Notas iniciais
Oi meus amores ♥ ♥ voltei com mais um capítulo quentinho pra vocês. DC tá chegando no final, e eu tô soft :((( aaaaaa

Quatro da tarde. Esse foi o momento exato em que Evan decidira levantar-se de seu longo descanso na areia da praia. Acalmar os ânimos depois de sua mais recente descoberta não foi uma tarefa fácil, e vez ou outra pegou-se pensando em fazer algum tipo de besteira. Mas, então, que tipo de besteira? O responsável pelo dano causado já estava morto, e não tinha mais nada que pudesse fazer a não ser amaldiçoá-lo para que passasse lenta e dolorosamente pelos portões do inferno em sua miséria.

A tensão parecia ter se esvaído de seus ombros, e tudo o que se passava em sua cabeça agora era o quanto precisava desesperadamente segurar sua namorada nos braços sem dizer mais nada, apenas para ter certeza de que ninguém mais a machucaria daquela forma. Merda. Quando se tornara um idiota tão emocionado e meloso? Que porcaria clichê.

Com isso em mente, olhou para o relógio no celular e percebeu que não faltava muito para o fim das aulas, rapidamente recolhendo sua jaqueta e dirigindo-se até sua moto no intuito de encontrar-se com a garota em questão. Um sorriso bobo surgiu em seus lábios ao pensar nela. Queria consertar as coisas, arrumar o desentendido criado caso ela houvesse escutado quando lhe dissera que a amava. Acomodou-se no assento e antes que pudesse colocar a proteção, sua felicidade se esvaiu, dando espaço à uma expressão sombria graças à maldita pessoa colocada em seu campo de visão. Não era possível ser tão azarado, caramba. Ou, nesse caso, poderia se considerar sortudo?

Ah, jurava ter melhorado suas habilidades de conter a raiva, mas aparentemente existiam situações em que não dava para se segurar.

Aquele rosto nada estranho o fizera apertar os dedos contra o capacete do plástico e respirar fundo, empenhando-se em manter a calma. Não funcionou, obviamente. Apesar de ter mentalmente repetido ao menos mil vezes que eram indivíduos distintos, encontrou-se segundos depois com seu peso acima do corpo do rapaz, tão descontrolado que mal reconhecia a si mesmo enquanto o golpeava sem parar. Cretino. Desgraçado. Por que Ethan precisava ter um irmão gêmeo? Vê-lo tão sorridente como se o universo fosse sua passarela, curtindo a vida com uma lata de cerveja nas mãos em frente à praia e cortejando toda e qualquer mulher que passasse à sua frente tornara-se um gatilho para sua fúria.

Tinha plena noção de que eram distintos, apesar de igualmente podres, mas o que fazer se a merda já havia se consumado antes mesmo de conseguir puxar as próprias rédeas? Por esse motivo, não tardou até que fosse brutalmente detido e jogado no chão para ser algemado, parando em uma viatura da polícia minutos depois. O destino final? Claramente a delegacia aonde ele, depois de estupidamente ter dado o seu depoimento como se suas ações fossem justificáveis, encarava o telefone amedrontado por precisar requisitar socorro à sua família. Já não estavam muito contentes com sua existência por ter se recusado a abandonar a carreira musical, então como dar-lhes a notícia de que estava prestes a ser preso por agressão?

Hesitou e acabou desistindo. Estava fora de cogitação contar com a ajuda de seus pais, especialmente se isso significasse aumentar sua lista de motivos para ser uma decepção, e além disso, a fila de detentos reclamando atrás de si pela demora o deixava nervoso.

Irritado, um dos policiais brutalmente colocou o objeto de volta no gancho e o arrastou consigo até uma sala reservada que continha nada mais do que duas cadeiras e uma mesa de aço posicionadas bem no centro, iluminadas por uma luz tão forte e intimidadora que mais parecia um holofote. Aquela era a única parte clara do recinto. Todo e qualquer outro canto era uma escuridão completa.

— Você vai ser interrogado sobre alguma coisas relacionadas ao homicídio no seu colégio. — Explicou ríspido, seguindo os protocolos apesar da falta de vontade para lidar com um adolescente problemático. — Pode ficar em silêncio e se recusar a responder... — continuou falando até completar as formalidades, trancafiando-o ali dentro ao terminar.

As mãos de Evan instantaneamente começaram a suar frio. Já havia se enfiado em uma ou outra encrenca que o acabasse levando até o departamento de polícia, mas nenhuma tão grave quanto mandar um garoto para o hospital, quase à beira da morte, e por isso, acabar sendo acusado pelo assassinato de outro. Como diria isso para os seus pais? Ou melhor, como sairia vivo de sua casa se, por uma idiotice, terminasse a noite com uma marca em sua ficha criminal? Nenhuma boa faculdade o aceitaria, e pior, poderia dar adeus à qualquer oferta futura de gravadoras que estivessem interessadas em sua banda. Ninguém teria vontade de lidar com um criminoso incapaz de controlar sua raiva.

Um tanto amedrontado, engoliu seco e silenciosamente começou a caminhar até a cadeira em que supostamente já deveria estar sentado, acomodando-se ali com uma aura muito diferente de sua usual; uma aura arrependida e tímida, sem toda a arrogância rotineira que fazia questão de demonstrar.

— Confesso que nunca vi tanta estupidez em uma só pessoa. — Uma voz inesperadamente familiar fora ouvida no cômodo silencioso, surpreendendo-o a ponto de arregalar os olhos. Passos pesados ecoaram, e em instantes, o dono dela abancou-se à sua frente, cruzando os braços de maneira desdenhosa.

— O senhor?! — Levantou-se abruptamente, sem acreditar na própria vista; arrepios involuntários percorreram seu corpo. Boquiaberto, recebeu um olhar de reprovação que acalmara seus ânimos, o obrigando a pigarrear e corrigir sua fala: — Digo, padrinho? — Com isso ele amaciou a expressão irritada.

Sim, era Hans Stracci em carne e osso. Por que infernos estava ali?

— Seu colégio acaba de sair de um luto pela morte de um dos alunos e o que você faz? Vai atrás do irmão gêmeo da vítima. — Soou grosseiro, dando-lhe calafrios. Sua entonação possuía uma dominância única e incomparável. — O quanto você se esforça para ser tão imbecil? — Aqui seu tom aumentou, demonstrando alguma fúria; deu uma forte batida na mesa com o punho cerrado e franziu o cenho. Aparentemente estava bem insatisfeito.

O culpado sobressaltou com o estrondo repentino do golpe, encolhendo-se no assento sem retrucar. Como poderia sequer imaginar contestar? Reconhecia seu erro.

— Na hora eu só vi ele e me deixei levar pela raiva, não pensei no que ia acontecer depois. — Murmurou arrependido, desviando o olhar até os pés.

— Essa sua impulsividade vai te destruir algum dia. — Rosnou entre dentes, avizinhando-se dele para segurar seu queixo e, com força, levantá-lo até que fizessem contato visual direto. — Você nunca — levantou o indicador da outra mão e o colocou na frente de sua face, como um aviso — pode aceitar que as emoções falem mais alto do que a razão. Nunca permita que seus inimigos saibam o que você está pensando. — Soltou-o sem delicadeza alguma, virando-se de costas após suspirar desapontado.

— Não vai acontecer outra vez. — Apertou as pernas, contendo sua repulsa pelas memórias. — Você sabia que o merda do Ethan colocou as mãos nela? Depois de descobrir isso eu só... não sei, eu queria me vingar.

— Quem faz coisas ruins sempre paga pelo erro. — Cruzou os braços, e embora escondesse muito bem, existia uma pontada de estresse em sua entonação. Nem mesmo ele conseguia agir com indiferença quanto à esse assunto, portanto o evitou ciente de que o infeliz já havia sido castigado. — Mas o que você fez não foi vingança, foi só um ataque sem sentido. Você queria se vingar de quê? O verdadeiro culpado já está enterrado por aí, então que tipo de justiça você queria batendo em um inocente só porque eles têm o mesmo rosto, seu incompetente? — Ralhou, atestando sua reprovação.

— Desculpa. — Rumorejou sem graça, e mais nada saiu de seus lábios. Que direito possuía de abrir o bico para retrucar nessas condições?

— Não sou eu quem precisa ouvir isso. — Enrugou a testa, observando-o cuidadosamente. Parecia que o estava analisando até os ossos, julgando a sinceridade de suas palavras. — Você tem um histórico muito grande de atitudes impulsivas como essa e eu não quero minha menina envolvida com um moleque que tenha a ficha suja. Não é bom para a reputação dela e muito menos para a minha. — Claramente possuía uma lista de motivos que justificassem essa alegação. — Não adianta cuspir palavras bonitas ou pedir perdão e cometer o mesmo erro sem tentar mudar, garoto. — O repreendeu, percebendo sua expressão mudar drasticamente. Tocara em um ponto sensível, pelo visto.

Ele sabia perfeitamente disso, caramba. Precisava mudar, precisava desesperadamente amadurecer e parar de ser irresponsável, um estorvo para todo mundo. Lembrara-se do mulherengo valentão que chegara a ser antes da chegada de Pan e sentia vergonha. Não dava para continuar assim. Como poderia melhorar por ela e tornar-se alguém digno de seu respeito? A única coisa da qual tinha absoluta certeza era de que deveria começar essa mudança imediatamente.

— Vou consertar isso. Eu juro. — Aquilo soou como uma promessa, e a sinceridade em suas palavras o fez curvar muito discretamente os lábios em um sorriso imperceptível. — Já passou da hora de eu parar de ficar me comparando com os outros e fazer idiotices pra chamar atenção. De verdade, eu vou resolver isso e virar um cara digno pra ela. — O tom saiu baixo e submisso. Finalmente admitira para si mesmo ter um enorme complexo de inferioridade, só lhe restava começar a trabalhar nele.

Hans mentalmente aprovara sua atitude, criando um mínimo de apreço pelo rapaz. Ele realmente havia cometido muitos erros que o fizeram duvidar de seu caráter no passado, porém independente disso, fora o único capaz de trazer de volta o sorriso no rosto de sua preciosa filha e retirá-la do quarto quando encontrava-se em um estado miserável. Isso o Don não ignoraria. Retribuir favores era sua especialidade, e em sua concepção o menino lhe havia feito um enorme favor ao ajudá-lo a se reconciliar com a pessoa mais importante em sua vida. Estava na hora de recompensá-lo.

— Vamos. — Fechou seu casaco, caminhando em direção à porta. O jovem encarou-o titubeante, inseguro sobre sua liberdade, e principalmente sobre aonde ele gostaria de levá-lo. — Paguei sua fiança, mas quero ver se o que você acabou de me dizer tem credibilidade ou se foi só da boca para fora.

Calado, reprimido e de cabeça baixa, sem ousar dar sequer um pio durante todo o trajeto, Evan o acompanhou. Provaria ser capaz de agir da maneira correta. Por mais que constantemente se sujeite a desafiar Hans e quase tenha morrido por suas mãos, o respeitava intensamente.

O carro dele possuía um cheiro singular que remetia ao dono; uma mistura de perfume caro, couro sintético e, bem lá no fundo, um leve aroma de tabaco impregnado nos bancos, tão fraco que presumivelmente vinha apenas das vestes de quem se sentava. Decerto evitassem fumar ali dentro para que Pan não se incomodasse, e nesse quesito, Evan o achava impecável. Por mais que fosse um criminoso arrogante e impiedoso com os outros, tinha um lado mole pela família. Imaginava o quanto deveria ser bom ter parentes amorosos assim. Claro que, pelas coisas ditas por sua namorada e Sarah, ele havia cometido muitos erros como pai, mas ao menos importava-se o suficiente para tentar compensá-los à sua maneira e isso era muito mais do que sequer poderia sonhar em receber de seu genitores.

Tocou seu olho roxo e suspirou desanimado. Seria uma regra universal ter problemas com os pais nessa idade?

— Até quando vai ficar parado aí? — Hans o retirou bruscamente de seus devaneios, utilizando de um chamado imponente, embora estranhamente compreensivo. Era como se o estivesse aguardando voltar à realidade por si mesmo, ainda que fosse ocupado e cheio de obrigações.

— Aonde nós estamos? — Indagou confuso, sem discernimento de há quanto tempo já estavam estacionados ali por ter passado vários minutos vidrado na paisagem enquanto imerso em seus pensamentos. Sem receber uma resposta, o viu descer do veículo com uma maleta nas mãos e ir até uma das casas do quarteirão, curiosamente acompanhando-o.

O local era ridiculamente modesto; um sobrado amarelo malcuidado, com duas janelas guilhotina brancas para cada lado da fachada. Os degraus na entrada rangiam à medida que eram pisoteados pelo excesso de desgasto, e o capacho posicionado na frente da entrada principal encontrava-se tão imundo que o Don recusou-se a colocar os pés.

— Te trouxe para se redimir. — Exprimiu ríspido, tocando a campainha.

Evan arqueou as sobrancelhas sem compreender. Estava intrigado, mas decidiu não insistir, até porque não estava em uma posição favorável. Era o culpado aqui, oras.

Algo nessa casa lhe era familiar. O clima tenso, as marcas nas paredes... sentia como se já tivesse passado por ali, porém não recordava-se de quando ou porquê. Bom, não demorou muito para que isso acontecesse, no entanto. Assim que a porta se abriu e o anfitrião revelou sua face, todas as dúvidas foram instantaneamente esclarecidas.

O homem era uma exata cópia de Ethan, com exceção dos cabelos brancos, das rugas trazidas pela idade e da barriga avantajada de cerveja. Seus punhos se cerraram ao vê-lo; repudiava aquela família e com razão. Ambos os filhos eram escória do pior tipo, entretanto esse sujeito era o pior de todos. Não foram poucas as vezes em que o vira publicamente espancar os filhos ou então humilhar a esposa no colégio até que alguém intervisse. Já o havia delatado para a polícia no passado junto de Chris e Alex, porém nenhuma punição lhe fora atribuída. No passado, de tempos em tempos se pegava vagueando com os colegas sobre as coisas que aconteciam nessa residência, e por isso parecia tão familiar.

— Não quero comprar nada. — Recebeu-os com desdém; seu bafo fedia a álcool, a camiseta manchada como se há dias não tomasse banho.

— Creio que esteja cometendo um engano. Nós não estamos vendendo nada. — Hans o cumprimentou cortesmente, retirando seu cartão de visitas do bolso e entregando-lhe como modo de apresentação. Ao averiguá-lo e perceber que era dono de uma rede de cassinos e hotelaria, um brilho de interesse surgiu nos olhos do indivíduo. — Meu nome é Hans Stracci, e eu sou o responsável pelo garoto que agrediu o seu filho. Vim me desculpar pelo ocorrido e resolver as coisas de maneira pacífica, se possível.

— Então foi você que fez aquilo com o meu menino? — Fitou Evan rapidamente e voltou a analisar o pedaço de papel envernizado em suas mãos, curvando os lábios maliciosamente. Más intenções apareceram em sua face ao notar o quanto eram financeiramente capazes. — Coitado, eu nem consigo reconhecer o rosto dele. Um menino tão bom, esforçado. — Forjou uma tristeza exagerada. Se importava tanto com o filho que estava bebendo em frente à TV como se fosse um esperado feriado prolongado. Irônico, não?

Evan sentiu o sangue ferver e teve muita vontade e partir para cima dele após a cena ridícula. Tratara a família como lixos durante a vida toda e agora, por mero interesse, armava um teatro assim? Queria dar-lhe uma boa dose de vergonha na cara à base do soco, porém Hans discretamente tocou seu ombro e o apertou como se lhe dissesse para manter a calma. Se conteve, soltou os punhos e amenizou a expressão desagradável enquanto rangia os dentes e queimava internamente. Inferno. Seria essa sua punição por seus atos? Preferia apanhar até ficar inconsciente e quitar sua dívida, nesse caso.

— Sim, eu imagino o quanto deve estar sendo difícil para vocês. Tomar um susto desses depois de perder uma criança não faz bem para o coração de nenhum pai. — O Don interveio antes que seu acompanhante pudesse responder, esboçando um semblante tão gentil que aparentava estar realmente comovido, fingindo empatia pelo rapaz que mandara matar pessoalmente. Se fosse uma competição de cinismo entre os dois, definitivamente ganharia com menções honrosas.

— Muito difícil. Minha esposa, tadinha, ficou desamparada. — Prolongou a atuação sofrida; seus olhos inclusive lacrimejaram um pouco. Será que o cretino frequentara aulas de teatro? Até mesmo Hans vacilara e acabou permitindo que o cenho franzisse por um milésimo de segundo, recompondo-se com uma face empática logo após. — Eu estava indo agora mesmo pro hospital, sabe? Visitar meu campeão, ver como ele está. — Empenhava-se fortemente em provocar uma reação piedosa.

Era uma grande mentira, obviamente; uma grande e absurda mentira. Suas vestes, a postura desleixada, a televisão ligada em um canal de variedades e, principalmente, a garrafa de cerveja jogada na mesa demonstravam que estava muito longe de sair para visitar um enfermo. Se fosse para tentar realmente adivinhar, diriam que estava pronto para festejar como se estivesse esperando esse momento há tempos. Comemorava a miséria das próprias crianças, e isso, por mais que fossem dois adolescentes completamente desprovidos de moral, Hans não podia perdoar. Para ele, um homem que não se importa com a própria família nada mais é do que escória, e o indivíduo à sua frente definitivamente se encaixava na mais baixa posição dessa categoria.

Estava nauseado com sua mera existência. Visivelmente toda a renda da casa era gasta para ele, que funcionava a base do dinheiro, de seus interesses pessoais e não enxergava nada além da própria ganância. A esposa e os filhos passavam fome para que pudesse garantir sua dose extra de álcool e petiscos para o final de semana. Esse tipo de comportamento; esse tipo de atitude miserável era algo que Hans não conseguia tolerar. Considerava família algo muito sagrado. Independente de ser um criminoso ou um assassino desgraçado aos olhos da sociedade, possuía um código de honra e limites que jamais deveriam ser ultrapassados.

Olhou para a maleta que trouxera consigo e ponderou algo, ajeitando os ombros, forçando um sorriso fechado e cheio de empatia como se compreendesse sua suposta comoção. Esticou as extremidades do casaco e pigarreou.

— Sei que presente algum vai amenizar sua dor ou a da sua esposa, mas as etiquetas me proíbem de fazer uma visita de mãos vazias. — Estendeu a valise em direção à ele. — Aqui tem uma coleção de facas adornadas muito raras que valem pelo menos dois milhões de dólares. — Fez uma breve pausa proposital para analisar a reação do indivíduo ao ouvir o valor de sua oferenda. Como esperado, a mudança em suas feições fora significativa. Maldito avarento. — Eram de um colega, mas imagino que ele não precise mais delas e você me pareceu alguém capaz de apreciar a beleza desses artefatos. Certamente isso não exclui minha proposta de pagar todas as despesas médicas necessárias. É apenas uma pequena oferta de paz. — Gesticulou com requinte, deixando escapar uma leve e inevitável pontada de arrogância.

— Eu aprecio sim. Aprecio muito essas coisas. — Sua entonação saiu excessivamente contente, e quando percebeu a gafe cometida, derrubou os ombros para voltar a forjar sua "tristeza imensurável". — Sabe, o senhor é muito bom. Eu não teria cabeça para lidar com as questões do hospital depois de tudo que aconteceu, então sou grato pela ajuda. — Realmente esforçou-se na atuação, quase desabando em lágrimas. Chegava a ser engraçado como conseguia ser educado e cordial quando lhe convinha, e ainda assim não se dedicava um mínimo para agir como um ser humano decente no dia-a-dia.

— Imaginei. — Não evidenciou todo o seu desgosto, porém cruzou os braços para não ser obrigado a cumprimentá-lo na despedida. — Foi um prazer, mas estou atrasado para um compromisso importante. Só passei aqui para limpar a consciência do meu garoto. — Puxou Evan para perto de si, abraçando seu ombro com alguma consideração. — Aguardo o seu contato para decidirmos um acordo. — Saiu apressado sem esperar uma resposta, adentrando o carro furioso após vê-lo descaradamente beijar a maleta entregue antes de fechar a porta.

— Dois milhões? Você acha mesmo que esse cara merece tanto dinheiro, padrinho? — Evan questionou incrédulo, não compreendendo o mimo excessivamente generoso. Sabia que a família de sua namorada era pateticamente rica, mas a ponto de jogar dinheiro fora desse jeito? Milhões não passavam de migalhas? — A merda que eu fiz foi tão grande que você precisou oferecer um suborno desses só pra não prestarem queixa?

O Don franziu o cenho nada satisfeito com a ousadia da fala casual, porém respirou fundo e o ignorou, voltando a observar a casa visitada sem dar a partida.

— Sim, foi. — Alegou severamente, ajeitando a postura no banco para ficar mais confortável e apreciar o espetáculo que criara. — Mas eu nunca daria tanto dinheiro para essa escória.

— Mas você disse que na maleta...

— Sei bem o que eu disse, mas essa coleção é falsa. A verdadeira está com o legítimo dono em algum lugar do mundo. — Buscou alcançar um cigarro no bolso, porém imaginou que o aroma ficaria impregnado e sua filha se incomodaria, recuando instantaneamente a mão. — Como foi um presente que dei para ele em seu aniversário de dezesseis anos, ele nunca usaria para trabalhar, então encomendou uma réplica. Essa réplica agora está nas mãos daquele homem. — Apontou para a residência de Ethan. — Quando ele abrir a maleta vai perceber que está faltando uma peça, mas até lá já vai ser muito tarde para tentar descobrir aonde ela foi parar.

Evan continuou sem entender. Se não era um suborno, então de que diabos servia o presente entregue? Suas ações eram um enigma, contudo decidiu não contestar e ficou em silêncio, aguardando o desfecho de tudo. Confiava nele, afinal.

Em pouquíssimos minutos percebeu uma movimentação anormal em frente àquela casa. Uma luz vermelha piscava sem parar, tanto que chegava a ser incômoda aos olhos, e o som estridente de sirene nos ouvidos não tardou a acompanhá-la. Policiais cercaram o recinto e adentraram-no à força, saindo em instantes com o pai de Ethan acompanhado da maleta, enfiando-os bruscamente na viatura enquanto sua esposa olhava na direção de Hans. Não que tivesse um caráter exemplar, mas por que ele estava sendo preso se há pouco tudo parecia bem?

E foi nesse momento que se deu conta da frase dita por Hans, ligando os pontos.

"... mas até lá, já vai ser muito tarde para descobrir aonde ela foi parar".

Foi repentinamente invadido pelas memórias do dia da morte de Ethan, recordando-se de quando Diego ligara a televisão durante o jantar para dar-lhes a notícia. Uma faca adornada, óbvio. Essa era a única pista que os policiais vinham utilizando para identificar o culpado pelo assassinato. A tal peça faltando na coleção falsa era a que fora cravada no corpo dele para finalizá-lo. Hans utilizara a péssima fama de pai odioso para acusá-lo de homicídio e retirar o nome de Evan da lista de suspeitos. Depois do grave erro cometido, o único jeito de comprovar sua inocência era entregando o verdadeiro culpado, portanto o Don precisou forjar um que parecesse convincente o suficiente.

Um plano impecável que o livrara de dois problemas de uma única vez, arquitetado e executado pessoalmente por ele para evitar erros comprometedores.

— Você não me deu um sermão sobre nunca mexer com pessoas inocentes mesmo que elas sejam podres? — Inquiriu em uma entonação falha, contendo uma mistura de pavor e frustração. Seu corpo começara a ter leves calafrios.

— E eu mantenho minha palavra, mas esse homem está longe de ser inocente. — A voz rouca soou baixa e fria enquanto observava a viatura se afastar até desaparecer no horizonte. — Meu conselheiro me pediu um favor. Ele recentemente adotou uma menina e pelo visto os homens dessa casa fizeram muito mal à ela, então ele queria lidar com isso. — Colocou a chave na ignição e deu vida ao motor, desviando a atenção da mulher que o fitava de longe. Saiu da vaga e continuou: — Aproveitei a sua estupidez para arrumar esse assunto também.

Era plausível, tendo em mente todos os traumas psicológicos causados em Kate por aquele sujeito e seus filhos. Ela sempre comentava discretamente sobre o quanto a tratavam como lixo, fazendo chantagens emocionais, degradando sua aparência e agredindo-a verbalmente. Não chegou a saber sobre abusos físicos, porém dada a reputação dos envolvidos, era bem possível. Já havia se desentendido com Ethan por destratá-la, inclusive quase sendo expulso do time de baseball por comportamento violento ao abordá-lo na saída do colégio depois de descobrir que ele andava espalhando boatos nada agradáveis sobre a garota.

A imagem de seu pai veio à mente; a imagem do homem que, pela manhã, lhe dera um olho roxo que agora parecia latejar de dor. Seus ombros endureceram com a tensão, entretanto, quando sentiu Hans colocar suavemente a mão em seu braço e dar-lhe uma leve apertada como se dissesse para se acalmar, logo amaciou a expressão severa.

— Obrigado. — Engoliu seco, forçando um sorriso. — Por tudo o que você fez por mim hoje, padrinho.

— Não fiz por você, e sim pela minha bambina. — Comentou impassível, retornando a mão para o volante. — Estou te levando para a minha casa porque ela me pediu incansavelmente, mas não me pergunte o motivo. — Bocejou brevemente, mantendo o foco na estrada. Esse trabalho de babá das crianças ao redor de suas filhas era mais cansativo o que o seu usual.

— Você é um bom pai. — Voltou sua atenção para a janela.

— Não dá para escolher a família em que você nasce, garoto... — fez um intervalo rápido, terminando a manobra para estacionar o carro — mas dá para criar uma nova no futuro. Foi isso que eu fiz. — Aconselhou, embora não fosse ser honesto sobre ter pessoalmente retirado a vida de seu pai e irmãos. Detalhes eram desnecessários nesse caso.

Evan agradeceu novamente e olhou para o lado de fora, enxergando uma Pan Stracci aflita, com os pés descalços tocando a grama aonde esteve sentada pelos últimos quarenta minutos, aguardando-o ansiosamente. Em seu semblante existia uma mistura de emoções confusas banhadas de convicção. Sentia como se estivesse prestes a receber uma bela bronca quando a viu caminhar em sua direção, apesar de simplesmente ter muita vontade de abraçá-la. Fora um dia cheio, portanto ansiava por um átimo de paz ao lado da moça que considerava especial.

— A gente pode conversar? — Pediu direta, com uma entonação séria que o fez encará-la intrigado. Havia criado uma barreira invisível ao seu redor. Nem mesmo um boa noite antes? Pois bem, a coisa parecia feia. — Sei que tá meio tarde, mas é urgente. — Sentenciou, colocando-o em alerta. Ainda assim, ele concordou e a acompanhou até seu quarto para terem alguma privacidade, despedindo-se brevemente do anfitrião que logo se enfurnou no escritório como de costume.

— Conheço esse seu olhar, ruivinha. — Apoiou as costas na porta fechada, observando-a com desconfiança. — Aconteceu alguma coisa?

— Não foi nada específico, mas é que o seu nome não era a resposta pra nenhuma das perguntas.

— Quê? — Ergueu as sobrancelhas sem entender nada. Um enorme ponto de interrogação surgira em sua cabeça.

— Desculpa, eu nunca terminei com ninguém. — Suspirou cansada, porém sua fala apertara o coração do rapaz. Como podia tratar um tópico sensível desses com tanto descaso?

— Você quer terminar? — Ela assentiu. Seu mundo havia desabado. Jurava que as coisas iam bem, mas aparentemente era uma visão apenas sua, e descobrir isso foi como um balde de água fria. Dava para esse dia ficar pior? Soltou o ar, contorceu o rosto involuntariamente como se estivesse sofrendo e se recompôs. Não se daria ao luxo de chorar, achava isso patético. — Foi por que eu disse que te amava, né? Você ouviu. — Tocou a testa decepcionado; o coração se apertou tanto que por um instante cogitou infarto.

Se agarrava na esperança de que tudo fosse um pesadelo lúcido.

— Ouvi. — Concordou. É, não era um pesadelo. — O problema não foi o que você disse, mas sim a minha resposta. — O encarou diretamente; aquela cor esmeralda que tanto lhe trazia paz agora o perfurava como uma lâmina afiada diretamente no peito. Malditos olhos lindos, só tornavam a situação mais difícil. — Eu não te amo, Evan. Você é meu amigo, mas fora isso, eu não sinto nada por você. — Soltou o veredito sem incomodar-se em medir as palavras. Como sempre, sendo mais direta do que o necessário.

— Caramba... — soou sem graça, já desanimado. Os ombros caíram, mal conseguia encará-la sem ficar desconfortável. — Eu sabia que você era brutalmente honesta pra se expressar. Foi uma das coisas que me fez começar a me interessar por você e eu já deveria ter me acostumado, mas... — hesitou, respirando fundo. Não terminaria a frase. Não admitiria que estava em cacos por ter sido usado como um fantoche tosco e descartável. Quem mandou se emocionar, certo? — Nada, deixa pra lá.

Uma pontada de remorso a afetou, apesar de insignificante. Era perceptível o quanto estava profundamente magoado, e essa cicatriz deixada em seu coração não se fecharia nunca mais.

— É muito egoísmo querer continuar sendo só sua amiga? — Ousou perguntar, escutando-o soltar um risinho abafado como se dissesse "tá brincando comigo, né?"

— Sim, você tá sendo egoísta pra caralho em me pedir isso. — Admitiu calmo, ainda cabisbaixo. Se levantasse o rosto acabaria piorando a situação. Será que ela não entendia a gravidade de seus feitos? Ou entendia e apenas não dava a mínima? Manipular os sentimentos de alguém e ainda pedir para continuarem amigos chegava a beirar a loucura, mas vindo dela talvez não fosse tão impressionante assim. — Olha, eu não consigo ser seu amigo. Não por enquanto, pelo menos, mas você vai ser pra sempre uma passagem muito bonita da minha vida, porque independente das suas intenções comigo eu fui feliz nesse tempo curto de namoro. — Tocou a maçaneta, preparando-se para sair. — Tá meio tarde e eu preciso buscar minha moto na delegacia, então vou indo. Boa noite ruivi— digo, Pan. — Fechou a porta atrás de si ao se retirar, fazendo questão de não utilizar o apelido carinhoso criado para ela.

Com isso, todos os laços entre eles haviam sido cortados.

O estrondo da porta principal atestou sua saída definitiva, portanto ela prontificou-se a descer as escadarias rumo ao escritório de seu pai. Um dos assuntos pendentes fora resolvido, agora que começasse a briga para o próximo.

— Acho que ele me odeia agora. — Sentou-se à frente dele, apoiando os cotovelos na mesa.

— Se ele ainda guarda rancor de você é porque pelo menos ainda se importa. — Colocou de lado sua leitura, já ciente da tempestade que estava por vir. — O antagonista do amor não é o ódio. É a indiferença.

— Eu sou uma pessoa horrível, não sou?

— Todos cometem erros, bambina. Não estou em posição de te julgar por uma coisa tão trivial, considerando tudo o que eu já fiz nessa vida. — Levantou-se e ajeitou as vestes, puxando a cadeira ao lado dela para se acomodar. Queria ficar mais próximo. — Mas você tem os meus genes e os da sua mãe. Se continuasse boazinha daquele jeito para sempre eu desconfiaria de adultério. — Brincou, arrancando-lhe uma risada gostosa e descontraída.

— Papai, eu quero ver o Hec outra vez. — O assunto que ele tanto temia ser tocado veio à tona, e insatisfeito, rosnou.

— Já te disse o que penso sobre isso. — Balançou a cabeça negativamente, e ela desaprovou sua reação. — O Lorenzo te testou e você mal aguentou ver um dedo decepado. Como acha que vai aguentar uma vida nesse mundo ao lado de um assassino?

— É um direito meu decidir isso. Eu já sou adulta e você disse que não ia mais interferir na minha vida. — Argumentou frustrada. — Vai quebrar outra promessa comigo? — O intimou, fazendo-o balançar. Odiava vê-la fazer essa carinha decepcionada.

— Sei que você mudou muito, que agora é uma mulher, mas essa é uma vida miserável. — Suspirou exausto, servindo dois copos de uísque; um com gelo e outro sem. — Eu mesmo não suporto às vezes.

— Se eu não aguentar vai ser um erro que eu cometi e vou passar o resto da vida tentando consertar, mas por agora eu quero pelo menos ter o direito de cometer esse erro. — Virou um gole longo para tomar coragem e o mirou séria. — Você já me proibiu de muita coisa. Pelo menos dessa vez...

— Tudo bem. — Levantou as mãos em rendição, ciente de que não a faria desistir nem se pedisse ajuda aos céus. Havia puxado essa característica da mãe, logo admitia derrota. — Mas não hoje. — Sentenciou.

— Papai!

— Não, bambina. — Soou imponente e ela retrocedeu. Bebericou de seu copo, dedilhou contra a mesa e ponderou algo. Seu cérebro parecia fritar com o excesso de esforço; talvez saísse fumaça de suas orelhas. — A Alice vai fazer uma viagem de negócios com meu afilhado em algumas horas. Quero que você vá com ela e pense melhor nessa decisão por alguns dias, enquanto isso vou buscar pelo paradeiro do garoto. Se quando você voltar ainda quiser insistir nessa ideia, vou te apoiar como seu pai mesmo contra minha vontade. — Beijou-a nas mãos, demonstrando que apesar de rígido, estava agindo assim pelo seu bem. — É o meu veredito final.

Pan se deu por vencida, sentindo uma leve pontada de tristeza. Estava na expectativa de, pelo menos, conseguir contatar Hector através do telefone, mas se ainda não haviam encontrado seu paradeiro, o que poderia fazer? Ao menos teria a ajuda de seu pai, e honestamente não estava muito afim de voltar ao colégio após a briga com Evan, portanto um passeio com sua mãe e Diego soava adequada para se distrair um pouco.

Quer dizer, que mal uma simples viagem poderia lhe causar?

Notas finais
Espero que tenham gostado, e me desculpem qualquer errinho ♥ amo vocês.