Notas iniciais
Para aqueles que entenderam os spoilers do Tumblr, aqui vai o prato principal. Boa leitura.

Os Segredos de Winterfell

“Farsa contínua! A minha inocência me faria chorar. A vida é a farsa a ser levada por todos.” — Arthur Rimbaud

Vallery sentia o couro raspando em seus joelhos, deixando a parte da pele sensível após tantas horas na mesma posição. Era uma sensação revigorante estar de volta a terra firme, com tantos dias navegando pelas Ilhas de Ferro, nada melhor do que cavalos e lama. A neve derretia de todas as árvores e o vento estava úmido, embora o mar já estivesse há três dias de viagem. Não tinham carruagens, pois um Bolton não viaja como um lorde, assim aprendeu, e nem mesmo seus homens gostavam da ideia de carregá-la numa liteira. O cavalo da menina era um dos primeiros, com seu focinho completamente negro e muito peludo, parecia farejar o ar e logo corria até uma carcaça no chão, onde os lobos fizeram um banquete. Ai, Vallery tampava o nariz e via seu animal chupar o resto dos ossos. Nunca soube porquê Eggy gostava de carne e sangue, ao invés de grama e pasto. Ganhou-o de seu irmão mais velho, quando este foi em aventuras para as terras de Correrrio, e ela em aventuras para as terras dos Stark. Francamente, o que seu pai esperava com aquilo? Era provável que sua cabeça fosse pendurada nas muralhas de Winterfell assim que atravessassem os portões. Mas, como uma boa filha, ela obedeceu.

A capa não cobria totalmente o seu corpo e o vestido também estava pequeno. Era detestável as condições em que estavam, fruto da ganância de Lorde Bolton. Lorde, sim, pois ele exigia que os seus o chamassem como tal. O Forte do Pavor não era bem uma terra grande para merecer o título, mas também não estava nos domínios Stark. Então... que mal faz um pouco de orgulho, certo?

— Val, não avance tanto, precisamos ter certeza de que o Lorde irá nos receber com paz.

— Fará diferença se ele nos receber com armas ou nos despedir com armas? No final é só morte. Todos nós, mortos – a menina riu, jogando os cabelos ruivos por cima dos ombros, em sinal de despreocupação, enquanto cutucava a barriga de seu cavalo, deixando-o correr o quanto quisesse, embora o animal não o quisesse.

— Eu não vou deixar nenhum Stark colocar as mãos fedorentas em mim. Antes, que eu leve dez deles comigo. – grunhiu um dos homens, com seu sorriso sem dentes. Vallery concordou com um meneio sarcástico, enquanto os demais do bando diziam o quanto destroçariam os corpos dos soldados Stark ou qualquer nortenho fedorento. Ela, prudentemente, permanecia em silêncio, com Ferre bem ao seu lado.

Vallery compreendia perfeitamente a sua posição. Era a filha mais nova de um senhor temido em todos os cantos do Norte, com um irmão mais velho de pouca fama e uma dúzia de outros irmãos e irmãs mortos, por terem orgulho, ganância ou burrice demais. Ela, no entanto, vira tudo isso desde muito nova, e sabia que não cometeria os mesmos erros que sua família. Após sua mãe ter capturada, torturada, estuprada e outros afins, casou-se com Lorde Bolton, com quem teve uma filha, antes de morrer podre por dentro. Assim Vallery nasceu, das entranhas putrefatas de uma mulher desonrada e um homem cruel. Não há como se esperar muita coisa de uma criança assim, certo?

— Mormont! – ela sorriu, atiçando o cavalo rapidamente em direção a estrada do rei, onde uma carruagem vinha, para o porto. Seus homens todos a seguiram, assim como a mercenária das Ilhas de Ferro, a quem havia pagado um alto preço para ser sua. Enquanto Vallery estivesse no comando daquela... comitiva, tinha de saber lidar com os seus homens antes que eles realizassem um motim. Um tempo no mar e logo entendeu isso.

O brasão dos Mormont estava desenhado na carruagem, um urso negro sob o fundo verde. Era possível ver a cabeça de um velho dentro do carro, seu cocheiro tinha uma lança, mas nada mais que isso. Vallery não gostava de abordar as pessoas como se fossem assaltantes, porém ela vivia com assaltantes. E eles adoravam assaltar.

— Peguem o ouro, mas deixem-no vivo. – ela disse, apontando a carruagem, enquanto prosseguia até desaparecer atrás de um amontoado de árvores. Ela não era fã de terror e vandalismo. Ferre a acompanhou. Daquele lugar podia ouvir os gritos do soldado e os pedidos de piedade do velho Mormont.

— Era o Lorde? – perguntou Ferre, com a mão sobre o punho de sua espada.

— Os Mormont são senhores vassalos dos Stark. Nada de Lordes. – corrigiu-a, sem olhar realmente para ela, pois era muito difícil ver Ferre sem ver sua cicatriz sobre a boca, que a cortava até o ombro, profundamente, como se ela tivesse a pele de outra pessoa sobre a sua. – E não era o Senhor Mormont, de toda forma. Talvez um de seus cavaleiros, ou algum meistre. Alguém da casa. Mas não da família. É comum que os funcionários mais próximos da família utilizem o carro do senhor. – Vallery explicou. Os gritos cessaram, o que significava que o roubo havia terminado e logo os seus homens estariam lá.

Ferre guiou seu cavalo até um pequeno lago, onde o animal pôde se refrescar, enquanto a mercenária desmontava. Ela tinha, além da horrível cicatriz, olhos muito pequenos e puxados, diziam que ela vinha de Essos, porém Vallery nunca perguntou para saber. Seus cabelos eram brancos, feito a neve, e muito curtos. Parecia um homem, com exceção das roupas debaixo, que eram apertadas e deixavam a mostra as curvas de seu corpo esguio e musculoso. Vallery sabia que nunca seria como ela. E a invejava um pouco. Embora também soubesse que, mesmo se fosse alta ou forte, isso de nada adiantaria para os propósitos de Lorde Bolton.

— Eles já deveriam estar aqui – a mulher se levantou, tirando a espada da bainha. Vallery sabia que não havia com o quê se preocupar, estavam perto demais de Winterfell para que qualquer bando de assaltantes se aventurassem até ali. Mas Ferre não conhecia o Norte, então era normal que ficasse atenta.

— Devem ter encontrado alguma vagabunda dentro da carruagem, estão se divertindo. Deixe os homens se divertindo, Ferre.

Ela suspirou, guardando a espada e voltando a alisar o cavalo.

Neste mesmo instante, Vallery sentiu dedos sobre sua boca e a respiração pesada sobre seus cabelos. Sem pensar duas vezes, enviou a mão por baixo de seu corpo e agarrou a roupa de seu... agressor? Não saberia dizer. Não havia tempo para certezas. Encontrou os nós de seus calção e apertou o sujeito com toda a força que tinha, fincando as unhas o máximo possível através da roupa.

Assim que ele a soltou e começou a engolir grama, tirou de sua boca uma adaga. Neste momento, Ferre já segurava a espada com ambas as mãos e lutava com outro agressor. Nenhum dos dois homens eram de seu grupo, o que significava que eles não eram apenas dois, mas um bando inteiro, capaz de matar soldados Bolton. Vallery se levantou, apontando sua adaga para o rapaz que se contorcia, apalpando as partes íntimas e chorando timidamente. Ele tinha uma aljava nas costas, o que era um péssimo sinal. Enfiou a lâmina por baixo de seu queixo, enquanto ele se revirava numa posição fetal, ainda ofegando pela dor. Morreu sem mais agonizar. O sangue manchou suas mãos e parte de sua capa, e estava muito quente. A adrenalina jorrava-o para fora do corpo do moço de não mais de quinze anos. Ferre também conseguiu matar seu oponente, porém logo surgiram mais dois atrás das árvores, e mais dois. E mais dois. Os cavalos escoiceavam e relinchavam, tentando se desprender das rédeas que os amarravam.

— Fuja! – Ferre enfiou sua espada nas tripas de um. – Salve-se – Ela cortou o ombro de outro. – Chame os Stark, senhora! – sua espada perfurou o peito de um terceiro.

Vallery utilizou de toda a sua habilidade em montaria e agarrou-se às rédeas do cavalo, batendo-lhe com toda a força as rédeas e as botas, até que o animal estivesse correndo com toda a velocidade. Ferre fazia os homens gritarem, mas em nenhum momento Vallery escutou um sinal de dor da mulher de ferro. Sua mercenária valia mais do que qualquer soldado de seu pai, e mesmo assim a havia deixado para trás, enquanto ela lhe salvava a vida e provavelmente morreria. Não sem antes levar a alma de mais trinta consigo.

Covarde! — Vallery gritou com todo o coração, seu sangue correndo tão rápido pelas veias que mal conseguia ver o caminho a frente. O que importava? Norte, siga para o Norte, sempre ao norte, era a única coisa que poderia fazer. Seus cabelos ruivos voavam batendo em suas costas brancas e miúdas, molhadas de suor. De repente seu cavalo caiu, relinchando como se algo o estivesse machucando. Vallery rolou por cima da cabeça do animal e caiu de lado, a capa enroscando-se em suas pernas. Antes que pudesse levantar, viu a flecha que se fincara na pata do pobre cavalo, tornando-o inútil.

Notou que ainda segurava a adaga com toda a força, com os nós dos dedos brancos. O arqueiro vinha a cavalo, correndo rapidamente e já mirando a próxima flecha. Pela precisão da primeira, ele era muito bom, então esperar que errasse era cometer suicídio. Jogou-se para frente, antes que fosse tingida, e então notou que ele não estava ali para matá-la.

Ele saltou do cavalo, jogando o arco e a aljava no chão e retirando da cinta uma espécie de espada menor que o comum, mas maior que uma adaga. Era um velho de no mínimo trinta anos, com uma barba branca e olhos ferozes. O que aqueles bandos estavam fazendo tão ao norte? Tão próximos de Winterfell? Levantou-se e apontou sua adaga para ele, que abriu um sorriso satisfeito, sem muito se demorar em ir para cima, com o cabo de sua espada, que a atingiu na testa. Desorientada, Vallery sentiu que caia, com um calcanhar a lhe tirar o equilíbrio e então seus braços foram presos sob joelhos ossudos.

— Você achou que ia fugir de mim? – o velho riu, um pouco sádico e um pouco infantil. – Ninguém foge do Corta-Línguas!

— Seu bastardo filho de uma puta! – Vallery cuspiu, mas não conseguiu acertá-lo.

Corta-Línguas riu.

— Sim! É desse tipo que eu gosto de cortas a língua! – o velho colocou a espada sobre sua garganta. – Você faria o favor de continuar?

— Você irá arder no inferno! Não sabe com quem está lidando!

— Eu sei. – o homem sorriu – Você é a filhinha do Bolton, aquela que vem assassinando todos os meus homens com o seu bando de desgraçados e a sua mercenária vadia, que vem tirando o nosso ouro. Tomando nossa estrada!

Vallery sorriu.

— É muita coisa para uma garota de treze anos, você deve admitir. Meu pai vai te matar! – desta vez conseguiu acertar o cuspe dentro do olho do fora-da-lei, que grunhiu e limpou-se com raiva. Ele então aprofundou a lâmina da espada sobre sua pele e com a outra mão começou a desabotoar a calça.

Vallery o viu, rígido e escuro, tão horrendo quanto o de qualquer um, pronto para corromper algumas vítimas por ai. Selou os lábios na hora, mordendo-os com os dentes, ignorando a dor, enquanto tentava se debater e se soltar.

— Abra a boca! – o Corta-Línguas exigiu. – Abra esta maldita boca!

Vallery sentiu o sangue começando a escorrer debaixo do queixo, quente e grudento, enquanto os dedos do velho tentava abrir a sua boca. Ele trincava-se todo, usando toda a força para conseguir. Não poderia sair dali. Não conseguiria. Era impossível, estava imobilizada, ele sentava-se sobre todos os seus músculos e era tão pesado! O gosto metálico já invadia a sua garganta. Covarde, Vallery, você é uma covarde. Você abandonou Ferre e abandonou também os seus soldados. Você abandonou ate mesmo a si mesma. Por medo. Vencida, a unha de Corta-Línguas adentrou a sua boca, e seus dedos se prenderam como ferro ao seu maxilar. Ele não perdeu tempo, colocando-se ainda mais sobre Vallery, até que nenhuma tentativa de fuga fosse possível.

— Chupe! – ele urrou – Chupe com força! Antes que eu arranque a sua língua e ela se torne inútil!

Vallery enterrou os dentes naquela coisa dura e enrugada, rosnando feito um cão, enquanto o velho se lançava para cima, e então para baixo com toda a fúria, tentando se livrar dos seus dentes. Ela mordeu e mordeu, usando toda a força que conseguia, até o sangue começar a invadir a sua garganta, descendo ao estômago. Não era o seu sangue, no entanto. Não o soltou, até sentir o cheiro fétido de urina e podridão.

Seu queixo estava empapado de sangue, assim como o vestido e a capa, a boca era invisível por trás do vermelho. O cavalo do velho ainda estava ali, ele se debatia, segurando seu membro quase arrancado. Chorava, como uma criança. Sem muito tempo para piedade, Vallery montou no cavalo e sumiu para o Norte, pela estrada do rei, até que a Lua estivesse iluminando o seu caminho e as muralhas de Winterfell fossem visíveis. Caiu do cavalo tentando descer, e vomitou em vermelho e negro, sentindo algo ardendo em sua garganta. O estômago doía, mas conteve a dor e passo a passo se aproximou do castelo, até que os guardas a vissem, apontando suas alabardas.

— Pelos deuses... – murmurou um dos homens – O que é isto?

Mas Vallery não escutou qualquer coisa além, caindo de joelhos e então de cara na terra.

º º º

Bryanna aceitou facilmente seu dever de supervisionar o leito da criança Bolton, que chegara durante a noite há dois dias. Ela viera com apenas um cavalo, com a roupa coberta de sangue e passou todo o primeiro dia vomitando sangue e sem conseguir ingerir nada além de sopas. Ao término do período, Vallery Bolton tinha apenas uma cicatriz em sua garganta que o meistre supôs ser a prova de um combate entre os homens dela que a salvaram e lhe permitiram chegar até Winterfell. Poddrick e Roddrick haviam partido, o mais velho até a comitiva Bolton, que foi encontrada ainda um dia e meio de viagem de Winterfell, dizimados por bandos de foras-da-lei que vinham se multiplicando naquela região enquanto o Longo Verão não trazia chuvas e a plantação secava. Não havia sinal da neve, nem sinal das nuvens, apenas um Sol frio e uma terra árida.

Bryanna não sentia raiva da menina, ao contrário de Clarysse, que se recusara a vê-la. Lily ainda estava muito abalada pela perda da mãe, mas havia assumido Vallery como uma espécie de substituta para direcionar seu afeto, e agora trançava os cabelos ruivos da garota, com destreza e óleos perfumados. Haviam trocado seu vestido puído, curto e ensanguentado por um branco e com mangas longas, barras de arminho e um capuz também de peles brancas. Seus cabelos ruivos se destacavam e as sardas pareciam formar pequenas constelações sobre seu nariz e bochechas.

— Ela é bonita – Lily sorriu, terminando a trança e deixando-a solta sobre o peito plano de Vallery, que dormia há cinco horas seguidas e provavelmente acordaria logo. – A Bolton.

— Acho que se parece com sua mãe.

— A Frey? Disseram que as mulheres da família Frey se pareciam muito com os homens. Muito. – riu Lilyne, embora tenha contido isso – É maldoso falar algo do tipo quando podemos ver que é mentira. Eu queria que ela fosse minha irmã mais nova.

— Você é a irmã mais nova, Lily, você recebe todos os mimos – Bryanna sorriu, acariciando o rosto da irmã com extremo afeto, porém ela apenas deu de ombros.

— Eu queria mimar alguém. Não ser mimada. Até pareço uma criança e já tenho dezoito anos.

Bryanna achou aquilo engraçado, porém não teve tempo de dizer nada, pois a garota acordou repentinamente, os olhos verdes procurando por algo, antes de se acostumarem com a claridade da manhã. Lilyne adorava esses momentos de sonolência pós-sono, pois era quando Vallery não estava sendo sarcástica e grosseira de propósito. As irmãs observaram enquanto a criança esfregava seus olhos e erguia as sobrancelhas para elas, antes de se afundar no travesseiro da cama.

— Eu quero comer! – ela resmungou, olhando Lily, como uma criança que sabe a quem recorrer. Lily sorriu, se levantando para ir buscar a sopa de Vallery, e quando saiu, Bryanna abriu seu livro, fingindo não perceber que a menina cantarolava baixinho uma canção do mar, dessas que são sujas e de baixa estirpe, completamente intolerável para uma donzela tão jovem. Mas era uma Bolton, certo? E Bryanna não era completamente inocente e pura, ela não se importava em ouvir a conversa dos irmãos quando estavam bêbados, assim como não se importava com aquilo, o que não significava que concordava.

A porta voltou a se abrir, porém quem entrou não era Lily e nem o meistre, os únicos além de Bryanna que vinham ver a menina, era Aryen, o irmão mais velho com o temperamento mais contido e gentil. Aryen tinha cabelos castanhos, assim como ela, e olhos escuros, assim como ela. Eram muito parecidos, os dois, com rosto finos como Lorde Stark, mas a mãe de Aryen era Maryah Greystark, enquanto a mãe de Bryanna era Alyss Cerwyn. Eles se entendiam muito bem, tendo personalidades tão semelhantes.

— Ela está melhor? – Aryen perguntou, ainda parado na porta. Bryanna fechou o livro para respondê-lo, mas não foi preciso.

— Ela se chama Vallery e está melhor – resmungou a criança, com um bico grande de quem está muito irritado. – Onde está aquela garota com a minha comida?

— Lily provavelmente foi fazer a sopa. – Bryanna respondeu, com sua paciência grande e afável. Ela também gostava de Vallery, embora todo o mau humor, compreendia que não estaria muito melhor caso os seus soldados e amigos estivessem todos mortos. Vallery era muito corajosa por ter conseguido cavalgar mesmo coberta de sangue e cansada por tantas horas. Aryen pensava o mesmo.

— Lorde Stark me mandou convidá-la para o desjejum de hoje. Todos adoraríamos sua presença, Senhorita Bolton.

— Como deve ser divertido para ele ter vivido o suficiente para chamar a Senhorita Bolton para um desjejum – riu Vallery, erguendo-se da cama. – Eu sinto que estou morrendo nesse lugar. Estou ficando preguiçosa. Preciso me exercitar. – ela jogou os lençóis, revelando seu corpo nu, o que deixou Aryen envergonhado e o obrigou a se virar. – Ah, por favor, eu sou uma criança, você não deveria ter vergonha de mim. Eu nem mesmo tenho pelos na virilha. – ela suspirou – “Donzela”, certo? Tudo bem. Bryanna, pode me ajudar a vestir?

Bryanna concordou satisfeita por ser útil. Vestir a menina era fácil, pois de tão pequena o vestido escorregava facilmente. Os vestidos do Norte não costumam ser muito elaborados, mas são versáteis, para que se possa vesti-los o mais rápido antes de congelar. As mangas são sempre largas, assim qualquer braço desliza facilmente e com o arminho nas barras nem mesmo luvas é preciso usar. A cintura normalmente é revelada com um cinto, mas como Vallery não iria para o desjejum agora, podia utilizar a roupa da forma que estava. Aryen demorou ainda algum tempo antes de se aventurar a olhar para trás novamente.

— Obrigada – ela resmungou, um pouco enferrujada na palavra. Vallery não agradecia no Forte do Pavor, lá todos faziam as coisas na base da ordem, mas como estava em Winterfell e sua missão era conquistar as pessoas ali, tinha de se habituar. – Você está bem, Aryen, parece um pouco eufórico. Não me diga que você gosta de garotas magras e pequenas como eu. – ela piscou, porém Aryen apenas enrubesceu mais.

Vallery caminhou até a janela, recebendo a luz do sol com prazer. Debruçou-se, respirando fundo. Era ótimo se levantar. Fez como se estivesse observando o exterior do castelo, como as damas costumam fazer para demonstrar delicadeza. Bryanna achava a Bolton uma espécie de caixinha de surpresas, ela era desinibida, esperta, fazia piadas ótimas e normalmente era muito gentil com Lily, o que eram coisas que não esperava de um Bolton, mas ao mesmo tempo era rude, mal-educada, mau-humorada e vulgar.

Bryanna gostava dela.

— Ferre – Vallery disse, mortalmente compenetrada no que via.

Bryanna arregalou os olhos e Aryen também pareceu surpreso com o palavreado repentino e baixo.

— Ferre! – a menina gritou, apontando para a janela – Ela está viva!

E saiu correndo do quarto. Bryanna se aproximou da janela, olhando para o pátio e então os portões, onde os soldados pareciam ajudar uma mulher muito ferida a caminhar, enquanto ela tentava se desvencilhar deles. “Ferre” seria seu nome? Um nome muito peculiar, tinha de admitir. A moça enfim desfaleceu, assim como Vallery havia feito ao chegar em Winterfell. Vallery conseguiu chegar até ela e se ajoelhou ao seu lado, tentando acordá-la em vão.

— Parecem ser muito próximas. – murmurou Aryen, também olhando a janela. – Precisaremos do meistre novamente. Vou chamá-lo.

Bryanna concordou com um meneio, observando o modo desesperado e afetuoso com que Vallery tentava reanimar a companheira. Talvez fosse essa a sua salvadora, que os homens de Poddrick não acharam por estar viva e se arrastando até Winterfell.

Era realmente valente e forte da parte dela lutar pela vida daquela forma. Bryanna abriu um sorriso de lado. Quem dera ter essa mesma coragem e ferocidade que as duas visitantes apresentavam com tanta naturalidade. No entanto, ela era Bryanna Stark e sorria quando os outros chamavam seu nome. Levantou-se para preparar o segundo leito, no quarto de visitar de Winterfell, próximo a seu quarto. Assim poderia cuidar das duas.

º º º

Clarysse aguardava silenciosamente dentro de seu quarto, ouvindo os passos no corredor, que só poderiam ser de Aryen, que havia ido ao quarto ao lado do de Bryanna para ver a garota Bolton. Quando seu irmão passou, sua sombra atravessou as luzes que entravam pelas frestas da porta e ela se preparou para o bote, enfiando os braços para fora do quarto e agarrando-o pelo braço, puxando-o e então fechando a porta novamente. O corpo de Aryen bateu contra a porta fechada e ele abriu um sorriso.

— Tão sorrateira. – murmurou, deslizando os dedos pelo rosto de Clarysse, mas ela não queria romantismo agora. Avançou sobre sua boca sem dar-lhe tempo de respirar, o que obrigou o beijo a terminar rapidamente.

— Estava entediada – disse, ainda em transe, sentindo as mãos de Aryen apertando-lhe a cintura. Seu irmão tinha o péssimo hábito de ignorar o que ela dizia enquanto a contemplava. – Aryen, ei. – chamou, estalando os dedos – Pare com isso. Tem de ser breve, você precisa fazer coisas e eu também.

Ele concordou com um meneio servil e então se aproximou, beijando-lhe lentamente a face, e em seguida os cabelos. O que ele entendia com “ser breve?” Clarysse revirou os olhos, devorando-o pela boca, sugando-o para si, com toda a vivacidade de sua juventude. Há alguns meses vinham saciando suas tendências amorosas um com o outro, após um primeiro beijo de melancolia. Clarysse não o via como um par romântico, é claro, afinal era seu irmão e era Aryen, ele era... inocente demais. Não podiam ir muito em frente além dos beijos pois isso iria requerer a sua honra, e manchar a honra com o irmão é a última coisa que Clarysse quer, mesmo que seja um meio-irmão.

— Eu te amo, Clary, te amo muito. – ele murmurou, atravessando as mãos por seu corpo, dos seios a curva dos quadris. – Amo com todo o meu ser.

Clarysse riu, puxando-o até sua boca.

— Você também é meu irmão preferido.

Seus corpos estavam próximos demais, além do limite que ela havia estabelecido no começo, roçando-se com frenesi intenso, porém Clarysse sabia ter autocontrole e sabia ter inteligência. Beijou-o uma última vez e então soltou, sorrindo. Aryen parecia querer mais.

— Breve.

— Sim. – ele assentiu, limpando o rosto e então ajeitando os cabelos. Por fim, sorriu para ela e saiu do quarto. Clarysse caminhou até a janela e então se sentou no divã onde normalmente lia. Observou os seios a mostra e arrumou o corpete, fechando-o novamente, enquanto arrumava o arminho das mangas. Sentia algo se agitando abaixo do ventre, bem não deveria ser nada, talvez fome.

Abriu seu livro preferido em sua página preferida e o leu pela décima vez.

Notas finais
Muito bem, vamos às considerações finais: alguns leitores vêm reclamando da demora das minhas respostas. E não se preocupem, eu vejo isso como um elogio à pessoa adorável que eu sou (-q). Peço desculpas pela demora, realmente, mas responder comentários é algo que demanda tempo e energia, e eu não consigo fazer isso por muito tempo, normalmente eu respondo 5 ou 6 e já me canso, sinto minha mente morta e é pior que escrever um capítulo de cinco mil palavras. Confesso, talvez seja preguiça da minha parte, mas eu também não gosto de responder vocês com um simples "Obrigada, beijos". Então, mesmo que eu demore, saibam que eu leio todos os comentários e que os respondo com sinceridade ^^ Amo todos vocês. Para me redimir: os donos do próximo capítulo serão anunciados no Tumblr, fiquem espertos! Beijos de Lady Savoy.