Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
31 Suas Cartas, Meus Versos de Amor
Notas iniciais
Sua Carta, Meus Versos de Amor
“O ódio é a vingança do covarde.” — George Bernard Shaw
A carroça serpenteava ruelas estreitas onde as sombras de ambos os lados os escondiam entre casas e estábulos. As estalagens estavam todas silenciosas, nenhuma vela ardia e nenhum cantor apresentava suas baladas, pois não era um dia festivo, e não seria um dia de descanso pela manhã. Todos haveriam de trabalhar e para ela não seria diferente. Cerenna Luxfero deitou a cabeça conta a haste da carroça, sentindo um leve incômodo no pescoço. Não conseguira dormir por toda a viagem desde Dorne e suas costas pareciam pedra, não envergavam mais do que o necessário para se manter sentada. Os cabelos louros grudavam-se a seu rosto, oferecendo algum conforto contra o frio. Mas num âmbito geral, estava desabrigada no meio da noite, com a cabeça pesada de sono e o hálito quente da fome lhe corroendo a boca. Já fizera trabalhos mais fáceis que aquele, mas também já fizera trabalhos mais difíceis.
O envelope em suas mãos ainda brilhava como mágica, as letras em dourado, tinta de ouro, reluziam à luz da Lua. Príncipe Negro. A encomenda era realmente ousada, dentre todos os casos da pequena Corte dornesa, ela nunca havia assassinado um príncipe. Quem lhes contratou também possuía grandes fortunas, pois o pagamento valia a vida de um exército inteiro. E talvez ela aceitasse matar um exército por tal valor. O que teria a perder? A carroça parou.
— É aqui que você fica, senhorita. – disse o cocheiro, sem descer ou mexer um músculo. Evidentemente ele estava ansioso por se livrar de seu fardo. E ela puxou a própria bolsa para perto do corpo e saltou da carroça, sem ter tempo de se despedir, enquanto o mesmo homem partia ruela abaixo. Perdeu-o de vista assim que as sombras o encobriram.
Estava na parte baixa da cidade, perto dos canais e do porto, não aonde o mercado funcionava a toda energia, mas aonde os pescadores moravam, tudo cheirava a peixe, haviam caixas de espinhas e garrafas de óleo por todo o lado, além de redes rasgadas e baldes de iscas mortas. Muitos cães se aproveitavam daquilo. A ruela continuava para baixo, cada vez mais próxima da fossa onde os excrementos eram jogados, e para o outro lado mais próximo dos canais onde os barco pesqueiros eram ancorados. Sabia que o lugar reservado para ficar não seria tão decadente, enquanto começou a subir a rua, tomando cuidado com as pedras soltas debaixo de suas botas de couro mole. A estalagem era bem visível em meio a toda escuridão, a única que possuía um lampião aceso sob a placa pintada com esmero de um cardume de peixes e a isca de um pescador, grande, simbolizando fartura. A estalagem chamava-se Pouso do Pescador, surpreendentemente, e a porta abriu-se antes que Cerenna a tocasse, revelando um ambiente ainda mais peculiar: seis mesas dispostas em um pequeno salão, com um balcão ao fundo onde um jovem rapaz polia copos de madeira e vidro. Quem abriu a porta também era muito peculiar para a estalagem: uma velha baixa e redonda, com olhos de lince e um nariz cheio de verrugas.
— Você é a garota? – ela perguntou, com uma voz rouca e fraca.
— Sim, senhora. – Cerenna curvou-se brevemente e a cordialidade conquistou a simpatia daquela mulher. Logo estava seguindo-a para escadas acima, acenando ao rapaz no balcão, que tinha um sinal escuro em sua bochecha esquerda.
Esperava por uma cama, apenas, nada muito luxuoso, aceitaria qualquer montinho de palhas com pulgas e uma bacia de água salobra, mas não parou em uma das portas sequer, enquanto seguida a velha. Ela parecia muito exasperada, quase completamente feliz, com os lábios comprimidos fortemente e os olhos procurando nas sombras por alguma aranha intrusa. Ela chegou ao final do corredor, onde uma janela estava fechada por persianas de madeira azul. Estranhamente, não havia trincos na parte de dentro. Mas assim que ela bateu cinco vezes na madeira e esperou mais três segundos, as persianas se abriram e um rosto aterrador surgiu.
Cerenna sentiu um forte impacto em seu coração. A jovem não teria mais que quatorze anos e tinha os lábios muito pintados de vermelho, talvez por sangue. Seus olhos vazados estavam enfaixados por uma linha muito fina que permitia ver os glóbulos vazios e vermelhos. As cicatrizes de queimadura a cobriam da cabeça aos pés e tufos de cabelo cresciam aonde a pele permitia. A velha deu um passo ao lado.
— É seu caminho – apontou a janela. Cerenna sabia que sua estadia em Porto Real seria um segredo, mas não fazia ideia da grandiosidade daquilo. Pulou a janela com a ajuda da menina do outro lado, que após fazê-lo, inclinou-se e deu um beijo na bochecha da velha estalajadeira. Deveriam ser avó e neta.
— Posso ir para alguma cama logo, estou exausta. – pediu a garota, e ela concordou com um meneio ligeiro, seus tufos balançando. Era uma cena bizarra, mas Cerenna tentou não encará-la.
Elas continuaram caminhando a esmos na escuridão, até que a cega alcançasse uma alavanca na parede, que mais tarde notou ser uma fechadura. Ela abriu a porta e tateou o ar a sua frente, até uma estante, que possuía uma vela. Com cuidado, estalou as pederneiras e acendeu a vela. Deveria ter feito muito aquilo, pois Cerenna surpreendeu-se com a agilidade da moça. Ela, então, voltou-se para a porta e apontou a cama pequena a um canto, e deixando a vela sobre a estante, passou por Cerenna sem esperar mais detalhes. A assassina apenas fechou a porta e caminhou em direção a estante. Pegou a vela e colocou-a ao lado da cama. Sentia o cabo da adaga cutucando sua costela e, após alguns minutos em silêncio, tomou coragem para retirar a arma escondida. Estava armada ainda na bota e com uma faca pequena dentro de sua bolsa, ao lado do corpo, mas assim que se deitou, perdeu completamente a noção de tudo, entregue à exaustão, dormiu profundamente.
º º º
Acordou sentindo um leve calor sobre seu colo, era como um pequeno Sol, subindo lentamente. Úmido e com braços moles, abriu os olhos e viu o pano sob sua barriga, sendo esfregado por uma mulher seminua e de sorriso amplo. A prostituta a cumprimentou rapidamente, continuando a lavá-la sobre a cama. Cerenna notou que estava nua, e sentiu-se fraca, procurando por sua bolsa ou sua adaga, em vão. Mesmo as botas estavam no chão, ao lado dos joelhos daquela mulher.
— Não se preocupe, senhora, estamos cuidando de tudo – ela disse com seu sorriso meigo. Cerenna desconfiou daqueles lábios tão familiarizados com bajulações.
— Onde está o seu chefe? – sabia como funcionavam os prostíbulos e não daria atenção a uma mera prostituta. Ela não estava com o dinheiro do pagamento.
— O meu chefe? – ela riu – Você quer dizer o Príncipe Negro. Sim, ele logo virá vê-la. Por isso é preciso estar apresentável.
E com esta frase, deslizou o pano molhado por entre seus seios e lavou-os com cuidado. Cerenna não gostava de ser tocada, principalmente por uma mulher com aquela vida miserável. Mas estava realmente dolorida pela viagem e a noite mal dormida. Aceitou o fardo. Quando a prostituta, porém, colocou seus dedos por entre suas pernas, ela recusou com um chute em seu queixo, que a levou a cair no chão e deixar o quarto com raiva.
Recuperou as roupas e vestiu-as. Era tecido fraco, não levaria seus melhores vestidos para o trabalho. Não queria manchá-los de sangue. As armas estavam todas ali, e ainda muito bem afiadas. Suas poucas moedas da coroa mantinham a mesma soma que na noite anterior, o que era impressionante levando em consideração que uma prostituta estivera ali por tempo indeterminado, lavando-a e vasculhando suas coisas. Não queria tê-la chutado, mas também não pedira por um de seus serviços e não pagaria por nada depois.
De acordo com as palavras da prostituta, o Príncipe Negro logo chegaria. Que grande ironia aquela era, seus trabalhos famosos em todo Westeros foram contratados para a Corte de Porto Real pelo tão aclamado Príncipe Negro e agora estava prestes a entrar pelos portões do rei e matar seu filho mais novo. Que também era seu meio-irmão. Cerenna gostava de ironias em que a vida lhe colocava, principalmente aquela. Provavelmente acabaria com sua própria vida em meio aquele trabalho, mas voluntariara-se especialmente por isso. Acabaria com seu pai da forma que sempre sonhara, e ainda mataria seu herdeiro. Por algum motivo esta vingança apenas lhe fazia gostar mais de seu meio-irmão exilado. Observou-se no reflexo de uma bacia cheia de água, onde a prostituta deveria molhar o pano para lavá-la. Os cabelos estavam todos revoltos, louros do jeito fraco e morto que ela tanto detestava. Os olhos inchados de sono não possuíam qualquer luz lilás, apenas íris azuladas e foscas.
Ela não precisa ser linda para matar um rei. Apenas precisava enfiar a ponta da adaga em seu coração. E deixar que a lâmina fizesse o resto. Enquanto alimentava estes pensamentos de vingança e ódio, a porta se abriu com um rangido fraco e ela levantou-se num salto diante da imagem que ali adentrava, vestido de uma capa preta e brilhante, gibão vermelho como vinho e os cabelos prateados tão característicos. Quase como um espectro, o Príncipe Negro fez uma mesura e beijou-lhe a mão com frieza. Seus guardas estavam dentro e fora do quarto, o quarteto armado de espadas e duas alabardas. Cerenna esqueceu seu ódio e apenas observou a ponta das alabardas. Nunca vira uma arma como aquela antes. Pareciam realmente mortais, mesmo a distância.
— Esperei muito tempo por você. – Asalan Targaryen murmurou, sua voz era penetrante e grave, como a voz de um mestre de armas em meio a seu exército. Mas muito mais que isto. Ele impunha respeito e autoridade apenas por sua voz. Cerenna sem perceber abaixou instintivamente sua cabeça, em impotência. – Eu disse que precisava de alguém que entrasse na Corte, onde há mil guardas em cada palácio e mais mil nobres a perambular por todos os cantos. E enviaram-me uma mulher. – ele sorriu, de forma conciliadora. – Não me surpreende. Ninguém duvidaria de suas habilidades mortais. Você trabalha com venenos?
— Não, senhor. – Cerenna balbuciou, um pouco tonta ainda com aquela figura. Asalan não parecia perceber o efeito que causava. – Uso adagas.
— Isso exige momento certo e muito silêncio. Você é boa, menina?
— Sim. E me chamo Cerenna.
— Um nome muito comum. Já vi muitas Serenas, é ainda melhor para o que fará. Você precisa ser comum como qualquer pessoa dentro do palácio, silenciosa e tosca como qualquer um lá. Mas também precisa ser rápida. Não poderei ajudar em sua fuga se faltar com o horário combinado.
— Estou ciente dos termos do contrato. – ela respondeu, ainda pretrificada. Não sabia o que o Príncipe Negro esperava com aquela visita, mas com certeza não iria embora tão cedo. Ele arrastou uma das cadeiras da mesa ao lado da estante e sentou-se.
— Tragam vinho. E saiam, deixem-me falar com a mercenária em paz.
Cerenna esperou os guardas deixarem o quarto para sentar-se a frente do príncipe. Ela não estava acostumada a ser chamada de mercenária, normalmente em Dorne seus trabalhos eram tratados com honraria, mas não podia esperar o mesmo do resto de Westeros, principalmente em Porto Real. Provavelmente Asalan não fizesse ideia da qualidade de seus trabalhos e achasse que fosse apenas uma assassina qualquer que ganha a vida acabando com a vida de outras pessoas.
Ela não era assim. Cerenna não fazia enterros, ela fazia política.
— Eu imagino que precisamos conversar sobre todas essas coisas de... bem, assassinato. – o príncipe riu fraco, mas ela não sentiu vontade de acompanhá-lo. Toda a imponência da voz de Asalan dera espaço a sua inexperiência com “negócios” como aquele. Ela o achou patético.
— Há algo especial que queira?
— Especial?
— Sim. Alguma mensagem ao morto, ou talvez uma posição específica...
— Mensagem? Não! Apenas... faça seu trabalho. – ele pressionou as têmporas, visivelmente incomodado com aquilo. Cerenna não o estava compreendendo. – Eu apenas quero esperar o...
A porta novamente abriu-se e uma menina pequena de roupas extravagantes entrou saltitante, segurando um jarro de vinho. Ela encheu as canecas entre eles e anunciou um novo visitante enquanto saía. Era aquele que Asalan estava esperando, um homem de túnica marrom escura, cabelos ralos e um queixo fino. Jovial, ele cumprimentou-os e se sentou a mesa.
— Pensei que não viria mais, Meistre Anton.
— É claro que eu viria, conhecer nossa heroína de batalha. – ele beijou a mão de Cerenna uma segunda vez, o que ela achou muito incômodo. O Meistre aparentemente tinha a amizade do príncipe, e por isso fazia parte dos seus contratantes. Provavelmente eles conversariam sobre o dinheiro ou a fuga. Ela, no entanto, não esperava viver o suficiente para fugir. Tudo o que desejava era se vingar, e depois que os deuses decidissem por ela.
— A causa para a qual lutamos, as mortes que serão feitas, tudo será para o bem maior. – Asalan bebericou um pouco de seu vinho. – Quando o rei tirano for destronado, eu assumirei meu reino e o guiarei para a luz da verdade.
— Com toda certeza, Vossa Alteza. – o meistre concordou, olhando de soslaio para a assassina, que apenas ouvia e bebia em goles grandes a sua bebida.
— Bebamos em nome da nossa vitória! – o príncipe fez um brinde e todos o acompanharam.
Cerenna tolerou aquele incômodo. O dia do assassinato seria apenas dali uma Lua inteira. Tudo o que podia fazer era esperar, pensar, manter-se afiada como as adagas e não abaixar a cabeça nunca. Aquela cidade destruiu a vida de sua mãe. Não deixaria que destruísse a ela também.
º º º
Otto serviu-se de mais um pouco de vinho da Árvore e mandou o pajem embora. Sua irmã estava pacientemente assentada ao seu lado no banco, olhando fixamente para os jardins do palácio, onde crianças e damas caminhavam e brincavam umas com as outras. Ele imaginava se em algum momento da vida a irmã já fora uma daquelas meninas ingênuas e doces, mas duvidava. Giselle nunca demonstrou um sinal de infantilidade, também nunca parecia ter mudado. Para ele, havia apenas uma imagem de sua irmã na memória, e era aquela ao seu lado, esperando por mais um de seus planos e jogos perigosos, no seio da Corte e com sua possível morte a caminho.
O Tyrell virou novamente a cabeça para ajeitar o colarinho do gibão. Sentia-se apertado com aquelas roupas pomposas, mas teria de se acostumar a estar bem apresentável, se quisesse participar ativamente da futura Corte de Asalan. Lembrou-se das últimas palavras de seu pai, enviadas naquela carta tão suspeita e triste, no final da primavera. Giselle havia recebido o luto com grande frigidez, como sempre recebia a tudo. Sua ira, sua tristeza, nenhuma de suas emoções era intensa, todas passageiras. Mas não para ele. Enfim, Lorde Otto da Campina. Quando respondeu a carta de suas irmãs, ordenou que fechassem as portas de seu castelo e enviassem duzentos homens para ele em Porto Real. Assim que a comitiva chegou com alguns de seus senhores juramentados para prestar homenagens e seus próprios homens, Otto sentiu-se mais seguro na terra da coroa. Os Targaryen não eram mais uma força tão grande. Desde o banquete em nome do aniversário do filho do rei, o príncipe herdeiro, encontrou apenas um velho carcomido e enrugado jogado em seu trono, coberto de almofadas para não machucá-lo. Um rei fraco levava o seu reino à fraqueza. Enquanto isso, a Mão banqueteava-se cercado de toda a família ruiva e seus senhores, todos muito gordos e cheios de filhos. Logo os Tully seriam os verdadeiros reis de Westeros.
A raiva que começava a borbulhar dentro de si foi apagada com o ranger da porta. Levantou-se para cumprimentar com uma mesura a seu aliado que chegava para acertar os últimos preparativos antes da rebelião. O ato mais importante de toda a trama que estava orquestrando desde o final do ano passado, desde o ápice do inverno, quando Asalan foi expulso da Corte e deserdado. Meistre Anton sentou-se a frente dos irmãos Tyrell, aceitando uma das taças de vinho.
— Trago notícias do príncipe. – ele anunciou com seu sorriso amigável. – Está já hospedado na casa de Orchell, o comerciante, e o mercenário já se infiltrou na cidade. Ontem mesmo acertamos os últimos detalhes. Durante o Dia da Donzela nós levaremos as irmãs para o Grande Septo e lá realizaremos o culto. A virgem estará conosco neste momento e seguira a Senhorita Giselle como uma de suas companheiras.
— Claro – Giselle murmurou.
Meistre Anton não lhe deu importância.
— E quando estiver dentro do castelo, tudo se encaminhará de modo que, se ela for pega, a culpa será somente dela. Os dorneses são profissionais qualificados.
— Quem os qualifica? – Otto sorriu, sarcástico, mas logo fez um movimento com a mão para deixar que o jovem continuasse. Ele não era nenhum Lorde grande e poderoso para dar ordens ao Meistre, e o rapaz sabia disso, mas ainda eram aliados e muitas vezes o orgulho deve ser abafado para isso.
Anton prosseguiu sua reunião, ele era dado a discursos e Otto não o interrompeu além do necessário para fazer perguntas que dessem ao meistre mais chance de discursar. Quando o vinho já havia acabado do jarro, ambos os homens estavam pensativos e Giselle deslizava o dedo por sua saia, implorando para ser liberta daquele lugar. Ela faria o que desejavam, e não gostaria de ser incomodada pelos próximos meses, esperava que assim que a rebelião de Otto desse certo, ela pudesse enfim se tornar livre, casar com alguém da corte de Asalan e viver para seu esposo e seus filhos. Não para um irmão mesquinho e egoísta.
Otto levantou-se e apertou a mão do meistre. Eles se despediram na porta e então foi a vez dela se levantar. Otto sabia que estava sendo muito irritante com Giselle, mas o que poderia fazer além de implorar sua ajuda? Ele precisava confiar em pessoas, e simplesmente não conseguia confiar em outras pessoas além de sua família. Asalan o convencera de que aquele Grande Meistre estava ao seu lado, mas sabia que suas palavras tinham veneno e seus olhos só viam aquilo que era melhor para si mesmo. Se tudo aquilo fosse por água abaixo, seria o primeiro a dar as costas para a causa. E Otto não hesitaria em cortar a sua sagrada garganta.
Quando a irmã saiu da sala, ele chamou novamente o pajem para que trouxesse outro jarro de vinho. Passar o tempo ocioso sozinho era o que mais apreciava, nunca tivera realmente tempo para monólogos ou apenas reflexão, sua vida fora atarefada para crescer em glória sendo o filho de um grande Lorde. Mas o que ele realmente faria quando fosse um lorde? Tudo aquilo que não lhe ensinaram. Política e maquinação, sim senhor.
Espadas são para os pobres que lutam e morrem. Ele duelaria suas guerras numa mesa, bebendo vinho e enchendo sua goela de diplomacia. Era assim que seu pai deveria ter governado as terras da Campina e de Jardim de Cima, ao invés de abrir mão de tudo e lutar guerras perdidas contra os Valois. Ao invés de deixá-lo se tornar um amigo de Rhomeo, ao invés de ensiná-lo a odiar e destruir tudo o que fosse Valois. Seu pai fora um homem fraco, e diferentemente dele, Otto não deixaria barato aquilo que lhe deviam. A começar por aquela Corte corrupta e usurpadora. Acabaria com o apogeu dos Tully e com as manipulações do Meistre. Asalan o faria Mão e eles juntos venceriam Rhomeo com as alianças que tinham com os Lannister de Lannisporto e os Baratheon.
Layse. Ele deveria se casar com Layse.
Tocou de leve a bainha de sua manga, revivendo na memória os traços marcantes e exóticos da morena. Sua noiva era a moça mais bela que já vira em toda a vida, não perderia para ninguém nem quando era apenas uma menina. Adorava a forma ondulada de seus cabelos negros e grossos, como os dorneses possuíam e os Baratheon. Ela tinha aquele sangue selvagem de Dorne, que alguma tia-avó ou bisavó lhe deu, de grandes olhos castanhos e uma pele de mel, macia. Imaginou-a em sua cama, como um pássaro branco e pequeno. Envolveria-a com doçura e ela seria sua por todas as noites. Sim, eram sonhos adoráveis.
O pajem entrou na sala sem ser chamado, e Otto abriu os olhos com frustração. Toda a imagem que havia criado de Layse escapou-lhe por entre os dedos e ele se deparou com um garoto franzino a carregar nas mãos trêmulas uma carta selada. Ele a tomou e o mandou embora, tomando cuidado para estar sozinho quando a abrisse. Mas não era de Asalan, nem dos aliados na fronteira. Era Layse, o brasão do veado Baratheon estava no selo. Ele abriu o papel com cuidado, devorando cada letra escrita por seu pulso, um pulso tão fino e dono de mãos tão delicadas. Leu como lia um de seus livros de poesia, degustando cada verso, cantando amores.
Comunico com muito pesar o falecimento de meus pais. Morreram no Dia do Pai, vítimas de uma enfermidade que rapidamente se alastrou pelo castelo. Meu irmão, Yann, está saudável e será conduzido para Ponta Tempestade, afim de receber a tutela de um de nossos senhores vassalos. A pedido de minha mãe, viajei para o casamento de Rhomeo de Valois e Syerra de Arryn. Prestigiarei o evento até o Dia da Donzela, e então retornarei para Ponta Tempestade. Como é de conhecimento nosso, temos um acordo matrimonial, e desejo cumpri-lo no mais cedo possível. Se for de vosso desejo também fazê-lo, peço que me implore para retornar antes do casamento e que realizemos a cerimônia em Porto Real ou em Jardim de Cima. Aonde vosso coração desejar. Serei eternamente grata por me permitir honrar o título de Lady Tyrell.
De sua sempre amiga e prometida, L. B.
Otto abriu um sorriso sem perceber, sentindo o peito um pouco mais quente do que antes. O que eram pensamentos quando tinha uma carta dela, um pedido para que o casamento fosse aprontado. Desde menino sempre desejara apenas aquilo, o dia em que Layse seria chamada de Lady Tyrell. Não era um nome tão oneroso quanto Rainha de Valois, mas ainda detestava qualquer coisa ligada aos Valois, por isso saber que Layse estava na Corte de Rhomeo deixou-o muito irritado. E nem mesmo havia lhe avisado antes. Faltar ao casamento seria uma grande falta de educação e a última coisa que queria era que Rhomeo a prendesse em seu reino por pensar que a menina tramava algo com seu inimigo. Deveria tê-la perto de si o mais rápido possível, para poder protegê-la. Mas com cuidado. Pois mesmo este desejo repentino geraria grandes suspeitas. Primeiro tinha de voltar para Jardim de Cima, após a rebelião em Porto Real, e cuidar de seu próprio castelo. As terras da Campina já haviam sido muito negligenciadas pela administração anterior. Ele seria um Lorde melhor. Casaria Giselle com Asalan e faria dela uma Rainha. Embora a irmã só quisesse sossego, ele a deixaria na mais alta das posições, e deste modo pagariam as dívidas que tinham entre si.
Ele poderia parecer muito frio, mas queria apenas o melhor para sua família. Em casa, cuidaria da criação de Rosemary e Magnolya. As meninas também foram negligenciadas e mantinham um grande luto por seu pai, sozinhas em um castelo cheio de criados bajuladores. O que estariam pensando? Como estariam crescendo? Ele precisava cuidar de seus corações de donzela, como sabia que não haviam cuidado do coração de Giselle. A falta de uma mãe lhe deu uma personalidade inflexível e insensível. Isso murchava a flor das moças antes que esta florescesse. Não. Casaria-se com Layse e ela saberia como guiar Rose e Maggie.
Mordeu os lábios novamente. Ah, Layse...
Escutou o espirro como se fosse uma grande trombeta de guerra. Ergueu-se num movimento só e sem pensar, saltou para o armário e abriu-o com ambas as portas, revelando a intrusa. A menina tinha os olhos cheios de medo e o rosto pálido. Otto a agarrou pelos cabelos ruivos e a tirou de dentro do armário sem delicadezas.
— Você! Víbora venenosa! Eu sabia que era uma farsa!
— Nunca conseguirá o que quer! – Emmeline gritou, tentando soltar-se de seus dedos, mas conforme se movia, mais apertado ele a segurava, e ela começou a gemer de dor. – Você é.... um.... traidor!
— Você é uma traidora. Você e sua família traíam seu príncipe por direito. Vocês o expulsaram de seu palácio, o fizeram humilhado diante de todos. Vocês enganaram seu rei! – Otto não tinha que discutir com uma vagabunda como aquela.
— Assassino!
As portas do quarto se abriram e guardas entraram rapidamente, obrigaram-no a soltar a menina e a explicar a situação. Antes que percebesse, Emmeline Tully havia escapado. Ela iria diretamente a sua matrona, direto para o covil de que pertencia. Contaria tudo a Namond e os Tully esmagariam novamente a justiça. Não! Otto engoliu em seco, arrumando o gibão e ajeitando seus cabelos desarrumados. Eles não venceriam desta vez. Suas mentiras acabariam ali.

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