Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
38 A comemoração pela vitória
Notas iniciais
Chris titubeou por um instante, empenhando-se em digerir aquelas palavras em sua cabeça. Estava um tanto irritado com ela, principalmente após a descoberta que havia feito há pouco. Não conseguia acreditar que sua melhor amiga tentara atrapalhar seu relacionamento com a garota por quem nutrira sentimentos recentemente. Fora inevitável desviar outra vez o olhar em direção à Sarah, querendo em decifrá-la de longe, ou até mesmo ver se conseguia alguma dica sobre o que deveria fazer; na realidade esperava que ela o dissesse para ir até lá e o livrasse daquele problema, porém ela apenas negou com a cabeça sinalizando que não levasse seus sentimentos em consideração, como se o pedisse para focar na moça à sua frente.
Ele suspirou desapontado e voltou a fitar a capitã do time de basquete, esboçando um sorriso forçado para não preocupá-la.
— Tá legal, se você ganhar eu te levo em um encontro. — Concordou, mesmo que à contragosto. Queria muito dizer que não conseguia corresponder aos seus sentimentos, porém apesar de tudo, Alex era uma amiga muito importante, e ele sabia o quanto aquele campeonato podia significar para ela e seu futuro, então a possibilidade de negar o seu pedido e magoá-la não existia ali. Isso poderia retirar sua concentração e fazê-la perder a partida, portanto a única opção que lhe restava era a de aceitar aquela loucura.
— Sério? — Os olhos dela se encheram de um brilho esperançoso; ansiosa por finalmente conseguir exprimir tudo o que vinha guardando há anos. — Combinado, então! Você já prometeu, agora não pode mudar de ideia. — Sentenciou ao encará-lo diretamente, soltando um sorriso aliviado ao vê-lo assentir.
— Alex! — O treinador chamou-a em um tom imponente e apressado, como se lhe pedisse para deixar de jogar conversa fora e se juntar ao resto de seu time. Ela despediu-se de Chris com rapidez depois de sorrir novamente e correu até as companheiras, dando alguns saltinhos de alegria pelo trajeto. — O discurso motivacional é seu, capitã. — Completou, dando uma piscadela em sua direção com o intuito de assegurá-la antes de afastar-se das garotas para deixá-las à vontade.
A equipe reuniu-se em um círculo enquanto Alex proferia palavras bonitas na intenção de motivá-las, relembrando o quanto haviam se esforçado para aquele momento, citando os olheiros de boas universidades que se escondiam em meio à multidão nas arquibancadas e todos os treinos cansativos que haviam aguentado apenas para aquele momento, enchendo-lhes o coração de confiança com aquelas palavras tão clichês, embora significativas, saídas dos lábios de sua querida capitã. Após colocarem as mãos todas juntas e amontoadas em meio à roda, jogaram-nas para cima e bradaram fortemente o nome do colégio como um grito de guerra, antes de entrarem em quadra.
Assim que o árbitro soou o apito dando início ao jogo, as adversárias saíram na frente. Ao contrário de Alex que não era tão alta, a capitã da outra escola teve uma breve vantagem ao saltar, tomando a posse da bola para si. Emily fora encarregada de marcá-la por terem quase a mesma altura, porém não obteve sucesso e infelizmente acabou por entregar alguns pontos.
Com a partida tão acirrada depois de um tempo, não demorou muito até que a tensão tomasse conta do jogo, com algumas faltas mal intencionadas marcadas aqui e ali, principalmente acima de Pan. Qualquer espectador conseguia perceber com facilidade que ela estava sendo propositalmente marcada de uma distância suspeita, e vez ou outra sua adversária fazia questão de esbarrar em seu corpo para fazê-la cair ao chão sem que a juíza percebesse.
Inconscientemente, com uma aura assassina e uma expressão nada feliz com o cenho franzido, Hans começara a fitar impaciente aquela cena, mexendo as pernas para amenizar sua ansiedade e irritação.
— Se ela tocar na minha bambina outra vez, acho que vou precisar entrar ali e ensinar algumas boas maneiras pra essa criança mal educada. — Rosnou, cruzando os braços cheio de rancor. Os joelhos de sua filha já estavam avermelhados, e felizmente o piso era de madeira lisa e não concreto, caso contrário estariam sangrando. Fora jogada ao chão tantas e tantas vezes por sua adversária que poderia acabar realmente machucada, e se tinha algo no universo que conseguia alterar o humor daquele homem era ver alguém ferir sua garotinha.
— Calma aí, padrinho, não precisa disso. É só um jogo. — Diego apoiou uma das mãos no ombro dele para tentar contê-lo.
— Você não me diga o que fazer, garoto. — Recuou o corpo com certo desdém, encarando-o com frieza. Ele rapidamente desistiu e afastou-se, não querendo se meter em problemas.
Hector chamou a atenção de Sarah e sinalizou com a cabeça para que eles trocassem de lugar, pedindo discretamente para que ela conversasse com Hans. Não tinha vontade alguma de acabar causando uma cena ali, principalmente se isso fosse constranger sua amada em frente aos amigos. Como poderia encará-la depois de permitir que seu pai fizesse alguma besteira? Não, isso estava fora de cogitação, mas ele o conhecia perfeitamente e sabia que as únicas pessoas capazes de atenuá-lo quando estava assim eram suas filhas, e como uma delas era o motivo de sua atual raiva, então infelizmente essa responsabilidade sobraria para a outra. Limpou a garganta e empurrou-a um pouco mais, até que ficasse colada com o indivíduo em questão.
Ela direcionou-lhe um olhar mortal e respirou fundo após vê-lo tão descaradamente disfarçar seu plano, mas como também prezava muito por Pan, obviamente não gostaria de ver sua família fazendo alguma coisa que pudesse magoá-la. Ajeitou a postura e timidamente encostou a cabeça no braço de Hans, torcendo para que ele não achasse o gesto muito forçado.
— O que foi, principessa? Está cansada? — Perguntou naturalmente; sua voz já parecia mais tranquila. Ele deu-lhe um beijo na testa e arrumou o corpo para que ela ficasse mais confortável, permitindo-lhe colocar as mãos ao redor de seu antebraço.
— Não, eu só... — limpou a garganta, ainda um tanto envergonhada. Tudo bem que já morava com eles há muito tempo, porém apenas recentemente havia se dado conta de que ele também a considerava como uma filha, então tudo era muito estranho; não sentia-se no direito de forçar tanta intimidade, apesar de estar ciente de que ele não parecia se importar. — Bom, eu só queria dizer que não precisa intervir no jogo, apesar da visível trapaça daquela menina.
— Mas você também? O que está acontecendo? — Ele bufou, dando um leve salto irritado ao ver sua queridinha ir ao chão outra vez. Sarah soltou seu braço e colocou uma das mãos acima da sua, como se lhe pedisse para acalmar os ânimos.
— Papà. — Chamou em tom baixo e acanhado, percebendo que parte da tensão nos músculos daquele homem haviam se esvaído, e que após suspirar, ele estava disposto a ouvi-la. Ainda não sentia-se tão confortável em chamá-lo assim, porém o havia acalmado um pouco e isso era o mais importante. — Ela não é tão fraca assim. Eu sei que às vezes é fácil confundir a inocência dela com fraqueza, mas se for olhar bem, a Pan sempre foi uma pessoa muito forte. Ela é aquele tipo de pessoa que consegue manter a calma em qualquer tipo de situação, e eu acho isso muito admirável. No lugar dela, se eu precisasse lidar com tudo o que ela já passou desde que saiu de casa, acho que eu voltaria e me trancaria outra vez. — Forçou um sorriso fraco, observando a expressão determinada da amiga em quadra ao levantar outra vez, limpando o suor de seu rosto e voltando à sua marcação como se nada tivesse acontecido.
Ele voltou a encarar o jogo, um tanto pensativo enquanto ponderava o que havia acabado de escutar. Era inegável, realmente. Apesar das más intenções estarem óbvias aos olhos de todos os outros, Pan enxergava todos aqueles ataques pessoais como parte do jogo, e seguia tranquila, sem abalar-se nem ao menos por um mísero segundo. Parte dele verdadeiramente admirava aquele lado tão puro de sua filha; aquele talento único que ela tinha de sempre ver o lado bom das coisas, embora também acabasse preocupado muitas vezes por saber que isso a corromperia pouco a pouco. Ao contrário do resto da família que tinha problemas para confiar em qualquer outra pessoa e viviam com a guarda alta, ela era despreocupada e empenhava-se em ver o lado bom da situação, tentando dar um voto de confiança à qualquer um que lhe pedisse. Isso era preocupante, sim, mas para um homem que havia visto as piores partes daquele mundo, era formidável descobrir que existia também aquele tipo de força. Ela havia sido quase violada, fora sequestrada, presenciou as pessoas que mais amava sendo feridas bem à sua frente e mesmo assim teve a capacidade de seguir em frente sem continuar guardando rancores sobre o passado; ou ao menos era isso que ela deixava transparecer. Hans não sabia se era apenas uma ótima atriz ou se então nada daquilo foi realmente capaz de quebrá-la, mas em ambos os casos, surpreendera-se ao descobrir que sua queridinha não era tão frágil quanto pensava.
Hector não conseguira evitar também a curva satisfeita que tomara conta de seus lábios ao ver a frustração estampada no rosto da moça que tanto lutava para machucar sua protegida. Sua intenção era a de abalá-la psicologicamente ao trapacear de forma tão descarada. Queria fazê-la perder a compostura e desconcentrá-la, mas no fim, isso apenas acabou resultando em sua própria irritação, já que ela não contava com o fato de que Pan Stracci era uma daquelas pessoas que tinha a mania de enxergar o copo meio cheio; ou seja, ela não se incomodaria com seus truques, pois nem ao menos conseguiria perceber que havia algo de errado ali. Realmente, era como Sarah havia dito, e talvez ela não fosse tão frágil quanto parecia. Isso era perigoso, pois afinal, só o fazia interessar-se ainda mais por ela e por todas as suas partes que ainda não havia conhecido por completo.
Cada vez que era derrubada, voltava com a mesma expressão sorridente e descontraída de sempre, exalando a inocência de uma criança que se divertia em um jogo com os pais no fundo do jardim da casa em uma sexta à tarde, e apesar de não ter essa intenção, sua personalidade tão única acabara por cativar boa parte da plateia, que passou a vaiar o time adversário pelas trapaças até que elas cedessem e começassem a jogar de maneira justa. Ninguém precisara interferir para isso. Absolutamente ninguém. Era uma conquista que havia conseguido sozinha, e nesse instante, até mesmo seu pai precisou dar o braço a torcer.
— É verdade, eu às vezes esqueço que as minhas garotinhas estão crescendo e que em breve não vão mais precisar de mim. — Hans suspirou desanimado, fazendo com que seus homens arregalassem os olhos; em especial Hector, que nunca o havia visto tão sentimental, e muito menos expressando-se tão abertamente em voz alta.
— Nós sempre vamos precisar de você. — Sarah sorriu ternamente e apoiou novamente a cabeça no ombro do considerado pai, apertando suavemente sua mão para assegurá-lo de que seus laços eram inquebráveis.
— Sabe, eu não me arrependi de ter adiado essa viagem. Consegui ver um lado diferente de cada uma das minhas filhas, e isso pra mim é mais precioso do que qualquer merda de reunião. — Comentou. Bom, era um fato conhecido que, para ele, a família era a coisa mais importante em sua vida. Toda e qualquer decisão tomada sempre visava o bem-estar das pessoas que amava, e por mais que acabasse errando ou exagerando muitas vezes, fazia o que imaginava ser o certo. Estava ciente de que não era um bom sujeito, e tampouco um pai ou marido exemplar, mas ainda assim, considerava que estava fazendo um trabalho aceitável por enquanto.
— E pensar que não tem muito tempo que eu via ela correndo por baixo das mesas como um furacão. — Sandro exprimiu nostálgico, enchendo-se de orgulho ao ver sua queridinha tão focada em alguma coisa pela primeira vez em sua vida. A havia visto passar por altos e baixos desde que a segurara nos braços em seu nascimento, e acompanhar seu amadurecimento com o passar dos anos o enchia de satisfação. — Bom, ela continua um furacão, mas agora nossa garotinha cresceu. — Sorriu.
— Ah, é claro, a moça bonita que parece mais a protagonista de um filme adolescente clichê ganha todos os elogios. Você nunca olhou assim pra mim em nada do que eu fiz, tio. — Diego reclamou, recebendo um olhar torto e incrédulo de todos os homens da famiglia acomodados ao seu redor; em especial por parte de Hans, Hector e Sandro, que ainda não conseguiam acreditar em seu atrevimento. Não eram poucas as vezes que alguns gostariam de matá-lo, principalmente quando ele quebrava a maioria dos códigos de honra ao sair se embebedando em boates e dormindo em suítes de luxo cada dia com uma mulher diferente. Obviamente ele não era o único a fazer esse tipo de coisa, porém o mínimo requisitado era uma imagem impecável de um homem honrado no dia-a-dia para que não chamasse atenção, e bom, Diego não fazia questão alguma de esconder sua má índole. Se os tempos fossem outros, ele definitivamente não teria tanta moleza mesmo sendo afilhado legítimo do Don e sobrinho de seu conselheiro.
— Boa tarde, senhor. — A voz de Evan fez-se audível assim que aproximara-se na companhia de Naoki, Isis e Kate, sentando-se ao lado de Hector; que logo já pensou em milhares de insultos. Já não bastava precisar aturar uma pessoa considerada insuportável, e agora tinham dois iguais? Não, isso com toda a certeza do universo era a sua amostra mais realista e próxima do que seria o inferno propriamente dito.
Embora ainda não o apreciasse muito, dessa vez Hans respondeu ao cumprimento à contragosto, pensando que talvez pudesse aguentá-lo como um favor para sua filha. Se conseguia aturar as idiotices de seu afilhado, então não lhe custava nada dar um voto de confiança ao outro que conceituava como um imbecil.
Naoki parecia um pouco inseguro em acercar-se, então Isis decidiu incomodá-lo um tanto ao dar-lhe um leve empurrão nas nádegas, fazendo com que seu rosto ficasse a apenas alguns centímetros de distância do daquele homem. Ele instantaneamente começou a suar frio e afastou-se alguns passos, com alguma dificuldade para respirar. Por sorte era um momento de intervalo no jogo e não o havia atrapalhado, mas depois que descobrira sobre o trabalho que exercia, não tinha muita vontade de conhecê-lo. Evan insistira em sentar-se ali, portanto acabou sendo arrastado junto e teve que reunir toda a sua coragem para acompanhá-lo.
Kate já o conhecia e respeitava muito, inclusive o considerava um bom pai depois da vez que valsaram juntos, e embora emanasse uma aura autoritária e muitas vezes intimidadora, não conseguia enxergá-lo como uma má pessoa. Juntando todo o auxílio prestado à sua amada por aquele indivíduo e sua família com alguns minutos de conversa, Isis tirara as próprias conclusões, achando-o muito culto e respeitável, além de descobrir que se importava muito com a família. Ainda que soubesse de seu trabalho, também não o via como alguém desprezível, e na verdade, começara a admirá-lo muito.
Passaram-se alguns minutos até que Pan acabasse se juntando à eles, completamente suada e exausta após ter pedido para ser substituída. Ofegante, sentou-se entre Hector e seu pai, repentinamente forçando as coxas uma contra a outra ao sentir seu fluxo de sangue mais intenso do que nunca. Droga, arrependia-se por ter exagerado a ponto de fazer exercícios durante aquela semana, mas o que deveria fazer? Era uma das raras ocasiões em que tinha a oportunidade de ter seu progenitor assistindo ao seu jogo, e não poderia decepcioná-lo mesmo que isso lhe custasse uma leve anemia e alguns minutos insuportáveis a mais de cólica.
— Aqui, você deveria ficar aquecida. — Hector retirou o paletó e envolveu-a carinhosamente, com o intuito de amenizar suas dores ao mantê-la agasalhada. — Não faz bem deixar a temperatura cair tão rápido depois de se exercitar. — Argumentou.
— Tem certeza? Eu tô suja, vou deixar a sua roupa fedida. — Murmurou encolhendo os ombros, um tanto desconfortável por deixar impregnado o seu odor naquelas vestes que não lhe pertenciam.
— Eu te asseguro de que ele não é o tipo de homem que tem nojo de um pouco de suor, bambina. — Seu pai interrompeu, com as sobrancelhas arqueadas. Já haviam visto e tocado coisas muito piores, que ela nem ao menos conseguia imaginar. Suor era, definitivamente, a última coisa que os faria ter nojo.
— Obrigada, então, Hec. — Sorriu cansada, aconchegando-se dentro daquela roupa que era muito maior do que o seu corpo, quase como um cobertor. Seu dono era pelo menos vinte e tantos centímetros mais alto do que ela, afinal.
A partida terminou com emoção, em um placar apertado que só foi desempatar nos dois últimos minutos após uma cesta de três pontos feita por Annie, atestando a vitória do time. Alex reuniu todas as garotas da equipe para um abraço, contente por terem avançado na chave do campeonato, e assim que cumprimentaram as oponentes em uma demonstração de rivalidade saudável, partiram para arrumar seus pertences com o intuito de voltarem logo para casa, ansiosas para um descanso merecido depois de tanto esforço.
— Aliás, pessoal. — Alex chamou os colegas, acomodando-se ao lado da família de Pan. — Vai ter uma festa na casa do namorado da Annie pra comemorar a vitória de hoje. Vocês vão, né? — Indagou à todos, com a voz baixa e exausta.
— É óbvio que sim. Se eu não estiver lá com os meus parceiros, então não é uma festa. — Evan prontamente respondeu, colocando os braços nos ombros de Chris e Naoki. Esse último não era muito fã de festas, porém ultimamente divertia-se ao sair com os colegas, e não importava-se com o lugar que iriam desde que estivessem juntos. Era a primeira vez que tinha a oportunidade de compartilhar momentos com amigos, então estava feliz.
— Ninguém te quer lá, Evan. — Isis retrucou com certa arrogância, retirando um sorrisinho debochado quase imperceptível dos lábios de Hector e Hans. O rapaz em questão revirou os olhos e levantou o dedo do meio em sua direção, recebendo o mesmo gesto em retorno. — Eu e a Kate vamos, né amor? — Indagou com doçura, beijando suavemente a nuca de sua parceira, que apenas assentiu e sorriu tímida.
— Espera, "amor"? Vocês estão juntas outra vez? — Chris perguntou curioso, fazendo com que todos os olhares se voltassem em direção à elas. Era o que todos queriam saber, na realidade.
— Não oficialmente, é só uma fase de testes. — Kate respondeu mordiscando os lábios, um tanto acanhada. Não gostava muito de ser o centro das atenções. — Nós estamos indo com calma por enquanto.
— E nem pensaram em contar pra gente? As duas andaram sumidas ultimamente e do nada voltaram quase namorando? — Alex bufou, retirando algumas risadas dos colegas.
— Eu quero ir, mas... — Pan disse receosa, observando Hans pelo canto dos olhos, quase como se tentasse ler sua reação. Os colegas tentaram apoiar sua causa e também fitaram-no com olhares pidões, embora ele não tenha dado muita importância.
— Podemos discutir isso no caminho. Sua mãe já está me esperando no aeroporto. — Levantou apressado, dirigindo-se até os carros acompanhado de todos os outros homens que havia trazido. Ela apenas concordou com toda e qualquer exigência, despedindo-se rapidamente dos amigos com a intenção de ganhar alguns pontos com ele. Se o obedecesse sem contestar, talvez conseguisse permissão para ir àquela festa, certo?
— E então, papai? Você já ficou o caminho todo sem falar nada. — Disse manhosa enquanto caminhavam juntos até o portão de embarque, aonde Alice aguardava ao lado de Diego, que havia chegado antes em outro carro. Já começava a imaginar todas as coisas que faria enquanto seus pais estivessem na Itália, ansiosa para ter um pouco mais de liberdade. Ele apenas encarou-a pensativo sem dizer nada.
— Como foi o jogo, minha querida? — Sua mãe cumprimentou-a com um abraço, fazendo o mesmo com Sarah. — Me disseram que você ganhou, parabéns. — Esboçou um sorriso forçado, empenhando-se em demonstrar algum orgulho.
— Eu não fiz muita coisa. — Deu de ombros. — Foi mais a Alex com a Annie, mas a gente ganhou mesmo assim.
— Que mentira, você foi ótima. — Sarah contestou negando com a cabeça. — Eu nunca tinha te visto tão focada em alguma coisa.
Pan sorriu e entrelaçou os dedos nos dela como agradecimento, direcionando o olhar ao pai outra vez, de modo insistente. Queria com todas as forças receber a permissão de sair ao menos uma vez em toda sua existência sem precisar planejar fugas mirabolantes que acabassem colocando em risco a vida de quem tinha a responsabilidade de protegê-la. Depois de tudo o que havia passado, entendia perfeitamente que não podia sair agindo como uma irresponsável, mas ao mesmo tempo também não passava por sua cabeça ficar sentada em casa como uma boa moça e não aproveitar o tempo que ficaria no país sem a supervisão de seus pais.
— Eu não sei, bambina. — Suspirou dando-se por vencido, já ciente de que não conseguiria continuar ignorando esse assunto. Cruzou os braços e seguiu falando: — Nenhum dos meus homens mais confiáveis vão estar disponíveis pra cuidar de você hoje, e como eu também vou para longe, as coisas podem acabar ficando mais perigosas.
— É verdade, alguém pode querer se aproveitar da ausência do seu pai pra fazer alguma coisa com você. — Alice concordou. — E nem adianta olhar pro Hector com essa cara de cachorrinho abandonado, meu amor. Ele tem coisas pra resolver no cassino hoje à noite. — Sorriu maliciosa, percebendo as intenções da filha que logo murchou ao ouvi-la.
— Eu posso acompanhar as duas. — Diego ofereceu, recebendo olhares incrédulos dos outros três adultos ali presentes. As duas jovens apenas sorriram esperançosas e aguardaram por um veredito.
— Você? É uma brincadeira, não é? — Hector franziu o cenho. O Don apenas fez o mesmo e não disse nada, aguardando por um único motivo plausível que o convencesse a aceitá-lo como guarda-costas de suas preciosas filhas.
— Por quê? Eu já fiquei sozinho com elas em casa e nada aconteceu. — Comentou orgulhoso, quase como se fosse a conquista do século. — E, além disso, eu sou especialista em festas. — Direcionou uma piscadela às moças, fazendo com que Hans tivesse ainda mais dúvidas. Não queria desapontar sua filha depois de vê-la tão animada para ir à esse evento, mas estava fora de cogitação deixar que fossem sozinhas com alguém tão irresponsável quanto seu afilhado.
— Você nunca ficou sozinho com ninguém. Outros homens mais competentes estavam do lado de fora da casa. — Disse seco, observando-as com cautela. Não queria arriscar a segurança de sua amada outra vez, e muito menos confiá-las à Diego, que em sua concepção, servia apenas para festejar e desonrar o nome de seu tio por aí, com todas as besteiras que fazia. Ao mesmo tempo, sentia-se um idiota por privá-la de se divertir depois de tudo, então pensou por alguns segundos até que chegasse à uma conclusão decente: — Mas se me permite opinar, meu Don, nós podemos deixar alguns homens do lado de fora da casa, e o cassino não fica muito longe dali. Se acontecer alguma coisa eu consigo chegar em poucos minutos e resolver. — Acrescentou, percebendo a mudança na expressão de sua protegida. Sabia melhor do que ninguém como agradá-la, e ultimamente ela realmente estava precisando se distrair um pouco de todo aquele drama familiar diário.
— Quer saber? Eu confio em você garoto. — O chefe tocou-lhe o ombro, deixando claro o respeito que tinha por ele. — Se alguma coisa acontecer com minhas meninas, a responsabilidade é de vocês dois. — Aqui ele olhou diretamente para Diego, esboçando uma expressão fria. — Seu tio é um homem honrado, criança, então espero não me decepcionar com você. — Terminou, despedindo-se de cada uma das filhas com um beijo na bochecha e um abraço apertado, antes de sair em direção ao avião. Sua esposa fez o mesmo, e depois de verem-nos partir, foram embora para que pudessem se preparar para a festa.
A casa do anfitrião não era tão grande quanto as de suas famílias, porém ainda assim era um sobrado espaçoso o suficiente para o evento. A fachada possuía algumas janelas grandes de vidro que possibilitavam a visão do interior; aonde se percebia várias pessoas se embebedando no andar de cima enquanto atentavam-se ao lado de fora, averiguando quem estava por chegar ou então quem já havia chegado.
Do lado de dentro estava uma gritaria insuportável, que somada à música alta incomodava gravemente os ouvidos. Um círculo se formava entre os convidados que se juntaram para assistir os garotos populares dos times de futebol e baseball tomando cerveja de cabeça para baixo em um barril cheio. Quem tentava concluir esse desafio no momento era Evan, segurado por Chris e mais outros dois colegas. Era uma tradição em todas as festas que iam, e aparentemente as pessoas pareciam gostar muito de vê-los assim; principalmente as garotas.
— Eles são ridículos, não são? — Isis aproximou-se delas assim que colocaram os pés para dentro, revirando os olhos e negando com a cabeça ao observar aquela cena que tanto considerava patética. Sarah concordou com a cabeça e ambas sorriram. — Deixando os idiotas de lado, vocês querem jogar beer pong?
— É aquele negócio de jogar as bolinhas dentro dos copos pra ver quem bebe? — Pan alegrou-se instantaneamente. — Eu quero! — Exclamou eufórica, ansiosa para tentar jogar. Já havia visto aquilo nos filmes e livros que costumava ler, porém nunca teve a oportunidade de tentar.
— Maravilha, então podem ir se preparando pra voltarem bêbadas pra casa. — Sorriu vitoriosa, pegando uma das bolinhas entre os dedos. — Eu e a Kate somos as melhores nisso.
— Espera, bêbadas? — Sarah logo ficou com um pé atrás, segurando a mão da amiga e direcionando um olhar arrependido à Diego, já esperando pelo sermão interminável que provavelmente teriam que ouvir ao pelo menos pensarem em colocar uma mínima gota de álcool na boca.
— O que foi? Eu não estou ouvindo e nem vendo nada. — Ele sorriu de canto com certa malícia, deixando-as aliviadas. Tinham certeza de que não poderiam jogar, mas diferente de Hector e dos outros homens da família, Diego não se importava em vê-las se embebedando mesmo que não tivessem idade legal para isso. Fazia o mesmo desde seus quinze anos, afinal, e achava injusto que ninguém as deixasse aproveitar de sua adolescência do mesmo jeito que teve a oportunidade de curtir a sua. — Divirtam-se, gatinhas. — Piscou sorrateiro em direção à elas, ganhando alguma distância após observá-las correndo para a mesa do jogo.
Notou Evan avizinhando-se de Pan ao sair de perto dos colegas e logo sorriu consigo mesmo ao imaginar a expressão que faria Hector quando o visse tão próximo de sua queridinha, em especial após o leve beijinho que depositara no topo de sua cabeça depois de entrelaçar o braço em sua cintura e puxá-la para si. Pareciam bem íntimos, ou no caso, ele parecia muito íntimo dela, embora a moça não parecesse estar retribuindo muito todo aquele carinho. Bom, como ela não aparentava se importar com a proximidade, não viu motivo para intervir e apenas deu de ombros, deixando-as por conta própria para que pudesse se divertir também. Era uma festa, afinal, e Diego sempre gostara muito de festas.
Sentou-se no sofá da sala com um copo de cerveja nas mãos e prontificou-se a ficar observando algumas mulheres que dançavam em meio ao recinto. Sabia que, caso fosse visto ali tão despreocupado por alguém da famiglia, seria repreendido outra vez, mas não se importava nem um pouco. Bancar o guarda-costas não era sua especialidade, e muito menos sua função nos negócios. Diferente dos outros, ele não era tão familiarizado com armas, apesar de já ter sido obrigado a atirar uma vez ou outra em negociações que não deram certo, ao lado de seu tio. Havia se oferecido para ajudar essa noite por querer aproveitar sem preocupações, e como isso também o faria ganhar alguns pontos com as filhas bonitas do chefe, não via motivo para recusar.
— E o que um cara tão lindo como você tá fazendo sozinho aqui em uma festa de adolescentes? — Uma voz feminina fez-se audível de maneira sensual, fazendo-o virar-se para averiguar. Deparou-se com duas jovens bem próximas, cada uma com um copo plástico vermelho nas mãos, cheios de bebida. A atitude e os decotes bem abertos também não deixavam a desejar, causando uma curvatura maliciosa em seus lábios à medida que as apreciava de cima à baixo. — Não vai me dizer que você é daquele tipo que gosta de meninas mais novas, porque isso seria um desperdício.
— Mais novas? Eu não sou babá, meu amor. — Deu dois leves tapinhas nas próprias coxas, sinalizando para que se acomodassem ali. Entreolharam-se entre elas e assentiram intrigadas, colocando os braços ao redor de seu pescoço. — Eu sou um cara religioso, então estava aqui bebendo enquanto esperava algum Deus atender às minhas preces. — Aproximou a face até que tocasse a orelha da mais alta e deu ali um leve beijo que a fizera arrepiar, antes de acrescentar em um sussurro: — Eu só não esperava que as Deusas fossem vir pessoalmente atender ao meu pedido.
Ambas esboçaram um sorrisinho tímido com aquela cantada tão propositalmente vergonhosa, e ele aproveitou a deixa para pedir permissão com o olhar no intuito de tocá-las, recebendo um aceno afirmativo de cabeça em resposta. Deixou as mãos percorrerem pelas penas de ambas, acariciando o interior de suas coxas com o polegar para provocá-las, sem passar dos limites em público.
— E o que você acha de deixar as crianças aqui enquanto você sobe com a gente? — A outra passou dois dedos em sua nuca e deu-lhe um selinho nos lábios, fitando-o diretamente nos olhos para seguir: — Será que você dá conta de nós duas? — Murmurou com um sorrisinho provocativo, levantando-se para puxá-lo consigo pelo colarinho da jaqueta. Ele olhou rapidamente para trás e averiguou que as filhas do chefe continuavam seguras, dando de ombros e cedendo ao pedido de acompanhá-las.
Na realidade, talvez ele não estivesse tão certo do que estava prestes a fazer. Obviamente dormir com duas garotas ou até mais já havia se tornado parte de sua rotina, mas não sentia-se confortável ao ver o estado em que estas se encontravam. Apesar de terem mais ou menos a idade de Hector, decerto uns vinte e três ou vinte e quatro anos, encontravam-se aparentemente bêbadas e não tinham muita ciência do que fariam em breve; estavam sendo levadas pelas substâncias em seu sangue. Provavelmente nem se recordariam de seu rosto no dia seguinte, e embora achasse esse fato extremamente conveniente, não era de seu feitio aproveitar-se de mulheres que não estivessem lúcidas. Considerava-se perfeitamente capaz de conquistar alguém sem que estivessem alteradas daquela forma.
Assim que chegaram ao andar de cima, abriram a porta de um dos quartos e se deram conta de que estava ocupado. Um garoto beijava fervorosamente o rosto de uma moça que permanecia estática, deitada na cama sem reação; parecia estar à beira da morte, mas que diabos? Diego pôde ouvi-la rumorejar as palavras "não" e "não quero", quase como se implorasse por misericórdia algumas vezes, lutando sem forças para afastá-lo de seu corpo. Suas acompanhantes fecharam a porta com sorrisinhos estampados no rosto, sem dar muita importância ao que acontecia ali. Ele quase deu-se por vencido também. Não era muito incomum que esse tipo de coisa acabasse ocorrendo, mas sempre repetia para si mesmo que deveria intervir, pois não era um imbecil. Quando tinha chance, na maioria das vezes acabava sendo repreendido por seu tio quando o buscava na cadeia por ensinar uma lição a esse tipo de homem, então dessa vez não seria diferente, certo? Uma coisa era ser um criminoso, e outra muito diferente era abusar de pessoas inocentes; isso ele não conseguia perdoar.
— Querem saber, gatinhas? Acho que perdi a vontade. — Disse sério, afastando-as de si ao ser encarado de maneira incrédula. — Foi mal, mas não vai rolar. Tenho outra coisa pra fazer.
— É brincadeira, né? — Uma delas soou irritada. Ele não demonstrou emoção alguma e simplesmente fitou-a com frieza, recebendo um forte tapa no rosto pela atitude grosseira. Depois de xingá-lo por alguns segundos, a mulher pegou a mão da colega e saiu arrastando-a até o andar de baixo novamente, murmurando vários insultos entre dentes.
Diego esfregou o rosto para que fizesse passar a ardência mais rápido, abrindo a porta daquele cômodo outra vez e trancafiando-a atrás de si ao entrar. A vítima já estava quase desnuda, com os olhos marejados e a noção da realidade completamente alterada. Ver aquele olhar nojento e cheio de más intenções do garoto que estava prestes a abusá-la fora o estopim para que ele perdesse a calma e avançasse, retirando-o à força de cima da menina para livrá-la de seu peso.
— Que porra é essa, cara? Você tá louco? — Vociferou ao ser agredido, levantando-se para empurrá-lo como uma ameaça.
— O que foi? Você não tem capacidade de levar uma mulher pra cama sem precisar fazer esse tipo de merda? — Franziu o sobrolho com irritação, desferindo outro golpe no rosto do rapaz e fazendo-o tropeçar nos próprios pés, atordoado. A menina já havia desmaiado e estava inconsciente, então agora ao menos teria passe livre para lidar com aquela situação sem que acabasse se complicando mais tarde. — Não acha meio triste que você precise drogar alguém pra ela ter vontade de dormir com você? — Rosnou ao segurá-lo com força pelo queixo, recebendo um chute em seu estômago.
— Você não sabe com quem se meteu, seu filho da puta! — Avançou em sua direção para acertá-lo outra vez, pegando-o pelo colarinho.
Em um movimento rápido, Diego se soltou e desviou de sua próxima investida, empurrando-o até a cama e colocando um dos travesseiros em sua face para asfixiá-lo, imobilizando suas pernas com o peso de seu corpo. Os braços ainda se mexeram por um tempo, desesperadamente tentando afastá-lo para conseguir respirar outra vez, porém o excesso de álcool ingerido e as pancadas na cabeça que havia recebido anteriormente o enfraqueceram, então não demorou muito até que cessasse completamente os movimentos, atestando sua perda de consciência. Estava certo de que apenas o havia feito desmaiar, entretanto, ao retirar o objeto de sua face, averiguou sua respiração já inexistente; seus pulmões não se enchiam de ar, e muito menos se esvaziavam. Quando fez questão de abrir forçadamente os olhos do menino para verificar sua lucidez através das pupilas, teve a certeza absoluta. Ele o havia matado.
Estava sozinho naquele maldito quarto com um cadáver que não era para existir e uma menina inconsciente. Não tinha intenção alguma de matá-lo, apenas queria fazê-lo desmaiar para que deixasse de causar problemas àquela mulher, inferno. E agora? O que faria para que não acabasse pego e preso por homicídio? Ligaria para o seu tio e pediria por socorro? Não, ele provavelmente acabaria morto pelas mãos daquele homem depois de fazer uma besteira dessas, e mesmo que não fosse, apesar de ser muito envolvido com os negócios e também muito experiente, era apenas o conselheiro da família e não conseguiria resolver com facilidade algo assim em uma casa tão lotada. Existia apenas uma única pessoa disponível capaz de sumir com aquele corpo em questão de instantes e livrá-lo de toda aquela merda que havia causado, mas depois do ocorrido pela tarde, ele tinha certeza de que não era sua pessoa preferida do momento.
Passou as mãos pelos cabelos com muito pesar e voltou a olhar para o corpo sem vida logo ao seu lado, rapidamente alcançando o celular em seu bolso para discar o número, já ciente de que ouviria poucas e boas.
— Pronto?— A voz de Hector ecoou do outro lado da linha um tanto impaciente. Ele engoliu seco, sem saber por onde começar a explicar o que havia feito. Aparentemente estava de péssimo humor, e se precisava de sua ajuda, não podia irritá-lo ainda mais. — O que você quer, Diego? Aconteceu alguma coisa com elas?
— Não, elas estão bem. — Murmurou após limpar a garganta para que sua voz não falhasse, logo ouvindo-o respirar aliviado.
— Então não tem motivo para você me ligar. O que você quer? Eu estou ocupado, vou desligar.
— Não, não! Espera aí, eu preciso da sua ajuda, fantasma! — Exclamou em tom de seriedade, querendo impedi-lo de finalizar a chamada. — Por favor, eu fiz uma besteira e preciso da sua ajuda. — Acrescentou, fazendo-o perceber que não era mais uma de suas brincadeiras.
— Que merda você fez agora, Diego? — Bufou irritado, passando a mão entre os cabelos enquanto caminhava de um lado para o outro, empenhando-se em manter a compostura. Já estava cansado.
— Então, eu... — hesitou, direcionando novamente o olhar até o indivíduo deitado ao seu lado — acho que matei alguém.
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