Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
25 A Vela da Vida
Notas iniciais
A Vela da Vida
“A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração.” — Fênix Faustine
Chega.
Uma vida é uma dádiva, os deuses são bons para com aqueles que presenteiam no nascimento, até a morte. A vida é um tesouro que não pode ser tomado daquele que a possui, mas pode ser anulado, pode ser extinto. Sua vida anulava-se com todo aquele sofrimento tosco e desnecessário. Desnecessário. Lysander não estaria melhor no inferno ou no paraíso, dependendo do que ela sentia. Tudo o que ele passava seja lá onde, era culpa dele próprio e agora precisava continuar a viver, para não desagradar os deuses e nem a si mesma. Ophelya ergueu a cabeça do travesseiro, sentindo o rosto marcado pelas lágrimas já secas. Quanto tempo estivera ali? Perdida em seu próprio luto, um luto insignificante. A morte já havia se ido, já não havia Lysander há meses. O que fazia dela digna de um luto tão longo? Mesmo as grandes rainhas não se renderam tão fácil. Sim, o amava. Sim, o queria.
— Vossa Alteza? – a criada disse, hesitante, ao ver a princesa levantando-se sozinha. Conforme o tempo passara, Ophelya sentira ainda mais o peso das lágrimas e notara que elas não tinham mais pura dor, mas sim uma conveniência, um conforto. Rhomeo a visitava todos os dias, às vezes ela se recusava a recebê-lo, e então o irmão se sentava com as costas em sua porta e ficava lá. Podia ouvir as tosses e a respiração pesada, pois a passagem de ar no corredor castigava muito aqueles que eram mais fracos de constituição. Os guardas, nem mesmo esses, pareciam entender o que Sua Majestade tanto insistia.
Fiz meu irmão sofrer por mim, enquanto tudo o que faço é viver meus dias em ociosidade. Calçou os chinelos e ergueu-se, pela primeira vez em dias sustentando o próprio peso nos calcanhares. A sensação parecia quase estranha. A criada correu para ajudá-la, enquanto se encaminhava até o baú de seus vestidos preferidos. Ophelya de Valois era filha de um rei forte. Era irmã de um rei bom. Ela era uma princesa, herdeira de Rhomeo enquanto não tivesse filhos e logo seria cunhada de Syerra Arryn, uma moça bondosa e amável, tanto quanto seu irmão. Ambos viveriam felizes e ela não queria ser uma pedra na vida deles.
— Eu quero o meu vestido de verão. Vamos à praia hoje. – anunciou Ophelya – Convide Syerra para me acompanhar.
A criada piscou os olhos, atônita, e então correu para o baú, ajudando-a a se vestir, e em seguida correndo para chamar a Senhorita Syerra para o passeio. Quanto mais rápido desempenhasse sua tarefa, mais rápido a sua senhora princesa teria o que desejava, e talvez voltasse a sorrir como antes, quando era uma pequena menininha doce e alegre. Era tudo o que a mulher mais queria em sua vida, e por isso não perderia tempo nem para respirar.
A porta ficou aberta pelo desespero da mulher, e Ophelya caminhou até a janela, olhando o jardim e a praia que estendia no horizonte. Uma carruagem estava parada nas escadas de entrada do palácio e baús eram carregados para dentro por pajens. Quem estaria chegando? Talvez algum convidado para o baile de noivado do rei. Ela respirou fundo a brisa que vinha do mar e então passou os dedos pelos cabelos. Sentia a oleosidade na raiz, embora o último banho tivesse ocorrido há dois dias, apenas.
— Ophelya, minha querida! – a princesa girou nos tornozelos para olhar a porta, onde Layse e Rhomeo estavam parados. A velha amiga correu até Ophelya e a abraçou com comoção, levando-as às lágrimas. Durante anos não tivera notícias de Layse ou de Otto, nem qualquer outro. Mesmo após seu sumiço, era como se todos não soubesse do episódio. Ah! É mesmo, não sabiam. Rhomeo tomara providências para que a existência de Lysander fosse ocultada da face do mundo. Mordeu os lábios, pois já o tinha perdoado por aquilo, não precisava remoer.
— Layse! Que alegria vê-la novamente! Senti tanto a sua falta nesses dias tristes que vivi. É ótimo saber que veio aqui.
Rhomeo pigarreou. Ele não havia lhe dito qualquer palavra sobre a visita de Layse, mas Ophelya não havia permitido que ele sequer entrasse no quarto. Era a culpada de qualquer “negligência” do irmão, sim. Não podia cobrar dele qualquer coisa. Mas por que pensar nisso agora? Layse estava ali, sorrindo e abraçando-a! como amava estar com os amigos!
— Agora mesmo convidei Syerra para andar pela praia, gostaria de nos acompanhar?
— Com certeza – Layse assentiu, virando-se para Rhomeo – Não se importa se eu pular a introdução ao palácio, se importa?
— Não mesmo. – o rei sorriu, por sua vez, surpreso pela decisão que a irmã havia tomado. – Até me alegro que Ophelya queira se divertir com as moças do palácio, creio que você amará Syerra, é uma jovem muito gentil e atenciosa.
Rhomeo descreveu-a como a conhecia, meiga e doce, do jeito que Ophelya uma vez fora. A lembrança o fez ruborizar. Sua esposa possuía a mesma idade de sua irmã, e no entanto havia uma grande barreira entre elas, uma salva com sua pureza, e outra corrompida pelo destino violento. Ouviu um suspiro às suas costas, o hálito quente sobre sua orelha e virou-se, arrepiado. Syerra cobriu o rosto com as mãos.
— Obrigada.
Seu rosto ruborizado era tão belo quanto seu rosto iluminado de curiosidade, e Rhomeo sorriu ao vê-la. As moças se cumprimentaram e partiram para a praia. Era ótimo ver Ophelya enfim libertando-se de seu cárcere, que já havia durado tempo demais. Porém preocupava-o a aproximação tão diferente de Layse e Syerra. A Baratheon conhecia Ophelya muito bem, eram amigas inseparáveis durante quase toda a infância e suas mães haviam ensinado várias cantigas juntas. Já Syerra era uma intrusa, uma ovelha macia e branca, mas ainda assim, não pertencia àquele lugar. Temia que ela se sentisse desconfortável naquela caminhada. Não preciso me preocupar. Se Ophelya voltou ao normal, então ela saberá o que fazer. Pensou, enquanto voltava a organizar suas tarefas do dia. Ela sempre sabia o que os outros precisavam.
º º º
Catalina despertou pela quinta vez aquela noite. Estava tendo sonhos, horríveis sonhos. Em um deles, jazia em putrefação enquanto ensinava Yann a tocar harpa. Num determinado acorde, um de seus dedos se prendeu entre as cordas rígidas do instrumento e caiu aos pés do garoto. Despertou imediatamente. Dentre todas as suas aias, apenas Thalyssa havia encontrado coragem para passar a noite ao lado de sua Senhora. Assim que Catalina se ergueu, ofegante, a moça também acordou, como fizera nas outras quatro vezes.
— Milady – Thalyssa murmurou baixo, enquanto coçava os olhos. Seu corpo era rechonchudo e trazia o calor para as noites de tempestade. Infelizmente, aquela era uma noite abafada de verão e ambas suavam muito.
— Apenas outro pesadelo. Volte a dormir.
Obedientemente a aia tornou a deitar sua cabeça sobre o colchão e logo roncava feito um porco velho. Catalina abria fechava o punho, tentando normalizar a sua pulsação. Lembrou-se das noites sombrias em Tarth, durante um longo inverno quando as tempestades assustavam os mortos. Ela correria ao quarto de seu pai e ele a abraçava, tocando seu cabelo e dizendo que tudo ficaria bem.
Não havia sinal de relâmpagos ou mesmo de nuvens enquanto olhava por sua janela, apenas uma refrescante brisa que balançava seus pesados cachos de cabelo negro. Fora uma donzela belíssima, talvez mais bela que Layse. Sorriu. Ao menos algo na vida tinha feito certo, sua filha era tudo aquilo que gostaria de ter sido em mocidade: bela, inteligente, educada, bem-nascida, respeitável. Até mesmo o garoto dornês havia reconhecido-a como a rainha da beleza no torneio (e do amor, quem sabe).
Não queria passar sua noite ao lado de uma aia glutona e asquerosa. Seu próprio quarto lhe dava enjoos. Assim que tocou o pé nu no chão frio, imediatamente se curvou e vomitou. Graças aos deuses não havia sujado suas pernas. Thalyssa continuou a resfolegas na respiração de porco que Catalina tanto detestava.
Ergueu-se apoiando em uma das cadeiras que o meistre usava para observá-la. Ao esticar a colina, sentiu tonturas e quase caiu, por sorte firmou o pé sobre os chinelos de pano. Calçou-os e começou a jornada. Iria para o septo, orar por Layse e por Yann. Seu menininho já estava saudável, e ela continuava acamada. Não poderia vê-lo, sob risco de contaminá-lo novamente. E isso quebrava seu coração.
As sombras formadas pelas grossas velas acesas cresciam no corredor. Encontrou guardas a postos em cada porta, até mesmo nos antigos quartos de Layse e Betyne. Os homens cumprimentaram-na com um meneio rígido, ignorando o fato de estar fora da cama, com o rosto pálido e suor grudando-se em todo o seu corpo. Inteligentes, ela concluiu, pois não devia explicações a nenhum deles.
Caminhou a passos curtos, meio arrastados, conforme o equilíbrio lhe retornava ou ia, oscilando em surtos de velocidade desesperada e mórbido rastejar. E, quanto mais se aproximava do final daquele corredor úmido e estreito, maiores as sombras pareciam e mais vertentes se tornava seus sentidos. A garganta ardia com a bile que subia sempre que a respiração desaparecia no ar pesado. Seus passos pareciam incertos, ora para direita, ora para a esquerda, as mãos apoiando-se nas paredes e a cabeça baixa. Seus olhos não se focavam num só ponto, mas em vários, e nunca sabia exatamente qual deles era o fim do corredor. Os pensamentos desatavam como um turbilhão. Deuses, como aquele castelo era horrível!, como podia ser o preferido de Samwell? Ele gostava da floresta, era ótima para caçar. Os três falcões favoritos de Sua Senhoria foram sacrificados sobre seu sepulcro, e ele foi enterrado com seu machado de guerra amado. Por que não destruíram também aquele castelo em sua homenagem? Não. Não era tão amado.
Osther também não era adorado, o amor de seus súditos vinha mais do respeito que ele impunha do que pelo mérito de seus atos. Todos ali sabiam que era ela quem realmente governaria as Terras da Tempestade. Rezava aos deuses para que tivesse saúde para executar bem aquela tarefa. Morrer duas semanas depois de assumir o título de Lady Baratheon nunca estivera em seus planos. Mas talvez fosse obra dos deuses, sim. A Mãe lhe dera um sonho, onde, sentada sobre o trono de Osther, todos os seus lordes faziam chover sobre ela saraivadas de flechas cheias de veneno. Era um sinal. Todos os seus sonhos eram sinais. A Mãe lhe mostrava que uma mulher não fora feita para se sentar em um trono, mas sim para deitar-se em uma cama. Quando se lembrou do nascimento de Layse e Yann, seu peito se inundou de tantas sensações e recordações que ela teve de fungar, antes de soluçar. Sonhos altos. Impossíveis. Os deuses não queriam aquilo.
Morrer, imagine! Uma gripe já a estava tornando pessimista! Catalina de Tarth, Catalina Baratheon, Lady Catalina. Era uma mulher que construíra seus nomes ao longo do tempo. Uma donzela bela. Uma esposa fértil. Uma mãe ambiciosa. Todos a conheciam por tudo isso, jovens e velhos, sabiam de Catalina das Ilhas do Sol. Sorrisos, segredos, orações, lágrimas. Já havia lutado muito para ser quem era. Assassina. Senhora. Mãe.
Esposa.
Parou em frente ao quarto de Osther, sem compreender como seus pés a levaram lá. O septo de uma mulher casada é a sua cama. Lá ela se quebranta diante dos deuses pedindo para que a tormenta acabe logo e que todos os sacrifícios deem frutos. A última lição que sua mãe lhe ensinou, nas vésperas do casamento, fora a mais inútil.
Osther nunca lhe foi um tormento.
Entrou no quarto que cheirava a incenso e ervas. O meistre tinha dificuldades em cuidar de seu esposo, sempre fora teimoso demais. E convencia-se de estar enfermo. As velas acesas formavam ondas de calor, conforme a brisa soprada da janela aberta.
A cama, como sempre, parecia pequena demais para ele, mas quando afastou os lençóis, encontrou um espaço ao seu lado e ali se deitou, pousando a mão sobre o peito do homem e a cabeça sobre seu ombro.
Gelado. Estava gelado. Como um cadáver.
— Finalmente. – ela se aninhou sobre sua barba grossa. – Se entregou para uma derrota.
A primeira vez que via Osther vencido, que coincidência, ela também se sentia vencida. Pois eram uma só carne, um só corpo unido para a morte. Até a morte. Para a morte. Até. E depois. Mordiscou de leve o lábio, sentindo as lágrimas juntarem no canto dos olhos. Pensou que estava chorando para as lembranças de seus filhos, ou para o corpo gélido e sem vida de seu esposo. Mas não parecia, agora. Os soluços cessaram ainda no começo, e tudo o que restou foram as lágrimas que escorriam silenciosamente por seu rosto, e então molhavam as roupas de linho branco e fino de Osther.
No final, ela ajuntou tudo aquilo que sempre quis, tudo o que uma mulher de sua estirpe conseguiria, com uma vida inteira dedicada a ser... melhor. Melhor que uma Tarth, melhor que a Estrela da Manhã, melhor que as damas que viveram em sua companhia, e que a sua cunhada, a finada Lady daquele castelo horroroso. Ela fora melhor em tudo, filhos saudáveis, fortes e inteligentes. Tão belos que eram capazes de desatar acordos de matrimônio entre reinos. E uma coroa para Osther, para ele que sempre lutou as batalhas de Samwell, e que tudo o que recebia era um quarto em Ponta Tempestade e terras ao sul. Nem mesmo um título. Não era guardião de qualquer portão, protetor de qualquer lugar. Sor Osther. Agora, através de suas forças, Lorde Osther. E para ela mesma, o que mais poderia ter?
Morrer como uma Baratheon.
Mãe de uma rainha e de um grande lorde, esposa de um temido cavaleiro e senhor, filha da Estrela da Manhã. Um sangue tão ralo. E um nome tão nobre.
“Há várias maneiras de uma mulher se tornar indispensável”, ela aprendeu com a septã. Seria indispensável que, quando os meistres escrevessem sobre seu Yann ou sua Layse, que eles dissessem: eram filhos de Catalina, a Grande Lady da Tempestade.
Com um último meneio satisfeito, Catalina morreu.
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