Notas iniciais
Boa leitura. OBS: durante o capítulo há um flashback. Estejam atentos.

A Princesa na Torre

“A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande.” — Roger Bussy-Rabutin

Le Fabuloux Destin d’Amelie Poulain

Sentada sobre sua janela, lendo a luz da Lua, Ophelya repassava os olhos do azul dos rios sobre as linhas da carta, devorando a caligrafia delicada e esforçada do remetente. Mordia seus lábios grossos e rosados, entreabertos e macios, como os lábios dos beijos dos anjos, relia a tudo sem perder um ponto, ansiosa por redescobrir o que a carta dizia: Logo o casamento de Rhomeo e a menina Arryn aconteceria, contra a vontade de seu pai, que Deus o tenha. Rhomeo, sabiamente, aliava-se ao Ninho da Águia quando este era assumido por Lucien Mão-de-Ouro, o homem que mais fazia dinheiro em todo o reino, e como a economia da Marca era basicamente estruturada em comércios por todos os portos dos continentes, aquilo era muito lucrativo. Os Tyrell é que provavelmente não gostariam de ver parte de sua bela Campina sendo governada por outra pessoa que não Giselle Tyrell, a prometida de Rhomeo desde que era um garotinho.

Mas de nada isso lhe importava, na verdade, Ophelya não se importava com a irritação dos Tyrell ou com os investimentos do irmão no pequeno reino sustentado com muito esforço por seu pai contra a tirania Targaryen. Na verdade a única coisa que importava era a carta em si e não o seu conteúdo. Saber sobre os tratados de casamento entre sua família e os Arryn não lhe dizia respeito, a não ser que o remetente fosse um Arryn em específico: Elric.

Abriu um sorriso, terminando a leitura da carta pela quinta vez.

— ...”Queridíssima Alteza das Flores e dos Encantos, de seu humilde amigo e confidente, Elric Arryn.”. — sussurrou com o hálito quente e úmido tocando gentilmente a própria face, de tão baixo que falou e com tanto ar que usou dentro de si para fazê-lo, puxando ao final da frase um longo suspiro caloroso.

No alto, a Lua parecia sorrir para ela, em simpatia e mútua confidência. Ambas conheciam-se muito bem, Ophelya ocupava aquele quarto desde que dormir ao lado da cama de seu irmão se tornou inconveniente. Elas trocavam segredos, divagavam sobre todos os assuntos possíveis, e por fim embalavam uma a outra na noite silenciosa e calma. Ophelya adorava aquele lugar, onde podia olhar para baixo e ver o abismo até o rio que separava o Jardim Suspenso da cidadela que a cada dia crescia mais, cheia de pessoas e vida, até mesmo nas horas mais profundas da noite, as velas continuavam acesas em bordéis, cortiços, tavernas e na igreja, onde os monges iam a cada hora fazer suas orações, no mosteiro.

Ali em cima, Ophelya sentia-se longe de todos eles, de suas vidas e de suas luzes, sendo abraçada somente pela Lua, em sua cândida luz branca e com as estrelas a guiar-lhe os olhos por horas e horas, em busca de todas as constelações possíveis e de mais outras ainda não descobertas pelos homens.

— Logo eles virão para o casamento e meu irmão será coroado oficialmente o Rei da Marca e de Jardim de Baixo. – contou a sua amiga, a voz saindo entrecortada com bocejos. A cama esperava-a há tempos. – Poderei ver finalmente a quem envio tantas palavras e segredos. É louco amar alguém que nunca vi, Lua? – perguntou, olhando fixamente para o astro, desinteressadamente frio e longínquo. – É cruel que digas isto, tu nunca te apaixonastes antes. Um dia saberás como é, e sofrerá como sofro.

Ophelya então retirou-se para dentro do quarto, deitando sobre as almofadas bordadas por suas talentosas mãos e sobre os tecidos de musselina e cetim importados do outro lado dos mares, que eram tão macios e frescos. A noite não era especialmente quente, porém não havia brisa que trouxesse o refresco dos bosques e dos rios por toda a Marca. Adormeceu como um anjo, o corpo envolto a todos os luxos e mimos que uma princesa poderia receber. Seus sonhos eram longos e alvos, cheios da romântica harmonia da utópica vida de princesa e esposa que seria, nos braços do único homem que no mundo teria seu sincero e intenso amor. Somente a ele, e jamais a outro. Ophelya tinha esse sonho todas as noites, desde que voltara a viver no palácio de Valois. Quando acordava pela manhã, estava soluçando, em convulsão, as memórias devorando-lhe a sanidade, e as criadas todas chorosas e mimosas, envolvendo sua querida princesa em abraços de fria compaixão.

Num desses dias, porém, Ophelya não estava especialmente triste para chorar, era como se o sonho tivesse sido diferente e ela fosse uma pessoa diferente, como se tudo estivesse distante demais para que pudesse sentir.

A partir deste dia, não chorou mais.

As notícias de Elric chegaram rapidamente, a emboscada para resgatar Betyne Baratheon, com apenas quinze homens, fora bem sucedida, ninguém esperava-os na calada da noite e a moça foi esperta o bastante para cooperar e não abrir a boca em um momento sequer. Elric poupou-a dos detalhes sangrentos, assegurando que tudo o que tinha em seu corpo era uma cicatriz já quase totalmente recuperada e a honra de ser um herói para todos no Sentinela. Os lordes haviam elogiado a bravura dos Arryn, que não informaram nem mesmo a família da menina, antes de retornar com ela. Entretanto, mesmo que Betyne Baratheon agora estivesse com sua tia e prima, seu pai continuava perdido, aflito em busca da filha com apenas alguns homens de sua confiança. As buscas por ele continuavam e todos riam do lorde inconsequente, aguardando pacientemente seu retorno. Ele, junto de seu irmão e irmã, já estava no Ninho da Águia, reunindo todos os senhores para o casamento entre Rhomeo e Syerra. Logo poderiam se conhecer pessoalmente, e estava entusiasmado para aquilo.

Rhomeo também, como qualquer noivo, andava para cima e para baixo, observando o enxoval azul e cheio de conchas, decorado com o Azul Royal e o Azul Celeste, símbolos de ambas as casas juntas. A porta de seu quarto fora trocada para uma de madeira branca e incrustada com conchas e o beija-flor dos Valois sendo envolvido pelas grandes asas de uma águia. Rhomeo chamava o quarto de “o lugar mais constrangedor do meu palácio”, que seria o local onde ele e a moça consumariam e viveriam seu casamento, fazendo filhos e herdeiros.

Para Ophelya, o tempo estava passando rápido demais. E ao mesmo tempo, nada acontecia.

— Vossa Alteza ficará encantadora neste vestido azul e delicado que pertenceu a sua mãe, quando moça. – mostrou-lhe uma das criadas, feliz em ser útil. Queria que sua senhorita achasse o vestido perfeito, e se comovesse com o pertence de sua finada mãe. Mas tudo o que Ophelya esboçou foi um sorriso amarelo, agradecendo por ter lavado e perfumado o antigo vestido. – Sente-se bem, querida?

— Muito bem, obrigada – ela sorriu, com toda a doçura familiar da donzela, e deste modo convenceu a criada. Quem duvidaria de tal sorriso, angélica, divino, tão puro quanto uma virgem num convento. A criada levantou-se e começou a arrumar a cama de Ophelya, resmungando alguma cantiga infantil comum na Campina. Ophelya costumava gostar de cantigas, mas esquecera-se completamente delas. A lembrança das músicas de criança pareceu um grande soco que a atingiu no fundo do peito, a nostalgia mais dolorosa como nunca. Desatou a chorar, com as mãos no rosto e os ombros a balançar-se com violência.

A criada, até então envolvida em sua tarefa, correu para aquela princesa mimada e inocente que mais sabia lastimar que encantar, como deveria fazer. Não sabiam o que havia de errado com a menina, diziam que era uma moça feliz, cheia de espírito e inteligência, ela obrigara os instrutores de seu irmão a ensinar-lhe esgrima, tiro ao alvo e a ter mapas de guerra, queria saber sobre tudo, queria saber sobre todos os lugares do mundo e ir a todos os lugares do mundo. Tudo o que restava agora era uma menina irritável e chorosa. Ninguém conseguia apartar-lhe o mal do coração e tudo o que o irmão sabia sobre aquilo era o que raramente uma criada ou outra lhe contava, não muito, pois ninguém queria incomodar o rei.

— Não chores, milady, a senhorita está no melhor lugar do mundo para se estar, deve ser feliz, como deus destinou a ti para ser – disse maternalmente a mulher, segurando o rosto formoso e sardento de Ophelya, retirando as madeixas douradas como os raios do Sol de seu rosto oval e delicado. – Sabes que a felicidade é o destino daqueles que nascem como a senhora, em berços de ouro e glória.

— Por mim eu lhe daria todo o berço e toda a glória para viver uma vida como a sua! – gritou-lhe a menina, empurrando-a com a violência que não cabia a uma dama de tal estirpe. Aterrorizada e desrespeitada, a mulher levantou-se com raiva e deixou o quarto sem dizer uma palavra, Ophelya atirou-se sobre a cama meio-arrumada e chorou dolorosamente, abafando seus gritos e gemidos nas almofadas.

º º º

— Você pode, por favor, calar essa maldita boca? – Lysander gritou.

— Eu estou com fome! – Ophelya retrucou, vermelha e ofegante, ainda com os olhos inchados de toda a noite que passou chorando e implorando por piedade ao seu carcereiro.

Ela e o homem conviviam há duas semanas, em um casebre nas terras fluviais, e isso era tudo o que Ophelya sabia, pois passou a viagem toda desde Jardim Suspenso dentro de uma carroça, o dia todo com uma venda nos olhos e a noite toda dentro da carroça, com pausas apenas para fazer suas necessidades acompanhada de escolta. E isso significava, ele. Além da humilhação de ser limpa e cuidada por aquele homem cruel e detestável, Ophelya ainda teve de aguentar a solidão e a incerteza, angustiada com ideias de onde seu irmão estaria, como estaria e se estaria, pois não sabia se ainda era vivo. Como castigo por suas crises de choro e suas gritarias, o carrasco mantinha a menina com fome durante o dia, e se isso não adiantasse, ele também não a deixava sair para fazer as necessidades. E, se em todo caso, ela continuasse teimosa, então não a lavava, mesmo que estivesse ensopada de urina e suor.

Era triste a cena, eu admito, mas nada longe da verdade. A pura e cruel verdade de uma princesa comum sendo mantida presa no alto de sua torre.

— Se você parar de me irritar, eu paro de ser cruel com você! – ele respondeu e então começou a amolar sua espada, impiedosamente, num silêncio que fez Ophelya permanecer no mesmo silêncio contra a sua vontade. Queria sair dali, fugir, e já tentara mais de uma vez, antes dele ter de prender seus braços e pernas com correntes e manter a espada por perto todo o dia. Ele a fazia dormir durante o dia, para assim não tentar fugir, e durante a noite ele se deitava ao seu lado, com as mãos nas correntes e a espada debaixo do corpo. Ophelya pensava em oportunidades de pegar a espada e matá-lo. Mas o que faria depois? Estava acorrentada, num lugar que não conhecia, suja, faminta e com medo. Onde estaria Rhomeo? Onde? Pobre Rhomeo, seu irmãozinho menor, que amava tanto, pelos deuses tinha de ter uma sorte maior que a dela.

— Você está assustadoramente me encarando. O que foi? – Lysander perguntou, parando de amolar a espada e colocando-a ao seu lado. Estavam em paredes opostas da casa e a distancia facilitava a convivência, afinal nenhum dos dois conseguia tomar banhos ou fazer as necessidades sem se afastar muito do outro, querendo ou não.

— Pergunto aos deuses se há na terra um homem tão mau e sujo quanto você.

— Querida princesa – ele sorriu, sarcástico, e isso a fez odiá-lo ainda mais, virando o rosto como se o ignorasse, mas ainda ouvia – Eu não sou tão ruim quanto descreve. Se eu fosse, a estupraria todos os dias, rasgaria seus vestidos e a manteria com cicatrizes abertas apenas pelo prazer de vê-la sofrer. No entanto, eu não a toco, dou-lhe roupas limpas e novas e cuido de suas cicatrizes com pomadas muito caras.

— Eu deveria agradecê-lo, então.

Lysander sorriu, de uma forma bondosa e amável, o que somente comprovava o quão dissimulado e psicopata ele era. Um louco! Completamente louco!

— Eu o odeio.

— Não sou pago para fazê-la me amar. – o homem deu de ombros – Eu não sou pago há alguns dias, na verdade. Isso está começando a me incomodar. Não é fácil te suportar por prazer – e então piscou galantemente, provocando náuseas em Ophelya e ela virou-se no chão, deitando para o outro lado, começando a soluçar e chorar. – Ah, pelo amor dos deuses, você não consegue passar uma hora sem derramar essas lágrimas mentirosas?

Após incontáveis dias, talvez meses, Ophelya notou que realmente as lágrimas eram falsas. Elas rolavam pelo rosto, quentes e lavavam sua alma. Mas não havia nada dentro dela que precisasse ser limpo. Os cabelos raspados agora já lhe alcançavam os ombros e as unhas sujas foram cortadas pela faca e mãos habilidosas de Lysander. Ontem ganhara o quinto vestido limpo e novo, desta vez não era branco ou cinza, mas amarelo e laranja, como raios de sol. Ele dissera que, enquanto procurava por uma fruta que adorava, viu a peça e achou-a muito parecida com os cabelos de Ophelya, e como o dinheiro lhe sobrava e o vestido não era dos mais caros, trocou algumas moedas e as botas antigas da princesa. Ophelya não gostava da cor laranja, mas sentiu-se lisonjeada pela comparação graciosa.

Deixara de chorar alto, agora apenas resmungava e remoia as emoções esquecidas. Comia muito bem, Lysander era um ótimo cozinheiro, e o casebre dispunha de uma cozinha bem equipada, que ele mesmo arrumara. Era estranho vê-lo gastar todo o dinheiro que recebia com coisas tão pequenas. Ele parecia muito feliz, na verdade, em ter os seus ingredientes frescos, roupas bonitas e colchões de Dorne, cheios de almofadas e tapetes a forrá-los. Seus luxos eram pequenos e fáceis de sustentar, e isso a encantava, pois sempre entendera que era preciso muito para conseguir ser feliz, um casamento grandioso e com alguém muito rico, muitos herdeiros para assegurar a sucessão, estar sempre cordial e bela, ser educada, ser sorridente, ser gentil. Ser amável. Era preciso muito. E no entanto aquela vida simples de sequestrada e sequestrador se tornava cada vez mais habitual.

— Quando é seu aniversário? – Lysander perguntou, uma vez, enquanto descascava as maçãs. Ophelya não comia as cascas.

— Quatorze de julho. – respondeu, comendo os pedaços de maçã já descascados. Estavam sentados sobre o balcão da despensa, compartilhando a faca e os sacos de maçã. As correntes foram soltas durante o dia, quando ela dormia, e agora Lysander não se importava mais em mantê-la acordada enquanto ele mesmo dormia, o que parecia promissor e oportuno. Ophelya acreditava estar cada vez mais perto de sua liberdade.

— Quatorze?! – ele parou o ato – Mas quatorze de julho é amanhã!

— Amanhã? – a surpresa por sua vez veio em Ophelya, que arregalou os olhos – Já se passam seis meses? Confesso que havia perdido a noção do tempo.

Seis meses dentro daquela casa, vivendo sob os olhos de um mercenário, em terras desconhecidas, com medo e amargura dentro de si. Onde estava Rhomeo? Por que não a vinha resgatar? Onde estavam todos? Queria ir embora logo, voltar para sua vida. Sua vida no palácio.

Queria mesmo?

— O que você quer? – perguntou, de repente, Lysander, logo em seguida entregando-lhe a maçã descascada e mordendo outra ainda intacta. Ophelya pensou bem. Tinha de saber exatamente o que queria, pois seria especial. Após tanto sofrimento, algo que pudesse ajudá-la a se consolar... Algo que quisesse muito...

A porta soou, a madeira sendo socada por punhos enraivecidos. Os pelos do corpo de Ophelya se arrepiaram, e Lysander saltou rapidamente do balcão, com a faca em mãos e o dedo indicador sobre os lábios, pedindo-lhe silêncio. A menina obedeceu e encolheu-se atrás do balcão, sem ousar espiar o que se passava. Era possível ouvir Lysander caminhando até a sala e então até a porta, abrindo a mesma e conversando com quem quer que fosse. Pelo tom de voz, não pareciam pessoas amigáveis.

— Eu nunca vi nenhuma pessoa que essa descrição. Você diz que é princesa? – ele deu uma pausa, como se pensasse – Ninguém nesse lugar se parece com uma princesa, pra mim. Somos todos camponeses fedorentos, nem mesmo nosso lorde está nas terras, ele vive na Corte.

— Sabemos disto, camponês – o homem, que Ophelya supôs ser um dos guardas de Rhomeo, grunhiu com arrogância, dando a entender que um simples camponês não saberia mais que um soldado. Ophelya sentiu os músculos congelados, não, petrificados, deixando-a inerte feito morta, com a voz entalada na garganta. Guardas! Guardas de Rhomeo! Procuravam a princesa, procuravam por ela, finalmente, após tanto tempo! O impulso veio com a adrenalina, e jogou-se sobre o chão, contorcendo-se para sair detrás do móvel e alcançar a sala, seus cotovelos bateram com violência contra o chão, erguendo um som alto, e ela gritou de dor.

Depois disso, tudo o que se lembrava era dos sons dos gritos de agonia, a faca que rasgava pele, órgãos, o sangue que percorria o chão até a porta da despensa, uma mão visível na cozinha. E... Lysander surgiu, faca na mão, olhos de raiva.

Sabia que morreria ali, ele não a perdoaria por aquilo, não havia como perdoar, provavelmente já recebera dinheiro suficiente para mantê-la presa e agora não se importaria de fugir do mundo com sua fortuna, matando-a e acabando com todos os problemas que lhe havia. Não... Ophelya não queria morrer. Seus olhos finalmente se encheram de lágrimas verdadeiras, após tanto tempo chorando, notou que somente agora sabia o que era fazê-lo. Não soluçou. Abriu a boca e nenhum som saiu, apenas lágrimas que rolavam por seu rosto e a consciência de que era o fim.

Lysander caiu de joelhos ainda na cozinha, seu sangue jorrando e manchando toda a calça, seu rosto perdendo a cor e seus olhos, que antes pareciam cheios de ódio, estava vidrados e sem vida. Seu rosto caiu contra o chão com a força que um homem com domínio sobre si não permitiria que acontecesse, e isso tornou claro o que Ophelya não quis ver: ele estava ferido. Muito ferido.

Era sua chance, poderia sair e deixar os mortos com a sua desolação, ninguém saberia o que acontecera, poderia alcançar mais guardas de Rhomeo e ver-se finalmente livre daquele cativeiro! Suas energias, embora desgastadas e dolorosas, ainda estavam lá, pulsando em suas veias, dizendo-lhe para ir embora.

O moribundo soltou um gemido longo e profundo de dor, seu sangue misturando-se ao sangue dos três guardas que já jaziam pálidos, mas ainda quentes. Os corpos de homens mortos é algo realmente animalesco, tem um quê de terra e um quê de pó, é como se fosse o atestado da natureza nos dizendo que não dependem de nós. Ele estava agonizando em dor, tentando estancar o ferimento com as próprias mãos, em vão. Ophelya tomou aquela dor para si e pensou no homem que, mesmo após tanto suportar, tratava-a com gentileza e até mesmo respeito, em comparação ao que poderia esperar de tantos outros. Não era tola, sabia que nas mãos dos homens errados teria sofrido mil vezes mais e não teria as mesmas forças para se levantar e correr até a porta, sumir no mundo, até chegar aos portões do palácio dos Valois.

Mas não foi isso o que fez, pois justamente essa energia que lhe restava, fruto da boa convivência e bom cuidado de seu carrasco, pareciam a dívida que ela tinha de gratidão pelo coração nobre de um mercenário. Ophelya sentiu-se confusa.

Ajoelhou-se ao lado do corpo trêmulo de Lysander e abriu os trapos da roupa, onde a arma havia-lhe rasgado. Então com todo o cuidado que poderia ter, observou a ferida, profunda e debilitante. Não havia rompido artérias, mas músculos, a carne e boa parte das veias que ali haviam. A pele tornava-se cada vez mais avermelhada ao redor, e após algum tempo enquanto limpava todo o sangue com um pano molhado e água fria, a pele tomou um tom arroxeado. O ferimento era grande demais para que se fechasse sozinho sem maiores danos, um grande rasgo na parte externa de sua coxa esquerda.

Lembrou-se que deveria costurar aquilo, mas com que agulhas e linha? Lysander estava um pouco adormecido, os olhos fisgados no teto e a respiração serena. Parecia não sentir dor e apenas se movia para respirar, o peito subindo e descendo calmamente. Ophelya tolocou o rosto na frente de seu olhar.

— Você tem agulha e linha, Lysander?

Os olhos verdes do mercenário disseram que sim e ele indicou com o nariz uma das gavetas nos armários da cozinha. Ophelya abriu todas, até achar uma caixa pequena prateada, que tinha algumas agulhas de costura bem finas e precárias e linhas mais grossas que o normal, como que panos de saco de batatas. Não achou que aquilo seria o ideal para costurar um homem, mas o que mais teria? Lavou ambos os objetos e trabalhou até o começo da noite, utilizando todas as suas habilidades de dama da corte que costura almofadas. No mais tardar, estava ele todo costurado, duas vezes pela dúvida, com bandagens limpas envolvendo a coxa e bebendo bastante água. Ophelya então sentou-se ao seu lado, o mais perto que ambos tinham experimentado em toda a convivência, e passou a atender a todos os pedidos dele, sendo por um cobertor ao redor do corpo, até as necessidades de ir ao banheiro, trazendo-lhe o urinol e fechando os olhos enquanto lhe desatava os calções.

Lembrando-se disso, agora, sorria com sua ingenuidade e pureza.

— Obrigado, Ophelya – disse Lysander após lavar seus cabelos com sabão. Ele estava muito melhor, seus olhos já possuíam cor e sua voz era nítida e forte, como sempre. Parecia apenas cansado, precisando de um repouso. – Poderia me ajudar a deitar? Sinto os pontos me repuxando a carne.

E com isso, ela o ajudou, ignorando os protestos de dor dele e acomodando os cobertores ao redor de sua cabeça, como uma espécie de travesseiro. Quando finalmente Lysander fechou os olhos, levantou-se e tirou o vestido amarelo e laranja, agora todo manchado de vermelho púrpura. Deixou-o dentro de uma bacia com água e sabão, embora duvidasse de que isso salvaria o presente tão delicado do rapaz. Alimentou-se com algumas coisinhas que não se lembrava o que eram, e nem mesmo havia se importado com o que seriam, lavou-se também, os cabelos amarrados em trança molhada até metade das costas.

Nos próximos meses, Ophelya cuidou de Lysander, alimentando-o, lavando-o, mudando suas roupas e cuidando do ferimento, que parecia melhorar rapidamente. Ao final do terceiro mês, já se sentava e deitava sozinho, não reclamava das dores e até mesmo irritava-se com ela por coisas pequenas. Ophelya, uma mãe paciente, sentava-se ao seu lado e servia-o como queria, até que a teimosia infantil fosse embora e restasse apenas os sinceros agradecimentos. Aquilo lhe provava o valor do coração do mercenário, e mesmo o dinheiro que recebia dentro de um dos vasos embaixo da janela da casa ele não fazia questão de esconder-lhe. Permitiu um dia que ela saísse e comprasse comida. Não era como se estivesse realmente permitindo, pois Ophelya poderia ir embora quando quisesse, mas o fato de não impedi-la ou mesmo resmungar já mostrava a confiança que possuía em sua protetora.

Ophelya sentia-se bem em ser a protetora de alguém. Por toda a sua vida fora uma princesa na Corte de Valois, vestindo-se com a mais fina moda, adornando-se de luxos para assustar as demais damas, enfeitando-se para ser bela e bem aceita, ela sentia-se útil bordando, cantando e jogando com as damas de companhia, gostava de tocar para seu pai e para seu irmão, enquanto eles estavam trabalhando inesgotavelmente. Tudo isso a fazia útil. Mas útil de um jeito supérfluo e ridículo, que agora lhe dava vergonha. A vida daquele homem esteve em suas mãos e ela o sustentou com as forças que tinha. E agora ele estava vivo, bem e quase curado. Febres não o abalaram e a pele não infeccionou em nenhum ponto. Entendia que aquilo era muito mais do que sua mãe fizera a vida inteira como rainha e isso a enchia de prazer.

— Por que você não fugiu? – perguntou Lysander um dia, quando os galos estavam cantando nas ruas da cidade, que agora ela sabia ser Harrenhal. Ele a observava com o canto dos olhos, puxando um cacho escuro de seu cabelo com a ponta dos dedos. Era visível que fosse das Ilhas de Ferro, tinha os traços característicos e até mesmo o cheiro do mar, o que a assustava, pois ela nunca tinha visto o mar. – Por que cuidou de mim?

— Era o certo a se fazer. – respondeu com simplicidade, sem muito pensar e com a mente ocupada em descascar maçãs.

— Eu matei os guardas de seu irmão, você deveria me detestar.

— E o detesto. Mas não o quero morto. – lançou-lhe um olhar que significava: onde está querendo chegar com isto? Mas Lysander não se intimidou. Ele nunca se intimidava.

— Para mim não há lógica. Nem a mais benévola das senhoras faria algo tão... tão sem egoísmos.

— Você se engana – astutamente Ophelya girou nos tornozelos e apontou-lhe a faca, enquanto dizia – Eu pensei de forma lógica: uma menina fraca em um lugar que não conhece tentando salvar-se sem ser devorada pelos lobos. É um pouco difícil. Você é a minha melhor opção.

— Então você me manteve vivo.

— E o próximo passo é seduzi-lo com a desculpa do dever da gratidão e convencê-lo a me levar em segurança até meu irmão.

Lysander gargalhou, levantando-se apoiado ao balcão da despensa. Não havia mais sinais do conflito, nem do sangue, nem mesmo memória de que aquele lugar já recebera a agonia do moço, apenas a associação de ser o local onde se descascava as maçãs. Ele tomou a faca de suas mãos e a colocou sobre a bancada, observando a maçã vermelha em contraste com os dedos brancos e finos de Ophelya. Ela era bela, não tinha como negar, desde o primeiro momento em que a viu, até ali, tudo o que sabia com certeza a respeito daquela menina é que era linda. Todo o resto desvendava, e nunca parava de desvendar.

Tudo o que existia entre eles agora era aquela camaradagem de quem raptou e quem salvou. Ele ainda não conseguia compreender como ela podia ter um coração tão puro e nobre e ser uma princesa tão bonita e inteligente e tão... perfeita. Era sobrenatural o que algo assim existisse. Claro que ela havia chorado meses sem fim, esperneado, até mesmo arranhado todo o seu rosto, mas quem a culparia? Era uma garota sensível, assim como todas as damas devem ser, e tão forte ainda. Como?

— Você não me precisa me convencer – disse, envolvendo-lhe a cintura com naturalidade, embora nunca o tivesse feito antes, deixando-se encostar-se as costas de Ophelya, o queixo caindo em seu ombro, na curva do pescoço, dispersando beijos secos e rápidos. – Se é o que quer, eu a levarei.

Ophelya não respondeu, pois bebeu do cálice do prazer momentâneo e do romantismo da cena, sentindo-se de repente feliz e até mesmo satisfeita com o modo que Lysander a soltou sem grandes espetáculos ou constrangimentos, sentando-se sobre o balcão e novamente enlaçando-a pelas mãos, conduzindo até que estivesse entre suas pernas. Então beijou-lhe os nós dos dedos.

— Obrigado por me perdoar.

— Você se redimiu – ela sorriu, com todo o seu ar angelical e gracioso. Lysander sentia-se louco, louco por estar cortejando tão descaradamente uma princesa, louco por estar perto de uma princesa e passado o último ano ao lado dela. Louco por querer continuar assim. – Provou ser um diamante escondido pela poeira, guardado no fundo desse coração – e então ela o cutucou fortemente no peito, e ele riu.

— Nunca conseguiria me redimir de ter feito tanto mal a uma pessoa tão boa – ele murmurou, feito um cão que pede perdão a seu dono, encostando-lhe as orelhas na mão e buscando algum carinho que dissesse que estava perdoado.

— Eu não sou tão boa quanto pensa. – Ophelya notou que estava sendo sincera e confiante demais e que deveria recuar, mas não conseguia ter domínio da própria boca, dizendo aquilo que seu coração queria que ele soubesse. – Passei quase todo o tempo pensando em um meio de matá-lo e fugir. E depois pensei em deixá-lo morrer e fugir.

— E não o fez. – ele novamente roçou os dedos dela em seus lábios, porém Ophelya recolheu a mão, e Lysander pensou tê-la ofendido – Desculpe a ousadia. Estou cortejando uma moça que não é uma rameira, não é do meu feitio, não sei fazer a corte.

Ophelya ergueu as sobrancelhas e em seguida cobriu a boca, reprimindo uma risada, suas bochechas ficando vermelhas e os olhos brilhando, pequeninos. Lysander queria agarrá-la e mantê-la dentro do seu abraço apertado, enquanto murmurava “fofa, fofa, fofa” sobre sua cabeça.

— Aqueles que fazem a corte não costumam se exprimir com tanta sinceridade.

— Ah, mas o que posso fazer? – ele deu de ombros – Não sou dado a protocolos. Eu quero cortejá-la, e o faço, e quero que saiba disso, para que por sua vez saiba como corresponder, com escárnio ou com reciprocidade.

— Eu jamais humilharia um admirador. – ela garantiu, jurando sobre o peito de seu vestido puído. Ah, queria tanto poder dar-lhe todos os vestidos de baile que ela merecia, aqueles caros que apenas as lojas do Alto Burgo possuem. – Mas você continua sendo um descarado.

— Sou, sim. E esse sou eu. – disse, sem rodeios, beijando-lhe a boca com violência, quase urgência do corpo, embora estivesse bem calmo e até mesmo sereno. Lysander não sabia como desvendar os próprios sentimentos. Ele nunca sabia desvendar nada. Quando voltou a olhá-la, estava corada como uma dama, os olhos bem abertos e a boca exclamando um O.

— Que sem vergonha! – ela disse, por fim, cruzando os braços – Tenha a decência de me fazer a corte com o respeito e dignidade que mereço.

Lysander definhou.

— Eu não queria faltar-lhe com respeito ou ferir-lhe a dignidade... – sua voz sumia conforme abaixava a cabeça, verdadeiramente envergonhado.

Ophelya riu.

— Um grande bobo, é isto que é. Você faz o que lhe causa arrependimento e sua teimosia o impede de assumir a culpa, apenas aceitando o fardo de sua própria mágoa. – e ela, na ponta dos pés, depositou um beijo em sua bochecha. – Está perdoado.

Nas semanas que se seguiram, eles descobriam-se calmamente, ora com carícias, ora com conversas longas e sinceras. Não havia canto naquela sala que não fosse explorado. Ophelya sentia-se cada vez melhor na presença de Lysander, esquecendo de sua vida no palácio e de sua vontade já morta de rever o irmão e o trono. Ela aprendeu a fazer sopas e a cozinhar toda a sorte de coisas, Lysander traçava planos de fugirem juntos, de escaparem do lugar, despistarem os sequestradores da princesa, enganá-los, ir para as Ilhas de Ferro onde ele tinha família, que adoraria conhecê-la. Ophelya apenas concordava com ansiedade e esperanças, tentando visualizar a mãe de Lysander, como ele a descrevia, e sua irmã menor, a Ratinha. Eram imagens agradáveis, enquanto ela só tinha a lhe dizer tudo o que já sabia: seu pai fora rei, seu irmão era o príncipe, provavelmente já coroado, sua mãe morreu quando era um bebê e sua ama de leite se chamava Antonyete.

— Suspeito que tirei a sorte grande de ter encontrado o único membro da família com alguma profundidade na alma. – ele disse, enquanto estavam deitados um ao lado do outro, as mãos unidas entre seus corpos. – Você será muito mais feliz vivendo conosco – ele se referia a própria família – Somos mais humanos, mais felizes.

— Acho que sim – ela sorriu, fechando os olhos e adormecendo.

Lysander sentia-se pronto para um passo importante em sua vida. Após tanto tempo de convivência e sem uma tentativa sequer de romper sua inocência, enfim tomou coragem e teve certeza de que ela corresponderia, despertando-a com um beijo suave sobre as têmporas. O suor escorria-lhe o corpo, pois a madrugada estava quente e não conseguia dormir, perdendo horas apenas observando-a em seu sono de anjo. Ophelya não acordou, e por isso deixou-se beijar mais de seu rosto, o nariz, as sobrancelhas, ambas as bochechas e o queixo. Privou-se, no entanto, dos lábios, pois estes pertenciam somente a ela, e somente ela poderia lhes dar.

Beijou-a no pescoço, o que ocasiono um espasmo rápido que a despertou. Ophelya tentou se levantar, porém compreendeu o que havia e apenas sorriu, enfiando os dedos nas madeixas grossas de Lysander. Deixou-o beijar seus ombros, seus braços, até mesmo o colo dos seios, sempre a acariciar-lhe os cabelos, suspirando baixinho, para que não ouvisse. O suor de Lysander molhava-lhe a pele por onde ele passava, com os lábios úmidos e grossos. Ela mesma suava, o que não parecia algo romântico, mas nojento, e Ophelya sentiu vergonha disto. Mas Lysander ignorava qualquer gosto salgado em sua boca, na verdade excitava-o saber que ela também estava quente, ou no mínimo com calor.

Ophelya estava bem. Há semanas não pensava no sofrimento de Rhomeo, ou tinha pesadelos sobre sua casa. O sangue no chão da cozinha não a aterrorizava mais, era como se tudo fosse muito remoto, muito frívolo perto do que ela estava vivendo. Os dedos de um homem bastardo desciam por seus cabelos, até as costas, desatando os laços de seu vestido, com voracidade, enquanto ela mesma dava-se por beijar e morder o rosto de Lysander, que a retribuía como podia. Era doentio como se moviam, as roupas tornando-se cascas que despiam com facilidade, como se fossem sujas demais para seus corpos puros.

Lysander sentia-se indigno. Indigno mas egoísta. Maltratara aquela pobre criatura que hoje amava com tanto fervor, e mesmo assim não tinha coragem para mantê-la longe, nem mesmo disposição, era impossível outra vida que não fosse aquela, de carícias sobre sua pele branca e macia, úmida e salgada, os cabelos grudando à nuca e as orelhas, a saliva escorrendo pelo canto da boca, em beijos e rugidos, rosnando um para o outro feito cães em disputa pelo domínio. E por quê? Já havia dado o domínio de si mesmo para ela há meses, devorando-a com os olhos, sem dizer uma palavra enquanto ainda era muito fraco.

Afinal era homem, ele não queria perder o duelo.

As roupas estavam grudando-se ao corpo, no entanto foram arrancadas antes que tudo se tornasse irritável. Nada era irritável, na verdade, nem o calor horrendo das Terras Fluviais, nem o chão de madeira velha e estalando abaixo de seus corpos, ou o fato de que eram seres destinados a não estarem juntos. Uma princesa e um vagabundo, quem poderia acreditar naquilo? Nem mesmo os deuses aprovariam.

Mas quem se importava para os deuses.

Os conflitos dentro de Lysander davam espaço para os braços de Ophelya a envolvê-lo, sua boca a sugar-lhe toda a consciência em beijos fervidos em volúpia e ternura, intercalando-se em uma valsa de sensações. Não foi dito uma palavra, pois não era preciso. Tudo aconteceu com raiva, violência e paixão. Não eram medidos esforços, de nenhuma das partes, em tornar tudo romântico ou demorado. O que havia a se perder? Quem precisava de sensibilidade? O desejo os consumia e era impossível ter paciência, Lysander bem que tentava, sabendo que essas coisas são mais complicadas com moças virgens, mas quem dizia que Ophelya facilitava? Ela estava bêbada na própria vontade e esquecia-se do mundo, puxando-o sempre que se afastava e levando-o ao mesmo frenesi animalesco do desejo carnal.

Ophelya imaginara a “consumação” de seu casamento várias vezes com todas as informações que tinha: seria numa cama, com seu esposo a lhe tomar nos braços e beijar-lhe. Sabia que tinha algo envolvendo sua virilha, mas nada mais que isso. Se lhe dissessem como seria, entraria em desespero e faria seus votos para a Donzela, consagrando-se a pureza do corpo. Graças aos deuses nunca lhe contaram. Seu organismo cooperava todo indicando exatamente onde tudo ocorreria, sentia-se vibrando. Não! Pulsando em êxtase e ansiedade. Jamais imaginara que teria Lysander em seus braços, e não somente isto, jamais imaginara que ela seria guiada por todos os seus instintos, de joelhos, sobre ele, arrebatando-lhe as fibras do corpo e da alma.

Lysander embasbacava-se com a força de sua consciência a lhe dizer que ainda tinha domínio sobre si, pois gemia, e gemia alto, perdendo a noção da própria voz. Ora, ele próprio não sabia que era possível um homem interpretar o papel de uma mulher, ele nunca estivera por baixo para saber. E era tremendamente melhor.

Ao término, seus corpos pingavam, exaustos e doloridos. Dormiram sem notar, o resto da noite, até que o sol nascesse e os despertasse a ambos. Lysander sentia-se pronto para mais, mas não a obrigaria a nada, pois entendia que as mulheres eram diferentes. Ophelya o tomava em seus beijos, puxando-o para cima de si e para carícias mais ousadas que antes, agora que tinham a calma da descoberta e satisfação do desejo imediato, desenrolou-se com graciosidade. Sabia o quanto aquele anjo era belo, mas não o sabia até que a visse nua a luz do dia, os seios pequenos e rosados em suas mãos e as pernas esguias e sardentas ao seu redor.

Ophelya sentiu timidez pela luz, mas logo se acostumou com a nudez, mesmo a ligeira brisa matutina, minuano do verão, não lhe incomodava.

O tempo que se passou foi de amor ininterrupto. Mesmo se quisessem, não conseguiriam, pois a paixão que sentiam um pelo outro era grande demais para que a ausência do pão matasse a fome que apenas crescia. Às vezes era voraz e impiedoso, às vezes lento e exaustor. Às vezes revigorante, obrigando-os a continuar e continuar. Às vezes breve e gentil. No final, estavam sempre nos braços um do outro, e era isso que importava.

Seis meses em que tudo o que diziam era: vamos viver juntos, vamos nos casar, vamos ter uma família, vamos...!

º º º

— Vossa Alteza – a criada ajoelhou-se diante da cama de Ophelya, onde ela estava deitada, após chorar por muitos minutos. – Vosso irmão a convida para cear. Os convidados já chegaram de Ninho da Águia.

Ophelya ergueu os olhos para ela.

— Diga-lhe que já desço. – fez um gesto com a mão e a dispensou.

Notas finais
Espero que me perdoem pela demora de uma semana. Tenho motivos e se quiserem, posso lhes dar, mas como não vejo porquê, eu peço perdão com este capítulo de seis mil palavras. Talvez alguns leitores achem injusto por ser apenas de um personagem, mas temos de ser justos: é o personagem e uma Casa Grande nova merecia um destaque, certo? Aviso aos que estão loucos para saberem mais sobre Correrrio e os Bolton que o próximo capítulo será dos Stark. Beijos de Lady Savoy