Ströme der Seele
39 Nada
Notas iniciais
10/04 – Trem em direção a capital de Faleq
Kurapika acordou num solavanco. Devido a pouca claridade, precisou de alguns segundos para adaptar a visão. A primeira coisa que reparou foi na ausência da garota que deveria estar sentada a sua frente. Já era de madrugada e a temperatura caíra consideravelmente. Mas o que mais lhe incomodava era o silencio. Tirando o som do próprio trem em movimento, estava tudo muito quieto...quieto demais.
O garoto decidiu se levantar, algo parecia errado. A ausência de Maia também não representava bom sinal. Kurapika já tinha reparado que em todas as vezes que ela sumia de vista, algo ruim acontecia em seguida, como se tudo estivesse conectado a ela. Bom, quem sabe não estivesse mesmo?
Saiu de sua cabine e começou a caminhar por entre os corredores daquele trem de luxo. As vezes chegava a duvidar que aquilo poderia realmente ser chamado de trem, considerando o amplo espaço interno. As cabines eram como quartos de hotéis, capazes de acomodar uma família razoavelmente grande. Era mais largo do que aparentava quando se via de fora, e, diferente dos trens comuns, possuía dois andares. Um luxo para poucos. Apesar de toda pompa que o trem possuía, foi outro fato que chamou atenção do jovem garoto.
Onde estão todos os funcionários?
Estava intrigado. Não havia visto mais ninguém no trem até o momento. Devido ao horário não imaginou deparar-se com algum passageiro, porém deveria ter trombado com 1 ou 2 guardas responsáveis pelas rondas noturnas. Considerando essa fato decidiu se dirigir até a sala dos funcionários, certamente encontraria alguém lá que pudesse explicar toda essa estranha situação.
Não demorou a chegar ao local. Na porta havia um aviso grudado, “permitido a entrada somente de funcionários”, sendo este completamente ignorado. Girou a maçaneta devagar, anunciando sua intromissão.
— Com licença.
Vazio. Não havia ninguém no local. Com um suspiro de decepção decidiu dar meia volta e partir, porém não antes de notar algo curioso. Em cima da mesa dos funcionários havia algumas xícaras de chá, além de pacotes de bolachas intactos.
Algo aconteceu, e devido ao vapor ainda saindo das xícaras, não foi há muito tempo.
Saiu apressado em direção a cabine do maquinista. Reparou que as portas estavam todas abertas pelo caminho, inclusive a da cabine central. Nesse momento diminuiu o passo, toda cautela era pouca nesse momento. À medida que se aproximava, mais visão tinha da sala com a porta entreaberta. A princípio não notou nada de diferente, isso até começar a sentir aquele cheiro que tanto odiava. Sangue, muito sangue. Correu em direção a porta e abriu num único impulso. Havia sangue espalhado por toda parte. Boa parte do chão, das janelas e dos maquinários estavam tingidos de vermelho vivo. A esquerda encontrou uma pilha de cadáveres empilhados. Sem dúvida pertenciam aos funcionários do trem. Aproximou-se mais e viu as horríveis marcas de mutilação nos corpos. Foram torturados e descartados como lixo. Uma onda de raiva o atingiu. Iria achar o responsável por isso e o faria pagar.
Ele deve estar aqui em algum lugar. Mas onde?
Ele havia andado praticamente toda extensão da parte inferior do trem e não havia encontrado ninguém. Logo uma idéia lhe ocorreu.
Por favor, espero estar enganado!
Kurapika correu por entre os corredores até chegar em frente a porta da primeira cabine. Abriu-a sem cerimônia. Seu choque só não foi maior apenas por ter presenciado uma cena semelhante a poucos segundos atrás. A sua frente, um casal e duas crianças estavam desmembrados em suas camas. Correu para próxima cabine apenas para se deparar novamente com outra cena de horror. Dois jovens brutalmente assassinados. Ele encarava com descrença os olhos abertos e sem vida da linda jovem de cabelos loiros e brilhantes. Seus olhos agora ardiam de ódio.
Não vou perdoar quem fez isso. Nunca!
Marchou com passos firmes em direção a escada que dava acesso ao segundo andar. Não precisou abrir mais nenhuma cabine que encontrou pelo caminho, sabia que a única coisa que encontraria seriam cadáveres. O responsável por esse tipo de crime não se esconderia em nenhuma cabine. Ah não, ele não era esse tipo de pessoa.
Vasculhou todo andar superior sem encontrar qualquer vestígio de presença humana na área. Estava ficando impaciente. Enquanto pensava em algum plano ouviu um pequeno baque. A origem do som vinha de cima.
Claro, lá fora. O topo do trem.
Apressou-se para encontrar a escada que daria acesso a parte externa e mais alta do trem. Localizou a pequena escada de metal no final do último vagão. Assim que saiu seu corpo sentiu o impacto do vento frio e cortante. Até então não havia se dado conta da velocidade em que estavam viajando. Devido a alta tecnologia, mal podia sentir o trepidar no interior da máquina. Terminou rapidamente sua escalada e passou a procurar algum sinal. Não encontrou ninguém a vista. Começou a caminhar pelo teto do vagão, tomando cuidado para não se desequilibrar ou tropeçar em nada. Afinal, a queda seria fatal. Não demorou muito porém até avistar um vulto mais a frente.
Ai está você.
Acelerou um pouco a passada. Já não se importava tanto com os efeitos do vento, nem mesmo com a dificuldade em respirar nessas circunstancias, apenas queria alcançá-lo. Seu coração acelerava a cada passo. Cessou sua caminhada ao chegar perto o suficiente para obter detalhes sobre a pessoa. Seus olhos arregalaram e sua respiração pareceu parar.
Não...não pode ser.
A visão seria linda, se na fosse tais circunstancias. Banhada pela luz do luar, estava Maia. Ela segurava firmemente uma espada em sua mão direita, enquanto o punho esquerdo encontrava-se completamente fechado. Por estar virada de costas para ele, Kurapika não podia ver seu rosto.
— Maia – chamou ele
Ela virou o rosto em sua direção e olhou diretamente para ele. Seu corpo em seguida acompanhou o movimento, expondo suas roupas encharcadas de sangue, bem como sua espada. Kurapika recuou um passo.
Esse olhar...Esse olhar...
Kurapika fechou os punhos com força e tremeu. Ele conhecia muito bem esse olhar. O olhar gélido de um assassino impiedoso. E aquilo o enfurecia. Seus olhos brilhavam intensamente a essa altura. Diferente das outras vezes, não hesitou ao avançar em direção a ela, lançando sua dowsing chain em direção a garota.
Maia por sua vez demorou a perceber o movimento do garoto, conseguindo desviar apenas a poucos centímetros da corrente a acertar. Por puro reflexo, jogou-se para a lateral, rolando. Parou a poucos passos de cair do vagão. Não teve tempo de se levantar uma vez que seu pé estava preso pela corrente de Kurapika, arrastando-a violentamente para o lado oposto a que estava. Devido a intensidade do movimento, era certo que a garota seria arremessada para fora do trem assim que a corrente soltasse de seu pé. Antes que isso acontecesse, Maia usou sua espada, cravando-a na lataria do vagão, livrando-se de ser arremessada, porém deixando-a desconfortavelmente pendurada na lateral do trem.
Kurapika se aproximava calmamente, chegando a borda onde a garota se encontrava. Ele a olhou de cima. Maia estava apenas se segurando com uma das mãos, enquanto a outra pendia ao lado de seu corpo. Ele se agachou e colocou sua própria mão sobre o punho da espada, e, consequentemente, sobre a mão da garota. A fúria em seus olhos ainda não se dissipara, e mais que isso, se misturava com uma carranca de desprezo. Fechou a mão com força, evidenciando sua intenção.
— Uma vez eu perguntei a uma pessoa o que ela sentia no momento em que matava pessoas inocentes. Ele me respondeu que não sentia nada. – começou a falar enquanto aumentava ainda mais a pressão em sua mão – E você, Maia? O que você sente? – perguntou fuzilando-a com o olhar.
Ela o encarou e respondeu sem hesitar.
— Nada.
Kurapika cerrou os dentes e com fúria retirou a espada presa, deixando a garota despencar. Preferiu não olhar a cena, permanecendo com o rosto baixo enquanto se levantava. Na sua mão, a espada ensanguentada da garota.
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