Notas iniciais
Eis, pois, o verdadeiro capítulo dos amantes cruéis. Boa leitura.

Amantes Cruéis

São Essas Mulheres

Ruelle — Secrets and Lies

Afastou as ratazanas com o pé, mas logo se arrependeu, sentindo as algemas puxando-a para cima pelos pulsos. Era alto demais para se sentar, mas conseguira manter os joelhos comodamente por muitas horas. Ou dias? Não saberia dizer. Ela não lembrava a última vez em que havia comido, ou quando os guardas trocavam seus turnos. Haviam retirado todas as suas armas, e para isso tiraram tudo que tinha, inclusive as roupas. Agora vestia panos puídos a que fora permitida se cobrir. Mas somente isto. Ninguém estava autorizado a vê-la e ela sabia que logo seria decapitada em praça pública. A assassina do rei, era como a chamariam. O povo jogaria ovos podres em sua cabeça, ofenderiam todos os seus parentes. Que patetas, mal sabiam que sua família era daquele mesmo castelo.

— Abra a porta. – ouviu alguém dizendo em frente às grades. Sua porta era completamente fechada de madeira, mas a frente também havia grades e dois soldados para garantir que não escaparia. E como escapar?

O homem que a vigiava naquele turno abriu a porta e deu-lhe uma olhada cheia de repúdio. Talvez a visse como uma puta, talvez como uma fatricida. O que importava? Já estava feito. Cerenna não se importava com o que os outros pensavam de si mesma, desde que estivesse satisfeita. E ela estava mais que satisfeita. Estava exultante.

— Diga o seu nome e quem a mandou aqui. – exigiu o segundo homem, que entrando na cela fechou a porta e se agachou a sua frente. Era doloroso estar presa enquanto ele a interrogava, mas já passara por aquela mesma coisa duas vezes, e ele não parecia propenso a desistir. – Será mais fácil se falar.

Ela mal sabia se ainda tinha voz.

— Não a mataremos até que fale. E as masmorras são ótimos quartos em comparação à câmara de tortura que temos. Tenho certeza que pode ouvir os gritos enquanto tenta dormir. – ele sorriu, frio. Ela ouvia mesmo o som dos torturados, eles gritavam alto. Alguns apenas berravam. Outros formavam palavras, revelando informações. Quem havia roubado parte dos impostos, quem era a ama que fugira com o filho mais novo de um cavaleiro qualquer. Admitiam violações, assassinatos ou sacrilégios. Ela ouvira muitos crimes e estava propensa a perdoar todos. – Não quer ir para lá, eu aposto.

— Cerenna Luxfero – Ela reuniu forças para dizer. – E eu vim sozinha.

— Eu sei quando ouço uma mentira. Diga a verdade, menina, e poderemos perdoar sua vida. Não a deixaremos impune, é verdade, mas podemos mandá-la a Muralha. – ele sugeriu – Para agradar aos patrulheiros.

Os corvos eram juramentados a permanecer castos por toda a vida. Uma mentira em que ninguém acreditava, era verdade. Cerenna virou o rosto com esforço, sentindo saliva escorrer por seu queixo. Estava babando? Isso deveria ser mesmo feio, o quão ruim estava? Ouviu o homem se levantar e em um instante ele segurou suas bochechas com apenas uma mão e virou seu rosto para encará-lo. Era desafiador. Não sabia quem ele era, se um carrasco, o capitão da guarda real ou alguém importante. Aquilo nunca importaria, ela iria morrer. Nenhuma das mentiras dele a convenceria.

— Diga a verdade, ou terei de levá-la para baixo.

— Cerenna Truefyre – ela sorriu, cuspindo bile e baba. – Assassina do rei com muito prazer.

Ele a estapeou, agarrando novamente seu rosto enquanto desafivelava o cinto de seu gibão. Ah, irá me estuprar? É assim que acha que irei contar alguma coisa? Ele é idiota? Cerenna já fora estuprada antes, e se havia uma coisa que aprendera nas ruas das cidades de Dorne é que se algum homem a sujou, limpe-se com sabão. Homens se lavam com sabão. Mas suspeitava que não teria sabão, então ela poderia se limpar com o sangue dele. Quando arriou as calças, ele lhe mostrou sua virilidade e obrigou-a a ceder o maxilar.

— Se você morder, eu a matarei.

Claro, porque se eu morder, você vai conseguir correr atrás da espada a tempo. Assim que o homem a obrigou a segurá-lo com a boca, ela enfiou os dentes em sua ponta, sem esperar. Não conseguiu arrancar pedaços, infelizmente, mas ele recuou, gritando e se curvando sobre as pernas. O guarda entrou rapidamente na cela com a espada desembanhada.

— Mate-o, ele tentou me violar. – ela disse, sorrindo. E em seguida vomitou.

— Leve... – no chão, o vil ainda lutava contra a dor que ela não conseguia compreender. Ora, doía tanto assim? Qual o problema? Soltou uma risada.

O guarda chutou seu queixo, deixando-a desnorteada por tempo o suficiente para voltar a vomitar sobre suas roupas.

— Leve ela para... o...

— Sim, milorde. – o soldado assentiu e ajudou seu ‘lorde’ a se erguer. Quando viu suas calças, ele enrubesceu, tentando decidir se o vestia ou o tirava da cela. Cerenna achou aquilo ainda mais engraçado. Ande logo com isso!, vire a bunda dele e aproveite a vossa alteza.

Por fim o homem com a espada vestiu o homem que não tinha espada (nenhuma, aliás, ela era muito pequena para ser chamada de espada, na opinião de Cerenna), e o arrastou com a ajuda do segundo guarda até as grades. Sua porta ficou fechada enquanto eles se livravam do senhor e, assim que os ruídos cessaram, ela ouviu a porta se abrir novamente para o guarda. Ele tinha a mesma expressão asquerosa de antes. Soltou suas algemas, e ela pensou que seria a melhor hora para voar em sua garganta e asfixia-lo. Com que força? Caiu como um saco de farinha, ele teve de carregá-la até uma mesa. No outro lado do corredor, após uma escada em que esfolou as pernas e outras grades baixas pelas quais quase não conseguiu passar em pé. Enfim, na mesa, mais rostos de homens apareceram, agora velhos e simplesmente inexpressivos. Nenhum deles parecia repudia-la, ou muito menos amá-la.

Eles retiraram sua túnica e amarraram seus braços e pernas a mesa.

Oh, era isso o que o lorde, senhor, capitão queria?

— Uma mulher nua é a melhor visão para me dar vontade de foder, mas você é a pior criatura que já vi. Tudo o que me dá vontade é de arrancar meus ovos fora e fazê-la engoli-los. – o guarda disse, puxando-lhe os cabelos com força. – Sinto vontade de ir a Muralha congelar vivo do que continuar a colocar meus olhos em você.

— Estou vendo – ela sorriu, mais baba escorria até seu pescoço e ouvido. – É por isso que continua aqui, bebê?

Ele cuspiu sobre seu peito e deixou-os. Seus torturadores, a mesa e ela. O que fariam primeiro? Talvez obriga-la a engolir óleo fervente, ou retirar seu útero com uma massa de espinhos. Ela conhecia algumas formas de tortura dornesas e a maioria delas envolvia empalamento ou retirar os órgãos através da boca.

A arte da tortura consiste em manter o seu alvo vivo.

O carrasco girou a manivela no final da mesa, a seus pés. Ela sentiu as amarras tencionando, e então lentamente suas costas estalaram com o esforço para acompanhar, enquanto esticava-se junto das tábuas. Aquele método era novo para ela, na verdade. O que fariam?

— Você deve dizer quem a mandou para matar o rei – informou o velho de manto negro e capuz.

Não a matariam, sabia disso. Pois precisavam de suas informações. E ela não as entregaria.

Primeiro sentiu as cordas dos pulsos queimarem a pele, e depois notou que estava prendendo a respiração, tentando não se arquear. Lentamente, centímetro a centímetro, eles aumentavam a tensão nas cordas e a mesa se esticava mais, levando seu corpo ao extremo. Cerenna Luxfero pensou ser forte. Mas não era, assim como nenhum ser humano é, e começou a chorar, esperneando. Os músculos queimavam com a força que fazia para se livrar daquelas amarras, ela chegou a gritar de desespero, ainda sem sentir dor. O descontrole de tudo aquilo a estava levando a loucura. O carrasco conhecia aquela reação. Era apenas o medo inicial do que estava por vir. Se o deslocamento dos membros não a fizesse abrir a boca, então tirariam seus seios com as barras de ferro ou abririam sua garganta com a esponja.

Os tendões começavam a reclamar nos pés e ela sentiu câimbras pelas nádegas e costelas. Seu corpo não estava acostumado com tanta flexibilidade ao mesmo tempo. As axilas enfim ardiam, como se realmente tentassem arrancar os braços a força. Seria possível? Antes que acontecesse, no entanto, seus ossos e clavícula já teriam se deslocado e ela não sentiria mais dor do que antes. Poderia morrer de hemorragia ou infecção, mas os carrascos tinham métodos cicatrizantes para aquilo. A tortura continuaria apenas até às quatro horas daquela tarde, no dia seguinte dariam continuidade.

— Diga seu nome e quem a mandou aqui, e nós pararemos por hoje. – ele parou de puxar a alavanca, olhando para ela sem sentir pena. Cerenna não conseguia ouvi-lo, estava perdida no próprio pânico. O vômito ficou alojado na garganta, pois estava deitada e era difícil expelir algo assim. Desta forma, a bile começou a queimar em seu peito e ela virou o rosto contra os braços para cuspir o suco gástrico. Aquele velho já havia visto coisas parecidas e permitiu que ela vomitasse tudo, antes de novamente repetir sua exigência. – Quem a mandou aqui, garota?

Cerenna não podia falar, simplesmente não conseguia. E ele continuou a rodar a manivela, em seguida parou a alavanca e então continuou apenas puxando os braços, pois eram mais dolorosos.

Eles se deslocaram em uma hora, faltando quinze minutos para a sessão encerrar. Ele viu quando os ombros se viraram por baixo das costas e os cotovelos giraram numa posição impossível, seguindo a rigidez das cordas. Ela gritou, seu corpo se erguendo como se conseguisse por milagre a liberdade, e então viu as clavículas contra a pele fina e seus pulsos cruzados sobre a mesa, com os ossos perfurando as axilas.

Cerenna não sentia seus nervos, nem os braços, nem os músculos. Sentia apenas o peso do cansaço. Ouviu internamente o estalo que o deslocamento provocou, e então a leveza de não estar mais amarrada. Levantou-se num espanto, mas logo sentiu algo ainda prendendo-a. Seus braços eram como continuidade das cordas. E assim que elas se afrouxaram, eles caíram ao seu lado, inertes.

— Fale.

Mas ninguém conseguiria dizer enquanto encarava a ponta dos dedos roçando as ratazanas no chão, sem sentir dor de suas mordidas.

{...}

Ainda muito jovem, ela nunca se destacou perto das irmãs mais velhas. Seus bordados não tinham precisão, sua voz não alcançava as notas agudas, nem conseguia se equilibrar por muito tempo, os pés sempre foram estabanados para a dança e ela com certeza não possuía um rosto bonito. Catherine Lannister cresceu a sombra de suas irmãs, vivenciando os elogios e os olhares orgulhosos que seus pais davam a todos os filhos, menos a ela. Sua mãe uma vez pousou a mão sobre sua cabeça e disse:

— Você tem sorte. Homem algum reclamará de se casar contigo. – mas não era um elogio completo. Ela falava sobre ser uma esposa comum, indiferente. Se ele não gostasse dela na cama, então iria a um prostíbulo. Se não gostasse do rosto de seus filhos, faria bastardos. E de todas as formas era simples evitar esposas. Elas não serviam para muito mais.

A família não possuía muito, e aos dez anos, Catherine experimentou o verdadeiro fracasso, quando em um banquete de Lorde Nightingale, no final do ano, ela cometeu o terrível erro de dizer coisas muito obscenas a mesa, rindo com os irmãos e brincando com os outros cavaleiros. Eles a incentivavam pois era divertido ver uma dama falar coisas sujas, mas ninguém a alertou de que todos no banquete podiam ouvir e que seu nome estava manchado para sempre nas Terras Ocidentais. Sua curiosidade sempre fora saciada pela sinceridade dos irmãos, e ela absorvia facilmente tudo o que lhe contavam. Era tão ruim conhecer a copulação ou todas as complicações do matrimônio? Para uma menina de dez anos, sim. Mas Catherine nunca conseguiu entender.

Suas irmãs cresciam, tornando-se donzelas surpreendentemente talentosas. Ellyn recebera o convite de participar das damas de companhia da princesa Targaryen e Roselynn enfeitiçava a todos com seu jeito meigo e traquinas. O nascimento de Lorenna apenas salientou as debilitações de Catherine, pois era um bebê radiante, belíssimo, de doces olhos bondosos.

A morte de sua mãe trouxe mais frieza ao coração de Lorde Lannister do que era possível calcular e ele não hesitou em tratá-la com grande rispidez, mantendo as rédeas firmes em sua criação. Ele detestava suas perguntas, a proibia de ler livros ou de sair sozinha, permitindo apenas que fosse ao septo acompanhada de septãs e amas. Nenhuma companhia duvidosa seria admitida ao seu lado e mesmo os irmãos começaram a evitá-la. Temiam corromper ainda mais a pobre Catherine. Nada podia mesmo detê-la, e Catherine encontrou um meio de saciar a sua curiosidade irrefreável: escapava furtivamente todas as noites até a cidade de Lannisporto, onde se enfiava em lojas e botiques cheias de livros que ela lia a luz de uma vela pequena. Nunca se preocupou em ser pega, pois não acreditava que alguém estaria acordado para encontrá-la.

O pai percebeu a melhora em seu ânimo e nas novas coisas que a menina andava dizendo, coisas que ele não a havia autorizado aprender. E assim, quando uma prima distante de sua esposa lhes mandou as condolênscias, a ideia passou pela mente do Senhor Lannister e ele a abraçou: sugeriu que uma de suas filhas fosse mandada a evoluída e rica nobreza de Braavos para aprender rigorosamente como se portar feito uma dama de sua estirpe. Catherine não ficou incomodada, ela não se sentia muito querida em Lannisporto e a despedida foi menos dramática do que quando deram adeus a Ellyn.

E Ellyn estava apenas indo para Porto Real. Ela atravessaria o mar e tudo o que lhe davam era um sorriso e um aceno.

Se queriam que ela fosse, então iria sorrindo e acenando devolta. Decidiu mudar a sua forma de ver o mundo, sempre por uma luz mais bela do que aquela que as pessoas jogavam em seus olhos. Ela própria poderia fazer a sua luz. Cumprimentou o capitão em todos os dias, não se enjoou com as ondas, cantou junto dos marinheiros, feliz por nenhum deles se importar se ela estava desafinando ou não, e também não se importou em passar dias sem banho. A comida era horrível, a maioria da tripulação não falava sua língua e com o passar dos dias o Sol se tornou frio demais. Não literalmente frio. Mas congelante.

Detestava viagens longas demais, pois a espera e a ansiedade cresciam como sementes em seu peito. Aproveitou-se daquela euforia para aprender o idioma que usaria para se comunicar com a tia em Braavos, contando que a mulher não sabia muito do idioma comum. Quantas línguas poderia colecionar na cidade do outro continente? A empolgação deu tempo para que sua curiosidade fosse saciada, e assim que aportou, abraçou sua tia com afeição e ela lhe retribuiu o gesto sem achar grosseiro ou deselegante. Em Braavos as pessoas não eram tão rígidas quanto em Westeros. Isso seria uma decepção a papai, com certeza.

Os seis meses que se seguiram, Catherine aprendeu muito sobre etiqueta, dança, música e principalmente: sobre a geografia de Braavos. Sua tia e as damas adoravam caminhar e navegar pela cidade, elas riam e conversavam sobre o clima, o mercado e homens. Muitas vezes sobre homens que nunca haviam conhecido. Apontavam moços bonitos, ricos ou nobres. Em todo este tempo, Catherine conheceu a maioria deles, mas não foi apresentada a nenhum. Eles nunca souberam de sua existência, na verdade, o que a tia não considerava ruim. Suas damas suspiravam de amor, e ela adorava cantores que profetizassem a felicidade do matrimônio com amor. Tudo em Braavos era dedicado ao envolvimento de dois seres que se amam, até mesmo a copulação é expressa como “fazer amor”. Catherine apaixonou-se pela cidade. Os cheiros, temperos, a língua. Bravosi era uma balada cheia de intensidade e suspiros, feita para amantes.

Mas seis meses é o seu tempo limite para apenas uma cidade. Ela logo se viu entediada com a rotina. As damas eram falantes demais, a tia era fútil demais e nada nunca acontecia no palácio em que moravam. Ouvia e falava de amor, mas não vivia o amor, e isso a deixava infeliz. Como saberia se as pessoas diziam a verdade sobre o amor se nunca o experimentara?

Foi então que ouviu falar das senhoras do amor.

Mulheres poderosas, capazes de acabar com Braavos se assim desejassem. Eram as mais belas, ricas, talentosas e inteligentes pessoas daquele lado do mar. A tia as chamava de cortesãs, Catherine as via como tesouros. Mas nenhuma delas era acessível, precisaria correr atrás de todas as fontes possíveis, com seu ainda escasso conhecimento em linguagem e costumes de Braavos, até conseguir audiência com uma delas. E foi assim, lutando por aquilo, que Catherine Lannister conheceu Flor de Prata. Ou Selene, como era seu verdadeiro nome.

E ali estava ela, novamente visitando na penumbra da noite o quarto de sua amiga e confidente. Selene a deixou entrar com um sorriso feliz. Ela tinha cabelos curtos e negros, diferente da maioria das damas que gostava de deixar as madeixas crescerem. Seus olhos eram avermelhados como brasas e ela tinha pintas serpenteando seus ombros, como constelações de estrelas. Selene a chamava de Pastel, pois dizia que as cores de seu cabelo, pele e olhos combinava muito com os tons pasteis. Já a sua companheira, a serva Deleesy, chamava-a de Manteiga. Catherine preferia não ser Catherine, e por isso gostava ainda mais de lá.

Os mapas do mundo estavam espalhados pelo chão, ainda, e Selene cobriu o corpo nu com um manto rico de bordado vermelho. As cortinas de sua cama estavam fechadas. Era um dossel comum, mas com um tecido muito escuro que a impedia de ver quem estava lá. Assim como as senhoras do amor, Selene mantinha seus casos de amor escondidos de Catherine, e a menina não se importava, pois achava que o amor era mesmo algo muito pessoal, que nem mesmo as mulheres braavosi iriam mostrar a qualquer amiga.

— Você quer ir para onde, hoje? – perguntou Selene, sentando-se sobre uma almofada e olhando para o mapa. Haviam marcas dos lugares que elas já haviam estudado juntas. Ambas gostavam de viajar, e embora não pudessem de fato sair dali, era possível descobrir toda a sorte de coisas das fontes certas. E Selene tinha muitas fontes.

— Gostaria que me falasse mais de cirurgias. Fale-me sobre as dos seios.

— Ah, esta é muito delicada e dolorosa. Eu mesma não me arrisco a procurar. – explicou a dama, virando a cabeça para o lado como um pássaro. Seu pescoço era longo e as clavículas apareciam bem na pele fina. Era a graça em pessoa, para Catherine.

— Então sobre os olhos, sobre catarata e a cegueira. Conte-me sobre a cura da cegueira.

— Esta é mesmo útil, poderia ajudar muitas pessoas idosas com ela. Mas somente mãos firmes podem realizar o procedimento – advertiu-a, sabendo que a protegida não possuía a firmeza necessária. Catherine compreendeu o recado e suspirou, infeliz. Tudo o que Selene não gostava era de vê-la infeliz. – Bom, poderia ensinar-lhe a harpa. É um ótimo instrumento para praticar o autocontrole. E é muito sensual.

— Sensual? Para os homens? – a Lannister ergueu as sobrancelhas, interessada. Mais coisas sobre o amor, sim, para seu grande arsenal de conhecimento. A tia sabia tocar harpa? Será que em Westeros havia muitas harpas? Não se lembrava de instrumentos, além daqueles utilizados nos septos para os cultos.

— Sim, querida – Flor de Prata assentiu e balançou os cachos grossos de seus cabelos. Ela pediu a Deleesy para que buscasse o estojo de sua harpa e então ao retirá-la, colocou o grande instrumento peculiarmente deformado entre as pernas, sentando-se em um banco almofadado e erguendo os braços em arco, ao redor das cordas grossas. Ela apertou um pouco cada uma no alto do cavalete e então, após uma pausa dramática, começou a tocar.

Catherine ouviu as primeiras notas e arrepiou-se com o som. Jamais seus ouvidos escutaram um choro tão angelical quanto aquele. Ela nunca mais viu uma harpa, mas guardaria para sempre a imagem gravada em sua mente. O modo gracioso, porém intenso com que Selene se curvava sobre o instrumento, suas expressões melancólicas e adoráveis ao tocar as cordas, e a música! Oh, a música. Como o canto dos anjos, como o lamento de uma viúva, como... a canção da morte, sim. Doce, encantada, sensual. Cheio de amor.

Mas nada bom na vida de Catherine Lannister durava para sempre. As cortinas do quarto foram derrubadas e soldados preencheram todas as entradas, com suas espadas curvas desembanhadas e o rosto contorcido em raiva. Sua tia entrou no quarto como se pisasse em larvas e agarrou-lhe os cabelos com fúria, levando-a dali, para sempre. Nunca voltou a ver o rosto de Selene ou Deleesy. Nunca tornou a escutar a harpa. Nunca mais pisou em Braavos. O navio a trouxe para Westeros, para sua família, onde já tinham conhecimento de seus atos irresponsáveis e sujos. Tinham-na por impura, e nenhum de seus protestos foi suficiente para convencê-los de que ainda era uma donzela, virgem e pronta para se casar.

Lorde Lannister desejava que ela desaparecesse do mundo, para que não manchasse ainda mais o nome de sua família. E Ellyn deixou claro o desgosto que tinha por tê-la como irmã, pois era uma vergonha, era suja e inconsebível viver no mesmo lugar. Isso levou Catherine a andar de castelo a castelo, de casa em casa, com seu dote pendurado ao pescoço, feito um escravo sendo vendido. Ela se comportou, sim senhor, tomou cuidado para que não fosse necessário punições. Não mais punições. Ela apanhou de seu pai por quase uma semana até que ele se acalmasse, e pelo resto da vida teria de conviver sem o seu perdão.

Perdão para um erro que ela não cometera.

Poderia rogar aos céus, jurar pelos deuses, apelar para a Donzela que a tirasse daquela situação, que ela pudesse provar, de alguma forma, que ainda era uma donzela. Mas somente seu esposo saberia aquilo, pois havia apenas um jeito de saber se ainda era virgem ou não: quando não mais o fosse. Seu esposo poderia dizer a seu pai “casei-me com uma moça bem educada e pura”. Ela sangraria nos lençóis de núpcias e iria doer, como sempre doía na primeira vez. Sabia de todas estas coisas, pois sua tia e as damas contaram a ela sobre a vida no matrimônio. Em Braavos as mulheres eram preparadas para isso, para lidar com o que vinha pela frente, com o destino. Em Westeros era inconsebível que uma mulher soubesse o que a esperava. E isso sim parecia cruel.

Jardim Suspenso era um paraíso. A corrida pelo casamento foi uma obrigação e ela representaria sua família na Corte Valois, sob a pena de ser feita refém quando o pai se rebelasse contra o Rei. O que isso importava? A areia era muito branca, as conchas eram fáceis de se achar pois tinham cores vibrantes, e o cheiro do mar preenchia suas narinas sempre que inspirava. Catherine sempre adorou a praia e durante os quatro dias que passou ali, sempre saiu para visitar os arredores da ilha. Ia sozinha, pois não conhecia ninguém no palácio, mas adorou o ambiente amigável, gentil, confortável. Rei Rhomeo parecia uma boa pessoa, assim como todos os seus lordes. Era difícil associá-lo a alguém como Cael Nightingale ou seu pai, o lorde que destruiu muito do que os Lannisters já haviam conseguido reerguer por gerações.

Então, quando tudo isso se tornou um inferno no baile, ela se assustou.

Elric Arryn não compreendeu o que acontecia quando seu par de dança saiu correndo, entrou no mar e afundou, ao som do trovão. Os céus se iluminaram repentinamente e o estrondo desceu até eles, invadindo-os. Catherine encolheu-se tanto com o susto que afundou nas ondas rasas e seu vestido se enxarcou completamente. As ondas vinham e iam, e ela sentia a areia nas mãos. Outro trovão, e mais outro. Muitos. Ecoavam em seus ouvidos, os clarões, os estrondos, tanto barulho! Tentou segurar-se, mas já tremia e gritava contra aquele som ensurdecedor e a luz cegante. Nada no mundo lhe dava mais pavor que tempestades.

E as tempestades do mar eram as piores.

— Catherine? – ele se ajoelhou para ergue-la sobre seu ombro. A pequena menina parecia ainda mais indefesa quando a ergueu. Ela tremia inteira, como se morresse de frio, e embora estivesse mesmo frio, ele não estava tão seguro de dizer que era isto a causa. Já vira reações parecidas com Syerra. A irmã tinha medo de muitas coisas, e ele sempre a protegera, do modo como um irmão mais velho deve fazer, na ausência de Lucien. Por que estava pensando em Lucien?

Chegaram a areia, ela se grudava a pele molhada facilmente, e para entrar no palácio fora ainda mais complicado. Não podiam atravessar o salão do baile naquelas condições, então ele experimentou um lugar que não ousaria ir, se não fosse realmente necessário. Os criados se assustaram quando a porta de sua sala de lazer se abriu, e ainda mais quando viram o irmão de sua rainha e uma jovem molhada com água do mar. Foi necessário que Elric atravessasse metade da sala, até que uma das copeiras deixasse as jarras de vinho e fosse ampará-lo.

— O que houve, milorde? Ela escorregou?

— Sim. – Elric concordou. Ao fundo, mais um trovão abalou, mas não soava tão assustador quanto lá fora. Os homens falaram das chuvas de primavera. – Precisará de um banho quente e roupas confortáveis. Leve-a ao quarto.

— Sim, milorde – a copeira concordou, chamando outra moça que provavelmente seria a camareira. Elas subiram com Catherine Lannister escorregando em seus braços, ainda aturdida e trêmula. Ele se voltou para o resto dos criados.

— Ninguém deve saber disto, ouviram?

— Sim, milorde. – alguém lhe respondeu prontamente.

Mas com certeza haveria sussurros. Elric Arryn entrando na dispensa dos criados com uma jovem enxarcada nos braços. Eles investigariam quem era a jovem, e talvez contassem a seu irmão, ou o rei. Se Lucien descobrisse aquilo... tentaria descobrir também o que ele fazia no baile para não cortejar Layse Baratheon, ou porque a menina Lannister estava molhada, como se ele houvesse tentado afogá-la no mar. Ergueu seus olhos aos criados e notou que eles ainda o encaravam. Será que pensavam que ele a havia afogado? Não. Eles não seriam tão maldosos...

Ele decidiu que iria a seu quarto e trocaria as roupas molhadas por novas. Menos elegantes, mas da mesma forma boas. Subiu as escadas dos criados e contou os andares. Com sorte sairia no corredor dos quartos. Ele tinha uma ótima memória e conseguiu facilmente percorrer o emaranhado de passarelas interiores, observando sua construção para ter certeza de onde virar. Entrou no quarto sem dificuldades, retirando prontamente as botas. Seu pajem provavelmente viria despi-lo e assim o mandaria recolher calças e sapatos secos.

— Milorde, ainda não acabamos. – ele escutou, e virou-se para encarar com espanto ambas as criadas de outrora agora com uma bacia, limpando as costas de Catherine sem qualquer pudor. Elas deslizaram as mangas por seus braços e esfregaram seus seios, diante de seus olhos. Como se fossem... como se Catherine... ele não tinha palavras, não sabia o que pensar, simplesmente não conseguia. A timidez trancou sua garganta e ele preciosu correr até a extremidade do quarto, escondendo-se nas cortinas como uma criança levada.

— O que – engoliu em seco para prosseguir – O que estão fazendo aqui?

— O senhor mandou-nos trazê-la ao vosso quarto, milorde. Iremos prepará-la em alguns minutos.

— Prepará-la? Para o quê? – ele segurou as orelhas, vermelhas e quentes. Sabia que sempre ficava assim quando estava com vergonha e não queria que elas notassem o tamanho de sua timidez. – Vocês são loucas?! Loucas!

— M-m-m-milorde! – a mulher se queixou. – Não contaremos a ninguém, milorde, juramos por nossa família que isto será um segredo. Somos verdadeiras, nossos olhos nunca viram nada, milorde.

— Do que diz, louca? Eu desconheço as suas intenções vulgares! Por que ainda estão aqui? Saiam daqui, logo! Saiam!

Elas obedeceram, parando a porta apenas para dizer:

— Quando terminar, basta chamar-nos que a levaremos de volta ao bordel, milorde.

De volta ao bordel. Elric Arryn podia estar passando o pior momento de sua juventude, mas ele não era estúpido. Compreendeu o que havia de errado em tudo aquilo e não poupou insulto para ambas as mulheres.

— O que dizem, loucas?! – gritou, voando até elas e agarrando seus cabelos. – Chamam a donzela Lannister de rameira? Ela não é da laia de vocês, suas putas imprestáveis!

Nunca palavras tão cruéis saíram dos lábios de Elric Arryn, e ele se assustou com a própria ira.

— Tratam-na como uma prostituta? Vocês são as prostitutas! Eu mandei que a levasse até o seu quarto, pois ela é uma convidada de Vossa Majestade o Rei e filha de Lorde Lannister de Lannisporto. A ela é devido o devido respeito, suas vagabundas! Implorem o perdão de Catherine Lannister, beijem seus pés e chorem por sua vida, pois hoje mesmo estarão penduradas em uma forca!

— Por favor, não, milorde, houve um engano, senhor! – uma delas exclamou, ajoelhando-se diante dos pés de Elric e abraçando-o como se fosse um dos sete deuses. – Pensamos que estivesse bêbada, não a reconhecemos, eu juro! Juro por nossas vidas!

— Conheces muito sobre juras e no entanto falham no que é mais devido: pudor. É esperado que, dentre todos os seres vivos, as mulheres compreendam esta palavra. Mas vocês mostraram-se piores que os vermes. Levem Lady Catherine para o seu quarto de respeito e não a toquem. Chamem por uma septã que a lave como a senhorita que é, que lhe banhe com óleos, perfumes e flores. Como é devido a uma senhora do seu nascimento. Entregue-a a alguém que conheça o pudor. Vocês estarão livres para correr até suas famílias para se despedirem, pois juro por meu nome Arryn que as mandarei para as masmorras!

Sim milorde! Sim, milorde, como o senhor desejar!

Elas vestiram Catherine, que tremia convulsivamente, olhando assustada para ele e para elas. O que passava por sua mente? O que ela tanto temia? Porque havia se comportado daquela forma ao ouvir os trovões? Ele não conseguiu encará-la, porém, e quando deixou o quarto, Elric evitou ver a cadeira em que estivera sentada, ou as pegadas de seu pé no carpete do quarto, ou a bacia de água suja com que fora lavada. O que aquelas mulheres devassas haviam dito em sua presença? A que horrores fora submetida? Elas teriam dito coisas cruéis? Elric pressionou as têmporas, sentindo fortes dores de cabeça. Não voltaria ao baile, não podia. Ele não conseguiria dançar com mais nenhuma moça. Não após Layse e Catherine.

Mulheres. Eram sempre mulheres que complicavam tão cruelmente o seu mundo.

— Elric Arryn -

Notas finais
SIM! Isso mesmo, dois capítulos seguidos, só porque eu estou de férias. Eu poderia ter postado dois, com a quebra dos núcleos, o que eu não costumo fazer, mas achei melhor deixar só um mesmo. E sim, esse final foi... ah, nem sei o que dizer. Seria engraçado, se antes nós não conhecêssemos a vida de Catherine, não? Agora soa triste. Bom, andei vasculhando gifs do Elric e encontrei isso: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/48/4a/09/484a09d8699aa03e3e905ea771ebb135--tristan-isolde-tristan-and-isolde-quotes.jpg Seria um sinal? Digam-me vocês, apoiam Elric x Catherine? Beijos de Mel.