Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
64 Culpa e perdão
Notas iniciais
O aroma de madeira, a brisa gélida da madrugada após uma noite de neve. Neve. Tão pura, macia, tão branca, até começar a se manchar gradativamente de rubro vívido, gota a gota. Sentada à frente de um lago congelado, admirando cada floco caindo do céu limpo, lotado de estrelas que clareavam a escuridão imensa. Repentinamente ela se levanta, com os pés descalços inicia uma caminhada pela camada fina de gelo acima da água, o frio severo ferindo a pele desprotegida, e a cada passo, um racho ficava para trás. Parar seria um erro; precisava continuar para não cair, porém o corpo exausto parecia pesar, aos poucos, até perder as forças por completo e se encontrar submersa, envolvida pela quietude interminável da água. Pacífica, reconfortante, como se a abraçasse, se a recebesse calorosamente. Fechou os olhos, talvez fosse uma boa ideia aproveitar a jornada até o fundo, desistir, se permitir ser levada pela correnteza.
A paz se quebrou com os gritos que ecoaram no fundo de sua mente, o barulho era uma tortura quase insuportável e a obrigou a abrir os olhos novamente, assustada. A calmaria deu espaço ao pavor quando percebeu que não estava se deixando afundar, mas sim sendo puxada, arrastada, inúmeras mãos seguravam seu corpo inteiro, e tudo piorou quando virou o pescoço para identificar seus donos. Sentiu-se sufocada, boa parte da multidão não possuía um rosto, mas dois ela pôde identificar de imediato: Ezio Romano e Giuseppe.
Bolhas escaparam de seus lábios, os pulmões se encheram de líquido, não existia escapatória. As vozes de ambos ecoando ameaçadoramente, seu coração se estraçalhando como se houvesse sido perfurado por uma estaca, e logo a água começava a se manchar de vermelho, assim como a neve. Aparentemente, um rastro de sangue sempre parecia segui-la por onde ia.
— Não! — Pan gritou apavorada, segurando o peito, a respiração pesada, acelerada. Seus músculos completamente atrofiados, a mente embaralhada, a visão cansada. Não conseguia enxergar nada além de focos embaralhados de luz.
— Calma. — Alguém com a voz muito familiar segurou com força sua mão, preocupado com seu bem-estar.
— Ele tentou me afogar, eu preciso... — engasgou com a própria saliva, minimamente desesperada, não parava de tremer — o Giuseppe vai vir atrás de mim, ele disse que...
— Olha pra mim, gatinha. — Emoldurou forçadamente o rosto dela, obrigando-a a cessar um pouco a euforia. — Já passou. Presta atenção, você tá aqui comigo, não tem mais ninguém. Foi só um pesadelo, tá tudo bem. — Murmurou, empenhando-se em acalmá-la. Tinha ciência de que isso aconteceria.
— Diego? — Aos poucos a visão dela tornou-se menos nebulosa, possibilitando que visse as coisas com clareza. Quando se percebeu confortavelmente posicionada na cama do chalé, foi capaz de se acalmar. — Era só um sonho? — Sussurrou confusa, direcionando à ele um olhar marejado.
— Sim, era só um sonho. — Concordou, sentando-se ao lado dela na cama, mantendo certa distância devido ao odor de vômito. — Ninguém vai te machucar. Tranquila, tá? — Concluiu em tom baixo, não querendo piorar sua dor de cabeça.
— Eu nunca cheguei a ir no cassino ou na suíte, então? — Inclinou-se para frente, sem desviar o foco — Aquilo nunca aconteceu? — Existia uma pontada de esperança em seu semblante.
— Tá falando sobre ter transformado os caras que são basicamente donos dessa cidade em queijo suíço? Ah, isso aconteceu sim. — A nada querida realidade a acertou como uma avalanche pesada, e logo a esperança se esvaiu como um vulto que jamais esteve presente. —Você teve outro ataque de pânico e desmaiou, do mesmo jeito que desmaiou quando descobriu que seu namoradinho tinha ido embora.
— Ah. — Somente isso saiu de seus lábios, evidenciando toda sua decepção; seu olhar caiu para as mãos e cerrou os punhos sem força. — E cadê ele?
— Da última vez que eu vi, ele estava resolvendo as coisas para você poder voltar pra casa sem ser presa. — Tocou-a no ombro, sutilmente averiguando se contato físico era aceitável no momento. Como não houve contestação, manteve. — Digamos que você não foi muito discreta em mostrar que foi a responsável por matar aqueles dois.
— E de quem é a culpa? — Fincou as unhas na palma da mão, usando a dor para segurar o choro. Estava cansada, tanto mentalmente quanto fisicamente. — Eu não sou como vocês, eu disse que não queria matar ninguém. — A voz falhou com a garganta fechada, formando um bolo de emoções que ela fizera questão de engolir.
— Não, você não é. A maioria entrou nesse meio por necessidade, mas você teve uma escolha e decidiu se envolver. — Soou sério, a face sem expressão alguma. Não estava sendo o mesmo brincalhão de sempre. — O padrinho tentou te manter longe disso. Todo mundo tentou, só que você insistiu, se intrometeu cada vez mais, ignorou os avisos que te deram e pensou que isso era só um jogo. — Soltou o ombro dela e agora segurou-a suavemente no queixo, obrigando-a a fitá-lo. Estava tão diferente que chegou a assustá-la por um instante, porém confiava nele a ponto de não afastá-lo. — Me importo muito com você, mas já tá na hora de começar a se responsabilizar pelos seus próprios atos. Ninguém te obrigou a atirar, você fez sozinha. — Sentenciou impassível, frustrado com o fato de ela tê-lo implicitamente culpado.
Pan gelou por um segundo. Sempre agradecera Diego por ser tão brutalmente honesto e não tratá-la como uma fraca incompetente, mas nesse instante, a verdade talvez houvesse sido dolorosa demais. Tinha razão. Atirar era desnecessário, e ainda assim o fez. O fez porque estava muito assustada com as ameaças para dar chance ao acaso, porque estava com nojo de sequer cogitar as coisas que poderiam acontecer consigo se os deixasse vivos, mas especialmente, porque as imundas e profanas mãos de Giuseppe haviam tocado sua mãe, e isso fora um gatilho extremo para seu ódio. Não o perdoaria jamais por ter machucado sua família.
Sem saber como respondê-lo, simplesmente mordeu os lábios e assentiu cabisbaixa, pegando um cobertor antes de dirigir-se até o lado de fora em passos lentos, no intuito de aproveitar os efeitos da brisa noturna para aclarar os pensamentos. Precisava de ar fresco.
Aparentemente não era a única.
Hector estava sentado na escada de madeira da entrada, com os olhos perdidos no além da madrugada e um cigarro entre os dedos. Silenciosamente, Pan acomodou-se ao seu lado, encostando a cabeça em seu ombro.
— Não percebi você chegando. Já vou apagar. — A voz rouca continha uma pontada de exaustão e melancolia, e ao encará-la, isso também se manifestou em seu rosto.
— Não precisa. — Segurou seu braço para detê-lo de jogar fora o tabaco e o roubou para si, colocando-o entre os lábios.
Uma tragada e seus pulmões já iniciaram o processo de rejeição. Tossiu uma vez, duas, perdeu o fôlego de tanto tossir, e ainda assim, decidiu tragar novamente. O processo seguiu, e sem falar nada, Hector apenas a observou iniciar seu processo de autodestruição. Seria um hipócrita se tentasse detê-la, e a conhecia o suficiente a ponto de ter noção de que não adiantaria nem tentar. A amava muito, portanto respeitaria seu espaço e ficaria ao seu lado para recolher os cacos no final, mesmo ciente de que algumas cicatrizes seriam eternas.
— Como se sente? — Ousou perguntar. Uma pergunta estúpida, mas quis arriscar.
— Péssima. — Admitiu, suspirando alto, a face sem vida ou brilho. — Eu fiquei com muito medo. Achei que ia morrer ou... — perdeu a força completamente, o corpo inteiro paralisou no instante que cogitou ter sido violentada. Era um de seus maiores pesadelos.
— Perdão. — Colocou a mão acima da dela, apertando-a angustiado. — Se eu tivesse chegado mais cedo, você não teria passado por nada disso. — Estalou a língua, um bolo arrependido se formando em seu âmago. Droga, deveria ter sido mais insistente em não permiti-la fazer parte dessa merda toda.
— Não, o Diego tem razão. — Engoliu seco, apagando o cigarro no corrimão e jogando-o de lado. — Foi uma escolha minha, e eu vou ter que lidar com as consequências sozinha.
— Você não precisa lidar sozinha com nada, Pan. — Aproximou-se um tanto, acomodando-a em seus braços. — Nem o próprio Diego acredita nisso. Ele não saiu do seu lado nem por um segundo desde que nós entramos naquela suíte.
— Se ele estava tão preocupado assim comigo, podia ter esperado mais um pouquinho pra dar todo esse sermão.
— Ele lembra um pouco a Alice. — Beijou seus cabelos, colocando mais força no abraço, deixando claro seu pavor com a mera possibilidade de tê-la perdido. — Nenhum dos dois sabe como se expressar e são complicados de se lidar, até no trabalho. Mas eu conheço ele há muito tempo e posso falar com prioridade que ele só se sente culpado por ter feito a oferta de te colocar no meio disso. No fim, tudo que saiu da boca dele foi mais tentando convencer a si mesmo do que a você.
— Se vocês não tivessem colocado aquele segundo revólver como precaução, eu nem sei o que teria acontecido. — Roçou as unhas contra as costas dele, atormentada, ignorando-o completamente enquanto perdida nos próprios devaneios. — Não aguento mais pensar nisso, mas também não consigo esquecer. Esse barulho insuportável que fica martelando na minha mente tá me enlouquecendo. — Afastou-se do carinho, apoiando os cotovelos nos joelhos ao mesmo tempo que segurava a cabeça, fechando os ouvidos, tentando cessar o ruído.
— Não fui eu, Pan. — Ajeitou a postura, colocando-se de frente para sua amada, fitando-a sério. — Esse modelo é de colecionador, próprio para caça. Não uso esse tipo de coisa e não conheço ninguém que use, então cogitei a possibilidade de ser do próprio Ezio, por saber que ele gosta de caçar. Mas pra ser sincero, a aparição desse revólver bem quando você precisava, exatamente no lugar em que você estava foi muito conveniente. Os seguranças dele revistaram tudo. Não tinha como aquilo estar ali. Não antes de vocês entrarem no quarto, pelo menos.
— O quê? — Sobressaltou e o encarou perdida, assustada, apertando com força o próprio braço como se estivesse forçando a si mesma a retornar para o mundo real. — Desculpa, eu não ouvi nada. Pode repetir?
— Nada importante, principessa mia. — Sorriu de canto e fez contato visual direto, tão singelo e gentil, empenhando-se em mandar as tormentas dela para longe, ao menos por um segundo. Queria retribuir o fato de ela ter sido o motivo de ser capaz de seguir em frente durante todos esses anos. Esticou a mão, enrolou alguns fios vermelhos delicadamente entre os dedos e murmurou: — Sabia que eu só consegui me manter firme e concluir o meu primeiro trabalho por causa disso aqui?
— Dos meus cabelos? — Arqueou as sobrancelhas confusa.
Ele assentiu.
— No dia do meu aniversário de dezessete, o Hans me pediu pra acompanhar ele e o Sandro até a casa de um político para uma reunião de negócios. Ele não tinha tanto poder na época, mas precisava de permissão para construir outro hotel em Palermo.
— Não entendi. O que isso tem a ver com o meu cabelo?
— O Hans não conseguiu o aval que queria, e as negociações ficaram um pouco violentas. — Pigarreou, desviando o olhar para os pés. Ainda sentia algum desconforto em falar sobre seus feitos para ela. — Quando nós entramos lá, não tínhamos a intenção de matar ninguém. O Sandro apontou uma arma para a cabeça dele, só como ameaça. Ela deveria estar descarregada, ele ia puxar o gatilho só como um susto, mas por um descuido, ele pegou o revólver errado.
— Então...
— Sim, esse estava carregado, e ele morreu. — Inferno, eram lembranças que não queria desenterrar jamais. A voz mais alta de todas, a que mais lhe atormentava durante a noite, com certeza não queria recordar-se desse dia. — A filha dele estava logo atrás de nós, trazendo xícaras de café e pedaços de bolo em uma bandeja. O barulho do vidro se espatifando no chão entregou a presença dela. A menina era mais nova do que eu na época, não deveria ter nem quinze anos, e se ajoelhou acima dos cacos para implorar pela própria vida, dizendo que faria qualquer coisa, mas que não queria morrer. — Respirou fundo novamente, a testa se franziu de forma involuntária. — O Hans se ajoelhou na altura dela, pegou uma das facas que ela trazia na bandeja e colocou na minha mão. Eu entendi na hora o que era para fazer. Ele não deixaria uma testemunha sair viva.
— Por que você tá me contando isso, Hec? — Questionou apavorada, mais balançada do que anteriormente. — Ainda não entendi a relação da história com o meu cabelo. — Repetiu; a voz quase inaudível de tão trêmula.
— Porque se não fosse por isso, eu não teria conseguido. — Engoliu seco, a saliva cortando a garganta. Imaginava ter se livrado dessas amarras desnecessárias no passado, contudo aparentemente alguns tormentos eram eternos, e nem mesmo a força deles diminuiria com o tempo. — Eu fiquei com medo, hesitei por alguns segundos. Queria fugir, mas o Hans me ordenou silenciosamente a terminar o serviço, e eu precisava obedecer. Olhei para o sangue escorrendo dos joelhos dela e mentalizei a cor dos seus cabelos, mentalizei o dia que você chegou com eles daquela mesma cor, o dia em que eu me apaixonei por você. Os gritos desesperados da menina ficaram longe, e a única coisa na qual eu conseguia pensar era no quanto eu queria desesperadamente voltar pra casa e te ver. Em silêncio eu terminei o serviço, em silêncio eu escondi o corpo, e em silêncio eu cheguei em casa e te abracei, buscando por conforto. A partir daquele dia desgraçado, eu me apeguei à ideia de que toda gota de sangue que eu derramava não passava de um fio de cabelo seu, e nisso eu parei de me importar.
— Espera, eu lembro. Você chegou em casa com uma cara péssima, e eu fiquei brava porque era seu aniversário e você não passou comigo. Você só ficou me ouvindo reclamar por um tempão e depois me abraçou sem falar nada. Era por isso? — Mordeu os lábios aflita, entrelaçando os dedos nos dele, apertando-os levemente. — Agora eu entendi a relação da história comigo, mas por que você quis me contar agora, depois de tantos anos?
— Se você relacionar o seu pecado a algo que você goste, o fardo fica mais fácil de carregar, gatinha. — Diego avizinhou-se sorrateiramente, mais calmo do que antes. — E as vozes ficam mais baixas também. — Concluiu descontraído, sentando-se ao lado dela.
— Olha só quem decidiu parar de agir como um animal. — Hector o repreendeu devido às palavras rudes ditas para sua amada mais cedo.
— Que maldade, fantasminha. Eu sou o único que coloca bom senso na cabeça dessa mulher e é assim que me tratam? — Retrucou com um sorrisinho ladino, tocando o próprio peito na intenção de demonstrar estar ofendido. O outro ignorou completamente sua atuação e estalou a língua em desgosto.
— Quanto tempo ficou aí parado escutando a nossa conversa? — Ignorou completamente sua atuação, estalando a língua em desgosto.
— Cheguei no começo da história, mas eu estava muito curioso pra interromper. — Começou a tatear os bolsos da calça, buscando por algo. — Só vim trazer o celular do amor da sua vida. — Retirou o aparelho de um dos bolsos e o entregou à ela. — Esse negócio não parou de tocar nem um segundo, e tem pelo menos mil mensagens não lidas de um número privado. As outras são dos seus amiguinhos, e eles parecem meio desesperados.
— Você leu? — Inquiriu alarmada. Não queria falar sobre Luca para mais ninguém além de Hector. Não ainda.
— Fica tranquila, eu respeitei a sua privacidade. — Deu de ombros, levantando-se ao ver as luzes de um carro se aproximando, sinalizando o veículo com o queixo. — Vou conversar com a madrinha, e enquanto isso, os pombinhos podem se despedir. — Terminou com um sorrisinho ladino, deixando-os a sós.
— Como assim? — Colocou-se lentamente de pé e fixou os olhos em Hector, um tanto marejados, cheios de decepção. Tinha uma esperança de que voltassem juntos para casa, e na realidade, sentia que precisaria dele para aguentar as noites turbulentas nos próximos dias. — Você não vai comigo? — Mordeu os lábios sutilmente, torcendo para que dissesse que sim.
O balançar negativo de cabeça frustrou suas expectativas e os ombros caíram em decepção.
— Ainda tenho coisas para resolver aqui. — Emoldurou o rosto dela com as mãos, gentilmente acariciando as bochechas com os polegares, apreciando cada detalhe seu, apaixonando-se outra e outra vez pela mesma mulher. Amava olhar para ela, mesmo destruída. Era linda. — Eu volto para a cidade assim que acabar. Prometo. — Um beijinho na testa foi a chave de ouro para convencê-la, ainda que à contragosto.
— Você quis dizer que vai voltar pra casa né? — Quis se assegurar.
— Eu não posso, meu amor. — O usual rouco timbre saiu baixo e cheio de culpa. Sabia que ela odiaria isso, contudo estava de mãos atadas nessa questão. — O Hans conseguiu um bom álibi para livrar a minha culpa pelo assassinato no seu colégio, mas isso não muda o fato de que eu fui expulso da famiglia. — Seguiu a explicação, percebendo o semblante dela murchar a cada palavra. Droga, odiava isso; odiava vê-la se chatear.
Pan suspirou e se deu por vencida, afundando-se em um abraço caloroso e muito necessário. Outra despedida era dolorosa, porém, ao menos, agora existia a promessa de um reencontro em breve. Hector voltaria para o seu lado e finalmente poderiam ficar juntos em paz, certo?
— Vou te esperar. — Colocou-se na ponta dos pés, selando seus lábios em um beijo romântico e demorado, entrelaçando os braços em seu pescoço. O gosto e o aroma de tabaco seguiam recentes. — Ci vediamo dopo. — Rumorejou ao se afastar, olhando para trás uma última vez antes de adentrar o sedan preto na companhia de sua mãe.
— Me contaram que você fez um bom trabalho. Estou orgulhosa, querida. — Alice a cumprimentou com um beijo na bochecha, surpreendendo-se ao vê-la se encostar em seu ombro, segurando carinhosamente seu braço. Era quase um gesto de piedade devido ao ocorrido com Giuseppe, e isso a incomodava. — Meu afilhado comentou sobre as idiotices que o velho usou para encher seus ouvidos. Não precisa ter pena de mim. — Repreendeu ríspida, a testa enrugada em amargura.
— Eu sei. Sei que você é forte, que provavelmente nem lembra do que aconteceu... — mudou a posição e deitou-se com a cabeça no colo dela, acomodando-se confortavelmente, sentindo as pálpebras pesarem pela exaustão e o excesso de conforto — mas eu não sou, então me deixa ficar assim um pouquinho. Não é por pena, eu só quero... — fechou os olhos, — só quero ficar assim um pouquinho, tudo bem? — Concluiu em tom baixo e manhoso.
Alice se acalmou em um instante, percebendo que ela não tinha intenções de ofendê-la; suas intenções não possuíam a malícia de tratá-la como uma fraca. Pan estava longe de ser igual aos cretinos que a menosprezaram sua vida inteira.
— Motorista. — Chamou, fitando-a tão pacífica e quebrada em seu colo, esboçando um sorrisinho satisfeito. — Pode tomar o caminho mais longo. Minha filha precisa descansar. — Tocou-a delicadamente nos cabelos, tomando a liberdade de acariciá-los como um anuncio de que estava ao seu lado, que ficaria ali e a protegeria caso necessitasse dormir.
Não eram tão próximas e mal sabia demonstrar isso, mas no fim das contas, a amava incondicionalmente.
A sensação de chegar em casa e ficar perto de sua família deveria ser revigorante e acalentadora, ou ao menos era isso que Pan imaginava até deparar-se com Félix sentado em sua sala de estar com uma xícara de café nas mãos. Cretino. Infeliz. Milhares de insultos percorreram sua mente sem que pudesse pronunciá-los em voz alta, por respeito ao seu pai. Tudo que não precisava era lidar com mais um desses figurões egocêntricos.
— Achei que fosse voltar mais tarde, bambina. — Hans a interceptou pelas costas sem aviso, fazendo-a sobressaltar infimamente com o susto. — O Félix acabou de chegar. Nós temos algumas pendências, por que você não sobe um pouco e depois conversamos? — Deu a ela uma desculpa para que pudesse sair dali, ciente de seu desapreço pelo sujeito. Não a culpava por isso; sabia o sofrimento que ele causara à Sarah.
Concordou sem pestanejar, tendo como prioridade verificar o estado mental de sua considerada irmã, dada a visita inesperada. A segunda coisa seria tomar um banho. Sentia-se tão suja que chegava a ser insuportável, e não apenas fisicamente. Desejava que a água quente pudesse levar para o ralo suas dores também.
— Olha quem voltou pra te fazer companhia. — Colocou suas preocupações de lado e forçou uma expressão alegre, contudo ver algumas malas preparadas ao lado da cama aonde ela discretamente chorava sozinha fora como um belo balde de água fria. — Ei, o que foi? O Félix inventou alguma coisa? — Se aproximou intencionando confortá-la.
— Pan? Quando você chegou? — Fungou e apressou-se em limpar o rosto, querendo recebê-la de forma mais apresentável.
— Acabei de chegar e vi ele na sala. — Olhou para as malas, balançando os pés ansiosa. — Você não vai com ele, né?
— O quê? Não, claro que não. O Félix decidiu finalmente me libertar, mas com a condição de que o processo de adoção fosse feito na Sicília. — Respirou fundo e por fim acalmou os ânimos, apoiando a mão acima da coxa de Pan. — Ele quer que o Hans veja o novo aeroporto e invista nele, mas depois disso, nós duas vamos ser irmãs de verdade. — Uma dose de entusiasmo surgiu tímida na voz.
Foi a primeira vez que Pan sorriu de maneira não forçada nessa madrugada, apesar de exausta.
— O choro é de felicidade, então? — Perguntou, ainda intrigada com as lágrimas derramadas.
— É porque eu acabei de enviar uma mensagem terminando com o Chris. Não tive coragem de falar pessoalmente e me sinto péssima por isso. — Apertou o celular entre os dedos, segurando para não voltar a desabar. — Depois do que aconteceu com a Alex eu nem consigo olhar pra cara dele.
— Pensei que a Alex estivesse com o Naoki. Ela não desistiu de separar vocês dois?
— Espera, você... — levantou a cabeça para fitá-la corretamente, os olhos arregalados em surpresa como se houvesse dito alguma besteira — não sabe ainda?
— Não sei o quê? — Recuou levemente assustada com a reação dela, já esperando alguma bomba por vir. Sarah desviou o olhar ao chão e logo soube que havia algo de errado. — Sarah, não sei o quê? — Insistiu, ciente de que ela era muito séria para fazer esse tipo de brincadeira. Definitivamente havia algo de errado.
— O carro deles explodiu algumas horas atrás. — Soltou logo o que estava preso na garganta, mas não foi nada fácil. — Assim que o Naoki deu a partida, o carro explodiu com os dois dentro e... — engoliu seco, incapaz de continuar segurando o choro. — Por isso eu terminei com o Chris, eu não queria que ele fosse o próximo.
Sarah continuou a falar, porém nesse momento, a consciência de Pan encontrava-se em um universo a parte; seus ouvidos não escutaram mais nada após a notícia. Nada além de zunidos distantes. O coração pesou novamente, ficou difícil de respirar, só que se negava a ser tão fraca a ponto de desmaiar repetidamente no mesmo dia. A culpa era sua, e somente sua. Estava mais do que óbvio o fato da morte de seus colegas ser um simples troco pela morte de Ezio e Giuseppe, especialmente porque não fizera questão alguma de ser discreta. Nem mesmo sabia ser discreta. Não era uma assassina, caramba.
Ou era?
Os ruídos ficaram mais e mais distantes, abafados pelo som insuportável dos gritos ecoando em sua cabeça. Se viu sendo levada pelos próprios pés até o banheiro de seu quarto, abandonando Sarah para trás. Sentia-se completamente imunda, queria arrancar sua pele e cessar a ardência que nela percorria, cessar o formigamento. A sensação era de estar sendo enterrada viva e devorada por vermes. Talvez realmente estivesse.
Ligou o chuveiro e se colocou abaixo dele. A água sempre teve esse aroma de ferro? Sempre fora tão vermelha assim?
Ficar sozinha era uma tortura. Qualquer tempo livre a obrigava a se lembrar das vidas que retirara; da luz se esvaindo nos olhos de cada uma das vítimas, escutava a voz deles clamando seu nome, pedindo por socorro, até não escutar mais. E quando elas paravam, o barulho ficava ainda mais insuportável. Sufocante. Sua humanidade se perdia naquela escuridão que a consumia gradativamente.
Um grito alto ecoou diretamente de seu âmago, colocando-se para fora junto de lágrimas desesperadas.
Pegou a esponja e começou um processo de purificação, esfregando com força cada mísera parte de seu ser, esfregando, esfregando, desesperadamente tentando se livrar da sujeira, esfolando a própria pele como se quisesse arrancá-la fora. Toda a imundice em si não sumiria apenas com um banho comum.
O som do gatilho martelava uma e outra vez, uma e outra vez. Não parava. Nunca parava. Vários cliques, tão automáticos que nem pareciam reais, mas eram. Eram reais, e com esses cliques, bancou a divindade e retirou vidas que não lhe pertenciam. Que direito possuía de tirá-las? Não era ninguém. Fazia questão de lembrar disso a cada segundo.
Uma mera existência miserável não tem o direito de decidir quem morre ou vive.
Mas ela decidiu, e pagou por isso. Lhe avisaram que era um caminho tortuoso e ainda assim decidiu seguir por ele. Não dava para voltar atrás.
— Pan! — Percebeu seu pulso sendo agarrado com força, proibindo-a de continuar se punindo fisicamente. Ainda assim, continuou ajoelhada encarando as gotas caindo no chão, sem vontade de averiguar quem poderia ser. — Meu Deus, o que aconteceu com você? — Empenhou-se em puxá-la para fora do chuveiro, fazendo muita força para colocá-la de pé.
Pan enfim levantou os olhos sem vida, inchados e avermelhados.
— Kate? O que você tá fazendo aqui?
— O Sandro veio conversar com o seu pai e ele me disse que você tinha chegado, aí eu quis te cumprimentar. — Explicou calmamente, colocando-a sentada na banheira. — Eu fui no quarto da Sarah e ela falou que você saiu andando depois de ouvir sobre a Alex e o Naoki, aí esperei na sua cama e você não saía do banheiro. Só pra constar, isso já faz uma hora. Eu não sou tão doida a ponto de invadir seu banheiro só pra dizer "oi". — Deu uma leve risadinha para abafar o clima tenso, cobrindo-a com uma toalha.
— Uma hora? — Repetiu surpresa, colocando-se cabisbaixa. Perdera a noção do tempo enquanto se martirizava. — Espera, a Sarah e o meu pai já foram pro aeroporto? — Indagou afobada, se apressando em secar o corpo, apesar de dolorido.
— Acho que não. — Mordeu os lábios, entristecida por ver a amiga desmoronando e não poder fazer nada. Os braços esfolados e cheios de pontos vermelhos davam certa agonia de se ver. — Pan, eu sei que você nem deve querer ouvir isso agora, mas, de verdade, a morte deles dois não foi culpa sua. — Tentou amenizar seu sofrimento, ciente de que eram palavras vazias e que decerto não a alcançariam.
— Obrigada pela tentativa, mas eu sei que é. — E realmente não alcançaram. — Todo mundo que chega perto de mim acaba sofrendo em algum momento. — Suspirou para se manter calma e parar de tremer enquanto se vestia com roupas limpas. — Você devia ir embora também, antes que...
— Chega, Pan. — Cortou-a no meio da frase, a aturdindo. — Eu escolhi ficar. O Sandro e a Antonella me deixaram sentir que eu tinha uma família, então por favor, não me trata como se eu fosse de fora e não tivesse um lugar aqui.
— Desculpa, não foi isso que eu quis dizer. Eu só não quero trazer mal pra mais ninguém.
— Eu sei. — Abraçou-a sem muita força, agradecida pela preocupação. — A Sarah tem os próprios problemas pra se preocupar agora. Se precisar de uma amiga, é só atravessar a rua. — Afastou-se vagarosamente. — Vai ficar com o seu pai antes da viagem. Acho que vai te fazer bem conversar com ele. — Esboçou um sorrisinho amistoso, antes de sair dali e dar-lhe espaço.
Terminou de se arrumar e percebeu o celular vibrando incansavelmente acima da cama, cessando os passos por um segundo. Seria Luca infernizando sua vida novamente? Ou seriam os colegas lhe apedrejando pelo ocorrido? Não fazia ideia, mas decidiu ignorar e descer rumo ao escritório de Hans independente do que pudesse ser. Não estava no clima para mais drama, só queria um mísero momento de paz.
— Foi uma denúncia anônima. — Escutou uma voz desconhecida gritando na porta de entrada. Quando se esgueirou para averiguar, encontrou seu pai e Sandro de frente para três policiais, discutindo com o do meio. Curiosa, se abaixou no último degrau para continuar espionando. — Nós temos o mandado de prisão, senhor. — Retirou o papel do bolso e o colocou em frente ao rosto de Hans.
— Nós entendemos a situação, oficial, mas a garota é inocente e não faria mal à uma mosca. — O conselheiro argumentou, já ciente de que em breve seu chefe perderia a calma. — E, além disso, Ezio e Giuseppe eram homens poderosos e cheio de inimizades. Por que de todas elas, uma menina que nem os conhecia seria culpada por suas mortes? Essa investigação é uma perda de tempo. Se levá-la, estará cometendo uma injustiça.
O sangue dela gelou com a menção do nome daquele cretino.
— Isso é o tribunal quem vai decidir. — Tentou adentrar a residência, mas Hans o deteve com o próprio corpo. Os seguranças da casa também se alinharam em direção aos policiais, indicando que não hesitariam em intervir caso as coisas ficassem violentas. — Nós só estamos seguindo ordens, não é nada pessoal. — Recuou pacificamente, não querendo criar uma guerra ali mesmo.
— Parece bem pessoal para mim. — A voz rouca e baixa de Hans continha uma fúria oculta, assim como os olhos avermelhados e semicerrados. — Minha menina só sai daqui com vocês por cima do meu cadáver. — O cigarro foi de encontro ao chão e nem mesmo fizera questão de apagá-lo; deixou queimar no cimento até que a chama se extinguisse sozinha.
— Obstrução de justiça é crime, senhor. Vamos ser civilizados, por favor.
— Eu estou sendo civilizado. Não levantei o tom ou fiz ameaças, e vocês, por outro lado, apareceram na minha casa como se fossem os donos, incomodaram a paz de todo o bairro com toda essa gritaria e estão tratando minha menina como uma criminosa. Para ser honesto, acho que estou sendo civilizado até demais. Já cometi o erro de privar minha filha da liberdade uma vez e não vou permitir que ocorra uma segunda. — Sinalizou com o queixo para que seus seguranças se aproximassem, e concluiu seco: — Mostrem a saída para esses cavalheiros, e diga que se quiserem levar minha garotinha daqui, que tragam um exército da próxima vez. — Fechou a porta impaciente, escutando os burburinhos de reclamações e advertências ficarem gradativamente mais longe até desaparecerem.
— Vou ligar para os nossos contatos na polícia dessa região e ver quem está por trás da denúncia. — Sandro puxou o celular do bolso, imediatamente buscando pelos números que deveria chamar. — Não acho que seja o Dario. Ele é do tipo que prefere fazer justiça com as próprias mãos.
— Concordo. — Balançou a cabeça afirmativamente. — Ele odeia a polícia, nunca faria uma aliança com eles. Nem para me prejudicar.
— Ao invés disso, o disgraziato prefere envolver crianças. — Estalou a língua, frustrado com os ocorridos pela manhã. — Ele enlouqueceu desde a morte do Paolo.
— Foram eles quem começaram, sequestrando minha filha. O garoto agiu bem em revidar com o irmão mais novo, ou então quem sabe aonde estaria minha bambina agora.
— É melhor que ela não saia de casa por ora, Hans. Não até nós descobrirmos quem fez a denúncia.
— Não posso ir na viagem com vocês, então? — Pan interrompeu, aproximando-se em passos lentos e tímidos, chateada com a notícia. — Eu queria ir pra Palermo com você. — Fez contato visual direto com seu pai, esboçando um semblante frustrado. Mais uma decepção para a conta. — Você sempre falou tão bem de lá, mas nós dois nunca passeamos juntos porque eu nunca podia sair de casa. Pensei que dessa vez...
— Vou deixar vocês dois conversarem. — Sandro gesticulou para pedir licença e saiu rumo ao escritório do Don, sem intenção de atrapalhar a conversa tão necessária entre pai e filha.
— Sinto muito, bambina. — Tocou a testa franzida, completamente devastado. Odiava aquele olhar decepcionado de sua queridinha, e ultimamente, andava recebendo vários. Sinalizou que sentassem no sofá principal da sala e foi prontamente acompanhado. — Quer que eu cancele tudo e resolva isso primeiro?
— Não. A Sarah esperou muitos anos por isso. — Sentou-se ao lado dele, segurando seu braço carinhosamente, apoiando a cabeça em seu ombro. — Seria egoísta da minha parte.
— Pensei que fosse ficar irritada comigo pelo acontecimento com os seus amigos. E também por ter te enviado na viagem com a Alice.
— Eu queria. Quando eu comecei a descer as escadas, era pra gritar com você e te culpar por tudo. — Apertou-o no braço sem perceber, e o rosto logo se encheu de lágrimas involuntárias que lutara para segurar. Hans percebeu seu sofrimento e a envolveu em um abraço, permitindo-a chorar em sua camisa. — Mas eu já perdi duas pessoas que eu gostava muito. Não quero perder você também por causa de um momento de raiva. — O timbre saiu falho devido às vias congestionadas, e logo desabou no choro.
Chorou, chorou, mais do que havia chorado durante toda sua vida, e Hans a confortou em silêncio. Tocaria no assunto sobre os assassinatos quando voltasse. Por enquanto, apenas serviria de apoio para sua garotinha. Para Pan, a simples presença de Hans era o suficiente para fazê-la se esquecer dos problemas ainda que por míseros minutos. Sentia-se acolhida e segura quando estavam juntos. Quando tinha um problema, sempre recorria ao seu querido pai, e dessa vez não seria diferente.
Continuou chorando no lugar que, para ela, era o mais protegido do mundo, até finalmente adormecer, e quando acordou com o barulho insuportável da própria mente, Hans não estava mais lá. Em seu lugar, apenas um cobertor e um bilhete acima da mesinha de centro, que ela logo pegou para ler.
"Assim que eu voltar, nós vamos visitar Palermo juntos, só eu e você. Eu prometo. Ti voglio bene, bambina."
Passou suavemente mão por cima da nota e um sorrisinho bobo surgiu em seus lábios ao sussurrar:
— Ti voglio molto bene, papà.
Sons de palmas a fizeram sobressaltar, sentindo o coração ir até a garganta e voltar repetidamente.
— Quase fiquei comovido com todo esse amor pelo papai. — Uma voz infimamente familiar soou a trás de si, porém não se recordava de onde a havia escutado. Seria um dos homens que trabalhavam para a família? Virou-se para checar e se deparou com um homem completamente desconhecido, sendo impedida de gritar por um pano em sua boca. — Não tem nada, é só tecido. Você não vai desmaiar. — Estranhamente o sujeito tentou acalmá-la, quase como se quisesse mostrar que não lhe faria mal. — Se prometer ficar quietinha, eu posso parar de agir como um animal.
Apesar de trêmula, ela assentiu, soltando o fôlego que havia segurado sem se dar conta.
— Quem é você? — Perguntou ao se encolher no sofá, empenhando-se em manter a distância longa.
— Essa pergunta de novo? Estou ofendido. — Colocou a mão nos bolsos, e ela fechou os olhos imaginando ser um revólver, já se preparando para o pior. Quando nada aconteceu, os abriu novamente e se deparou com uma máscara no rosto dele, engatilhando memórias antigas, surpreendendo-a. — Se lembra agora, mio angelo? — Um sorrisinho sarcástico surgiu em seu rosto.
— Espera... Luca?!
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