Stracci famiglia: Liberdade e corrupção

62 A calmaria que antecede a tempestade


Notas iniciais
Oi meus nenês ♥ eu não esqueci de vocês não, viu? Sei que vocês já estão cansados dos meus sumiços, mas a gente tá chegando no finzinho de DC aaaa. Esse capítulo é todinho focado no nosso casal preferido, espero que o coraçãozinho de vocês fique tão quentinho quanto o meu. Boa leiturinhaa ♥ ~

Pan não reagiu de imediato por ter ficado atordoada. Sério, não tinha momento mais inoportuno para receber uma ligação daquele maldito que ultimamente se fazia presente na sua vida mais do que deveria? Quer dizer, se fosse qualquer outra pessoa no mundo a atendê-lo, poderia inventar uma mentira qualquer e se livrar do problema, mas Hector era um caso a parte. Esconder as coisas dele estava fora de cogitação.

Primeiro porque ele a conhecia melhor do que a si mesma, qualquer sutil mudança em suas feições já seria o suficiente para descobrir que havia algo de errado ali. Mentiras não o enganariam.

E segundo porque, independente do quanto lhe tivessem quebrado a habilidade de confiar nos últimos tempos, ele era o único com quem sempre poderia contar, que nunca a decepcionaria. Bom, nunca é uma palavra muito forte, porém até então, nada havia feito para desapontá-la. Confiava nele. Cegamente. Sabia que era um assassino, e se lhe apontasse uma arma à cabeça seu coração nem palpitaria mais forte. Isso com certeza valia de algo, certo?

Respirou fundo, amaciou o semblante e, conformada, deu um sorrisinho fechado de canto.

— Eu não sei. — Admitiu, aproveitando a falta de distância para confortar-se entre os braços dele, exalando o cheiro de nicotina em suas roupas que aprendera a gostar com o tempo. Algo naquele aroma a agradava, provavelmente pelo simples fato de pertencer à ele. — Mas pra ser justa, eu pensei em ir mesmo sabendo que era perigoso.

— Droga. — Hector rosnou entre dentes, estalou a língua irritado e desvencilhou-se do abraço. Os olhos encontravam-se fixos no horizonte, banhados em uma névoa que antecipava a tempestade. Ele então abaixou a cabeça, observou-a de forma que transmitisse arrependimento e sussurrou: — Terminamos essa conversa no carro. Peço perdão pelo que vou fazer agora.

Com o semblante do pior cretino que já colocara os pés nesse mundo, o assassino segurou o queixo dela bruscamente, de uma forma que parecesse convincente mas não a machucasse. Seria imperdoável feri-la por qualquer motivo que fosse. O único pecado que jamais cometeria enquanto vivo.

— Sim, eu te traí, qual o problema? — Sua voz ecoou pelo ambiente, chamando atenção de vários transeuntes com a bagunça. A expressão entristecida no rosto de sua amada quase lhe cortou o coração, contudo precisava seguir em frente. Não era hora de fraquejar, especialmente porque isso poderia colocá-la em risco no dia seguinte. Engoliu seco, soltou-a sem carinho algum e completou: — É por isso que não gosto de princesinhas mimadas como você. Fazendo tanto alarde só por que eu dormi com outra mulher, meu Deus... — uma risadinha sarcástica escapou de seus lábios, e ali, lágrimas encheram os cantos dos olhos dela.

Pan sabia. Sabia muito bem que não era real, que Hector era incapaz de tratá-la assim, porém a veracidade de sua atuação a assustava. O fato de ser tão impecável em seu trabalho a ponto até mesmo de conseguir fazê-la acreditar que não se importava com ela era de certa forma assustador, porque ela não tinha noção da própria fragilidade sentimental em relação à ele até aquele momento.

Ter o coração nas mãos de alguém a deixava insegura, mesmo que esse alguém fosse Hector.

— Queria descobrir quem era corajoso o suficiente para fazer tanto alarde aqui, mas não esperava encontrar o antigo cachorrinho do Hans no meio dessa bagunça. — Um homem alto em seus cinquenta e poucos anos se aproximou repentinamente. Sua entonação grave e impassível a fez recuar alguns passos, criando distância entre seu corpo e o do sujeito. Quem diabos era ele? Aqueles olhos negros não tinham um pingo de gentileza; estavam tão escuros e sem vida que se poderia jurar que faziam parte de um cadáver. Os cabelos curtos de mesma cor, penteados para trás de maneira formal e os anéis excessivos de pedras caríssimas nos dedos enrugados evidenciavam sua riqueza e a necessidade de mostrá-la. Não restavam dúvidas de que era um louco narcisista. — Você costumava ter classe. — Continuou, e a cada palavra saída de sua boca, Pan se encolhia mais e mais. — Destratar mulheres no meio da rua... — agora seu foco se concentrou nela, fazendo-a estremecer internamente. — não é lá uma atitude muito honrada, Fantasma.

— Giuseppe. — O assassino o cumprimentou com indiferença, mantendo a calma apesar do medo de sua acompanhante. Tinha ciência de que precisaria tomar a dianteira nesse caso, porque ela nem ao menos conhecia o indivíduo em questão. — Pensei que estivesse na Itália. — Arqueou as sobrancelhas como se o estivesse questionando sobre seus motivos para estar ali. Precisava descobrir, especialmente porque a estadia dele dificultaria a morte de Ezio.

— O Dario encurtou minhas férias. — Retrucou sem dar muitos detalhes, finalmente voltando a encará-lo. — E sei bem que você deve conhecer o desapreço dele por escândalos. — Deu um passo para frente, diminuindo o tom. — Você não trabalha mais com os Stracci, mas ainda é o responsável pela morte do Paolo. Os Romano não vão ser tolerantes se continuar causando problemas por aqui, então leve suas briguinhas conjugais para casa e pare de assustar os civís. — Sentenciou.

— Não precisa se preocupar com isso. — Pan interrompeu após, com muita dificuldade, recobrar a compostura. — Eu vou embora. O erro foi meu em viajar atrás desse... — Olhou para Hector de cima à baixo, se empenhando em demonstrar a falta de apreço por sua presença, engolindo os insultos e apressando-se em sair dali o mais rápido possível. Torcia para que sua performance houvesse sido convincente, pois caso contrário, seria incapaz de dormir por sentir-se ameaçada pelo olhar perfurante do cretino que os interrompera.

A escuridão daqueles olhos a perseguiria até mesmo em seus pesadelos mais profundos.

— Um segundo. — O excesso de dominância na voz de Giuseppe soou como uma ordem, e seu corpo obedeceu sem pestanejar. Algo nele a assustava; tinha uma aura diferente dos homens que já conhecera em sua vida, apesar de serem todos criminosos do mesmo nível. Com a testa enrugada em uma mistura de medo e raiva, virou-se para ele e o viu acrescentar: — Leve como um conselho de amigo. — Fez uma pausa, alcançando um cigarro no bolso e o acendendo entre os dedos. — Você é uma mulher bonita com um pai influente. Procure um homem de verdade que consiga te proteger e pare de correr atrás de moleques irresponsáveis. — Aqui existia uma pontada de ataque pessoal direcionada ao rapaz em seu lado, mas também uma insinuação nada discreta de interesse romântico por ela.

Enojada, Pan sentiu o gosto de sua última refeição ir e voltar em sua garganta várias vezes até se acalmar. Todos os pelos de seu corpo se eriçavam em perigo, quase como um instinto selvagem de sobrevivência, sempre que o ouvia falar. Não requeria muito esforço para perceber o quanto era desprezível. Mal bastavam os quarenta anos de diferença entre eles, ainda ignorara a enorme aliança em seu anelar, dando em cima da filha de seu maior inimigo como se nada significasse, apenas por achá-la atraente.

— Minhas aulas de etiqueta me proíbem de sair com homens casados. — Exprimiu de maneira impecável, sem tremer ou titubear, forçando um sorriso cortês que escondia todo o seu desgosto. Ele claramente não apreciara a resposta, porém fora obrigado a deixar passar e levar como uma brincadeira. Causar uma cena ali lhe traria adversidades. — Tenha uma boa noite, senhor. — Fez questão de enfatizar que o achava velho demais para esse tipo de atitude, quase arrancando uma gargalhada de seu companheiro que, felizmente, era muito controlado com as próprias emoções e fora capaz de escondê-las.

— Tinha que ser filha daquela meretriz. São iguaizinhas. — Bufou insatisfeito, dando uma baforada em seu tabaco na intenção de acalmar os ânimos. — Fique de olho na menina, Fantasma. Ela veio até aqui por você, então se causar problemas a responsabilidade é sua também. — Finalizou o último trago e jogou os restos no chão, apagando-o com a sola do sapato e sumindo entre a multidão, rumorejando insultos devido ao fora nada agradável que recebera.

— Boa noite para você também. — Comentou sarcástico, aproveitando a deixa para seguir sua amada, encontrando-a encolhida dentro do carro. Parecia transtornada, perdida nos próprios devaneios, portanto acomodou-se no banco do motorista e entrelaçou seus dedos nos dela, percebendo sua mão gelada e trêmula. — Quer ouvir música? — Ofereceu com carinho, dando um leve beijo em seu ombro e silenciosamente colocando a chave na ignição.

Com um aceno afirmativo tímido, ligou o rádio e deu partida. Não diria mais nada, não iniciaria conversa. Envolver-se fora uma decisão dela, portanto não a subestimaria ao tratá-la como uma coitada. A ouviria e a confortaria se necessário, mas não tocaria no assunto primeiro, apesar de ser muito perceptível o quanto encontrava-se alterada pelo encontro com Giuseppe.

— Quem era ele? — Indagou em meio à melodia calma do ambiente, os ombros cheios de tensão, duros pelo nervosismo. — Só de ficar perto eu tinha medo de ser comida viva. Literalmente. — deu um aperto involuntário na mão do assassino, sentindo calafrios percorrerem-na por inteira. — A aura dele dá conta de ser pior do que a do Lorenzo.

— Nunca cheguei a me encontrar com o Lorenzo pessoalmente, mas acredito que sim. O Giuseppe é conselheiro dos Romano, e um dos homens mais brutais que já conheci. — Concordou tranquilo, sem retirar o foco da estrada. — Não, talvez ele seja o primeiro na lista. Felizmente o Ezio não o suporta, então dificilmente ele vai até o cassino amanhã.

— Ele parece mesmo ser louco e sem limites. — Mordiscou os lábios ainda incomodada, respirando fundo, tentando recobrar a calma. O fato de não ser necessário revê-lo a auxiliava nisso. — Aqueles olhos entregam tudo. — Completou em um murmúrio distante.

A quietude voltou a tomar conta, transformando o trajeto em algo parecido com uma pequena viagem romântica. Embora preocupado com o envolvimento de sua amada nos negócios, Hector dirigia feliz por tê-la ali, tão linda apreciando a melodia baixa de fundo e o brilho das estrelas no céu através da janela. Na cidade grande não possuía muitas oportunidades de contemplar uma cena assim, tão limpa, portanto aproveitaria a chance ao máximo. Amava se perder nos próprios devaneios enquanto andava de carro, especialmente se a vista era tão bela.

— É estranho eu ter tanto medo desse cara e ao mesmo tempo pensar que o filho de quem me sequestrou no passado não quer me fazer mal? — Reiniciou a conversa em entonação neutra e baixa, os olhos seguiam fixos no mesmo local.

— Considerando que há menos de um ano você aceitava ajuda de estranhos na rua, eu diria que o seu senso de perigo é questionável, meu amor. — Esboçou um sorrisinho e balançou a cabeça, hesitando ao recordar-se do último pedido de Vincenzo antes de suicidar-se à sua frente. Em tese, seu desejo era vê-la segura e bem, protegê-la de alguma forma, portanto as peças do quebra-cabeças dessa guerra estavam embaralhadas. Decerto não fosse ele o verdadeiro inimigo, mas então, quem seria? Se não era seu desejo machucá-la, o filho provavelmente também não o faria. — Só que, nesse caso, é possível que você tenha razão. — Completou, contudo não fora ouvido.

Estavam em mundos diferentes; ela completamente imersa em outro lugar. Conhecia perfeitamente a expressão vazia em seu rosto. Normalmente a fazia quando se obrigava a carregar sozinha um grande fardo, escondendo seus temores para não incomodar as pessoas queridas ao redor. Sempre fora assim, e com um sorriso no rosto, fingia felicidade para forjar o interior quebrado. A primogênita dos Stracci conseguia ser a mistura perfeita de egoísmo e altruísmo ao mesmo tempo. Era habituado demais à todos os cacoetes da mulher ao seu lado para saber que não adiantaria insistir em uma conversa aonde desabafaria sobre o que a incomodava, portanto decidiu deixá-la em seu universo à parte e fez um leve desvio na estrada para modificar o destino, estacionando alguns poucos metros antes do chalé.

— Por que você parou? — Indagou ao retornar à realidade, um tanto confusa. A paisagem também não ajudava; a floresta completamente escura e silenciosa mais parecia um cenário ridículo de filme de suspense. Por sorte a companhia era alguém de sua confiança, e assim os pensamentos não viajaram para locais desnecessários. — A gente não chegou ainda.

— Eu sei. Fiz um desvio rápido. — Tocou-lhe suavemente a ponta dos dedos na intenção de acalmá-la. — Se eu te levasse para casa agora, você passaria a noite em claro. — Soou terno, com uma dose excessiva de compreensão na voz.

Um grunhido desapontado escapou e ela forçou um semblante alegre.

— Não consigo esconder nada de você, né?

— Será? Ultimamente tenho minhas dúvidas. — Comentou em certa ironia, achando graça de sua evolução na arte de mentir. Desceu do veículo e deu a volta para ajudá-la a colocar os pés no chão, percebendo que a felicidade em seu rosto já não era mais tão falsa. Segurou carinhosamente sua mão e beijou-a nos cabelos antes de seguir falando: — Descobri esse lugar quando cheguei aqui, e desde aquele dia eu venho sonhando em te trazer.

— Você sonhava bastante comigo? — O encarou de canto, ansiosa com a resposta. Precisava saber se eram iguais nesse quesito, pois não houve uma madrugada sequer em que não o tenha visto em seus sonhos desde a despedida.

— Eu bem que queria. Seria um prazer dormir se fosse assim. — Aqui seu timbre saiu melancólico, os olhos foram parar na poeira que saía de seus sapatos a cada passo, e involuntariamente, endureceu os músculos com a tensão da própria mente lotada de memórias desagradáveis. — Infelizmente, já faz tempo desde a última vez que eu dormi mais de duas horas seguidas sem acordar suando frio.

— As olheiras ficam bem em você. — Provocou, modificando o assunto para melhorar o clima. Compreendia que, apesar de tudo, tinham uma vivência incomparável, e que as coisas vistas e experienciadas por ele o atormentavam desde sempre. Foram inúmeras as vezes que o vira sozinho no quarto bebendo uísque às quatro da manhã, afinal. — São bem charmosas. — Completou.

— Bom saber disso. — Soltou uma leve risada, puxando-a para si na intenção de envolvê-la em um forte abraço caloroso. Se tinha uma coisa que fazia seu coração derreter era ver sua amada se empenhando em animá-lo. Caramba, precisava ser tão ridiculamente graciosa? — Nós já chegamos, mocinha. Se minhas olheiras te agradam, acho que esse lugar vai te encantar. — A afastou lentamente, permitindo-a apreciar as belezas ao redor.

Em meio às arvores existia um belíssimo e escondido lago cristalino; a floresta que antes a fazia tremer de medo somente em pensar adentrá-la agora parecia mais um refúgio aconchegante iluminado pela luz da lua e pelos excessivos vagalumes que ali habitavam. Seu peito apertou ao ser invadida pelas lembranças de sua infância, e Hector parecia ter compreendido exatamente a sensação. A paisagem além de ser estranhamente nostálgica era também de tirar o fôlego. Parecia o jardim da mansão Stracci em Palermo, para onde fugiam juntos quando necessitavam de um tempo da vida turbulenta que vinha junto do sobrenome sob o qual foram criados.

— São lindos. — Exprimiu extasiada, os olhos cintilando com o brilho natural do ambiente magnífico. — Parecem estrelas.

— Os vagalumes?

— Sim.

— Se os vagalumes são estrelas, então nessa galáxia, senhorita Stracci... — diminuiu novamente a distância, emoldurando o rosto dela com as mãos — você seria o sol.

— Ah é? — Curvou a boca satisfeita, contente em dividir aquele momento tão especial com ele. O amava. Muito. Chegava a ser doloroso não ser capaz de expor suas emoções em palavras, contudo tinha noção de que era recíproco. As feições dele enquanto ao seu lado não escondiam nada. — E qual o seu papel na nossa galáxia pessoal?

— Eu? Com certeza a lua.

— Por quê? — Arqueou as sobrancelhas intrigada.

— Porque a lua depende do sol para ter luz. Uma lua sem um sol não passa de escuridão sem fim. — Selou sutilmente seus lábios, iniciando um beijo romântico, longo e sem pressa.

Existia uma pontada de luxúria aflorada em ambos os lados pelo toque intenso, contudo não chegava perto da afeição transmitida pelo gesto. A conexão era imensurável, quase palpável, e tinham perfeita noção disso. As mãos dela percorreram suas costas e deixou escapar um gemido no instante que contornou sensualmente o interior de sua boca em uma tênue provocação. O queria desde o segundo que o vira parado na porta do chalé com os cabelos emaranhados, suando frio e esboçando uma expressão de quem não dormia há séculos. Não sabia que diabos havia acontecido para começar a desejá-lo tanto ultimamente, embora não fosse dispensar o romantismo. Talvez fosse o modo como ele despertava-lhe pensamentos impuros que ninguém mais conseguia. Dormir com outro rapaz somente lhe serviu para constatar isso. Sua atração por ele tornara-se incomparável no momento que o vira desnudo no banheiro tempos atrás, apesar de somente ter realizado isso há pouco. E quem se importava? Ela definitivamente não. Eram namorados agora, ou seja, não seria estranho demonstrar interesse, certo? Fazer rodeios nunca fora muito o seu forte. Preferia sempre agir diretamente e expor tudo com honestidade. Tesão incluso, obviamente.

— Senhorita Stracci. — A voz rouca e baixa soou sôfrega, carregada de volúpia. A reação esperada por ela ao incitá-lo. — De manhã, no provador e agora... — encostou suas testas, acariciando ternamente o queixo dela com o indicador e o polegar — se continuar me olhando assim, vou acabar passando dos limites.

— Não tem problema. — Sussurrou contra os lábios dele, repousando as mãos ainda ao redor de seu pescoço, mantendo a distância curta. — Eu confio em você.

— Não deveria.

— Mas eu confio. Isso é ruim? — Se fez de desentendida, forjando um semblante dissimulado que o obrigara a derrubar todas as defesas. Adorava esse seu jeitinho de demonstrar que sabia as consequências de suas ações e simplesmente não dava a mínima.

— Você não tem vergonha mesmo. — Riu malicioso, balançando negativamente a cabeça como se não conseguisse acreditar. Levantou-a em um piscar de olhos para carregá-la em seu ombro até o veículo, dando no meio do trajeto um tapa em sua bunda como um castigo por desafiá-lo, escondendo a própria satisfação ao ouvi-la murmurar de prazer com o estalo. Quem diria que sua amada teria um certo apreço oculto pela dor? — Vou te ensinar que é uma péssima ideia me provocar assim.

Ela soltou um som anasalado com o excesso de gargalhadas. Adorava passar dos limites a ponto de irritá-lo, e agora ainda mais, porque acabaria sendo punida de forma deleitosa.

Os poucos minutos que demoraram para chegar ao chalé mais pareceram uma eternidade, e travessa como sempre, Pan roubou as chaves e saiu em disparada na frente sem esperá-lo, deixando uma trilha com suas roupas até o chuveiro. Estava frio, e nada melhor do que uma ducha quentinha para tornar o clima de dezembro mais tolerável. Pontos extras se acabasse por render um momento satisfatório com Hector, que não tardou a segui-la banho adentro após jogar as vestes acima do sofá.

Desviar a atenção se tornou impossível; ela se encontrou vidrada no corpo dele por alguns segundos. E não por ser atraente, apesar disso ser uma afirmação inegável, mas sim pela sensação de estranheza misturada com várias outras. Era o mesmo Hector de sempre, porém agora como seu namorado, e não como guarda-costas ou o assassino miserável e peão de Don Stracci. Uma relação nova e muito diferente de um jeito bom.

Inebriada, lentamente deslizou os dedos por cada uma das cicatrizes em seu torso, analisando cada pedaço, cada parte do homem que amava incondicionalmente, amaldiçoando a si mesma por não ter percebido mais cedo a importância dele em sua vida. Ainda assim, por um lado, decerto fosse melhor ter vivido outras experiências antes de uma decisão final. Porque ficar com ele era com certeza um ultimato, já que havia se tornado incapaz de imaginar-se com qualquer outra pessoa ao seu lado no futuro. Não que fosse uma via de mão única, pois Hector claramente parecia estar com dificuldades para se conter. Nunca havia ousado sequer divagar na parte mais profunda de sua mente sobre ter esse tipo de contato tão íntimo com sua protegida. Até pouco tempo se contentava em simplesmente permanecer ao seu lado, então fantasias desse tipo passavam bem longe dos pensamentos cotidianos. Recusava-se a crer que a iniciativa viria dela, pois sempre ficara amedrontado de atravessar os limites apenas por abraçá-la.

O simples fato de se achar indigno de afeição já servia como trava para qualquer pensamento que considerasse exagerado. As mudanças de atitude e o amadurecimento de Pan foram obviamente os pontos principais responsáveis por aflorarem esses seus desejos impuros.

Bom, não que as provocações incessáveis por parte dela desde o reencontro não tivessem surtido efeito também, porque se existia uma coisa que o estava enlouquecendo desde o segundo que se entreolharam pela manhã era aquela expressão lasciva que ela esboçava involuntariamente vez ou outra.

— Doeu muito? — Perguntou em um suave rumorejo, ainda com os olhos fixos nas marcas enquanto as traçava com o indicador. Seu âmago formigava aflito ao ponderar o tipo de agonia que ele passara para consegui-las. Odiava imaginá-lo sofrendo.

— Foram seis dias de provação no próprio inferno. — Assumiu sereno, respirando fundo ao prensá-la contra a parede, apreciando a visão da água percorrendo sua pele pálida. Inclinou-se até tocá-la no pescoço com os lábios, delineando uma linha de beijos dali até o canto de sua boca, franzindo o cenho ao acrescentar em um rumorejo: — Mas eu diria que te ver assim e precisar me segurar é uma tortura equivalente.

— Ninguém te pediu pra se segurar. — Tocou seu rosto suavemente, obrigando-o a fitá-la. — Você se tortura sozinho, Hec.

— Talvez. — Cerrou o punho, apoiando-se contra a parede. Um sorrisinho escapou. Diabos, amava a forma como era tão segura de si e não fazia questão alguma de filtros. — Só que eu não sou o único sendo torturado aqui. — Deu um passo para frente, aumentando a tensão que já era quase palpável. — Te ver tão ansiosa por não saber o que vou fazer é minha parte preferida.

— Isso é maldade. — Mordeu o interior das bochechas um tanto nervosa, evitando contato visual, focando apenas em retirar os resquícios de sabonete em si. Tinha a impressão de que o coração sairia pela garganta a qualquer instante se continuasse o encarando.

— Eu nunca prometi ser um homem bom. — Acariciou a bochecha dela com o polegar, apreciando cada detalhe de seu rosto. Os cílios molhados; lábios secos pelo excesso de frio; as sardas; o avermelhado causado pelo banho quente, a espuma escorrendo dos cabelos até os ombros... cada pequeno detalhe que estava louco para tornar seu. — Posso acabar sendo um pouco mais autoritário do que de costume. É sua última chance de fugir.

— Será? — Forçou um semblante pensativo, fazendo charminho. Suas intenções de irritá-lo estavam claras. Brincar com o perigo era um de seus passatempos preferidos, afinal, e mais ainda se o tal "perigo" possuísse um nome específico. — Até agora eu só te vi me dar avisos sem fazer nada. — Seguiu o provocando, empenhando-se em ultrapassar os limites.

— Muito bem, você quem pediu. — Enfiou os dedos entre os cabelos escarlate molhados, transformando todos os fios em um rabo-de-cavalo improvisado em um único movimento, sutilmente tomando as rédeas da situação sem machucá-la. Em sua concepção a dor poderia ser prazerosa, sim, mas isso deixaria para mais tarde; sua ambição agora era fazê-la se arrepender de tê-lo instigado além de um grau tolerável. — De joelhos. — Ordenou com frieza, seus olhos diretamente nos dela, ainda a segurando da mesma maneira enquanto recebia em resposta apenas uma mirada confusa, como se a escutasse reclamar no fundo de sua imaginação "como assim ficar de joelhos nesse chão duro"?

Não esperava nenhum "sim, senhor" imediato. Não de Pan Stracci. A conhecia perfeitamente a ponto de saber que não entregaria o controle tão facilmente, e honestamente? Não se desfaria desse seu traço de personalidade, pois só servia para aumentar sua vontade de fazê-la ceder.

— Eu nem comecei e você já hesitou? — Sorriu malicioso, aproveitando para devolver um pouco das provocações que tivera que aguentar durante o dia. Chumbo trocado não doía, certo? — Parece que não sou eu quem só ladra e não morde, senhorita Stracci. — Terminou com um certo ar de superioridade e ela pareceu incomodada.

Apesar disso, Pan obedeceu. No fundo, odiava o simples pensamento de perder sua liberdade em qualquer decisão que fosse, e ainda assim ficava excitada em receber ordens dele. Ajoelhou-se com muito deleite estampado no rosto, e Hector adorara o semblante esboçado; aquele semblante cheio de curiosidade, desejo e uma pontada insignificante de medo. Ser tão brutalmente honesta com suas emoções e completamente confiante na própria aparência só servia para torná-la ainda mais sensual e atrativa. Inferno. Queria devorá-la logo, mas não seria uma punição se ela simplesmente conseguisse tão facilmente o que ansiava.

Precisava dar o troco na mesma moeda, fazê-la enlouquecer com a antecipação. Não era o maior fã de cenas no chuveiro, achava desconfortável e nada prático, contudo a visão de sua amada tão submissa à sua frente enquanto as gotas percorriam-na por inteira levando a espuma ao chão se fazia bem prazerosa. O contraste da água quente com o clima frio tinha algum potencial a ser explorado.

— E agora? — A voz dela saiu manhosa, aguardando por mais instruções, fitando-o de baixo para cima. Já havia recebido oral, mas nunca feito. Tinha medo de machucá-lo, mas estava morrendo de vontade de experimentá-lo também. As pesquisas na internet feitas por mera curiosidade compensariam sua inexperiência no ato em si? — Eu posso? — Se inclinou minimamente, insinuando suas intenções.

Ele assentiu, deu permissão, mas não cedeu o controle. Afundou-se entre seus lábios úmidos, e ainda com os cabelos rubros entre os dedos, começou a guiá-la. Puxando-a para trás, empurrando-a para frente, a vista daquela mulher com a boca ao redor de seu pau era deliciosa, prendendo a respiração cada vez que ia até sua garganta, soltando gemidos baixos, involuntários e esporádicos, sentindo prazer ao lhe dar prazer.

Era perfeita, de todas as maneiras.

Aproveitou a liberdade da ocasião e ousou masturbá-lo ao mesmo tempo, colocando em prática todos os seus anseios reprimidos. Não se seguraria por medo de cometer algum erro. Os dedos deslizavam facilmente por toda a extensão molhada por sua própria saliva, em sua direção, na direção contrária, os olhos agora fechados para não ter tontura pelos movimentos com a cabeça, instruídos por ele através do rabo-de-cavalo. Hector aparentava apreciar muito suas investidas; conseguia ouvi-lo arfar mais forte entre uma passada de língua e outra, fora as puxadas automáticas e mais fortes em seus fios que surgiam em picos de lascívia.

Repentinamente o sentiu suspender os movimentos, a água já não caía mais em suas costas, o chuveiro havia sido desligado. Abriu os olhos para assimilar a situação e o viu se afastar, voltando em instantes com uma toalha aonde fora enrolada antes de ser pega no colo e acabar parando no quarto, jogada carinhosamente acima da cama para, por alguns segundos, ser meramente contemplada.

— Vou ficar resfriada se só continuar me encarando assim. — Soltou uma leve risadinha, sinalizando seu estado encharcado.

A temperatura do lado de fora estava baixa, porém seria hipocrisia dizer o mesmo sobre a de seu corpo. Seu interior fervia em excitação, estimando com vontade o olhar faminto daquele homem que definitivamente sabia como fazê-la se sentir desejada.

Um sorrisinho sacana surgiu no rosto dele.

— O que eu faço com você? — Sentou-se na ponta da cama com uma toalha ao redor da cintura, utilizando os dedos para tocá-la nos tornozelos, traçando vagarosamente uma linha invisível, deslizando-os pela pele molhada e macia, admirando os pelos eriçarem com seu tato até cessá-lo nas coxas, aonde deu um leve aperto. — Juro que vou acabar enlouquecendo.

Se pegou vidrada nas cicatrizes dele uma vez mais. Teria algum tipo de fetiche oculto por isso? Não sabia ao certo, mas de uma coisa tinha certeza absoluta: Hector não era o único a estar à beira da loucura. Cada toque, gesto ou até mesmo suas respiradas mais fundas empenhando-se em conter os impulsos rudimentares a faziam perder parte da força nas pernas. Era encantador. Cada parte dele a deleitava de forma inimaginável. Se contentaria apenas em observá-lo durante a noite toda, mas todas as partes de sua existência gritavam o completo oposto. Precisava dele, da maneira mais íntima e suja possível, porque uma foda romântica e cheia de contato visual não a saciaria como tanto necessitava.

Quem diria? A princesinha mimada possuía um lado devasso no fim das contas.

Se amavam e disso não lhes restavam dúvidas, contudo já haviam percebido que não se contentariam com sexo puro e romântico. Não essa noite, ao menos. Passaram tanto tempo se reprimindo e lutando contra os próprios desejos que acabariam explodindo se não os sanassem de uma vez por todas, e o único jeito de fazê-lo era com uma transa gostosa sem escrúpulos.

Que se danem as etiquetas ou o romantismo, precisavam de mais do que isso.

— Tudo. — Respondeu sôfrega, a voz baixa e luxuriosa. Estava difícil até de respirar, então como falar corretamente? Não dava. Impossível. O ar rarefeito pelo excesso de tensão a fazia perder parte da sanidade.

Hector adorava vê-la assim. Sempre teve curiosidade de descobrir como seria caso os papéis estivessem invertidos; se fosse sua amada a depender de uma decisão sua. Não a culpava pelos anos que passara escondendo as próprias emoções. Não poderia nem se quisesse, porém descobrir que seus sentimentos eram finalmente recíprocos, e não apenas os românticos e inocentes, servia como uma bela dose de combustível para o seu tesão.

A vontade de fazê-la gozar surgiu entre um olhar curioso e outro vindo das íris esverdeadas, tomando para si a obrigação de retribuir o favor do banho. Colocou-a sentada na ponta da cama e se acomodou entre as pernas abertas, quase tão molhadas quanto ela mesma. Arrepios surgiram com a respiração quente, a escutou suspirar alto e logo a toalha que tanto o atrapalhava de vê-la por completo foi parar no chão. Deslumbrante. Divina. A pele desbotada marcada em tons de vermelho pelo frio completamente à mostra, e ela não se incomodava em esconder nenhuma parte. Tinha segurança em si; se achava gostosa, e definitivamente era. Qualquer um que dissesse o contrário seria um completo imbecil.

Cócegas nas coxas causadas pela barba e um gemido baixo que ecoou pelo recinto, as unhas se fincaram nas laterais do corpo. O tempo gélido deixou de ser um problema em poucos segundos, mal conseguia se lembrar do próprio nome. Profanou mil vezes alguma divindade por aí entre sussurros em sua língua nativa, porque o inglês que tanto usava no dia-a-dia e já havia se tornado um costume acabou desaparecendo de seus pensamentos. Ali só o que existia era um branco absoluto, a imaginação nevoada, incapaz de raciocinar, pois tudo em que conseguia focar era na sensação deliciosa que a língua de Hector lhe trazia.

Inclinou o pescoço, fechou os olhos e mordeu a parte interna da boca. Estava inebriada, não se dava mais ao trabalho de conter os gemidos que escapavam um atrás do outro, rogando o nome de Hector. Os dedões dos pés se contraíram junto com o resto dos músculos, as pernas perderam parte da força e o orgasmo não aguardou preparativos para chegar. Não seria capaz de segurá-lo nem se quisesse. Em chamas, cada parte sua ardia e implorava por mais, se parassem por ali definitivamente acabaria passando a noite em claro com tanto acúmulo de libido. Claramente não era a única sofrendo desse mal.

Hector se colocou de pé, molhou os lábios e esboçou uma expressão inigualável. Desejos acumulados e uma bela dose de possessividade, os olhos mais brilhantes e vorazes do que nunca. Seu coração falhou uma batida em ser meramente observada. Que diabos? Ele dava conta de fazê-la estremecer sem esforço nenhum.

Puxada para mais perto e tendo a cintura segurada com uma força considerável, recebeu um beijo de retirar mais ainda seu fôlego já precário, envolvendo o torso dele com as pernas e o pescoço com os braços ao ser levantada do chão como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Derreteu em dobro quando ele aproximou mais a face e deu uma mordiscada na ponta de sua orelha.

— Eu quero você de quatro, senhorita Stracci. — Sussurrou autoritário e ela arrepiou enquanto era devolvida acima dos lençóis bagunçados. — Não vou pedir duas vezes. Se apoie nos cotovelos e joelhos.

Ela se sentiu dominada, a ordem fora prontamente obedecida. Debruçou-se sobre a cama e tornou-se completamente vulnerável às suas vontades. Hector sorriu, passou novamente a mão por suas coxas e as deslizou por toda a extensão de sua coluna, inclinando-a de modo que a parte de trás ficasse mais alta. Apreciava a visão deliciosa, e especialmente o fato de tê-la sofrendo por antecedência, curiosa com o que estava por vir. Parou por um instante e suspirou antes de completar em um murmúrio que mais parecia uma ameaça sedutora:

— Vou marcar sua bunda com minha mão.

Pan grunhiu intrigada, mordeu os lábios e assentiu titubeante. A antecipação era uma angústia inigualável, mas não ousou se mover e permaneceu quieta. Caramba, por que ele conseguia até mesmo fazer a dor parecer algo tão delicioso? O havia subestimado graças à sua personalidade usualmente gentil que costumava conhecer, porém estava bem longe de ser o mesmo homem. Encontrava-se impassível, prepotente e impositivo. Temia ser punida caso abrisse a boca para falar qualquer estupidez, e honestamente, talvez até ansiasse por isso.

O som do atrito ecoou pelo cômodo silencioso, um gemido inesperado saiu do fundo de sua garganta e os dedos fincaram-se em um travesseiro próximo. Depois do primeiro tapa, seu corpo se contraiu, o fôlego escapou dos pulmões, e ainda assim parecia excitada. A ardência acordava em si desejos que jamais imaginaria ter; seus batimentos descompassavam. Teria mesmo algum estranho fetiche por se machucar, ou então encontrava-se em um ponto aonde qualquer forma de contato com aquele homem seria o suficiente para atiçar seu tesão? Decerto houvesse um fundo de verdade em ambas as opções.

Completamente molhada, sentindo o calor entre as pernas, o segundo tapa veio sem aviso e a reação escapou idêntica. Hector, no entanto, não se afastou para um terceiro; permaneceu ali, em silêncio, contemplando sua obra de arte. Sua. Ah, como amava repetir isso para si mesmo em pensamento.

Ouviu seu nome ser chamado quase em súplica e entendeu imediatamente o que ela queria. Seu rosto voltou a demonstrar um sorrisinho satisfeito, e o som do preservativo sendo aberto quebrou a quietude momentânea, aumentando a tensão. Tomou todos os cuidados necessários e retornou ao seu lado, jogando-a contra os travesseiros, sinalizando que queria as pernas dela em seus ombros. A sugestão foi instantaneamente acatada, tomou o controle ao segurá-la na cintura puxá-la de uma vez para se encaixar, estimando pelo gritinho involuntário que ela soltara.

As unhas dela se fincaram na cabeceira da cama, o incômodo dos seios saltando a cada estocada logo deixou de existir, tão imersa e hipnotizada que foi pega de surpresa ao ser levantada e reposicionada acima do colo dele, um joelho para cada lado, suas faces a centímetros de distância. A fazia parecer tão leve que, de certa forma, chegava a ser irritante. Hector guiava seus movimentos com as mãos fortes pressionando suas ancas, subindo e descendo, jurando que seus gemidos eram o som mais satisfatório que já havia escutado em toda sua vida.

Sem lençóis, travesseiros ou qualquer outro apoio para amenizar a sensação de deleite, o alvo escolhido fora as costas do responsável por toda a agonia prazerosa. Quer dizer, uma cicatriz a mais ou a menos não faria diferença, certo? Retribuiu o troco dos tapas e o arranhou sem dó, recebendo em resposta uma curva ladina de boca e logo depois um beijo ofegante, desesperado, entre uma rebolada e outra. O aroma de xampu e sabonete tomou suas narinas ao encostá-las contra o pescoço dele, a intensidade aumentou, e sentiu os dedos firmes forçarem bruscamente sua cintura para baixo antes de vê-lo arfar uma última vez e tombar minimamente o corpo para frente, chegando ao auge ainda sem soltá-la. Gostava de tê-la em seus braços, porém a atitude de se afastar partiu da própria meliante.

Carinho à parte, suas pernas não aguentavam mais tanto trabalho. Sério. Depois do primeiro orgasmo já se tornara complicado manter-se equilibrada, então continuar ali ajoelhada acima dele só era bonitinho na teoria. Encantava-se pela falta de vontade dele de permitir que se fosse, mas que culpa tinha de estar fora de forma? Colocou-se de pé com muita dificuldade, ainda com os músculos inferiores um tanto enfraquecidos e recebeu um abraço caloroso junto ao rotineiro beijinho na cabeça.

— Como você está? — A entonação de Hector evidenciou sua preocupação; o olhar completamente modificado, tão doce, gentil e atencioso, fitando-a com tanta doçura que nem parecia o mesmo homem para quem se entregara segundos atrás.

Brusco na cama e cuidadoso fora dela? Se existia combinação mais perfeita, desconhecia.

— Cansada. Meu corpo inteiro tá doendo, mas de um jeito bom. — Retrucou fatigada.

— Posso te fazer uma massagem se quiser. Pegar uma água, preparar outro banho... — seguiu oferecendo-lhe mimos, contudo a resposta chegou como um aceno negativo. — Tem certeza? — Insistiu, e ela novamente negou.

— Primeiro você quer me encher de tapas e agora vai se fingir de bom moço? — Provocou com um sorrisinho ardiloso, arrancando dele a mesma expressão. Amava a conexão que tinham e a forma como sempre podiam brincar um com o outro. Recebeu cócegas como um aviso e se afastou para não acabar com o resquício de fôlego que ainda tinha. — Na verdade tem uma coisa que eu quero. — Retomou o assunto. — Posso usar uma camisa sua igual as mocinhas sempre fazem nos filmes com os namorados? — Disse e ele não conseguiu evitar a risadinha.

Inferno, como dava conta de ser tão linda? Que gracinha.

— Aqui. — Buscou pelo item requisitado na cômoda e fez questão de vesti-la, fechando cada botão com muito cuidado, aproveitando ao máximo a sensação única do momento que, apesar de não ter nada de especial, lhe aquecia o coração. Cuidar de sua amada era seu passatempo favorito. — Ficou melhor em você do que em mim.

— É mais confortável do que as minhas. — Afundou-se entre os cobertores, feliz por não ter sido obrigada a buscar algo seu na mala. A exaustão não lhe autorizaria a ir. — Tem cheiro de cigarro. Antes eu não gostava, mas agora me faz lembrar de você. — Acrescentou.

— Isso é bom. Eu gosto de estar nos seus pensamentos, senhorita Stracci. — Comentou satisfeito enquanto ligava o aquecedor, colocando suas roupas antes de acompanhá-la entre as cobertas e envolvê-la em seus braços, puxando-a para si. — Ainda estou tentando me convencer de que você é real.

— Eu sou real. — Falou baixo, tocando-lhe a bochecha. Ele colocou a mão acima da sua e a acariciou com o polegar. — Quando você acordar eu ainda vou estar aqui.

— Espero que sim. — Beijou-a suavemente na palma e então na testa, notando-a fechar gradativamente os olhos; suas pálpebras pesadas forçando o sono. — Boa noite. — Completou em um sussurro, torcendo a boca em um sorrisinho contente ao observá-la tão pacífica e confortável.

Hector empenhou-se em dormir também, torcendo para que a presença de Pan afastasse seus pesadelos. Bom, claramente não funcionou; sabia melhor do que ninguém que amor não seria o suficiente para livrá-lo dos próprios pecados. Acordou em um pulo às três da manhã, com o peito apertado, suando frio como de rotina. Ligou a luminária e limpou a testa, respirando fundo, esforçando-se para manter a calma.

— Hec? — A voz dela o surpreendeu. Imaginava que estivesse no décimo sono a essa hora.

— Perdão, eu te acordei? — Indagou com uma pontada de remorso ao vê-la abrir lentamente os olhos e esfregá-los, chateado por tê-la incomodado.

Pan grunhiu indicando uma negativa, tranquilizando-o um pouco.

— Que horas são? — Perguntou sonolenta.

— Está cedo, pode voltar a dormir. Amanhã é um dia longo, você precisa estar descansada.

— E você?

— Esse é o meu limite, não consigo voltar a dormir com tanto barulho. — Soou angustiado, cerrando o punho, a testa franzida.

— Barulho? Eu não tô ouvindo nada. — Exprimiu confusa, mal se mantendo acordada. Queria ajudá-lo, mas estava exausta e acabou desmaiando novamente.

— Eu sei. — Tocou os cabelos escarlate e os afastou do rosto singelo que tanto amava, admirando a bela imagem de seu anjinho adormecido, torcendo para que esses últimos vestígios de luz não se apagassem e dessem espaço à escuridão sem fim. Não suportaria vê-la se destruindo como ele mesmo no passado. — Só torço para que continue assim. — Terminou em um rumorejo infeliz, rezando mentalmente para que seus pressentimentos ruins não se concretizassem.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Amo vocês, até a próxima ♥ ♥