Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]

4 Os Quadros Sussurram no Sentinela


Notas iniciais
Boa leitura.

Os Quadros Sussurram no Sentinela

“Se não era amor, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não se sabe se vai ser antes ou depois de se chocar contra o solo.” — Martha Medeiros

Dawn of a New Century – Secret Garden

Como um passarinho, ela saltitava aqui e ali, dançando com seu vestido azul feito o céu de primavera e os cabelos caindo em cascatas pelas costas, rodopiando junto a ela, numa valsa desalinhada. Dançava com graciosidade, e sua voz era uma melodia de pura harmonia, o canto de um rouxinol em voo.

A última vez que a vira, estava pequena, ainda um bebê enrolado em mantos confortáveis e ricos, agora era uma donzela bela e prendada, passara o dia inteiro dentro de seu quarto, esperando pacientemente por seus irmãos, que estavam agitados com o desaparecimento de Betyne Baratheon. Syerra costurara uma almofada dourada para Lucien, como presente de boas-vindas a família, e ele a aceitara com muita gentileza, o que era desconhecido até então por todos.

Lucien decidiu que amaria Syerra sem dificuldade, ela era uma jovem que não se envolvera em nenhum dos seus assuntos até então, não havia perguntado sobre sua vida ou porquê ele se afastara do Ninho da Águia. Se ela fosse esperta, teria perguntado porquê ele voltou apenas após a morte do pai, quando o Vale de Arryn seria dado a um dos filhos, e ninguém conseguia se decidir qual.

Mas, para sua sorte, ela não parecia muito esperta.

— Não consigo imaginar sua vida em um castelo grande e com uma irmã tão doce cantando todos os dias – falou Lucien a seu irmão menor, Elric, que até então permanecera quieto com os pés sobre a mesa. Elric ergueu uma sobrancelha, porém Lucien não o deixou falar. – Deixa-me muito feliz com uma recepção tão calorosa, minha irmã, eu imaginei que me odiasse por estar longe.

Syerra parou de rodopiar e ajoelhou-se aos pés de seu querido irmão, unindo as mãos sobre seus joelhos, como se fosse seu próprio pai, do modo que costumava fazer após a ceia no Ninho da Águia. Elric não entendia como ela podia acolher tão rapidamente um irmão que nunca havia lhe dado atenção. Era ele quem merecia aquele consolo, não Lucien!

— É sempre uma alegria para mim. Estar com a família... – ela sorriu, virando a cabeça para Elric – Não é um prazer rever nosso irmão?

— Com certeza – concordou Elric a contragosto, retirando os pés da mesa e se encaminhando até ela, ajoelhou-se ao seu lado e disse gentilmente – Já está tarde, querida, é preciso dormir. Amanhã voltaremos para casa, precisa de descanso.

— Morro de saudades de casa! – ela murmurou, levantando-se. Lucien se surpreendeu quando a menina pegou suas mãos e as beijou nos nós dos dedos, em seguida pediu sua benção e ele a concedeu timidamente. Até que ela saísse do quarto, Elric ficou olhando a porta.

— Não tente se aproveitar dela – falou friamente o rapaz mais jovem, cruzando os braços sobre o peito. Seus cabelos castanhos roçavam nas orelhas, já grandes. Lucien achava-o muito parecido com mamãe, pela sua memória, os olhos eram idênticos e ele falava no mesmo tom autoritário de quem não tem certeza da autoridade. – Ela cresceu imaginando o mundo perfeito e assim deve permanecer.

— Eu não ousaria corromper sua pureza – rugiu Lucien, ofendido pelo comentário arrogante do irmão. Já era difícil demais aguentar os criados que o olhavam no Ninho da Águia ou os lordes que exigiam sempre muito mais do que ele poderia fazer, apenas para provocá-lo, agora também teria de lidar com um irmão prepotente? – Está me chamando de selvagem?

— Mil perdões, meu senhor – disse Elric, curvando sua cabeça. Mas por trás das madeixas havia um sorriso. – Mas não fui eu a ser criado em bordéis e entre gangues de foras da lei. Não é muito confiável esse tipo de criação.

Lucien abandonou sua poltrona e agarrou-o pelo colarinho do gibão dourado, pacientemente encarando-o com toda a frieza presente em seu coração, os olhos negros penetrando o mais fundo medo em Elric. Por fim, soltou-o, bufando antes de atirar o dedo contra seu rosto, a centímetros de tocá-lo.

— Não me dirija a palavra deste modo. Eu saí de casa injustamente, fui deserdado injustamente e retornei. Enquanto você via nosso pai afundar o Vale em dívidas e nossa mãe deixar Syerra cada vez mais frágil escondendo-lhe o mundo. Se suas pretensões eram herdar o Vale de Arryn, então não deveria ter me enviado aquela maldita carta pedindo ajuda.

— Eu não pedi ajuda! Eu lhe dei o que era de direito!

— Não deu! – Lucien estava ficando furioso – Eu paguei todas as dívidas desta família e conquistei-a por isso. Minha honra está na conquista e não no direito. É assim que serei lembrado.

— Quer que todos saibam o quão fraco era nosso pai? – sorriu Elric, ainda tão sarcástico quanto antes. Lucien o queria morto, com certeza, morto e devorado por cães.

— Exatamente. E o quão fraco foi você.

Elric recebeu as palavras como socos em seu estômago. Fizera tudo como sua mãe queria, antes de morrer. Ele honrou-a, trouxe justiça, resgatou seu irmão contra a vontade de todos os senhores de Arryn, aceitava os paparicos de Syerra e abriu mão de sua herança apenas por honra. E tudo o que recebia era... aquilo. Aquele mal-agradecido e soberbo homem que dizia ser seu irmão. Que via em tudo um meio de prosperar para benefício próprio. Temia o que ele poderia fazer com Syerra, a quem ele a daria. Temia o que ele faria consigo mesmo! Seu pai era um tolo, porém um homem esperto que se cega com o poder é ainda mais tolo.

E nada poderia dizer, pois o Lorde merecia respeito e submissão, e ele era apenas um jovem, nascido Arryn, que se casaria com quem Lucien quisesse e moraria nas terras que ele escolhesse. Era a justiça e a aceitara com dignidade. Lembrou-se do que mamãe lhe dizia quando alguém o irritava “Dê a outra face a tapa”.

— Se é isso que agrada o Lorde de Arryn – curvou-se até o chão e não se levantou até que Lucien grunhisse. – Peço permissão para sair dos aposentos do Lorde.

— Você... seu filhote... – o irmão cerrou os punhos com força e Elric enfim não entendeu mais nada. Quando ele era genial, seu irmão se enfurecia, quanto era submisso, ele o queria morto. O que faria então? – Saia da minha frente, agora.

Com uma última mesura, Elric deixou-o um pouco triste. Sua relação com o pai não fora das melhores, e o único consolo estava na mãe. Com ambos mortos por causa da Possessão, sobrava-lhe um irmão que parecia o clone do pai e a irmã, a quem tinha de manter fora de todo aquele atrito. Nunca concordara com manter Syerra longe da verdade e dos problemas, mas agora que ela já tinha dezoito anos e iria se casar no verão, nada poderia fazer além de se esforçar para mantê-la bem até que pertencesse a outro homem.

Elric entrou em seu quarto. O Sentinela ficava na fronteira entre as Terras da Tempestade e Dorne, o castelo simbolizava o fim dos confrontos e a vitória dos Baratheon. Mas era o lugar mais escuro e frio em que já havia pisado. Sua cama era dura, mesmo com um colchão macio, as vigas da madeira pareciam feitas de pedra. Os móveis tinham cheiro de mofo e o faziam espirrar sempre. Sua janela ficava, como a maioria, voltada para o lado errado, o que trazia a luz do Sol logo pela manhã, acordando-o, e no resto do dia o lugar ficava no completo escuro.

Quando enfim, adormeceu, sentiu-se escorregar de volta a sua infância, onde sua consciência estava apenas nas brincadeiras com os guardas do castelo e seu irmão mais velho, ás vezes. Lucien estava sempre ocupado com seu pai, aprendendo a ser um lorde, enquanto ele ficava jogado pelos corredores, no colo de sua mãe ou provocando a cozinheira. Sabia que era amado pelo pai, mas mesmo assim era horrível ficar nas sombras do irmão. Quando ele foi embora, tudo parecia melhorar, como se enfim Elric tivesse o mínimo de atenção necessária para uma criança.

Mas tudo se tornou ainda mais obscuro. O Lorde enfurecia-se com facilidade e odiava tê-lo em sua presença, assim como preferia cear sozinho em seu quarto. Mamãe não o via de noite e mesmo Syerra não podia acalmá-lo para sempre. Quando morreu, foi um grande alívio, porém ele levou junto a sua mãe e deixou-o como herdeiro de grandes dívidas. Elric havia pesquisado sobre o paradeiro de seu irmão e, após se decidir com os conselheiros, enviou-lhe uma carta pedindo para que voltasse e tomasse o lugar de Lorde de Arryn. Elric queria ter sua terra e ser um dos senhores de Westeros, porém não passando por cima do direito de seu irmão. Sua honra jamais aceitaria isso.

Acordou com o fraco feixe de luz sobre suas pálpebras.

No quarto ao lado, Syerra penteava os cabelos com suas damas de companhia a escolher seu vestido e a arrumar seu baú. Elas eram muito eficientes e espertar, quando ouviram os sons da menina retornando ao quarto, trataram de acomodar os travesseiros e acender as velas aromáticas que trouxeram do Vale para que Syerra não se sentisse longe de casa. Então a viram com a costumeira expressão de desalento e tristeza, como quando seus pais brigavam ou Elric estava irritado. Syerra sempre se importara muito com as pessoas ao seu redor e ela sabia exatamente tudo o que sentiam, podia prever, como se sua ligação com a família fosse muito forte. As moças sabiam que sua senhorita não se acalmaria até que tudo estivesse bem, então tentavam convencê-la de que tudo estava bem. Mas Syerra não era boba.

Pousou a escova sobre sua penteadeira, observando o reflexo na bacia com a água que usara para lavar o rosto e o cabelo. Sua camisola engomava-se sobre o colo e seus olhos pareciam inchados de sono. Quando Aime mostrou-lhe o vestido que escolheram para ela, Syerra notou que era o mesmo que usara na última ceia ao lado da cama de sua mãe, quando ela estava possessa pela febre. Era um vestido simples, com cintura baixa, detalhes em flores e renda de ouro sobre o corpete, mangas curtas e barras duplas, ideal para a primavera. O manto para a despedida era azul celeste, como na bandeira dos Arryn. Syerra decidiu que prenderia seu cabelo com presilhas de flores azuis e uma rede de ouro. Estava elegante e muito mais madura do que era.

— Elric e Lucien brigaram novamente ontem – contou-lhe Jasmyr, uma escrava que ela ganhara de presente de noivado de Rhomeo Valois, Rei da Marca e Lorde dos Jardins Suspensos. – Elric parece querer reatar os laços com Lucien, porém o lorde o repudia.

— Isso é terrível. – Syerra murmurou, pensando em seu querido irmão, honrando os últimos desejos da mãe de ter sua família unida novamente. – Precisamos acalmar o lorde. – ela disse a escrava, que sorriu. Jasmyr achava sua senhora a criatura mais doce de todos os reinos e que seria a rainha perfeita para cessar os conflitos entre a Marca e a Campina.

— Elric pediu para que providenciassem uma carruagem separada para ele. – contou-lhe Aime, arrumando as madeixas da senhorita da forma como ela desejava. – Disse que não suportaria ser desrespeitado novamente.

— Elric é sempre inconsequente. – Syerra revirou os olhos, pensando bem. – Eu irei com meu irmão, Lucien, e o convencerei a ser amigável com nosso irmão. Nada mais justo, depois dele o trazer de volta para casa. Deveríamos estar todos felizes.

— Sim, senhorita, todos felizes – concordaram as damas, cumprindo sua tarefa e deixando Syerra Arryn como a mais bela donzela a despertar naquela manhã.

Syerra desceu as escadas sentindo a fome a corroendo. O desjejum era um momento muito aguardado, desde que saiu do Vale, pois aparentemente a ceia era feita durante a tarde, enquanto em sua casa ela acontecia de noite, deixando-a com o estômago vazio por muito mais tempo. Enquanto passava pelos corredores, escutou ruídos atrás de um dos quadros, o de uma mulher bela e morena, cujo nome era Jeanine. O quadro estava imóvel, porém quanto mais se aproximava dele, mais nitidamente conseguia ouvir as vozes.

— A menina continua com os Estermont, no Castelo do Minuano. – a voz deu uma pausa longa – Betyne não suspeita de vossa senhoria.

— Muito bem. E Samwell? – desta vez quem dizia era uma mulher. – Já o encontraram?

— Ainda não, minha senhora. Mas garanto que quando o encontrarmos, ninguém mais o vai.

— Muito bem.

Syerra viu alguém vindo pelo corredor e distanciou-se do quadro, fingindo estar observando-o. Quando o cavaleiro se foi, tentou ouvir mais, porém as vozes já se tinham calado. O fato de ter descoberto algo importante não a impressionou. Após a chegada de Catalina e seus filhos, todos não paravam de murmurar que o problema com a menina desaparecida era muito maior. Mas não apenas isso. Havia uma conspiração ali. Algo que seus irmãos gostariam de saber e que ela deveria lhes contar. Talvez primeiro para Elric, assim ele poderia se reconciliar com Lucien e trabalharem juntos para desmascarar quem quer que fosse o envolvido no caso.

Chegou a sala de desjejum e sentou-se ao lado de seus irmãos, sorrindo a ambos e perguntando se haviam dormido bem.

— Não dormi, mas o fato de irmos para o Ninho da Águia me deixa muito relaxado. – respondeu Lucien, bebendo leite e pão molhado. Elric mordia uma maçã.

— Preciso contar-lhes algo que ouvi hoje. – ela disse, de modo que os dois se aproximaram mais para ouvir, mesmo com os desentendimentos entre um e outro – Mas não agora.

Os rapazes se entreolharam e sorriram, numa camaradagem que somente uma irmã menor como Syerra pode criar.

Ela os convenceu a sair para caminhar, mesmo com os soldados correndo para um lado e para o outro. Ela segurava nos braços dos dois, sua cabeça na altura dos ombros de Elric e do cotovelo de Lucien. Quando já estavam perto das videiras do jardim, ela soltou-os e começou a contar o que havia ouvido pela parede do corredor. Seus irmãos ouviram com cuidado e atenção, desviando os olhos dela apenas para se entreolharem brevemente. Quando Syerra terminou, Elric disse:

— Tem certeza que foi exatamente isso que ouviu? Não é uma brincadeira, Sysi?

— Não mesmo. – ela cruzou os braços, desafiadoramente – Eu não gosto de mentir.

— Eu sei disso – ele concordou – Mas ainda me impressiona que possa ter ouvido isso.

— Não entendo o por quê. Qualquer um ouviria. Você não acredita em mim?

— Acredito, é claro. Apenas acho... que não é da nossa conta. Se alguém quer fazer mal a Lorde Baratheon é porque ele merece, não vamos nos envolver em política de outras terras.

Lucien suspirou.

— Eu também acredito em você e acho que devemos resgatar Betyne do castelo dos Estermont, podemos ir com alguns soldados do Sentinela e exigir a menina. Se recusarem, podemos intervir com a força. Os Estermont não são exatamente uma frota de soldados treinados, eles dependem muito mais de suas alianças de comércio.

— Não precisamos de mais problemas – Elric murmurou para seu irmão, que apenas bufou e continuou encarando a menor. Syerra imaginou que eles não concordariam em nada até que conseguissem algo juntos e pudesse dizer que dependeram da ajuda um do outro.

— Eu quero que vocês invadam o castelo sozinhos, resgatem Betyne e a tragam em segurança até aqui. – Syerra disse, decididamente.

Lucien curvou-se e beijou a mão da irmã.

— O seu desejo é uma ordem. Vamos, Elric, precisamos nos preparar.

— O quê? – Elric grunhiu, olhando para os irmãos. – Mas... Nós... Syerra!

— Eu ordeno que me obedeça! – ela rugiu com sua voz fina e doce, o que fez o coração de Elric estremecer de fraqueza. Como dizer não aquilo? Suspirou, em derrota.

— Como desejar.

Notas finais
O que acharam dos irmãos Arryn? O trio é composto por três fichas que de alguma forma consegui unir em suas histórias. Lucien Arryn foi deserdado por *algum motivo* e saiu de casa. Quando o pai morreu, deixou muitas dívidas, que Elric como herdeiro teria de pagar. Mas a mãe de Elric, a quem ele amava muito, pediu pra que o filho reunisse a família. Elric então chamou Lucien para dar-lhe a herança por direito, porém Lucien acha que o irmão só fez isso pois nao tinha dinheiro para pagar as dividas, e agora que elas estão pagas, quer o título de volta. Já Syerra é uma criatura fofa e cheia de amor que une os dois :3 Eu amei essa família. Beijos de Lady Savoy.