Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
63 A chegada da tempestade
Notas iniciais
O sol fraco da manhã iluminava através das janelas a pele pálida segurando nas mãos trêmulas um arancini requentado do dia anterior. Natal sempre fora uma das épocas preferidas de Pan, contudo não se poderia negar o clima gélido. Não enquanto coberta por uma simples camisa roubada de seu namorado, que havia retornado há pouco de uma bela e cansativa corrida matinal para sentar-se ao seu lado e mimá-la antes de precisar encontrar-se com o cretino do Ezio mais tarde.
— Por que você se exercita tanto? — Perguntou manhosa, acomodando a cabeça contra o peito dele. — Eu sempre te via passando horas na academia lá de casa, e hoje tá tão frio e você acordou só pra correr. — Soltou um suspiro espontâneo, sentindo cansaço pelo excesso de esforço daquele homem todos os dias.
— É para conseguir carregar os cadáveres. Alguns são bem pesados, sabe? — Retrucou com uma expressão séria, e ela logo recuou, encarando-o incrédula. Depois de poucos segundos, o assassino esboçou uma risadinha ladina e a beijou na testa. — É brincadeira. Gosto de ocupar a mente com alguma coisa para esquecer outras, e exercícios me fazem bem. — Entrelaçou seus dedos, e com a mão livre, segurou o queixo de sua amada com ternura, fazendo contato visual direto. — Passar tempo com você também me ajuda a esquecer das vozes.
— Que vozes? — Arqueou as sobrancelhas curiosa, tomando um gole de seu espresso. Fez uma careta por ter queimado minimamente a língua e voltou bruscamente a xícara para a mesa, derrubando algumas gotas. — Você falou sobre um barulho de madrugada também. Eu não ouvi nada.
A porta da entrada se abriu em um estrondo, fazendo-a sobressaltar com o susto. Em um primeiro instinto, Hector puxou rapidamente o revólver escondido em uma das gavetas da cozinha, levantando-se para cobri-la atrás de seu corpo, colocando o indicador na frente dos lábios para sinalizar que ficassem em silêncio.
Os passos do visitante inesperado ecoaram indiscretos pelo soalho de madeira, um após o outro, sem calma alguma, como se buscasse por algo. A tensão aumentou. Hector não conseguia deixar de imaginar que poderia ser algum mercenário enviado pelos Romano como vingança pela morte de Pietra, e nisso, seu único pensamento era o de proteger sua amada. Destravou a arma e esgueirou-se até a porta do cômodo, deparando-se com a silhueta do invasor e prontamente acalmando os ânimos.
— Você não tem noção alguma de privacidade, não é, Diego? — Ralhou, guardando o revólver no bolso traseiro da calça.
— Um criminoso procurado que não tranca a porta da frente e a culpa é de quem entra? — Retrucou na sua usual entonação irônica, com a boca curvada maliciosamente. — O descuido foi seu, Fantasminha. — Avizinhou-se para entregar-lhe um envelope grande e amarelo dobrado ao meio, fazendo-o erguer a sobrancelha em questionamento, já desconfiado graças ao presente recebido na manhã anterior. — Calma, são só documentos falsos. Não dá pra entrar em um cassino com menos de 21, esqueceu?
— Foi por isso que você sumiu ontem? — Indagou enquanto conferia os itens do pacote. — Pensei que te encontraria desmaiado em algum bar de esquina por aí.
— Bem que eu queria, mas a madrinha me ligou no meio do caminho e me mandou resolver isso, e você sabe que eu nunca recuso um pedido de uma mulher bonita. — Exprimiu cansado, aconchegando-se no sofá e jogando a cabeça para trás. — Ela quer que você atenda o telefone também.
— Eu sei, é por isso que você vive metido em problemas. — Guardou de volta a papelada e deu de ombros, pegando o celular para discar o número de Alice. — Vou ligar para ela, então cuide da Pan por um minuto. Ela está na cozinha, tomando café da manhã. — Acrescentou antes de retirar-se apressado do chalé.
Diego esticou a coluna ao levantar-se em direção à copa, acomodando-se ao lado de Pan.
— Buongiorno. — Cumprimentou travesso, roubando o bolinho que ela tinha em mãos e um gole de seu café, frustrando-se com o gosto da bebida já fria. — Espresso frio em um dia de neve, gatinha? Você me odeia tanto assim? — Reclamou.
— Foi punição por ter roubado minha comida. — Provocou, esboçando uma risadinha maliciosa.
— Você deveria ser presa por comer arancini tão cedo.
— Fritura é muito melhor do que uísque no café da manhã.
— Justo. — Deu-se por vencido com um sorriso no rosto, puxando a xícara dela para si, analisando o drinque gelado. — Aonde eu acho alguma coisa quente pra tomar?
— Se quiser mais espresso vai ter que fazer. Os grãos estão no armário. — Apontou para o local em questão, logo acima da pia. — Você chegou muito atrasado, então a gente já bebeu tudo.
— Vou só devolver o seu pro bule e esquentar. — Deu de ombros e fez como dito, arrancando dela um grunhido nada contente por ter perdido sua bebida. — Que cara é essa? — Questionou ao encará-la pelo canto dos olhos. — Se for medo por causa de hoje a noite, não precisa. É só descobrir qual voo o Ezio vai pegar de madrugada, e tanto eu quanto o amor da sua vida vamos estar do lado de fora. Não tem perigo nenhum. — Tentou animá-la, apesar de não perder a pose brincalhona.
— Tenho um pouco de medo sim, mas não é por isso que eu tô assim. — Suspirou cansada, iniciando a lavagem das louças que utilizara. — É por causa do Hec.
— Problemas no paraíso já tão cedo? — Debochou enquanto bebericava de sua xícara, um tanto curioso.
— Engraçadinho. — O golpeou sutilmente no ombro, deixando sua camiseta marcada com água. — Ele vive falando que escuta vozes, barulhos e não sei mais o quê, só que sempre que eu pergunto ele muda de assunto. Eu queria poder ajudar. — Comentou chateada.
— Já parou pra pensar que talvez ele não queira ser ajudado? — Deu o último gole e apoiou-se na bancada, colocando-se de frente para ela. — Essas "vozes" que atormentam ele são os gritos de cada um que ele já matou até hoje. O Fantasma virou um assassino por que precisava sobreviver de algum jeito, mas ele não nasceu nesse meio. Ele tem um coração bom, então sente remorso pelas vidas que tirou. Isso atormenta a cabeça dele a ponto de não permitir um sono tranquilo.
— E por que ele não ia querer esquecer disso? Deve ser horrível, ver o rosto e escutar cada uma das pessoas. Eu acho que enlouqueceria.
— Não é uma coisa fácil de esquecer. Só dá pra esquecer depois que você para de se importar, mas no caso dele, isso não vai rolar.
— Você escuta isso também?
— No começo eu escutava. Quando matei alguém pela primeira vez eu vomitei por dias, não consegui dormir nem comer direito por um bom tempo, mas...
— Mas hoje em dia você nem se importa mais. — Completou um tanto aflita, esfregando os braços para conter os arrepios.
— Eu tenho nojo, não vou negar. Não é meu trabalho fazer esse tipo de coisa, mas se precisar eu faço sem peso nenhum na consciência. — Admitiu com uma certa frieza que não era costumeira em seu olhar. — Nós humanos somos egoístas, no fim das contas. Depois que você perde tudo, você passa a querer que os outros percam também. — Terminou em um sussurro quase inaudível, e logo a expressão minimamente sombria deu espaço ao usual sorriso travesso novamente. — Esquece isso, gatinha. Você nunca vai ter que lidar com essa droga, então pra que se preocupar?
— É, acho que você tem razão. — Mordeu os lábios aliviada, apesar do sentimento aflito por causa de Hector. Odiava quando o via sofrer. — Quer dar uma volta no centro e ver as decorações de natal? — Ofereceu, empenhando-se em mudar o clima pesado. Precisava arejar as ideias. Ele prontamente assentiu, sentando-se com ela na sala para aguardarem o assassino antes de saírem.
O badalar dos sinos da catedral local soou nove vezes, indicando nove horas da noite. Pan engoliu seco, checou os documentos falsos entregues por Diego e respirou fundo antes de levantar-se do sofá em seu quarto de hotel. Dois andares abaixo de si encontrava-se o infame Ezio Romano, o sujeito que deveria seduzir a ponto de arrancar-lhe informações que não foram passadas nem mesmo ao conselheiro de sua famiglia.
Tarefa simples, não?
É óbvio que não. Sentia que seu coração explodiria a qualquer instante, enquanto adentrava o elevador, encarando seu próprio reflexo no espelho do ambiente. Deslumbrante com vestido preto curto e o batom vermelho chamativo que combinava com a maquiagem bem feita; considerava-se maravilhosa, e ainda assim, suja pelo fato de ter se arrumado tanto apenas para ter sua imagem apreciada por um cretino. Tudo bem que havia prometido à Hector não ingerir nada por precaução, afinal, não queria acabar desmaiada e amordaçada no fim da noite, mas caramba, uma dose de álcool para tomar coragem parecia tentadora.
Olhou para a foto do alvo que tinha no celular e memorizou seu rosto antes da porta se abrir e deixá-la em frente ao salão. Tanto luxo, tantas cores; as paredes de veludo, sem janelas para que os clientes perdessem a noção do tempo e gastassem milhares sem perceber. O barulho dos caça-níqueis dominava o recinto, assim como o aroma de cigarro que tornava sua estadia mais tolerável. No fim das contas, o cheiro que antigamente lhe enojava agora era tão familiar que trazia conforto.
Respirou fundo novamente, ajeitou as vestes e guardou o telefone na bolsa antes de dirigir-se até o bar e sentar em um dos bancos. Era só conversar com o maldito em questão, oras. No passado isso não seria um problema; puxava assunto com estranhos no meio da rua sem incomodar-se com o perigo iminente, só que essa fase ficara para trás, e atualmente, mal conseguia confiar na própria sombra.
O buscou com o olhar, lentamente analisando cada indivíduo que passava em seu campo de visão, um tanto ansiosa por entrar tão descaradamente em território inimigo.
— Buonasera, bella ragazza. — Uma voz desconhecida e minimamente grave ecoou atrás de seus cabelos, permitindo-a até mesmo sentir o hálito do sujeito acariciando seus fios, causando-lhe arrepios nada agradáveis. — Seu pai te ensinou a falar italiano ou você passou a vida toda aqui na América? — No instante que sentou-se ao seu lado, as coisas ficaram bem claras. Cabelos loiros, olhos castanhos, e aquele maldito sorrisinho de quem encontrara um novo brinquedinho para matar o tempo.
Era ele. Ezio Romano.
— Eu nasci em Palermo e cresci lá. — Optou pela honestidade, respondendo rápido para não passar a impressão de estar nervosa em sua presença, embora fosse uma realidade inevitável. — Mas por que falar italiano se não estamos na Itália?
— Eu sou um homem reservado. — Sinalizou com o queixo para ambos os lados, fazendo-a perceber que estavam sendo indiscretamente observados. — Não gosto de dar assunto para os meus fãs saírem espalhando por aí. — Sorriu de canto, tão gentil que ela chegou a cogitar ser menos imbecil. Bom, nada surpreendente, pois afinal, os indivíduos mais impiedosos que conhecia eram também os mais carismáticos.
Hans Stracci que o diga, certo?
— Entendi. — Prosseguiu em sua língua nativa, tomando cuidado para não cair em seus charmes. Odiava ter um coração tão bondoso e facilmente manipulável por rostos gentis.
— E então? O que a filha do Hans veio fazer no meu cassino? — Levantou uma sobrancelha para analisá-la, um tanto desconfiado. — Você não tem nem idade para estar aqui, e mesmo que tivesse... — diminuiu a distância entre suas faces e acrescentou em um sussurro: — você nunca nem colocou os pés nos cassinos da sua família.
— Você sabe tudo isso sobre mim, mas não sabia que eu falava italiano?
— Me dê algum crédito. Até pouco tempo eu mal sabia que você existia.
— Agora sabe. — Curvou a boca em um sorrisinho fechado divertido, querendo ser simpática. — Eu só vim conversar.
— Conversar, hein? — Ajustou a postura no banco e chamou o bartender com os dedos, sendo imediatamente atendido. — Vamos quebrar o gelo com um drinque? Uísque sem gelo pra mim, e pra mocinha... — encarou-a com sutileza, aguardando que fizesse seu pedido.
— Não confio em você a ponto de beber qualquer coisa do seu bar. — Estendeu a mão para iniciar um cumprimento formal, delimitando a distância entre eles. — Muito prazer, meu nome é Pan Stracci.
— Brutalmente honesta. — Soltou uma risadinha involuntária e balançou a cabeça, como se não conseguisse acreditar. Definitivamente não esperava uma resposta tão direta, em especial pois sinceridade não era muito comum em sua convivência. — Você é divertida. — Retribuiu o gesto, aproveitando para beijá-la galanteadoramente nos dedos. — Ezio Romano. O prazer é todo meu.
— A gente podia conversar na minha suíte. Aqui é bem aglomerado.
— Isso depende. — Deu um gole em seu uísque que o garçom colocara na bancada, fazendo uma pausa de dois segundos. — Você joga pôquer, Pan?
— Nunca tive interesse em aprender nada relacionado à baralho. Por quê?
— Ontem eu tive a oportunidade de jogar contra o seu querido ex, e foi uma experiência bem interessante. O que acha de jogar comigo uma mão rápida enquanto meus seguranças revistam seu quarto? — Levantou-se lentamente, estendendo uma mão para ajudá-la a descer do assento e, com a outra, segurava seu drinque. — Pode escolher qualquer pessoa daqui para te ajudar. Se você ganhar, eu ouço o que tem a dizer.
— Não parece muito justo, considerando que não sei jogar e que provavelmente todas as pessoas nesse salão trabalham pra você.
— O papo de justiça fica pro outro lado. É pegar ou largar. — Seguiu com a mão estendida, aguardando-a se decidir. À contragosto, ela o fez após titubear. — Sabia que era uma mulher inteligente.
— Você não me deu muita escolha. — Acomodou-se ao lado dele na mesa de jogos, recebendo rapidamente as cartas do crupiê. — Eu posso escolher qualquer pessoa daqui pra me ajudar, né? — Quis se assegurar.
— Exatamente. Qualquer uma. — Concordou.
— Então vou escolher você.
— Eu sou seu oponente, não tem como... — cessou sua fala imediatamente ao vê-la jogando as cartas viradas para cima na mesa, encarando-o convicta. Ezio sorriu involuntariamente. — Tem certeza? Vendo suas cartas eu posso te enganar e dizer que ganhei independente do que virar.
— Não adianta esconder o que eu tenho se não tenho ideia do significado delas. — Deu de ombros, sem quebrar o contato visual. Estreitou um pouco os olhos e acrescentou em um murmuro: — Agora se eu vou ganhar ou perder, só depende de você, Ezio.
— Vamos jogar do seu jeito então, bella mia. — Fez o mesmo e expôs sua mão, sinalizando que o restante das cartas fosse virado também.
Pan continha um par de reis; o de copas e o de espadas. Ezio possuía um às de paus e um dez de mesmo naipe.
Na mesa: nove de copas, dez de espadas, quatro de ouros, cinco de paus, sete de ouros.
Ela claramente havia vencido apenas com o par em suas mãos, e ainda assim, não fazia ideia disso. Ezio curvou a boca e esboçou uma risadinha.
— Sorte de principiante. — Comentou despreocupado e a encarou com um brilho no olhar, minimamente perigoso e altamente interessado. — Não gosto de ter minha integridade testada, mas vou escutar o que tem a dizer. — Concluiu neutro, e ainda assim a causara arrepios nada agradáveis. Havia percebido suas intenções, no fim das contas.
Ela retribuiu a cortesia do sorriso e o acompanhou quando o percebeu recebendo um aceno dos seguranças que haviam subido até seu quarto. Seus joelhos vacilaram um tanto ao ficarem sozinhos no elevador, e felizmente foi capaz de se segurar de pé ou acabaria entregando todo o nervosismo que sentia no momento.
Precisava mostrar que tinha apreço pelo sujeito, e não medo.
Engoliu a porcaria do trauma que Ethan lhe dera de presente antes de morrer junto do pavor de colocar tudo a perder e passou o cartão na porta da suíte, permitindo a entrada de ambos ali. Os seguranças, a pedido de Ezio, ficaram na porta.
— Uísque? — Ofereceu, servindo dois copos antes mesmo de aguardar pela resposta. — Meu pai sempre me disse que negócios só podem ser discutidos com um bom uísque na mesa.
— Ao menos nisso eu concordo com o Hans. — Assentiu, sentando-se na beirada da enorme cama. — Mas primeiro você precisa beber. Dos dois copos. Como você mesma disse mais cedo, não temos muita confiança um no outro. — Desafiou.
— Tentando embebedar uma mulher sozinha com você no quarto? Nada cavalheiro. — Sorriu carinhosa e acomodou-se ao lado dele, apesar da certa distância. Para provar que os drinques não estavam envenenados ou batizados, deu um gole em cada um, pedindo perdão a si mesma por ter quebrado a promessa de não ingerir álcool enquanto na companhia desse indivíduo. — Aqui. — Entregou-lhe um dos copos com marca de batom e ele fez questão de beber logo acima dela.
Era nojo a palavra para descrever os calafrios que ela sentira com a cena? Provavelmente.
— Sabe, Pan... — encurtou a distância que ela propositalmente criara como proteção, tocando suas coxas nas dela ao se abancar mais próximo — você pode ser filha do maior inimigo da minha família, mas é tão bonita que estou disposto a correr o risco. — Tocou-a no rosto, sutilmente acomodando uma das mechas escarlate atrás da orelha.
Pan cerrou involuntariamente os punhos, optando por se afastar novamente.
— Acho que você entendeu errado, Ezio, eu só vim pedir sua ajuda.
— E pensou que eu era um homem tão bom que te ajudaria de bom grado sem receber nada em troca? — Repetiu a ação de se avizinhar, colocou o copo na mesinha ao lado da cama e agora optou por segurá-la no queixo, obrigando-a a fitá-lo diretamente. — Se sim, eu superestimei sua inteligência.
— Não, claro que não. — Balançou as mãos negativamente, evidenciando que tinha noção de que um favor só poderia ser trocado, e não simplesmente recebido. — Mas achei que dinheiro resolveria. Eu tenho bastante, sabe? E o corpo da sua namorada nem esfriou ainda. — Aqui uma pitada de insegurança se fez presente na voz, contudo foi capaz de disfarçar com a expressão amigável.
Ezio riu. Uma única risada, jogando para fora todo o deboche nada sutil. Claramente a fala dela lhe foi um entretenimento e tanto.
— A Pietra era um brinquedinho temporário, e eu te garanto que não existe nada que você possa me oferecer que eu já não seja capaz de comprar, querida. — Tocou seus cabelos, cheirando uma mecha sugestivamente. — Nada além de você mesma, é claro. A cara do Hans quando descobrir que eu profanei a filhinha dele... — sorriu ladino, ainda sem deixá-la ir — esse é o meu preço. — Sentenciou.
Um preço alto. Muito alto. Ela não estava nem um pouco disposta a pagar. Que diabos? Existia uma escapatória? Seu sangue ferveu quando as sugestão de Diego lhe viera à mente. Era isso que ele queria dizer quando citou a palavra "seduzir"? Tinha a esperança de que, no fundo, sua tarefa não passasse de um flerte bobo. Ezio era um belo ator; encantador em público e um cretino devasso e possessivo em segredo.
— Se a gente for mesmo fazer isso, então você precisa dispensar os seus seguranças. Eu não me sentiria bem com gente estranha me ouvindo. — Pediu, com um bolo enorme na garganta, totalmente estressada em seu interior. Era uma jogada arriscada, porém estava na hora de ver o quanto as informações de Diego estavam certas, e nesse caso, o homem à sua frente cairia em seus charmes a ponto de ficar desprotegido se isso significasse passarem a noite na mesma cama. — E enquanto isso, eu vou até o banheiro me arrumar. — Forçou um sorriso amarelo e encerrou com um beijo muito custoso na bochecha dele, dando mais veracidade à ceninha, torcendo para que o toalete tivesse uma janela grande o suficiente para possibilitar sua fuga.
Pro inferno que ainda não havia descoberto o horário do voo. Fazer sexo com alguém em troca de informações estava além dos limites aceitáveis. Sua culpa por querer se meter no meio de um negócio tão sujo, mas arrependimento não era um crime, era? Talvez se intrometera em um problema maior do que as suas capacidades de recém adulta lhe permitiam lidar. Não continha a frieza de seus pais, a racionalidade de Sarah ou os dons assassinos de Hector, portanto fugir se tornara a única e indispensável opção.
— É justo. — Ezio concordou quase que imediatamente, e ela pôde respirar aliviada. Aparentemente, era verdade o fato de ser o mais burro dos três irmãos e facilmente manipulado por rostinhos bonitos. — Eu adoraria que a cidade inteira ouvisse os gritos que vou te fazer soltar, mas também sei ser cavalheiro. — Levantou-se repetindo o gesto, só que com gosto, e aproximou os lábios da orelha dela para completar em um sussurro: — De qualquer forma, eu me acho perfeitamente capaz de lidar com uma mulher sozinho.
Pan franziu discretamente o cenho e o testemunhou se dirigir à porta no intuito de atender ao seu requisito, aproveitando para se enfurnar no banheiro e averiguar se existia uma forma de escapar dali. Bom, a janela era um mísero retângulo fino que não daria espaço nem mesmo para a passagem de seu gato, portanto era hora de um plano B. Só torcia para que as coisas não saíssem do controle.
Respirou fundo, retirou o vestido e o substituiu por um roupão de seda que pelo visto era cortesia para hóspedes das suítes mais caras do hotel, e saiu dali com o coração acelerado, deparando-se com um Ezio apenas de cueca acima da cama, aguardando seu retorno. E que sensação desgraçada a visão lhe causava; um turbilhão de coisas dominava sua mente, inclusive memórias desagradáveis do rosto de Ethan. É claro que seus traumas não podiam esperar mais algumas horas para assombrá-la. Imaginava tê-lo superado, contudo estava mais do que óbvio a sua extrema necessidade de terapia se quisesse ao menos voltar a interagir normalmente com pessoas do sexo oposto que não fizessem parte de sua listinha de extrema confiança.
— Sorte que eu passei em uma butique de lingerie ontem. — Comentou despretensiosa, voltando ao lado dele, embora trêmula. Ao menos poderia culpar o frio e a falta de vestimentas por isso.
— É só pano, e você não vai precisar dela. — Soou malicioso, desamarrando o roupão dela, deixando-o cair pelos ombros.
Toda a exposição diante de um sujeito tão desprezível a adoecia. Cogitava chorar, porém não o daria o gostinho da vitória. Ele absolutamente adoraria isso; vê-la tão vulnerável à sua mercê.
Começou a tatear o travesseiro atrás de si, buscando pelo revólver que Diego e Hector lhe prometeram que estaria do lado direito da cama. O desespero a dominou no instante que suas mãos não se encontraram com o metal gelado, descompassando ainda mais seus batimentos e arregalando seus olhos. A expressão apavorada não podia ser mais disfarçada.
— Procurando por alguma coisa? — Ezio indagou sorrateiro, seu semblante era o de alguém que se divertia com o que estava presenciando. — A arma que você tinha escondido para tentar me matar, por exemplo? — Aqui o tom se tornou sério, frio, e o olhar nebuloso. Ela paralisou.
— Não, eu juro que... — gaguejou nervosa, tropeçando nos próprios pés ao lutar para se afastar, caindo no carpete. — Eu nunca quis te matar, Ezio, por favor. Você precisa acreditar em mim. — Continuou angustiada, abraçando o próprio corpo para cessar parte das consequências causadas pelo pavor.
— Você não é a primeira vadia a tentar me derrubar com joguinhos baratos, Pan. — Acercou-se em passos lentos e quase mortais, ajoelhando-se na frente dela e segurando-a bruscamente no queixo, pressionando-a a encará-lo. As marcas de suas unhas decerto ficariam ali por dias. Ela grunhiu, os olhos encheram-se de lágrimas. — É isso que acontece quando eu sou muito gentil com prostitutas do seu nível. Elas começam a ter ideias estúpidas, e aí eu sou obrigado a esquecer todas as minhas aulas de etiqueta... — moveu a mão para baixo, envolvendo seu pescoço, apertando-o a ponto de fechar as passagens de ar — para ensinar uma lição. — Concluiu, permitindo-a respirar após alguns segundos.
Ela tossiu, várias e várias vezes, empenhando-se em recuperar o fôlego. Não conseguia se mexer, o corpo não respondia e as cordas vocais atrofiaram-se com a junção do medo e do ato violento. Havia se tornado um cadáver vivo, sem esperanças, aceitando seu destino e amaldiçoando a si mesma por ter insistido em se colocar nessa situação.
— Serviço de quarto! — Uma voz minimamente familiar ecoou na companhia de algumas batidas na porta, e por mais que Ezio tenha hesitado, ele estalou a língua e saiu instantaneamente para atender a visita que fosse.
— Que porra você quer, Giuseppe? Eu estou meio ocupado aqui. — Ralhou irritado.
Pan viu naquilo uma chance. Suas roupas e bolsa estavam no banheiro, e sendo assim, seu celular também estava. Nunca se imaginara agradecendo pela presença de Giuseppe, mas o choque de encontrá-lo ali a fizera recuperar um mínimo de adrenalina nos músculos, proporcionando a força necessária para rastejar rapidamente ao toalete, conquanto ainda estivesse com dificuldades para se mover corretamente.
Ouvira Ezio reclamando sobre seu novo brinquedinho ter escapado, mas o outro não se importou e seguiu falando. Por sorte, ela teria alguns segundos para pedir ajuda. Apressada, pegou o telefone e, com as mãos tão instáveis, seu dedo bateu no número 1, ativando a discagem rápida.
— Pronto, gatinha? — Diego atendeu animado, e ela desabou de vez no choro. — Aconteceu alguma coisa? O que foi? — A preocupação ficou evidente após a reação dela.
— Diego... — foi a única coisa que teve a capacidade de balbuciar, sua garganta não tinha força o suficiente.
— Pan, esse desgraçado fez alguma coisa? — Hector tomou o aparelho das mãos do colega, obviamente inquieto com a falta de palavras de sua amada. — Se precisar de ajuda, é só tossir duas vezes. Eu juro que entro aí e mato esse imbecil no momento que você...
— Vou te dar dez segundos para sair daí se não quiser que eu arrombe essa porta e te arraste daí pelos cabelos. — Ezio gritou do outro lado da entrada aonde estava encostada e a fizera derrubar o telefone com o susto. — Dez, nove... — iniciou uma contagem regressiva, e Giuseppe o ajudara a partir do oito. Bom, era esperado que ele se juntaria ao outro para uma vingança pelo fora da noite anterior.
Quando se esticou para alcançar o celular abaixo da pia, sua mão tocou algo que claramente não era o aparelho, e pelo tato, ela pode identificar um revólver. Começou a tremer o dobro, mas teve uma perspectiva de futuro ao segurá-lo na intenção de utilizá-lo para se defender, ameaçando os dois cretinos do lado de fora para escapar dali.
Destravou-o como instruída por Hector na noite anterior, conseguia ouvi-lo gritando seu nome do outro lado da linha, porém já estava muito longe. Recolheu seus pertences às pressas e no último dígito da maldita contagem regressiva, abriu a porta com o revólver já apontado na direção de ambos, percebendo que Ezio também possuía um em mãos, já preparado para atirar na maçaneta caso não houvesse lhe aberto passagem.
— Larga a arma, Ezio. Por favor. — Implorou agoniada, ciente de que estava na mira dele. Se isso seguisse, ninguém sairia vivo dali.
— Você não sabe atirar. Só o jeito que você segura essa arma já prova isso, sua cadela. — Desprendeu a trava como resposta, e Giuseppe deu um sorrisinho ladino, vitorioso. Ela estremeceu e corrigiu a postura, recordando-se das instruções de Hector. — Melhorou, mas ainda não me convenceu, e além disso, tenho certeza que seu pai adoraria receber seus pedacinhos em uma maleta, banhados com o meu esperma. — A boca se curvou no mesmo sorrisinho de seu comparsa, e logo depois, puxou o gatilho.
Nenhum barulho. Puxou novamente, e nada. Repetidamente, e logo o pavor tomou conta de sua cara. Os papéis se inverteram, e agora Pan tinha o controle. O pente estava descarregado, que ironia. Desesperado, ele avançou na direção dela para roubar sua arma, e como um reflexo, ela disparou em sua perna, fazendo-o cair à sua frente. Havia mirado na barriga, mas o efeito foi o mesmo. Vários insultos foram berrados, como já esperado.
— Se vocês se mexerem, eu vou atirar mais pra cima. — Ameaçou, recuando alguns passos para que ele não agarrasse seus pés, mudando a mira para a cabeça de Giuseppe. — Tira o Ezio do caminho, quero vocês dois no canto do quarto. — Ordenou. Por não levá-la a sério, claramente ignorou e continuou com o sorrisinho. Ela disparou para o teto e a realidade o atingiu, obrigando-o a obedecê-la apesar do desgosto em precisar abaixar o topete para a frágil filhinha de seu maior inimigo.
— Eu devia ter te estuprado igual fiz com sua mãe. — Giuseppe rosnou insatisfeito, fazendo-a cessar os passos até a porta.
— O quê? — Murmurou, virando-se em direção à ele, incrédula.
— Ela não te contou? — Deu uma leve risadinha cheia de escárnio, achando graça tanto dos grunhidos de dor de Ezio quanto do semblante dela. — Alguns anos atrás, sua amada mãe não teve a mesma sorte que você está tendo agora. — Estreitou os olhos, fitando-a ameaçadoramente. — E é bom você sair do país e se esconder no inferno, porque se eu te encontrar, essa sua sorte não vai durar muito.
Pan sentiu o sangue borbulhar, e involuntariamente, se pegou aproximando-se deles o suficiente para que fosse incapaz de errar. Ódio, medo, angústia, nojo, uma mistura interminável de emoções a fizera se desequilibrar por um instante, um único instante, e nesse limbo incolor aonde perdera todos os sentidos, não foi capaz nem de escutar o som dos inúmeros tiros que disparara na direção deles, descarregando o pente inteiro de forma nada sutil.
As manchas no carpete se tornavam gradativamente maiores à medida que os corpos se espatifavam no chão, cheios de buracos. Não houveram aberturas para que as ameaças seguissem, e muito menos para ouvi-lo se gabando sobre o fato de ter abusado sua mãe no passado. Sua respiração pesou, e logo os músculos perderam a força outra vez, o revólver foi de encontro ao chão junto com seu telefone e as roupas.
Vomitar foi inevitável, continuamente, até que não sobrasse mais líquido em seu estômago para ser expelido. Estava um caco, perdida, aturdida, respirar se tornara uma dificuldade e tanto. Alguns passos ecoaram bem longe, a voz de Hector parecia martelar sua cabeça e com a visão embaçada, conseguiu enxergar uma silhueta antes de transformar-se em escuridão total e acabar inconsciente, estirada ao chão, implorando mentalmente para acordar desse pesadelo interminável.
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