sempre, a sua lábia é infalível. — O visitante deu-se por vencido, suspirando cansado. — De qualquer forma, ele é peixe grande, então a casa é muito protegida. Tenha em mente que não dá para fazer qualquer coisa e sair de lá vivo. Você provavelmente vai ter que mandar um peão.

— Não. — Negou friamente, cruzando os braços de maneira pensativa. — Eu preciso que seja um trabalho impecável, não posso correr o risco de que ele saia vivo. Mandar um incompetente qualquer é muito arriscado. O que você acha, garoto? — Indagou diretamente ao seu braço direito, que aparentava já estar começando com os preparativos para sair.

— Se tem uma coisa que o senhor me ensinou, é que ninguém e impossível de se matar. — Demonstrou um sorrisinho orgulhoso, terminando de carregar seu revólver. — Vou precisar da planta da casa e de outras informações, mas é possível.

— Nós também não precisamos fazer nada chamativo. Tem maneiras mais discretas e menos arriscadas de se matar alguém. Um tiro pode desencadear uma investigação, mas se nós fizermos parecer que ele se atrapalhou e acabou envenenado por um descuido próprio, então a vantagem é nossa. — Alice propôs. — Além disso, eu confesso que estou ansiosa para testar um presente que recebi de um dos nossos contatos no Brasil.

— Brasil? — O marido franziu o sobrolho em curiosidade. — O que é?

— Amêndoas amargas silvestres. — Comentou alegremente. — Se ingeridas descuidadamente, o cianeto contido nelas pode asfixiar em questão de minutos. Até mesmo segundos, se a vítima acabar consumindo uma quantidade maior. Eu consigo fazer um bolo recheado com isso, e diferente de veneno comum, não vai me incriminar por homicídio. Dá pra fazer parecer que é um bolo normal, e que ele simplesmente acabou morrendo engasgado.

— E se tiver algum tipo de sistema de segurança na casa, o Diego pode cuidar disso. — Hector complementou o plano. — Inclusive, facilitaria muito o serviço se nós contatássemos ele para invadir as câmeras da casa e descobrir o nome de todos os funcionários de lá.

— Você pensa em ir atrás das famílias deles pra evitar que abram o bico? — Ela perguntou, vendo-o assentir. — Bom, isso facilitaria a nossa infiltração, mas vai dar mais trabalho. Nós poderíamos até mesmo entrar pela porta da frente se tivéssemos a certeza de que temos todos os guardas na palma da mão.

— Matar um deles e fazer parecer como se ele fosse o culpado pelo homicídio, e que a vítima tentou se vingar antes de morrer também parece plausível. Algo bem dramático que faça os detetives quebrarem a cabeça por anos. — O assassino ponderou, pigarreando antes de seguir: — O Sandro pode cuidar da parte diplomática de ficar ameaçando as famílias dos funcionários. Se o sobrinho dele conseguir desativar o sistema de segurança, então fica mais fácil de colocar alguns carros do lado de fora, para caso algo dê errado. Talvez as negociações se compliquem, e nesse caso nós precisaríamos de reforço.

— São nesses momentos que eu agradeço por ser aliado dos Stracci. — Bertolucci disse admirado. Ele sempre soube sobre a competência de Alice e Hector, mas vê-los tão facilmente encontrando uma solução impecável para o assassinato de um dos homens mais bem protegidos do país o fazia recordar-se do motivo pelo qual a família Stracci permanecera por tantos anos em uma supremacia intocável no submundo. Todas as pessoas que ocupavam cargos significativos naquela família eram completamente assustadoras. — Bom, eu vou conseguir a planta da casa por vocês. Tenho alguns contatos no cartório que podem ser úteis. É o mínimo que posso fazer pelo meu velho amigo. — Levantou-se lentamente, não se esquecendo de cumprimentar o anfitrião com todo o carinho.

— Você já faz muito por mim, Bertolucci. Me chame sempre que precisar de um favor, e eu farei questão de retribuir. — Saudou-o em resposta, despedindo-se dele e acompanhando-o pessoalmente até a porta.

— Eu vou cuidar do bolo, então. Se eu não fizer pessoalmente, não vai dar certo. Ah, e Hector, você deveria levar um silenciador por precaução, e de preferência um revólver menor do que um .38. Se alguma coisa der errado, a nossa prioridade vai ser não chamar atenção. — Alice instruiu, dirigindo-se até a cozinha logo após.

Passaram-se quatro horas até que finalizassem todos os arranjos necessários, cautelosamente tomando conta para que nenhum detalhe escapasse. Não podiam correr o risco de colocar o nome da família em cheque caso fossem presos. O bolo já estava pronto, recheado pela metade com mais de cinquenta amêndoas silvestres amargas não torradas e trituradas, camufladas em um creme branco. A outra metade continha amêndoas comuns, doces, torradas e próprias para consumo humano, sem apresentar perigo à vida. Sandro já havia conseguido identificar todos os nomes e rostos de todo segurança presente no recinto, prontificando-se a mandar alguns homens para a casa da família de cada um, como precaução. Ele não faria mal à nenhum deles senão em último caso, mas se conseguisse transmitir a mensagem necessária aos funcionários do local para que ficassem de boca fechada, então não pouparia esforços. Por fim, como prometido, um sujeito havia entregado diretamente à Hector a planta da casa, sob ordens de Bertolucci. Era uma enorme mansão na zona leste da cidade, cheia de corredores e rotas de fuga que eles poderiam usar caso algo não ocorresse como deveria. Bom, felizmente era um problema a menos para se preocupar.

Após uma breve ligação de Hans, a vítima concordara com a visita de sua esposa e braço direito, convencido de que apresentariam-se apenas para dar-lhe boas vindas na tentativa de suborná-lo. Ele não era idiota, sabia perfeitamente que Don Stracci já estava ciente sobre a sua participação no plano de Vincenzo, mas não poderia se recusar a receber os membros de sua família, pois isso levantaria ainda mais suspeitas. Ele era esse tipo de homem. Audacioso, despreocupado e com um complexo absurdo de grandeza.

Não demorou muito para que batessem à sua porta, após uma breve viagem de carro que não foi mais longa do que vinte e tantos minutos. O indivíduo em questão fora pessoalmente recebê-los para mostrar respeito, sorrindo ao observar Alice da cabeça aos pés; deixando transparecer seu interesse impróprio. Ela trazia consigo o bolo nas mãos, trajando um vestido justo que propositalmente valorizava suas curvas. Havia se informado de que o senador era do tipo viciado em flertar com mulheres bonitas, então obviamente se aproveitaria desse conhecimento. Sensual. Intocável. Perigosa. Não conseguia tirar os olhos dela até que se acomodassem em seu escritório, quando sentou-se de frente à Hector, que havia percebido as intenções perversas estampadas em seu olhar. Era muito corajoso por realmente tentar cortejar a esposa de Don Stracci, isso ele deveria admitir.

O assassino passou os olhos pelo cômodo, identificando as rotas de fuga que havia marcado como possíveis de utilizar em caso de terem algum problema. Eram quatro pessoas no cômodo. Ele, Alice, a vítima e um outro homem; provavelmente alguém de sua confiança. Estava armado. Um revólver bem à mostra no cinto de sua calça e um canivete escondido no bolso interno do casaco. Ele desviou o olhar até sua parceira, percebendo que ela também estava ciente sobre isso.

— Que atenciosos. — O anfitrião quebrou o silêncio, puxando para si o presente que havia recebido. — Como sabiam que eu adoro uma fatia de bolo no fim da tarde?

Não sabiam. Na realidade, não tinham a mínima noção, mas já que surgiu a oportunidade e ela parecia apenas melhorar a situação para o seu lado, por que não continuar com a mentira?

— E quem seria tão tolo a ponto de presentear alguém sem nem ao menos pesquisar sobre seus gostos pessoais antes? — Alice respondeu em seu usual timbre cínico e indiferente, esboçando um sorrisinho amarelo.

— É verdade. Eu assumo que vocês me farão companhia no chá da tarde, então? — Questionou de maneira cavalheiresca, sinalizando para que seu acompanhante trouxesse garfos e pratos de sobremesa, colocando-os à frente de cada um ali presente. Os dois membros da família Stracci sabiam muito bem que aquilo era uma mera formalidade para esconder suas intenções de transformá-los em cobaias antes de ingerir o alimento, mas era exatamente para esse propósito que o bolo havia duas metades, então não era como se já não esperassem por algo assim.

— Mas é claro que sim. Seria uma grosseria recusar esse convite tão educado. — Ela sorriu outra vez, já preparada para isso. Em um movimento suave e delicado, levantou-se de onde estava para conseguir alcançar a faca antes de qualquer outro, percebendo que o acompanhante da vítima havia tocado sua arma instantaneamente, em um reflexo protetor. — Inclusive, eu insisto em ser aquela que vai servi-lo. — Acrescentou em um tom sedutor, com os olhos semicerrados e ignorando completamente a desconfiança daqueles sujeitos sobre si.

— Mas que educada. — O senador gesticulou com as mãos para que seu capanga se acalmasse, curvando os lábios de maneira sarcástica enquanto ficava vidrado no decote raso de Alice. — Seu marido é um homem de sorte. Uma pena ele não ter sido capaz de comparecer hoje.

— Peço perdão em nome dele. Como ele acaba de sair do hospital, precisava ficar em repouso absoluto. É realmente uma pena.

De certa forma, não era uma mentira. Hans realmente acabara de receber alta do hospital, porém ao invés de estar repousando como deveria, planejava a morte de um senador intrometido que ousou passar dos limites ao ajudar Vincenzo a jogar a foto de sua filha aos lobos. Outras famiglias normalmente mandariam picciottos ou algum inocente não envolvido, sem amor à vida e que precisasse desesperadamente de dinheiro fácil, porém Don Stracci não gostava desse método. Pensava que, caso morressem, teriam cumprido com o seu trabalho, mas e se não? E se ficassem vivos e fossem pegos? Eles poderiam abrir o bico, mesmo que as ordens fossem passadas por intermediários. Era muito trabalhoso; desnecessário. Não era o ideal para um acontecimento desses. Nessa ocasião, ele preferia usar as pessoas de sua confiança, tendo a certeza de que não existiriam erros. Sua esposa e um dos membros em que mais confiava eram perfeitamente adequados para o serviço.

— Não se preocupe, nós teremos outras oportunidades. — Comentou com as sobrancelhas arqueadas, quase como se tentasse averiguar a procedência daquelas palavras. Um jeito sutil de tentar descobrir se eles planejavam deixá-lo sair vivo dali.

— Definitivamente, nós teremos outras oportunidades. Tenho certeza de que o meu marido vai ficar muito satisfeito em conhecê-lo. — Ela retrucou educadamente, entregando-lhe um prato com uma fatia generosa de bolo, obviamente retirada do lado destinado a ele. Havia até mesmo tomado o cuidado de cortar um pouco além do limite, para que não houvesse a chance de acabar intoxicada também.

Hector encarou o prato colocado à sua frente e direcionou rapidamente o olhar até sua parceira, vendo-a degustar uma garfada generosa, como se lhe desse permissão para fazer o mesmo. Sem vontade de levantar suspeitas, decidiu copiá-la, e só então, após observá-los comendo tão prazerosa e despreocupadamente, o anfitrião respirou aliviado e deu início ao seu chá da tarde, engolindo satisfatoriamente um pedaço de sua fatia, que era um pouco maior do que as outras. Afinal, era necessário um mínimo de amêndoas ingeridas para que acabasse realmente envenenado, e como era tão arrogante, provavelmente imaginava que Alice apenas o queria agradar ao dar-lhe um pedaço maior.

— Isso é realmente delicioso, Sra. Stracci. — O senador comentou em um timbre disfarçadamente sedutor, quase fazendo-a cair na gargalhada. Felizmente ela conseguiu se segurar para não estragar o plano. — Se importa se eu pegar mais um pedaço? — Perguntou diretamente à ela, deixando claro que queria ser servido. Provavelmente tinha a intenção de fitar seu decote novamente.

— É claro que não. — Ela levantou-se uma vez mais, servindo-o com cautela. — Foi feito especialmente para o senhor. — Acrescentou, quase não conseguindo esconder o sorrisinho triunfante que se formava no canto de seus lábios ao vê-lo tão ansioso para antecipar a própria morte.

Foram exatos oito minutos de conversa fiada e gracejos do anfitrião direcionados à Alice até que começassem a aparecer os primeiros sintomas. A vertigem se manifestando na pele, seguida de uma necessidade absurda de água para abrir a garganta e batimentos acelerados, enquanto a vítima passava desesperadamente a mão por seu pescoço, lutando para respirar. Hector logo sacou o revólver e apontou diretamente ao outro homem presente no quarto, deixando-o rendido antes que pudesse reagir. Sua parceira aproximou-se dele para desarmá-lo, tomando posse de sua arma e entregando o canivete para o assassino, que tinha mais apreço por esse tipo de coisa.

— Você tem a chance de sair daqui vivo, quer tentar a sorte? — Ela perguntou, vendo-o assentir quase que instantaneamente, com as mãos trêmulas por ver o patrão se contorcer no chão, agonizando com a falta de oxigênio. Podia jurar que havia visto aquela mulher salivar por um segundo, deleitando-se com aquela cena mórbida e desesperadora; a pele dele já havia mudado de um tom amarelado e vívido para um arroxeado, que gritava asfixia. — Dispense os homens do lado de fora. Eu sei que depois que nós entramos vocês mudaram alguns dos seguranças. Foi um movimento esperto, mas se queriam nos pegar deveriam ter sido mais competentes e cuidadosos. Confiar em mafiosos nunca é uma boa ideia. — Sorriu.

Ele assentiu outra vez, segurando seu transceptor de mão para contatar os que guardavam a saída da casa. Não havia sujeito que se recusasse a seguir ordens com a vida em jogo, e até mesmo a lealdade era colocada em cheque nesse tipo de situação. Com um revólver apontado à sua cabeça, faria qualquer coisa com a mínima esperança de conseguir sair dali vivo.

— Diga à eles que seu chefe quer descansar e que não quer ser incomodado até amanhã. — Hector ordenou, ainda sem desviar o olhar gélido que dava-lhe calafrios. Achava patético o quanto aquele indivíduo estava assustado. Um tanto ansioso, o refém repetiu exatamente o que ouvira, e embora todos tivessem estranhado aquela dispensa tão repentina após terem sido chamados há pouco tempo, não ousaram contestar o chefe da segurança.

Aquela enorme mansão agora estava vazia, com todas as rotas de fuga completamente livres. Alice fitou o rapaz por alguns instantes, e percebendo que ele aparentava querer dizer algo, ela sinalizou com o queixo para que ele falasse logo.

— Eu vou conseguir sair vivo? — Arriscou, com a voz extremamente falha e tímida.

Ela soltou uma breve risadinha maliciosa.

— Sim, pode sair. — Deu de ombros. Por ela, se não tinha como brincar com suas vítimas, também não achava graça alguma em matá-las. Não tinha importância se ele ficasse vivo ou não.

Hector negou com a cabeça ao vê-lo agradecer e olhar até a porta, mirando o revólver em sua direção, irritado em como aquele homem era patético. O fato dele ter abandonado toda a sua honra e lealdade por seu chefe no instante que sua vida fora colocada em risco fez com que o assassino não tivesse piedade alguma. Uma. Duas. Três. Foram três as balas atravessadas pelo crânio do sujeito, sem possibilitar sua fuga. Sem silenciador, sem clemência. Achava que o mundo seria um lugar melhor se aquele tipo de gente estivesse enterrada à sete palmos abaixo do solo.

Em seus últimos suspiros, ele caminhou em direção ao assassino com a intenção de revidar e levá-lo consigo ao inferno. Desarmado, ele nada foi capaz de fazer além de sujar suas roupas de sangue, abraçando-o antes de espatifar-se no chão.

"Mas que desgraçado", Hector pensou. Tudo isso apenas para obrigá-lo a se livrar de outra camisa que gostava? Para que comprar camisas e ternos caríssimos se todos acabariam em chamas ao fim do dia? Inferno.

— Quer que eu me livre dos corpos? — Perguntou desinteressado, enquanto caminhava em direção à saída ao lado de sua parceira. — Posso voltar e sumir com eles para não deixar nenhuma evidência.

— Não. Nós queremos deixar um aviso, se você simplesmente sumir com os corpos eles não vão entender. Vai parecer que foi apenas um homicídio ou um desaparecimento comum. Precisamos que eles saibam quem foi, mas que ao mesmo tempo não tenham provas o suficiente para nos incriminar.

— Você trouxe os talheres com as nossas digitais?

— Sim, estão na minha bolsa. Vou me livrar deles depois.

— Tudo bem, vamos para casa então. — Exprimiu arrumando suas vestes bagunçadas e sujas, adentrando o carro. Quando percebeu que estava sozinho, abaixou o vidro e observou-a com as sobrancelhas arqueadas, demonstrando certa confusão. — Você vai ficar?

— Vou pegar uma carona com o conselheiro e me encontrar com o Hans no cassino.

— Digo para ela que vocês não voltam para casa hoje? — Inquiriu, referindo-se à sua protegida.

— Sim, faça esse favor. — Ela assentiu, afastando-se do carro para deixá-lo ir.

Hector despediu-se rapidamente e voltou para casa em meio àquela chuva estranha e fora de época, apenas para fazê-lo se sujar ainda mais antes de adentrar a residência. Entre o traje ensanguentado e agora também encharcado, sentia que precisava urgentemente de um banho para se livrar de toda aquela impureza.

Retirou os sapatos molhados e as luvas, visando fazer o mínimo de barulho possível para não acordar as garotas, já que estava tarde. Percebeu algo estranho, no entanto. As luzes da cozinha estavam acesas, e por um breve momento, antes de ter a oportunidade de se esconder ou então livrar-se das vestes suspeitas, seu olhar cruzou-se com o de Pan, que estava sozinha à mesa, segurando um copo d'água enquanto esboçava um semblante aflito e um tanto melancólico.

— Hec? — A voz dela soou manhosa, quase como se estivesse com dor por algum motivo.

— Boa noite. O que está fazendo acordada a essa hora? — Acercou-se lentamente, após jogar os sapatos ali mesmo e abrir parte de sua camisa; apenas os dois primeiros botões. Sentia-se sufocado com o colarinho.

Os olhos dela percorreram por suas roupas manchadas, causando-lhe um certo arrepio desconfortável ao pensar que, talvez, ele pudesse estar machucado. Essa possibilidade foi rapidamente descartada ao vê-lo caminhando normalmente. Estava aparentemente cansado, mas bem. Não era ele quem havia sido ferido, afinal, e uma parte de si estava culpada por ter suspirado sossegada ao perceber isso.

— Me deu um pouco de cólica, então eu desci pra tomar um comprimido. — Exprimiu desanimada, desviando o olhar. Não tinha um minuto naquela casa que alguém não chegasse baleado, esfaqueado ou ensanguentado, caramba?

— Cólica? — Ele ponderou por um instante. — Então era por isso que você estava tão estranha hoje à tarde. — Suspirou aliviado, como se tivesse acabado de retirar um peso das costas. Esteve preocupado com ela durante o dia todo, após vê-la tão apressada em sair do carro anteriormente. — Precisa de alguma coisa? Eu posso sair pra comprar, se quiser, eu só preciso... — encarou a si mesmo de cima à baixo — me trocar.

— Não, não precisa. Obrigada. — Mordeu os lábios um tanto entristecida, fazendo questão de fitá-lo outra vez. — Hoje à tarde, com o papai no hospital, também era sangue, né? Vocês estão fazendo alguma coisa perigosa que eu não posso saber outra vez? — Arriscou questionar, já esperando por alguma mentira ou desculpa por parte dele.

— Sim e sim. — Concordou, pensando que talvez aquele fosse o momento de tentar afastá-la um pouco mais antes que as memórias de seu chefe retornassem. As despedidas provavelmente seriam menos dolorosas dessa forma. Pan surpreendeu-se com aquela resposta tão direta e sincera. — Não adianta me olhar com essa cara. Se eu dissesse que me sujei com macarrão você acreditaria?

— Eu fingiria que sim, pelo menos. — Sorriu, apertando um pouco o copo que tinha nas mãos para tomar coragem de direcionar-lhe uma pergunta: — Você precisa mesmo fazer essas coisas?

Hector suspirou, acercando-se ainda mais dela.

— À essa altura você já deveria saber que eu não sou um homem bom, senhorita Stracci. — Sussurrou próximo à testa da moça, depositando ali um carinhoso beijo de boa noite antes de afastar-se alguns passos, rumo às escadas.

— Não é esse o problema, Hec. — Soou frustrada, fazendo com que ele cessasse os movimentos para ouvi-la, embora sem ter coragem de virar-se para ela outra vez.

— Qual o problema, então?

— Eu tenho medo de que algum dia desses você possa acabar se machucando muito. E se você acabar realmente ficando em perigo e não conseguir voltar? — Aqui a voz dela estava trêmula e abalada, quase como se estivesse segurando um choro que lutava desesperadamente para sair. A garganta já havia se fechado um tanto.

— O quê? É com isso que você se importa? — Inquiriu admirado, ainda de costas para ela. — Você não se importa com o que eu faço? Não te magoa?

— Eu não gosto. Não gosto de imaginar que você anda fazendo coisas ruins por aí, mas pra ser sincera e não agir como uma hipócrita, eu também não posso dizer que sinto a mesma repulsa de antigamente. — Murmurou, observando a paisagem da sala já perdida nos próprios devaneios. Respirou fundo e voltou a falar: — Uma parte de mim já aceitou que você é assim, e eu não consigo desgostar de você mesmo sabendo que você faz coisas erradas. Acabei me acostumando com isso, será que eu sou uma pessoa ruim também? — Indagou confusa; a melancolia estampada em seu timbre baixo e sereno, cheio de angústias.

Merda. Merda. Merda. Ela tornava as coisas tão difíceis. Era quase doloroso lutar contra o desejo insaciável de voltar até ali para beijá-la. As inúmeras cenas que criara em sua cabeça eram, em sua maioria, uma simulação do momento em que a prensaria naquela parede e selaria fervorosamente os lábios nos dela, deixando fluir todos os sentimentos que vinha reprimindo há anos.

— Não, você não é uma pessoa ruim por isso, você só... — Soou firme e ríspido, quase cedendo às próprias vontades. Talvez se a estivesse fitando nos olhos acabaria fraquejando e sucumbindo aos desejos que tinha dentro de si. — Não, deixa pra lá.

— O que foi?

— Nada. Boa noite, Pan. — Despediu-se apressadamente, quase sem conseguir se aguentar. Pensava ser um imbecil por ter tanta dificuldade em resistir àquele sentimento tão inebriante que se espalhava dentro de si como uma chama ardente e extremamente perigosa.

Aquela garota, com toda a certeza, seria sua ruína.

Notas finais
Espero que tenham gostado aaa ♥ obrigada por continuarem me acompanhando!