Notas iniciais
Boa leitura!

A Donzela de Ferro

“A história da mulher é a história da pior tirania que o mundo conheceu: a tirania do mais fraco sobre o mais forte.” — Oscar Wilde

Crier Tout Bas – Coer de Pirate

Seu corpo estava esparramado no chão de pedra fria, e estremecia a cada sopro do vento da noite, por entre as barras da janela, no alto da parede. Nua, seu vestido rasgado ao seu redor, na mesma posição em que foi possuída e desonrada. Os grunhidos do fundo de sua garganta aos poucos se tornaram em tentativas de respirar calmamente, por mais que a adrenalina ainda corre com fúria em suas veias. O peito subia e descia pesadamente. Seria mais fácil apenas morrer, a continuar com aquela dor aguda no peito, entre suas costelas, aonde o cabo da espada a atingiu ao tentar fugir do ataque. Seus pais estavam mortos, seu castelo tomado. Tudo o que lhe restava era o chão que a sustentava e o ar que a mantinha viva.

Anezka ouviu os passos no corredor que levava a seu quarto e rapidamente tomou todas as forças que tinha para agarrar a roupa no chão e cobrir-se da melhor forma possível. Quando a porta se abriu, Thalua a encarou em sua desgraça e correu para ajudar a senhorita, segurando-a pelos braços e a levando até a cama do quarto. Colocou o corpo pequeno e frio de Anezka entre os lençóis limpos, deixou-a apenas até abrir o baú e pegar o primeiro vestido visível. A bacia da água da manhã ainda estava lá, não haveria problemas em reutilizar a água, então pegou o pano molhado e o passou sobre o pescoço e as costas de Anezka com delicadeza, passou-o por seus braços finos e avermelhados e seu peito plano de uma garota de meros quatorze anos. A criada enfim vestiu sua ama, tomando cuidado enquanto abotoava o corpete e enlaçava as mangas. Era um vestido comum, que Anezka adorava, com mangas grandes, caídas e uma saia longa e rodada. Deixa-a parecendo ainda mais com uma boneca, de cabelos cacheados e castanhos caindo até os pés e olhos azuis claros, pele branca e delicada, feito porcelana, lábios moldados a perfeição, angelicalmente bela e amável.

Como um ser tão puro e divino seria atacado por um verme, um monstro completo, como aquele que tomara o castelo em plena luz da manhã, com pouco mais de cento e cinquenta homens, todos tão repulsivos quanto ele, que mataram sem temor e estupraram sem medo da justiça dos deuses. A pobre Anezka, que Thalua não conseguira proteger, oh, por favor, perdoem-me, céus, por não ter protegido o presente que nos deste!

— A menina está pronta? – grunhiu um soldado a porta. Ele fora um dos primeiros a entrar em Correrrio, tinha uma altura impressionante, ombros largos e braços enormes, que assustavam Thalua apenas pela sombra formada no chão do quarto. Seus olhos eram pequenos e o queixo dividido ao meio por uma cicatriz que subia até seus lábios e os cortavam, repuxando a pele para cima, até o nariz. Chamavam-no de Lenhador, e era fácil entender o porquê observando a arma em suas mãos, tão grande quanto ele próprio e que repartira o crânio de Ester Lannister como se fosse um pedaço de queijo. Ester era o pai de Anezka.

— Preciso arrumar seu cabelo... – Thalua explicou, porém o Lenhador entrou no quarto, olhou para ambas e cuspiu no chão, ao lado do vestido destruído da menina.

— Ela não precisa estar bonita, apenas precisa estar lá. Desça agora. Eu a levarei – ele disse com sua voz que parecia um trovão, retumbante em todo o quarto. A criada deixou sua senhorita e fez uma breve mesura ao cavaleiro, deixando-os, não sem antes culpar-se e arrepender-se amargamente. Porém, se falasse, seria morta, e disso tinha certeza. O melhor para ambas era que obedecesse, como ela sempre obedecia. Era o destino de sua fatídica vida camponesa e ela estava feliz com isso.

Lenhador ergueu seus olhos para a menina sentada na cama, de rosto baixo e ombros caídos. Não era como se sentisse empatia por ela. Viera das Ilhas de Ferro, conhecia o destino dos homens: a morte. Ela tinha sorte de o Senhor Bolton não ter pedido para que levassem sua cabecinha em uma bandeja. Aliás, ele próprio não sabia porquê poupar uma criança que já havia perdido os pais e a dignidade, era mais solidário acabar com aquilo de uma vez. Mas, como as moedas de prata diziam em seu bolso, ele estava ali para ser útil, não para seguir seus princípios morais. Quando o silêncio tornou-se mais sombrio, Anezka ergueu seu rosto, seus olhos azuis ressoando a mais gélida alma que uma criança de quatorze anos pode ostentar. Ela desafiava-o a virar o rosto, o que o Lenhador não faria nem se para isso dependesse sua vida, e assim travaram um duelo, até que o empate fosse reconhecido.

— O Senhor Bolton deseja cear com a senhorita. – disse, da forma mais simples que pôde, sem parecer intimidador ou amigável demais. Ela grunhiu um Hunf e cruzou as pernas, virando o rosto para o outro lado, numa pose arrogante. – O Senhor Bolton pede com gentileza para cear com a senhorita. – o Lenhador tratou de deixar mais claro que aquilo era uma ordem e não um convite. Recusas não seriam aceitas.

— Garanto que ele já comeu tudo o que tinha aqui, não preciso cear com ele. – ela levantou-se – Mas, se aquele salão está tão necessitado de uma boa aparência, eu creio que não posso ser tão cruel de privá-los a companhia. – então esticou o braço até segurá-lo, como se fosse um acompanhante – Vamos para a minha sala de jantar.

— A sala do Senhor Bolton. – o homem a corrigiu, um pouco entretido com a ridícula honra que os nobres tanto ostentavam.

— A minha sala de jantar que o Senhor Bolton está usando hoje. – e então puxou-o para a frente, como se fosse possível com sua força. Ele a acompanhou pacientemente, até as escadas. Desceram em silêncio e, quando estava em frente as portas da sala de jantar, os guardas próximos amarraram-lhe os pulsos com correntes que se penduravam e se arrastavam até o chão. – Como irei cear se estou presa?

— Você não irá cear. – o Lenhador garantiu, abrindo as portas.

Anezka lembrava-se do lugar, comera ali na noite passada, com papai e mamãe e todos os criados do castelo, dividindo a refeição, ouvindo um cantor e contando histórias entre si. As bandeiras dos Tully foram retiradas das paredes e a grande cadeira do Leão, que pertencia a papai, estava quebrada no centro da sala, todas as mesas ao redor tinham homens, com cicatrizes e marcas do tipo de trabalho que faziam. O Lenhador empurrou-a, até o centro da sala, e então a ergueu com facilidade e a colocou sobre a pilha de madeira e leões esculpidos que eram a antiga cadeira de seu pai. Anezka olhava bravamente para o homem na mesa principal, com os pés erguidos e um copo de vinho na mão.

— Senhores, nossa Lady Lannister de Correrrio. – riu o Bolton, bebendo o resto de seu vinho e se levantando. Anezka lembrava-se de sua respiração ofegante quando estava sobre ela, a força com que arremetia-se a cada investida e a dor que sentira com o cabo daquela espada, pousada ao lado da cadeira em que sentava. – Lady Tully-Lannister. É realmente um grande prêmio, caso algum de seus parentes se interessassem por você. Os Tully não estão aqui e os Lannister... têm coisa melhor a fazer, certo? Como ajudar o rei e o Lorde. É uma pena. – ele murmurou, inclinando-se sobre a mesa. – Você tem fome, Annie?

— Eu tenho. – ela sorriu – Minha última refeição não era satisfatória.

— Engraçado – ele também sorriu – A minha última refeição foi muito satisfatória.

— Espero que não tenha sido o cordeiro. Sabe como esses animais ajudam a ir ao banheiro. É uma maravilha, quando se precisa – ela piscou, provocando algumas gargalhadas nos homens ali. Afinal, ainda eram apenas porcos fedorentos querendo uma boa diversão. – Cordeirinhos são difíceis de domar quando estão na parte de dentro. – e bateu na própria barriga, causando ainda mais agitação. Até mesmo o Bolton riu.

— Eu só a mantive viva por ordens de meu pai. Ele, por algum motivo, a quer. Se eu pudesse, diria que é perda de tempo, você não vale o trabalho. Mas, se é isso que o velho quer... – ele deu de ombros – Sabe porquê a chamei aqui, Annie?

— Não.

— Pois bem. – ele voltou a se sentar – Eu estava entediado. Esses homens são ótimos assassinos, mas péssimas companhias. E dizem exatamente o contrário sobre as damas da nobreza. Então imaginei que pudesse apreciar um jantar conosco.

— É uma oferta muito generosa – ela concordou.

O homem trincou os dentes.

— Não tem medo? – ele perguntou – Não está tremendo? Eu matei seu pai, estuprei sua mãe enquanto você e suas criadas assistiam, depois eu mesmo a estuprei no seu quarto e em seguida matei a sua ama de leite.

— Era a minha dama de companhia.

— É tudo a mesma coisa! – ele revirou os olhos, ainda calmamente. – Eu fiz todas essas coisas horríveis e temíveis. E poderia fazer pior. Por que não está tremendo e implorando piedade?

— Piedade? – Anezka saltou de onde estava, caminhando em direção a ele. Alguns soldados pegaram suas espadas, porém ninguém achava que ela pudesse fazer algo enquanto estava acorrentada. Inclinou-se sobre a mesa. – A gente pede piedade por algo. Acho que não tenho mais nada a pedir piedade. A mamãezinha já bateu as botas e o papaizinho está... com a cabeça dividida. Eu não sou mais uma donzela em apuros, e nem sou uma princesa. Esse castelo é só um amontoado de pedras e eu realmente estava ficando entediada.

Bolton ouviu em silêncio, seus homens atentos a cada movimento do senhor. Por fim, ele começou a rir. E assim se seguiu todos, enquanto Anezka retornava a seu altar de madeira, sentindo-se vitoriosa.

— Muito bem. Levem a menina para seu quarto e também um pouco de porco. Uma taça de vinho, se ela achar que já tem idade para isso.

Anezka concordou com um meneio.

O Lenhador a empurrou para fora da sala, eles desamarraram as correntes e subiram as escadas. No quarto, se despediram com um meneio grave e quando a porta se fechou, ela deixou-se escorregar pela madeira, sentindo-se desorientada e fraca. Sua respiração estava acelerada, assim como o sangue correndo nas veias. Céus! Realmente fizera aquilo! Como? De onde brotou tanta audácia?

Quando Thalua entrou no quarto com um prato de carne e um copo de vinho, Anezka não aguentou e desatou a chorar, sendo acolhida pelos braços carinhosos da criada. Ambas passaram muito tempo em silêncio, uma no conforto da outra, dizendo a si mesmas que tudo ficaria bem. O salão permanecia em estrondo, com gargalhadas e piadas obscenas. As prostitutas de Correrrio foram convidadas a aquecer as camas do castelo e o Senhor Bolton novamente saciou sua fome, aparentemente muito insaciável.

Notas finais
Me perdoem a demora. As quartas fico a tarde toda fora de casa e ontem moi café (sim, com uma manivela e tudo) e meu braço ficou doendo, eu até escrevi a maior parte do capítulo, mas não consegui terminar, então terminei hoje. Me perdoem não postar a foto da Ane imediatamente, pois não pude fazê-la, mas logo estará no tumblr. Beijos de Lady Savoy. OBS: MUITO OBRIGADA PELOS 50 REVIWS EM 4 CAPÍTULOS! Eu nunca tive tantos comentários e vou responder a todos assim que terminar de editar o banner da personagem!