Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
16 O Pio dos Esfolados
Notas iniciais
O Pio dos Esfolados
“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.” — Clarice Lispector
A carruagem seguia em direção ao Forte do Pavor. “Titio”, como aquele Bolton a fez chamá-lo, permanecia ao seu lado noite e dia, e não permitia que fosse urinar sozinha. Ele deslizava seus dedos pelo joelho de Anezka e lhe dizia coisas obscenas que gostaria de fazer com ela, mas que não faria por medo de que ela engravidasse e morresse, já que Lorde Bolton não queria que ela morresse. Por algum motivo além da compreensão tanto dela quanto dele.
Os homens que o seguiam eram todos imundos e sem a menor educação, e pouco a pouco Anezka conseguiu adquirir um pouco da amizade deles, demonstrando seu lado mais sarcástico e escondendo a senhorita que sua mãe havia criado dentro do castelo. Ela aprendeu os seus passatempos, assustando bichos na mata ou cantando ao redor da fogueira, até mesmo contara uma história a eles, algo que os fez rir por vários dias, antes de alcançarem o Forte. Quanto mais ao Norte avançavam, mais ela perdia a noção de tempo e mais familiar todos eles pareciam. Não a violentavam, nem a violavam, eles até a tratavam com certo respeito, lhe servindo a comida em um prato e deixando-a urinar entre arbustos, mesmo que sob seus olhos.
Mas não se passou muito tempo desde a recente intimidade adquirida no grupo, para que tudo fosse quebrado com a chegada ao Forte do Pavor.
As Águas Chorosas possuíam uma coloração atípica, tão escuras e cheias de algas que beber daquele leito parecia como beber de um cálice de veneno. Mas os animais e as mulheres se amontoavam nas margens, lavando roupa, banhando-se e bebericando. As águas atravessavam toda a costa leste e percorriam as ruas tortuosas da vila sob os pés do grande muro que era uma das paredes do castelo. Era estranho ver aquela fortaleza. Suas muralhas eram tão grossas que pareciam parte das torres de vigia, quase como se a casa dos soldados coubesse ali dentro, para todos eles, suas mulheres e seus rebentos. As gárgulas observavam-na avançando em direção aos portões, ladeados por homens tão porcos e sem educação quanto aqueles que a acompanhavam.
O rio tornava-se um córrego perto do castelo, adentrando-o por uma abertura com grades. As águas, diziam, eram quentes, e quando mais perto do centro do castelo, mais quentes se tornavam, deixando a tudo aquecido. Tratava-se de uma abertura vulcânica, que servia muito naquela parte, próxima a Muralha e tão distante dos rios de água naturalmente morna de Correrrio. Por questões de segurança, “Tio” Bolton havia deixando trinta de seus soldados para cuidar de sua nova propriedade, que ele se orgulhava muito de ter conquistado. “Os Tully se preocupam mais com a bunda do rei, do que com sua casa.”, ele dissera, e Anezka não pode deixar de rir.
— O fim do mundo é aqui. – sussurrou o homem ao seu ouvido, e Ane ergueu os olhos para ele, encontrando-o logo acima de sua cabeça. Era um truque que aprendera, fazia com que titio engolisse em seco antes de continuar. – Nada há além daqui que não seja pior ao Norte. É tradição desejar boa sorte aos nossos convidados, antes de fazê-los entrar em nossa casa. Mas... acho que você já está em casa. Bem vinda ao lar, Anezka Bolton. A partir de hoje você é minha noiva.
A menina arregalou os olhos, vendo o sorriso sádico surgindo no rosto do homem, ele segurou sua mão, guiando-a portões adentro, saudando seus soldados, enquanto estes observavam a pequena leoa com curiosidade e o mesmo sadismo que o Bolton demonstrara. Anezka sabia que logo se casaria, sua mãe queria fazer um acordo com os Stark, para um casamento com o filho mais velho de Lorde Stark. E agora de repente se encontrava prestes a casar com o filho mais velho de Lorde Bolton. Não deixava de ser um primogênito.
— É um lugar tão... silencioso.
Ela encarava a tudo, o poço vazio, a casa de armas onde os homens mais pareciam brincar com as armas do que usá-las, os estábulos, com pouco mais de cinco cavalos e alguns jumentos. Havia galinhas correndo pela terra e porcos revirando o lixo no limite das muralhas do Forte do Pavor. Os rostos que ela encontrava estavam sempre com expressões entediadas, o próprio ar parecia sufocante, massivo e quente. Por mais incrível que parecesse, tudo ali a deixava suando, de frio e de medo.
De repente um grito estridente, como um pássaro, ecoou por todas as paredes do forte, erguendo os corvos que se amontoavam em árvores retorcidas e afastando as galinhas de perto das masmorras, onde janelas com grades permitiam que o cheiro de sangue e os gritos soassem mais altos. Os homens se entreolharam e explodiram em gargalhadas, repentinamente, fazendo-a se encolher feito um gato, assustada com aquela reação. Titio Bolton (ou esposo Bolton?) a trouxe para mais perto de seu corpo, se abaixando levemente sobre ela para sorrir. Eles subiram as escadas que levavam a porta do Forte e quando entraram, tudo ao seu redor, que antes parecera maçante e cinzento tornou-se completamente vívido e cheio de energia. Toda a pedra fora pintada de vermelho vinho, o chão, as colunas, as paredes e escadas, todas as portas com uma madeira tão estranha que ela jurou ser do outro lado do mar, os batentes estavam incrustados de marcas, pareciam mãos, unhas, talvez garras.
Do lado de dentro também havia gárgulas, e elas eram a única variação de cor, pintadas de um preto tão escuro que era difícil diferenciar seus contornos de tão longe. Anezka continuou a acompanhar o homem que a guiava. Não haviam bandeiras dos Bolton, nem soldados na parte de dentro, todos que estavam do lado de fora entravam e se sentavam nos chãos, comiam esquilos torrados e lambuzavam-se com cerveja, sem a menor incriminação da parte de ninguém. Pareciam um bando de animais.
Ela passou por um portal, erguendo a cabeça para admirar a grossura das paredes. Isso justificava porque os Stark demoraram tanto a conseguir derrotar os Bolton, era impossível derrubar aquele lugar, nem mesmo um dragão havia conseguido antes, com o Targaryen Conquistador, nem mesmo o frio fizera aqueles homens irem embora. O que realmente havia acontecido para se renderem? Era impossível imaginar um Bolton se rendendo. Titio apontou para uma porta fechada, ela possuía várias fechaduras, todas sem suas chaves.
— Aquele é o quarto da morte. Nós a deixamos dormir aqui quando está de passagem.
— O que há lá dentro? – Ane perguntou sem hesitar, seus olhos brilhando de curiosidade. Já vira muito em Correrrio e na estrada para sentir medo. Ela assistira a homens esfolando comerciantes, saqueando mercadorias e estuprando garotas menores que ela própria. Viu-os arrancar os olhos de um cão, para depois soltá-lo nas ruas de um vilarejo pelo qual passavam. O que poderia aterrorizá-la?
— Vou te mostrar depois, agora preciso que venha comigo até onde meu pai está. Precisamos da benção dele para nosso casamento. Pretendo tomá-la como esposa ainda hoje.
Ela nada disse, pois sabia que era melhor recorrer ao silêncio em momentos como aquele. Muito havia aprendido em pouco tempo. Antes não se importava com as regras sociais, ela pouco falava com outras pessoas, a não ser sua septã, seus pais e as damas de companhia. Todos mortos agora. Eles passaram por mais um arco de pedra, antes de atingir uma antecâmara com um tapete longo, cobrindo toda a extensão entre a entrada e uma mesa grande, de no mínimo doze lugares em cada lado. Era ali que os Bolton serviam seu Banquete de Sangue, de acordo com as lendas. Eles continuaram, até uma porta lateral, quase escondida sob o batente de pedra, cheio de garras e dedos.
Quando a porta se abriu, revelou uma sala pequena e escura, úmida, cheia de sussurros do vento que batia contra as paredes de pedra e atravessava os buracos que o tempo provocava. Não havia tapetes ou janelas, ou mesas. Apenas dois candelabros de grandes hastes, ambos de madeira escura, com três velas cada, iluminando o topo da cabeça de um velho sem cabelos ou barba. Sua pele era manchada com cicatrizes feitas pelo fogo e seus olhos estavam fechados. Era provável que ele acabasse por adquirir uma gripe feia no lugar tão úmido e frio. Mas ele não parecia sentir nada.
— Este é meu pai, Anezka, Lorde Bolton. – ele se ajoelhou, e ela fez o mesmo. Mas o velho não lhes deu atenção, permanecendo com os olhos fechados.
Após algum tempo, os dois se levantaram e deram as costas à Lorde Bolton. Mas ela não pode deixar de sentir que havia alguma coisa naquilo tudo, alguma coisa parecida com tudo o que ela vira na estrada e em Correrrio. Virou-se novamente, desta vez encarando o homem assentado no trono de madeira. O vento assobiava forte e era possível ouvir o som de Águas Chorosas descendo a encosta, para desaguar no mar, bem longe dali. Ela deu alguns passos em direção ao velho e notou que ele não parecia ouvi-la, por mais que pisasse fortemente com os tamancos que calçava. Tio Bolton respirou fundo e cruzou os braços, às suas costas, esperando que aquilo terminasse logo, pois tinha coisas a fazer, coisas que estava esperando muito para fazer. Aquela menina era uma gracinha, além de ser destemida e ousada. Parecia tudo o que seu pai havia desejado que fosse. Lorde Bolton morrera há cinco meses, mas não sem antes expressar toda a sua vontade de possuir aquela garota dentro do Forte do Pavor. Ele não havia compreendido muito bem o que significava “possuir”, mas o velho morreu em seguida, sem lhe deixar explicações. Então, obviamente, ele seguiu os seus instintos.
Ela retornou para o seu lado, estava com uma feição séria, quase fúnebre. Não queria perguntar o que ela estava pensando, mas podia ouvir o seu cérebro se apinhando de coisas. Talvez coisas inteligentes.
— Sinto muito por seu pai – ela disse, por fim, revelando-se tão Bolton quanto poderia ser, não tendo nascido na família. O fato de não ter perguntado porque o Lorde estava morto, e mesmo assim permanecia em sua sala do trono, ou porque ele não estava apodrecendo deram a ele um motivo a mais para confiar naquela menina. Quatorze anos. Logo faria quinze, ela tinha idade para se casar. E quando o fizesse, passaria a ele a posse de terras. Correrrio já lhe era sua por conquista, mas não pretendia passar muito mais tempo no Norte. Conhecia todos os desejos dos Greyjoy e dos Skagosi para querer se mandar dali, e as Terras Fluviais pareciam um ótimo lugar para morar, era próximas do Norte o suficiente, mas ainda possuíam um bom verão. Anezka possuía um pequeno pedaço de terra de seu pai, filho do antigo Lorde Lannister. Seriam vassalos dos Valois por pouco tempo, até que ele tornasse aquele pedaço de terra independente também.
Era tão bom ter os Tully cuidando de suas coisas com o rei... eles ganhariam novas terras, com certeza, provavelmente mais perto de Porto Real, onde suas línguas alcançariam as bundas reais, para limpá-las melhor.
E, claro, os Stark estariam todos mortos até lá.
Ainda segurava fortemente o braço da menina Lannister, ela possuía uma força de touro, por assim, dizer, além de ser alta e possuir uma boa constituição. Seus cabelos não eram dourados, nem ruivos. Indo contra todas as tradições de suas duas famílias, ela possuía madeixas escuras e olhos cinzentos, como os primeiros homens do Norte. O que parecia muito peculiar. Seus lábios eram carnudos e inegavelmente macios, queria mordê-los o mais rápido possível. Seria melhor tê-la por bem, do que por mal. Lembrava-se da última vez em que metera em alguém enquanto ela gritava. Não era muito estimulante. Ele se achava um mau Bolton por isso. Talvez esse fosse seu grande defeito, em meio a toda a sua cruel perfeição: ele não conseguia sentir prazer na agonia de uma mulher. Ainda mais sendo ela tão bonita.
— Você é o Lorde Bolton agora. – ela disse, de repente, enquanto subiam as escadas da torre. Aquela torre era chamada de Morada do Demônio, pois guardava o quarto do Lorde Bolton, onde havia uma cama grande para eles. Sentia-se um pouco excitado com a expectativa. Era estranho gostar tanto de uma menina que ainda não possuía o corpo de uma mulher. – Isso me fará Lady Bolton?
Ele abriu um sorriso de lado.
— Fará, sim. – concordou.
Anezka sentiu-se melhor. embora estivesse prestes a se casar com um homem cruel com um sobrenome terrível, ainda era um Lorde, com muitos homens a seu favor. E ele havia conquistado um castelo ao Sul. Que mal havia nisso tudo? Ela já não possuía honra, nem família, nem casa. Era melhor ver o lado bom em tudo aquilo. Estando Lorde Bolton morto, agora seu filho era o único que detinha o poder da Casa e casar-se com ele também lhe dava certo poder. O mesmo poder que qualquer mulher casada poderia ter. Não muito, mas o suficiente. Ela aprendera isso com a septã.
Ele abriu a porta no final da torre, revelando um quarto pouco decorado, mas com grandes janelas sem vidro, por onde o vento entrava facilmente. Havia dutos grandes de metal que subiam pelas paredes, até o teto de madeira, era o aquecimento oferecido pelas águas do rio.
— Você deve me chamar de Vikta agora que é minha esposa.
— Mas onde está o septão ou o bispo, ou... – ela notou que não haveria uma cerimônia para oficializar tudo. E após um momento de silêncio, notou que tudo aquilo era apenas uma perda de tempo. Por que um bando de homens em túnicas precisavam vê-la vestindo as cores dos Bolton para que todos a chamassem de Lady Bolton? Patético.
Vikta a olhava com fome, parecia um pouco desesperado. Lembrava-se de tê-lo visto estuprando algumas das mulheres capturadas na estrada, mas ele sempre se livrava delas rapidamente, quase com irritação. Parecia um pouco difícil de agradá-lo. Anezka não saberia o que fazer em sua primeira noite com o esposo após o casamento, mas graças ao ataque a Correrrio, agora ela entendia o que tinha de acontecer. Apenas imaginava que teria de aguentar a dor em silêncio desta vez.
Ele avançou, abaixando-se até estar a altura de sua cabeça, emendando seus lábios aos dela, suas mãos estavam segurando as bochechas de Anezka e ele inteiro parecia bem mais calmo do que na noite em que arrebentara a porta de seu quarto e a jogara no chão, primeiro matando sua criada, depois sua dama de companhia e em seguida erguendo seu vestido para enfiar-lhe aquele troço horrendo por entre as pernas. Lembrava-se de estar de costas e dele lhe apalpando em lugares que ela jamais imaginara possuir. Após alguns banhos em riachos próximos da estrada, ela notada que havia muito mais em si mesma que nunca havia explorado antes, por ignorância. Era um novo mundo. De noite, às vezes, tocava-se para saber o que acontecia, e não sentia dor. Mas talvez fosse o fato de não ser ela um homem e não ser ela uma Bolton para conseguir causar dor.
Logo seria. E aprenderia a causar dor a todos.
Ele mordiscou seu lábio inferior, enfiando a língua por entre seus dentes. Era estranho, mas Ane estava se acostumando a coisas estranhas, imitou-o, sentindo saliva entrando e saindo de sua boca, lambuzando o canto de seus lábios, até escorrer pelo queixo. Ele parou, não parecia muito irritado, ou muito divertido. Tinha os olhos sérios e a face indecifrável. Beijou-a novamente, limpando seu rosto com os dedos, enquanto a outra mão apalpava-lhe o corpo. Seu antigo vestido fora substituído por um de pano puído, o que permitia que as curvas fossem mais evidenciadas. Ela permitiu. Como se tivesse escolha.
Sentiu aquela nova parte de seu corpo um pouco “viva”, como é que poderia chamar? Mas não sabia ainda se haveria dor ou não. Talvez fosse preciso virar-se, de costas, como antes havia sido.
Mas Vikta a impediu de fazê-lo, colocando-a sobre a cama com as costas das almofadas. Ele fez sim, fez tudo o que queria, e não doeu. Desta vez parecia diferente, não era como uma agonia interminável sobre o chão de pedra de seu quarto. Ao término, não queria morrer. Estava suada e exausta.
Anezka olhou para seu esposo ao seu lado na cama, roncando baixinho, nu. Ela também estava nua, pois ele havia tirado seu vestido. Levantou-se e vasculhou o quarto, até encontrar um baú com roupas da antiga Lady Bolton. Vestiu-se com um tecido grosso esverdeado, com arminho castanho em seu corpete e nas mangas, que poderiam se unir em frente ao vestido, como luvas grandes e quentinhas. Havia também um capuz com arminho, mas ela não pretendia sair do Forte. Apenas perambular. Afinal aquela era sua casa agora.
Deixou o quarto de Vikta e desceu as escadas da torre, chegando ao corredor oeste e então atravessando os arcos de pedra. Por sorte, sua memória era boa. O Forte era grande, mas sua construção era toda baseada em resistência, fazendo das paredes grossas demais para que houvesse muito espaço útil do lado de dentro. Ela passou pela antecâmara de antes, com a mesa de banquete, agora com homens assentados em suas cadeiras, bebendo e comendo, servindo-se sozinhos, sem criados ou copeiras. Eles a viram, vestida com as roupas da Lady Bolton, e lhe acenaram sorridentes, convidando-a para beber. Mas ela recusou.
Era estranho como eles pareciam tão a vontade em deixá-la continuar a andar, até chegar a parte mais distante, no primeiro corredor de arcos do Forte, onde havia a porta dos cadeados. Olhou para ela por bastante tempo, temendo que tudo fosse em vão. Estava realmente curiosa com aquele quarto. Não sabia exatamente “que tipo de cobertor a Morte gostava de usar”. Sorriu, sentindo-se mais a vontade com o sarcasmo e a coragem do que jamais estivera. Talvez fosse feita para aquilo. Encostou a mão sobre a madeira vermelha. Parecia uma porta normal, até que ela rangeu, abrindo-se por dentro. Os olhos de Anezka se arregalaram e ela deu alguns passos para trás.
Respirou fundo. Anezka Bolton. Não Anezka Lannister. Não era mais uma leoa assustada e mimada, ela era uma esfoladora de homens agora. Abriu um sorriso pequeno. Era tão emocionante ser aquela pessoa que sempre projetara como “selvagem e incrível”. Deu um empurrão na porta com a ponta dos dedos. Tudo estava escuro na parte de dentro da sala, mas ela logo sentiu o cheiro forte de álcool. Talvez não álcool, mas algo igualmente forte. Parecia inebriar todo o ambiente. Estava prestes a dar meia volta e buscar um candelabro, quando a luz surgiu por trás de suas costas. Era um dos homens de Vikta, ele sorria, segurando uma lanterna.
— Você precisa de uma luz, gracinha?
— Sim – ela assentiu. – Quero ver o que há aqui.
— Como quiser.
Ele caminhou para dentro da sala sem medo, girando o pino da lanterna, deixando o óleo sair com mais força, queimando mais ainda o fogo e iluminando melhor todo o lugar. Não havia janelas, como ela havia suspeitado. E não era um lugar muito grande. Tudo o que havia era uma grande mesa, que contornava a sala, como uma mesa de torneio, onde o anfitrião se sentava com sua família e a família do vitorioso. Nas laterais, as cadeiras estavam vazias, porém no centro os quatro lugares eram ocupados por homens. Todos eles tinham seus corpos imóveis e os olhos fechados, como Lorde Bolton em sua sala do trono. Mas, ao contrário de Lorde Bolton, eles possuíam marcas de costura por sua pele, assim como estavam mais inchados do que o normal e meio azulados, talvez pelo tempo dos cadáveres.
— Como eles...
—... não apodrecem? – completou o soldado, rindo – Foi um truque que algum Lorde Bolton descobriu há muito tempo. Ele sabia como manter os mortos intactos contra o tempo e usou isso nos seus troféus.
— Troféus? – ela ergueu as sobrancelhas.
— Sim. Jon Stark – ele apontou o primeiro da fileira. – Bryen Stark. Rodrik Stark e Brandon Stark.
— Todos os lordes que os Bolton já derrotaram?
— Em parte. Brandon Stark já era um esqueleto quando descobrimos a técnica dos cadáveres. Precisamos utilizar a pele de um outro Stark. Talvez seu filho bastardo... não lembro.
Ela olhou tudo admirada. Algum dia ainda penduraria seus troféus em uma sala de seu castelo?
— Não vá ter pesadelos, está bem? – ele falou, rindo, enquanto saia da sala.
Anezka o acompanhou e eles fecharam a porta “trancada por vários cadeados”. Talvez fosse propositalmente deixada ali, para que os curiosos se horrorizassem com o que vissem lá dentro. Pesadelos? Há muitos dias ela não possuía mais pesadelos. Seu sono era uma série de cochilos, intercortados pela vontade incessante de urinar e o simples pio das corujas. Ela acordava e voltava a dormir. Tão pacificamente quanto seria possível.
Outro grito estridente ecoou dos calabouços do Forte do Pavor. Em seguida ouviu os homens do lado de fora do castelo e do lado de dentro gritando uma salva de vivas, enquanto riam. Ane abriu um sorriso, saltitando pelo corredor de arcos. Não era tão ruim assim a sua nova casa.

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