Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
33 EXTRA - Canções de Castamere Pt. 2
Notas iniciais
CAPÍTULO EXTRA – Canções de Castamere Pt. 2
“As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar” – Leonardo da Vinci
Of Monsters and Men — Love Love Love
Cavalgavam por horas desde a última parada. O céu estava muito azul, sem qualquer vestígio de nuvens, sem ventos ou mesmo um calor excessivo. Tudo permanecia como que imóvel, sem nunca tender para um lado. Aquilo não se aplicava a Lyria, é claro. A menina, segurando-lhe as costelas, aceitara tocá-lo após admitir que não conseguia cavalgar sem se segurar em algo, mas o silêncio que a envolvia e a forma com que agarrava apenas com os dedos as roupas de Angus, o fazia tomar ainda mais consciência do quanto ela o detestava. Seu coração se angustiava com aquilo. Afinal, não a havia salvado de um estupro e de seu cativeiro? Agora mesmo cavalgavam para a frente de batalha, onde muito possivelmente encontrariam seu pai ou o seu rei. Ela estaria a salvo, e ele seria um traidor e inimigo, para ambos os lados da guerra. Seu destino se amarrara quase que sem poder decidir por ele, mas, se tivesse a escolha, não teria hesitado contra o primo.
Mais a frente, uma pequena vila se erguia, haviam diversas pessoas ao redor de um poço, tirando água para beber e lavar os ferimentos de moribundos e crianças berrantes. Quando avistou também as casas destruídas pelas chamas, cutucou o cavalo com o calcanhar e sentiu seu próprio cenho se franzir, pouco a pouco. As mãos de Lyria o agarraram com mais firmeza.
— Olhe estas pessoas... – ela sussurrou ao pé de seu ouvido. Poderia ter-lhe causado arrepios, mas tudo o que Angus sentiu foi o seu hálito quente e cheio de fome.
As pessoas que ela mencionava eram mães e viúvas desesperadas, cuidando de seus feridos e mortos. Velhos arrastavam-se com as pernas atrofiadas e estouradas por marretas de guerra. Os invasores com certeza os haviam torturado em busca de informações, ou apenas para diversão. Homens assim eram os piores. Aproveitavam sua armadura dada pelo rei para oprimir aqueles que um dia já foram seus iguais. Meninos do campo, imaturos e loucos. Muitas garotas ajuntavam-se, ajoelhadas, de frente para uma velha e encarquilhada anciã. Notavelmente, a única pessoa ali sem uma expressão de desalento, dor ou algum ferimento mortal. A mulher ignorava os gemidos das moças, e quando o cavaleiro se aproximou mais da vila, ela ergueu seus olhos velhos e apontou o dedo ossudo para ele. As moças se viraram, suas bocas se contorcendo de horror.
Angus não compreendeu o que aquilo queria dizer, na verdade ele pouco reparou na velha, apenas olhava ao redor, absorvendo um pouco do sofrimento de cada um. Logo ao seu lado, na estrada, um corpo estava dilacerado e com marcas que somente um machado de guerra poderia fazer. Mais a frente, uma criança com cinco flechas formando uma coroa sob seus cabelos. Podia sentir o temor crescendo dentro de si conforme Lyria lhe apertava mais. Aquele não era o lugar para uma jovem como ela. Nem mesmo para um jovem como ele. Ou qualquer um daqueles sobreviventes. Afinal, a guerra não era lugar para ninguém.
— Por que nos olham com tanto ódio? – ela perguntou, quase num gemido de dor.
Angus não sabia responder-lhe, por isso manteve o silêncio. Ao alcançar o poço, as mulheres começaram a empurrar para longe seus filhos e algumas fizeram o gesto do Pai. Lyria, tomada por um medo que até então não havia experimentado, desejou que Angus possuísse uma espada e que pudesse protegê-la de qualquer perigo que todo aquele sangue na relva e toda aquele pele rasgada ao seu redor fosse capaz de fazer. Não que acreditasse que pessoas tão inocentes e vítimas, como ela, pudessem lhe fazer algum mal. Mas imagine-se em um lugar coberto de sangue, choro e dor. Instintivamente, ela se agarrava a Angus e ao cavalo, tentando esconder o rosto contra as costas do cavaleiro. Neste momento, a anciã se aproximou deles com um passo lento e decidido. Seu dedo ainda estava erguido.
— Garoto – ela disse, as palavras saíam se sua boca com força. – Você é do Senhor destas terras.
Angus temeu que, se falasse, os moradores da vila começariam a apedrejá-lo, então apenas assentiu.
— Diga ao seu pai que os meus filhos primogênitos estão enterrados há dois dias, e ainda não terminamos de enterrar os outros. Os mais jovens morrerão ainda amanhã e meus caçulas, pobrezinhos, jamais deixarão para trás as cenas que viram aqui. Nossa terra está em pó e nada temos para comer. – ela abria a boca para continuar a falar, mas Angus a interrompeu.
— Senhora, conheço sua dor, mas nada posso fazer. Também não tenho nada para comer, estou fugindo para longe de minha Casa, onde sou traidor.
A senhora trincou os dentes.
— Então vá. Traidores não são bem vindos aqui.
E ele incitou o cavalo para frente. Quanto mais se distanciava, mais alto gritavam os moradores. Mas a lonjura levou consigo o som de suas palavras de repúdio. Angus entendia o que significava ser um traidor. Seu primo fora um traidor e o pai também. Não podia ser também um traidor, pois, além de tudo, nunca traiu a si mesmo e seus atos nunca foram egoístas. Lyria, agarrada a suas costas, ainda o segurava com força. Os dedos de sua mão estavam brancos e amortecidos, mas ela podia sentir cada nervo de seu corpo estalando conforme o cavalo a jogava para cima, naquele trote acelerado. O medo deu espaço ao embaraço, e sentia o peso dos tantos nomes ofensivos que podem ser atribuídos a uma mulher, nesta época.
Teriam que parar em alguma casa, talvez uma estalagem. Trocar as roupas, vender o cavalo, comprar um burro e uma carroça, talvez. Entendia bem daquilo, fugira por um mês dos homens de Lorde Reyne, no lombo de uma égua baia, com vestidos roubados num varal qualquer, surrada e suja, sem banho por dias. Observou a paisagem, as fazendas eram muito grandes e, passando cada vez mais para perto do conflito, o intervalo entre um fazendeiro e outro era ainda maior. Chegou um dia que não avistou ninguém. De repente um pensamento louco a assombrou: e se fossem os últimos seres existentes no mundo? Oh, isso seria o fim de todas as guerras. Mas também seria o fim de... todo o mundo.
O céu escurecia rapidamente, e conforme mais se aproximavam do sul, mais escuras as nuvens se pintavam. Trovoadas chacoalhavam o firmamento e as árvores dobravam-se ao vento impetuoso da natureza. O cavalo começou a relinchar, bravo com continuar a viagem em meio a uma tempestade, mas seria impossível se abrigar no meio do nada, aonde estavam, por isso Angus os levou para dentro da floresta e montou um abrigo entre galhos baixos de árvores, folhas e pedras. Lyria acendeu uma fogueira e retirou o equipamento de montaria do pobre equino.
O sereno deixava os ossos de ambos tremendo dentro da pele, e logo se achegaram ao fogo, tentando passar o calor para si. Angus conseguiu encontrar um pequeno lago e ali buscou água para eles. O esquilo que caçara na noite passada já começava a feder, mas não se importava. Haviam viajado o suficiente para que uma dor de barriga não os atrasasse. Apenas imaginava o que se passava pela mente de Lyria. A menina tinha olhos muito vívidos, porém uma postura receosa. Enquanto parecia ansiosa por dizer algo, permanecia em silêncio, e ele não interrompia suas divagações, pois temia que ela se zangasse.
Novamente, ele colocou as poucas carnes do animal sobre o fogo e cuidou delas. Lyria ressonava lentamente, encolhida ao lado das pedras do fogo, com seus cabelos por sobre os olhos. Era ainda mais bela ali, em meio a vida selvagem, que em uma torre alta de um castelo grande. Podia quase apalpar a felicidade que ela transmitia quando estava desperta e não sabia que ele a observava. Cantarolava com os pássaros, batia os pés no leito de uma lagoa ou rolava na relva. Feito um animalzinho curtindo na liberdade.
— Angus. – ela o chamou, agora apoiada sobre o cotovelo. Não havia notado aquilo, seus pensamentos e memórias sempre o deixavam desatento.
— Sim, Lyria? – respondeu, esboçando um sorriso de desculpas.
— O que pensa quando me olha? – a garota perguntou.
— Olho? Como assim?
— Se me olhastes com naturalidade, eu acharia que apenas pousou os olhos sobre mim. Mas quando me olha, normalmente está pensativo e muitas vezes continua a me olhar depois que me mexi. Talvez tenha algum motivo.
— Apenas penso. Às vezes coisas relacionadas a você. – ele encolheu os ombros, um pouco envergonhado. Achava que olhar uma donzela fixamente era um sinal de avareza, e ele nunca fora avarento com as beldades que entravam e saíam de Castamere. Por mais que Lyria lhe provocasse sentimentos verdadeiros, não podia desrespeitá-la. Principalmente não a ela.
Lyria não sorriu, mas interiormente sorria. Angus não era um homem, mas um garoto, gentil e inocente. Ela jamais o imaginaria como um senhor esposo, muito menos como o herdeiro de um lorde importante. Poderia ser um cavaleiro, mas apenas um de Torneios, nunca em guerra. Perguntava-se o que seria mais triste: um pequeno camponês que abre uma venda de artesanato numa cidade comercial, almejando enriquecer, ou o filho de um nobre que não possui a vocação para a crueldade. Ambos estão fadados ao fracasso. Mas não deixava de ser encantador o modo como era diferente. Fora cortejada por diversos pretendentes no seu castelo Floral, onde morava com a mãe e as irmãs, mas nenhum deles era bondoso em essência. Agiam conforme a etiqueta ao seu lado, mas eram outras pessoas perto de suas criadas e das moças comuns do vilarejo. Ela conhecia a todos esses, sem precisar saber suas cores favoritas ou qual animal gostavam mais de caçar. No entanto, Angus era sempre um poço profundo e cheio de mistérios.
— Me achas bonita?
O rubor subiu ao rosto de Angus antes que pudesse mastigar completamente a frase e o rosto brincalhão de Lyria ao perguntar. Deuses, ela era realmente bonita. Não, não! Ela era divina, como a imagem da Donzela, mas não as estátuas que estavam em todos os septos e castelos, e sim uma personificação da própria em carne humana. Seria possível? Talvez fosse uma benção especial. Mas os olhos curiosos e ansiosos dela ainda aguardavam impacientemente a resposta. Então a deu.
— Sim. Acho. E muito. – não podia ouvir as próprias palavras, de tão baixas que eram, mas Lyria ouviu e aplaudiu com as mãos e os lábios, abrindo um sorriso de puro deleite. Ora, qualquer donzela de verdade adora elogios, tão mais sinceros.
— Então, se tu me olhas com este conhecimento – ela acrescentou a forma de tratamento muito inusual com grande estupefato e indiscreto riso, deixando a Angus apenas um pouco mais de timidez e vergonha, por tal tratamento informal e íntimo. – Só podes apreciar a minha beleza. És mentiroso. Não pensas em coisas, mas pensas em mim, sempre. E em minha beleza.
— É verdade, confesso. – ele suspirou, virando as carnes do esquilo ao fogo, do qual já estava se esquecendo.
Lyria sentou-se ereta, tomando uma pose um pouco mais descontraída e risonha, enquanto enrolava os próprios cabelos ao dedo. Angus não possuía a beleza arrebatadora de um alto e forte homem, não tinha a virilidade e a autoridade suficientes para inspirar tal pensamento. Mas Lyria nunca gostara de tais homens, exemplos de “masculinidade”. Ela os achava grosseiros, rudes, bravos demais. Como se tratar mal alguém ao seu redor fizesse dele um pouco mais viril que os demais. Isso a irritava muito. Angus, por outro lado, nunca havia colocado a mão por sobre seu joelho ao ajudá-la a subir no cavalo, nem se agarrara aos seus vestidos para ajudá-la a descer, como faziam todos os tolos safados que encontrava por ai.
— Na verdade, acho que a amo. – ele disse, com grande surpresa de si mesmo que logo se calou com os lábios mordidos entre os dentes. Lyria arregalou os olhos cinzentos e pousou a mão sobre os lábios, escondendo um grande O. – Esqueças, eu não sei o que disse. Quis dizer que a considero muito, isso sim, não penses algo estranho....
— Não! – ela saltou sobre os joelhos, colocando as mãos por sobre seus ombros, de modo tão surpreendente quanto ele mesmo o fizera ao falar. – Mentiroso! Você tem certeza que me ama! Você sabe disso! De outro modo, não me faria todas estas coisas que tens feito nos últimos cinco dias, entregando sua honra e sangue para me salvar e levar a segurança de minha Casa. Não! Você mente, e mentes muito mal!
Angus queria morrer. Morrer aqui, agora mesmo, se jogar naquela fogueira, por menor que fosse, ou cair sobre a espada, sim. Apenas desaparecer e nunca mais saber que aquele momento aconteceu. Estava humilhado. Como podia se envergonhar tanto de si mesmo? Oh, deuses, por que me fizeram tão tolo? Mas não conseguia desviar os olhos medrosos do rosto de Lyria. Ela também o encarava com firmeza. Até suavizar, com um sorriso doce e beijar-lhe os lábios frios com os seus calorosos. Selou por tempo suficiente o ato que entregou a insegurança e intimidade que poderia sentir ou rejeitar, tanto ele, quanto ela.
Lyria nunca havia beijado alguém antes, ela sabia como fazer pois já vira muitos casais beijando-se, às vezes escondida. Mas fazê-lo parecia algo muito forte e decisivo. Principalmente por seu nascimento elevado. Mas quando beijou Angus, era como se estes fatos fossem apagados de sua vida, se sua natureza, e ela apenas queria beijar e beijar ainda mais aquele garoto tão gloriosamente estúpido e falho. Como a filha de uma rameira, ou de um fazendeiro, poderia ter nascido em mil peles diferentes, e ainda se sentiria daquela forma. Escorregou os cotovelos até a nuca de Angus, envolvendo-o pelo pescoço, sobre seus joelhos dobrados, beijou-o novamente, e novamente, até que ele retribuísse sem medo e com ousadia. Deveria saber o que fazia, afinal era homem, e homens entendem destas luxúrias da carne. O que dizer? Ela não pensava em nada disto que estou narrando, é claro, tudo aconteceu tão rapidamente e com tanta inconsciência, que a carne queimou-se de um lado, sobre o fogo, e o sereno acabou por apagar a fogueira já pequena. Seus estômagos roncavam, mas que importava? Comeram o desjejum mais tarde, ainda naquela noite. Mas agora, estavam apenas preocupados em afastar o frio nos braços um do outro. Lenta e perigosamente chama de amor que chama, e chama, e chama os seus amantes.
º º º
Quando viu um cavaleiro ao longe, estremeceu. Por um momento de puro terror, pensou ser um dos soldados de Castamere, que a prenderiam e a levariam como prisioneira novamente, talvez agora sob pena de morte. O que seria de Angus? Não deveria pensar tanto no rapaz, mas era impossível não se afeiçoar a ele. Tão bondoso e paciente, ele caçara na floresta a comida que os manteve vivos e não se importou em esperar a fogueira e ela cozinhar a carne com capricho. Ele também se importava com onde dormiam de noite, se o cavalo estava sempre bem alimentado e se não tinha sede. Era um moço bom, mesmo sendo um leão. Mas, quando cutucou Angus na cintura e apontou o homem no horizonte, ele negou e respondeu que deveria ser um mensageiro, saindo da frente de batalha e levando informações a alguém importante. Lyria preferiu aceitar aquela explicação.
— Mas se o podemos ver, então estamos muito próximos do acampamento do rei. – ele comentou, sorrindo de leve, mesmo que a menina não pudesse ver. Com o passar do tempo, seu nervosismo com Lyria acabara e tudo parecia acontecer muito naturalmente. Sempre que ela dizia algo, no meio da viagem, enquanto comiam ou antes de apagar a fogueira e dormir, enchia-o de alegria.
— Seu rei. – ela o corrigiu. Você, leitor, pode achar que Lyria foi rude, e mesmo Angus pensaria assim, alguns dias antes, agora, no entanto, conhecia seus sinais, e conhecia suas irritações. Ela não era monossilábica ou fria por vontade de provocar desconforto nos outros, mas apenas porque lhe era a resposta mais correta.
— Sim, meu rei.
Eles prosseguiram, mas antes de passar o cavaleiro, Angus decidiu desmontar e poupar o animal que os estava carregando todos os dias, por quase todas as manhãs e tardes. Lyria sempre se cansava rapidamente nas caminhadas, e como ela se recusava a ser carregada por ele, permanecia sentada no cavalo, um pouco relutante consigo mesma, pois achava que estava sendo maldosa. O rapaz gostava de esticar as pernas, segurando nas rédeas do corcel roubado do estábulo, ele o levava calmamente, às vezes conversando com ele, tocando seu focinho, ou dividindo frutas que via pela estrada. Lyria não interrompia aqueles momentos, pensava ser uma espécie de comunicação necessária entre homem e animal, algo que os cavaleiros mantêm com seus cavalos.
O mensageiro passou por eles rapidamente, correndo a toda velocidade e sem prestar atenção a dois moribundos que viajavam com tanta lerdeza. Talvez, se o homem estivesse motivado apenas pela mensagem, e não por uma notícia de guerra, poderia notar que os dois rumavam em direção ao campo de batalha e que estavam bem vestidos, com um cavalo de bom nascimento.
— Deveria temer ou não a sua impaciência? – ela perguntou.
— Em tempos de guerra, os homens são sempre impacientes. Mas sempre é bom temê-los, em qualquer tempo. – ele concordou, olhando para frente, tentando ver aonde começava o acampamento do exército de seu pai. No entanto, tudo o que viu foi uma sombra no alto das nuvens, vindo rapidamente em direção a eles, em direção a Castamere e o reino do leão. Ouvira falar de dragões e de fogo. Seria um deles? Lyria já deveria ter visto os dragões, já que Targaryen e Valois eram aliados.
— Aquilo é um dragão? – perguntou.
Lyria jogou os olhos para o céu azul e procurou com voracidade, mas não encontrou a sombra nas nuvens. Angus também a perdeu de vista. Talvez fosse apenas uma águia, procurando uma presa, ou voltando para seu ninho. Não se surpreenderia. Os pensamentos da guerra o estavam deixando paranoico em relação a dragões, morrer e Lyria. Este último o deixava ainda mais paranoico. Na última noite, ela lhe havia puxado de noite, colocando um braço por sobre seu peito e uma perna por sobre sua virilha (o que foi muito incômodo, mas não muito incômodo), para dormir.
— Duvido que tenha sido. – ela falou, por fim. – Os Targaryen não estavam com o rei quando seu pai e seus guardas me raptaram da minha família.
Ele tentou ignorar o comentário ofensivo.
Angus incitou o cavalo para a frente, mas o animal relutou em sair do lugar. Enfiou as epóreas em sua barriga, mas ainda assim, ele apenas relinchou. Lyria ouvia com os ouvidos arrepiados um som razante de cortar de vento, como flechas que assobiam ao serem atiradas. Instintivamente olhou para trás, temendo encontrar arqueiros e uma armadilha, mas aterrorizou-se ainda mais com o que encontrou. Baixo, como um cavalo, com as asas esticadas e tocando a relva conforme se dobravam, o ser se aproximava com uma velocidade impossível. Gritou, e seu grito foi mais assustado do que de advertência, no entanto conseguiu agarrar a camisa de Angus e jogá-lo ao chão, junto de si, enquanto seu cavalo era atacado pelas garras mortíferas da fera. Rédeas, sela, ferraduras... tudo se juntou aos pedaços, sangue e ossos que o cavalo era, desmontado na bocarra do dragão. Apenas um relincho de dor, e então já estava morto e devorado.
— Fresco, como ele adora. – o seu montador riu alto. Escondido por trás da cabeça de sua besta, Lyria não precisava de características físicas ou de uma trombeta para anunciar que aquele era um Targaryen.
Os jovens se levantaram e encararam o moço sentado no pescoço do dragão de escamas negras como carvão. Ele tinha cabelos esbranquiçados e encaracolados, seus olhos eram negros como contas e tinha certa saliência nasal em sua face que evidenciava sua mãe dornesa. Lyria sentia-se horrorizada com a cena que acabara de presenciar. Não apenas o tamanho de uma fortaleza que o dragão tinha, mas também a sua facilidade em romper ossos, órgãos e músculos do alasão de Angus apenas com mordidas rápidas. O Targaryen não abandonou sua fera nem por um momento, alisando as orelhas agitadas da mascote, com afeto. Quando, por fim, notou seus espectadores, lançou um sorriso conquistador sobre Lyria e esnobe sobre Angus. Quase que por providência divina, ele virou seu dragão para o lado e deu duas palmadas no traseiro do mesmo.
— Subam e os levarei para o outro lado da guerra, sem precisar passar pelos campos de sangue. – ele sorriu, galante – Estou me sentindo muito cavalheiresco hoje. Embora seja um príncipe. Estas coisas principescas cansam. Belíssima donzela, deixarei que sente-se na frente, para apreciar a vista. – e esticou a mão para Lyria, que olhou-a com medo e depois voltou-se para Angus.
— Nós podemos andar. – ele disse, mas imediatamente a garota lhe acertou o cotovelo nas costelas, arrancando um urro de surpresa. O príncipe soltou uma gargalhada sincera.
— Seria uma honra aceitar a ajuda do príncipe. – Lyria curvou-se com respeito e escalou as escamas do dragão, sentindo a ponta dos dedos enfiando-se na pele quente da fera como se fosse uma capa dura por cima e a pele mole por baixo. Ela se sentou atrás do príncipe Targaryen, para sua frustração, mas o rapaz era inteligente nas questões relacionadas a mulheres e não insistiria mais do que o necessário. Angus, ainda desconfiado, demorou até tirar a mão do punho da espada e juntar a Lyria na traseira do dragão.
O Reyne não aprovava aquilo. Não apenas estava ajudando a filha do homem que matara seu irmão, mas também subia em um dragão, arma utilizada para exterminar reis e reinos, e aceitava a ajuda de um Targaryen, principal responsável por toda a devastação dos sete reinos e aliado do seu maior inimigo: os Valois. Angus sabia que nunca mais voltaria a pisar no solo de Castamere como um convidado especial, o filho do Lorde ou herdeiro. Seria sempre um impostor, um traidor. Deserdado e vendido pelo amor, o que os outros chamariam de bruxaria ou feitiçaria praticada por Lyria. Sim, estava enfeitiçado, tanto que subiu no monstro e aceitou as palavras arrogantes daquele cara apenas para poder acompanhá-la. Mas duvidava de que ela estivesse se utilizando de poções ou magias ocultas para mantê-lo ali. Mesmo sabendo de tudo isso, em plena consciência, ele não podia deixar de sentir um pingo de seu orgulho ferido, como se a partir daquele momento é que passase a ser um traidor. Sabia que os deuses não o condenariam por ter salvado a vida de Lyria e por ter trazido-a até ali. Mas eles perdoariam a sua desonra, deslealdade com o pai e a família? Com suas origens? Rogava aos céus que sim.
Lyria deveria agarrar-se ao Targaryen, pois assim que ele gritou uma palavra em idioma incomum, o dragão impulsionou suas patas traseiras no solo e levantou voo, com uma força que os teria arrancado dali, não fossem as escadas grossas que permitiam se segurar com firmeza. O príncipe riu quando as mãos apavoradas de Lyria o agarraram com intensidade, mas ela logo o soltou, tão envergonhada quanto irritada, deixando-se sacolejar em pleno voo, seu primeiro e último voo em um dragão. Angus resmungava com o fundo da garganta, gemendo sempre que o príncipe erguia e abaixava bruscamente o trajeto, apenas para se divertir. Ela podia entendê-lo, sentia pena de seu cavaleiro, passou por sua cabeça que talvez ele não quisesse a ajuda do príncipe. Não, bobagem. Era a melhor coisa que lhes tinha acontecido até ali na viagem. Ver a batalha de cima era muito diferente de atravessá-la.
— Estou escorregando. – Angus gritou ao seu ouvido, embora as palavras ainda assim se perdessem em meio ao vento rápido e frio. Lyria tateou as escamas do dragão até encontrar as mãos grandes de Angus, tomou-o pelos pulsos e o fez se segurar nela, que então também começou a escorregar. Deuses, por favor, por que fazem isso com uma pessoa tão encantadora quanto ela? Lyria abraçou as costas do príncipe, devorando seu próprio orgulho e corroendo seu ódio em silêncio.
Ao menos, Angus não escorregava mais. E, francamente, a sensação de tê-lo lhe abraçando com tanta força (e medo) parecia algo muito romântico. Até se permitiu encostar o rosto da armadura do Targaryen, assim como seu cavaleiro fazia em suas costas. Lyria podia ouvir a respiração dele, acelerada e pesada.
Angus teria apreciado muito aquele momento em que podia ter sua amada nos braços com tanta naturalidade. Mas estava mais oculpado em se manter são. Seus olhos escorregavam para o abismo logo abaixo e ele então via árvores como formigas e rios como filetes de sangue percorrendo veias. Conseguiu segurar a urina por dez minutos, até que não resistiu, em uma das manobras arriscadas que o cavaleiro de dragões fazia, e acabou se molhando. O calor da urina o fez enrubecer e cair ainda mais em vergonha. Temia ter sujado Lyria, que estava tão próxima, mas a menina não parecia notar todo o seu pavor.
A viagem por cima do campo de batalha até o exército do outro lado durou poucos minutos, mas para ambos os jovens pareceram horas. Quando já podiam pisar solo firme, nenhum deles se lembrou de agradecer ao príncipe pela ajuda, mas rolaram na relva, arrancando tufos de grama com êxtase. Lyria agora se lembrava porquê sempre odiara viagens de barco.
— Agora já estão aqui. Podem continuar suas vidas patéticas, comuns. – o príncipe murmurou a palavra “comuns” com desdém, talvez não soubesse quem eles eram, mas Angus achou aquilo oportuno e aceitou ser rebaixado. Afinal, seu nascimento só complicaria as coisas. Lyria agradeceu ao cavaleiro de dragões antes que ele erguesse voo e retornasse para sua expedição celeste.
Angus a ajudou a se arrumar, ajeitando seus cabelos volumosos e lambidos pelo vento, assim como ela limpava todos os insetos que haviam se grudado em seu pescoço e barba. Quando acabaram, se entreolharam e riram como crianças.
— Você parece minha mãe – ele disse, cutucando-lhe o braço, mas Lyria revidou com um empurrão camarada.
Apreciava aquela intimidade que crescia ao redor deles, a cada dia. Por mais que fosse difícil julgar certo ou errado, Angus explodia de euforia quando ela lhe segurava a mão ou fazia algum gracejo com flertes, era quase que uma dança cheia de olhares e risadas, cada qual fazendo seu papel. Girando aqui, sapateando ali. Eles se entendiam, sim, e criavam ótimos círculos no salão. Lyria respirou fundo. Em menos de meia hora haviam perdido seu cavalo e andado a dragão com um príncipe de verdade. Agora, a vinte metros das bordas do exército Valois e Targaryen, a estrada continuava para o Sul, saindo das Terras Ocidentais e entrando cada vez mais em Jardim de Baixo. Andariam todo o caminho até as terras do pai de Lyria, o que significava... dois dias a cavalo? Talvez três, se cavalgassem sem descanso. A pé se tornariam seis dias, com descansos e fome.
— Ele poderia ter nos deixado no castelo. Seria mais fácil. – ela resmungou, começando a caminhar. Angus a acompanhou rapidamente. Era fácil se adequar ao passo de Lyria, ela não estava acostumada a isso, principalmente após uma semana montada no cavalo, sem nunca caminhar por mais de vinte minutos. Ela cansava-se rapidamente e sempre perdia o fôlego enquanto conversavam, por isso manter o silêncio foi quase essencial para não perderem tempo e forças.
Lyria podia sentir a presença do rapaz logo ao seu lado. Às vezes, quando seu corpo ocilava para os lados, fatigado, ela roçava sua mão à de Angus, mas logo se recolhia, instintivamente. Timidamente, ela passava a observá-lo com o canto dos olhos. Os cabelos louros, os olhos castanhos. Era parecido com os Lannister, por causa de sua mãe Lannister, mas ainda assim não tinha nada de majestoso ou luminoso em suas feições, soavam mais como um simples cavaleiro de torneios, como ela já havia concluído alguns dias antes. Mas, agora, seu olhar sobre Angus não era apenas avaliativo e comparativo. Também era terno e caloroso, ela observava os seus ombros se movendo ritmicamente conforme andava, desengonçado, envergava-se, com uma péssima postura que teria feito sua mãe gritar até ele endireitar-se. Outros detalhes também eram muito interessantes: estava sempre com os olhos no chão, como se precisasse analisar as rochas e pedregulhos pela estrada e desviar devidamente deles; agitava as mãos ansiosamente ao lado do corpo, o que ela achava indícios de que ele queria quebrar o silêncio, mas sem saber como; e o constante modo atento com que lidava com tudo, até mesmo com os bocejos que ela soltava volta e meia.
Julgou que era preocupação. Mas preocupação com o quê? Estavam bem, as estradas para o Sul eram muito mais seguras que as estradas dos leões, repletas de camponeses devastados e irritados com o seu rei. Logo alcançariam as muralhas de seu castelo e então ela estaria na companhia da mãe e das irmãs, banharia-se com perfumes e flores nas grandes piscinas e fontes do jardim e assistiria a Pethunie tocando harpa e cantando com sua doce e chorosa voz. Eram imagens que vinham de suas memórias, as quais ela revivia tanto.
Mas, por descuido próprio, lembrou-se da torre e da noite em que fora perseguida pelos soldados de Castamere. Três dias até que eles a encontrassem faminta e moribunda, ainda no vilarejo aos pés de seu castelo. Lorde Reyne ordenou que a enviassem para suas masmorras, para que sofresse o que seu filho havia sofrido quando foi morto pelos homens de seu pai. Lembrava-se de como a chamavam, “Nightingale”, como se não soubessem seu nome. Talvez não soubessem mesmo, isso não importava. Ainda era a filha do homem que comandara o assassinado do herdeiro de seu senhor. Ela deveria sofrer muito. no entanto, fora mandada para a torre e lá ficou. Lembrava-se da solidão e o medo que sentia ali, mas nada se compararia a passar o mesmo tempo nas masmorras. Sabia quem havia colocado-a ali. Angus. Ele a tirou de um calabouço para colocar em um dos quartos de sua mãe, e por muito tempo rejeitou-o como amigo.
Sorria. Parados debaixo de um cipestre alto e com folhas bem fechadas, ele segurava sua mão, seus dedos enroscando-se aos dela. Lyria não resistiu e virou o corpo contra Angus, beijando e envolvendo aquele garoto gentil. O cansaço da viagem custava a seus músculos doloridos e os olhos pesados, mas queria continuar a atacá-lo com a sua desinibida paixão. Sabia que o amava, por mais cruel que isso soasse. Soube disso antes mesmo de tê-la salvado, antes de prometer tirá-la dali. Amou cada vez que lhe trouxe a comida com as próprias mãos, cada vez que ordenou que não a incomodassem, que as criadas lhe trouxessem roupas quentes em noites frias. Seu coração não tocava sinos, como nas canções e histórias das amas, mas estava quente e feliz por ter Angus ali, em seus braços.
Separou-se dele apenas para olhar sua face, devorando cada expressão que ele fazia. Não conseguia sorrir, estava embebida de sonhos e sono, ele inclinou a cabeça e beijaram-se novamente, agora com mais calma. Lyria não soube ao certo quando, mas os beijos prosseguiram no manto, onde estavam mais aquecidos, e antes que percebessem, dormiam.
º º º
Angus não sonhou. Já vivia um sonho. Quando abriu os olhos, despertando em meio à primeira luz do dia, sentiu o braço dormente e virou o rosto para encontrar uma linda garota morena adormecida sobre seu ombro. Com o nariz mais gracioso e as sobrancelhas mais adoráveis, ele resistiu firmemente ao desejo de beijar sua testa, seu nariz, as covinhas nas bochechas. Sim, Lyria sorria. Estaria tendo sonhos com sua família? Era certo, eles estavam muito próximos de Jardim de Baixo, e consequentemente do castelo de Lorde Nightingale. Suspeitava que naquele mesmo dia chegariam lá.
Mas... não conseguia deixar de sentir um pouco de tristeza. Chegar ao fim daquela viagem significava deixar Lyria com sua família e... andar errante. Se não fosse acolhido pelo Lorde, como um cavaleiro ou simples soldado, para onde iria? Traiu seu reino, sua família Reyne não o aceitaria nem morto, muito menos a sua família Lannister. Pensava agora na irmã que deixou em Castamere. Ela seria feliz, sabendo que seu irmão mais velho fora assassinado protegendo sua casa e o outro fugiu, traindo toda a sua Casa, com uma menina prisioneira, filha do homem que ordenou o ataque a Castamere? Havia cometido um erro? No final, fora egoísta?
Quando Lyria despertou, juntaram todas as suas coisas: a capa e um galho que Angus achou apropriado para tentar pescar alguma coisa, caso encontrasse um dos vários lagos de Jardim de Baixo. Era uma região conhecida por bosques, lagos e muitos campos. Enquanto caminhavam, Lyria ia observando atentamente os lugares ao redor. Alguns arbustos de morangos lhe causaram nostalgia e apontou construções e vilas ao longe, nomeando-as e dizendo “estamos mesmo perto”. Aquilo parecia alegrá-la muito, mas para Angus soava mais como um sinal, apitando o quanto ele estava próximo de perdê-la. Deve ter sido por isso que não soltava sua mão, enquanto caminhavam. Talvez se a agarrasse, ela não fosse embora.
Não havia mais o sentimento da ansiedade ou do medo sobre seus membros, apenas a atração quase magnética entre ambos os corpos, o calor que parecia aproximá-los contra a corrente fria da alvorada. Estava cansado, na verdade, muito cansado, nenhuma de suas noites fora bem dormida e suspeitava que, após terminar sua honrosa missão de traidor, não teria qualquer recompensa sobre seus músculos ou ossos, apenas um pouco mais de sofrimento: se o tivessem como traidor, ou se o tivessem como herói. Qualquer que fosse seu final, não teria Lyria. Ah, aquela palavra. Ter, Como se ela fosse sua posse. Era exatamente como soava quando pensava em ser afastado dela. Tirariam sua Lyria de seus braços, de sua proteção. Tão delicada e indefesa, tão raivosa e desconfiada, como apenas a mais perfeita fada poderia ser, graciosa mesmo ao morder o seu dedo do pé.
— Angus – ela disse, de repente, fazendo seus devaneios febris desaparecerem. Ele notou que a encarava, como sempre, e enrubesceu por isto. O que ela deveria pensar de seu olhar devorador? – Angus.
— Sim?
— Gosto de dizer seu nome. – ela sorriu. Adorável. Não, ainda era pouco para descrevê-la. Magnética. – Angus. Angus. Angus. – e então fez uma melodia torta com o nome tão difícil de pronunciar repetidas vezes. Ele riu, vendo-a mais graciosa do que engraçada. Era um riso de pura contemplação.
— Lyria – ele experimentou. Nunca a tinha chamado pelo nome. Poucas vocês se referia a ela, na verdade, o máximo que fazia era lhe falar coisas vagas e sugestões. Raramente pedidos. Mas Lyria era o nome mais belo que já ouvira alguém chamar. Assim como as flores no campo, Lyria era a beleza fúnebre dos tempos da Velha. Lyria, o nome de crianças nascidas da morte. A flor que se dava aos mortos, para que tivessem beleza em seu eterno sono. Quem teria morrido para que ela nascesse? Que fardo carregava? Parte de todo o encanto que ela possuía e o motivo por seu pai ter optado pela filha do meio, e não a primogênita ou a mais nova, mas a de nome do luto, de velar. Pai e filho, ambos os Reynes, sabiam de sua importância, o valor que ela tinha. Lorde Nightingale teria sofrido por qualquer filha, mas o golpe era mais religioso, mais sagrado. Era um lírio, amargo em suas costelas.
— Sempre detestei este nome. – ela murmurou. – Faz-me soar como uma flor da morte. As pessoas me olham diferente de Tulipe e Lavander. – quase ingênua.
Seria deselegante perguntar o por quê de seu nome?
— Ah, não comece. – ela revirou seus lindos olhos escuros. Angus novamente se pegou perscrutando cada centímetro de seu rosto com voracidade. – Minha mãe me deu o nome de minha avó, quando ela morreu, mas isso foi três anos antes de me conceber, não pense besteiras. As pessoas enchem tudo de superstições. – e então cruzou os braços, deixando a mão dele abanar desengonçada ao lado do corpo, erroneamente sozinha.
Angus não havia dito nada sobre seu nome, ou perguntado qualquer coisa, mas de algum modo, Lyria havia intuído e se defendido ofensivamente. Ele era um homem compreensivo e assentiu:
— Desculpe. Não queria dizer nada.
— Você não disse – ela sorriu, de repente, como se o parabenizasse por ter dito a coisa certa. – Eu só tenho um pouco de... aversão ao meu nome. Não o escutei por semanas....
— Meses – ele a corrigiu. O tempo que ficou naquela torre, dois meses, antes que fosse liberta. Ela saberia o tanto de dias apenas pela claridade das janelas? Duvidou.
— Sim. Meses – ela arregalou os olhos, agora um pouco menos sorridente.
De repente parou de caminhar e encarou algo a frente. Um ponto na estrada. Haviam passado por vilarejos e mercados, ela contava sobre suas memórias de infância, mas após aquele breve comentário com nomes e a apreciação de Angus, mal perceberam que a estrada chegava a uma bifurcação e que, para leste, um caminho cercado de lavanda, lírios e rosas crescia por árvores com flores de laranjeiras e limão. Um ponto quase invisível de uma muralha projetava-se atrás de vários pontos, que eram um bosque. Angus compreendeu.
Lyria começou a correr, desenfreadamente, com o corpo mal acompanhando a sua alegria e vontade. Aquilo o atingiu como um soco. Imaginou que ela ao menos poderia sofrer ou temer um pouco a separação deles, mas nunca pensou que ela abraçaria a sua liberdade com tanto desejo. Como se eles não fossem nada. Não eram, na verdade. O que eram? Angus continuavam imóvel. Somente quando já sentia os músculos cansados doendo e gemendo de dor, Lyria olhou por cima do ombro antes de tropeçar nos próprios pés e cair. Ele não a seguiu.
A distância que se anunciava entre os amantes parecia matá-los. Angus abaixou a cabeça, evitando olhar para ela, tão pequena e tão perfeita naquele caminho florido, cheio de cores e sensações belas. Abandonando-o. Lyria virou a cabeça como um pássaro, graciosa e inocente, perguntando-se porquê ele continuava parado. Estaria cansado demais para correr? Ela podia esperar por ele. Mas como não tinham contato visual, não sabia se ele viria ou não. Aquilo lhe foi como uma mentira mal contada, ela pensou que estava encarando verdades muito frias e antes que percebesse, voltou a caminhar, passando de passos lentos e inseguros, para algo mais decidido e ritmado, então corria, ignorando a dor. Só tinha de chegar até lá, era tudo o que realmente importava, afinal.
Tomou-o em suas mãos e aproximou seu rosto, tocando sua testa a testa de Angus, que ardia de febre. Ela não havia notado. Pensava que todo o calor era apenas a timidez, o desejo. Lyria colocou alguns dedos dentro de sua camisa e sentiu seu pescoço, assustou-se com a intensidade da febre.
— Precisamos chegar lá – ela murmurou, consigo mesma, pois Angus já estava perdendo a consciência, pendendo para cima dela. O espaço entre seus corpos ainda era magnético, mas agora se desfez de uma vez só, quando Angus desmaiou sobre Lyria e ela teve de sustentá-lo sozinha. Ele era realmente pesado.
Que tonta havia sido ao desperdiçar energia correndo para lá e para cá! Cada passo que dava, tentando levar Angus sobre seu ombro e arrastando suas pernas logo atrás, era como um grande sacrifício de seu próprio corpo. Deixava um pedaço seu para trás. Perguntou-se se em algum momento não haveria mais pedaços para se desfazer e acabaria desfalecendo, assim como ele. Mas esforçou-se mesmo assim, pois a esperança e a vontade de vê-lo bem eram mais fortes que a sua própria compaixão.
O Sol estava ainda fraco no céu, talvez fosse a nona hora do dia, o caminho de flores não era exatamente fácil, havia sulcos na estrada que a obrigavam a descer e subir buracos, o que dificultava ainda mais caminhar. Suas panturrilhas já estavam insensíveis, duras feito ferro e quentes. O sangue pulsava como um zumbido no fundo de seu ouvido e a respiração parecia um esforço em si mesma, como se aspirasse chumbo. Angus era grande, era largo, era forte. E toda essa constituição massissa sobre uma mera garotinha magra e fina como ela. Era incrível que já estivesse no começo do bosque que ladeava todo o castelo, com exceção de sua entrada. Olhou para as muralhas, desta distância deveria ser possível avistar algum guarda montando vigília, mas então lembrou-se dos horários de troca em eles e irritou-se. Por que justo de manhã? Tão cedo! Pouco se importava com aqueles que havia passado a noite acordados para proteger sua família, ela só precisava de um deles ali, agora.
Quase como uma resposta dos deuses, a cabeça de um homem surgiu detrás de uma gárgula, onde a torre dos arqueiros ficava. A muralha de Canto Noturno era relativamente baixa, capaz de ser escalada, mas tinha bestas em cada espaço por suas gárgulas de anjos e pássaros em pleno voo. O bosque também escondia a profundidade das muralhas, seu arsenal extra e os grilhões que esroscavam-se sobre todo o castelo, como um véu contra inimigos voadores. Uma ótima construção quando o inimigo montava dragões.
— Aqui! – ela gritou, mas sua voz estava rouca, como nunca havia escutado antes, chiando feito um pássaro ferido. O soldado não a ouviu. – Aqui! – tentou novamente, agora parando de caminhar e sentindo todo o peso de Angus. Seu ombro estava quase encostado a cintura, curvando-se completamente, com o corpo dele sobre suas costas. – Por favor (disse entredentes como uma presse) Aqui!
Os deuses realmente a amavam, pois o soldado virou seu rosto e a viu, seus olhos adquirindo a expressão da surpresa e então apontando e gritando palavras irreconhecíveis para alguém dentro da muralha. Logo mais rostos apareceram e Lyria pôde deixar-se cair de joelhos. Eles viriam. Graças aos deuses, eles viriam. Sim. Não conseguiu se mover, o corpo todo morto, como se as articulações de uma velha máquina finalmente estivessem todas enferrujadas, mas é claro que neste tempo Lyria não sabia o que seriam máquinas ou enferrujar engrenagens, por isso associemos a uma porta velha em suas dobradiças. Eles a alcançaram e primeiro retiraram o corpo de Angus do seu.
— Cuidado – ela rugiu, parecia um animal, desgrenhado, sujo, maltratado e raivoso. Os soldados a olhavam com receio, como se pudesse adquirir sua raiva caso chegassem perto demais. De repente abriram espaço para um quarto homem, vestido de gibão verde claro e com o brasão de sua família pintado em uma placa de peito de esmalte brilhante prateado, o rouxinol, voando veloz por sobre a Lua Cheia. Ele era diferente dos demais, e Lyria o reconheceu, mas não teve forças para dizer seu nome. Ele a tomou em seus braços protetores e a ergueu, aninhando sua cabeça por sobre seu ombro. – C...
Capitão. Era o que queria dizer, chamá-lo por seu título de orgulho. Mas tudo o que produziu foi um gemido rouco e doloroso. O homem que a criou por entre cavalos e arcos com flechas sem pontas lhe sorriu de maneira fraternal, quase como um pai que revê sua querida filha. Como se estregasse, enfim, os pontos, Lyria deslizou o rosto para o seu peito, escondendo-se da claridade do dia, e dormiu.
º º º
Angus não reconhecia nada ao seu redor quando despertou.
A janela estava de frente para sua cama, estranhamente, e a luz da Lua penetrava a penumbra com uma frieza física, quase palpável. Ele rolou na cama, sentindo o corpo inteiro queimar. Vomitou tudo o que estava em seu estômago, e quando olhou o chão, viu apenas uma poça de líquido amarronzado. Não se lembrava de ter bebido sopa ou caldos, mas também não se lembrava de ter ido dormir em um quarto como aquele, nem de ter uma vista como aquela. As estrelas se amontoavam ao redor da Lua Nova.
Assim que voltou a se deitar, notou que do outro lado da cama, uma garota alta o observava com um olhar ferino. Sua semelhança com Lyria lhe causou desejo, mas assim que notou as suas diferenças, rejeitou o sentimento como se fosse traição. Ela se inclinou sobre a cama para limpar sua boca com um pano branco, e então ele viu um prato vazio em sua mão, com uma colher e o que deveria ser os restos de um caldo. Ela parecia irritava por ele ter vomitado tudo.
— Boa noite – ela pigarreou, quase como uma Lyria mais sarcástica e com mais ódio dele. – Garoto.
— Angus... – ele gemeu, com o que restava de sua voz.
— Angus – ela repetiu. – Foi o mesmo nome que ela murmurou. Deveria supor que era seu.
Ela. Lyria, com certeza. A referência a ela lhe encheu de expectativa, mas a garota não continuou a falar. Seus olhos eram como os de uma corça, assustada e ao mesmo tempo majestosa. Como Lyria lhe parecera da primeira vez em que a viu. Inatingível e ao mesmo tempo frágil. Ele tentou se sentar, mas logo sentiu a bile subindo e então respirou fundo, para não vomitar novamente.
— Você dormiu por cinco dias. – ela contou, sem prelúdios. – Pensamos que iria morrer, eu estava aqui para velar. Por ela. Ela não suportaria vê-lo. Mas também não suportaria ficar sentada aqui a noite inteira, assim como não suporta falar. – após uma pausa em sua voz que cortava o ar como uma faca, ela virou a cabeça, do mesmo modo que Lyria virava, mas não como um pássaro, como um gato, mais imperial. – O que você fez com ela?
O que fiz com ela. A pergunta pairava sobre ele. Além de tê-la salvado de todos os modos possíveis e depois... não conseguia se lembrar o que vinha depois. Mas se aquela menina era a irmã mais velha de Lyria, então só poderia estar no castelo do Lorde Nightingale, o maior inimigo de seu pai. Eles sabiam que era um Reyne? Se soubesse, o estavam querendo morto ou vivo? Será que só o mantinham ali por Lyria? Ela estava consciente ou acamada, assim como ele? As perguntas choviam em sua mente, e tudo o que ele conseguia ver ou ter como resposta era o rosto altivo da menina ao seu lado.
— Tulipe? – lembrou-se, de repente, dos nomes das duas irmãs de Lyria.
— Isso – ela ergueu as sobrancelhas, talvez surpresa, talvez ainda mais irritada. – Ela te contou meu nome? Você a viu? Ela veio aqui?
— Onde... – sua voz vacilou, e ele sentiu se estivesse engolindo as próprias cordas vocais. — ....ela está?
— Nós também queremos saber. – Tulipe Nightingale revirou os olhos e bufou.
O peito de Angus era um mar de confusão. Como assim eles não sabiam onde Lyria estava? Era óbvio que ela estava no castelo de sua família, onde deveria estar, para onde ele a levou. Quanto tempo a garota disse que estava dormindo? Cinco dias? Lyria, desaparecida, por cinco dias?
— Mas você disse que ela murmurou...
— Sim. Mas – Tulipe virou os inteligentes olhos para Angus, que se sentiu um pouco esnobado. Não tinha nada de inteligente nele mesmo. – Você deve conhecê-la, após viajar tanto tempo para trazê-la aqui. Nunca pararia quieta.
Ele sentiu um sorriso formar-se no canto dos seus lábios, involuntariamente, e Tulipe o notou, arqueando novamente suas sobrancelhas escuras. Ela sabia, com certeza, se não havia desconfiado antes, agora tinha certeza, que eles se amavam. Mas, do mesmo modo que era inteligente, também era esperta, e manteve a boca fechada. Sua irmã tinha um alto nascimento, filha de uma grande casa que servia ao Rei com seu próprio sangue, braço direito de todos os príncipes antes deste e dos próximos. Ela não poderia continuar um romance com seu salvador, ele era apenas... uma alma nobre em um corpo de baixo nascimento. Um camponês infeliz. De nome infeliz. Céus, quem se chamava Angus? Na primeira vez que o ouviu, pensou que Lyria estivesse engasgando.
— Há quanto tempo?
— Duas horas. – ela deu de ombros – Tenho certeza que escalou o templo e está adorando a Lua, implorando para salvá-lo. Quando ela voltar, com certeza vai agradecer aos deuses por terem ouvido suas preces. Ela é muito devota.
Angus queria gritar com Tulipe. Havia enchido seu peito de desespero por causa de duas horas? E a família parecia saber onde ela estaria. Por quê então aquelas perguntas tão frias e inquisidoras? Percebeu que Tulipe não possuía nenhum calor nas palavras, como Lyria, mas era puramente diplomática e direta. Seu esposo deveria sofrer com crises de irritação frequentes, mulheres assim costumam se irritar facilmente e descontar todas as angústias nas palavras. Quanto mais palavras, melhor.
— Diga que acordei. – ele pediu, num sussurro.
— Não preciso dizer, ela virá de qualquer modo. Sempre vem, todo dia, toda noite, apenas para parar ao seu lado e colocar a mão na boca, como se isso fosse lhe dar forças. Eu realmente torcia para que você, ou acordasse, ou morresse. É péssimo ver a expectativa que ela carrega. – ela respirou. – Sua febre abaixou ontem, pensamos que era um sinal. Lyria está empolgada. Não demonstre fraqueza perto dela, ou a fará sofrer.
— Não irei. – ele prometeu.
— Eu não entendo estas coisas do coração, mas não lhe dê esperanças. Você conhece seu lugar. – Tulipe o fulminava com um olhar assassino, que ele descobriu ser o modo como ela se fazia séria. – Nossa Casa jamais receberia uma pessoa da sua estirpe, sendo um herói ou não, com o coração de nossa irmã ou não. Quando meu pai o encontrar, assim que estiver recuperado, peça por um título de cavaleiro ou por um castelo, ou qualquer coisa. Menos por ela. – a advertência parecia quase uma sentença. As palavras silenciosas de Tulipe o acertavam exatamente como facas. Você não terá ela. Contente-se com isto.
Angus não conseguiu responder. Como poderia? Nunca prometeria aquilo, nunca abriria mão de sua esperança, embora entendesse o que Tulipe queria dizer. O inimigo não se redimiria, após tantos crimes. Crimes que ele não havia cometido, uma guerra que ele não havia começado, mas que estava entre a vida deles, entre a Casa deles, e que os separaria, da vida ou na morte. Muitas vezes desejou ser corajoso e ir ao campo de batalha com seu pai, enchê-lo de orgulho e acabar com a guerra em uma batalha só. Agora desejava ter feito tudo isso, mas não para vencer a guerra ou deixar o velho Lorde Reyne vaidoso, mas para morrer. Se morresse, não viveria aquilo, e não viveria uma vida sem Lyria. Iria cumprir seu dever no mundo, como o título com que nascera exigia, e então descansaria com os deuses.
A centelha acendeu-se imediatamente, os olhos de ambos se encontraram no mesmo instante, e se consumiram por segundos incontáveis. O fogo que ardia, invisível, compeliu a irmã de Lyria para trás e o corpo de Angus para frente. Lyria atravessou o quarto atrapalhadamente, jogando-se na cama e envolvendo-o com ternura. Suas mãos tocavam seu rosto e o contornavam como se pudesse quebrá-lo. Tulipe levantou-se e, com um último e rigoroso olhar para Angus, saiu do quarto, deixando a porta aberta.
— Por que não me disse antes que havia acordado? – ela o enchia de carinhos, alisando seu cabelo dourado, deslizando o dedo por seu lábio inferior, beijando-o com os olhos, em todos os lugares. Desejou que os beijos fossem concretizados com sua boca e quase a tomou para isto, mas lembrou da pior forma possível de que ainda estava debilitado, e mal pôde se erguer. – Tive tanto medo. Não, não diga nada, por favor, polpe suas forças.
A felicidade que ela emanava feito luz quase o cegava. Era divino, quase imaterial. Como algo celestial demais para o mundo de imperfeições que os cercava.
— Linda... – sussurrou, com dificuldade.
— O quê? – ela ergueu as sobrancelhas. Diferentemente de Tulipe, elas eram graciosas e angelicais.
— Você é linda...
O rubor cresceu por suas bochechas e Lyria sorriu, inclinando-se para beijá-lo na testa. Mas desistiu e entregou o beijo a sua boca entreaberta e úmida.
— Ah, não – ele gemeu – Acabei de vomitar.
— Ah, que nojo, Angus! – e beijou-o novamente, entreabrindo também a sua própria boca, como se já tivesse imaginado e feito aquilo várias vezes. Um breve feixe de memória o assombrou e recordou um sonho lento que pareciam beijos quentes e lágrimas. Não teria sido um sonho? – Você fede a suor e sangue – e o beijou mais, mais, até que ele cedesse e retribuísse com a mesma paixão, embora com mais letargia. Suas línguas se encontraram timidamente, e com a mesma rapidez, ela se separou e piscou, avermelhada até a raiz de seus negros cabelos.
— Você parece um pássaro...
— E você parece doente. Deve estar sob o efeito da papoula, ou alguma outra coisa que te deram para descansar.
— Não – ele respirou profundamente – Você é linda. Parece um pássaro.
— Obrigada. – ela mordeu os lábios – E você é o exemplar perfeito de belo espécime humano. Agora podemos por favor, falar de outra coisa que não seja eu?
Lyria não gostava de falar de si, ele sempre soube, mas se iria se separar dela, como Tulipe havia dito, então desejava lhe falar tudo, tudo o que pensava sobre ela, para que não tivesse arrependimentos.
— Você resplandece luz...
— Não use palavras longas, ainda está em recuperação. – ela ignorou o comentário, novamente.
— ... como um anjo....
— Ora, por favor, isto é tão comum, tente se lembrar de alguma canção mais original.
— Eu poderia devorá-la para sempre.
— O quê?! Angus!
—... com os olhos. – ele riu. Ou fez o mais próximo de uma risada, em suas condições. Lyria gargalhou como um rouxinol.
— Você já faz isto, sempre. Eu me pergunto se sempre tem algo errado com meu cabelo ou se é apenas porque sou impressionantemente feia.
— Não. – ele disse, como uma respiração – É linda. Eu disse... você é linda. Inteira. Como pássaros. E anjos. E luz.
— Angus...?
— Dói de tão linda.
— Dói? – ela estava franzindo as sobrancelhas, tomando noção da profundidade daquilo, como se não quisesse acreditar – Angus, você está bem?
— Eu... – ele respirou, pesadamente. — ....poderia.... – ele respirou, pausadamente. — ...Lyria...
— Sim? – ela sussurrou, junto de sua voz.
Mas ele já havia dormido.

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