Notas iniciais
Boa leitura.

Ulula e Bruxuleira

“Posso ser de mel, e de veneno. Posso ser muito humana, e muito bicho também. Me morde e eu te como.” — Clarice Lispector

— Eu sei muito sobre tudo – ela explicou, tocando a ponta de seu nariz com o próprio, fazendo-o sorrir um pouco mais. – Desde Lys até Myr, tenho visto muitas coisas extraordinárias.

— Muitos homens, não duvido.

— Eles... – a prostituta riu, mordiscando-o pela orelha e então respirando sobre seu pescoço, letargicamente, envolvendo-o numa cortiça esfumaçada de luxúria a qual Lucien não se entregava há muitos anos, desde que sua vida se tornou tão ocupada e desde que mulheres se tornaram apenas... segundo plano. – Temos homens em todos os lugares. Nada de extraordinário neles.

— E, no entanto, você os usa.

— Muitos diriam que são eles que me usam – a lysena murmurou, arrebitando os lábios, junto dos seios e de todo o corpo, montando-o com tanta destreza e suavidade que só notou quando já era excitado ao movimento lento e vigoroso de suas pernas. – Mas tem razão. Eu os uso. São tão pateticamente iguais. – ela suspirou, porém o suspiro não lhe pareceu de frustração, e Lucien se permitiu morder os braços para refrear a vontade de grunhir animalescamente. Homens não fazem sons estranhos. Nem mesmo quando estão sendo servidos.

Todo o quarto cheirava a fumo e óleos de myr, porém bem alto nas cortinas, as cores alaranjadas e os beija-flores dançavam com a brisa quente que vinha do mar. Jardim Suspenso continuava com a vida monótona da Corte e, se não fosse Deleesy nos últimos cinco dias, ele não teria suportado esperar mais ainda pelo noivado de sua irmã. Até mesmo Syerra tornara-se impaciente quanto a isto, sempre delirando sobre seu casamento e insistindo para encontrar-se com Sua Majestade. O Reizinho, como muitos de seus nobres chamavam, por ser tão jovem e debilmente bondoso, prosseguia com o discurso de que aguardava a chegada dos membros mais importantes de sua Corte, um evento tão grande não poderia ser realizado sem a presença de Lorde Nightingale, Lorde Botton e Lorde Shadowhunt. Quando, naquela tarde, ele anunciou que teriam também a presença de Lady Layse Baratheon, Lucien escapuliu imediatamente para o quarto da lysena.

Deleesy era uma das convidadas de Vossa Graça, ela e mais três moças das cidades livres, juntas formavam um belíssimo coro, que cantaria para Syerra a cada amanhecer e pôr-do-Sol. As três primeiras eram donzelas, recatadas e muito educadas, sabiam o idioma comum assim como sabiam línguas que ele nunca havia ouvido. Cantaram de tantas formas diferentes durante aquela quinzena que Syerra já queria empurrá-las para fora de seu quarto. Deleesy, no entanto, era a mais nova do grupo, e a mais bela. Também não era donzela. Na verdade, era uma prostituta. Uma escrava prostituta. Ou uma cortesã, assim como chamavam em Jardim Suspenso. Rei Rhomeo não se importava em manter alguém de tal estirpe sob seu teto, porém muitos nobres sussurravam que suas senhoras se sentiam nauseadas ao vê-la caminhar pelo palácio. Jardim Suspenso não tinha prostitutas, Vossa Graça detestava qualquer tipo de prostíbulo ou bordel, e logo o destruía. Mas ninguém diria que seu palácio já se tornava um centro popular de atendimento.

— Está pensando muito – ela comentou, parando de se movimentar e encarando-o. Deleesy era uma moça adorável. Uma pele tão diferente quanto intrigante. Era escura. Mas não escura como a dos homens de Myr que ele via nos portos, era algo mais claro, mais amendoado. Assim como seus olhos, eram claros como os lysenos e tinha cabelos crespos e volumosos, que não tinham o aspecto de sujos, como ele sempre achara, mas eram soltos e cheiravam a limão. Sua pele, no entanto, continuava a ser o que mais o intrigava. Era tão macia que quase não se parecia com a pele de uma jovem, e sim com a pele de um bebê. Seus pelos eram finos e a preenchiam nos braços, costas e pernas, eram tantos, sem qualquer falha. E ela não parecia masculina por causa deles. Parecia ainda mais encantadora. – Você continua pensando demais. – ela arremeteu-se e fez uma cara de desgosto, enquanto Lucien exclamava de dor.

— Isso dói! – reclamou.

— Também me dói ser ignorada. – Deleesy resmungou, cutucando-o no peito. – Está pensando em alguém? Está pensando na princesa? Queria que fosse ela? Ou seria a sua querida irmã, por quem beija o chão por onde caminha? Eu poderia ser todas elas, se quisesse. Mas insisto em ser Deleesy. E você me ignora.

— Não a ignoro. – ele se desculpou, tentando se defender. Lucien Arryn piscou os olhos e então tomou consciência de sua real situação. – Cale a boca, você é uma prostituta. Só acabe logo com isso.

A moça avermelhou-se, tornando suas bochechas castanhas em um rubro vinho e então esmurrou-o no peito, já saindo de cima de seu corpo e alcançando seu véu no chão. Enrolou-se e caminhou apressadamente para a porta, abrindo-a sem prelúdios para ver quem estaria no corredor.

— Saia. – ela exigiu, com seus olhos lilases tão mágicos, quanto irritados. Não acredito que estou sendo enxotado por uma prostituta.

Ele se sentou e vestiu as roupas, tomando seu gibão sem abotoar e então abandonou-a. Deleesy bateu a porta com tamanha irritação, que o teto soltou farelos de pó e ele viu uma pequenina aranha caindo de sua teia, até pousar sobre um dos quadros de Rei Garven III de Valois, o terceiro rei de Jardim de Baixo. Continuou pisando duro, até topar com um guarda no corredor. Ele o saudou, mas Lucien ignorou e entrou em seu quarto, que por coincidência estava com a porta aberta. Elric ergueu uma sobrancelha ao vê-lo tão desarrumado e irritado.

— O que houve? – o irmão perguntou, se levantando da poltrona.

— Saia daqui! – Lucien rugiu, agarrando-o pelo colarinho da camisa de linho por debaixo do gibão e o arremessando porta afora. – Eu não o chamei!

— Sim, você me chamou! – Elric respondeu. – Não se lembra?

Demônios! Lucien respirou fundo de olhos fechados e então exigiu-se amaciar sua ira. Uma prostituta. Era somente isto. Não precisava se sentir desonrado por causa dela. Ela não lhe devia nada. Ele não lhe devia nada. Uma prostituta. É só isso que é. Seu irmão notou que estava pensativo e então entrou novamente no quarto, fechando a porta.

— Você parece incomodado com algo, Lucie. Me diga o que houve?

Eu chamei uma mulher de prostituta. Uma mulher incrivelmente linda. E que realmente é uma prostituta. Mas eu nunca paguei por ela.

— Mulheres – respondeu – Syerra e essa princesa tonta que fica escondida no quarto o tempo inteiro. E agora a Baratheon. Elas servem apenas para me atormentar!

— Claro – Elric sorriu. – E deve ser incluído Vossa Majestade?

— Ah! É a pior de todas! – Lucien soltou uma gargalhada, enfim seus ombros relaxavam. As vezes as doses de sarcasmo de Elric serviam de algo. Ele apontou as cadeiras no quarto e eles se sentaram de frente um para o outro. Como seu pajem não estava ali, agarrou o jarro antigo de vinho e serviu o resto da bebida em dois copos já usados por eles mesmos, na noite anterior.

Elric acompanhara a mudança em seu irmão por toda a quinzena. Primeiro estava seriamente envolvido com o noivado de Syerra e com os acordos do rei. Depois se tornou interessado nas questões políticas do reino e passou a conversar com muitos nobres, descobrindo as opiniões favoráveis e desfavoráveis a Rhomeo. Agora, há mais ou menos quatro dias, estava tão distante de qualquer política ou responsabilidade que a menor fagulha de descontentamento o deixava completamente irritado. E a menor fagulha de alegria o deixava risonho. Seu humor oscilara tanto, que Elric aprendeu a jogar com ele. Atinja os seus inimigos, zombe do rei, faça-o pensar que está ao seu lado, no que quer que seja. E ele ficará feliz.

— Vamos beber como ontem? – perguntou, já virando o copo com todo o líquido. Estava azedo. Com uma careta, engoliu tudo.

— Vamos beber e tratar de mulheres – concordou Lucien, bebendo e em seguida fazendo uma careta também. – Você precisa se casar.

— Eu sei.

— Há alguém em mente? – o irmão mais velho ergueu as sobrancelhas, curioso. – Alguém que não use uma coroa?

Elric riu.

— Não tenho interesses por Ophelya. Como você disse, ela é tola e fica trancada em seu quarto. Como usufruir de uma esposa que não quer te ver? Nem você, e nem o mundo. – Elric pensou, batendo o dedo sobre os lábios. – Sugerir uma moça do Ninho da Águia é aceitável?

— Depende da moça. Mas imagino que os lordes prefiram que eu me case com uma das donzelas. Vamos usar o seu casamento para algo mais útil.

— Algum lugar específico? – Elric questionou e então viu os olhos de Lucien brilharem. – Dorne. Não. Por favor, eu já lhe disse que não! Ela nem mesmo seria uma donzela!

— É claro que seria. As moças nobres de Dorne não são camponesas, Elric, lembre-se disso.

— Por que uma princesa? E ainda mais uma bastarda! Não, eu me recuso.

— Se está tão convencido de que Dorne e uma aliança com o Rei Dornês é tão impossível, mesmo com seu filho herdeiro se casando com uma Baratheon...

— O que tem? Betyne não é a herdeira. O novo lorde tem um filho, um garoto. – lembrou-o. – E os Baratheon não são problema.

— Ah, Elric – Lorde Arryn suspirou. – Você realmente não percebe nada. Como é que Samwell Baratheon pode ter morrido na floresta procurando sua filha? Ele, o homem que mais conhecia suas terras e que quase diariamente saía para caçar? Ele era rechonchudo, mas estava treinado. Seus soldados o mataram, é isso que dizem. Mas a pedido de quem? Alguma família pobre da nobreza da tempestade foi enforcada para esconder a culpa do Lorde atual. Ninguém suspeita, mas eu sei disso. Tenho informantes que me contaram dos últimos eventos. Em breve o Lorde e sua esposa irão morrer doentes e o garoto será o herdeiro.

— E o que Dorne tem a ver com isto?

— Betyne entrará com um pedido para ser a regente, e seu esposo virá com ela, é claro.

— Layse será a regente – Elric revirou os olhos.

— Layse está vindo para Jardim Suspenso. E, de acordo com minhas fontes, mantém uma troca peculiar de cartas com Vossa Majestade. – Lucien encarou o irmão com força e Elric compreendeu que aquilo era política. – Essa jovem quer se casar o mais rápido possível, antes que seus pais morram. Se assim for, ela só poderá se casar com um bom partido após a maioridade de seu irmão, e isso significa esperar mais de dez anos.

— Então eu me casarei com ela. – Elric propôs. Lucien piscou os olhos, atônito.

— Se casaria com ela?

— Sim. Ela é a segunda herdeira de Lorde Baratheon. E isso me ligaria a Dorne, sem necessariamente ser por casamento.

Lorde Arryn não parecia convencido. Elric não entendia por quê a surpresa pela sua proposta. Layse nunca estivera fora de suas opções, ela era conhecida pela beleza que tinha e por ser a filha de Osther Baratheon, um homem de talento insuperável com a espada. Ou fora, em sua juventude. Além de ter a mãe masis ambiciosa de todo Westeros. Layse fora a herdeira por quase todo o seu crescimento, sendo preparada para herdar as terras que seu pai ganhara de Lorde Baratheon. Terras boas, que apenas a família do Lorde conseguiria. Muitos se interessavam, por mais que não fosse algo superior a de um senhor comum, e ainda estivesse submetido à Grande Casa.

— Não está receoso? Ela é conhecida por ser tão burra quanto uma porta e se esconder atrás das saias de sua mamãe. – Lucien riu.

Elric ouvira aquilo. Bonita e burra. Uma junção perfeita de mulher.

— Sendo amiga de Sua Majestade, não me impressiona. – ele respondeu.

Ambos caíram em gargalhadas, ignorando o resto da conversa. Já estava decidido. Seria Layse o alvo.

E, como estava desesperada, era impossível recusar.

Elric caminhava calmamente pelo jardim. Aquela manhã estava tranquila, acordara ainda muito cedo, conseguindo ver o nascer do Sol nos rochedos da praia e observou todo o palácio despertar, desde as estalagens na cidade, até os estábulos reais. Todos bocejavam e espreguiçavam, acenando uns aos outros, como pessoas que se conhecem desde sempre. E realmente deveriam ser. Ele sentia falta do Ninho da Águia, perguntava-se o que Madame Cloud estaria fazendo. Ralhando com alguma pobre coitada, com certeza, sem ter Syerra para obedecê-la, sua vida se tornaria muito vazia. E Aste? Ele continuaria treinando com a espada mesmo sem tê-lo por adversário? Elric costumava ser o único páreo ou a altura do mestre de armas. Os pajens estariam entediados com seus corvos e o meistre mergulhado em leituras intermináveis. Todos fariam aquilo que normalmente faziam apenas nos tempos livres. E por causa disso, a atividade se tornaria enfadonha e logo a detestariam.

Assim como detestavam ter os Arryn ali.

Mas, de todo modo, a manhã permanecia serenamente quieta. As ondas alcançavam a areia branca onde os rochedos eram afligidos de noite, e Elric permanecera por horas, apenas observando ululante centelha de calmaria. A brisa, tão fria mais cedo, agora balançava seus cabelos, morna e suave. Como mãos de mãe.

A carruagem apareceu logo, seguida por quatro cavaleiros armados e dois estandartes amarelos, com a cabeça de um veado negro. Da janela do carro, conseguia ver o perfil da jovem que era levada ao palácio. Sua cabeça estava esgueirada para fora da carruagem, observando o castelo, suas paredes e talvez procurando suas muralhas. Jardim Suspenso era um lugar tão monótono que talvez seus reis tivessem se esquecido de construir as muralhas. Uma viagem de barco até ali demoraria uma manhã, ao menos. Estaria tão tarde assim? Não sentia fome, por mais que não tivesse feito o desjejum. Elric retomou a observar as flores do jardim, tão coloridas e alegres, enfeitando o lugar. Flores que ele daria a Syerra, se pudesse colher algumas. A irmã andava tristonha, como um rouxinol preso em uma gaiola, mantinha seu quarto fechado, as janelas normalmente cobertas por cortinas e mesmo as criadas não saíam muito de lá. Nem mesmo se casara e o casamento já a estava desgastando? Talvez o Rei Rhomeo não fosse o melhor para ela.

Mas com certeza era o melhor para o Ninho e para Lucien. O irmão se tornara uma imagem de seu pai, embora não fracassado e covarde, mas igualmente estúpido e egoísta. Não pensava em Syerra ou no Vale de Arryn, pensava apenas em conseguir glória e ser um nome lembrado nos tempos vindouros. Deveria ter se tornado um cavaleiro da guarda real, se era isso que desejava, ou talvez um defensor da honra. Lembrava-se de como ele havia sugerido aceitar o convite de Lorde Baratheon (o antigo lorde) para concorrer no torneio pela mão de sua herdeira. Eles encontraram-na adormecida em um quarto muito bem decorado e ela mesma não apresentava aparência de ter sido raptada. Quando perguntaram-lhe o que haviam feito com ela, tudo o que respondeu foi “Oh, os jantares sempre têm bobos e cantores. Eu os adoro”. E então o Lorde estava morto, e seu irmão herdou o título.

— Agora a próxima na linha Baratheon está vindo aqui, visitar-nos. E ele quer que eu me case com ela. – claro. Antes, Lucien teria sugerido uma moça do Vale, para agradar aos lordes, porém agora que Betyne saíra da mira, ele pretendia exercer essa função, pois Margotie Pryor existia na Torre do Vigia. Uma donzela de vinte e seis anos, que poderia ser descartada, se seu pai não fosse o Protetor do Portão da Lua, enquanto ele próprio estava ausente, e seu tio o Senhor da Torre do Vigia, Guardião do Norte e Expurgador. Basicamente, sua família controlava a entrada e saída de pessoas no Vale, e tinha grande conta com todos os demais lordes, sendo considerada a casa mais fiel e digna, desde os tempos do Rei Águia.

Se fechasse os olhos poderia vê-la, saltitando com Syerra nos Seixos, por entre as pedras da praia. Seu sorriso largo e o corpo pequeno e gracioso, ainda reto e sem curvas, apenas uma garota brincando com sua melhor amiga. Embora, é claro, ele fosse mais novo. A primeira vez que se sentiu homem de verdade fora em uma tarde de verão, enquanto seu pai bebia um banquete com Lorde Pryor e a mãe colhia conchas com a Senhora Pryor, estava ele, Lucien, Syerra e as duas garotas Pryor, na praia. Ele sentado na areia, desenhava com um pedaço de madeira trazida do mar o rosto de Margotie, pois a achava a criatura mais linda da face da terra. Ou do Vale de Arryn. Ela, sem perceber seu olhar estudioso, continuava brincando nas águas claras do mar, junto de Syerra e Lucien. Elric sentiu-se satisfeito pelo trabalho que tinha feito no rosto do desenho e decidiu fazer os ombros e o busto, para desenhá-la por completo. Foi quando percebeu que seu vestido estava todo molhado e grudava-se a seu corpo. O pânico o tomou quando notou algo diferente em suas reações, e então se sentiu envergonhado. Era como se estivesse vivendo novamente a cena. Se levantou, tão vermelho e quente que não conseguia ver por onde andara, até estar atrás de algumas pedras maiores que ele. Quando, enfim, sentiu-se sozinho, tocou-se, e notou o que ele já tinha noção, mas não queria acreditar.

Pensar naquilo o fazia sorrir. A princípio, sentira-se sujo, desonrado, quase pecaminoso. Seus pensamentos a noite foram todos para Margotie e para seu corpo visível no tecido transparente e molhado. Lucien, roncando na cama ao lado, o manteve acordado até de manhã. Às vezes detestava a clareza de suas memórias, pois conseguia se lembrar de como enfiara a mão dentro dos calções, em algum momento da noite, e tocara-se até se saciar. Como podia ter feito algo assim com uma moça tão casta? Sua imaginação borbulhava. Já podia imaginar a cor de seus pelos quando Lucien bocejou e se levantou da cama. Sua espinha inteira congelou e ele se ergueu, retirando as mãos das calças.

Algum tempo depois, escutou uma conversa de Lucien e um cavalariço e aprendeu coisas. Depois, escutou seu próprio pai. O meistre disse-lhe que não estava pecando, quando correu em busca de apoio, e o acalmou com a segurança de que era normal a um rapaz de sua idade. E ainda mais por uma moça como Margotie.

Mas...

Não era certo, era? Pensando nisso agora, depois de dez anos, ele se perguntava por quê não poderia ter usado uma prostituta como objeto de desejo, ou talvez alguma criada, alguma dama de companhia de Syerra, qualquer uma. Mas a verdade é que, desde Margotie, raramente conseguia ver uma mulher da mesma forma. Apenas a lembrança dela já o despertava em todos os sentidos. E, no entanto, Lucien planejava o seu casamento e a tomaria para si.

Layse Baratheon. Esperava que fosse tão enfeitiçada quanto Margot.

Pois bem, chega de procrastinações, Elric Arryn. Caminhar para o palácio, recepcionar a convidada, mostrar-lhe os jardins e quem sabe trocar alguns galanteios. É pelo bem da sua família e não faz mal treinar de vez em quando os seus sorrisos gentis. Claro, pois queria muito ser gentil com Layse. Lucien ainda o pagaria por aquilo. Um dia, talvez, a justiça do Pai caísse sobre ele e então tivesse tudo o que lhe fora tomado. A sua honra, a sua família, o seu amor. Talvez até mesmo a inocência, de que Margot carregava a culpa de ter corrompido. Um dia, talvez não em vida, ele poderia resgatar todas essas coisas. Esses valores ínfimos que pareciam tão pesados e tão importantes para uma vida completa.

Elric subiu as escadas enquanto um pajem descarregava os baús com o brasão do veado. Senhorita Layse recebia as boas-vindas do rei com um sorriso simpático no rosto e as bochechas salientes. Lucien curvou-se brevemente antes de beijar-lhe a mão, e assim que eles o viram se aproximar, o apresentaram.

— Este é meu irmão mais novo, Elric, senhor do Portão da Lua.

Elric segurou-lhe a mão e a beijou.

— É um prazer conhecê-la. Ouvimos muito de vossa beleza, e agora comprovamos os rumores. És magnífica.

— Ora, não precisam de tantas bajulações. – ela sorriu. – Eu e Vossa Alteza somos grandes amigos de infância, e Jardim Suspenso é como um lar para mim. Onde está Otto?

— Otto? – Rhomeo piscou os olhos, atônito.

— Sim, é seu casamento! Onde está todo mundo? E Ophelya?

— A-ah. Bem, eu e Otto enfrentamos alguns problemas pessoais, por ora. Ele está em Porto Real, até onde sei, e você deveria saber também. – o rei ergueu uma sobrancelha, mas Layse apenas sorriu, ingenuamente. – Ophey está em seu quarto. Aposto que adoraria vê-la. Por favor, me acompanhe.

Sua Majestade deu o braço à moça e a conduziu escadas acima.

Quando ambos se foram, Lucien colocou a mão sobre seu ombro.

— Muito bem. – murmurou, e deu-lhe as costas, deixando-o enfim, novamente sozinho.

Elric suspirou. Ela não era Margot.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo, perdão se foi grande demais. É que eu fiz ele em dois dias, e em cada dia eu tinha uma inspiração diferente. Beijos de Lady Savoy.