Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
17 Flores Sobre a Areia
Notas iniciais
Flores Sobre a Areia
—
SYERRA
“A fraqueza da mulher é a sua magnanimidade. É fraca, porque é boa” – Francisco L. Gomes
Ela sorriu, enquanto as aias passavam com os vestidos que ganhava dos membros da corte. Os ministros e comerciantes bem-vindos no castelo queriam agradar à futura rainha da Marca e com isso traziam joias, sapatos de vidro e tiaras de ouro com esmeraldas. Toda a majestade da Corte, com suas cores douradas e a riqueza dos vasos e quadros pareciam também explodir nas pessoas ali. Os homens possuíam chapéus coloridos e perfumes doces, as mulheres eram risonhas e gentis, de modo que Syerra imaginou não existir lugar no mundo onde uma pessoa pudesse ser completamente feliz. Estava empolgada com toda a agitação ao seu redor, tanto que nem mesmo notou a aproximação de Elric.
Seu irmão parou ao lado da poltrona em que ela estava assentada e observou também os presentes que ganhava. Bajuladores, em todas as Cortes eles existiam. E comprar alguém como Syerra era fácil, até mesmo barato. Bastava sorrir e acenar, e ela se desmanchava em amizade. Algo muito perigoso para uma rainha. Elric não queria que ela estivesse sozinha para sempre, pensava em se oferecer como cavaleiro do Rei, para protegê-la de perto, mas sabia que Lucien não concordaria com aquilo. Claro, o irmão mais velho nunca concordaria com nada que Elric quisesse fazer.
— Veja, como é bonito! – a menina exclamou, apontando um dos véus que ganhara. Assim como em Dorne, os valoris adoravam se adornar com cetim e musselina. As aias sorriram, felizes por agradarem a sua “princesa”.
Elric achava tudo aquilo digno de Syerra. E também tudo muito exagerado. Não era possível alguém ser rico o bastante para pagar todas as despesas da vida de alguém sem sentir peso depois por isto. E, no entanto, o rei agia com pompa e energia, jogando fora suas moedas de ouro.
— Gostaria de caminhar no jardim contigo, minha irmã. – ele murmurou, ainda ao lado da poltrona. Syerra ergueu a cabeça e concordou, abandonando seu lugar.
— Por favor, guardem tudo em meu baú. – ela então olhou todos os pacotes e embrulhos não chão, fitas douradas e papel d’água espalhados por todos os móveis. – Acho que precisaremos de outro baú...
— Não se preocupe, milady, o rei lhe dará quantos baús quiser – uma das aias retrucou, sorrindo de maneira dócil, feito um cão bem afagado. Assim deveriam ser as pessoas daquele reino. Todas felizes com suas barrigas cheias. De alguma forma, aquilo parecia errado. Como se a abundância também as deixasse... letárgicas.
Elric se colocou entre a irmã e a aia.
— Não será preciso. Há espaço em meu baú, você pode usá-lo. – então, cavalheiro, ele lhe ofereceu o braço e ambos saíram do quarto caminhando calmamente.
Seu irmão estava vestido com um dos gibãos que ele trouxera do Ninho da Águia para o torneio nas Terras da Tempestade. A viagem tivera suas reviravoltas e eles perderam o evento, mas ganharam uma estadia luxuosa na Corte de um Rei! E ela achava aquilo muito melhor que um torneio, pois qualquer rei pode dar um torneio, se quiser. Rhomeo parecia o tipo de pessoa que faria isso apenas para divertir a todos, ele convidava menestréis e bardos, cantores e poetas, gostava do teatro e das novelas. Todos os dias alguém novo chegava a Corte e era recebido com pompa na Sala do Trono. Todos os quartos eram forrados de veludo e seus móveis possuíam a madeira mais brilhante que Syerra já vira.
Era um lugar mágico, com certeza! E ela queria morar lá para sempre.
Syerra não gostava daquele gibão.
— Queria caminhar comigo, irmão, por algum motivo especial?
— Nenhum. Não posso mais levá-la aos jardins apenas pelo prazer de tua companhia? – ele questionou com os olhos suplicantes, do modo que sempre a convencia a sorrir e assentir.
— Claro.
Elric sabia que momentos como aquele se tornariam raros e queria prolongar a vida de donzela de Syerra ao máximo, antes que ela pertencesse a um rei glutão e tolo, que gastava demais. E se as vontades dele fossem excessivas também na cama? O que seria de sua irmãzinha? Temia por ela e por seu futuro. Gostaria realmente de ser um cavaleiro do reino. Que outra utilidade havia para sua vida? Ele já realizara a vontade da mãe, trazendo Lucien de volta ao Vale e tornando-o Lorde Soberano do Ninho da Águia. Syerra se casaria com um rei. Ele não possuiria mais qualquer papel a desempenhar quando Lucien se casasse e tivesse os próprios herdeiros. Seria apenas um membro da família. Mas se conseguisse se juntar à Guarda Real, como Cavaleiro da Flor, assim como um dos primos do rei era Cavaleiro da Flor pela Princesa Ophelya, talvez ele pudesse obter o mesmo título por Syerra.
— Ophey me contou sobre suas cartas. Ela o adora. Por que não conversam? – a irmã perguntou de repente, enquanto desciam as escadas em direção a copa e então ao salão de entrada. Ela era muito inteligente, sua doce e gentil irmãzinha. De boba não tinha nada, vislumbrava a tudo antes mesmo de acontecer e sabia dos mais profundos segredos seus apenas de um olhar. Quando disse isso, o encarava com olhos de curiosa e sabida.
— Nós nos correspondemos. Quando Lucien me mandou falar com o rei, tomei a liberdade de falar com sua irmã e mandar minhas felicitações pelo resgate, após ter sido raptada por seis meses.
— Ophelya me disse que foram mais de dois anos. Mas ninguém disse nada, por isso pensamos que foram apenas seis meses. – Syerra contou, em tom de segredo, mas Elric também havia escutado os rumores dentro do castelo. Por mais que fosse um lugar alegre e rico, uma Corte Real não era uma corte se não possuísse sussurros.
— E o que mais ela te contou? – ele perguntou com receio da resposta, mas a menina apenas sorriu.
— Nada.
Então ela sabia de tudo. Provavelmente sabia da forma muito (muito) cavalheiresca com que Elric tratava a princesa, e sabia das palavras de amor e devoção que ambos haviam trocado, embora fossem apenas cartas e provavelmente não passassem de comentários absortos de momentos sensíveis. Ele mesmo sentia-se muito bem quando escrevia para a princesa, como se Lucien simplesmente desaparecesse de sua vida por alguns minutos.
Os jardins do castelo em Jardim de Baixo eram impressionantes, se a própria ilha já não o fosse. O castelo tinha vista para o mar e a areia era branca, muito branca, com conchas e estrelas no mar em sua arrebentação, nas pedras do caís. Por lá eles já haviam caminhado durante os primeiros dias de estadia. Lucien dizia que o castelo era vulnerável, fácil de ser tomado em algum ataque por mar, mas não parecia que alguém se atreveria a tomar uma ilha, quando os donos da ilha eram também donos de metade do continente. O fato da sede da Casa Valois não estar em sua grande Marca ou sobre a Campina, como forma de demonstrar superioridade a Jardim de Cima lhe intrigavam. Poderia o primeiro Rei Valois ter se apaixonado pela espuma das ondas e o cheiro dos navios pesqueiros que jogavam as nadadeiras dos pescados na maré?
Além da praia, os muros do castelo eram todos de pedra branca, grossos e baixos, com videiras e roseiras se enroscando em suas bases e subindo, florescendo em todos os metros que percorriam. A relva era muito verde e o chão de terra parecia muito escuro. O vulcão que se erguia a milhas dali ainda parecia um gigante, mesmo tão distante, e Elric o temia todas as noites. Como alguém em sã consciência dormiria bem com uma máquina da destruição da natureza pronta a ser ativada? Diziam que o vulcão estava adormecido há milênios. E por isso mesmo ele achava ser capaz que acordasse a qualquer momento. “Um longo período de calmaria antes do cataclismo”, ele se lembrava do que ouvira de um septão, anos atrás.
— Os guardas usam elmos sem viseira e ombreiras leves, para que não se sintam sufocados – ela explicava enquanto caminhavam, contando tudo sobre o castelo e seu funcionamento, ela havia escutado tudo isto da princesa Ophelya, enquanto costuravam, e captara cada palavra para aprender mais de seu futuro lar. Tudo para ser a Rainha daquele lugar. -...Você parece não gostar daqui.
— Eu? – Elric franziu as sobrancelhas – Imagine, este lugar é belíssimo. O mar, as flores e o castelo, são mesmo impressionantes.
— Mas não significa que gosta – ela olhou-o com o canto dos olhos, da maneira brincalhona que costumava fazer.
— Apenas não gosto de pensar que irei abandonar minha irmãzinha menor aqui, enquanto meu irmão cruel me aprisiona em casa. – ele murmurou, da mesma forma.
— Vocês não estão me abandonando, e sempre podem me visitar. – ela sorriu. – Eu não vou trocá-lo nunca por ninguém!
Syerra sabia que seu irmão deveria estar se sentindo muito solitário, agora que a mãe havia deixado-o e Lucien parecia não aceitar afetos ou gentilezas sem achar que Elric estava com segundas intenções. Mas o que ela poderia fazer? Em algum momento se casaria, e que lugar melhor para viver que aquele? Tinha dúvidas se escolheria entre o Ninho e suas masmorras flutuantes ou o palácio flutuante, com a maresia e todo o dourado.
— Posso interromper os irmãos? – ele falou repentinamente, assustando a ambos e fazendo-os girar nos tornozelos rapidamente. Rhomeo sorriu, esticando o braço para a menina, que o segurou educadamente, deixando o braço de Elric. – Os jardins são um lugar maravilhoso, mas preciso te mostrar nossas fontes naturais, as águas são tão quentes que é preciso tomar cuidado durante o verão.
— Te encontrarei na ceia, Elric – ela acenou, antes de deixar-se ser conduzida pelo rei. O rei era apenas um jovem, Rhomeo tinha alguns anos a mais e perdera seus pais em uma guerra civil entre as forças de um tio que se dizia rei por direito (questões de lei e legitimidade do nascimento, o tio era um bastardo que foi legitimado anos após, quando se tornou cavaleiro do reino. Desta forma ele achou ser digno de também exigir o trono de direito, mas era claro que o rei em questão não abriria mão por causa de uma “nota nas leis”).
Syerra gostava do cheiro fresco que Rhomeo exalava, eles normalmente se encontravam no castelo, em algum momento, durante o chá ou quando ela estava bordando com Ophelya, ele sempre a encontrava e passava alguns minutos em sua companhia, isso a deixava muito feliz até o final do dia. Syerra conversava com o rei sobre tudo, eles não haviam ainda oficializado o noivado entre si, pois Rhomeo esperava dar um grande baile em comemoração a isso, o que significava aguardar o retorno de nobres importantes de seu reino, que chegariam dentro de uma semana. Até lá, eles já teriam se conhecido bem.
O rei era uma pessoa boa, gentil, educado, honesto e muito generoso, lhe dera todos os presentes que uma moça de sua idade poderia imaginar, ele até mesmo havia sugerido que fizessem uma pintura sua para presentear a seus irmãos, para que eles não sentissem sua falta. Embora Syerra imaginasse ser bem difícil que isso não acontecesse por causa de uma pintura, afinal ela era muito importante para seus irmãos.
— O que tem achado de Jardim Suspenso? Espero que o calor não a esteja sufocando. – ele riu de leve, como sempre fazia. Syerra achava muito bonito como os cabelos dourados do rei brilhavam sob o Sol da tarde, e como seus olhos azuis pareciam tão cheios de gentileza e brandura. Julgou que ele não seria capaz de condenar um homem a morte e de oferecer lar a um órfão qualquer.
— Sempre senti falta do calor no Ninho. As montanhas são muito secas e as pessoas muito taciturnas. Gosto daqui. O Sol deixa a todos mais sorridentes. – ela sorriu, de modo que Rhomeo compreendeu o que queria dizer. Ele também se sentia muito melhor sob os raios do Sol.
Seu lugar preferido no mundo, entretanto, estava na Marca, onde o seu “castelo preferido” ficava. Fora poucas vezes até ele, e ainda menos vezes até o seu lugar preferido. A Marca escondia coisas que Rhomeo queria desvendar, e nem mesmo seu título de rei arrefeceu o desejo de menino que havia crescido em sua imaginação. Notou que seus pensamentos o estavam transportando para outro tempo e espaço, então piscou várias vezes e voltou a ouvir a melodiosa voz de Syerra, falando sobre todos os presentes que havia recebido dos nobres da Corte.
Syerra notou que ele não a ouvia e calou-se.
Por muito tempo eles continuaram a caminhar pelo jardim, até contornar todo o castelo e alcançar um espaço privado, com guardas às portas. Eles as abriram e deixaram-na passar com o rei, para uma praça com um chafariz que espirrava água por todos os lados. Ela riu daquilo, pois a estátua do chafariz era um menino anjo bebendo de um vaso de mármore, e a água que escorria por sua boca também era de mármore. Mesmo que a sua volta houvesse muita água para matar a sede. Vê-lo deixou-a sedenta, e Syerra se ajoelhou, com as mãos em concha, bebendo serenamente. O rei olhava para outra direção.
— Este é o lugar aonde apenas a família real pode aparecer. Venha aqui quando precisar de sossego, sei como a vida na corte pode ser bem... extenuante. Não se sinta privada, os guardas já receberam as ordens.
Ela assentiu, embora não entendesse o que ele queria dizer. A vida na corte parecia simplesmente incrível.

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