Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
34 Uma Noite de Traições e Ofensas
Notas iniciais
UMA NOITE DE TRAIÇÕES E OFENSAS
Tinha ciência do efeito que causava a cauda de seu vestido deslizando atrás de si, conforme os pés rodopiavam com graça e os cabelos presos em redes amarelas de ouro e incrustradas de rubis se desfaziam das tranças, fiapos deslizando pelas costas nuas e suadas. Os pares trocavam-se com rapidez diante da música bem ritmada e animada. Dançara ao menos com a metade dos lordes presentes no salão, e quase todos eles não desgrudaram os olhos de seu pescoço, a única faixa de pele visível. Sua máscara era perfeita, o rosto de uma corça com chifres curvilíneos sobressaindo. No começo fora complicado girar por entre os braços de seus acompanhantes, pois muitas vezes temia que os chifres se enroscassem, mas logo notou que eles faziam todo o possível para não perturbá-la. E isso significava se contorcer para não atrapalhar os rodopios ligeiros.
Layse Baratheon era a resplandecente dama que enfeitiçava os homens, servos, criados, cavaleiros, senhores e lordes. Qualquer homem que mantinha a virilidade com orgulho se sentia perdido no salão onde somente uma reinava. Aquele poderia ser um reinado curto, mas sua soberana o aproveitava com toda a jovialidade possível. Seu último par cometeu o erro de pisar sobre um de seus pés e, estarrecido com o próprio erro, retirou-se assim que a música parou, deixando-a só, pronta para ser devorada pelas feras.
— Quando disse-me que usaria um vestido que valesse todos os sorrisos do mundo, não imaginei que seria um dourado tão brilhante. Os sorrisos do mundo não são tão bonitos. – Elric tomou sua mão estendida no ar.
— Aquele rapaz era horrível – ela respondeu, ainda pensando na vergonha que tivera de aguentar na última dança. Todo o seu resplandecer se exaltou com a falta de graça do homem, e a todos pareceu uma cômica história heroica, onde ela brandia a espada. – Estou cansada demais para mais uma quadrilha. – Layse soltou sua mão. – Lamento.
— Eu não lamento – o Arryn sabia sorrir.
— Sugere que não veio pedir por uma dança, então?
— Afirmo com todas as letras que vim pedir por seu tempo, seja ele na dança ou em uma das roseiras do jardim. Aonde vossa senhoria desejar. – e curvou-se, ainda ostentando o travesso sorriso. Layse gostou da ousadia.
— Aceito uma caminhada pelo jardim, mas não ouse pensar em roseiras. Deverias saber que os arbustos são lugar dos amantes secretos, e uma dama da minha estirpe não se entregaria no meio de terra e espinhos.
— De fato. – ele concordou com um meneio. – Mas não pensava em amantes. Eu iria sugerir observar as flores para constatar se são mais belas que a senhorita.
As bochechas de Layse se enrubeceram. De repente suas palavras lhe soaram muito baixas para uma lady, e imaginou se Elric a tomava agora por devassa de imoralidades. Seu espartilho se apertava tanto que mesmo respirar fundo fora-lhe um grande esforço. Queria desfazer os laços e poder aliviar o cansaço, mas mesmo para tirar toda a roupa levaria muito tempo. Somente de imaginar-se no térmito do baile, após ouvir os brindes a saúde de Rhomeo e sua miúda noiva, tendo de esperar pacientemente que as mãos estabanadas da criada desfizessem todos os nós... a dor em suas costelas a trouxe a realidade, enquanto percebia que Elric a levava por entre os convidados, até a saída para o jardim.
Aquele jardim já lhe parecia muito familiar, com todas as flores coloridas e os caminhos sempre cortados para que ninguém nunca se perdesse. A inexistência de muralhas permitia a visão da encosta da praia, ao longe, onde as ondas avançavam calmamente nesta hora da noite. E a Lua, ah, a Lua tão grande nos céus, de um laranja tão sutil, pintando o negrume com o azul real e afastando as nuvens de suas estrelas brancas. Perdeu os olhos no céu, enquanto descia as escadas.
— Nunca me senti bem em bailes grandes como este. – confessou o Arryn, retirando sua máscara de lobo. O maxilar era muito menor que o feito de argila, e os olhos, antes escuros, agora refletiam o luar. – Quer ajuda com a sua máscara?
— Prefiro mantê-la. Logo retornaremos ao salão. – Layse o censurou. – Mas também prefiro permanecer como corça.
— Pois bem, milady corça, então permanecerei como o senhor lobo.
— Um senhor lobo soa como algum vilão. Pobre de mim. – ela saltitou para frente, de maneira suave, mas os saltos de seu sapato se chocaram com as pedras do jardim e sentiu a pontada de dor subindo pelo calcanhar até os joelhos. Disfarçou o choque olhando para as flores.
Elric Arryn partira de seus preliminares para a ação dentro de um dia para o baile. Embora Lucien estivesse muito irritado com sua demora, Elric não podia agir sem antes ter certeza de que Syerra estaria segura em seu lugar. Layse Baratheon não o enganava, mesmo sua beleza inegável nunca o fizera enlouquecer a ponto de não notar a sua geniosidade e manipulação. Ela viera pela coroa, e não por sua amizade com Rhomeo. Conseguir as cartas que ela enviava quase diariamente a Ponta Tempestade e a Porto Real fora difícil, os criados eram honrados naquele castelo cheio de... vivacidade. Rhomeo propagava a boa-fé que em muitos reinos era visto como lenda. As moedas não compraram seus segredos, como imaginou que comprariam. Então ele teve de colocar um criado seu dentro das paredes do palácio.
Lady Layse Tyrell soava quase incriminatório. Uma traidora? Estaria adquirindo informações sobre os Valois e Jardim de Baixo? Pensou em contar a Lucien, o irmão provavelmente saberia o que fazer. Mas então pensou em como Layse era uma mulher e em como havia perdido os pais recentemente. Rhomeo e Otto eram seus amigos de infância, e se ela trocava cartas com o rei, por que não trocaria com o lorde? Estaria ela no meio da guerra, sem lados? Isso era do feitio das mulheres, que não entram em guerras. Expô-la aos planos demoníacos de Lucien seria expor sua cabeça a uma espada, e se a queria como esposa, então não podia abrir mão de sua segurança. Layse olhou-o por cima do ombro, curiosamente quieta.
— O que o lobo queria para trazer-me até aqui e então continuar em silêncio? – ela brincou com o caule de uma flor entre os dedos, antes de sentar-se atrás de uma das veredas, no banco de pedra que estava de frente ao mar. – Talvez nem mesmo ele o saiba.
— Está correta, não o sei. – ele se sentou ao seu lado, sem delicadezas de manter espaço entre seus corpos. O vestido dela roçava em suas mãos.
— Vamos logo com isto, Elric, eu conheço os homens e sei que não convidam moças solteiras para passeios em jardins escuros por prazer.
— Você é inteligente demais para imaginar isto. – ele concordou. – Já sabes então que desejo cortejá-la.
— E deveria saber que sou prometida. – ela estava com as sobrancelhas erguidas sarcasticamente, mas Elric não podia ver por causa da máscara. Mas como o rosto dele não se modificou, Layse se perguntou se não o havia pego de surpresa.
— Sim, sei. – ele concordou após uma pausa. – Isso me mantém fora da corrida?
A Baratheon não sabia o que dizer. Olhou para a praia, em busca do tempo necessário para saber. Nem em sonhos trocaria Otto por Elric. Não havia benefícios altos o suficiente. Lucien poderia ser uma opção, mas seu irmão mais novo cheirava a leite e terras pobres. Nenhuma riqueza suficiente para convencê-la a deixar Campina e seu Lorde para trás. A única opção realmente viável era Rhomeo, por ser rei e por ser mil vezes mais poderoso que Otto. Mas agora, evidentemente, ele não estava mais tão viável, e ela perdera a chance. Que seja. Esmagaria o reino e seu trono junto de Otto e tornaria-se rainha Tyrell. Tinha a plena convicção de que a guerra de Otto não livraria apenas o reinado do Rei Ayeres, mas também dos Valois e de sua soberania.
E junto com eles, os Arryn tolamente afundariam.
— Não haveria corrida se não houvesse chances. – ela sorriu, astuta.
O feitiço da corça era realmente poderoso, e Elric desviou os olhos dela para não cair na armadilha. Uma corça caçando um lobo, isso sim é engraçado. Pensou, enquanto respirava fundo. Sabia que estava fora da corrida, mas Layse era inteligente demais para dizê-lo. Ao contrário, ela lhe dava esperanças para mantê-lo em sua rede. Em sua teia. Como uma aranha.
Aquilo estava sendo difícil demais para Layse. Tentava manter a respiração lenta, mas a sensação de asfixia subia por seu peito comprimido. Talvez não fosse uma boa ideia usar seus vestidos mais antigos, teria crescido demais para eles? Não se lembrava da última vez em que o usara, mas não parecia tão mortal, certamente.
— Sua amizade com o rei é invejável. – abordou-a de uma forma diferente. – Muitos dariam toda a sua fortuna por ela.
— Rhomeo é muito acessível, sua gentileza o impede de formar inimizades.
— Estou falando da vossa amizade. – ele piscou, galante. – A curiosa Lady Baratheon que muitos desejam cortejar, mas poucos conseguem a proximidade necessária.
— Você se julga com boa sorte, milorde?
— Nem em sonhos. Já me contentei com a rejeição mais cedo. – ele riu sincero. – Agora estou cumprindo ordens de meu irmão para formar uma amizade com vossa senhoria. Mas suspeito que um baile não será o suficiente.
— Não mesmo. Levaram anos até que Rhomeo ou Ophelya pudessem ser chamados de amigos por mim, e digo isto desde a infância. Não sou volúvel como as demais damas, acredito que amizade se baseia em confiança e a minha é difícil de conquistar.
— Certamente. Sei que confia muito em Vossa Majestade.
Layse não teria se importado com aquela frase, mas o tom de voz de Elric era mais sarcástico do que o convencional, e ela vislumbrou um pingo de acidez em suas sentenças. Confiar em Rhomeo? Uma amizade, o que haveria de mal nisso? Disfarçou a confusão com um sorriso gentil, tratando de mudar o assunto para a praia. Ambos adoravam as ondas, sim, e conversaram alegremente sobre elas, até que os trompetes sobressaíssem a suas vozes de dentro do palácio. Era hora de voltar.
As pontadas de dor em sua cintura foram camufladas pelo grave som de tambores que atravessaram seu corpo, a mão de Elric Arryn em suas costas não parecia nem um pouco audaciosa, pois não a sentia, tanto que o torpor a tomou. Elric estava certo de que seria um caso perdido abordá-la romanticamente, então teria de apelar a diplomacia, se é que Lucien ainda desejava ter a Baratheon a seu lado.
Assim que entraram no salão, viram os noivos descendo as escadas. Rhomeo trajava um gibão azul celeste, com flores brancas e verdes estampando suas mangas, botões dourados e em seus cabelos louros uma coroa de pedras verdes. Seu manto tinha mil beija-flores dançantes, rodopiando conforme o tecido se agitava nos degraus. A mão sustentava os dedos de Syerra. Sua irmã, tão jovem e tão pequena, era a própria graça encarnada. Os longos cabelos castanhos caindo como cascata nos ombros nus, um vestido azul que contrastava em tom com o de seu prometido e o manto com a águia dos Arryn. Sobre sua cabeça uma tiara prateada, com pequenos pássaros beijando-lhe a fronte. Não houve um nobre em todo o salão que não prendesse a respiração para recebê-los, e somente quando a música cessou é que todos perceberam o silêncio que faziam.
— Somos gratos à presença de todos em nosso baile. – disse Rhomeo, com a voz de rei que ele forçava. Elric achava muito antipática. – Quero apresentar minha noiva e futura rainha, Syerra da Casa Arryn.
Os aplausos rufaram por todo o palácio, invadindo o aposento dos criados, os estábulos e a cidadela aos pés da muralha. Cada ser vivo de Jardim Suspenso reverenciava a sua nova rainha, cercada de bondade e beleza. Os nobres pediram aos deuses por uma vida longa à rainha e gritaram seu nome três vezes. Elric sorria, vendo a alegria no rosto de sua irmã, mesmo a distância.
Ao seu lado, Layse revirou os olhos.
Muito barulho, pouca nobreza. Os dedos de Elric escorregaram por sua pele nua, o vestido era mesmo aberto, e alcançaram a parte baixa de suas costas, o que lhe provocou um arrepio energético e a fez recuar, tropeçando sobre os próprios saltos e a bara da saia, antes de sair nos braços de um cavaleiro qualquer, que estava bêbado e gargalhou, tomando-a por uma rameira qualquer e agarrando seu corpete por trás. O grunhido felino que saiu de sua garganta foi audível por cima de todos os urros de felicidade do salão, mas somente Elric voltou-se para vê-la.
Os olhos do Arryn eram de uma raiva incontrolável e ele acertou o soco diretamente no queixo do cavaleiro, fazendo-o estatelar no chão sem grande espetáculo. Layse recompôs-se, sentindo a vergonha esquentar seu pescoço e face. O que havia acontecido? No momento em que mais precisava manter a discrição, ela havia provocado uma grande confusão. Elric dobrou-se sobre o bêbado, socando-lhe novamente.
— Espere, não faça isso – ela segurou-lhe o braço, sem muita gentileza. – Vai atrair olhares. Deixe-o ai.
Relutante, ele obedeceu, e se levantou.
— Preciso ir para meu quarto. Trocarei o vestido para um de jantar.
— Seu vestido está perfeito. – ele retrucou – A culpa é deste imoral sujo que entrou no palácio errado. Não se ofenda com a espécie dele. – sua voz era mais preocupada que enfurecida, e Layse perguntou-se porque Elric havia se importado em dar uma lição no cafajeste. Ele se preocupava com ela? Francamente, não.
— Minha criada está esperando para que me troque. – ela se curvou – Mil perdões pelo aborrecimento, senhor.
Ela não precisava de misericórdia. Não precisava da proteção de ninguém, teria se saído muito bem, em pouco tempo. Não queria aqueles olhos cheios de dó sobre si, ela não era mais uma menininha! Lembrou-se de como respirar era difícil com aquelas roupas apenas quando já ofegava.
— Layse, espere! – antes que conseguisse se desvencilhar da multidão, o rapaz segurou seu braço com força. – Você está linda, de verdade. Não sinta ciúme de Syerra.
Não sinta ciúme de Syerra. Não sinta ciúme de Syerra. Sua mão voou mais rápido do que a fúria que a atingiu no peito. Estapeou-o e virou-lhe as costas, deixando de vez o salão para ir embora, pois não suportaria mais baile algum. Era culpa dele tê-la assustado com aquele... aquele toque imoral. E agora a acusava de ter ciúme de... Syerra? Olhe para mim! Olhe para mim e me diga que eu devo ter ciúme de qualquer mulher em Westeros! Eu sou Layse Baratheon, a mulher mais bela que nasceu em um milênio e nada pode me superar enquanto estiver viva. Esta era a sua maldição, feita desde o berço em homenagem aos deuses. Quem poderia desafiar uma beleza dada pelos deuses? Quem? Um passarinho indefeso? Uma Arryn que mal sabe manter a coroa equilibrada? Não. Seu orgulho estava ferido e nada a convenceria a voltar a falar com aquela família por gerações.
— Milady – a criada a recepcionou sem perguntar. Sua roupa de dormir estava esticada sobre a cama. – Deseja que eu prepare o banho? Não imaginei que retornaria tão cedo.
— Prepare meu baú e mante uma carruagem para me levar ao porto. Partirei com o primeiro navio para o continente. – ordenou. Sua voz era tão impetuosa que a mulher obedeceu sem questionar nem mesmo em pensamento.
Layse sentou-se em frente a escrivaninha, retirando a pena e a tinta da gaveta. Escrevia uma carta para Betyne e atravessaria Dorne para chegar às Terras da Tempestade. Não queria qualquer contato com as terras Valois. Aquele lugar estava amaldiçoado em seu coração.
Assim que a mulher retornou, retirou-lhe o vestido e despindo-a, tocou as marcas arroxeadas em suas costelas. Layse não se importou em ver o hematoma pelo espelho. Não parecia tão doloroso agora. O primeiro navio a sair do porto partiria antes do amanhecer e ela se preparou para dormir o pouco de tempo que tinha. Escreveu bilhetes também a Rhomeo e Elric, pedindo perdão por deixá-los tão repentinamente e alegando que não queria ofendê-los. Cordialmente, dispensou a criada para que ela descansasse e pediu por um soldado em sua porta. Assim são os inimigos, certo?
— Você deveria fazer algo. – as lembranças lhe trouxeram devolta a infância. – Não é justo que Rhomeo sofra por sua causa.
— O que eu posso fazer? – Layse respondeu, embora mantivesse um pequeno sorriso contente em seu rosto. Otto desferiu um golpe com sua espada de madeira que tomou o príncipe de surpresa.
— Qual o seu problema? – Ophelya insistiu, ela detestava ver o irmão apanhar.
— O meu? – Layse riu. – Ora, são homens! O problema está neles, não em mim.
A confiança em uma amizade é a base para tudo, certo? Assim como a confiança que tinha em Rhomeo e Otto? Esta era a pergunta misteriosa de Elric, que sabia com certeza das suas propostas. Uma guerra irá começar e você se mantém imóvel, mas para qual lado correrá assim que ela explodir? O pobre Arryn, no entanto, não sabia que a guerra viria sobre suas asas e ela a desenrolaria como um novelo, bordando como as damas bordam as suas tramas. Podia confiar na fidelidade de Otto. Mas ele não era um amigo, certamente. Já Rhomeo era seu amigo, e a traição gotejava de seu nome.
Nada lhe importou depois da coroa.
Que fique com ela, enquanto conseguir.

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