Notas iniciais
Olá meus chuchus ♥ ♥ já faz um tempinho que chegou, mas eu acabei esquecendo de agradecer, então... OBRIGADA PELOS 200 COMENTÁRIOOS AAA ♥ nunca pensei que destinos cruzados cresceria tanto. Quando comecei a escrever era um flop enorme, e agora eu to tão feliz... Tudo graças à vocês ♥ eu amo muito meus leitores, obrigadaaaaaaaa ♥ Espero que tenham uma boa leitura!!

Por um momento, Pan permaneceu sem reação, imaginando na desculpa patética que daria à amiga. Era incapaz de inventar algo mirabolante e convincente, mas mesmo assim, deveria responder alguma coisa. Alguma coisa que, de preferência, não causasse um desentendimento com seu pai. Ela olhou para as costas daquele homem tentando imaginar qual seria a sua reação caso descobrisse que alguém de fora sabe sobre o seu trabalho. Ele obviamente não fazia questão de esconder o fato de ser uma pessoa misteriosa e cheia de segredos, mas não seria pertinente que descobrissem sobre o crime organizado que comandava. Já havia deixado muito claro que achava irritante precisar ficar utilizando de seus contatos na polícia ou na política para que sumissem com suas indiscrições vez ou outra. Não era divertido que pessoas de fora se intrometessem nos assuntos da família.

— Ele me disse hoje à tarde que te mandaria uma mensagem desse tipo pra te assustar. — Respondeu, forçando um sorriso que expressasse sinceridade. Algo que dissesse "nossa, ele realmente fez isso", e que fosse convincente. — Eu não contei pra vocês ainda, mas nós dois passamos a tarde juntos na casa dele. Até pensamos em pedir pizza! — Completou, tentando manter o entusiasmo. Ela conseguira sentir perfeitamente o olhar gélido de Hans em sua direção assim que terminara de pronunciar aquelas palavras. Era óbvio que ele não apreciaria ouvir que sua garotinha havia passado a tarde sozinha na casa de algum garoto desconhecido por aí.

— Eu já sabia que não devia ter levado ele a sério, mas como você tava aqui, não custava perguntar, né? — Kate sorriu, revirando os olhos para a atitude infantil do amigo. — Aliás, eu cheguei a dizer pra vocês que depois de vermos o filme na première vai ter um baile?

— Baile? — Alex perguntou desanimada, encolhendo os ombros de um jeito tímido. — A gente vai precisar dançar?

— Eu acho que sim. Não perguntei direito, e a Isis tá ocupada agora, então não tem como saber.

— Eu falo que esses negócios cheios de frescura não são pra mim. — Alex suspirou. — Eu nem sei dançar.

— Por falar nisso, eu também não sei. — Kate preocupou-se por um breve instante. Ela seria o par de Isis durante a noite, e não tinha vontade alguma de fazê-la passar vergonha em meio ao salão caso fosse necessário que dançassem juntas. — Será que a gente consegue arrumar um professor de valsa a essa hora? — Brincou, esboçando um sorriso. Tinha um certo fundo de verdade em suas palavras, mas sabia muito bem que aprender a dançar em tão pouco tempo era praticamente impossível.

— Eu posso ensinar vocês. — Hans ofereceu, fazendo ecoar aquela voz rouca e intimidadora que apenas ele tinha. Não era possível que até mesmo ao tentar ser um pai gentil ele fizesse com que as garotas sentissem um certo desconforto. O silêncio que dominara o ambiente esclareceu que, sim, era possível, no entanto.

— Eu também posso ajudar. — Sarah propôs, vendo-as relaxarem os ombros tensos no instante em que a ouviram falar. Ela havia realmente ficado surpresa com a oferta daquele homem, porém decidiu não demonstrar isso e apenas agir normalmente para que ele não ficasse ofendido. Uma coisa era ser estranhado por desconhecidas, e outra bem diferente era ser estranhado por uma pessoa com quem dividia o teto. — Não é tão difícil, vocês vão ver. — Reafirmou.

— Eu já esperava que a Sarah fosse saber esse tipo de dança. Ela é toda certinha e tudo o mais, mas e você, Pan? — Alex indagou curiosa.

— Eu tive muito tempo livre pra aprender todo tipo de coisa quando a gente ainda morava na Itália. O papai me ensinou quando eu era pequena. — Explicou, sendo possível perceber uma certa melancolia em seu tom de voz.

— Aliás, Kate. — Sarah interrompeu, recordando-se de um fato importante que não haviam trazido à tona até o momento. — A Pan veio te arrastando até o carro, então você não teve tempo de trazer nada, não é?

— Ah, eu acabei deixando sem querer algumas roupas na sua casa da última vez que fui lá. Pelo menos foi um erro útil. — Ela riu. Sarah e Pan sentiram um arrepio dominá-las no momento em que se entreolharam com Hans pelo retrovisor interno. Ele exibia um semblante frio enquanto mantinha as sobrancelhas levantadas em surpresa, perfeitamente semelhante àquela calmaria que vinha antes da tempestade. Estava completamente ciente da estadia de Kate durante sua ausência, já que Sandro não ousaria esconder algo assim, no entanto, ele não perderia a chance de atormentá-las por um momento.

— Interessante saber que você anda levando pessoas para casa sem a minha permissão durante minha ausência, bambina. — Confrontou-a diretamente, aguardando por uma resposta. Kate sentira-se culpada por ter aberto o bico, porém não tinha noção alguma de que Pan havia guardado segredo de seus pais sobre sua visita, e agora estava chateada por ter complicado as coisas para a amiga. — Eu vou deixar isso passar dessa vez. Nós já chegamos, podem descer. — Cedeu e apenas deu de ombros, percebendo que a filha havia desviado o olhar e se recusaria a falar. Não é como se ele pudesse torturá-la para que lhe contasse do mesmo jeito que fazia com seus inimigos, certo?

Pan nem ao menos pestanejou. Assim que percebera o carro estacionado esticou-se por cima de Alex para abrir a porta e empurrou-a para fora, saindo logo atrás. As outras duas amigas conseguiam apenas rir das reclamações de Alex sobre aquela atitude. Todas apenas subiram rapidamente até o quarto de Pan e jogaram as coisas acima de sua cama, tirando um tempo para organizar alguns colchões ao seu redor enquanto jogavam conversa fora. Quando tudo estava arrumado, desceram outra vez para encontrarem-se com Hans, que estava sentado majestosamente em sua poltrona de couro posicionada em meio à sala principal, próxima de alguns sofás que ele já havia feito Sandro arrastar para os cantos, no intuito de fazer algum espaço para as rápidas aulas de valsa que daria para as amigas da filha.

— Eu não tenho muito tempo, então vamos começar. — Argumentou, e as garotas apenas assentiram em resposta.

Longe dali, em meio às ruas desertas rodeadas pela penumbra da noite, Hector continuava a perseguir furtivamente o garoto que havia encontrado em frente à casa de Kate, na intenção de cumprir uma das ordens que seu chefe lhe havia dado anteriormente. Ele observou-o até que chegassem à uma casa, aonde ele escondeu-se atrás de uma cabine para ponto de ônibus que ali se encontrava enquanto aguardava pelas próximas ações de sua vítima. Felizmente, o local em que fora obrigado a esgueirar-se era próximo o suficiente para que fosse possível ouvir o que fosse necessário.

— Você é um inútil! Eu já falei um milhão de vezes que não quero você nessa casa. — Um homem vociferou, fazendo-o compreender rapidamente que sua vítima não era bem-vinda ali ao ouvi-lo bater fortemente a porta em sua face, deixando-o para fora.

— Então vai se foder! — O menino retrucou entre dentes, jogando no chão a mochila que carregava consigo e deixando deslizar o próprio corpo na porta, até que suas nádegas tocassem o solo.

Hector esticou o corpo para observá-lo, sendo capaz de vê-lo sentado ali, com as pernas esticadas enquanto deixava descer pela garganta uma garrafa de vodca pura que havia retirado da bolsa. Ele fazia caretas desgostosas todas as vezes que engolia um punhado daquele líquido transparente, porém mesmo assim continuou a ingeri-lo em uma velocidade considerável, quase como se estivesse propositalmente anestesiando o corpo à ponto de apagá-lo pela eternidade. Era visível toda a sua miséria. Não era uma pobreza monetária, mas sim de espírito. Existia ali uma falta de vontade de viver, e talvez, o garoto quisesse apenas acabar com a própria vida, de qualquer forma. Bom, ele não sentia empatia alguma, no entanto. Estava ciente de que aquele havia sido o garoto que encostara as mãos sujas em sua protegida, e esse era um pecado que ele jamais perdoaria, portanto quando o viu cerrar os olhos e perder a consciência, puxou rapidamente seu revólver do bolso interno de seu paletó, aproximando-se do garoto em passos lentos para cumprir com a tarefa que lhe fora atribuída. Quando mirou em meio à sua cabeça, fora a primeira vez em sua vida que hesitara em assassinar alguém. O dedo estava no gatilho, e como sempre havia feito, tinha apenas a função de puxá-lo. Se não quisesse, sempre existia a opção de esfaqueá-lo, como era de sua preferência. A vítima estava desacordada, e ainda por cima era a pessoa que havia machucado sua amada, então por que não conseguia simplesmente matá-lo?

— Você é um bobo, amor! — Uma voz feminina fez com que Hector recuasse rapidamente, guardando outra vez a arma dentro de seu paletó. Quando virou-se para averiguar, percebeu que um casal sorridente havia acabado de virar a esquina, provavelmente na intenção de adentrar o clube noturno que não ficava muito longe dali.

Naquele instante, ele compreendeu perfeitamente o motivo de não ter conseguido puxar o gatilho, ou ainda, fincar uma lâmina naquele rapaz. Sua mente havia sido dominada pela imagem do olhar aterrorizado que Pan havia feito no momento em que fora confrontá-la sobre aqueles hematomas, e sabia muito bem que, no instante em que ela descobrisse sobre aquela morte, sentiria-se culpada, e talvez o fardo de ser o motivo pela morte de alguém a faria quebrar por dentro. Ele não sabia se estava mentalmente preparado para vê-la tão miserável outra vez. Ao menos não ainda.

Dado por vencido, Hector acendeu um cigarro entre os lábios, chutando fortemente o garoto desacordado em meio ao estômago, observando-o cair pateticamente no cimento frio. Se não conseguia matá-lo, então que ao menos descontasse um mínimo de sua raiva. Após chutá-lo outra vez, agora no rosto, deu de ombros e afastou-se, obrigando-se a pensar em uma justificativa plausível para não matá-lo. Seria a primeira vez que não obedeceria cegamente às ordens de Hans, e um argumento pouco convincente poderia colocá-lo em péssimos lençóis. Mentir era inaceitável, portanto utilizaria aquele casal e os outros transeuntes que se acumularam ali como pretexto para sua falha, esperando que fosse uma explicação decente o suficiente. Provavelmente não, já que a influência policial e política da família Stracci era ilimitada e não seria problema algum inocentá-lo independente de quantas testemunhas o vissem cometendo o crime, porém eram essas as cartas que tinha na manga, e caso ele conseguisse jogá-las na mesa sem um pingo de remorso, talvez fosse perdoado por ter sido um incompetente.

De volta à casa de Pan, ela estava acomodada ao lado de Sarah, por incrível que pareça, de um jeito comportado enquanto observava seu pai e Sandro valsarem com Kate e Alex, respectivamente. A amiga já havia percebido sua expressão descontente, e aguardava pela reclamação que não tardou a chegar:

— Não é justo só elas dançarem. — Murmurou fazendo biquinho. A amiga apenas riu, achando graça do quão a conhecia bem. — Eu também quero dançar com o papai.

— Mas você já sabe valsar, Pan. — Sarah respondeu tentando acalmá-la.

— Eu sei, é que parece tão divertido. A Alex já pisou tantas vezes no pé do Sandro que ele vai acabar reclamando. — Sorriu.

— Tá bom, eu vou te fazer um favor. — Sarah levantou-se, piscando em sua direção como se tivesse um plano. Ela rapidamente aproximou-se de Kate e pediu licença para seu acompanhante, interrompendo a dança entre eles. — Já que a sua parceira vai ser uma mulher também, eu acho que é melhor treinar comigo. Eu e a Isis temos quase a mesma altura. — Argumentou. Hans rapidamente compreendeu suas intenções e entrou em seu jogo.

— Tem razão. São fisionomias diferentes, então vocês duas podem treinar juntas, crianças. — Concordou, entregando-lhe sua parceira e aproximando-se de sua filha, agora estendendo sua mão em direção à ela, para que lhe desse a honra da próxima dança. Sabia perfeitamente que ela ansiava por isso, principalmente após vê-la sorrir de modo tão irradiante ao entrelaçar os dedos nos seus. — Não sabia que gostava tanto assim desse tipo de dança. — Comentou.

— Eu gosto de passar tempo com você, papai. — Respondeu em tom baixo, apoiando a cabeça em seu peito enquanto executavam uma dança lenta. — Você quase nunca fica em casa, então quando eu tenho esse tipo de oportunidade eu gosto de aproveitar. — Explicou.

— Sei. — Ele retrucou seco, interiormente um pouco sem graça por saber que, mesmo após ter cometido tantos erros na criação daquela garota, ela ainda assim o amava incondicionalmente. Não sentia-se merecedor de tanto afeto.

Hans nem ao menos se incomodava em pensar no fato de que, talvez, a música alta em meio à sua sala poderia estar atrapalhando a vizinhança. Estava realmente tarde, mas não é como se alguém ousasse reclamar em sua presença, portanto não era ele que se daria ao trabalho de ser cuidadoso.

Quando Hector chegou, encontrou-se vidrado no sorriso rutilante de Pan. Vê-la ali se divertindo com seu pai de modo tão gracioso e inocente lhe despertava algumas sensações das quais ele vinha tentando se livrar há tempos, porém nunca conseguia. Compreendia melhor do que ninguém que seus sentimentos eram proibidos, embora fosse inevitável sucumbir aos próprios pensamentos toda vez que colocava os olhos naquela garota. Desejava com todas as forças proteger aquele sorriso, porém talvez isso acabasse lhe custando muito caro, principalmente se continuasse a desobedecer ordens como havia feito hoje. No instante que cruzou olhares com seu chefe, ele propôs uma pausa, no intuito de interrogá-lo sobre o assassinato que deveria ter cometido.

— Finalmente! Meus pés já estão me matando. — Alex exclamou ofegante, jogando-se no sofá para acompanhar as amigas que também pareciam exaustas.

— Que tipo de esportista cansa tão fácil assim, sua fajuta? — Pan provocou-a, sorrindo maliciosamente.

— Você quer briga, é?

— Não! Trégua, por favor! — Suplicou, no momento em que Alex aproximou-se dela para fazer-lhe cócegas.

— De jeito nenhum. Não adianta arregar agora, Pan! — Ela riu, jogando-se acima da colega para importuná-la ainda mais. As outras duas, que eram minimamente mais responsáveis, podiam apenas rir.

Não tão longe dali, no escritório, Sandro e Hector se acomodaram nas poltronas em frente à grande escrivaninha de Hans, aguardando pelo início daquela breve reunião. O chefe estava caminhando de um lado para o outro, segurando um copo de vidro preenchido pela metade com uísque enquanto buscava pelas palavras certas para quebrar o silêncio.

— Essa não é a cara de quem acabou de matar alguém. — Argumentou, deixando ecoar aquela voz rouca. Ele não precisava aumentar o tom de voz para impor respeito. — Você hesitou? — Indagou diretamente, sem cerimônia, sentando-se em frente à Hector e fitando-o nos olhos. Estava preparado para fazê-lo arcar com as consequências caso decidisse mentir.

— Eu fui surpreendido por alguns civis. Não sabia que tinha um clube noturno famoso naquela área. — Retrucou com firmeza. Sabia que, caso hesitasse em suas palavras, aquele homem perceberia instantaneamente.

— E desde quando nós nos importamos em sermos vistos? — Franziu o cenho, levando seu copo até os lábios para molhar o bico antes de continuar. — Eu entendo perfeitamente que nós já não estamos mais na época do meu pai, em que a máfia controlava tudo, mas mesmo assim, se um simples mercenário contratado em algum lugar qualquer consegue se livrar das acusações, eu me pergunto o que te fez pensar que eu não conseguiria. — Ele agora largou o copo na mesa, cruzando as pernas e arrumando a postura. — E pelo que eu me lembre, não existe pessoa melhor e mais confiável pra sumir com um cadáver do que você, então o que foi que aconteceu, garoto?

— Com todo o respeito, Don Stracci... — Sandro interveio na tentativa de auxiliar o amigo de trabalho, porém Hans rapidamente sinalizou com a mão esquerda para que fizesse silêncio, de um modo que não parecesse grosseiro.

— Meu consigliere, você sabe muito bem que eu levo todas as coisas que você diz em consideração, e que eu te respeito muito. Óbvio que respeito, caso contrário você não teria a função que tem, mas nesse momento eu não pedi a sua opinião sobre o assunto. Deixe o garoto falar, sim? — Retrucou, obrigando-o a recuar. Com isso resolvido, voltou a encarar Hector, aguardando por sua explicação.

— Da última vez, o senhor havia me dado a ordem de não ser pego ou chamar muita atenção, por não querer que a sua filha descobrisse através dos noticiários que o guarda-costas é um assassino miserável. — Esclareceu, mantendo a calma. Qualquer mínima mudança em seu comportamento poderia ser fatal. — Eu não quis tentar a sorte. — Completou.

— Você amoleceu, garoto. — Hans aproximou-se dele, apoiando a mão em seu ombro enquanto o fitava curioso. Seus olhos pareciam perfurá-lo, deixando claro que o estava analisando por completo. — Me pergunto quando foi o momento em que você passou a se importar tanto assim com a minha filha. — Ponderou.

— Eu sou o guarda-costas dela. Prezo por sua sanidade mental tanto quanto prezo por seu bem-estar físico. — Argumentou, quase cedendo e estragando o próprio disfarce que havia criado para si mesmo. O chefe da família Stracci apenas sorriu de canto e afastou-se outra vez, deixando-o respirar aliviado.

— Assim espero. Você sabe muito bem que minha filha está fora do seu alcance, em todos os sentidos. — Decretou com seriedade.

— Com certeza, eu nunca ousaria fazer algo além dos limites. — Hector garantiu, passando-lhe segurança e encerrando o assunto.

— E sobre o garoto? Mais alguma coisa pra me dizer?

— Ele tem uma relação duvidosa com os pais, e problemas com o álcool. É possível forjar uma overdose, ou ainda melhor, fazer parecer como se tivesse sido assassinado pelo próprio pai.

— Faça isso, então. — Hans ordenou, recebendo uma resposta afirmativa quase que instantaneamente. Assim que tudo estava resolvido, ele decidiu destrancar a porta. — Vamos voltar. Não é educado deixar que belas moças nos esperem por muito tempo.

Quando perceberam-nas todas amontoadas umas nas outras e dormindo calmamente, Sandro subiu rapidamente no intuito de buscar alguns cobertores, e Hans aproximou-se de Hector para pedir-lhe um favor, embora estivesse um pouco inseguro quanto à isso.

— Fazer o quê? — Indagou, surpreso com o pedido de seu chefe.

— Sem tanto alvoroço, garoto. Vai acabar acordando as crianças. Não entendo o que tem de tão surpreendente em um pai querer aprender a fazer chocolate quente para as filhas.

— Tem razão, não tem nada de mais. — Respondeu sério, lutando para conter o riso no momento em que imaginara aquele homem utilizando um avental enquanto cozinhava algo. Era algo tão inimaginável que chegava a ser um pensamento profano, fazendo-o se arrepender de ter colocado aquela imagem na própria cabeça. Se os pensamentos fossem públicos, ele provavelmente já teria três balas enfiadas no peito. — Eu vou te ensinar sem problema algum, meu Don.

— Eu nunca entendi o porquê de você e o Sandro nunca terem me chamado de padrinho, ou até mesmo pai, como todos os outros. Tem algum motivo especial por trás disso?

— Um motivo especial? Acho que não. — Disse, ao mesmo tempo em que colocava os ingredientes necessários na panela. — Nós temos uma relação muito próxima, mas também existe muito respeito, então nós achamos melhor manter a hierarquia e um limite na intimidade. Não é como se não fôssemos gratos por você ser o nosso chefe, e nós confiamos nossas vidas à você, do mesmo jeito que você confia em nós pra protegermos o que é mais precioso pra você, mas apesar dessa relação próxima, ela é estritamente profissional. Me dirigir a você como padrinho igual a todos os outros tornaria esse laço menos sério e mais superficial.

— Sei. — Ele deu de ombros, esboçando um sorriso de canto quase que imperceptível. Apreciava muito toda a lealdade daqueles dois.

— Eu sonhei com chocolate quente e cannoli. — Pan murmurou, levantando-se e esfregando os olhos ao bocejar. Os dois homens não puderam evitar a breve risada que compartilharam juntos ao vê-la tão desajeitada, sonhando com comida. — Então os dois chatos sabem rir! — Exclamou animada, abraçando-os e acordando Sarah que não compreendeu o motivo de tanta euforia.

— Com calma, bambina. Você pode se queimar. — Hans tentou afastá-la, percebendo o borbulhar da panela. Ela havia se jogado entre eles de modo completamente despreocupado, afinal, quase chocando-se contra o fogão.

— Desde quando você sabe cozinhar, papai? — Perguntou admirada.

— Desde nunca. — Retrucou, e ela revirou os olhos.

— Vem, Pan. Para de provocar o seu pai. — Sarah riu, empurrando-a para longe do fogão antes que ela causasse um acidente. — Você é muito sortuda de ele estar pelo menos tentando cozinhar alguma coisa pra você, meus pais nunca fariam isso. — Murmurou, perdendo-se em seus próprios devaneios ao divagar com o olhar.

— E eu não estou fazendo? — Hans perguntou, fazendo-a fitá-lo com uma expressão questionadora. — O que foi? Eu sempre te considerei minha filha também, Sarah. Sei muito bem que eu não sou um homem respeitável como o Félix, mas...

— Não! — Ela exclamou, sentindo os olhos marejados. — Você é perfeito, pai. — Concluiu, um pouco acanhada. Era a primeira vez que havia ousado dirigir-se daquele modo à Hans, porém sempre o havia considerado uma figura paterna, muito melhor do que sua família biológica. Talvez ele não fosse o homem mais aproximável do mundo, porém sabia perfeitamente como deixar claro que nutria um amor incondicional por ela e Pan, apesar de todas as gafes cometidas durante sua jornada como genitor, e isso já era mais do que o suficiente.

— Então a Sarah é irmã da Pan? Não eram amigas de infância? — A voz de Alex fez-se audível, ainda sonolenta. — Aquele cara ali antes era irmão dela, agora não é mais, e a Sarah que não era, agora é. Que família confusa! — Tagarelou, apontando para Hector e Sarah, respectivamente. Hans franziu o cenho sem paciência, optando por ignorá-la, apesar de achar graça da semelhança entre ela e Pan.

Depois de sentarem-se à mesa e apreciarem a bebida feita majoritariamente por Hector e apenas acompanhada visualmente por Hans, as garotas subiram rapidamente para dormir, extremamente cansadas após as sessões intermináveis de aulas de dança. Não acordaram até pelo menos três horas da tarde, quando Hector decidiu acordá-las para que não perdessem o horário do evento. Estava ciente de que elas demorariam uma eternidade para se arrumarem. Sarah utilizaria seu próprio chuveiro, enquanto Alex ficaria para usar o do quarto de Pan e Kate concordou em banhar-se no quarto de hóspedes, ao final do corredor.

— Você pode usar o meu chuveiro, Pan. — Hector ofereceu, tentando ajudá-la para que não acabasse perdendo o inicio do filme. — Dessa vez eu estou bem ciente de que você vai estar lá. — Provocou, esboçando um sorrisinho irritante.

Um pouco envergonhada, ela assentiu, agradecida por não precisar utilizar o banheiro de seus pais ou aguardar até que alguma de suas amigas terminasse o banho. Em frente à porta do quarto de Hector, ela hesitou ao abri-la, imersa em seus pensamentos enquanto as memórias do outro dia lhe invadiam a mente.

— No que você tá pensando parada ai, Pan? — Sarah perguntou intrigada, vendo-a como um poste em meio ao corredor, tão aérea e vidrada.

— No Hector pelado. — Respondeu sem nem ao menos pensar antes de abrir a boca, fazendo com que a amiga arregalasse os olhos e derrubasse a toalha que trazia consigo, assim como o indivíduo em questão que havia acabado de acercar-se com um copo d'água nos lábios e engasgar no instante que a ouvira citar tão casualmente seu corpo desnudo. Obviamente que, com aquelas palavras, ela queria dizer que estava pensando na última vez que havia adentrado aquele quarto e causado uma confusão que resultara em vê-lo daquela maneira, porém como não tinha o costume de raciocinar antes de falar, acabou balbuciando as primeiras coisas que lhe vieram à cabeça, dando brecha para outras interpretações.

Depois de alguns segundos, Pan virou-se para corrigir a besteira, após perceber o que havia feito. No entanto, quando cruzou olhares com Hector que parecia completamente atordoado, ela sentiu as bochechas esquentarem, decidindo sumir rapidamente ao adentrar o quarto dele, trancafiando-se ali para que não precisasse vê-lo tão cedo. A adrenalina havia tomado conta de seu ser, e seu coração estava totalmente acelerado, causando-lhe uma certa preocupação por saber que, talvez, precisaria explicar tudo isso à ele mais tarde.

Devido ao horário, no entanto, ela fora obrigada a encontrar-se com as amigas em seu quarto, todas vestidas nos roupões que haviam sido emprestados. Sarah decidiu fingir que nada havia acontecido, com a certeza de que ela estaria envergonhada do que havia feito. Alex estava completamente encantada com o tamanho do cômodo à parte reservado para ser o armário de Pan.

— Isso é meio exagerado, não é? Tipo, a sua casa já é ridícula de tão grande, e só o seu armário é maior do que a minha casa. — Disse admirada, enfiando-se entre as roupas para explorar o território.

— Sério? O meu ainda é pequeno perto do da Sarah. A casa dela lá na Itália é muito maior do que a minha. — Pan retrucou sem malícia alguma. Para ela, aquele tipo de coisa era perfeitamente normal.

— Caramba, isso parece coisa de cinema.

— O que vocês acham desse? — Kate indagou, puxando uma das vestimentas penduradas e colocando-a em frente à Alex, como se quisesse ver o caimento da peça em seu corpo. Era um vestido esmeralda curto, com mangas que chegavam até os pulsos e algumas pedras nas pontas da saia rodada. Seus cabelos longos e dourados contrastariam perfeitamente com a cor, e por ser um pouco mais justo no tórax, valorizaria as curvas naturais que tinha, já que era muito mais encorpada e definida do que a própria dona do traje.

— Ele é lindo, eu amei! — Alex exclamou sorridente, puxando-o para si. — Posso pegar esse, Pan?

— É claro que sim. Você é um pouco mais alta, mas acho que vai ficar ótimo. — Assentiu, satisfeita por vê-la tão feliz.

Kate também optara por pegar algo do armário da amiga. Apaixonou-se rapidamente por um vestido rosa que continha uma saia longa de tule e um decote aberto, prendendo os cabelos ondulados castanhos em um coque solto e deixando algumas mechas caídas ao lado do rosto.

Assim que estavam todas prontas, saíram apressadas em direção ao carro, chegando em frente ao evento no instante em que as portas estavam quase fechadas. Após checarem aceleradamente seus nomes na lista, adentraram a sala designada ao filme, que já estava completamente escura para que tudo começasse. Sentaram-se nos lugares vagos, infelizmente afastados uns dos outros, já que os assentos não eram marcados e haviam se atrasado.

Ao fim da obra cinematográfica, a multidão arrastou-os até a festa de comemoração, todos ainda separados. Pan estava completamente perdida em meio ao salão de dança, enquanto Alex havia corrido até a mesa de petiscos e Sarah vagava entre as pessoas buscando por algum rosto conhecido. Kate, no entanto, havia sido puxada por Isis à um quarto afastado, atrás do salão reservado para a cerimônia, na intenção de que pudessem conversar sozinhas. Ela estava totalmente deslumbrante em seu terno branco e calça social de mesma cor, que faziam apenas valorizar a cor ameixa de seus cabelos e sua pele negra, deixando-a ainda mais bela do que o normal, se é que existia essa possibilidade.

— Caramba, você está... só... caramba! — A voz de Chris surpreendeu Sarah, que já estava cansada de caminhar por aí sozinha. Ao cruzar olhares com ele, apenas suspirou aliviada e aproximou-se de um jeito tímido. — Você tá linda, Sarah. — Elogiou-a com gosto, percebendo-a corar um pouco. Ter a chance de vê-la em um salto enquanto utilizava um longo vestido branco com alguns detalhes em dourado e prata definitivamente o havia feito ganhar a noite. Fora inevitável sentir o coração disparar no momento em que ela colocara os cabelos atrás da orelha para poder fitá-lo melhor com aqueles enormes olhos castanhos. Talvez pensasse estar louco por imaginá-la utilizando a mesma roupa ao acompanhá-lo até o altar no dia de seu casamento.

— Obrigada, você também fica ótimo de terno. — Retrucou em tom baixo, não acostumada com uma conversa apenas entre eles. Sempre que interagiam havia alguém próximo, portanto sentia-se acanhada quando estavam sozinhos. — Finalmente consegui encontrar alguém conhecido aqui. Já tinha perdido as esperanças. — Completou.

— Eu também me perdi do Evan quando entrei aqui. A Pan não tá com você?

— Ela estava, mas acabei perdendo ela junto com as outras meninas. A gente precisou sentar longe durante o filme, e toda essa aglomeração também não facilitou em nada.

— Você quer aproveitar essa raríssima oportunidade que a gente tem de ficar só nós dois e dançar comigo? — Perguntou esperançoso, afagando os cabelos em uma tentativa de esconder seu nervosismo.

— Eu acho que a Alex não ia gostar de... — Ela hesitou, amaldiçoando a si mesma mentalmente por quase expor os sentimentos da amiga. — De ficar muito tempo sozinha. — Concluiu, tentando disfarçar sua gafe. Percebendo o desconforto dela em ficarem sozinhos, ele apenas assentiu, não querendo passar dos limites ou insistir excessivamente.

Em meio ao salão, Pan caminhava sozinha, vez ou outra esbarrando em algum dos casais que dançavam ao seu redor e recebendo olhares incomodados. Sentia-se de mãos atadas da mesma forma que havia se sentido na noite do show de Evan, porém agora não possuía seu celular para tentar qualquer tipo de contato, então sua única alternativa era a de caminhar sem rumo em busca de algum conhecido.

— Finalmente te achei. — Uma voz muito familiar sussurrou em seu ouvido, no mesmo instante em que identificou as mãos da pessoa tocarem suavemente a sua cintura, de um jeito não invasivo.

— Hector?

— A cena que eu vi ontem... você dançando com seu pai, me deu inveja. — Murmurou, apoiando o queixo em seu ombro. Ela conseguia sentir perfeitamente a respiração daquele homem bem próxima ao seu pescoço, causando-lhe alguns arrepios involuntários.

— Inveja? De quê? — Indagou sem entender.

— Porque, apesar de sermos o mesmo tipo de homem, só ele tem o direito de te ter nos braços. — Rumorejou.

— O quê? A música tá muito alta, eu não consegui te ouvir direito. — Ela reclamou, virando-se para conseguir encará-lo corretamente.

— Não é nada. — Retrucou desanimado, puxando-a para perto de si e entrelaçando os dedos de sua mão esquerda nos dela, mantendo a outra mão ainda na cintura da moça. — Vamos dançar? — Perguntou e ela assentiu sorridente.

Com suas faces à centímetros de distância, Pan reparou o acelerar de seu coração ao recordar-se do que havia dito pela tarde em frente ao quarto daquele homem. As bochechas não demoraram a ruborescer, visto o calor interno que dominara seu corpo graças à vergonha que sentira com aquelas lembranças.

Antes que pudessem ter um momento à sós, ela percebeu alguém afastando-a de Hector, após segurá-la no pulso e arrastá-la um pouco.

— Ruivinha, a gente precisa conversar. Agora. — Insistiu, fitando-a diretamente nos olhos ao esboçar um semblante sério.

— Evan?

Notas finais
Espero que tenham gostado ♥ obrigadinha por continuarem me acompanhando. Vocês são incríveis!!