Notas iniciais
Boa leitura. **OBS: Apenas repassando a informação: no capítulo anterior deu a entender que Clarysse Stark estava grávida, mas ela não está.

Um Xadrez de Mil Peões

“Os males que nos assoberbam são criados por nós, decorrentes de nossa falta de ajuste às realidades” – Oswaldo Aranha

We Lost de Sea

— Eu realmente não entendo o que tenho de fazer nesse lugar. – reclamou com ainda mais irritação, conforme os minutos passavam. Estava entediada, cansada de ficar ali apenas esperando por algo do qual não queria saber. Seu irmão a estava deixando louca. E o prometido de deixá-la em paz? Onde estava a sua palavra?

— Você ainda é responsabilidade minha. – retrucou Otto, com muita paciência, bebericando seu copo de cerveja. Desde que Betyne retornara ao Sentinela, todos pareciam mais eufóricos ainda por causa do sumiço de seu pai, Lorde Baratheon, que desde o dia em que fora procurar a menina, não tinha mais sido visto, nem ele e nem os seus soldados que foram junto. Agora, o que ela tinha a ver com isso? Eis a questão. Onde estava o seu noivo Karstark para levá-la logo dali? Onde estava a sua vida pacífica e fria no Norte?

— Eu adoraria... – não pôde terminar, porém, pois a porta se abriu revelando Catalina Baratheon e sua filha, Laysa. As duas entraram, fizeram uma breve mesura e fecharam a porta. Elas sim tinham algo a discutir com Otto. Francamente, porque ainda aturava aquilo?

Giselle girou o pulso, sentindo-se realmente entediada.

— Ótimas notícias. – Catalina sorriu, sentando-se na poltrona em frente ao sofá em que ela e Otto estavam. A mulher mais velha tinha um belo rosto, embora fosse apenas um reflexo da donzela de sua juventude. Talvez ela detestasse ser bela na velhice, exatamente por este motivo. Sua filha, Laysa, no entanto, era realmente estonteante, provavelmente puxara ao pai, mesmo que todos os traços Baratheon estivessem tão escondidos, ainda não era a imagem da mãe. Muito peculiar, sim. – Encontraram Samwell! Ou o que restou dele.

Otto se empertigou no sofá, colocando os cotovelos sobre os joelhos e as mãos apoiando o queixo. Era a sua posição de pensativo e curioso. Giselle conhecia bem aquilo, era apenas mais uma forma dele demonstrar que era o chefe e que Catalina era apenas sua informante.

— Como assim: o que restou dele? – perguntou, como se não soubesse a resposta. A mulher sorriu, arregaçando as longas mangas de seu vestido, numa pose exultante.

— Ao que tudo indica, ele foi atacado por algum animal feroz, um leão do mato ou um gato selvagem. O que sabemos é que seu corpo está um pouco devorado e jaze há mais de dois dias.

— Então ele estava vivo há uma semana atrás? Já se passa tanto tempo... onde esteve? A procura não pôde ser interminável, deve ter passado por alguma vila ou até mesmo um castelo. – Otto comentou, porém quem respondeu com a filha de Catalina, notoriamente tomando a palavra para a surpresa da mãe.

— Já investigamos isto. Ele deve ter passado por um cavaleiro antigo, e depois em um mosteiro. A maior parte do tempo seus soldados caçaram para comer ao redor de fogueiras. – ela percebeu a próxima pergunta de Otto: onde estavam os soldados? E por isso se precipitou em responder – Os homens não foram encontrados ainda, mas suspeitamos que tenham feito o trabalho.

“O trabalho”. Giselle deletou aquela frase de sua memória imediatamente, pois não queria compreender nada do que se passava no mundo. Queria apenas ir embora e deixar todos se matarem em paz. Otto, no entanto, virou o rosto para ela e sorriu.

— Nosso objetivo está cada vez mais próximo.

Catalina exclamou uma gargalhada.

— O seu objetivo, querido. O meu está completo. Sem um casamento firmado ou herdeiros por parte de sua filha, a Casa Baratheon é agora responsabilidade de meu esposo, o irmão do falecido Lorde. E, posteriormente, de meu filho.

— Devo parabenizá-la, jogou muito bem. – Otto fez um meneio irônico, porém Catalina não notou, já que era uma mulher tola e manipulável. Talvez estivesse convicta de ter vencido, mas mal sabia que fazia apenas parte das peças do tabuleiro do Verdadeiro Príncipe. Laysa encarava Otto com uma intensidade peculiar, no entanto, como se estivesse a par daquela ironia e soubesse da deficiência de sua mãe. Para Giselle, aquela menina parecia uma boa jogadora, desde que soubesse ficar em silêncio como estava e se envolvesse com as pessoas certas, como agora. – O meu casamento, eu espero, que logo esteja acertado com o seu esposo. Digo, Lorde Baratheon. – Otto sorriu.

Catalina tocou as costas de sua filha, que, um pouco assustada, inclinou a cabeça e murmurou um “com muito prazer, milorde”. Algo que Giselle jurava ter sido ensaiado com muito desgosto. Mas Otto não parecia ofendido, na verdade ele estava adorando aquilo. O pai nunca fora um bom político, mas para o bem de Jardim de Cima, o herdeiro era. Ele havia comprado a causa dos Baratheon apenas para se casar com Laysa Baratheon, a filha do próximo Lorde, e assim cair nas graças da família tão abastada. Isso era um ótimo modo de fazer frente a Marca e Jardim Suspenso, onde os Valois sempre ameaçavam o domínio dos Tyrell. Com as terras ao redor dos dois reinos em favor dos Tyrell, os Valois tomariam mais cuidado. As notícias diziam que o novo Lorde Arryn conseguira casar sua irmã mais nova com o Rei da Marca, um feito impressionante para uma Casa tão pobre e insignificante quanto os Arryn. Aquele erro seria a queda da Marca, pois junto do Verdadeiro Príncipe, Otto planejava tomar as terras da Marca e Jardim Suspenso para si. E para que uma parte de seu plano desse certo, ele abriu mão de uma outra peça: Giselle, que serviria como um casamento para alguma estratégia. Mas ele a usou cedo demais com o acordo por Betyne e agora teria de agir sozinho.

— Soube que foi convidado a passar o verão na Corte. – Catalina disse, com um sorriso afiado. – Espero que tenha uma ótima estadia. A Corte é sempre um lugar estonteante.

— A Corte? – Giselle ergueu suas sobrancelhas louras para o irmão, que parecia derreter a mulher com os olhos azuis. Ele, por fim, voltou-se para ela com um sorriso calmo. – Isso é tudo parte do seu plano!

— Mas é claro. – ele segurou sua mão – Selie, vamos falar com franqueza: o que um senhorzinho do Norte pode te oferecer? É muito mais valioso se envolver com algum membro da Corte, como os Martell ou os Valois.

— Eles são inimigos do Rei e por isso fazem parte da Corte. Mantenha os aliados pertos e os inimigos mais perto ainda. – ela murmurou, afundando-se no sofá, sentindo a desilusão tomando-a pelo impacto. – Você mentiu para mim. Não havia nenhum Karstark neste torneio, havia?

— É claro que havia, eu não seria tolo de te dizer algo de quem não estivesse aqui. Eu menti apenas sobre ter ido falar com ele. – Otto disse, com toda a honestidade expressa em seus olhos mortos. Giselle queria gritar, porém não fez nada mais do que respirar fundo e encarar o chão. Catalina e Laysa pareciam desconfortáveis com o ambiente. – Perdoem minha irmã, ela ainda não compreende o seu lugar. Muito bem, é verdade que irei a Corte com o intuito de casá-la com Aaron Blackfyre.

Giselle engoliu com toda a dignidade. Depois que Otto havia contado todo o seu plano e mandado as Baratheon para fora do quarto, ela não pôde mais aguentar aquilo e agarrou-o pelo gibão.

Seu paspalho! Mentiroso! – gritou – Quer me casar com um bastardo!

Não é um bastardo. É um dos senhores juramentados a Casa Targaryen.

— Seu sangue é o de um bastardo!

— Os dragões têm filhos entre irmãos e você reclama que quero casá-la com um homem que descende de um bastardo real? Queria que eu a casasse com o príncipe Aerton?

— É um príncipe. É diferente. – Giselle revirou os olhos, embora ainda estivesse irritada com seu irmão, agora muito mais conformada com a situação. Ela não era de se abalar tão facilmente, custava muito para perder a paciência ou a sutileza. A moça esperou que seu irmão fosse se desculpar, porém ele apenas abriu um sorriso de lado e tocou sua bochecha com afeto fraternal, verdadeiro e puro.

— Só quero o melhor para você, Selie, e se isso significa ir contra a sua vontade, eu irei, pois é melhor que me odeie e seja feliz, do que me odiar e ser infeliz.

Giselle riu.

— De qualquer modo, papai sabe disso? Nosso convite para ir à Corte? E quanto a Rosemary e Magnolya? Onde elas ficarão? Não concordo com mantê-las conosco, são apenas crianças, e esses acertos são difíceis demais para manter todos a salvo.

— Eu sei disso tudo, nunca exporia as minhas queridas irmãs a algo perigoso como a Corte. Enviei uma carta a nosso pai, dizendo-lhe do desejo do príncipe, meu amigo, de nos ver e quem sabe firmar um casamento entre você e a Mão do Rei, enquanto eu busco uma boa esposa, que por sinal se parece muito com Laysa Baratheon. Minhas irmãs menores são jovens demais para a Corte e mesmo Rosemary prefere rever o seu querido papai. – Otto explicou toda a situação com simplicidade, algo que Giselle gostava em seus modos, a simplicidade e honestidade de todos os seus golpes, por mais que a princípio fossem perversos e escondidos.

— Aquela garota, a Laysa, não é tão bela quanto sua prima. Betyne ainda tem grande valor, pois é a filha do Lorde, ela ainda tem direito a algumas terras perto de Ponta Tempestade, se não estou enganada. São lugares férteis e com clima mais calmo. Tem certeza de que foi um bom acordo? – Giselle comentou, observando a face de Otto, como ele reagiria àquele comentário um pouco maldoso de sua parte.

— Minha irmã, eu a tenho em grande conta no meu coração, sou grato a ti por mil coisas e sei que serei por mais mil, no entanto não permito que se dirija a minha noiva desta forma. – ele se empertigou, os olhos azuis assumindo a expressão gélida e séria de antes, junto dos ombros retos. – Minha futura esposa não tem nada além dos laços de sangue com a família, mas ela ainda é uma Baratheon e, caso seu irmão venha a morrer sem herdeiros, eu serei o próximo Lorde da Tempestade. – ele vociferou, como se aquilo fosse o maior triunfo de todo o plano. – E quando o Verdadeiro Príncipe se sentar em seu trono, o que lhe é de direito, então eu terei poder suficiente para dizimar de uma vez por todas aquele bando de ciganos que se dizem reis!

— Vejo que tem muita fé nisso. – Giselle sorriu. – Boa sorte, querido irmão.

º º º

Dedilhava com destreza, a harpa parecia quase uma extensão de todo o seu corpo, apoiada sobre suas pernas e quadril, envolta em seus braços e manuseada por suas mãos, quem a visse ali a tocar e cantar não diria que se tratava da filha de um nobre, que normalmente tocam sem emoção ou talento, mas da filha de um menestrel, que compartilhava a paixão do pai. Talvez fosse verdade, porque tanto Lorde Tyrell quanto sua filha não tinham nascido para a política, mas para a arte. Giselle não conhecia bem a sua mãe, pois esta falecera quando era ainda jovem, após o parto de Magnolya, com uma hemorragia que não cessou por três dias, levando-a a uma morte lenta e fria. Tudo o que se recordava era de uma mulher intuitiva e irritável, com um temperamento que beirava o cinismo. Tal como Otto. Talvez o fato da personalidade ter passado para o filho e a personalidade do esposo ter passado para a filha, fizessem todas as desavenças do casamento conturbado serem enfim organizadas, pois agora Otto colocaria ordem em Jardim de Cima e Giselle se casaria para tocar e cantar a seu esposo, o resto da vida.

— A alma de uma dama jamais expõe-se, seja por palavras ou pela música. Jamais pela poesia e é absolutamente pecaminoso pelas atitudes. – disse Madame Boulan, que acompanhava ela e as irmãs naquela viagem. A senhora comandava as demais damas de companhia e instruía as crianças para o bom caminho. Enquanto dizia isso, seus olhos claros e enrugados se voltavam ligeiramente para Giselle, sentada sobre sua cama, no extremo canto do quarto que compartilhava com as irmãs, desde que a família de Lorde Baratheon chegará ao Sentinela. Em algumas horas estaria viajando e por isso a mulher mais velha não parava de dar instruções e de lembrá-las de arrumar todos os pertences dentro de seus baús, embora este fosse o trabalho dos criados e damas de companhia.

— Mas Selie já é uma mulher, não uma dama. – Rosemary defendeu a irmã com um comentário gentil, quase inofensivo, se Madame Boulan não fosse muito perspicaz. Ela logo trincou os dentes e acariciou a cabeça de Rosemary com certo desgosto.

— A mulher só existe depois que um homem a toma como sua mulher. Até lá, ela continua sendo uma dama.

Giselle apenas continuou cantando e tocando, suas pernas abertas em uma posição vulgar, com a camisola de linho fino e transparente, o que tornava toda a cena digna de um quadro do pintor mais romântico dos Seis Reinos, as longas madeixas louras deixadas à própria sorte, caindo pelas costas e se perdendo nos lençóis da cama. Ela cantava com sua voz de contralto, nobre e imponente, com a força de um fôlego de flauta.

Rosemary e Magnolya não eram companhias que a irmã apreciava, nunca se dera bem com crianças, na verdade tinha certo receio em permanecer com elas, sempre temendo que ensinasse alguma coisa errada, como a vulgaridade ou a ganância. Otto não escondia a sua ambição e insensibilidade das irmãs mais novas, e elas não pareciam se importar. No entanto era como se todo o afeto que não davam a Otto fosse para Giselle, e assim elas a idolatravam, imploravam para dividir o quarto ou para ouvi-la cantar, esquecendo todas as aulas de harpa ou canto, pois não se importavam em fazê-las por si mesmas, tendo como referência apenas a irmã. E Giselle desesperadamente tentava despistá-las. Mas às vezes nem mesmo sua alma de poeta se atormentava com ambas e assim ignorava a existência de todo o mundo para ser ela mesma.

— ....o que está fazendo, milorde?! – Madame Boulan exclamou, e Giselle abriu os olhos, vendo o irmão sorridente parado a centímetros de distância de seu rosto. Continuou cantando.

— Não é óbvio que estou hipnotizado por uma sereia? – ele respondeu, inclinando-se lentamente sobre a irmã, como se fosse abraçá-la. Madame soltou um grito de horror e empurrou as duas meninas menores para fora do quarto, fechando a porta com um estrondo que fez Otto e Giselle caírem em gargalhada por um bom tempo. – Uma puritana, olhe a terrível companhia de nossas irmãs.

— Mas você também é terrível – Giselle revirou os olhos, empurrando-o para longe da cama. – O que foi?

— Apenas vim avisar que tomaremos carruagens diferentes. Elas irão para Jardim de Cima e nós para Porto Real. É justo que possamos não ter de aturá-las até metade do caminho, certo? – ele suspirou. – E mais uma coisa: preciso que corteje o jovem Arryn.

— O plebeu? – Giselle enrugou o nariz, porém Otto negou com a cabeça. – O mais novo? Por quê? Não vou me casar com Aaron?

— Sim. Mas é sempre bom manter contato com bons aliados. – Otto murmurou – Soube que o rapaz é uma flor desabrochando e que adora escrever cartas. Mande uma, diga que achou bonito nas Terras da Tempestade.

— Sabe o quanto isso é vulgar? – ela cruzou os braços, irritada – Eu não faço as coisas deste modo. Seduzir uma pessoa a distância requer tempo. Você tem tempo?

— Não... – Otto suspirou. – Tudo bem.

— Por quê você insiste em me dever coisas? Um dia eu irei cobrá-las, você sabe.

Ele sorriu e virou as costas, quando saiu do quarto, Giselle sentindo o pesdo da harpa em seus braços e colocou-a dentro do estojo de couro e prata. Fechou-a e então se deitou na cama com um pouco de melancolia. Seu irmão tinha mil planos diferentes, e para colocá-los em prática, precisava de mil pessoas dispostas a fazer o que ele pedia. Era engraçado, se não triste.

Notas finais
Enquete de votação - Vote em quem você gostaria que estivesse no próximo capítulo: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScMtFFoW2HXaNlMIw_HT0peRfrf6G1pyjp4QqJNFQ4HCfSHSw/viewform Cada personagem na lista tem um polo da história diferente, caso vocês estejam se perguntando " e o resto da família?" eles aparecem junto do personagem, às vezes até de diferentes famílias, isso depende de como a história é (por exemplo, no capítulo da Giselle, a Laysa apareceu, etc). Beijos de Lady Savoy!