Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]

23 Os Quadros do Sentinela Não Gemem


Notas iniciais
Boa leitura a todos ^^

Os Quadros do Sentinela Não Gemem

“Amor é jogo forte, só vale no tudo ou nada: amar é uma aventura heroica e insuperável” – Raquel de Queiroz

Ela amava o poder. Amava se sentir forte. Ter o controle nas mãos e desenrolar a linha da vida dos homens a seu comando. Mas Layse sempre detestou doenças. Ficar doente e incapacitada em uma cama a fazia se sentir inútil. Fraca. Após três dias, Betyne finalmente se casou com Mace Martell e o rapaz abandonou o quarto de Layse. Aliviada, agora a moça podia se banhar quantas vezes quisesse e permanecer nua entre os lençóis, sentindo a febre passar, mas ainda morrendo de calor. Melhorava, isso ninguém poderia desenganar. O mal que lhe sobreveio também atingiu os avós e os pais, Yann e a dois criados pessoais dos Tarth. Veio junto com os velhos, do outro lado do oceano. Eles andavam mal, mas sem compreender exatamente. Os anos no mar os deixaram fortes. Enquanto em terra, eles trouxeram a possível morte para toda a família. Layse providenciou tudo o que as bodas de Betyne precisavam e agora arrumava sua partida para Dorne. Queria ver-se o mais longe de Mace que pudesse. O rapaz a tinha feito de boneca, enquanto estivera desnorteada em tudo. Mas agora, após o choque, ela podia raciocinar melhor. Ele voltaria, junto com sua esposa e sua comitiva dornesa. E nunca mais se veriam, se os deuses quisessem.

— Milady, seu jantar está servido – a fiel criada de Layse adentrou o quarto com uma bandeja com a sopa que ela vinha tomando. O meistre levou a bacia onde fora sangrada e receitou repouso durante a noite toda e o mínimo de esforço possível. Quando ele se foi, a menina serviu sua senhoria e lhe contou tudo o que se passava no castelo.

— Mace Martell encontra dificuldades em manter seu casamento. Ou as aparências de seu casamento.

— Como assim? – questionou Layse, erguendo as sobrancelhas e bebericando a sopa.

— Os quadros sussurram no Sentinela que ele não tem se sentido apto a consumação. – e então soltou uma risada fraca, zombando. – O príncipe de Dorne não diz nada contra, mas Betyne demonstra-se muito inocente nos assuntos das mulheres casadas. Ela mesma se escandalizou quando questionaram a dotação de seu esposo.

— Eu também ficaria horrorizada – retrucou Layse, defendendo sua prima. A criada encolheu os ombros.

— Perdão, milady. As senhoras nobres com certeza se escandalizam, não sei por que passou-me tal pensamento. – e então ela limpou a garganta. – Vossa mãe e vosso pai estão melhorando, também. Porém ainda sofrem com fortes febres e dores no peito. O meistre os sangra três vezes ao dia e suas peles parecem as de cadáveres. Logo não haverá sangue em seus corpos. Seu pequeno irmão está quase são. Já brinca com os cavaleiros que cuidam de seu quarto e a ama diz que ele já pede por alimentos mais sólidos. Betyne saiu impune deste acontecimento e está ansiosa por ver sua nova casa em Dorne. Os dorneses demonstram grande contentamento em partir imediatamente e o meio-irmão do príncipe o apressa todos os dias. Embora Vossa Alteza insista em ficar até que seus cunhados estejam sarados.

— Ele é um doce. Mas não deveria se preocupar tanto. Até mesmo Betyne já tem consciência de como tudo ficará bem. Os deuses são bons conosco. Se Yann passa bem, então meu coração se acalma. – Layse tomou o resto da sopa em silêncio.

Ela novamente sentiu uma tremenda vontade de tomar todas as decisões da sua vida. Logo o controle de tudo sairia das suas mãos, ela não supervisionaria mais o castelo, enquanto os pais se recuperavam. Notou, no entanto, que a criada não havia falado nada sobre seus avós. Não era como se se importasse de verdade com eles, mas o fato de ter ocultado o que lhes passava a deixou curiosa.

— E meus avôs? Suspeito que estão muito bem?

— A Estrela de Tarth retornou para Tarth.

Claro. O mais rápido possível, longe de qualquer um que poderia acusá-los de ter quase matado toda a família do lorde. Soltou um suspiro. Layse gostava da ideia de finalmente sua casa estar vazia, apenas com quem realmente tinha de ficar dentro dela, seus pais, seu irmão e os criados. O torneio terminara bem, o casamento acontecera bem e todos os senhores voltaram para suas casas, reclamando suas glórias ou lamentando silenciosamente suas derrotas. Mace tentara visitar Layse após seu casamento, mas não permitira. Em todos os momentos obrigou a criada a dizer que ela não estava acordada ou que vomitava muito. Em um dia ele partiria com a prima e seus selvagens. Poderia respirar aliviada.

Layse também odiava permanecer na cama, enrolada a cobertores. Há dias não saia do quarto, nem mesmo para jantar. Tinha de mudar aquilo. Ela se sentia muito bem, por mais que não quisesse que as pessoas soubessem disso. A criada a ajudou a se banhar, escovando sua pele e mergulhando seus cabelos em óleos perfumados. Pediu para que a vestisse, e, indo contra as ordens do meistre, saiu do quarto e caminhou lentamente pelo corredor. Era estranho sentir os pés a sustentando após tantos dias na cama. Mas parecia mais com uma estranha liberdade com que um estranho esforço. Seus pés deslizavam pelo chão de pedra e ela conseguia ver as teias de aranhas no teto de vigas, iluminado pelos candelabros presos às paredes.

O corredor tinha várias portas, pois era o acesso aos quartos da família do lorde. Felizmente, todas as portas estavam fechadas e ela passou sem ser incomodada. A porta do quarto de Betyne mantinha um selo do Sol e do Veado por cima, com uma lança em sua boca. O novo sinal do casal Martell parecia estranho, laranja e amarelo demais. Cores quentes demais. Layse não soube muito bem por quê, mas colocou seu ouvido contra a porta, como se ouvir qualquer coisa lá dentro fosse um sinal de que os boatos sobre Mace eram mentiras. Mas tudo permanecia em silêncio. Estariam dormindo? Esperava que sim.

Alcançou a porta do quarto do lorde, onde o pai estava. Adentrou, sem mesmo bater, e encontrou o que já esperava. Seu pai estava um pouco mais do que parecido com um cadáver. Seu rosto apresentava manchas amareladas e esverdeadas, assim como a boca estava aberta, enquanto ele dormia sem levantar ruído. Mesmo seus cabelos pareciam ter caído até se tornar tão ralos que podia ver a pele rosada por baixo dos fios negros. O meistre o estava sangrando quando chegou. O velho ergueu a cabeça e balbuciou algo como “não deveria estar aqui”, mas Layse se aproximou do pai do mesmo jeito e o encarou. Beijou-lhe a face, com relutância, e a sentiu fria, com a respiração leve e quase imperceptível. Ele não vai sobreviver.

— Que os deuses te tragam forças logo, papai. – ela murmurou e então deu um sorriso de lado para o meistre, que assentiu com veemência e a deixou ficar mais alguns minutos observando o velho e novo Lorde Baratheon.

Quando já começava a sentir o fedor da urina e das fezes que seu pai fazia na cama, deixou o quarto e se encaminhou até o quarto da mãe. Catalina não se entregaria com tanta facilidade. A mulher estava sentada, jogando almofadas em sua criada, que parecia tentar convencê-la a comer a sopa. Quando viu sua filha, Catalina abriu os braços e quase jogou-se da cama em direção a ela, mas suas pernas falharam e ela se apoiou no colchão com dificuldade.

— Mamãe, tenha cuidado – ralhou Layse, enquanto a ajudava a voltar para debaixo dos lençóis.

— Minha menina! Está tão bem! Esta víbora me dizia coisas horríveis a seu respeito! Ela quase me convenceu a pensar que estavas morta! – e então ergueu o braço para jogar mais uma almofada, porém Layse a impediu. A criada correu para a porta murmurando “eu apenas disse que estava se recuperando, milady” e então escapuliu sem pedir permissão para ir.

— Você sempre exagera, mãe.

— Ela mente. Disse que você ficou dias na cama.

— Assim como a senhora. – concordou Layse.

— E Yann...

— Yann está brincando com seus guardas, pelo que minha criada diz. Ele com certeza é o lorde que sempre quisemos. Forte, em coração, mente e corpo. Os deuses o abençoaram. Assim como abençoaram a senhora – beijou-lhe a testa e a forçou a se deitar, enquanto tomava a sopa e começava a lhe servir na boca.

— Nunca pensei que você teria de cuidar de mim tão cedo. Ainda é minha garotinha! Layse! Você precisa de um futuro antes que eu me vá! Você precisa assegurar que Yann governe as Terras da Tempestade e tem de se tornar Lady Tyrell. Você tem que ir até Porto Real e pedir que seu noivado seja realizado oficialmente, assim como as bodas e...

— Mãe! Não irei me casar se a senhora não me pode assistir trocando meus mantos com o meu esposo. A senhora terá tempo para ver isto, e também para segurar seus netos.

— Não! Estou morrendo! – Catalina afastou a sopa e jogou-se contra os travesseiros, começando a soluçar. – Logo partirei! Junto de seu pai! Vê como estou péssima? Sinto que minha vida é arrancada de mim a cada dia!

— Mãe... você está exagerando...

— Minha doce Layse! Minha donzela! Precisa seguir sua vocação e se tornar a senhora de um grande homem.

— Otto.

Catalina assentiu. Então franziu as sobrancelhas e colocou o dedo sobre os lábios.

— A não ser que queira ser rainha.

Layse sempre quis.

— Você está sugerindo o Príncipe Aerthon?

— Não. O Rei Valois. – Catalina sorriu – É perfeito. Um rei solteiro, num reino próspero, com inimigos fracos. O que Otto pode fazer com seu príncipe rebelde, enquanto os Targaryen e os Valois estiverem no poder? Ele não será nada perto do que você será. – e então ela exclamou uma gargalhada. – Vou escrever ao rei agora mesmo.

Layse sentiu um arrepio tomando-lhe a espinha. Rhomeo era o rei. O garoto que brincara de castelo com ela, que lhe tomara como sua esposa (o que Otto não gostou nem um pouco e resultou numa briga) e que lhe dera gatinhos como “filhos”. A lembrança a fez pensar em coisas ainda mais antigas. Quando Yann não era nascido e ela era a herdeira de seu pai. Quando era mais importante. A carta que enviou a Rhomeo contava todo o episódio da morte de seu tio e de seu novo título como filha do Lorde da Tempestade. E Rhomeo havia respondido com grande alegria e felicitações, torcendo para que logo encontrasse um esposo digno.

— Não escreva. – pediu a menina, e então acrescentou ao ver a expressão irritada da mãe. – Eu escreverei.

— Você será a rainha mais bela de toda a história.

— Se assim desejar – ela se levantou, fazendo uma mesura a Catalina, que assentiu e bateu palmas, entusiasmada.

— Realmente, não posso morrer antes de ver seu casamento! Imagine, as bodas de uma princesa, sua viagem de coroação!

Layse abriu um sorriso pequeno, deixando o quarto da mãe. Ela tinha sonhos grandes, enquanto a menina tinha sonhos realistas. Conhecia os prós e contras e conhecia a prometida de Rhomeo, Syerra Arryn. Os Arryn, que resgataram Betyne e controlavam o comércio a Leste. Enquanto caminhava de volta para seu quarto, ela abria e fechava várias vezes as mãos. O que diria a Rhomeo? Como pediria para ir vê-lo? Como persuadi-lo para romper com o Ninho e se aliar à Ponta Tempestade? Os benefícios eram claros: Layse era a segunda filha do Lorde e não possuía outros irmãos. Syerra tinha dois, suas chances de sucessão eram baixas. O Ninho era um lugar pobre. Por mais que seu novo lorde tivesse grandes riquezas, os clãs não o veriam com bons olhos, não a princípio. E os Baratheon tinham grande nome e história com seus senhores. Além de estar muito mais próximo de Jardim Suspenso e Jardim de Baixo. Era uma área estratégica contra a Campina, impedindo que um confronto direto fosse feito a Porto Real.

Abriu a porta de seu quarto, já com a mente maquinando todas as frases que colocaria na carta. Sentou-se diante a escrivaninha e molhou sua pena na tinta.

Meu querido e velho amigo,

Novamente trago notícias, desta vez não tão alegres. Betyne casou-se com o vencedor de seu torneio, Mace Martell e em breve conhecerá seu novo povo. Ela será uma princesa e tem muita sorte por isso, todavia sentirei sua falta. Temo que minha família não seja tão afortunada. Quando meus avós chegaram, trouxeram consigo dois criados doentes, que envenenaram meus pais, meu irmão e eu. Sofremos muitas noites de angústia, o motivo do meu silêncio. Mas fico feliz em dizer que Yann se recuperou quase por completo e eu me sinto muito bem. Minha mãe já consegue brigar com sua criada e meu pai apresenta uma feição serena, sem dor. Minha mãe, no entanto, insiste para que eu deixe o Sentinela e retorne a Ponta Tempestade. Mas me sentiria tão solitária e tão longe de amigos que não posso suportar. Por isso, peço com toda a esperança em meu coração, que me aceite em vossa Corte, como uma visitante. Adoraria conhecer vossa noiva, Syerra, de quem fala tão bem, e também seu irmão, Elric, que me diz ser solteiro. [Você pode sorrir, eu deixo]. Atenciosamente e com todo o amor do mundo, ao meu quase irmão,

Rei Rhomeo, de sua sempre fiel amiga, Layse B.

Leu novamente a carta e se sentiu satisfeita. Quando a criada entrou novamente no quarto, entregou-lhe o envelope e pediu para que desse ao meistre e pedisse que o enviasse a Jardim Suspenso. Quando retornou para a cama, era como se um grande peso fosse retirado de seus ombros. Finalmente, estava sendo útil, fazendo algo. E seria rainha. Se, de toda forma, não conseguisse seduzir o coração puro de Rhomeo, havia ainda o Lorde que estava em suas graças, o Senhor do Ninho da Águia, de quem ela não desmerecia toda a fama. Mão-de-Ouro ou não, qualquer um deles seria afortunado em poder tocá-la.

Notas finais
[silêncio] Espero que tenham gostado, meus amores. Jogos, eu adoro quando jogam. Beijos de Lady Savoy.