Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]

35 A Entrada Triunfal de uma Leoa sem Dentes


Notas iniciais
Preciso, antes de tudo, fazer uma breve nota sobre a família Lannister: Foram muitas fichas acumuladas para esta casa, eu não percebi até que tivesse oito personagens feitos, sete deles com fichas. Acreditem, todos encaixaram. Foram dois pares de gêmeros (casais) que - pasmem - não são incestuosos, sem contar dois irmãos morenos e uma menina solitária. Aqui está a classificação, para vocês se situarem: — Lorren Lannister & Ellyn Lannister (18 - mudei a idade da ficha, que era 17): irmãos gêmeos e mais velhos. — Rolland Lannister & Roselynn Lannister (16): irmãos gêmeos. — Catherine Lannister (15): irmã solitária e meio excluída. Muitas vezes não é contada como parte da família (Ellyn não a considera, longa história). — Lorenna Lannister (12): coadjuvante e tals. — Dorian L. (27): primo distante, viaja pelo mar. Esteve com a tutela de Catherine por um tempo, em Braavos. — Kilian Lannister (20): primo quase irmão, está sempre perto de Ellyn e Lorren, pois tem idades mais próximas. — Senhor Tyron Lannister & Finada Senhora Lizbel Lannister: senhores de Lannisporto e pais dessa cambada. — Tio Sem Nome: pai dos primos, mas que morreu, não tem importância, era um bom homem, mas já se foi, a vida continua. —----------------- Sendo assim, boa leitura.

A Entrada Triunfal da Leoa Que Não Tinha Dentes

— O que há, Lorren? Está quieto demais. Sente medo da espada? – Tello brandiu sua arma com um sorriso arrogante. – Ou será que é dessa espada? – e bateu os dedos na virilha.

— Perdedores falam demais. – o Lannister girou o corpo em um semicírculo, permitindo um ataque de oportunidade por parte do companheiro, que se precipitou direto em seu ombro esquerdo. Sem hesitar, Lorren jogou-se para trás, atingindo o braço esticado de Tello com força suficiente para derrubá-lo contra o chão. Ambos rolaram na terra batida. – Sempre falam. – cuspiu ao lado do rosto do derrotado, abrindo um sorriso.

O sorriso de Lorren Lannister alcançou as moças no poço e elas suspiraram, esquecendo os baldes pesados que tinham em mãos. Ao se levantar, notou que uma de suas fivelas havia se soltado, e amarrou-a no peito amplo. A armadura já estava pequena para ele. Senhor Nightingale parou ao lado do ringue e estalou os dedos, desembanhando sua espada de aço valiriano e cabo de prata. Saltou o ringue sem dificuldades. Só precisava respirar fundo e estaria pronto para uma nova justa, era assim que pensava Lorren. Afinal, ele é apenas o filho de meu lorde.

— Não acha injusto lutar contra essas páreas? – questionou o rouxinol, em posição de disputa. – Em um golpe você os derruba. Isto não é duelo.

— Não tenho culpa de ser bom demais para os concorrentes. – argumento o leãozinho, com sua juba loura. Era divertido brincar com aquele usurpador como se ele fosse mesmo um desafio. Lorren se perguntava quanto tempo mais demoraria até que enfim o duelo deles se tornasse mortal. Derrotaria-o quanto fosse necessário. Um dia a espada erraria o próprio erro e ele a enterraria em seu coração.

Os dois rapazes se encontraram no centro do ringue, nenhum temia o avanço do outro e isso os deixava intrinsecamente conectados a violência que transpareciam. Do pátio externo, Tello temeu que o amigo se descontrolasse e acabasse por machucar o pequeno lordezinho, mas também tinha consciência do poder e habilidade de Lorren com a espada. Por sorte ele era o homem. Se Ellyn tivesse um pinto no lugar do irmão, isso sim seria preocupante.

— Você está recuando, Lannister! – gritou o Nightingale, provocando-o.

Lorren desvencilhou a espada e girou no ar, com o mesmo movimento que fez em Tello. O oponente já esperava por isso e apenas saltou para o lado, esquivando do semicírculo sem problemas. Gargalhando. Aquele Lannister brincava com os criados do estábulo como se fosse um deles. Seu sangue era apenas um vestígio do que a nobreza pode se tornar quando não possui nobreza. Cael Nightingale odiava os leões, sentia repulsa apenas em vê-los. Eram a mais baixa linha de nobres, sem riquezas ou castelos, tudo o que ostentavam eram brasões vermelhos de um antigo reinado e histórias. Sim, muitas histórias. Lorren Lanniter era um lembrete do que os nobres podem se tornar se tudo der errado. Tentou atingi-lo na fronte com o cabo da espada, e encostou-se a sua bochecha, no entanto apenas encostou, pois quase instintivamente Lorren recuou o corpo em perfeito equilíbrio. Seu braço esquerdo não era somente um braço de equilíbrio: juntou-o ao corpo e desferiu um soco nas costelas expostas do lordezinho.

Tello cobriu a boca para não rir.

— Isso é... – Cael Nightingale não terminou a sentença, pois foi sentenciado. Lorren também tinha pernas, muito fortes, e chutou os joelhos do oponente por trás, fazendo-o perder o ponto de apoio e, com um leve empurrão com a espada, o fez cair. Novamente em posição de disputa, ele olhava de cima para Cael. – Sujo.

— Não foi sujo.

— Um duelo é feito com espadas! – retrucou o pequeno senhor, levantando-se estabanadamente e limpando a terra de suas nobres vestes. — Mas eu não esperaria mais de você. Um duelo sem honra é o que me propõe.

Lorren sabia que não era isto o que incomodava seu adversário. Era o fato de ter perdido. Perdido para um Lannister que lutava com camponeses e cavaleiros, não com lordes. Sobre o nome de Lorren, não havia um sinal de desonra, e ele também sabia disto. Mas... olhando para Cael Nightingale, mesmo sendo mais forte, mais corajoso, mais inteligente ou mais honrado, o que ele podia fazer?

— Peça perdão por esta desfeita. – exigiu.

Tello, o escudeiro, mordeu os lábios. Enraivecia-se pelo amigo, pois também sabia que Lorren era muito melhor que aquele tal Cael e sua trupe de lordezinhos de araque. Lorren sim tinha orgulho na espada, ele sabia duelar! Poderia ganhar qualquer combate, com ou sem espadas. Ele era esperto, era honrado! Muito mais lorde do que Cael ou seu pai, o Lorde Nightingale. Aquelas terras pertenciam a ele e sua família, seu sangue. Aos Lannister! Todos sabiam disto! Tello engoliu sua raiva, vendo Lorren Lannister dobrar seus joelhos, apanhando a mão de Cael Nightingale e, beijando-a, proferir:

— Perdoe-me pela desfeita, milorde.

Satisfeito, Cael o perdoou e deixou o ringue com os amigos ao seu redor. Todos riam e elogiavam sua nobreza de caráter. Tello entrou no ringue e tomou o amigo pelo braço, ajudando-o a se levantar. Ambos encararam o filho do lorde, até que ele se fosse com a trupe. O silêncio era comum ao lado de Lorren, mas aquele silêncio era diferente dos outros. Tello segurou os ombros do Lannister, mais uma vez se impressionando com a largura que tinham.

— Um dia os deuses olharão para você, Lorren, e o Guerreiro o exaltará.

— Você é muito gentil, meu amigo – Lorren sorriu, erguendo a mão até seu ombro também. Uma mão grande e firme. Tello repudiou a timidez que aquele toque lhe causava, implorando aos deuses que seu rosto não se tingisse de rosa.

Ao pé da macieira, Ellyn tentava conter a respiração entrecortada. Não pôde mais se conter, atravessando o campo e o pátio com os pés duros e os punhos fechados. As cordas do ringue não eram baixas o suficiente para detê-la, mesmo com o vestido, e parou seu avanço furioso somente em frente ao irmão, suas narinas se dilatando e os olhos azuis flamejando.

— Você deveria machucá-lo mais. – reclamou, sua voz era fina, perfeita para uma dama, soava como soprano. Mas estava sempre carregada com a irritadiça petulância que lhe davam a fama de esquentada. – Um Lannister nunca dobra os joelhos!

— Tudo ao seu tempo, minha irmã – Lorren tentou apaziguar sua raiva, dando um sorriso gentil e tocando a ponta de seu nariz. – Ainda somos subordinados a ele.

— Não sou subordinada a ninguém. – ela retrucou, seu pequeno peito subindo e descendo no corpete apertado. Tello o viu, mas não sentiu atração alguma. Aquilo o incomodava mais do que deveria incomodar. – E você está perdendo o seu tempo neste ringue. O que mais há para se aprender em duelos? Você é melhor que todos, e eu vi os espadachins de Porto Real. Você acabaria com todos os guardas brancos de olhos fechados. – ela revirou seus belos olhos, o que sempre fazia Lorren achar graça. – Lorren, você precisa estar com papai, para a guerra. Somente você pode unir os Lannisters e trazer devolta a glória para nossa Casa.

— Não somente eu – ele tentou disfarçar o incômodo que sentia com toda a pressão que Ellyn causava. – Você também pode, é esperta e sabe mais.

— Meu nome ficaria sempre apagado dos livros da história – ela retrucou, como se fosse óbvio. E era. Mesmo sendo inteligência e articuladora o suficiente para convencer o pai a entrar na rebelião em favor do Príncipe Asalan, nada disso importaria, se o título de Lorde Lannister fosse dado a ele. – A não ser que me case com um rei.

— Eu deveria suspeitar de tanta humildade. – ele brincou com uma madeixa de seu cabelo louro, e ela o empurrou levemente, abrindo um sorriso pequeno e verdadeiro. Tello sentia-se desconexo ao lado de ambos. Era evidente que tinham uma ligação única e que ninguém nunca poderia se colocar entre ela.

Ellyn Lannister nunca se cansava da presença de seu irmão, ao contrário de todo o resto do mundo, que sempre a aborrecia e decepcionava. Desde a família até a Corte Real dos Targaryen, em todos os lugares que depositou sua boa fé, foi traída pela injustiça das pessoas. Ver a humilhação de Lorren era apenas uma das diversas amarguras que engolia diariamente. Um dia ainda conhecerão meu nome. Era o que dizia a si mesma sempre que algo a deixava irritada. Mas com o tempo, a frase mais parecia um mantra que uma esperança.

Lannisporto era uma cidade boa, tinha um comércio muito fluente, as pessoas viviam bem e os septos sempre estavam cheios no Dia do Pai, quando todos tinham folga de seus afazeres. Mesmo as prostitutas viviam felizes, disso tinha certeza, com a frequente ida de Lorren aos seus infames estabelecimentos. Isso a lembrou de sua irmã mais nova. Não pense em coisas ruins, Ellyn.

Os seus pensamentos foram interrompidos, oportunamente, por uma música suave, do alto da macieira que outrora estivera. Esquecera-se completamente de Kilian enquanto ia tirar satisfações de Lorren. Ambos olharam para o primo mais novo, que dedilhava o alaúde com talento. Sua música era capaz de acalmar os nervos do tio e da prima, magicamente, mas também poderia acelerar a adrenalina no sangue de Lorren, se assim desejasse. Era, de fato, um talento. Kilian tinha os cabelos escuros iguais os de sua mãe nortenha, e iguais aos de Dorian. Ambos se pareciam tanto que chegava a causar náuseas em Ellyn, só de lembrar-se do outro.

Não era segredo a ninguém que Dorian já tentara cortejá-la. Sem muita gentileza.

Mas Kilian era o completo oposto do irmão. Era gentil, atencioso e sua alma era por si só uma poesia. Ele conseguia envolver a todos com sua música, fazendo-os esquecer aquele mundo vil e a humilhação, apenas pelo deleite de alguns instantes. Ela se perguntava se ele já havia se apaixonado. Uma alma como aquela provavelmente conhecia o amor e por ele sofria. Ela vira muito disto em Porto Real, entre as damas de companhia da princesa. Todos amavam Asalan, todos desejavam estar perto do príncipe, porque ele era bom e um verdadeiro rei.

— Já está tarde demais para continuar no pátio. Vamos para dentro. – disse Lorren, e ela concordou.

O pátio externo do castelo de Lannisporto não era exatamente um pátio, mas um ringue feito por eles próprios. O castelo parecia uma casa grande demais que algum comerciante achou por bem fazer para si mesmo. O antigo castelo de Lannisporto fora destruído há centenas de anos pelos Valois e os Targaryen, ainda haviam blocos de pedra com os sinais das garras de dragões, e ela constantemente olhava as ruínas, em busca de algum sinal de monstros. Adoraria encontrar um dragão e colocar fogo em todo o mundo. Mas com Asalan ao seu lado, talvez não precisasse de um dragão de verdade. Convenceu seu pai a apoiar a causa do príncipe contra seu pai com fé de que fosse a única chance da família de resgatar a glória perdida. Sentia-se orgulhosa de ser ela a possuir a resposta para os infortúnios dos Lannister, e não apenas orgulhosa pelo pai ou o irmão, mas por si mesma. Asalan sempre a olhou diferente, com mais doçura, com encanto. Era certo que a amava, e ela retribuiria o sentimento, um dia. Sabia que ele poderia conquistar seu coração.

Mas ainda não. O único que pode lidar comigo é Lorren. Olhou para o gêmeo e sentiu aquela calmaria que sempre vinha após a tempestade. Era deste sentimento que mais gostava, mais do que se irritar com tudo, sentir que Lorren afastava todas as coisas ruins apenas por sua presença. Ela queria envolvê-lo num abraço fraternal e cantar cantigas de criança em seu peito, pois era isso que fazia quando criança. Ele era seu porto seguro, o único em que podia confiar no mundo. Afinal, eles eram parte um do outro.

Isso é que os faziam gêmeos.

— Veja, é Roselynn. – murmurou Tello, seus olhos se esbugalhando de espanto. – Ela está pintando a fortaleza!

E estava, de fato. Ellyn ergueu uma sobrancelha, intrigada com o que a irmã desenhava na parede, mas Lorren apenas achou divertido o impulso da menor em sempre pintar as coisas. Fosse muros ou pessoas, Roselynn adorava jogar tinta nas coisas. E, realmente, ela tinha habilidade. Seus dedos sujos de vermelho estavam decorando as sombras de um coração pulsante, não destes caricatos dos bordados das donzelas, mas real, com artérias e veias azuladas. Ele sangrava. Mas não era horrendo, nem parecia sofrer. Parecia um coração vivo, puro e simplesmente vivo.

Como era de se esperar, Rolland devorava uma pera da cesta que ambos haviam roubado da cozinha do castelo. Os irmãos mais velhos e o escudeiro se proximaram, cada um pegando uma fruta para degustar, enquanto os olhos apreciavam a arte de Roselynn.

— Ela tem a aprovação de papai? – questionou Ellyn, sempre muito correta.

— E precisa? Ele a deixaria pintar até mesmo as suas roupas debaixo. – Lorren retrucou no lugar de Rolland, que apenas concordou com uma risada grave.

Cantarolando a música que Kilian ainda tocava, a alguns metros dali, Roselynn deslizou pela última vez o dedo na pedra e deu alguns passos para trás para admirar seu trabalho. Não apenas seus irmãos e o escudeiro estavam ali para apreciar, mas ao longe, no poço e na praça comercial de Lannisporto muitos admiravam os talentos da família que um dia os havia governado e que tinha, por direito, o coração de todos os súditos. Em Lannisporto, ao menos, os Lannister ainda eram reverenciados. Principalmente pela plebe, onde eles caminhavam como iguais, sem necessidade de guardas ou cavalos que os afastassem. As mães apontavam com seus filhos para os resplandescentes leões e diziam no ouvido das crianças: vejam, eles são nossos verdadeiros senhores. Adore-os em seus corações.

Mas somente nos corações. Pois se os rouxinóis ouvirem e repetirem esta canção, e ela alcance os ouvidos dos beija-flores, então toda a Terra Ocidental irá chorar. Roselynn cambaleou, tomada pelo torpor do peso de seus pensamentos. Repentinamente andava a pensar muito nas consequências que uma rebelião traria ao seu povo, e se perguntava se era a maneira correta de recuperar o poder.

— Minha irmã – ela sentiu as mãos de Rolland sobre seus ombros. – Esta é sua obra prima.

Ergueu a cabeça para sorrir a ele.

— Será minha obra prima até que eu faça a próxima.

Rolland Lannister não tinha dúvidas. Ele a conhecia desde o ventre de sua mãe, não era mesmo? A mãe, mulher forte que tivera cinco filhos em menos de dez anos e que sucumbiu com uma simples praga do inverno. Era triste aquilo, sabendo o quão resistente ela havia sido. Mas todos se orgulhavam de Lizabel Lannister, mãe de Lorren, Ellyn, Rolland, Roselynn e a pequena Lorenna. Seu pai sempre contava das histórias de quando ela lhe contou que estava grávida pela segunda vez: ela sabia desde os primeiros dias que seriam dois, novamente. Ela podia sentir! E me disse que os nomearia Rolland e Roselynn, pois seu coração lhe contara que os filhos seriam novamente um casal.

Ele compreendia o sentimento de Lorren em sempre estar perto de Ellyn, afinal também tinha a sua gêmea, e Roselynn era como uma parte de si mesmo. Ela o colocava em diversas encrencas, mas conseguia livrá-lo com a lábia e o favoritismo que tinha com o pai. Quem a culpava de sua audácia? Ela era um espírito livre, cheio de lirismo. Se ele era uma melodia de tristeza, ela era a voz da alegria, e isso os mantinha em pleno compasso.

— Hoje haverá um banquete em homenagem a Lorde Heffron, de Porto Vermelho. Deveríamos voltar antes que a ama saia atrás de nós. – replicou Lorren, quebrando a bolha de harmonia que envolvia a família.

— Desejo que o filho de Lorde Heffron tenha crescido e se tornado um belo cavaleiro. – comentou Roselynn, com um sorriso cruel. – Lembram-se dele? Era tão estabanado e gordo!

— Não tinha jeito para a espada – concordou Rolland, batendo no braço do irmão mais velho. – Você deu uma surra nele.

— Eu pensei que fosse bem treinado, por ser filho de um lorde. – defendeu-se Lorren, rindo. – Mas você também o deixou tremendo com o arco.

— Acredita? Ele gritou quando atirei! – Rolland soltou uma gargalhada, relembrando o episódio. As irmãs o acompanharam, pois também haviam assistido.

Ellyn puxou Roselynn com o braço, entreabraçando a menor. Elas se entreolharam, com uma concordância íntima, diminuíram o passo, deixando que os irmãos e o escudeiro fossem a frente, enquanto os seguiam com mais privacidade.

— Se não a conhecesse, Rose, diria que está preocupada com as alianças de papai na rebelião.

— E estou – a menor suspirou, descansando sua cabeça sobre o ombro da irmã. – Para você não há perigo, é a segunda filha, bela e bem educada, poderá esperar mais para se casar. Mas sou descartável. O herdeiro de Lorde Heffron é uma ótima aliança para papai, mas não consigo gostar dele.

Ellyn conhecia os planos de seu pai e conhecia também o seu coração. Ele jamais abriria mão de sua filha preferida para um Lorde qualquer, que morasse longe demais de Lannisporto. No entanto Lorde Heffron era vizinho de Lorde Nightingale, e o Porto Vermelho mantinha uma estrada única que o ligava a Lannisporto. Constantemente sua esposa vinha visitá-los, pois gostava muito da mãe deles, Lady Lizbel, e quando ela faleceu, os tomou como seus próprios protegidos, o que era muito gentil de sua parte.

— Se os seus temores se tornarem reais, irmã, então conversarei com nosso pai. Mas creio que também consiga gostar um pouco do filho de Lorde Heffron. Eu o vi mais cedo, e está muito diferente de antes.

— Continua gordo?

— Só um pouquinho, nas bochechas. – Ellyn sorriu, brincalhona. – Assim como você. – e se inclinou para apertar as bochechas da pequena.

— Ah, não, socorro, Ellyn está me torturando! – Roselynn agitou os braços em direção aos irmãos, que se viraram e riram.

{....}

Lannister. Ela era uma Lannister. Filha de Lizbel Lannister e Tyron Lannister. O desastre de sua família. Sim, era ela.

— Catherine. – ele murmurou, deslizando com fascínio o dedo sobre sua bochecha. – Nunca encontrei uma dama com tanta elegância e graça antes.

Mentiroso. Conhecia mil damas mais elegantes e mais graciosas. Mais belas. Mais inteligentes. Meus deuses, ele sim era um sonho. E ela era um fracasso. Mas... por que seu coração insistia em descompassar no peito? Mordeu os lábios sem perceber, e ele sorriu mais. Ah, Catherine, você está mesmo se apaixonando por ele? Nem ao menos viu seu rosto, como pode? O misterioso senhor a rodopiou lentamente, mais lentamente do que a maioria dos casais no centro do salão, e ela se perguntou se isto seria para que ele pudesse vê-la de costas, seus cabelos soltos e louros, o vestido rosa sem graça. Ela se esforçara para não parecer... pobre. Mesmo a máscara havia implorado a Roselynn para que a fizesse com toda a sua habilidade em pintura, e a irmã fez algo primoroso. Que não se encaixava nela.

Não em mim. Em Roselynn, ou Ellyn. Mas não em mim.

— Você não me permitirá ver vosso rosto? – ele pediu, não pela primeira vez naquela noite.

Se visse, iria embora, com certeza. Por que estava naquele enlace? Ela o adorou por tratá-la com tanta devoção, com tanta atenção. Mas também sabia ser tudo mentira. Ela não era bonita como as irmãs, não tinha talentos, não tinha aquele... aquela coisa que banhava os irmãos: Lorren era forte e esperto. Rolland era gentil e um ótimo dançarino. Ellyn era uma perfeita diplomata e a mulher mais linda de Porto Real (se é que ela ainda estava em Porto Real, perder ao contato com a família há meses). Roselynn tinha a pintura e sua arte de arrumar problemas e escapar deles. Até Lorenna, com doze anos, tinha um lugar naquela família, criando seus cães e adestrando-os, montando cavalos e saindo para caçar com os homens. O que ela tinha de especial? Nada.

— Fale mais de Braavos, milady – pediu o homem com a máscara de lobo.

Ah, sim. Ela conhecia Braavos, conhecia os requintes das damas da nobreza de lá e toda a sorte de coisas. Astronomia, medicina, contabilidade, deuses. Ela conhecia mil vezes mais do que a maioria dos nobrez naquele salão. E o que isso importava? Não havia nada de especial nela de verdade, era tudo conhecimento armazenado, apenas isso. Nada nato.

— Fale vossa senhoria de sua casa. É um lugar adorável? – ela sorriu, tentando esquecer o peso da sua fama.

— Ah, é um lugar majestoso, mas não adorável. É distante dos mares, pois moro em um lugar chamado Portão, e é um portão para o continente. Eu deveria morar no castelo, mas meu irmão me despachou para o Portão. – ele brincou com as flores de papel de sua máscara.

Obrigada, Roselynn. Você é maravilhosa. Fez uma máscara de primavera, e agora todos pensam que sou uma dama a altura de usá-la.

— Seu irmão é um homem cruel?

— Sim, é sim. Ele é o Senhor, entende? Eu sou um possível usurpador. Ele me teme.

— Mas... – ela disse, no entanto calou-se em seguida. O homem ficou curioso.

— Diga, não a deixarei partir se não me disser.

— Mas vocês são irmãos. Por que um temeria o outro? Um irmão não usurpa o que é do outro, isso... não seria família.

O lobo achou aquilo divertido.

— De onde vem esta florzinha, para ter ideias tão inocentes e conhecer tantas coisas complicadas do mundo? De que torre a tiraram?

Ele me trata como uma princesa. Ele acha que sou uma dama. Catherine Lannister recuou antes que a dança terminasse. Seus olhos não conseguiam se fixar nele, porque era tão doce. Tão amável. E ela se sentia apaixonada. Terrivelmente apaixonada. Correu para longe daquele vil cavalheiro, debatendo-se nos convidados do salão, até encontrar a saída para o jardim. Lá havia alguns casais caminhando calmamente entre as roseiras, murmurando juras de amor e cantarolando canções de heróis e donzelas. Seus ouvidos e olhos rejeitaram aquele mundo e ela se desvencilhou também deles, correndo para além, para a praia.

Uma solidão confiável.

Seus pés afundavam na areia e abandonou os saltos. O vestido estaria arruinado, mas quem se importava? Ela não tinha muitas coisas bonitas para usar, e aquele não era muito bom, de qualquer forma. Jogou a máscara nas ondas, enquanto as adentrava, até ter os tornozelos submesos e os joelhos respingados. A frieza da maré lhe deu calma e ela respirou fundo a maresia. No céu, a Lua era grande, redonda e dourada. Era verdadeiramente bela.

— A máscara de Roselynn – seus olhos se abaixaram para as ondas. Havia apenas papel e flores desmanchadas boiando nas águas. – Oh, o que eu fiz? Era tão bonito...

— Espero que não planeje se jogar dramaticamente no mar.

A voz soou como uma trovoada, invadindo seu corpo e fazendo-a tremer. Não se virou. Indefesa, sem máscara, não permitiria que ele visse seu rosto. Estragaria tudo. Estragaria ainda mais tudo.

— Agora posso vê-la. – ele disse, gentilmente. Podia ouvir seus passos contra as ondas.

— Não – pediu, sua voz soava fraca e muito defensiva.

— Por quê? O que há de errado? – ele parecia ofendido, ou triste. – Tens alguma marca de nascença? Sardas? Cicatrizes? Eu não me importo. Apenas quero vê-la, sua inteligência já conquistou meu afeto.

Afeto. Não amor, mas afeto.

— Por favor – ele parou. Estava logo ali, sobre seu ombro. Podia senti-lo, quente, contra o vento frio do mar. – Você me lembra minha irmã.

— Sua irmã? – Catherine piscou, atônita.

— Em dois dias ela se casará com um rei e me deixará sozinho contra meu irmão cruel. Você diz que não tem casa, milady. Talvez possa levá-la para mim, para ser minha irmã.

Uma substituta. Era isso o que ele queria? Que ela fosse sua substituta. Mas que droga, Catherine, você o conheceu há uma hora, dançou uma vez com ele, conversou uma vez com ele e... por que sofre? Por que seu coração sofre tanto, menina boba?

— Você é o irmão da princesa Syerra.

— Para mim ela é apenas Syerra.

— Arryn – sussurrou consigo mesma, mas podia senti-lo concordar atrás de si.

Catherine Lannister era filha de Tyron Lannister, o senhor de Lannisporto que apoiava o Príncipe Negro e Otto Tyrell em sua guerra. E... ele é um Arryn. Qual deles? Não sabia qual dos dois era o mais novo, mas tinha dúvida de que fosse o mais belo. Uma máscara de lobo? Por que um lobo? Não poderia ser outro animal? Uma águia, para ser mais exato? Teria mantido distância da águia, se pudesse. Mas um lobo era inofensivo, não era um Arryn. Não deveria ser.

— Agora que conhece meu nascimento, pode me mostrar vosso rosto?

O que importava? Ele era um inimigo.

Virou-se para ele, e se surpreendeu com o que viu.

Abandonando sua máscara de lobo, o rapaz tinha o rosto mais formoso que já testemunhara e sorria. O próprio sol invejaria tanto calor. Catherine sentiu o próprio peito acelerar e então doer violentamente. Não uma dor física.

— Seus olhos são mesmo azuis como o céu – ele murmurou, ainda sorrindo. – Eu suspeitei, mas a máscara era traiçoeira. Seu nariz é mais fino do que imaginava e a bochecha é mais larga.

Em silêncio, ela desviou o olhar, envergonhada com a descrição de seu próprio rosto sem graça. Ele estaria decepcionado?

— Diga-me vosso nome.

Não. Não, não, não, não! Ele não pode saber que sou Lannister! Não pode rir de mim assim, tão cedo. Por favor, não.

— Milady pode me chamar de Elric, mas gostaria de poder chamá-la pelo nome, também. Seria cordial que me contasse, agora que lhe contei o meu.

— Catherine.

— É um nome muito elegante, assim como a senhorita. – ele sorriu, e, após um breve intervalo, colocou uma mecha de seu cabelo castanho claro para trás da orelha. – És filha de algum cavaleiro, por isto não tens Casa?

Eu sou Lannister.

Ellyn. Ela falava como Ellyn. Uma navalha cortando o ar.

Elric Arryn não escondeu seu espanto, principalmente quando seus pés vacilaram para trás, e ele desviou os olhos para a maré.

Sim, isso sim. Fique enojado. Ria de mim. Pode rir. Eu sei.

Eu mereço.

— É a primeira vez que vejo um Lannister. – ele murmurou, um pouco mais sério do que antes.

— É a primeira vez que converso com um Arryn. – ela retrucou, encontrando coragem em sua tristeza.

— Me perdoe se soei como um garotinho galante, no baile. Eu queria impressioná-la. – seus olhos se encontraram. Ele parecia arrependido.

— Perdoar você? Por ser um garotinho galante?

— Se faltei com o respeito com a senhoria.

Catherine não o compreendeu. Por que estava tão sério agora?

— Então agora não quer mais impressionar-me? – ela brincou, encontrando dentro de si o sarcasmo. Uma arma feroz.

— Pelo contrário – ele ergueu o rosto com seu sorriso, não caloroso. Nem bondoso. Era cruel. Era sádico. Exatamente como o dela. – Quero conquistá-la ainda mais.

— Catherine Lannister -

Notas finais
Vou atualizar o Tumblr, não se preocupem, mas procurie uma gif pra cada um (gifs que combinassem ♥): Ellyn - http://68.media.tumblr.com/c907fddbf8dc6e9276c2912a114bb9ab/tumblr_inline_nzbg1t2ea51tae3h3_250.gif Lorren - https://68.media.tumblr.com/bc5f24ac2397fe4fc6b3996bf4197790/tumblr_o2k7brDefk1uyuxixo1_250.gif Rolland - https://media.giphy.com/media/v6itFstkHMG9W/source.gif Roselynn - https://media.giphy.com/media/14p4Qn8ScJo8Za/giphy.gif Lorenna - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/c5/7e/4f/c57e4f4a2bc039cb4739c4d453458be6.jpg Dorian - http://s14.favim.com/orig/160612/captain-america-civil-war-gif-marvel-Favim.com-4404404.gif Kilian - http://data.whicdn.com/images/237646648/large.gif (sim, ele ta abraçando o Lorren, porque bromance). Beijos da Mellyne :3 PS: EU LI OS COMENTÁRIOS E ELES ME MOTIVARAM A ESCREVER ESTE CAPÍTULO HOJE A NOITE. ACREDITEM. AMO VOCÊS.