Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
32 A Dama de Manto Negro
Notas iniciais
A Dama de Manto Negro
Orchell, seu anfitrião, abriu as cortinas da sala. O modo excêntrico com que decorara a sua casa lembrava em muito o povo livre de Lys e Myr. Embora jurasse com os pés juntos que sempre fora de Westeros e sempre de Porto Real, ainda possuía um leve tom arroxeado nas íris e cabelos claros demais. Enriquecera naquela cidade, com muito suor e tempo bem investido. Orchell de Alto Prado, dono de mil barcaças de mercadorias por todos os portos de Westeros e além mar, com artesões a confeccionar para ele em todo o Baixo Prado. Sozinho, sustentava a indústria artesã de tecido e roupas de Porto Real e a Vilavelha. Em seis meses de exílio, Asalan nunca estivera tão bem instalado em uma casa de plebeus. E mesmo os criados de Orchell adoravam passar e servir o príncipe, que era muito popular entre o povo e seus aliados.
Mas Asalan não se importava em atender a todos eles, nunca seus pensamentos estavam no presente, relembrava o passado e criava o futuro por horas. O Príncipe Negro sempre amara os devaneios, tanto quanto trovadores e músicos tristes. Haviam notas próprias de melancolia em sua alma, um próprio ritmo, tempestades ocultas, ilusão que ele alimentava com sonhos. Se assim os deuses quisessem, então assumirá o trono e salvará seu reino de uma guerra entre todos os reinos. Namond, fora cruel ao afastar o Rei de seu reino, de suas decisões, e quando o próprio príncipe tentou participar, foi acusado de traição. Tudo o que eu sempre quis foi atuar aonde meu pai não conseguia. Mas Namond queria o poder para si, ele dividiu minha família, dividiu meu reino, convenceu a Corte de que eu era um usurpador, um fratricida! Eu! Quando o Rei é meu pai e a herança é minha! Tirou-me de lá pois sabia que Aerton era muito mais manipulável do que eu, sabia que seria ume estorvo em seus planos. Pobre Aerton... Não compreende o jogo dos tronos ao seu redor.
Quando sugeriram matar Aerton, Asalan horrorizou-se pela ideia. Mas logo compreendeu que era o certo a se fazer. Um garoto tão inocente não deveria ser corrompido com o temo que passaria na Corte, sua vida deveria ser poupada para os deuses. O Pai o julgaria com bondade, assim como o coração do irmão era cheio de bondade. Talvez Beata nunca o perdoasse, ou a mãe, mas era um preço a se pagar por seu trono e seu reino. Quando tudo terminasse, a verdade cairia sobre os ombros de Namond Tully e sua corja de manipuladores e mentirosos. Como um amigo tão próximo de seu pai pôde causar tanta dor e sofrimento para sua própria família? Namond Tully era o nome que martelava em seus pensamentos, todos os dias.
— Mas não Jenara... – sussurrou consigo mesmo. Não. A menina Jenara era a única que sairia impune de sua ira. Ela e as garotas menores. Crianças não possuem culpa, assim como os corações puros de Aerton e Beata. Ah, quanto tempo passara desde a última vez que os vira! Quanta falta sentia de seus irmãos, e de mamãe! Até mesmo do velho encarquilhado naquela cama, que era seu pai. Assumiria o trono e teria de se casar, o quanto antes, para evitar a guerra. Deveria unir o Sul, pois o Norte estava além dos alcances da coroa. Os nortenhos se permitiam governar, e desde que o último dragão morreu, somente os Stark foram capazes de manter o poder da coroa sobre o Norte. Agora, Asalan não via razão para decidir o que os nortenhos fariam consigo mesmos, o Norte arrecadava poucos impostos pois sabia que as consequências eram fracas. Seu pai fizera daquele modo, e o rei antes dele. Não havia como mudar a ordem. Mas ele poderia formar uma nova aliança.
Não, a união no Sul era preferência. Talvez casar-se com a princesa Ophelya, para estreitar os laços entre os reinos vizinhos. A guerra contra os Valois nunca fora algo favorável para Asalan, embora fosse para seu principal aliado, Otto Tyrell. O Lorde da Campina ficaria muito magoado com a decisão, talvez até mesmo ofendido, tinha conhecimento de seus planos para casá-lo com sua irmã, Giselle. Mas Asalan deveria pensar primeiro em seu reino, em seu povo. Cuidar deles como Ayeres não havia cuidado.
Mas era em primeiro lugar um romântico, não um príncipe. Deixou que sua cabeça lentamente deslizasse para baixo, até cair em devaneios ainda mais profundos. Quando toda a imponência e a responsabilidade saiam de seus ombros, o que lhe sobrava? Muitos sentimentos comprimidos. Ele era um homem, fadado às alegrias e tristezas de qualquer homem. Admitir isto nunca lhe foi uma vergonha, na verdade achava belo a emoção transbordada no físico. Observava sempre os soldados no pátio do palácio exterior, treinando. Tinham grande força e energia a princípio, suas bocas se contorciam e gritavam a cada golpe. Mas ao término dos exercícios, ofegavam e caíam, exaustos.
Não era nos soldados, entretanto, que seus devaneios alcançavam as emoções. Era nela, em sua pequena e delicada donzela, dos longos cabelos ruivos e sorrisos inocentes. Envolta de pureza e doçura, uma aura, a maciez de pele alva, seus olhos claros como o leito de um lago imóvel e pintado em tela lisa. Pai, que formosura! Que virgem senhora dos corações! Era má e não sabia! Era cruel, vingativa e demoníaca, uma sereia! Mas tão ingênua em todos os seus movimentos! Tão casta, limpa de qualquer iniquidade! Oh, um paradoxo universal. Era Jenara culpada dos pecados que ele cometia? Não, não era! A musa nunca possui responsabilidade pelo seu admirador. É culpa dele e somente dele cair em tal tentação!
Então entregou-se novamente.
E a partir daí não irei mais narrar sobre nosso querido Asalan, pois você, milady de nobre nascimento, se sentiria ultrajada se soubesse dos pecaminosos pensamentos do príncipe.
º º º
Emmeline sabia que a vida de Aerton corria perigo, então correu, esquecendo todas as boas maneiras, e igualmente a Rainha Polya em seu salão cheia de damas de companhia. Seria advertida por não ter feito uma mesura, mas se Polya soubesse do que se tratava, perdoaria imediatamente a garota. Emmeline correu escadas acima, empurrou criadas e soldados, não se importando em derrubar um pote de sopa de suas mãos ou cortar seu vestido na bainha de alguém. Continuo em frente, sempre em frente. Até alcançar a porta do cômodo, o guarda que vigiava o corredor ergueu uma sobrancelha diante da figura esbaforida e desgrenhada da menina.
— Preciso falar com Beata. – disse, esquecendo de utilizar o título antes do nome. Por este motivo, o homem cruzou os braços e tratou-a com um silêncio zombador. Ora, quanta insolência! – Deixe-me passar, seu grande idiota!
O ego de um homem da guarda real é algo a ser preservado. Ele, com seus ombros largos e braços grandes, deu um passo a frente, fazendo-a dar um passo a trás, e disse com uma voz ameaçadora:
— Vá, garota!
Às vezes Emmeline gostaria de saber usar uma espada. Ela esmurrou o peito do guarda, até que estivesse ofegando. Isso é, cinco murros e dois gritos indignados. Como ele não se deslocou, soltou um grunhido do fundo da garganta, quase animalesco, mas pouco parecido com uma carpa vermelha. Sabiamente, ela tinha um código secreto para chamar a atenção de Beata.
— Beata! – gritou com o resto de força que possuía. – Abra a porta! Beata!
E como num passe de mágica, alguém correu até a porta do lado de dentro e a abriu. Era uma das várias damas da princesa, ela segurava o vestido contra o corpo. A princesa estava deitada em sua grande cama, coberta de sedas e bebendo vinho. Como não esboçou qualquer preocupação, Emmeline entrou apressadamente e parou a frente da cama, sem se importar com as condições, a ética ou dane-se lá o que quer que fosse.
— Aerton corre perigo! Todas nós corremos!
— Ah – Beata fez um meneio lento com a cabeça.
— É tudo o que tem a dizer? Eu poderia ter ido primeiro ao chefe da guarda real ou a Namond, mas preferi vir aqui, ouvir sua opinião, suas instruções! Diga alguma coisa!
Novamente, ela apenas meneou a cabeça, mas desta vez também soluçou.
— Que Aerton perca sua cabeça em qualquer espiga. Eu não me importo! Qualquer um dos dois que pegar este maldito trono estará me dando paz e sossego.
— Mas....
— Não há “mas”. Quer contar a Namond? Conte. Quer convocar o exército? Convoque. Agora me deixe apodrecer em paz!
Emmeline notou que a amiga estava em uma de suas crises, e que havia se afundado em carícias e bebida. A tola dama que a acompanhava não se importava com a saúde mental de Beata, apenas em estar em suas graças, obedecendo qualquer ordem. Como uma verdadeira companheira, Emmeline agarrou o jarro de vinho e o jogou longe.
— Não vou permitir que beba mais uma gota!
Beata sentou-se, silenciosamente observando a expressão irritada no rosto de Emmeline. Poucas pessoas ousavam a criticá-la daquela forma. Às vezes detestava como a mãe o fazia, mas a amiga era diferente. Era mais como uma boa conselheira. Esperou pacientemente até que a raiva saísse das bochechas rosadas da Tully.
— Por que não se importa com Aerton?
— Porque eu nunca te disse que preferia um de meus irmãos. Eu só pedi para que espionasse o Tyrell, e funcionou. – disse secamente a princesa, sem se preocupar com a forma com que a outra dama de companhia se sentiria acuada e amedrontada. – O sonho de ser rainha é seu. É preciso mesmo que seja com Aerton? Você o ama, ou ama o seu trono? Tudo o que quero é o meu bem, o seu bem e este palácio.
Emmeline sentia-se traída, triste e tonta. Não pela primeira vez imaginou ser rainha com Asalan. Era difícil, sim, pois já havia construído a imagem ideal do Rei Aerton, mas o outro Targaryen também era atraente e um rei digno. Ora, todos os reis sempre são dignos. São reis. Asalan seria mais amargo, com certeza. Seria mais triste. Mais... mais brando. Aerton seria cruel. Mas forte. Beata conhecia as suas fraquezas, as suas inseguranças. Ambas se conheciam como a duas irmãs e mesmo assim... aceitavam as enganações uma da outra. Sim. Realmente não importava quem seria o rei, desde que ela fosse a sua esposa. Asalan, no entanto, era tolamente apaixonado por Jenara e Namond apoiaria a união, desde que sua querida filha pudesse permanecer inocente dentro de um palácio de conto de fadas. Oh, pelos deuses. Diplomacias eram tão complicadas.
— Você apoia esta traição? – perguntou, por fim, sem receio da resposta que receberia. Apenas a opinião de Beata permitiria que formasse qualquer decisão sem se sentir hesitante.
— Eu – ergue os ombros— financio esta traição. No dia em que Aerton subir ao trono, fará a terra sofrer em sangue e fogo. Não admitirá qualquer outro membro capaz de lhe tirar o direito de reinar. Ele ama o poder tanto quanto ama a si mesmo. Você o conhece. Sabe que será doloroso tê-lo como esposo, em qualquer sentido, em qualquer momento. Tudo o que possuirá é o título. Mas Asalan... é bom e sensato. Ele julga e aceita os defeitos alheios, pode apaixonar-se por você.
— Mas falava-me que ele era forte e asseguraria a Casa Targaryen.
— E é verdade. Com o número de bastardos que possui, nascidos ou no ventre de prostitutas e criadas, com a violência com que convence os homens a se curvarem diante de si e com o apoio dos deuses, não há como ser fraco. Mas Asalan também é forte.
— Você... trai a minha família.
Princesa Beata suspirou longamente, envolvendo-se com os cobertores e abaixando a cabeça. Parecia-se com a criança que fora, mas Emmeline conhecia muitos dos seus talentos, e a encenação era um deles.
— Os Tully nos traíram antes. Quando... envenenaram a mente de meu pai com tantas tolices. Com tantas frivolidades. – ela mordeu os lábios antes de prosseguir. – deixaram-no fraco demais para comandar estes reinos. Seu irmão governa Westeros como bem entende, e nem mesmo minha mãe tem voz no Conselho. Os Targaryen são personagens, visibilidade para o povo, figuras a acenar do Grande Septo.
— Seu pai estava doente! Nós tornamos o resto de sua vida feliz.
— Claro. Meu pai amava seu trabalho. E vocês o convenceram de que Asalan era um bastardo fraco e traidor, e que ele próprio preferia passar os dias trancado no quarto, debilitado.
Emmeline não sabia o que dizer. Como desculparia sua família? Beata tinha razão. Tudo havia acontecido durante anos, mas gerou a destruição do reinado de Ayeres. Todo o entretenimento gasto na Corte, o empobrecimento da mente do rei, convencê-lo de ser apenas um velho bobo... Namond era o responsável por isto, pois pensava que apenas alguém são poderia comandar um reino tão grande. E Asalan era fraco demais para isso. Um menino que preferia ler e cantar a duelar e discutir. Que suspirava de amores por uma moça, silenciosamente, ao invés de descontar as vontades de sua juventude em uma mulher qualquer, rameira ou prostituta. Namond amava Ayeres pelo homem que fora, e via muito mais dele em Aerton do que em Asalan. Sempre fora favorável ao segundo filho.
Mas... quem colocou o veneno naquela taça de vinho? Ninguém sabia. A culpa caira sobre Asalan e ele foi banido do continente. Que importava? Estava ali, em Porto Real, sendo escondido por comerciantes. Ela ouvira tudo pela boca do próprio comandante: Otto Tyrell. E agora tomava conhecimento também do patrocínio de Beata. O desgosto de Rainha Polya começou após o incidente com Asalan e Aerton, provavelmente desejava que o primogênito regressasse. Como fora tola em não perceber. Apenas Namond e Aerton lutavam juntos, toda a Corte os detestava.
E detestavam a todos os Tully. Incluindo ela.
— Nunca serei rainha.
— Se continuar aliada a Aerton e seu irmão, não. Mas com Asalan, poderia ser conhecida como a redimida, que negou suas origens para seguir a sua razão. – sugeriu Beata, abrindo um sorriso pequeno. – Aerton é uma pessoa má. Uma cria má. Não é meu irmão, não é seu prometido. Ele é um monstro. Sua morte não me fará chorar. E acredite, minha mãe também não chorará.
Palavras tão cruéis. Tão verdadeiras. Emmeline sentou-se, enfim sentindo que era hora de admitir fraqueza. Chorou, soluçando. Beata se aproximou e a envolveu com doçura, como uma verdadeira amiga faria. Ela a consolou e acariciou seus cabelos.
A mente de Emmeline não conseguia se livrar dos pensamentos e das memórias. Aerton era bruto. Lembrava-se de quando ele a agarrava pelas saia e se esfrega em suas partes traseiras. Envergonhava-se da lembrança. Também se lembrava de todos os bobos que levaram Ayeres a chorar de rir. E todas as vezes que a Rainha Polya mostrou-se tão odiosa diante dela. Não a detestava por ser Emmeline, mas por ser uma Tully. Namond... sua fé cega naquilo que considerava força destruiria a sua família e as suas terras. Era um homem tolo, inocente e tolo.
Mas quem envenenou o rei?
— Eu nunca a vi como uma traidora, Emme. Você sempre foi a pessoa mais preciosa para mim. – disse a princesa, limpando as lágrimas das bochechas da amiga. O afeto deixava o peito angustiado de Emmeline um pouco mais calmo.
— Quem tentou matar o rei? – ela perguntou, em sussurro.
Beata balançou a cabeça negativamente.
— Duvido que tenha sido Namond. Ele idolatra meu pai, e duvido que tenha sido qualquer um nesta Corte. Sabem que o velho logo morrerá, não há necessidades de causar tanto alarde com um veneno. – então deixou que Emmeline digerisse as palavras, antes de continuar. – Apenas Aerton seria capaz.
— Por quê? – a Tully ergueu sua cabeça, encarando os olhos violetas da princesa.
— Ora... – a princesa respondeu. – Ele é louco.
º º º
A Lua Cheia brilhava no céu negro. Ela já vestia seu manto e caminhava calmamente pelo pátio exterior do castelo. Estava oculta nas sombras, mas andava com graciosidade, feito uma dama comum da Corte. Seu vestido era largo e alcançava seus tornozelos, faltando apenas para os sapatos, visivelmente de grande valor. Seus longos cabelos estavam presos por dentro do capuz e o vento que soprava fracamente naquela noite não fazia mais do que balançar a barra do manto. Uma assassina caminhava para o cenário de seu crime, com raiva ardendo nas veias.
Cerenna nunca vira o castelo, nem mesmo quando procurou por sua mãe em Porto Real. A cidade era grande e, se você estivesse no mais baixo nível, não conseguiria ver mais do que os enormes muros exteriores. Por dentro era ainda pior. Todas as proporções de imensidão a deixavam ainda mais irritada. Corredores largos demais, colunas grossas e altas demais, e as pedras daquele pátio... apenas de olhar por cima delas já conseguia imaginar a profundidade com que estavam enterradas ali.
Por quase vinte anos era fora uma errante, abandonada, perdida em uma vida de crimes e atos de heroísmo oportunos. Seu egoísmo era a fonte de sua sobrevivência, e mataria mil homens para sobreviver. No entanto, daria sua pobre vida para acabar com um rei. E, se possível, o seu reino. Ayeres Targaryen fora conhecido como o pacificador, um homem sensato e humilde que desejou a paz para todos em seus grandes reinos. De que importava isto, se seus bastardos, sangue de seu sangue, andavam jogados pelo mundo? Mortos de fome, obrigados a uma vida de maldades e egoísmos. Não importava quanta paz ele tivesse desejado para o mundo todo, ele não era um pai. Cuidava de milhões de vidas que mal conhecia, mas não podia cuidar da vida que ele mesmo fizera. Que se fodesse o mundo, ela preferia viver no caos e ter uma família a ter o paraíso e continuar assim. Por isso, era melhor matá-lo e acabar com todos os acertos de conta. No final, ela tinha pecados a pagar, pecados de vida.
Luxfero não vacilava em nenhum passo, como uma pessoa que não teria nada a temer, ela sorria para os guardas que se posicionavam em cada coluna, dizia-lhes boa noite e desejava que o Guerreiro os protegesse na vigia, pois faziam um trabalho pelo bem da vida de todos no castelo. Não era mentira. Ela sempre admirara aqueles que estavam dispostos a dar a vida por outros. E a matar por outros. Tolos, alguns insanos e em sua maioria, pessoas ingênuas e de boa-fé, que só queriam uma vida plena.
O pátio exterior terminava de frente aos portões do pátio interior, o lugar onde os membros importantes da Corte dormiam, incluindo o rei e sua família. Ali, a segurança era redobrada, e assim que se aproximou, sentiu alguém puxando-lhe o capuz e revelando suas maçãs coradas de frio. Cerenna possuía a beleza de seu sangue nobre, aquele pequeno pedaço de merda que perambula pelas suas veias. Seus cabelos louros foram revelados, cachos que se enroscavam a toda a graciosidade emanada de sua pele iluminada pelas tochas e os olhos violetas, que raramente apareciam, sempre escondidos pelo azul mais escuro. O guarda teve um sobressalto antes de soltar o capuz da mercenária, e ela teve a esperteza de fingir-se indignada e ofendida.
— Perdão, milady.
— Ora, quanta insolência! – pronunciou as palavras com a língua nos dentes, virando o rosto imediatamente para o portão, que se abria lentamente pelos demais homens a postos.
Eles se curvaram diante dela, chamando-a de milady e senhora. Provavelmente a identificaram como uma moça nobre, mesmo que não soubessem dizer seu nome ou Casa. Isso não importava. Dali algumas horas, estariam se perguntando quem era o culpado por não ter a inteligência de indagar a ela. Cerenna sentia a ponta fria do punhal em sua manga, cutucando o pulso. Um pensamento louco assombrou sua mente: poderia empurrar a lâmina para dentro do próprio braço e sangrar até a morte. Sim. Mas não faria isso. Esses pensamentos loucos sempre a assombravam, culpava seu sangue de dragão, sangue de loucura.
Ela continuou. Não sabia para onde ir, ali dentro. O pátio era menor que o anterior, mas agora possuía muito mais iluminação. Conseguia sentir os olhos dos guardas no muro, talvez deliciando-se com pensamentos impuros, talvez a idolatrassem como uma virgem de casta honra. Pouco se importava com o que eles pensavam, homens eram todos tontos. O palácio estava quieto. Abriram-lhe as portas quando mostrou seu rosto e novamente o fizeram já dentro do salão, em direção as escadas que levavam para o nível superior. Decidiu seguir os caminhos onde os guardas estavam mais bem munidos e em maior quantidade, pois julgou ser o caminho mais óbvio para a família real.
Em determinada porta, viu um manto branco e aproximou-se, com serenidade estampada no rosto. O homem a viu e deu um passo ao lado, deixando o caminho livre.
— Veio ver a rainha? – perguntou, mas Cerenna negou com a cabeça e prosseguiu. Mais uma porta possuía um guarda de manto branco, protegendo o brasão dos Targaryen coroado. Os aposentos do rei. O sangue começou a ferver com ainda mais raiva, mas deteve-se com paciência, sorrindo ao homem e continuando. Por fim, o quarto seguinte possuía um guarda jovem, de cabelos ruivos e sardas pelo rosto. Parecia o tipo de cavaleiro que arrebatava o coração das donzelas nos torneios. Ele estava inclinado contra a parede, ressonando levemente por debaixo da armadura.
— Como está o quarto? – Cerenna perguntou, com uma voz imponente. O rapaz acordou de imediato e piscou várias vezes, recobrando os sentidos.
— Pronto, milady. – ele respondeu. A resposta não lhe convenceu e Cerenna assentiu de leve, prosseguindo sua procura. Se três membros da família real dormiam nos quartos que descartou, então o próximo só poderia ser de Aerton. Ela apertou um pouco o passo, até parar em frente ao guarda mais velho de todos no corredor, com cabelos brancos e tufos de barba pelo queixo.
— A senhorita veio visitar o Príncipe Aerton? – questionou o guarda, visivelmente mais autoritário que os outros.
— Sim. Um presente para o príncipe. – concordou.
Ele a deixou abrir a porta, e ela entrou rapidamente. As luzes estavam acesas, cada vela iluminando todos os pontos do quarto. Aerton Targaryen lia um pergaminho por trás de sua escrivaninha. O tinteiro recendia o cheiro de tinta por todos os lados. O príncipe parou sua leitura e ergueu os sonolentos olhos para a sua assassina, que, ainda parada na porta fechada, perguntava-se como deveria apunhalá-lo sem que ele gritasse por socorro.
— Você... – ele disse, dobrando o papel e levantando-se com dificuldade. Estava embriagado e cheio de sono, seus olhos se demoravam para mudar de foco. – Por que está – um soluço – aqui?
— Vim vê-lo. – Cerenna respondeu, tomando coragem e dando um passo a frente. Aquele rapaz não parecia ter muita culpa de seus crimes. Ser um príncipe no momento errado e no lugar errado. A culpa era toda de seu pai. Do pai dos dois. – Surpreendente?
— Muito – ele sorriu largamente, pousando a mão sobre a virilha e coçando-a. Aquele ato era hediondo frente a uma dama da estirpe que Cerenna queria interpretar, então perguntou-se qual o nível de embriaguez do príncipe. Seria ele capaz de abraçar a morte em silêncio assim? De repente, ele se aproximou abrupto e apertou com força os seus braços. – Há um ano não sai do quarto, querida irmã.
Cerenna sentiu seu maxilar travando-se, o medo de ser reconhecida a tomou de imediato, mas então conseguiu ver nos olhos do rapaz não acusação, mas afeto. Estaria ele, realmente, confundindo-a com a sua irmã? Cerenna nunca vira a família real de verdade, também não sabia os nomes de todos eles, afinal a plebe não se interessa pelos nomes dos seus reis, se eles não são importantes o suficiente. Rei Ayeres criou seu nome pela paz. E nenhuma paz traz reconhecimento, se não for seguida de uma grande guerra. E os tempos eram bons para todos. No entanto, o príncipe não notou seu assombro e a tomou para um abraço apertado, esmagando as armas que ela havia escondido em suas roupas contra a pele da mulher.
— Esperei tanto por este momento. – Aerton disse, beijando-lhe os lábios com a boca úmida de saliva e vinho. O assalto que Cerenna teve fora maior que o anterior e por pouco não o viu colocando sua língua dentro da própria boca, empurrando-o para trás. Puxou a manga do vestido e sentiu o cabo do punhal alcançando seus dedos. – Você veio até mim, então não pode fugir, agora me pertence! – bradou, com fúria explodindo na face rosada.
Antes que pudesse novamente alcançar seus lábios, Aerton Targaryen foi acertado por uma pequena lâmina na posição entre as duas costelas que protegiam seu coração. Sua voz parou de imediato, junto com a respiração, e ele ergueu um olhar de assombro, antes de cair ao chão, imóvel. Por sorte, o sangue não esguichou de imediato, mas saiu lento pelo tecido de seu gibão. As roupas que ela usava foram salvar. O punhal, cravado no peito do príncipe, não tinha-lhe mais necessidade. Puxou a barra do vestido e alcançou a correia de sua adaga, tomando a arma na mão.
Abriu a porta lentamente, bloqueando a visão de dentro do quarto com o corpo.
— Foi rápido, senhorita – o guarda sorriu com arrogância, abaixando os olhos para seu corpete. Provavelmente conhecia o príncipe que protegia e conhecia a sua irmã presa no quarto por um ano. Cerenna sentiu-se insultada profundamente, de maneira real e não disfarçada. Mesmo uma assassina não aprova tais olhares. Ela não era uma puta. Passou a lâmina da adaga pela garganta do homem.
— Rápido, sim.
Quando seu corpo caiu ao chão, chamou a atenção dos demais guardas de manto branco parados no corredor. Eles olharam para ela e depois para o seu colega de manto. Seus rostos passavam de surpresa, atônito e medo. Apenas o rapaz mais próximo da porta do príncipe pode vê-la. Era o guarda ruivo, que dormia. Ele podia enxergar melhor a situação e logo viu a adaga com sangue em suas mãos. Cerenna preparou-se para duelar contra uma espada, mas ele apenas correu até o guarda no chão e assobiou para os companheiros. Todos se deslocaram até o corpo do velho e Cerenna pode contorná-los e correr até o quarto do rei.
Vingança é algo realmente tenebroso. Não dá para se saber como alguém se sente ao realizar uma vingança se você nunca se vigou. O sangue antes cheio de raiva da mulher, agora corria com terror, sua pele estava toda arrepiada e seus olhos moviam-se por todos os lados do quarto. As velas estavam apagadas e podia ouvir a respiração pesada do rei, em sua cama. Tudo cheirava a doença. Uma doença profunda e dilacerante. Perto da cama, panos cheios de sangue e uma bacia de água deixavam visível que sangravam o rei todas as noites. Não sabia que ele estava doente. Se não podia matá-lo como uma forma de término de vida, ao invés de “dádiva”, então o faria sofrer.
Colocou a mão sobre a boca do velho, e ele não despertou. Com a adaga, cortou suas roupas de dormir e traçou uma linha fina. A pele se abriu com facilidade. Novamente ele não despertou. Que droga! Aquele velho era realmente imprestável. Ouviu o som de passos no corredor, os guardas começavam a gritar por socorro aos seus companheiros. Não havia tempo a perder. Afundou a adaga no peito do velho e levantou-se da cama, deixando-o ali. A vingança, no entanto, não tinha um sabor muito satisfatório. Parecia mais um fracasso. Cerenna puxou o manto e o capuz por sobre a cabeça e saiu. A agitação era grande, e todos saíam de seus quartos, assustados. Viu uma menina de estatura mediana e cabelos longos prateados. Seu rosto era largo e os olhos violetas. Por um segundo, pensou ver um espelho. Mas logo sentiu a capa sobre si e notou que a outra garota não usava nada alem de suas roupas de dormir. Ela também a viu e seus olhos expressaram a mesma surpresa.
Deveria ser a princesa, com quem Aerton a confundiu. Não importava. Passou por todos e saiu no salão, correu para as portas e pelo pátio interior. Os guardas na muralha também pareciam se mover para dentro do palácio.
— Vossa Alteza, a senhora está bem? – o mesmo guarda que a deixou entrar perguntou.
Cerenna não podia ser detida agora. A carroça a esperava no porto.
— Preciso buscar o curandeiro.
O guarda distanciou-se imediatamente e fez o sinal do Pai com as mãos. Os seus demais companheiros gritavam desesperadamente: o rei está morto! O rei está morto! Cerenna continuou correndo. Que se danasse o rei morto, ela não se importava com rei nenhum, nem com príncipe nenhum, nem com revolta nenhuma. Ela só queria fugir. E agora! Nos estábulos, ouviu o som de um cavaleiro em corrida e voou para longe quando ele a acertou de encontro. Seu corpo parecia com uma boneca de pano, cujas juntas foram mal costuradas. Já havia quebrado ossos antes, e sentiu a mesma dor agora.
— Prendam-na! – ele gritou. – É uma impostora!
Seus olhos vasculharam a escuridão de sua visão e então, perdeu a consciência.

Fale com o autor