Notas iniciais
Olá meus chuchuzinhos ♥ tudo bem com vocês? Espero que sim! Mais um capítulo quentinho pra vocês aqui. Eu revisei poucas vezes, e confesso que ando exausta ultimamente, então se algum erro passar podem me avisar ok? ♥ Boa leiturinha~ E, ah, pra ajudar: Vendetta: juramento de vingança da máfia siciliana. Basicamente uma declaração de guerra.

Quando Diego a ouviu nomear o gatinho daquela forma, não pôde evitar recordar-se de todas as brigas que tivera com o antigo colega pelo apelido em questão, curvando os lábios em um sorrisinho maroto. Existiam tantas semelhanças entre ele e o felino que não tinha maneira mais perfeita de chamá-lo, em especial por saber tudo o que aquilo representava para a garota. Nas épocas mais difíceis de sua vida, era Hector quem sempre esteve ao seu lado para ajudá-la a segurar as pontas, e agora que está em uma situação crítica novamente enquanto é tão bruscamente forçada a amadurecer de um dia para o outro, decerto ter uma figura representativa daquele homem ao seu lado pudesse confortá-la mesmo que um mínimo. Ela precisava sentir que ele estava próximo de algum jeito.

— O nome combina muito bem com ele, gatinha. — Disse com algum resquício de carinho, levantando-se para tapear as vestes na tentativa de se livrar dos pelos ali grudados, que eram muitos. Quando sentiu o celular vibrar em seu bolso, o pegou nas mãos para deparar-se com inúmeras chamadas perdidas de seu tio, quase desesperadas, e algumas mensagens de texto que mais pareciam ameaças, dizendo-lhe que não colocasse as mãos na garota se não quisesse perdê-las. Ao ver o horário, percebeu que acabaria sendo punido por ter passado algumas horas do combinado, sendo capaz de simplesmente suspirar em decepção. — Eu preciso ir antes que meu tio comece a pensar que estou fazendo alguma coisa errada com você. — Declarou ironicamente, revirando os olhos.

— Coisa errada tipo, me ensinar a misturar drinques e beber até cair? — Deu uma leve risada descontraída. — Acho que ele não tem como ficar bravo com uma coisa que você já fez.

— Foi um sorriso que eu vi aí? Parece que o meu trabalho aqui está feito. — Ajeitou as roupas de um jeito convencido. Ela simplesmente grunhiu defensivamente e voltou para o meio dos travesseiros, escondendo parte de seu rosto entre eles, sem quebrar contato visual. — Mas não. Ele deve pensar que nós estamos dormindo juntos ou algo assim, e como eu gosto do meu pescoço preso na minha cabeça, é melhor eu ir.

— Então tá. — Murmurou pensativa, sem entender o que teria de tão errado se estivessem dormindo no mesmo lugar. Bom, sua família sempre o afastava dela por algum motivo, portanto talvez fosse algo relacionado ao trabalho. Assim como Hector, ele provavelmente não tinha permissão de ficar próximo devido às suas funções.

Um pouco curioso, ainda veemente ignorando as ligações e avisos incansáveis de seu tio, Diego voltou a fitá-la com um semblante intrigado, ponderando sobre a relação dela com o antigo companheiro de trabalho. Eles viviam juntos nessa casa, sozinhos na maioria das vezes, e aparentemente tinham sentimentos um pelo outro, então pegou-se especulando se haviam chegado até aquele ponto. Uma parte de si acreditava que sim, embora não conseguisse afirmar com certeza por conhecer perfeitamente a personalidade da moça.

— Escuta, você e o fantasma já dormiram juntos? — Arriscou, julgando que não custaria nada sanar a própria curiosidade sobre o assunto. Tinham alguma intimidade, afinal.

— Se eu já dormi com o Hec? — Repetiu a questão enquanto recordava-se da vez em que passara a noite no quarto daquele homem após ter sido sequestrada por Vincenzo. Não queria de forma alguma ficar sozinha, e como sentia-se segura ao seu lado, insistiu em ter sua presença até que adormecesse. — Bom, sim. — Admitiu sem titubear, dando de ombros.

Diego arqueou as sobrancelhas em surpresa, entretanto logo recobrou sua compostura ao desconfiar da maneira tão casual que ela respondera sobre o assunto. Quer dizer, Pan não era do tipo que tinha vergonha de contar as coisas, entretanto até mesmo ela deveria sentir algum desconforto ao citar sua vida sexual. Talvez estivesse confundindo as coisas, e sempre existia a possibilidade de não ter sido capaz de compreender as entrelinhas, portanto não tinha problema tirar a dúvida final, certo?

— Eu estou falando de dormir mesmo, do tipo... — Ele respirou fundo, coçando a nuca para reorganizar os pensamentos. Precisava ser sutil. Estava lidando com alguém que, apesar de estar amadurecendo muito nos últimos tempos, também estava fragilizada com as mudanças, e Sandro definitivamente ouvia toda a conversa do lado de fora, logo não existia a possibilidade de falar abertamente sobre o tópico em questão. — Vocês dois já se viram sem roupas? — Interrogou com a voz baixa, sentindo uma onda de vergonha correr de seus pés até a cabeça. Que diabos acabara de falar? Nunca em momento algum de sua existência teria se imaginado dizer algo como aquilo. Era patético. Por que não podia simplesmente ter dito qualquer outra coisa que não fizesse parecer estar conversando com sua irmãzinha mais nova? Se pudesse voltar no tempo, apesar de todos os erros já cometidos em seu passado, essa com certeza seria a primeira coisa que mudaria. Bom, agora infelizmente a besteira já estava feita, e só restava-lhe aguardar pela resposta.

Aquelas palavras desencadearam um gatilho instantâneo nas lembranças de Pan, fazendo-a se recordar do dia em que ficara de frente com um Hector completamente nu ao invadir seu banheiro, pouco tempo antes da première de Isis. Seu corpo não tardou a aumentar a temperatura, avermelhando suas bochechas involuntariamente. Não tinha nem ao menos a capacidade de olhar Diego nos olhos, sendo obrigada a simplesmente assentir tímida, ouvindo as batidas descompassadas de seu coração pulsando nas pontas dos ouvidos.

Ela queria desesperadamente sucumbir às lágrimas presas na garganta, por saber que momentos como este ou qualquer outro não voltariam a acontecer com Hector. Possivelmente nunca mais.

Conformado com a resposta, ele limpou a garganta para quebrar o clima constrangedor, prontificando-se a caminhar em passos lentos até a porta antes que seu tio a derrubasse. Era um tema delicado, no entanto. A virgindade da única herdeira legítima de Don Stracci poderia ser considerada em um casamento arranjado futuro, normalmente para união entre duas famiglias. Não que fosse possível o fato de Hans submeter sua queridinha a isso. Na realidade, estava perfeitamente ciente de que aquele sujeito jamais utilizaria suas filhas como moeda de troca, mas ainda assim, seria obrigado a contar-lhe sobre sua descoberta. Sandro decerto já havia escutado parte da conversa, e não seria prudente de sua parte tentar esconder algo naquelas circunstâncias.

— Diego? — Ela chamou manhosa ao vê-lo alcançar a maçaneta. Existia uma melancolia única em sua voz. Quando o percebeu cessar os movimentos, deu uma longa respirada com o intuito de ganhar um mínimo de coragem e acrescentar: — Você acha que ele vai voltar algum dia?

Antes de respondê-la, deixou os ombros caírem e soltou um suspiro desanimado. Era tão cansativo e trabalhoso lidar com a situação. O clima havia se tornado pesado outra vez, e o brilho inocente e vívido que a garota um dia teve nos olhos já se esvaíra, dando espaço à uma solidão interior profunda. O mesmo olhar que ele demonstrara no passado, quando perdeu as esperanças e entregou-se ao mundo da ilegalidade. Mudanças nunca eram fáceis de se lidar, e a dor de perder uma pessoa amada não tornava isso mais tragável. Nesse caso, era a primeira vez que ela havia vivenciado uma perda, então demoraria um tempo até que se acostumasse. Eventualmente acabaria se habituando àquilo, mas por enquanto, só lhe restava o direito de lamentar e permanecer de luto por si mesma.

— Sendo sincero? — Sua entonação aqui era séria, mais dura e realista. Ela prontamente concordou com a cabeça, dando-lhe a deixa para exprimir os próprios pensamentos, independente do quão fossem dolorosos de se ouvir. — Não, ele não vai voltar. Eu me sinto um babaca por ser a pessoa jogando a verdade na sua cara desse jeito, mas me desculpa, gatinha.

— Não, eu já sabia. Acho que te perguntei isso por saber que você não mentiria pra mim. — Alegou decepcionada, forçando um sorriso para prosseguir: — Obrigada por ser a única pessoa que não me trata como se eu fosse de porcelana. Eu gosto do jeito que você não se importa em nada com os meus sentimentos e é sempre sincero comigo. — Acomodou-se entre os lençóis, buscando por algum conforto ao abraçar fortemente um dos travesseiros.

— Sempre às ordens. — Piscou galanteadoramente, sem saber o que dizer para amenizar o ambiente tenso. Com um sorriso de canto, saiu do quarto e deu-lhe algum espaço para digerir aquele veredito final.

No fundo de seu coração, ela seguramente já sabia, mas muitas vezes ouvir algo diretamente dos lábios de alguém confiável pode ser ainda mais real do que qualquer certeza em pensamento. E mais doloroso também.

— Por que demorou tanto? Eu juro que se você colocou as mãos nela... — Sandro recepcionou-o enfurecido em frente ao quarto, com as sobrancelhas franzidas e um belo sermão preparado. Estava indignado com a atitude extremamente desrespeitosa do sobrinho ao ignorá-lo por tanto tempo.

— Eu não fiz nada! — Exclamou como se pedisse por piedade, colocando as mãos em frente ao rosto. — Nós só conversamos, pelo amor de Deus, tio. Eu não tenho esse tipo de interesse nela.

— Com você eu nunca sei. Parece a porra de um cachorro no cio. — Rosnou desgostoso, sinalizando que fosse acompanhado até a sala. Não queria incomodar sua protegida com o barulho de sua voz alta. — Sobre o que vocês dois conversaram? — Questionou com frieza, sem quebrar o contato visual. Seu timbre era intimidador, quase um teste de lealdade.

Diego engoliu seco e acomodou-se em uma das poltronas, alcançando um copo na mesinha central para enchê-lo com uísque. Ainda sentia um leve incômodo graças às sequelas deixadas pela ressaca da manhã, porém não dava a mínima. Esse tipo de diálogo requeria uma dose extra de coragem forçada.

— Ela sente falta do fantasma. — Murmurou com naturalidade, indicando que não tinha nada a esconder.

O silêncio do conselheiro, no entanto, era como uma declaração de alguém que esperava por algo a mais; de alguém que não acreditava que em uma conversa tão longa, esse teria sido o único tópico levantado.

— Você passou horas lá dentro e essa foi a única coisa que ela disse? — Inquiriu desconfiado, também servindo um drinque a si mesmo.

— Ele foi o primeiro dela. — Ajeitou a postura e pigarreou olhando para o líquido em suas mãos, bebericando de seu copo no intuito de quebrar a atmosfera densa. Não tinha o costume de ser acanhado, entretanto falar abertamente sobre a vida sexual do antigo melhor amigo estava longe de sua zona de conforto. — O fantasma, eu digo. Eles dormiram juntos.

— Que merda você está inventando agora? — Sandro rugiu entre dentes, segurando-o bruscamente pelo colarinho da camisa a ponto de fazê-lo derrubar parte da bebida. — Você enlouqueceu, seu disgraziato? Como você me fala uma mentira dessas em voz alta nessa casa? — Olhou para ambos os lados, preocupado com uma possível aparição repentina de seu Don. Tudo o que não precisava era de mais problemas, em especial por ter ciência de que aquele sujeito andava com um péssimo humor.

— Ela mesma quem me disse, não é mentira! — Exclamou frustrado, segurando o pulso do tio na tentativa de afastá-lo de seu pescoço.

Quando percebeu que seu sobrinho não aparentava estar brincando como sempre, diminuiu a força nos punhos e deixou-o ir, sentando-se cautelosamente ao lado dele para digerir o que acabara de escutar, encarando o chão com um semblante pensativo.

— Eu devia ter matado ele quando o vi prensar a bambina contra a cama aquele dia. Filho da puta. — Resmungou irritado, acendendo um cigarro enquanto balançava as pernas ansioso. Suas veias do pescoço já estavam saltadas, e se fosse possível perfurar alguém com os olhos, o funeral do rapaz à sua frente não tardaria a chegar.

— Você viu ele o quê? — Diego quase cuspiu as palavras, integralmente surpreso. Não conseguia acreditar que um homem tão controlado como Hector havia passado dos limites assim, em especial por ser incapaz de sentir alguma atração luxuriosa pela filha de seu padrinho. Claro que a achava atraente, era inegável que tinha sua beleza, mas todas as vezes que a observava de perto, sentia como se fosse sua irmã mais nova. Não perderia sua pose de galanteador ao seu redor, entretanto não se imaginava dormindo com ela.

— Nem uma palavra sobre isso para o Don por enquanto. — Sandro massageou as têmporas, apreensivo com a reação de seu chefe ao descobrir sobre o assunto em questão. — É capaz daquele homem acabar enlouquecendo, e eu já tenho muitos problemas para resolver. — Tragou uma baforada de seu tabaco, deixando a fumaça tremeluzir em meio àquela sala parcialmente iluminada.

— Nem uma palavra sobre o quê? — A voz de Alice fez-se audível no recinto, causando-lhes arrepios gélidos que percorreram suas espinhas. Aquela mulher era a última pessoa com quem eles gostariam de lidar agora. Ao contrário do marido que ao menos tinha algum resquício de sentimento e consideração, ela não sentia absolutamente nada. Qualquer movimento em falso, e ela poderia matá-los ali mesmo sem nem piscar os olhos. — Você pode sair, menino. Eu preciso conversar com o seu tio um segundo. — Direcionou sua atenção à Diego, que após um aceno permissivo do indivíduo ao seu lado, levantou-se e os deixou sozinhos.

— Eu não sabia que nós dois tínhamos assuntos pendentes, Alice. — O conselheiro ajeitou a postura, analisando-a pelo canto dos olhos.

— Ele é uma criança decente. Não sei porque você é tão rígido com ele. — Referiu-se ao garoto que acabara de sair dali, desviando o foco do assunto antes de voltar ao ponto principal.

— A falta de um pai presente acabou deteriorando a personalidade dele. Eu preciso ser mais firme pra colocar ele nos trilhos outra vez, antes que acabe fazendo alguma idiotice irreversível. — Explicou com um resquício de ternura em sua voz, que logo disfarçou com um pigarreio curto. — Se agindo assim ele já é irresponsável, imagina se eu tivesse o pulso frouxo e deixasse que a Antonella o mimasse do jeito que quiser.

— Isso vindo da pessoa que sempre teve um fraco por crianças. Até mesmo no passado você foi contra a situação com o filho do Vincenzo. — Esboçou um sorriso ladino, dedilhando o couro do assento com as unhas e impensadamente causando um barulho intimidador. — Você foi contra o julgamento do seu Don e quase começou uma guerra.

— Eu sou o conselheiro dessa família, e como a pessoa que carrega esse título, o meu trabalho é o de tomar as melhores decisões por ela. Até hoje eu penso que um conflito teria sido menos doloroso para nós do que o caminho escolhido. — Apagou seu cigarro no cinzeiro da mesinha central, suspirando antes de acrescentar: — Nós ainda estamos pagando pelos nossos pecados, e a bambina foi quem mais sofreu com isso. A Antonella também não me perdoou por ter permitido que aquilo acontecesse.

— E como ela está? — Forçou um sorriso cínico, deixando claro que seguir falando sobre aquele tema estava fora de questão. — Faltam dois dias. Eu sei que vocês dois estão ansiosos por isso.

— Com muita dor, até aonde eu sei. — Sandro exprimiu receoso, cruzando os braços para fitá-la com frieza. — Acho que já deu de conversa fiada, não? Pode ir direto ao ponto, Alice. Eu sei que você não sentou aqui para falar sobre o Diego ou a minha esposa.

— Eu só estava sendo educada. Como sempre, você não tem paciência alguma para conversar comigo. — Fingiu estar ofendida, fazendo-o revirar os olhos. — Então tá. — Deu de ombros. — A minha filha se enfiou naquele quarto por um bom tempo e ignorou qualquer pessoa que tentasse falar com ela, inclusive a própria irmã de consideração, mas o seu sobrinho conseguiu entrar lá conversar com ela por horas.

— Eu estou tão surpreso quanto você, honestamente.

— Agora, o que eu quero saber é... — Ela arrumou o corpo, aproximando-o do conselheiro para sussurrar em seu ouvido: — que história é essa de "nem uma palavra para o Don por enquanto"?

Longe dali, em frente ao colégio, as aulas já haviam chegado ao fim. Chris oferecera sua companhia à namorada até que chegassem na casa da moça, ansiando por um tempo extra ao seu lado, embora soubesse que seria escoltada pelos seguranças que estavam sempre presentes. Queria aproveitar cada segundo para consolá-la, ciente da situação com Pan e do quanto aquilo a magoava profundamente.

Por outro lado, Isis e Kate pareciam viver em seu próprio mundinho privado. Ultimamente andavam inseparáveis, como se quisessem recuperar o tempo perdido por dramas do passado, inclusive dividindo um breve selinho público antes de despedirem-se dos amigos e adentrarem o carro. A relação que tinham estava indo por um bom caminho, e não poderiam estar mais satisfeitas.

— Tem certeza de que eu não vou atrapalhar? — Kate perguntou tímida, acomodando-se no veículo ao colocar o cinto de segurança. Sua parceira havia sido convocada para uma reunião de trabalho com o assessor, no intuito de discutirem os detalhes sobre o marketing do filme nas próximas semanas, mas estava insegura em acompanhá-la.

— É óbvio que não. — Isis alegou carinhosamente, puxando uma de suas mãos para beijá-la antes de colocar a chave na ignição e dar a partida. — Eles vão ter que se acostumar com a sua presença, porque se depender de mim, você não vai sair do meu lado mais.

Ouvi-la confiantemente falar que apreciava tê-la consigo era aconchegante. Sua autoestima normalmente não lhe permitia acreditar ser merecedora de alguém como ela, entretanto, Isis não media esforços para fazê-la se sentir especial, e isso definitivamente acelerava seu coração.

Assim que colocaram os pés para dentro do enorme escritório principal da empresa, Kate fora recebida com olhares desdenhosos, escondidos por sorrisos falsos e cheios de escárnio, como se zombassem de sua existência. Os colegas de trabalho de Isis não conseguiam compreender como alguém com sua aparência, talento e fama se interessara por uma garota tão simples e sem graça. Para eles, Kate não estava à sua altura. Era o tipo de menina que, se vista na rua, seria facilmente esquecida por ter um rosto comum e nada marcante.

Como sempre, Isis conseguia enxergar perfeitamente através da moça ao seu lado. Rapidamente entrelaçou seus dedos nos dela para deixar claro que sua companhia lhe trazia orgulho, e um sorriso bobo tomou conta de seus lábios, desaparecendo com boa parte de seus temores. Todo pequeno gesto que sua amada se dispunha a fazer para acalmá-la mexia com seu interior de uma forma inexplicável. Saber que alguém se importava tanto com ela não tinha preço.

— Isis, eu dei uma olhada em alguns trabalhos pra você que seriam bons para a publicidade do filme. — O assessor dela iniciou assunto, arrastando-a de forma que sutilmente a afastasse da mulher que não considerava digna de seu afeto. Reprovava veemente a relação entre elas, porém não ousaria dizer isso em voz alta, principalmente por querer manter sua atriz de bom humor para convencê-la a assinar os contratos de comerciais que tanto odiava. Sempre que precisavam debater sobre sua participação em propagandas, o assunto se tornava uma guerra. — Eu sei que você não gosta desse tipo de compromisso, mas depois da première as coisas ficaram caóticas.

— Por quê? — Questionou admirada. As notícias sobre o ocorrido deveriam ter alcançado proporções absurdas, então não conseguia imaginar que a festa prejudicara sua carreira. — Eu sei que a situação foi um pouco fora do comum, mas pensei que todo aquele drama tinha ajudado a impulsionar o filme.

— Aparentemente algum figurão proibiu a divulgação de qualquer coisa sobre o evento e as pessoas que estavam nele, então a publicidade foi por água abaixo. — Suspirou exausto; os ombros caíram em decepção quando sentou-se ao lado dela. — Nós vamos ter que trabalhar o dobro pra compensar isso tudo.

— Me deixa ver as propostas. — Pegou alguns dos papéis na mesa, folheando-os concentradamente.

A reunião seguiu por um bom tempo. Kate não ousou dizer uma palavra sequer, admirando sua parceira enquanto a via resolver os próprios problemas com maestria. Era cativante a forma como ela sempre encontrava soluções que agradassem a todos.

Propagandas como as de bebida alcoólica ou cigarro estavam fora de cogitação. Marcas de perfume que tinham o costume de trabalhar com cenas mais sensuais poderiam ser discutidas, todavia algumas boas horas já haviam se passado desde o início daquele debate. Seguramente continuariam assim por um longo período, portanto optaram por uma pausa antes de retornarem ao assunto. Todos precisavam satisfazer suas necessidades fisiológicas ou até mesmo buscar por um café como um incentivo para manter os olhos abertos.

— Eu juro que não consegui entender até agora como você não dormiu ainda. — Isis acercou-se de sua acompanhante, colocando os braços ao redor de sua cintura e puxando-a para um beijo rápido que a fizera ruborescer.

— Eu gosto de ver você trabalhando. — Murmurou com doçura.

— Isso vai demorar bastante ainda, e você tem aula amanhã. Vou tentar pedir um intervalo e te levar pra casa, tudo bem? — Disse baixo ao pé de seu ouvido, assoprando ali para provocar-lhe alguns arrepios antes de afastar-se e tocar sua testa com os lábios.

— Não precisa. — Negou com a cabeça, um tanto sem jeito por pensar ser um estorvo extra. — Eu vou pedir um táxi.

— De jeito nenhum. Eu não confio em algum desconhecido pra te levar tão tarde, e muito menos sozinha. — A atriz bateu os pés em oposição, tocando algumas mechas de seus cabelos e enrolando-as entre os dedos. — Você é muito bonita pra esse mundo, Kate. — Rumorejou com os olhos brilhantes; quase como se estivesse admirando uma obra de arte. Na realidade, Kate não estava muito longe disso para ela. Decerto fosse até mais.

— Eu não sou como você, a Pan, a Alex ou a Sarah. — Comentou desanimada, permitindo que sua insegurança transparecesse. — Eu lembro de como os meninos do time de futebol zoavam da minha cara dizendo o quanto eu era sortuda por namorar um cara como o — aqui ela precisou respirar fundo antes de continuar — Ethan. Foi a mesma coisa aqui, todo mundo me olhando como se eu fosse de outro mundo, e eu sei que não sou boa o suficiente pra você, Isis. Eu sou só a menina sem graça que deu sorte de ter amigas lindas. — Terminou melancólica, engolindo o choro ao desviar o olhar até os pés.

Não era fácil para ela sempre ser comparada às outras colegas. Conseguia ouvir e sentir totalmente quando cochichavam nos corredores ao verem-nas passando. Frequentemente escondia seu incômodo para não preocupá-las, e uma vez até mesmo fora obrigada a segurar as lágrimas quando escutou alguém dizendo que deveria agradecer pelos assédios de Ethan, já que um cara como ele jamais se interessaria por uma garota tão desinteressante em circunstâncias normais. As mágoas que guardava dentro de si vez ou outra resultavam em belas crises de ansiedade e inúmeras noites de insônia.

— Você enlouqueceu? — Isis havia levantado a voz, irritada por descobrir que haviam feito a mulher à sua frente se sentir miserável. Não compreendia como alguém ousaria fazê-la pensar pouco de si, mesmo sendo extraordinária em sua concepção. — Qualquer um desses babacas amargurados que tenham aberto a boca pra falar uma merda dessas precisa de uma terapia e um par de óculos. — Rosnou, prensando-a contra a parede até que suas faces quase colidissem uma contra a outra. Por sorte estavam sozinhas, então não existiam desculpas para que ela fugisse.

— Isis? — Chamou envergonhada; até mesmo um pouco chocada com o gesto ousado e repentino.

— Você sabe o que eu vejo na minha frente, Kate? — Abaixou a cabeça até que sua boca tocasse o pescoço dela, beijando suavemente alguns centímetros acima de sua clavícula. — Na minha frente eu só vejo a pessoa mais deslumbrante que eu já conheci na minha vida. Você é tudo. Você é bonita, de tirar o fôlego, por dentro e por fora. E o jeito que você é talentosa e esforçada em tudo o que faz, eu... — engoliu seco, buscando pelas palavras certas. Não queria assustá-la. — Eu não quero mais que você me chame de "amiga". Eu quero acabar com essa fase de testes entre nós duas, quero que você seja a minha namorada oficialmente, quero gritar pro mundo todo que você é minha. — Terminou com muita convicção, tocando-a em sua bochecha para acariciá-la suavemente com o polegar.

O som do atrito de alguns sapatos se aproximando a fizera praguejar com todas as forças dentro de sua cabeça, afastando-se rapidamente à contragosto. Tinha noção do quanto sua amada odiava ser o centro das atenções, portanto o que lhe restava era respeitar suas vontades e amaldiçoar os indivíduos que a interromperam em um momento tão importante.

— Vamos continuar, Isis? — Um dos integrantes da equipe de marketing quebrou o silêncio constrangedor, sentando-se à ponta da mesa.

— Eu preciso levar ela pra casa antes. Já ficou muito tarde. — Argumentou, desapontada por terem que se separar justamente após sua declaração.

— Podem seguir com a reunião. Eu levo ela em segurança e volto rápido. — Seu assessor ofereceu, no intuito de tranquilizá-la para que pudesse focar no trabalho.

Elas trocaram um olhar cúmplice, e Kate acenou afirmativamente com a cabeça para indicar que ficaria bem. Quando avizinhou-se para um abraço de despedida, ela ousou sussurrar um tímido "sim", referindo-se ao fato de oficializarem sua relação. Isis beijou-a na bochecha com os lábios curvados em um sorrisinho satisfeito, antes de vê-la sair até o carro na companhia daquele homem.

Como ensinado por sua falecida mãe adotiva, Kate sentou-se no banco que encontrava-se atrás do motorista, para que conseguisse reagir de alguma forma caso estivesse sozinha com alguém mal intencionado.

— Escuta, menina, eu vou ser sincero com você. — Ele quebrou o silêncio. Os músculos dela instantaneamente se enrijeceram com a tensão, obrigando-a a fazer contato visual através do retrovisor interno. — Você e a Isis... não vai dar certo.

— Acho que isso ela precisa decidir sozinha. — Retrucou insegura, cruzando os braços para esconder o quão estava vulnerável. — Não é como se eu estivesse forçando ela a ficar comigo ou algo do tipo.

— Eu sei, mas estou dizendo isso pelo seu próprio bem. Ela está no início da carreira, e namorar alguém tão sem graça quanto você pode ser ruim para a imagem dela. — Comentou com escárnio, aumentando ainda mais a insegurança de Kate. Se já não estivesse acostumada com esse tipo de comentário, acabaria desabando em lágrimas. Na realidade, provavelmente o faria assim que chegasse em casa e encostasse a cabeça no travesseiro. — A mídia vai te comer viva quando ela anunciar o suposto término com o ator que contracenou com ela e descobrirem que a estrela do momento namora uma mulher. Ainda por cima uma muito abaixo do nível esperado. A maioria dos fãs dela são homens da sua idade com uma fantasia impossível de um namoro com ela. Tem certeza de que vai conseguir aguentar os comentários negativos? A internet pode ser um lugar maldoso. — Pretextou sério.

Sentia que, nesse ponto, ele talvez tivesse razão. Seu coração aguentara uma leve pontada causada por sua falta de autoestima, imaginando que pudesse prejudicá-la de alguma forma no futuro e que, por isso, ela enjoaria de sua presença. Ainda assim, respirou fundo e decidiu não se precipitar. Já a tinha magoado uma vez no passado, e não cometeria o mesmo erro novamente. Ao menos não sem antes tentar dar um voto de confiança ao seu relacionamento.

— Pode parar aqui na esquina mesmo. A minha casa não fica longe, e as próximas três ruas não vão dar mão pra você virar. — Requisitou, empenhando-se em mudar o tópico do diálogo. Honestamente, era somente um pretexto para sair dali o mais rápido possível, e como o motorista não parecia muito contente com sua presença, acatou a sugestão e estacionou o veículo, vendo-a basicamente saltar para fora antes que pudesse falar qualquer coisa.

"Ethan está morto."

Essas palavras ecoaram em sua cabeça enquanto caminhava rumo à sua residência, forçando-a a esboçar um sorrisinho aliviado involuntário. Parte de si estava muito mais leve por saber que não precisaria vê-lo nunca mais, e sobretudo, por saber que não seria mais assediada ou perseguida por ele; que não precisaria mais ter medo de dormir sozinha ou atender à porta. Estava livre, e de certa forma, muito grata, apesar de saber que não era de boa índole celebrar a morte de alguém. O que deveria fazer, no entanto? A existência daquele sujeito havia transformado sua vida em um inferno, e algumas cicatrizes emocionais deixadas por ele não sumiriam jamais.

Um movimento atípico entre os moradores do bairro chamou-lhe a atenção. Quando finalmente acordou de seus devaneios e sentiu o cheiro abrasado dominando suas narinas, percebeu as fuligens caindo do céu, grudando em seus cabelos e contaminando o ambiente. A presença dos bombeiros causara-lhe arrepios desconfortáveis e um aperto seu peito; as mãos começavam a suar frio e gradativamente os joelhos perdiam forças à medida que corria desesperadamente em direção à sua casa, implorando pela misericórdia de toda e qualquer divindade na esperança de que não fosse ela em chamas.

Suas preces infelizmente não foram atendidas.

As pernas fracas se moviam sozinhas até as brasas, entretanto o corpo não saia do lugar. Os ouvidos escutavam apenas um zunido fraco no fundo daquele barulho insuportável da sirene tocando ao seu lado. Não tinha mais um local para voltar, e muito menos dinheiro para pagar um hotel pela noite. Estava física e mentalmente exausta.

— Moça! — A voz de alguém quebrou seu olhar vidrado, trazendo-a de volta para a realidade. Foi então que ela percebeu estar sendo envolvida por braços firmes, prevenindo-a de estupidamente correr até o incêndio como seus pés aparentavam querer. Os olhos marejados que refletiam a claridade alaranjada se moveram para a pessoa que a estava segurando, deparando-se com um homem fardado. — É a sua casa? — Ele questionou em uma entonação apreensiva, afastando-se com cautela ao reparar que ela aos poucos voltava a si.

Kate fora incapaz de respondê-lo corretamente, forçando-se a assentir em meio às lágrimas. Na intenção de tranquilizá-la, o policial ofereceu-lhe uma garrafa d'água, que ela hesitantemente aceitou com as mãos trêmulas, tendo muita dificuldade para tomar sequer uma gota sem derrubar outras várias.

— Você tem outro lugar para ir? Tem parentes ou amigos que possam te ajudar? — Voltou a interrogá-la, esforçando-se para não pressioná-la além do limite.

A garota respirou fundo e esfregou os pulsos nos olhos, querendo retomar a compostura antes de alcançar o celular em sua bolsa. Sua primeira opção na discagem rápida era Pan, mas como não havia dado as caras no colégio por mais de uma semana, as chances de que fosse atendida eram mínimas. Isis também estava com o telefone desligado durante toda a reunião, portanto seu último resquício de esperança era Sarah. Depois de tomar alguma coragem, teclou seu número e cruzou os dedos, torcendo para que não estivesse dormindo.

Na residência dos Stracci, Hans estava sentado à mesa da cozinha ao lado de seu conselheiro, discutindo sobre os carregamentos que chegariam ao porto no dia seguinte. As coisas estavam caóticas desde o momento em que outras famílias descobriram sobre sua herdeira legítima, então imaginavam que nada custava ter um pouco mais de cautela com a mercadoria.

— Que barulho insuportável é esse? — O Don reclamou, incomodado com o toque estridente e repentino que interrompera sua conversa.

— Parece o celular de alguém. — Sandro levantou-se para averiguar, seguindo o som até a sala principal, aonde o aparelho vibrava acima da mesinha de centro. Presumivelmente Sarah o havia esquecido ali após o jantar. — É da Sarah. Devo levar até o quarto dela?

— Não vamos acordar a minha menina tão tarde. Deve ser aquele moleque. — Rosnou irritado, tomando um gole de seu uísque gelado antes de prosseguir: — Esses imbecis não têm respeito, incomodando minha filha a uma hora dessas.

— Deixamos tocar?

— Não. Atenda essa merda e coloque algum bom senso nessa criança, já está me dando dor de cabeça. — Ordenou com sua usual voz rouca, massageando as têmporas para se acalmar. Apesar de não achar educado bisbilhotar as ligações alheias, ele obedeceu.

— Pronto? — Levou o aparelho ao ouvido, sentando-se de novo ao lado de Hans, que o fitava com curiosidade.

Boa noite, aqui quem fala é o oficial Miller. A dona desse número está incapacitada de conversar no momento, então eu me ofereci para explicar a situação. — O sujeito se apresentou cordialmente, mas não obteve resposta imediata. — Alô? — Insistiu, percebendo o silêncio momentâneo.

— Um policial? — Ajeitou a postura, franzindo o cenho com estranheza. Seu chefe também parecia interessado em saber o motivo de ter um homem da lei telefonando para uma de suas filhas tão tarde. — O que aconteceu com a menina? Por que ela não pode falar? — Seguiu perguntando, com um leve tom de irritação em seu timbre.

— Me dá isso aqui. — Hans puxou o celular de sua mão e afastou-se, tomando para si a responsabilidade de resolver a questão. Sandro apenas suspirou e permaneceu ali, esperando pelo melhor. Tinha ciência de que aquele homem não estava de bom humor, portanto não conseguia evitar preocupar-se com o rumo que o diálogo poderia tomar devido a isso.

Não demorou muito até que a chamada se encerrasse e ele retornasse à mesa, encarando-o friamente.

— Aconteceu alguma coisa? — Ousou perguntar, ainda que receoso.

— Eu sei que você está cansado, mas preciso que vá buscar essa menina e traga ela até aqui. — Determinou em tom baixo, entretanto imponente. Parecia insatisfeito. — Atearam fogo na casa dela, provavelmente alguém associado aos Romano. Ela virou um alvo por ter se relacionado com a minha filha, e agora nos resta limpar a sujeira. — Terminou seco, acendendo um cigarro entre os dedos.

— É a regra do elo fraco, então. — Sandro permitiu que um suspiro cansado deixasse seus lábios, imaginando quanto trabalho extra teria pela frente. — Devem achar que vão nos causar algum dano ao atacá-la.

— Eu não me importo com ela, mas também não preciso que a minha bambina me odeie ainda mais. Dê um jeito de compensar essa jovem, ofereça uma casa nova, uma quantia generosa em dinheiro. — Gesticulou de maneira dominante, indicando que, naquela ocasião específica, não tinha a paciência necessária para lidar com a situação. — Faça o que precisar, mas se livre desse problema. Você tem a minha bênção para cuidar disso como quiser.

— Eles basicamente declararam que não estão satisfeitos com o desfecho dos acontecimentos mais recentes. — O conselheiro espreguiçou-se por alguns segundos, prontificando-se a buscar pelas chaves do carro ao finalizar. — Então a nossa vendetta ainda não teve um fim.

— Mas vai ter em breve, consigliere mio. — Decretou em tom gélido; sem vida, dando uma longa baforada em seu tabaco até que a fumaça deixasse seus pulmões e desaparecesse no ar. — E eu garanto que, no final, não vai sobrar nem mesmo um desses desgraçados pra contar a história. — Sentenciou, deixando transparecer um ódio, uma sede de sangue que há tempos não se permitia demonstrar. Estava em condições delicadas ultimamente, com as emoções afetadas pela perda de seu braço direito que considerava um filho e a situação miserável de sua primogênita, voltando a ser o homem cruel que um dia fora.

Provocar uma guerra contra Don Stracci justamente naquele momento era, definitivamente, o maior e mais estúpido erro que qualquer um poderia cometer.

Notas finais
Agora o Sandro, o Diego e a Alice pensam que o coitado do Hector tirou a virgindade da Pan, tudo pq a anta do Diego não quis ir direto ao ponto JFIDSNBFSKJDN, socorro. E eita, os inimigos da família começaram a atacar as pessoas próximas deles também. Já estão envolvendo inocentes, tadinha da Kate. Espero que tenham gostado, meus chuchus. Beijiinhos~ ♥ ♥