Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
8 Um Véu de Sangue
Notas iniciais
Um Véu de Sangue
“Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades.” – Epicuro
Dois dias de festa para o casamento, mais três dias de rebelião nos portos próximos às Ilhas de Ferro e então uma patrulha na Muralha. Em uma semana, Harpa vira seu esposo uma vez, antes dele partir em jornada por todo o Norte, com exceção da sua cama. Era decepcionante, olhando-se no espelho agora. Não era como se sentisse abandono ou solidão, todos os dias bordava junto das cunhadas e até mesmo fora jantar com a família num casamento dos senhores juramentados ao lorde. Porém nada afastava o fato de continuar no quarto sozinha, com o enxoval limpo e sempre muito bem arrumada, aguardando pacientemente o momento em que ele voltasse.
Roddrick Stark tinha as fisionomias que achava atraente, um rosto marcante, olhos negros e lábios macios. Lembrava-se de como fora beijá-lo, a primeira e única vez que se beijaram, no dia do casamento. Toda a festa fora de dança, ela dançou duas vezes com Roddrick, e o resto do dia passou nas mãos dos demais lordes, cavalheiros e irmãos do homem. E, no entanto, parecia que ninguém se importava com isso. Ela não precisava de atenção, certo? Seu esposo tinha assuntos mais importante para resolver pelo pai.
Não queria soltar os cabelos, mantendo-os entre os grampos que utilizara no jantar. Após o falecimento de Marge, Winterfell parecia ainda mais fria e mais melancólica. Os criados tratavam de desaparecer ao menor ruído, nenhuma das cunhadas de Harpa se interessaram por vir vê-la, tendo seu próprio sofrimento como algo mais importante. E Harpa entendia perfeitamente. Quando perdeu seu irmão mais velho para a Batalha no Mar, a mesma batalha que rendeu a seu pai e todos os seus capitães títulos e posses das ilhas fronteiriças com as Ilhas de Ferro, retraiu-se e sofreu solitariamente, pois seu pai não merecia ainda mais amargura do que já tinha.
É claro que ela não havia esperado um casamento onde o centro das atenções fosse ela, logo que sabia que sua única função objetiva era dar herdeiros a Roddrick, e tinha sorte por ter a missão vinda de uma pessoa com sangue tão nobre. Seus rebentos provavelmente seriam Stark e teriam a mesma honra e nobreza que o esposo. Assim, ela deveria ficar agradecida. Seu pai quase chorou quando soube da proposta de Lorde Stark em unir as Ilhas de Tempestade com a Grande Casa de Stark.
— Milady – uma criada entrou no quarto com uma bandeja prateada em mãos. Tratava-se de Any, Harpa sabia o nome de todos os criados designados para cuidar dela, e a moça de cabelos louros era quase uma das peças mais chamativas entre todos de Winterfell, submissa e muito educada, quase uma dama de companhia. Any era designada para toucá-la, o que a surpreendeu por estar carregando uma carta selada. – É para vossa senhoria.
— Obrigada, Any. – disse a senhora virgem, com um movimento de mão para que a criada se aproximasse. Esta o fez rapidamente. Enquanto Harpa abria a carta, a moça esperava. O que significava que ela teria de dar uma resposta naquele instante. Leu a carta com curiosidade. Era de Roddrick. – Diga a ele que sim.
Any fez uma mesura e deixou o quarto. Em alguns minutos, Roddrick entrou, com calções e camisa de linho branca, os cabelos revoltos e a barba crescida. Muito diferente de quando saíra de Winterfell. Como estava ansiosa por revê-lo, Harpa lavou o rosto e soltou os cabelos, ajeitando as madeixas ruivas em caracóis que serpenteavam por entre sua camisola de tecido fino e transparente, uma tática estratégica ensinada por sua dama de companhia em Oversea.
Roddrick Stark voltou de sua missão especial na Muralha para comparecer ao funeral de sua madrasta e, após um breve jantar e reunião com seu pai, havia pedido permissão para sua esposa para dividirem a cama. O que, na opinião de Harpa, era a primeira coisa que ele deveria ter feito quando chegou a Winterfell. O homem caminhou silenciosamente até a cama, onde já se encontrava sua esposa. Ele então tirou a camisa e desabotoou os calções. O sinal foi claro e Harpa fez o mesmo com sua camisola, timidamente permitindo que ele a olhasse. Era algo que sempre imaginara como mágico e romântico, porém se provou detestável. Roddrick não se importou com a barba grossa que raspava em sua bochecha enquanto a beijava, e o beijo foi totalmente diferente daquele que ela se lembrava, no altar. A boca de Roddrick não permaneceu um segundo completo encostado a sua, sempre revidando e mordendo-a com raiva. Era quase um animal.
Suas mãos também não moderavam a força com que a apertava, e foi quase que jogando-a que ele a deitou na cama e se colocou sobre o corpo da frágil Harpa, até agora afoita e ofegante, sem compreender exatamente o que acontecia. Suas pernas foram violentamente separadas e não houve tempo para um beijo antes de tudo acontecer. Era horrível! Não teria outra palavra para descrever além disto: horrível. Roddrick movia-se como um cão, porém pior. Como um lobo. Seus gemidos que escapavam por entre os dentes eram de dor. Sim, dor! E mesmo estes sinais apenas o faziam avançar mais rápido, com mais ímpeto, com mais violência.
As lágrimas rolavam por seu rosto, descendo dos olhos até as orelhas, a cabeça empurrada para trás, a garganta vermelha e os dentes trincados. Era como se não pertencesse mais a si mesma e estivesse suportando todo o peso do mundo sobre si. Um castigo horrível!
Quando, enfim, ele soltou um grito do fundo da garganta e se desmanchou sobre ela, Harpa sentiu enfim todo o corpo novamente sobre seu controle. Seus músculos doíam e ela tremia, fraca e sem conseguir controlar completamente seus movimentos. Sobre seus seios, a cabeça cheia de madeixas de Roddrick repousava, ele ofegante ainda vermelho. Um filete de baba escorreu por seu ventre, porém Harpa não se importou, estavam ambos suados demais para que isso fosse importante. Após recobrar as forças, Roddrick deitou-se ao seu lado na cama e virou-lhe as costas, começando a roncar.
Os olhos de Harpa estavam fixos no teto do quarto, ainda desmanchada e nua, sobre os cobertores. A respiração profunda deu lugar a soluços e então a boca se abriu, sem soltar ruído, e ela começou a chorar, convulsivamente e silenciosamente.
º º º
Any jogou o balde com água quente sobre sua cabeça, olhando os cabelos ruivos. Os ombros de Harpa já estavam totalmente imersos na água da banheira, e a essência de eucalipto perfumava todo o quarto. A criada massageou suas madeixas com delicadeza, sempre tomando cuidado para não machucá-la. Gostaria que seu esposo fosse tão delicado quanto Any, talvez suas noites assim melhorassem, ao invés de contar mentalmente todas as estocadas que ele dava dentro de si. A média era de trinta, quando Roddrick estava animado. Vinte se ela não retribuísse os toques lascivos.
— É normal ser tão ruim?
— É claro. – Any sorriu, deixando de arrumar seus cabelos para massagear-lhe os ombros – Os deuses nos deram um grande dádiva de produzir filhos, logo tínhamos de pagar de alguma forma. Todos os meses sangramos por este motivo, como um sinal deles de que somos abençoadas, mas que não por nosso mérito.
— Eu lamento pelas mulheres que vivem desta forma. As cortesãs. Elas devem sofrer muito. – Harpa afundou-se até ficar apenas com o nariz arrebitado para fora da água.
Any riu.
— Estes não são os pensamentos de uma senhora Stark. Mas eu imagino que elas realmente devam sofrer.
Como Harpa não lhe respondeu, Any continuou lavando-a, até que terminasse. Então a vestiu com um tecido negro de luto e prendeu-lhe os cabelos ruivos em grampos que desapareciam entre as madeixas. Após toucá-la, a criada a perfumou com mais essência e enfim beliscou suas bochechas redondas, para torná-las mais avermelhadas.
— Está pronta para o jantar, milady.
— Obrigada, Any. – Harpa se levantou, arrumando a saia do vestido antes de sair do quarto. No corredor, viu as escadas que a levariam até o salão, e depois o salão que a levaria até a copa de jantar. A mesa servida já com a presença dos filhos do lorde e de seu esposo. Faltava apenas Brandon Stark. Por pouco ela não se atrasava.
Todos usavam roupas negras e o silêncio era mantido. Quando o lorde enfim entrou, levantaram-se e só voltaram a se sentar quando este já havia se acomodado. Então começou o jantar. Os criados serviam a todos, enquanto Brandon e seu filho mais velho conversavam os assuntos políticos e Clary e Bryanna tentavam envolver a irmã mais nova em algum assunto que a fizesse esquecer de sua mãe. Ao seu lado, Roddrick comia em silêncio.
— Está uma delícia a comida, não acha, meu amor? – perguntou a ele de forma meiga.
— Sim. Como sempre.
— Espero que fique por mais tempo em Winterfell. Seria triste se partissem em menos de dois dias. – comentou, já sabendo que ele teria de viajar até a Muralha novamente por motivos políticos. Mas Roddrick também compreendeu a sutileza e ergueu seus olhos do prato. Era impossível desvendar o que ele pensava, pois suas expressões não passavam de contentamento e leve incômodo.
— Não me preocuparia se fosse você – soltou os talheres, o que deixou claro que ele não estava mais afim de comer, e quando se virou totalmente para ela, Harpa sentiu cada fibra de seu corpo estalar, como as cordas de uma harpa que vão estourando, uma por uma. – Providenciei uma liteira especial para que vá junto. – e com isso segurou sua mão por cima da mesa, apertando os dedos levemente. Roddrick gostava de segurar sua mão assim, brincando com os dedos. Ele os apertava levemente, quando estava de bom humor, e violentamente, quando não estava.
— Fico feliz – murmurou, abaixando os olhos.
— Não me parece feliz. – ele apertou um pouco mais os seus dedos.
— Eu estou, de verdade – sorriu, e isso o convenceu, pois ergueu o canto dos lábios e voltou a comer taciturnamente.
Harpa conseguiu entrar na conversa amigável de Clarysse e Bryanna, e ao térmito do jantar, assistiram a apresentação de um bardo especial da família, que sempre era chamado quando o Lorde estava alegre, pois Marge adorava música. No entanto, o evento foi breve e melancólico. Brandon Stark chorou do começo ao fim e Lily também não parou de soluçar e cortar os embalos da voz. Apenas Clarysse e Bryanna aplaudiram o bardo, como forma de agradecimento e ao se recolherem, Roddrick seguiu-a passo a passo no corredor. Já em frente a porta do quarto, seus braços envolviam-na com força, os dedos desfazendo os nós do corpete.
Any estava dentro do quarto quando a porta se abriu, o que deixou Harpa com vergonha e a fez corar. Mas a criada agiu com naturalidade e assim que terminou de arrumar o enxoval, fez uma mesura e abandono-os pela porta dos criados. Roddrick já a havia despido pela metade, retirando agora apenas a saia, que caiu facilmente da cintura.
Ele raramente falava enquanto isso, às vezes pedindo para que fizesse algo ou para que não fizesse algo. Em geral, Harpa permitia que ele conduzisse a dança até o final. Mas, no entanto, ele não fez mais nada.
De costas, Harpa não conseguia imaginar o que acontecia.
— Sei que a machuco.
Virou-se de repente, aterrorizada com aquela frase. Sua face transparecia esse sentimento, o que fez Roddrick fechar fortemente os punhos. A verdade é que ele não era a melhor pessoa em se expressar, e o fato de fechar os punhos não significava que estava com raiva. Mas com vergonha de tê-la assustado.
— Sei que me detesta.
Harpa engoliu em seco, tentando formar alguma das frases gentis que sabia, porém ele a interrompeu com os olhos, furiosos por ter pensado em iludi-lo novamente. Não era preciso que dissesse isso em voz alta, Harpa simplesmente compreendeu. E não mentiu mais.
— Eu não entendo como isso funciona. Todas as vezes que precisei fazer isso – ele então trincou os dentes, ainda mais envergonhado. – As mulheres com quem eu fazia, já sabiam tudo sobre.
— Cortesãs?
— Prostitutas. – ele a corrigiu, com a voz grave e perigosamente fria. Por isso, calou-se. – Mas eu sei que o silêncio não significa prazer.
Como ela não o respondeu, Roddrick curvou-se até ficar a altura de seus olhos.
— Você não gosta de mim?
— Gosto – ela concordou, olhando firmemente para ele. Pois era verdade. Por mais que fosse doloroso essa parte de seu casamento, ainda amava o homem com quem se casara, e o teria para sempre como seu. Seria a mãe de seus filhos, por quem teria muito prazer.
— Então o que há de errado?
— Os deuses nos castigaram pela dádiva de ter filhos.
Roddrick arregalou os olhos, incrédulo, antes de exclamar uma gargalhada gostosa, que preencheu todo o quarto. Os pelos dos braços de Harpa se arrepiaram. Nunca escutara um som tão completo e retumbante, que reverberava todo o seu corpo, tornando-a admiradora. O eco cessou.
— Quem lhe disse uma besteira tão grande? – ele perguntou, mas aquilo não importava – Os deuses castigaram? Você sente dor, por acaso? É isso, então, você sente dor. E acha que é o preço quem paga por poder engravidar? É hilário, eu tenho que admitir – então ronronou mais uma risada divertida, antes de enxugar uma lágrima no canto dos olhos. Harpa nunca vira seu esposo tão... humano.
Ela também riu.
— Escute – Roddrick segurou seus ombros, e pela primeira vez seu toque não lhe causou medo. – É normal, certo? Algumas são mais sensíveis que outras. Peço perdão por tê-la machucado. Prometo que serei mais... brando.
Harpa pôde apenas sorrir, feliz com o esposo que tinha recebido.
— Me diga o que posso fazer por você. – Roddrick pediu, ainda curvado.
— Deixe-me tirar esta barba horrenda! – exclamou, feito um rouxinol no raiar da manhã. Roddrick ergueu as sobrancelhas, surpreso com o quão delicada sua esposa era. Julgou que ela fosse melancólica e fraca por causa da personalidade que lhe mostrava, sempre silenciosa e de olhos no chão. Mas Harpa parecia realmente viva e até mesmo infantil.
— A minha barba – ele tocou o rosto – Mas é preciosa!
— Então não terá isto – ela cobriu-se com os lençóis – Sua barba espeta a minha bochecha quando nos beijamos. É horrível.
— E o que mais é horrível?
— Suas mãos são fortes demais!
— Mas isso é um sinal de virilidade.
— E você é apressado demais.
Roddrick gargalhou.
— Eu sou! Não nego! – caminhou até a cadeira em frente ao toucador de Harpa e sentou-se, inclinando a cabeça para cima – Ande logo com isso, antes que eu mude de ideia. Sou um pouco apressado.
Ela correu até o toucador, molhou sua barba e com uma navalha começou o trabalho. Harpa sempre fizera isso em seu irmão e em seu pai, então fazê-lo em um rosto tão plano e uma pele tão firme não era difícil, pelo contrário, era muito rápido. Terminou com sucesso o trabalho, e mostrou-lhe num espelho do toucador. Roddrick apalpou o queixo, sentindo-se nu.
— As coisas que faço por amor. – e levantou-se, segurando-a pelas pernas e a erguendo sobre seu ombro. A navalha e o espelho caíram no chão, porém Harpa ria feito uma criança sendo carregada. Seu corpo saltou na cama, não jogado, mas pulando suavemente. Os lençóis já caíam, revelando-a branca e rosada. Os cabelos desarrumados e vermelhos formavam um véu, que Roddrick afastou com os nós dos dedos, deslizando-os pela bochecha arredondada da esposa. – Não prometo ser um príncipe.
E realmente não foi.
Foi o seu esposo.
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