Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
39 O depois da festa
Notas iniciais
Hector parou por um instante e respirou fundo, na esperança de recapitular aquelas palavras em sua mente, já certo de que o havia interpretado errado ou então imaginando que a ligação pudesse ter falhado. Recusava-se a acreditar que, em uma simples escolta às filhas do chefe em uma festa inofensiva de adolescentes ele havia sido capaz de causar um problema desses. Não, definitivamente não era possível.
— Você o quê? — Inquiriu em tom sereno, empenhando-se em manter a calma. Os barulhos do cassino talvez pudessem ter comprometido o seu entendimento da mensagem, então não custava dar-lhe um voto de confiança, certo?
— Eu matei alguém. — Reafirmou com convicção, e aqui ele acrescentou em uma entonação incerta e arrependida: — Um adolescente, eu acho, não sei. — Levantou-se da cama e voltou a analisar aquele corpo inanimado, observando-o com cautela na esperança de que voltasse a respirar outra vez. — Quebra essa pra mim, por favor. Você é o único em quem eu posso confiar pra sumir com ele daqui sem que ninguém perceba.
— Eu não consigo acreditar que exista alguém tão imbecil. — Rosnou entre dentes, apertando o aparelho em suas mãos com alguma força, mesmo que involuntariamente. — Não, na verdade o imbecil sou eu por ter colocado a mão no fogo por você ao dizer para o Don que você seria capaz de ficar um mísero dia sem causar problemas.
— Dá pra deixar o sermão pra depois? É sério, não é muito legal ficar aqui sozinho com um cadáver. — Deu dois passos para trás, tomando ainda mais distância da cama. — Se o meu tio ou ou padrinho descobrirem eles me matam.
— Que conveniente, e você acha que eu esconderia isso deles por você? — Soltou uma risadinha debochada, quase como se não conseguisse acreditar no que acabara de ouvir. — Deveria ter pensado nisso antes de foder a minha vida como sempre. Boa sorte pra limpar sua própria sujeira. — Afastou o telefone do ouvido, prestes a desligar a chamada.
— E você realmente vai querer que as gatinhas saibam que você me mandou acompanhar elas só pra poder matar alguém na festa? — Diego ameaçou em tom brincalhão, fazendo-o cessar os movimentos e voltar a escutá-lo mesmo que à contragosto.
— Você não ousaria.
— Faz o teste, então. — Provocou, tentando parecer sério e esconder a risadinha que se formava nos cantos de seus lábios. Obviamente ele nunca ameaçaria a amizade que tinha com aquele homem ao propositalmente culpá-lo por suas besteiras, mas achava divertido ver o quanto ele era facilmente manipulado quando sua queridinha era citada.
— Com amigos assim, quem precisa de inimigos. — Bufou, já cansado de todas as atitudes do colega de trabalho ultimamente. O fato de ele tê-lo interrompido durante a declaração da moça que amava também não ajudava em nada o seu caso. — Eu sinceramente não tenho vontade nenhuma de te ajudar. Você tem muita sorte de eu não querer que ela saiba sobre isso. — Suspirou irritado, desligando bruscamente a chamada para dirigir-se com pressa até o carro depois de desculpar-se inúmeras vezes com os sujeitos que o aguardavam para seguir com a reunião no cassino.
Como estava próximo, não demorou muito para que chegasse até o local e começasse a amaldiçoar mentalmente a cena nada agradável que vira ao colocar os pés para dentro. Sua amada estava ao lado de Evan, tendo a cintura tão carinhosamente entrelaçada por um dos braços dele enquanto bebericava outro copo de cerveja tão sorridente. Era perceptível o quão estava bêbada, e naquele momento seu único desejo era o de intervir e levá-la consigo para longe daquela bagunça em segurança; em especial, para longe daquele garoto. Seu sangue fervia com a cena. Fora necessário que cerrasse o punho e respirasse fundo para desviar o olhar e seguir até o quarto em que se encontrava o responsável por todos os seus infortúnios mais recentes. Se Sandro não fosse um de seus amigos mais próximos, ele provavelmente não pouparia esforços para fazê-lo pagar por todos os segundos de raiva passados por sua culpa. Ver sua amada tão alterada enquanto abertamente cortejada por outro naquele estado sem poder fazer nada acendia uma chama dentro de si que era extremamente perigosa; decerto até mesmo letal. Sempre se considerara um homem calmo e racional, porém atualmente não conseguia reconhecer a própria atitude.
— Diego, seu imbecil! — Deu duas fortes batidas na porta, obrigando-o a destrancá-la. No segundo que seus olhos depararam-se com uma garota seminua e inconsciente ao lado do corpo sem vida, não conseguiu evitar o olhar furioso direcionado à Diego, já ponderando todas as piores idiotices possíveis que ele poderia ter feito. — Eu me recuso a acreditar que você trouxe uma mulher inconsciente até aqui pra dormir com ela enquanto me esperava. — Resmoneou incrédulo, passando preocupadamente as mãos pelos cabelos quase à ponto de perder a compostura.
— O quê? É óbvio que não, porra! — Protestou frustrado e arqueando as sobrancelhas em espanto, já sentindo-se ofendido ao imaginar que tipo de visão aquele homem tinha sobre ele. Tudo bem que não se considerava um santo, muito pelo contrário, porém até mesmo ele tinha limites que jamais ultrapassaria, e esse com toda a certeza do universo era um deles. — Ela foi o motivo de tudo isso. Ele drogou a menina e arrastou ela até aqui, aí eu fiquei puto quando vi e arrebentei a cara dele.
— Se você só "arrebentou a cara dele", ele acabou morto por quê?
— Ele revidou e eu fiquei de saco cheio, então tentei fazer ele desmaiar asfixiando ele com o travesseiro, mas... — olhou até o garoto estirado no colchão, fazendo uma expressão desgostosa antes de desviar os olhos outra vez — bom, como você pode ver ele acabou morto.
— É óbvio que ele ia acabar morto, seu incompetente. — Colocou uma das mãos no bolso do terno e aproximou-se da moça, abrindo com os dedos um de seus olhos para constatar a perda de consciência. Estava viva; as pupilas dilatadas devido às substâncias exageradamente ingeridas que corriam em seu sangue no momento. — Por muito pouco ela não vai ter uma overdose, mas eu vou garantir que ela chegue até as mãos da Valerie, por precaução. — Afirmou, agora vestindo suas luvas de couro e puxando o cadáver do menino até o soalho.
— O que você vai fazer? — Perguntou curioso ao vê-lo tão despreocupadamente arrastando aquele defunto até espatifar-se no chão.
— Me livrar do corpo. Foi exatamente por isso que você me chamou, não foi? — Retrucou ríspido, caminhando ao redor do cômodo enquanto abria todos os armários e gavetas; quase como se buscasse por algo. — Aliás, ao invés de ficar aqui me olhando fazer o meu trabalho, por que você não deixa de ser inútil e vai cumprir a sua função de proteger as filhas do Don? Já que eu vou limpar a sua sujeira, então faça o mínimo de levar elas até o carro. Em segurança. — Ordenou seco, já alterado pelas emoções que o consumiam ao imaginar que, naquele instante, sua amada estava sendo abraçada por outro. Ele estava ciente de que não tinha direito algum de intervir nas escolhas da moça, e sabia perfeitamente que não deveria permitir-se ser controlado pelos próprios sentimentos intensos que tinha por ela, mas talvez já fosse muito tarde; estava completamente apaixonado por Pan Stracci, e não adiantava mais continuar negando para si mesmo algo que era tão evidente.
Diego não gostava muito de receber ordens. Na realidade, ele odiava, mas não estava em posição de recusar nada, principalmente se dependia totalmente da boa vontade de seu colega para fazer-lhe um favor e livrá-lo das possíveis consequências que precisaria enfrentar no futuro, quando seu tio ou Hans acabassem por descobrir sua incrível façanha da noite. Engoliu as palavras cheias de zombaria que já tinha na ponta da língua e assentiu, rapidamente descendo as escadas e aproximando-se de Sarah, que ao contrário da amiga, ainda parecia lúcida.
— Quem diria que a impecável Sarah Santoro teria uma tolerância tão alta pra álcool. — Iniciou conversa naturalmente, tentando permanecer impassível quanto aos acontecimentos do andar de cima; precisava manter as aparências.
— Não enche, Diego. — Ela deu um leve empurrão em seu braço depois de revirar os olhos. — Eu já te conheço muito bem. Sabia que alguém precisaria ficar sóbrio pra cuidar da Pan, então eu troquei de lugar com o Evan e deixei ele jogar com ela no meu lugar. — Acrescentou, cruzando os braços após começar a fitar com desconfiança toda aquela proximidade entre eles. — Confesso que não é minha escolha preferida, mas é muito melhor do que acabar perdendo a consciência na casa de um desconhecido.
— Tranquila, gatinha. Eu vou cuidar disso pra você. — Piscou à ela de maneira galanteadora, arrumando a jaqueta e caminhando em direção à mesa de pingue-pongue com o intuito de separá-los.
— Boa sorte. — Sussurrou esboçando um sorrisinho cheio de escárnio.
A risada estridente de Pan ecoava por toda a casa; qualquer um conseguia facilmente perceber que o álcool em seu sangue já a havia feito perder todos os mínimos limites que ainda a caracterizavam como uma pessoa quase normal no dia-a-dia. Se existia uma lição a se aprender sobre tudo aquilo, era a de nunca mais deixá-la beber à ponto de perder a razão daquela forma.
— Diego! — Assim que o viu avizinhar-se, ela jogou os braços ao redor de seu pescoço de maneira que quase o derrubara no chão, espalhafatosamente rindo de seus feitos enquanto ainda segurava um copo plástico vazio. — Cadê o Hec? — Indagou bem próxima ao seu rosto; próxima o suficiente para que pudesse sentir sua respiração nos pelos da face.
— Trabalhando, gatinha. Você sabe que ele é um cara ocupado. — Retirou o copo de suas mãos, jogando-a acima da mesa e permitindo-a se apoiar em seu corpo para manter-se em pé. — Vem, vamos pro carro.
— Mentira. — Refutou em tom alto e manhoso, sentindo os olhos marejarem. — Por que você tá mentindo pra mim? Eu pensei que fosse meu amigo. — Começou a se debater, empurrando-o na direção contrária para afastá-lo.
— É claro que não, você sabe que eu nunca mentiria pra você. — Tentou segurá-la outra vez para que não continuasse a causar uma cena, no entanto ela logo desvencilhou-se novamente e correu em direção às escadarias.
— Eu vi ele subindo, seu mentiroso! — Exclamou sorridente, subindo os degraus rapidamente, embora cambaleando graças à sua falta de lucidez.
Ele pensou em desistir e deixar que ela fizesse o que tinha vontade, porém em questão de instantes seu sangue gelou por completo. Estava fora de cogitação que a filha de seu chefe chegasse até aquele quarto e descobrisse sobre o assassinato cometido. Se não fosse morto pelo Don, o homem que era seu braço direito e que a amava com todas as forças definitivamente faria o serviço, então ele logo apressou-se para alcançá-la. Era tarde, no entanto. A porta já estava aberta e ela havia colocado os pés para dentro; estava estática observando a paisagem com os olhos um tanto arregalados.
— Pan? — O timbre de Hector soou espantado ao vê-la tão repentinamente aparecendo ali. Seu cenho instantaneamente se franzira ao desviar o olhar até seu acompanhante, que vinha logo atrás, um tanto ofegante e cansado de persegui-la.
Se não precisasse manter as aparências, Diego decerto teria permitido que seu queixo chegasse até o chão assim que percebera as condições do local. Estava como antes do ocorrido, ou até mesmo como antes de qualquer pessoa tê-lo adentrado; impecável como se tivesse acabado de ter sido limpo. O mais surpreendente era a rapidez com que aquele homem havia se livrado de toda e qualquer evidência, não deixando ali nada mais do que sua própria figura em pé, observando as paredes de um jeito desinteressado e sutil. Diego estava mentalmente boquiaberto, de fato. Sempre havia brincado com seu codinome de "fantasma", utilizando-o para provocá-lo, mas naquele momento ele percebera que seu título não lhe fora entregue à toa. Caía como uma luva. Nem mesmo a garota inconsciente e seminua estava ali; chegava a ser impressionante.
— Hec, eu sabia que tinha te visto! — Abraçou-o com força, afagando o rosto em suas vestes da mesma maneira que um gato se esfrega no próprio dono, tão manhosa e íntima. — Você é tão cheiroso. — Murmurou apertando-o ainda mais. O suspiro cansado não tardou a sair dos lábios dele, vendo-a tão alterada. Tomar conta de uma Pan Stracci em seus dias mais comuns e pacatos já era difícil o suficiente e o fazia chegar à beira da loucura muitas vezes, mas tomar conta de uma Pan Stracci bêbada? Definitivamente seria uma das piores provações que precisaria passar em sua vida, em especial após aquele dia tão exaustivo e cheio de trabalho. Havia acabado de sair de uma negociação importante às pressas para desaparecer com um maldito cadáver e agora precisaria lidar com mais uma das inúmeras coisas causadas pela irresponsabilidade de Diego. O universo não parecia querer lhe dar nem ao menos um mísero segundo de paz.
— Hector? O que você está fazendo aqui? — A voz de Sarah fez-se audível, anunciando sua entrada no recinto. — Pensei que fosse estar ocupado.
— Confiança é uma coisa que normalmente é conquistada, e esse idiota não está nem perto de começar a conquistar a minha. — Fitou-o com desdém. Ele nem ao menos tivera a audácia de retrucar, em especial após perceber sua irritação ao ver sua queridinha tão agitada. De certa forma, achava divertido ver que desaparecer com um cadáver o trazia menos dor de cabeça do que precisar cuidar de uma adolescente. — Eu deixo vocês duas sozinhas com ele por alguns minutos e olha o que acontece. — Direcionou sua atenção à Pan. Ela instantaneamente concordou, ciente de que as coisas haviam passado dos limites.
— Ruivinha, te achei! — Evan juntou-se a eles, também já afetado pelos drinques que ingerira. Era a última coisa restante para que Hector perdesse o último resquício de sanidade mental que ainda tinha. Toda aquela gritaria e drama jovem já faziam esvair toda a sua escassa paciência. — Vem aqui, vamos jogar mais. A festa acabou de começar. — Tentou puxá-la para si, embora tenha sido prontamente interrompido pelo sujeito que a segurava.
— Santoro. — Hector sinalizou com o queixo para que ela segurasse a amiga e empurrou-a até seus braços, aproximando-se do jovem intrometido que havia adentrado o quarto e colocando-o de costas para si, passando um dos braços ao redor de seu pescoço até que seu cotovelo se alinhasse com o queixo do rapaz de forma que a garganta tocasse sua articulação. A outra mão livre colocou atrás de sua cabeça e fechou-a em um punho, apertando o braço contra a traqueia do garoto até que cessasse a circulação de sangue do cérebro, causando sua perda de consciência. Assim que desacordado, empurrou-o para Diego e apossou-se de sua protegida outra vez, a acomodando em suas costas para levá-la consigo em segurança. — É assim que se faz alguém desmaiar por asfixia, imbecil. Aliás, ele é todo seu. — Deu-lhe duas leves batidinhas no ombro como se o estivesse consolando e retirou-se com a garota. Obviamente aquela técnica não o deixaria desacordado mais do que alguns segundos, porém como estava completamente bêbado, ele decerto não despertaria por um bom tempo. Aquilo fora apenas um incentivo para que ele dormisse.
— Espera aí, espera aí, fantasma. — Diego chamou em um tom desacreditado, ainda segurando o adolescente desacordado. — Por que eu tenho que ficar encarregado de levar esse moleque pra casa enquanto você se diverte com as duas filhas bonitas do chefe?
— Porque, Diego... — voltou alguns passos para trás, ficando a apenas alguns centímetros de distância dele e encarando-o de maneira ameaçadora antes de seguir: — eu sou a pessoa que você chama quando precisa resolver um problema, enquanto você é o idiota que causa o problema. — Ajustou a moça em suas costas, na intenção de que ela parasse de bagunçar seu cabelo perfeitamente alinhado com gel. Droga, aquela cena o fazia perder toda sua seriedade; sentia-se como uma babá, e não como um assassino. — E, no caso, você já causou problemas o suficiente por hoje. Nenhuma pessoa com um mínimo de inteligência confiaria em você pra cuidar dessas duas outra vez. — Terminou.
— Eu vou com ele, Hector. — Sarah exprimiu em entonação séria, fazendo-o arquear as sobrancelhas como se estivesse aguardando por uma explicação. — A Alex disse que ia precisar de carona, e eu acho que ela ficaria desconfortável sozinha com esses dois no carro. Pelo menos assim eu tenho certeza de que todos vão chegar seguros em casa e não vão acabar em algum motel por aí. — Argumentou, encarando-o com convicção para obrigá-lo a ceder.
— Bom, se você quer isso pra sua vida... — deu-se por vencido, já começando a se preocupar. — Se alguma coisa acontecer, você tem o meu número. — Disse, e ela assentiu, dando-lhe a deixa para ir embora.
Descer aquelas escadarias intermináveis enquanto precisava lidar com uma garota bêbada e extrovertida parecia mais uma missão impossível. Vez ou outra ela tentava se desvencilhar e tocar-lhe o rosto para provocá-lo, atrapalhando sua visão. Depois de muito esforço, eles chegaram até o carro para que ele pudesse colocá-la cuidadosamente no banco passageiro frontal e fechar a porta, acomodando-se em frente ao volante logo após. No silêncio pacífico do interior do veículo, ele repentinamente percebeu-a grunhir, preocupando-se de imediato quando a viu fitá-lo com os olhos marejados, apoiando uma das mãos logo abaixo do pescoço.
— O que foi? Está com dor em algum lugar? — Questionou apreensivo, prontificando-se a soltar o cinto de segurança e aproximar-se dela para medir sua temperatura. Aparentemente não tinha nada de errado, embora ela tenha assentido afirmativamente à sua pergunta.
— Sim, bem aqui. Dói muito. — Rumorejou em um tom arrastado e ébrio, apontando em direção ao seio esquerdo. — Já faz um tempo que dói toda vez que eu te vejo, e eu sinto fome também.
— O quê? Como assim fome? — Corrugou o sobrolho em confusão, tentando compreender que diabos aquela garota estava tentando lhe dizer.
— Eu não sei, a minha barriga fica toda estranha quando eu te vejo, Hec. — Relatou em um sussurro, diminuindo o espaço entre suas faces ao esticar seu corpo em direção à ele. Quando Hector percebeu que tinha a intenção de beijá-lo, apressadamente recuou, colocando a palma de sua mão em frente ao rosto dela, que bufou incomodada por ter sido privada de fazer o que tinha vontade. — Por quê? — Reclamou manhosa, quase desabando em lágrimas. Ele simplesmente respirou fundo e desviou o olhar antes que pudesse fazer alguma besteira da qual se arrependeria amargamente depois.
— Você não consegue nem ao menos manter os olhos abertos, Pan. — Repreendeu com autoridade, friamente aumentando a distância entre eles. Sabia perfeitamente que ela não tinha culpa de estar agindo dessa maneira, porém era inadmissível que aquilo continuasse. Tinha princípios, afinal, e aproveitar-se de uma adolescente bêbada estava absolutamente fora dos limites aceitáveis. Não importava quem fosse ou o que sentia por ela, em hipótese alguma ousaria tocá-la em um momento que fosse incapaz de tomar decisões de modo racional. Bom, não que Pan Stracci fosse normalmente alguém com o costume de pensar muito antes de agir, porém isso não mudava em nada o fato de estar completamente alterada pelo álcool, e já era motivo o suficiente para que ele não se atrevesse a acercar-se mais do que o necessário. — Vamos pra casa, se você demorar muito pra dormir, a dor de cabeça no dia seguinte vai ser muito pior. — Sentenciou, colocando a chave na ignição. Antes mesmo que pudesse dar vida ao carro, sentiu sua mão ser coberta pela dela, obrigando-o a encará-la outra vez.
— E quando eu estiver bem? Quando eu já conseguir manter meus olhos abertos? — Perguntou esperançosa, mordiscando o lábio inferior na tentativa de fazer passar sua ansiedade enquanto aguardava por uma resposta.
— Não.
— Por favor. — Suplicou acanhada, fitando-o com aqueles olhos brilhantes e irresistíveis que ele tanto amava. Era verdade que mal conseguia manter-se acordada, já à mercê do próprio cansaço que, misturado com o álcool, não a auxiliava em nada a manter a sanidade.
Hector meramente suspirou. Suspirou porque tinha vontade de dizer que sim, ou porque simplesmente estava exausto. Nem ao menos sabia ao certo, só queria colocar um fim em tudo aquilo e fazê-la parar de criar tantas situações embaraçosas sem motivo plausível. Recordava-se muito bem da primeira vez que havia se embebedado a ponto de se constranger, tal como ela naquele instante, e sabia perfeitamente que no dia seguinte a ressaca seria tamanha a ponto de apagar todas as suas memórias da noite anterior. Fora assim com ele, era assim com todos, certo? Então por que não usar isso a seu favor e finalmente conseguir um pouco de paz?
— Tudo bem, então. Se você lembrar disso amanhã, pode me pedir o que quiser. — Exprimiu cansado. Obviamente era satisfatório saber que sua amada se interessava por ele de algum jeito, porém lidar com tantas coisas problemáticas em um único dia trazia-lhe um desejo intenso de chegar em sua casa e desfrutar de uma boa noite de sono. Uma boa e longa noite de sono.
— Promete? De verdade? — Quis assegurar-se do que estava ouvindo, ainda encarando-o com aquele mesmo olhar alvissareiro.
— Sim, sim, eu prometo. — Balbuciou, sentindo-se imerso em remorso por ter concordado com aquela besteira que imediatamente começava a atormentar-lhe os pensamentos, obrigando-o a refletir sobre todas as possibilidades existentes em que ele acabaria por se complicar ainda mais. E se ela, por algum milagre, acabasse se recordando disso na manhã seguinte ao acordar? Realmente manteria sua promessa e colocaria a vida em risco por um mero capricho da garota? Não, ainda não era o momento para se martirizar. Com certeza ela não se lembraria, e assim poderiam continuar a viver normalmente como se aquela conversa jamais tivesse existido. Sim, definitivamente seria isso. Quer dizer, seria isso, não é?
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